Introdução
Hoje é um dia histórico e tenso em nosso país por causa das eleições presidenciais. Um dos meus amigos pessoais estava tão aflito que eu sugeri que ele parasse de acompanhar as notícias e fake News. Ele estava simplesmente um frangalho. O mesmo aconteceu em casa, quando, indo de reportagem a reportagem, minha esposa sugeriu que assistíssemos outra coisa, porque aquilo estava nos estressando.
Precisamos reconhecer o ambiente de tensão, expectativa e polarização que marca um dia de eleição presidencial. Quando as urnas se fecharem e o resultado for anunciado, onde estará ancorada a nossa esperança?
Contexto
Daniel estava subordinado ao império babilônico, uma superpotência global onde o rei parecia ter poder absoluto de vida e morte. Ele mesmo havia sofrido o impacto da força da espada contra sua nação e seus familiares, que provavelmente morreram na guerra. Agora servia como eunuco no palácio do rei, sem identidade, nome trocado, sem vínculos familiares, sem sua nação, sem o templo e com a sensação de que Deus havia se esquecido deles.
Neste ambiente foi chamado para resolver uma questão bizarra: O rei teve um sonho e queria sua interpretação, mas ao contrário do que normalmente faziam, ele não quis dizer qual era o seu sonho. Ele queria que as pessoas dissessem o seu sonho e a interpretação. E nenhum dos magos e adivinhos conseguia essa proeza. Foi aí que Daniel soube que todos seriam executados, pediu um tempo para orar e trazer a resposta ao rei. Nesse contexto , e na presença do rei poderoso, esse texto a é proferido.
"Imagine a cena: um decreto de morte foi assinado. Guardas estão batendo às portas. Todos os conselheiros e sábios da maior potência do mundo estão em pânico porque o imperador teve um pesadelo e exigiu o impossível. A Babilônia está sob o signo do medo e da instabilidade. É no meio desse cenário de crise política e risco de morte que um jovem refugiado chamado Daniel se dobra em oração — e traz a declaração mais poderosa sobre quem realmente manda no mundo."
Esse pano de fundo histórico e narrativo dá a verdadeira densidade dramática. Temos aqui a irracionalidade do poder humano. Nabucodonosor representa o topo do poder político e militar da época, mas ele é retratado como um governante imprevisível, perturbado e despótico. A sua exigência revela a fragilidade emocional e a tirania do poder terreno.
Os sábios, encantadores e caldeus da Babilônia admitiram a própria limitação: "A coisa que o rei exige é difícil, e ninguém há que a possa revelar diante do rei, senão os deuses, cuja morada não é com a carne." (Dn 2.11) O próprio sistema da Babilônia declarou falência.
Este texto nos direciona para, pelo grandes verdades:
1. A Oração como primeira resposta à crise - Diante do decreto de morte que também o alcançaria, Daniel não entrou em pânico, não tentou burlar a lei e nem partiu para a revolta violenta. Ele pediu tempo, reuniu seus companheiros (Hananias, Misael e Azarias) e foram orar pedindo a misericórdia do "Deus dos céus".
Isto revela que ele era um homem de Deus, um homem de oração e dependência. A maior ferramenta da igreja em dias de incerteza política não é a militância raivosa, mas a intercessão fiel. Antes de mais nada, precisamos orar.
2. Deus não perde o controle - Essa é a grande mensagem deste texto e o ancoradouro de paz para os servos de Deus. Ele não é pego de surpresa, não reage a imprevistos e não depende das decisões humanas para cumprir o Seu propósito.
O rei Nabucodonosor acreditava que o mundo girava em torno do seu trono e das suas vontades. No entanto, o texto mostra que o monarca temível nem sequer conseguia dominar os próprios pensamentos durante o sono. Um pesadelo tirou a sua paz e o desestabilizou por completo.
A. Deus governa a cronologia: "Ele muda os tempos e as estações" — A história não é um emaranhado de acidentes geopolíticos; é o desdobrar do calendário e da providência de Deus.
B. Deus governa os tronos: "Ele remove reis e estabelece reis" — Seja pela via do voto, da ascensão de um império ou do seu declínio, nenhum governante assume ou deixa o poder fora da permissão e do decreto soberano do Altíssimo.
No dia da eleição, podemos oscilar entre a ilusão da euforia, achando que a vitória de determinado candidato garantirá o futuro e salvará a nação, ou o pânico do desespero: Achando que o resultado das urnas pode destruir os planos de Deus.
Este texto corrige esses dois extremos. A igreja não precisa entrar em pânico: O resultado que sair das urnas hoje à noite não apanha os céus de surpresa. O Deus que governou durante o império babilônico, persa, grego e romano continua governando no dia de hoje, e precisamos entender que nossa esperança não é eleitoral, é escatológica: O futuro da igreja e da sociedade não depende de quem ocupa a cadeira presidencial, mas daquele que já está assentado sobre o trono soberano.
Saber que Deus está no controle não nos torna apáticos ou irresponsáveis, mas nos dá estabilidade emocional, porque temos consciência de que Deus está no controle, guarda a nossa mente contra a ansiedade, a raiva e o medo do amanhã.
Como resumiu o próprio Daniel: “Dele é a sabedoria e o poder; a Ele pertencem o domínio e a glória de eternidade a eternidade.” É nessa verdade que a igreja pode descansar a cabeça no travesseiro no domingo à noite. Deus muda os tempos e as estações; Ele remove e estabelece reis. A história não é um caos à deriva, nem um ciclo sem fim: é um desdobrar da providência divina. Seja qual for o resultado das eleições, Deus continua no trono e usará todas as coisas para cumprir Seus propósitos eternos.
3. Ele é absolutamente soberano – “Seja bendito o nome de Deus, de eternidade a eternidade, porque dele é a sabedoria e o poder.” (Dn 2.20)
Na linguagem humana, costumamos medir as coisas pelo seu começo e pelo seu fim (a vida de uma pessoa, o mandato de um governante, a duração de um império). Ao dizer "de eternidade a eternidade", o texto bíblico está usando os dois extremos do tempo imaginável para declarar que Deus:
a. Antes do tempo existir: Já existia (eternidade passada — início sem começo). Gn 1.1 afirma: No princípio criou Deus. Este “princípio”, literalmente significa o tempo fora do tempo.
b. Depois que o tempo e a história humana terminarem continuará existindo. (eternidade futura — fim sem término).
É a mesma declaração do Salmo 90.2: "Antes que os montes nascessem, ou que formasses a terra e o mundo, de eternidade a eternidade, tu és Deus." Deus está acima da própria dimensão do tempo. O ser humano é prisioneiro do tempo: vivemos condicionados pelo passado, ansiosos pelo futuro e limitados ao momento presente. Deus é o Criador do tempo: Para Ele, o passado, o presente e o futuro estão simultaneamente diante do seu trono. Quando Daniel diz que Deus "muda os tempos e as estações" (Dn 2:21), porque não é governado pelo tempo, mas governa sobre o tempo.
A Babilônia parecia invencível, mas cairia; o poder de Nabucodonosor passaria, assim como o de todos os governantes que viriam depois dele. Isto demonstra a imutabilidade de Deus:
§ O seu caráter não se deteriora com o passar dos séculos.
§ Os seus propósitos e a sua fidelidade não sofrem "prazos de validade".
§ O seu Reino não depende das flutuações das estações nem das crises políticas de cada época.
Os governos humanos são contados em anos de mandato. Os impérios são medidos em séculos. As nossas vidas são contadas em décadas. Mas o Deus a quem servimos e em quem confiamos habita 'de eternidade a eternidade'. A história humana é apenas um breve parêntese dentro da eternidade de Deus — e o nosso futuro está guardado nas mãos daquele que nunca passa.
4. Poder e sabedoria não pertencem aos governantes, pertencem a Deus – (Vs 20)
“Disse Daniel: Seja bendito o nome de Deus, de eternidade a eternidade, porque dele é a sabedoria e o poder; é ele quem muda o tempo e as estações, remove reis e estabelece reis; ele dá sabedoria aos sábios e entendimento aos inteligentes.” (Dn 2.20,21)
Queria dar ênfase numa frase aqui: “porque dele é a sabedoria e o poder.” Temos a tentação de atribuir aos governantes e aos sistemas políticos um poder que eles não têm. Daniel declara que a sabedoria e o poder são atributos exclusivos de Deus. Nenhum presidente, partido ou ideologia salva uma nação ou substitui o Reino de Deus. Nossa confiança primária não está nos palácios da capital, mas no trono dos céus.
Creio que a palavra “poder” aqui precisa ser sublinhada. Os homens lutam pelo poder, pelo domínio, e acreditam que podem tudo, mas o poder é de Deus.
5.. O Louvor que Nasce da compreensão de quem governa o universo. "Bendito seja o nome de Deus... porque dele é a sabedoria e a força... Ele muda os tempos e as horas; ele remove os reis e estabelece os reis." (Dn 2.20-23).
O texto dos versículos 20 a 23 é a resposta imediata de Daniel assim que a visão noturna lhe foi revelada. Ele não correu imediatamente ao rei para salvar sua pele; ele parou primeiro para adorar e dar graças. Quando Daniel diz que Deus "remove e estabelece reis", ele vê que o próprio império do temível Nabucodonosor era apenas uma cabeça de ouro em uma estátua que um dia seria esmagada por uma Pedra (o Reino de Cristo). O nosso descanso, portanto, não está na estabilidade das urnas, mas no Deus que revela os mistérios e governa os reis.
CONCLUSÃO: Qual deve ser a resposta da igreja?
A. Nossa resposta deve ser de louvor e gratidão, descanso e alegria em Deus. “A ti, ó Deus de meus pais, eu te rendo graças e te louvo.” (Dn 2.23).
Os homens passam, situações políticas se alternam, mas o nosso Deus permanece para sempre. Nabucodonozor era aparentemente imbatível, mas tinha pés de barro. As pernas de ferro e barro, uma mistura que não se liga. Algum construtor aqui, faltando ferro, decidiria completar uma coluna de um prédio com barro?
Daniel deixa claro o sonho: “As pernas, de ferro, os pés, em parte, de ferro, em parte, de barro. Quando estavas olhando, uma pedra foi cortada sem auxílio de mãos, feriu a estátua nos pés de ferro e de barro e os esmiuçou.” (Dn 2.33,34) A cabeça pode ser de ouro: “A cabeça era de fino ouro, o peito e os braços, de prata, o ventre e os quadris, de bronze.” (Dn 2.32) O profeta aponta para o fato de que, por mais pomposo, poderoso, sólido que fosse, os pés eram de barro. Não resistem ao tempo.
Como igreja, em tempos de incerteza política, somos chamados a ser instrumentos de sabedoria, discernimento e paz. Não devemos nos deixar levar pela manipulação emocional ou pelo pânico social.
B. Vote com consciência, exerça sua cidadania com responsabilidade, mas ao deitar a cabeça no travesseiro hoje à noite, descanse na certeza de que Deus continua no controle do Brasil e do mundo.
Diante das incertezas da política e da história humana, a igreja encontra paz ao saber que o poder absoluto e a sabedoria pertencem somente a Deus, que governa sobre o destino das nações. O crente não deve entregar seu voto movido por manipulação emocional, medo alarmista ou pressão de grupos. O medo paralisa a razão; a fé e o discernimento geram maturidade.
A consciência do cristão deve estar cativa às Escrituras Sagradas, e não a slogans partidários. Nenhuma plataforma humana é perfeita ou divinizada. O voto consciente exige um filtro crítico e bíblico sobre as propostas e o caráter dos postulantes ao cargo público. Não deixe de votar, exercer seu direito político, de expressar sua opinião através do voto. em tempos de votos em branco e nulos, seu voto vale ainda mais.
O eleitor imaturo busca soluções mágicas, promessas assistencialistas fáceis ou discursos populistas. O eleitor consciente avalia a responsabilidade fiscal, a estabilidade das instituições, a preservação do Estado de Direito e a sustentabilidade das propostas para as futuras gerações. Nenhum governo é salvador do mundo.
C. Trate com respeito o direito do outro de pensar diferente. Um dos lemas mais antigos quando se trata de divergência é a seguinte: “Posso não concordar com sua ideia, mas defendo até o último instante o direito de você pensar.”
A Confissão de Fé de Westminster, que foi escrita na Inglaterra entre 1643-1649, e é a base de muitas igrejas reformadas, e tem sido adotada por ser considerada um sistema fiel de interpretação da bíblia. Ela diz o seguinte sobre a magistratura, numa época que pensar diferente e divergir era quase sempre uma sentença de morte: "Apenas Deus é Senhor da consciência.” (CFW XX.II). Nenhum rei, presidente, partido, juiz ou governante (e nenhum líder religioso) tem autoridade para forçar a consciência de um crente a crer ou praticar algo que fira a Palavra de Deus.
A Palavra de Deus nos ensina:
"Acolhei ao que é débil na fé, não, porém, para discutir opiniões." (Rm 14.1) Devemos receber e valorizar pessoas com amor e acolhimento, em vez de transformá-las em alvo de debates intermináveis, críticas ou julgamentos sobre questões que não são essenciais para a salvação. ninguém deve desprezar ou julgar o outro, pois Deus aceitou a ambos.
Não é admissível que, em nome de candidatos ou políticos, nós descartemos, cancelemos ou até mesmo odiemos outros. Não podemos dividir famílias, amigos e igrejas por discordância. Maridos e mulheres não podem entrar numa rota de colisão por causa de divergências partidárias. A fidelidade ao Evangelho e testemunho de unidade em Cristo, é superior a qualquer divisão partidária.
D. A Ancoragem em Cristo: “Mas, nos dias destes reis, o Deus do céu suscitará um reino que não será jamais destruído; este reino não passará a outro povo; esmiuçará e consumirá todos estes reinos, mas ele mesmo subsistirá para sempre. (Dn 2.44)
É impressionante como esta mensagem, dada 600 anos a.C., aponta de forma tão direta para Cristo. Este texto é messiânico, fala de Cristo e de seu reino. “um reino que não será jamais destruído; este reino não passará a outro povo; esmiuçará e consumirá todos estes reinos, mas ele mesmo subsistirá para sempre.”
Causa profundo espanto que uma revelação escatológica e messiânica de tão grande envergadura tenha sido entregue não através de um sumo sacerdote no Santo dos Santos em Jerusalém, nem a um rei da linhagem de Davi em seu palácio, mas a um jovem exilado no coração da Babilônia. Essa inserção aparentemente "deslocada" carrega intenções teológicas, pedagógicas e missiológicas extraordinárias:
Nabucodonosor via a si mesmo e ao Império Babilônico como o centro do universo. A estátua do seu sonho, com a cabeça de ouro, alimentava o orgulho de que seu domínio era absoluto e perpétuo. Ao revelar ao rei pagão que os impérios humanos (ouro, prata, bronze, ferro e barro) são finitos, frágeis e destinados ao esfacelamento, Deus desmantela a ilusão dos poderosos. Deus não manda um recado indireto: Ele entra no sonho do próprio imperador para declarar que o poder da Babilônia era temporário, e que o Reino definitivo não seria construído por mãos humanas, mas estabelecido pelo "Deus do Céu".
O Messias não viria para libertar os judeus do domínio da Babilônia, mas para estabelecer um governo eterno que abrange todas as nações, tribos e línguas. A interpretação de Daniel revela que Deus continua sendo o Senhor da História, e obriga a maior autoridade política do planeta a se prostrar diante de Daniel e confessar: "Certamente, o vosso Deus é o Deus dos deuses, e o Senhor dos reis." (Dn 2:47) O rei pagão torna-se, sem perceber, uma testemunha involuntária da glória do Cristo que haveria de vir.
Todos os reis e presidentes passam, os impérios caem, mas Deus suscitará um reino que jamais será destruído; que esmiuçará e consumirá todos os reinos, e subsistirá para sempre. A glória de Cristo encherá toda a terra com o Seu Reino inabalável. O centro da história é Cristo. Ele é a hermenêutica da história.
“O Deus do céu suscitará um reino que não será jamais destruído; este reino não passará a outro povo; esmiuçará e consumirá todos estes reinos, mas ele mesmo subsistirá para sempre.”
Aleluia!!