Introdução
Existe uma frase num casaco fabricado em Londres que diz:
“Nós temos estado neste serviço por 103 anos. Temos sobrevivido a depressões, guerras, recessões e tempos de prosperidade. Já fomos assaltados, saqueados, quebrado por vandalismo, queimado e muitas vezes nos sentimos frustrados. Já vivemos em tempo de prosperidade e de falta, nós já entramos em concordata, e também tivemos excelentes lucros. Nós permanecemos abertos porque não queremos perder o que vai acontecer aí pela frente”.
Ao ler esta frase reagi da seguinte forma: “Senhor, surpreenda-me novamente”.
Contexto
Este texto relata uma cura de Jesus, feita de forma parcial, incompleta. Diferente de tudo quanto Jesus usualmente fazia. Jesus faz uma cura em duas etapas. Isto é surpreendente. Naturalmente Jesus não segue um script nos milagres que efetua, ele é livre e soberano para fazer o que ele quer e como quer, mas achei interessante a forma como este milagre foi efetuado.
O que este texto nos quer ensinar?
Parábolas e milagres são pedagógicos e didáticos. Deus usa para nos comunicar verdades profundas e eternas. São sinais. Este texto aponta para uma singularidade da obra de Cristo e como pode se dar nosso encontro com Deus. Revela a dura realidade de pessoas que já foram tocadas por Deus, mas cujo toque parece não ter sido completo. Ele se revela ainda imperfeito. Precisa avançar mais. Este texto nos diz que o primeiro toque de Deus em nossa vida pode não ser suficiente e que Ele precisa continuar sua obra em nós. É necessário mais. A cura de nossas angústias e enfermidades pode não ser efetuada em um contacto único com Deus. É necessário mais.
Quando Jesus toca este cego ele passa a ver. O texto diz: “Jesus, tomando o cego pela mão, levou-o para fora da aldeia e, aplicando-lhe saliva aos olhos e impondo-lhe as mãos, perguntou-lhe: Vês alguma coisa? Este, recobrando a vista, respondeu: Vejo os homens, porque como árvores os vejo andando.” (Mc 8.23-24)
O texto afirma que ele “recobrou a vista”. Não é mais cego. Mas de forma estranha afirma. “Vejo os homens, porque como árvores os vejo andando.” Não podemos dizer que ele é cego, porque não é, nem podemos dizer que tem uma vista plenamente recuperada, porque ele diz: “como árvores os vejo andando.” Será que homens andam como árvores? Alguém já viu homens andando assim? Ele vê, mas de forma imperfeita, com limitações, tem percepções parciais, faz julgamentos errados, porque nem árvores andam, nem homens se parecem com árvores quando andam. Percebemos nitidamente que sua visão é ainda obnubilada e confusa.
Este milagre parece ensinar como muitos homens podem ter sinais de luz, frestas de visão, e ainda assim, viverem de forma incompleta, imperfeita. Enxergam, mas ainda o fazem de forma limitada e confuso. Jesus novamente precisa intervir, porque este homem carece de novos processos, para corrigir as distorções presentes no seu nervo ótico. Como Jesus lida com este homem?
Em primeiro lugar, Jesus faz uma pergunta. “Vês alguma coisa?” (Mc 8.23). A pergunta é direta e carece de uma resposta sincera, sem subterfúgio, sem ocultamento. Ele responde sinceramente: “Vejo os homens, porque como árvores os vejo andando.” (Mc 8.24) Ele descreve sua percepção, ainda que confusa e nebulosa, e talvez ele não tivesse convicção de que sua visão era desfocada, afinal “terra de cego quem tem olho é rei”. Qualquer visão para alguém que era cego e vivia na escuridão, torna-se um alento e esperança. Ele afirma que já possuía alguma percepção, já via a luz, tinha saído da escuridão total, possuía algum nível de clareza, mas sua resposta honesta revela que algo está confuso, pois ele ainda possui uma visão distorcida, sem clareza.
Esta é uma boa analogia do encontro de muitos com Deus. Muitas vezes a cura acontece e a percepção nítida se torna clara imediatamente , mas em muitos casos, vemos pessoas, que mesmo após terem um encontro com Deus, estão ainda enxergando pela metade, perdidas e confusas, com percepções equivocadas. Sua ética ainda parece ser a ética do pecado em alguns níveis, seus valores ainda estão contaminados pela carne e pela cultura que a rodeia e ainda parecem ter a orientação do mundo para a tomada de decisões porque os princípios do reino de Deus ainda não estão claros.
Em segundo lugar, percebemos que há uma necessidade de que Jesus, novamente toque, para que sua visão seja plena. “Então, novamente lhe pôs as mãos nos olhos, e ele, passando a ver claramente, ficou restabelecido; e tudo distinguia.” (Mc 8.25)
Jesus precisa tocar novamente. Infelizmente muitos param no primeiro toque.
Temos que buscar uma “segunda benção” e outras bênçãos. Novas e subsequentes experiências que nos façam enxergar, ver claramente, distinguir tudo com clareza. Sem confusão, sem miopia. Há muitos vendo como se tivessem catarata e precisam de nova lente que somente pode ser dada através do Espírito, como afirma Paulo: “Assim que, nós, daqui por diante, a ninguém conhecemos segundo a carne; e, se antes conhecemos Cristo segundo a carne, já agora não o conhecemos deste modo. E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram.” (2 Co 5.16,17) O Novo nascimento nos faz conhecer a Cristo de outra forma, julgar a realidade a partir dos ensinamentos de Cristo, adotar uma ética baseada naquilo que as Escrituras nos ensinam. Nova criatura, nova natureza, nova percepção.
O Espírito Santo nos renova, por isto, o primeiro toque é essencial, mas precisamos continuar sendo tocados por Jesus. É o processo de santificação. O primeiro toque é para regeneração, conversão, mas os toques subsequentes de Deus em nós, ampliam nossa visão e nos faz ver tudo com clareza. Não podemos parar a busca e consagração no primeiro toque, pois corremos o risco de uma visão ofuscada. O Senhor precisa tocar novamente! Precisamos ver claramente: Juízo de valores, ética, estilo de vida, relacionamentos, uso do tempo e do dinheiro.
Infelizmente nossas conversões são parciais.
Ouvi certo pregador dizendo que nossa conversão acontece em três níveis:
A. Dos deuses falsos e dos ídolos, para o Deus verdadeiro – Quando isto acontece, já não abrigamos mais ilusões sobre deuses de pedra e barro ou ídolos do coração. Passamos a enxergar de forma diferente aquilo que concerne ao Deus verdadeiro.
B. Do nosso EU, arrogante e autocentrado, para a submissão a DEUS. Jesus afirmou: “Se alguém quer vir após mim; a si mesmo se negue, tome a sua cruz, e siga-me.” Tiramos nosso ego soberano, arrogante, vaidoso, narcisista do centro e colocar Deus no governo de nossa vida é uma conversão complexa e difícil. Precisamos entender que Jesus é, de fato, o Senhor e assumimos a identidade de servo. “Não sou mais eu quem vive, mas Cristo vive em mim.”
C. Devemos converter nosso bolso a Deus. Alguém afirmou que “nosso bolso é o último a se converter e o primeiro a esfriar.” Quando esta conversão acontece passamos a usar o dinheiro não apenas para acumular, mas o colocamos a serviço do reino de Deus.
3. Em terceiro lugar, com visão restaurada, devemos voltar para casa: “E mandou-o Jesus embora para casa, recomendando-lhe: Não entres na aldeia.” (Mc 8.26)
Não é a primeira vez que depois de curar alguém, Jesus envia para casa. Um dos casos bem conhecidos foi do endemoninhado gadareno.
“Ao entrar Jesus no barco, suplicava-lhe o que fora endemoninhado que o deixasse estar com ele. Jesus, porém, não lho permitiu, mas ordenou-lhe: Vai para tua casa, para os teus. Anuncia-lhes tudo o que o Senhor te fez e como teve compaixão de ti. Então, ele foi e começou a proclamar em Decápolis tudo o que Jesus lhe fizera; e todos se admiravam.” (Mc 5.18-20)
Por que esta ordem de Jesus para que pessoas que experimentaram milagres e curas, retornem as suas casas?
Razão número 1:
Jesus não permitiu ao gadareno que fosse com ele, e o envia curado para sua casa. Não é interessante? Jesus ordena que ele volte para seu ponto de origem. Não se trata apenas de um destino geográfico, mas de uma estratégia de restauração de identidade e eficácia de testemunho.
O gadareno vivia nos sepulcros, longe do convívio humano, acorrentado e nu. O cego, em muitas culturas era marginalizado e se assumiu a mendicância. Ao mandá-los para casa, Jesus está dizendo: "Eu não apenas curei o seu corpo/mente; Eu devolvi o seu lugar na mesa". O milagre só é completo quando o indivíduo é reintegrado à sua comunidade.
Razão número 2:
O Testemunho de Vida. Ninguém pode negar a mudança de alguém que conheceu no "antes". O ministério mais difícil e mais autêntico é aquele feito para quem nos viu no nosso pior estado. Jesus sabia que o gadareno seria o primeiro missionário em território gentio (Decápolis). Ele não precisava de um teólogo lá; precisava de alguém que as pessoas olhassem e dissessem: "Esse não é o homem que gritava nos túmulos? Como ele está vestido e em perfeito juízo?".
No caso do cego, ao mandá-lo para casa e pedir que não entrasse na aldeia, Jesus foca no relacionamento pessoal em vez do espetáculo público. Ele se tornaria um embaixador no próprio quintal. Jesus insiste no retorno porque Ele sabe que é fácil ser um santo entre estranhos, mas o verdadeiro milagre é ser um cristão entre parentes.
Mas não dá para voltar para casa sem ter a visão perfeitamente restaurada. É preciso distinguir claramente. As pessoas podem ter uma experiência inicial e retornarem para casa (não são mais cegas), alguma coisa mudou, mas ainda assim sua percepção ser confusa e embaçada. É preciso ter clareza na visão.
Jesus afirma: “São os olhos a lâmpada do corpo. Se teus olhos forem luminosos, todo corpo será.” Jesus precisa clarear nossa visão, para que possamos dizer como John Newton: “Eu era cego, mas agora vejo.” A possibilidade de enxergar as coisas de forma clara, só vem de Deus. Jesus põe novamente suas mãos nos olhos do cego e ele passa a ver claramente.
Conclusão
Será que já fomos plenamente restaurados por Cristo ou ainda possuímos uma visão confusa dos valores do reino e do discipulado?
Será que não estamos precisando que Jesus coloque novamente suas mãos em nossos olhos?
Como tem sido a tarefa que Jesus nos deu de voltar novamente para a nossa casa, lugar muitas vezes marcado por disputas, tensões, contradições e dores?
Que texto maravilhoso. Deus seja louvado. Deus te abençoe Reverendo Samuel.
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