Leitura Bíblica:
“E Moisés foi educado em toda a ciência dos egípcios e era poderoso em palavras e obras. Quando completou quarenta anos, veio-lhe a ideia de visitar seus irmãos, os filhos de Israel. Vendo um homem tratado injustamente, tomou-lhe a defesa e vingou o oprimido, matando o egípcio. Ora, Moisés cuidava que seus irmãos entenderiam que Deus os queria salvar por intermédio dele; eles, porém, não compreenderam. No dia seguinte, aproximou-se de uns que brigavam e procurou reconduzi-los à paz, dizendo: Homens, vós sois irmãos; por que vos ofendeis uns aos outros? Mas o que agredia o próximo o repeliu, dizendo: Quem te constituiu autoridade e juiz sobre nós? Acaso, queres matar-me, como fizeste ontem ao egípcio? A estas palavras Moisés fugiu e tornou-se peregrino na terra de Midiã, onde lhe nasceram dois filhos.”
Leiamos ainda:
“Pela fé, Moisés, apenas nascido, foi ocultado por seus pais, durante três meses, porque viram que a criança era formosa; também não ficaram amedrontados pelo decreto do rei. Pela fé, Moisés, quando já homem feito, recusou ser chamado filho da filha de Faraó, preferindo ser maltratado junto com o povo de Deus a usufruir prazeres transitórios do pecado; porquanto considerou o opróbrio de Cristo por maiores riquezas do que os tesouros do Egito, porque contemplava o galardão.” (Hb 11.23-26)
Hoje gostaria de meditar de forma mais intensa no registro de At 7.22, que nos diz: “E Moisés foi educado em toda a ciência dos egípcios e era poderoso em palavras e obras.” Associando-o ao texto de Hb 11.26: “Porquanto considerou o opróbrio de Cristo por maiores riquezas do que os tesouros do Egito, porque contemplava o galardão.”
A pergunta que me vem à mente quando leio este texto é a seguinte: Como a fé de Moisés sobreviveu num ambiente tão hostil como o Egito, imerso na idolatria, no orgulho intelectual e na arrogância deste poderio militar? Moisés cresceu como filho da filha de Faraó, sendo instruído em toda a sabedoria dos egípcios. Viveu sob a influência direta de uma cultura politeísta e pagã, oposta ao Deus dos hebreus. Todo o cenário aponta para um ambiente hostil à fé. Apesar de pagão, este ambiente preparou Moisés. A Bíblia afirma que ele se tornou "poderoso em palavras e obras" (At 7,22), habilidades úteis para sua futura missão. Miraculosamente, Moisés não foi absorvido pela cultura pagã.
O ambiente religioso do Egito nos dias de Moisés, situado no contexto do Novo Império, por volta dos séculos XIII-XII a.C.) era caracterizado por um forte politeísmo, no qual a religião estava intrinsecamente ligada à política, à natureza e à vida cotidiana.
Os egípcios cultuavam centenas de deuses que representavam forças da natureza, conceitos cósmicos e aspectos da vida. As principais divindades incluíam Rá (deus Sol), Osíris (deus dos mortos), Ísis (mãe/magia), Horus (céu/faraó) e Seth (caos). Os faraós também eram considerados divindade, não era apenas um governante, mas seres divinos ou semidivinos, intermediário entre os homens e os deuses. Eram responsáveis por manter Maat (ordem, justiça e harmonia cósmica) contra o caos. Os templos eram considerados casas dos deuses, não apenas locais de adoração pública. A religião egípcia era obcecada pela vida eterna: mumificação, túmulos elaborados e o Livro dos Mortos eram essenciais para garantir que a alma sobrevivesse no submundo.
A narrativa bíblica do Êxodo coloca o monoteísmo de Moisés (adoração ao único Deus, Yahweh) em confronto direto com o sistema politeísta. As dez pragas são claramente, julgamentos divinos sobre os deuses egípcios, mostrando a superioridade do Deus de Israel sobre as forças que os egípcios adoravam. Era um ambiente de crenças profundas na intervenção divina em todas as áreas da vida, com Faraó no centro, contrastando radicalmente com a crença monoteísta judaica.
Quando olhamos a educação acadêmica de Moisés no Egito, a pergunta que surge é: Como sua fé conseguiu se manter firme numa cultura tão pagã? A Bíblia afirma que “Moisés foi educado em toda a ciência dos egípcios.”
Mas, não será este o grande desafio que temos nos nossos dias, de manter a fé firme numa cultura pagã? Ou será que somos ingênuos em acreditar que, porque nossos alunos frequentam uma universidade evangélica, eles estão protegidos da cultura secular de nossos dias?
Moisés teve que se inserir numa cultura pagã e manter viva a sua fé num ambiente hostil ao pensamento monoteísta e à ética judaica. E nós? Nossos filhos? Será que temos um ambiente que nos ajude a ter uma fé bíblica? Eventualmente somos até encorajados a ter algum tipo de crença, mas que tipo de fé nossos filhos estão sendo assimilado?
Nesta semana, uma sobrinha neta da família, com 12 anos de idade, colocou no seu Instagram um post exaltando Iemanjá, uma das divindades mais reverenciadas nas religiões de matriz africana (Candomblé e Umbanda), conhecida como a rainha do mar, mãe dos orixás e orixá da fertilidade. Sara e eu ficamos abalados e chocados, com seu post, pois, afinal de contas, seu pai cresceu num lar cristão, e se afastou da fé, mas agora Satanás está cobrando o pedágio pelo desprezo do pai à fé na qual ele foi criado. Sua filha está cultivando uma atração a Iemanjá. Quem lhe ensinou isto? Talvez sua mãe, que aparentemente não professa nenhuma fé, mas certamente está cercada por um ambiente místico e pagão e que a tem atraído a este direcionamento maligno.
Este é o problema da cultura pagã, ela nos enreda.
Os Guinnes, discípulo de Francis Schaeffer, usa uma profunda metáfora do poder da cultura. Seu artigo é uma das críticas mais agudas e necessárias para a liderança cristã contemporânea. Em seu artigo, “O poder da Jibóia” extraído do livro "Prophetic Untimeliness"), Guinness utiliza a imagem da jiboia para ilustrar como a modernidade e o secularismo tratam a Igreja.
O primeiro ponto que ele destaca é o método da Jiboia. Ela abraça, não morde. A jiboia não mata sua presa por veneno ou por um ataque violento e repentino. Ela mata pelo abraço. Ela se enrola na vítima e, a cada vez que a presa expira (solta o ar), a jiboia aperta um pouco mais, até que não haja mais espaço para a respiração e o coração pare.
Guinness argumenta que o maior perigo para a Igreja hoje não é a perseguição violenta (o rugido do leão), mas a acomodação cultural (o abraço da jiboia). O mundo moderno "abraça" a igreja, oferecendo relevância, sucesso e métodos eficientes, mas, nesse processo, sufoca a essência do Evangelho.
O autor alerta que, na tentativa de sermos "relevantes" e "modernos", acabamos adotando estratégias, linguagem e valores do mundo secular, e ai vem o sufocamento: Quando a igreja se torna indistinguível da cultura ao seu redor — focando apenas em entretenimento, marketing e resultados numéricos — ela "expira" sua identidade bíblica, e a cultura secular "aperta" o cerco, ocupando o espaço que deveria ser da verdade revelada.
A secularização não é apenas o afastamento das pessoas da igreja, mas a igreja operando com uma mentalidade secular. É o pastor que se torna um CEO, a adoração que se torna um show e a fé que se torna um produto de consumo. A jiboia da modernidade não nos pede para negar a Deus; ela apenas nos convida a viver e gerir a igreja como se Deus não importasse para os processos práticos e o antídoto, a solução proposta não é o isolamento do mundo, mas o que ele chama de "intempestividade". O pastor e a igreja devem ter a coragem de estar "fora de sintonia" com o seu tempo quando esse tempo está fora de sintonia com Deus. É a capacidade de ser moderno no uso das ferramentas, mas antimoderno na fidelidade aos princípios eternos.
O dilema é sempre desafiador:
Contextualização excessiva: Sincretismo
Não contextualização: Obscurantismo
A igreja está inserida numa cultura. Qual é a nossa cultura?
Partimos do pressuposto de que nossa cultura é cristã, que estamos num ambiente seguro para proteger a fé, mas a verdade é que todos os filmes que você assiste, reels, Instagram, influencers, todos eles, são marcados por uma cultura secular, ou se for religiosa, sincrética e mística. Nossa cultura é anticristã. Nancy Pearcey afirma que o grande desafio que temos hoje é o de transformar a cultura, a forma de pensar e de agir de uma sociedade, porque cultura é formada a partir da cosmovisão, que leva uma comunidade a adotar um estilo de vida, construir símbolos, pensar e agir. A cultura muda a forma como nos vestimos, o que comemos, e como devemos viver, mas o desafio está ainda mais em baixo, tem a ver com a cosmovisão que faz a cultura surgir.
Assim era a cultura da Igreja Primitiva, debaixo do domínio politico de Roma, politeísta, moral frouxa, valores frágeis, homossexualismo aceito, e a pior de todas as depravações morais que foi o escravagismo, em que as pessoas não tinham nome, identidade, e eram vendidas como gado em praças públicas. O cristianismo foi profundamente responsável por esta mudança de cenário especialmente no mundo ocidental. A igreja cristã precisa se afirmar neste ambiente assim como Moisés teve que se manter firme numa cultura hostil à sua forma de ser, crer e viver.
Alguns pilares são essenciais para responder ao pensamento pagão
1. Ensino sólido sobre Deus em casa
Como Moisés manteu sua estrutura de fé, apesar de ter vivido debaixo de uma cultura pagã por tanto tempo? A única explicação que temos é que seus pais, Anrão e Joquebede, não tinham tempo a perder, e entenderam que precisavam incutir em Moisés a fé judaica o mais rápido possível, porque muito cedo Moisés iria morar no palácio, pois ser considerado filho da filha de faraó.
A Bíblia não registra um número exato de anos que ele viveu com seus pais biológicos, mas nos dá uma pista crucial no texto de Êxodo 2.10: "Sendo o menino já grande, ela [Joquebede] o trouxe à filha de Faraó, a qual o adotou por filho". Com base nos costumes da época e no contexto bíblico, a estimativa é que Moisés tenha ido para o palácio entre os 3 e 5 anos de idade. Ele era da idade de meus netos (3-6 anos: 2026). Muito novos...
Na cultura hebraica antiga, o desmame ocorria muito mais tarde do que hoje, geralmente por volta dos 3 anos (podendo chegar aos 5 em alguns casos). Esse foi o tempo que Joquebede, a mãe biológica, "recebeu" de Deus para estar com seu filho sob o nariz do Faraó. Ela usou esta Janela de Oportunidade
Joquebede sabia que seu tempo era curto. Ela tinha apenas esses poucos anos para:
· Ensinar a Moisés que ele era um hebreu, não um egípcio.
· Contar as histórias dos patriarcas (Abraão, Isaque e Jacó).
· Implantar nele a fé no Deus Único antes que ele fosse cercado pelos deuses do Egito.
O impacto desses primeiros 5 anos foi tão profundo que, mesmo passando os 35 anos seguintes sendo educado como um príncipe egípcio, Moisés nunca esqueceu os pontos essenciais de sua fé e de sal identidade.
Isto nos faz refletir que o tempo de influência não precisa ser longo para ser eterno, mas precisa ser intencional. Joquebede não teve 18 anos; ela teve apenas cerca de 5 anos. No entanto, ela preparou Moisés para resistir a uma vida inteira de tentações no palácio.
Outro aspecto a ser considerado, é sobre o pai de Moisés. Ele se chamava Anrão (ou Amram, no original hebraico). Embora não seja um personagem com tanto destaque individual é fundamental entender a linhagem e a fé que preservaram a vida do libertador de Israel.
Anrão era da tribo de Levi. Ele se casou com Joquebede, que também era descendente de Levi. Juntos, eles tiveram três filhos que se tornaram os pilares da nação de Israel:
· Miriã: A profetisa.
· Arão: O primeiro Sumo Sacerdote.
· Moisés: O legislador e libertador.
Anrão viveu durante o período mais sombrio da escravidão no Egito, quando Faraó decretou que todos os meninos hebreus recém-nascidos deveriam ser jogados no Rio Nilo. O Novo Testamento, na "Galeria da Fé", destaca que não foi apenas Joquebede, mas "seus pais" (plural) que esconderam Moisés por três meses: "Pela fé Moisés, já nascido, foi escondido três meses por seus pais, porque viram que era um menino formoso; e não temeram o edito do rei." (Hb 11.23
Anrão representa a resistência silenciosa e a preservação da identidade espiritual em meio ao "caos". Ele não viveu para ver a travessia do Mar Vermelho, mas a sua coragem de desobedecer a um decreto injusto para preservar a vida do filho foi o "ponto inicial" que permitiu que o plano de Deus se cumprisse décadas depois. Ele aponta para a necessidade de uma família corajosa para assumir a sua fé diante da oposição e a assumir riscos até mesmo de morrer.
Anrão e Joquebede são essenciais neste cenário. Esta família, não teve muito tempo para influenciar a vida de um filho, assim como nós: Temos bem pouco tempo para incutir as verdades eternas no coração de nossos filhos.
O Cálculo do Tempo (Anual)
Essa é uma das estatísticas mais impactantes para qualquer líder de ministério infantil ou pais. Quando olhamos para os números, a disparidade é chocante e serve como um "alerta" para a necessidade de discipulado no lar. A proporção geralmente utilizada em treinamentos de liderança (como a estratégia Pense Laranja, adotada pela nossa igreja) mostra como precisamos estar alertas.
Para uma criança em idade escolar, a conta média funciona assim:
· Na Igreja: Se a criança for a todos os cultos dominicais e participar de todas as atividades extras, ela terá cerca de 40 a 80 horas de influência por ano.
· Em Casa (Família): Descontando o tempo de sono e o tempo na escola, os pais têm aproximadamente 3.000 horas de tempo potencial de influência por ano.
A Proporção Real
Se colocarmos isso em uma balança, a proporção é de aproximadamente 1 para 50.
Isso significa que o que a igreja faz em um ano, a família tem o potencial de fazer em apenas uma semana.
Por que esse dado é vital?
Não podemos "terceirizar" a fé das crianças para o ministério infantil da igreja. O "abraço" da cultura secular (escola, internet, amigos) dura 3.000 horas; se a família não for a base, a jiboia vence por puro cansaço e tempo de exposição. Se o pastor influenciar os pais (os embaixadores no lar), ele potencializa sua influência em 50 vezes. A igreja não deve ser o "posto de gasolina" onde os pais deixam os filhos para serem abastecidos. A igreja deve ser o centro de treinamento onde os pais são equipados para serem os principais discípulos em suas 3.000 horas anuais.
Como diz o provérbio africano frequentemente citado no meio cristão: "É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança", mas a Bíblia é clara em Deuteronômio 6: a "aldeia" (igreja) apoia, mas a "mesa" (família) ensina.
Algumas lições desta família:
A. Família de posição firme, que estava disposta a assumir riscos para defender princípios. “Pela fé, Moisés, apenas nascido, foi ocultado por seus pais, durante três meses, porque viram que a criança era formosa; também não ficaram amedrontados pelo decreto do rei.” (Hb 11.23). vivemos numa época do comodismo, de não correr risco, mas a fé, para ser afirmada, precisa ser ousada.
B. Família que incutiu na mente de seu filho, pelo breve tempo possível, sua identidade espiritual.
Esta identidade tinha dois aspectos:
i. Havia algo superior ao sucesso e à glória humana – “Pela fé, Moisés, quando já homem feito, recusou ser chamado filho da filha de Faraó, preferindo ser maltratado junto com o povo de Deus a usufruir prazeres transitórios do pecado; porquanto considerou o opróbrio de Cristo por maiores riquezas do que os tesouros do Egito, porque contemplava o galardão.” (Hb 11.24-26). A frase “considerou o opróbrio de Cristo”, em outra versão (ARA), diz que ele “entendeu”. O ensino recebido em casa o sustentou e moldou sua mente. Ele assimilou esta verdade. Ela chegou ao seu coração.
ii. Assimilou a identidade de um povo – “Preferindo ser maltratado junto com o povo de Deus.” (Hb 11.25)
Este é um aspecto que me incomoda atualmente. Os pais não conseguem, não tentam ou não querem transmitir a identidade de um povo aos seus filhos, de que fazem parte de uma comunidade, eleita por Deus, chamada para dar gloria ao nome de Deus., e não estou me referindo a uma igreja local, mas um povo universal: “Povo santo, sacerdócio real, povo de propriedade exclusiva de Deus a fim de proclamar as virtudes daquele que vos chamou das trevas para sua maravilhosa luz.”(1 Pe 2.9)
Que povo era este?
Aos 40 anos Moisés teve a ideia de visitar o seu povo. Esta ideia de pertencer a um povo, estava clara na sua mente. É a identidade grupal. Ele, que vivia rodeado de luxo e pompa no palácio, sabia que aquele povo escravo era seu povo, sua raiz, seu sangue, sua história. Isto estava claro no seu coração. Ele preferia ser maltratado com o povo de Deus, “a usufruir prazeres transitórios do pecado; porquanto considerou o opróbrio de Cristo por maiores riquezas do que os tesouros do Egito, porque contemplava o galardão.”
Ele sai em defesa do seu povo. Será que nossos filhos amarão o povo de Deus assim? Ele “vingou o oprimido.” (At 7.24). Ele os considerava irmãos: “Ele pensava que seus irmãos.” (At 7.26). Moisés construiu uma identidade de povo, elemento quase insignificante na forma como desenvolvemos nossa fé, que é sempre percebido de forma intimista e individual, não comunitária e eclesial. No máximo trazemos nossos filhos para batismo, respondemos exteriormente as perguntas sobre como precisamos criar nossos filhos.
Alguns anos atrás, fui procurado por um casal que era membro formal, mas não frequentava a igreja alguns anos e que queria batizar seus filhos. Preocupado com as respostas que fariam e não querendo que eles dessem respostas meramente formais diante de Deus, eu os chamei para uma conversa. Disse que eles precisavam vir a igreja, ter compromisso, trazer seus filhos. Eles foram simpáticos e prometeram que o fariam. Eu batizei seus filhos, eles responderam sim às perguntas, e nunca mais voltaram à igreja.
2. Seu encontro pessoal com Deus
A segunda razão que me leva a considerar o motivo de Moisés ter se mantido fiel numa cultura pagã, tem a ver com sua experiência pessoal com Deus. Não apenas a fé dos pais, mas a sua fé.
O texto bíblico é sutil, mas aponta nesta direção: “Quando completou quarenta anos, veio-lhe a ideia de visitar seus irmãos, os filhos de Israel.” (At 7.22) Surge um impulso no coração. Para aqueles que gostariam que Deus lhes falasse, considere este movimento de Deus no coração de Moisés como um evento divino, porque ele pode fazer você entender como Deus está operando na sua vida, não apenas por meios extraordinários como sinais, mas pelos meios ordinários: impulsos, percepções, desejos. “Veio-lhe a ideia de visitar seus irmãos.” De onde vem esta ideia? Como surgem estes impulsos em nossa alma?
Bill Hybels chama tais movimentos de sussurros da alma. Santo Agostinho diz: “Quando Deus se agita, o homem se levanta.” São estes santos movimentos divinos que surgem no coração de um jovem na universidade, na escola, e o despertam para ir em direção as coisas de Deus. A história de Moisés, assim como a nossa, é marcada por um chamado, por uma direção que Deus deseja dar. Ele nos orienta, ele nos guia, ele nos move, ele aponta direção, ele inclina nossos corações.
Posteriormente Moisés teria uma grande manifestação. Isto ocorreria apenas aos 80 anos. Esta foi a única manifestação sobrenatural de Deus na história de Moisés, as demais pareciam cotidianos, normais, ordinárias, mas também eram sobrenaturais. Deus inclina o nosso coração para efetuar sua vontade. “Decorridos quarenta anos, apareceu-lhe, no deserto do monte Sinai, um anjo, por entre as chamas de uma sarça que ardia.” (At 7.30)
É certo de que este relato de sua experiência com Deus é sobre a etapa posterior de sua vida, mas a verdade é que nenhuma fé subsiste sem que haja um encontro pessoal com Deus.
Talvez Moisés tivesse suas crises de fé depois de embates filosóficos e teológicos na universidade do Cairo, acerca dos deuses do Egito, mas ele não sairia do luxo do palácio e para a solidão do deserto, sem que algo sobrenatural o tivesse movido a isto.
Agora, depois de 40 anos no deserto, Deus lhe aparece. Este encontro o tira da zona de conforto. Ele precisa sair de seu espaço no deserto de Midiã, com a vida já organizada, para enfrentar o homem mais poderoso da terra. Seria um encontro de Maduro com Trump. Moisés é chamado para um desafio missionário, e sua experiência sobrenatural o impacta e o capacita, depois de sua grande resistência, a obedecer e fazer o que Deus esperava dele.
“Deus lhe aparece”. (At 7.30) Este é o segredo da nossa história. Quando os sinais de Deus se tornam visíveis na nossa vida, e não podemos mais negar a evidencia de sua presença e graça.
3. O "Mistério" da Soberania
A história da perseverança de nossa fé em Cristo, e que nos mantém crendo é, acima de tudo, resultado da graça de Deus.
A história de Moisés nos revela um pouco disto.
Aos três meses de idade, quando os pais não mais podiam escondê-lo, Joquebede cria um estratagema. Ela decide colocar estrategicamente seu filho no Rio Nilo para que ele fosse, e isto competia à graça e à vontade de Deus, encontrado por alguém e dele tivesse compaixão. Uma possibilidade remota, mas ainda uma possibilidade. Acima de tudo, vemos uma ação sobrenatural. A Bíblia registra que o menino Moisés, “era formoso aos olhos de Deus.” (At 7.20) Sua graça e soberania estavam presentes, se evidenciando na história desta criança.
Assim trabalha a soberania de Deus em nossa história. O Deus que destina os fins também providencia os meios e usa pessoas para executar seu plano na história. Deus estava cuidando dos detalhes. A história de Moisés é de milagres, mas a nossa também. Quem aqui nunca passou por uma experiência familiar de ter alguém miraculosamente guardado. Para que propósito?
Meu filho, aos 4 anos de idade foi acidentado no Rio de Janeiro. Levado às pressas para o hospital, ensanguentado, corte na perna, corte na cabeça. Deus o protegeu e o livrou. Meu neto Gabriel, nasceu precocemente, com 1600 kg, por um milagre de Deus que deu à milha filha sensibilidade para dizer à sua médica, numa consulta de rotina, que algo não estava certo, quando os exames já haviam apontado que tudo estava bem. Um comentário dela na saída do hospital, alertou a médica, e um exame posterior apontaria para o fato de que, se ela tivesse voltado para casa, o bebê teria morrido, porque o cordão umbilical já não o alimentava mais como necessário.
Na história de Moisés não foi diferente. A filha de Faraó vai ao Rio Nilo para se divertir com as amigas, um comportamento próprio de jovens daqueles dias. O choro de uma criança chama sua atenção e ela ao ver a criança se encanta pelo filho de uma escrava e decide adotá-lo. Algo surpreendente. Assim é a soberana graça de Deus.
Aos cinco anos, é levado para o palácio, cercado de cuidados e luxo. Cresce num ambiente rico, poderoso e sofisticado. Vai para as melhores universidades e Cairo tinha, a melhor universidade do mundo. Grandes arquitetos, engenheiros, médicos. A arqueologia revela o avanço da cultura egípcia em relação às demais nações vizinhas. O contexto pagão, ao invés de distanciar Moisés, serviu para mostrar que ele havia sido preservado por Deus para um propósito, sendo retirado da condenação para o palácio, da morte para a vida, da escassez para o luxo.
Deus o manteve em uma cultura pagã e o treina como líder, sem permitir que ele se tornasse um pagão, para cuidar de seu povo e estabelecer sua nação, como havia prometido a Abraão.
Em Êxodo 3, Deus se revela a Moisés numa sarça ardente. Deus o encontra no lugar mais inóspito possível. Três coisas acontecem:
A. Deus se revela e se dá a conhecer- “Eu sou o que sou!” (Ex 3.14) Esta e a primeira vez que Yahweh. o Deus do pacto, o nome mais sagrado de Deus, é mencionado na Bíblia.
B. Deus lhe dá vocação – Missão. Se você está refletindo sobre vocação, deixe-me lhe dizer algumas coisas que este texto nos ensina sobre este assunto.
§ Ele chama – “Venha e eu o enviarei a Faraó (Ex 3.10)
§ Ele capacita – Moisés se sente impotente e inadequado. “Quem sou eu para ir a Faraó? (Ex 3.11) mas Deus lhe afirma: “Eu o enviarei!”
§ Ele dá o sustento e promete sua companhia- “Eu estarei com você!” (Ex 3.12)
§ Ele envia – “Agora venha, e eu o enviarei a Faraó.” (Ex 3.10)
C. Ele espera atitude de reverencia – “Moisés escondeu o rosto, porque tem medo de olhar para Deus.” (Ex 3.6) Deus revela sua santidade: “Tira as sandálias dos pés.” (Ex 3.5) A terra onde ele estava não possuía, em si mesma, qualquer elemento sobrenatural, mas se torna sagrada pela presença do Deus Soberano. Se hoje fosse possível identificar o local exato desta manifestação, chagaríamos ali e não veríamos nada diferente.
Conclusão
Como se manter fiel numa cultura pagã?
A vida de Cristo nos ensina a necessidade de contextualização e inserção. Sua obra é encarnacional. Ele nunca quis que sua igreja se tornasse um gueto. “Não peço que os tire do mundo, mas que os livre do mal” transformando numa seita obscurantista, distante da cultura. Mas é importante frisar que Jesus nunca quis que a igreja adotasse o sincretismo, sem envolvimento com seu tempo e cultura. A igreja deve manter sua identidade de sal no contato com o mundo. “Se o sal se tornar insipido, como lhe restaurar o sabor?” Uma igreja que vive como o mundo vive, deixou de ser a igreja de Cristo.
A vida de Moisés foi assim. Ele viveu com luxo, dinheiro, riqueza, glória, mas nunca deixou de ser um crente fiel.
A vida de José foi assim. Como se tornar primeiro-ministro do país mais importante do mundo, aos 30 anos de idade, sendo estrangeiro, e nunca perder a compreensão de quem ele era, de quem era seu povo e quem era seu Deus?
A vida de Daniel foi assim. Daniel é o maior exemplo bíblico de longevidade ministerial e integridade cultural. Ele não apenas sobreviveu a crises políticas, mas manteve sua influência enquanto impérios inteiros desmoronavam ao seu redor. Daniel serviu a 2 Impérios (Babilônico e Medo-Persa) e a pelo menos 4 Reis principais (Nabucodonozor, Belsazar, Dario, o Medo, e Ciro, o Grande)
Jesus revela sua fidelidade ao Pai, num mundo que o hostilizava e o rejeitou. Revela graça e amor num contexto de líderes religiosos inescrupulosos, convivendo com um império que massacrava e explorava o povo da Judeia, com pessoas ingratas e contraditórias que eram capazes de clamar em um domingo “Hosanas ao Filho de Davi!” e na mesma semana gritar: “Crucifica-o!”
Mas Jesus nunca hesitou em continuar fiel. “Minha comida e a minha bebida consiste em fazer a vontade de meu Pai.” Ele não negociaria sua relação com o Pai. Como ovelha muda foi levado perante seus tosquiadores, não abriu a sua boca, para realizar o plano do Pai. Seu desejo era ser fiel e servir ao pai. Sua grande missão era cumprir o plano de Deus numa cruz, esmagar a cabeça da serpente, derramar seu sangue para nos resgatar dos nossos pecados e satisfazer a justiça de Deus, assumindo o nosso lugar, nossa condenação e juízo e morrendo por nós na infame cruz.
Como tem sido sua relação com a cultura atual e sua estratégia maligna de distanciá-lo de Deus? Você tem estado alerta aos riscos de negar a sua fé e suas convicções por conveniência, prazer mundano e privilégios que o diabo lhe oferece?
Como resistir a todas estas pressões?
Como se manter firme na fé no meio desta geração pagã?

