Uma das grandes tentações do Antigo Testamento sempre foi a idolatria. E certamente a questão da idolatria ainda é a grande questão do nosso coração hoje. Não é sem razão que o primeiro dos 10 mandamentos diz: “Não terás outros deuses diante de mim”. Isto demonstra nossa capacidade de até mesmo levar outros deuses diante do Deus verdadeiro. O apóstolo João ao concluir sua primeira carta, no último capítulo e no último versículo afirma: “Filhinhos, guardai-vos dos ídolos”. (1 Jo 5.21). João Calvino dizia que o coração humano é uma fábrica de ídolos.
Quando olhamos para Êxodo 32, percebemos como Arão foi envolvido em um sistema religioso complexo, mas que traduz muito bem como o coração pode ser atraído pelos ídolos. Na ausência de Moisés, Arão faz um bezerro de ouro, e todo o povo de Israel começa a adorá-lo. Algo grotesco, não é?
O texto de Êxodo 32 nos revela como a idolatria exerce fascínio sobre o coração humano.
1. Primeiro, é fácil deixar o Deus verdadeiro e construir ídolos.
Basta que alguma coisa saia do nosso controle e já corremos atrás dos mecanismos idolátricos que o coração é capaz de construir. Muitos ídolos surgem em épocas de doença, problemas financeiros ou falta de perspectiva. Então começamos a acreditar que determinadas coisas que não temos poderiam transformar nossa vida, se as tivéssemos, e revolucionar nossa história. Passamos a depositar esperança nelas, como se tivessem poder para nos salvar.
Inteligência, influência, pessoas, poder, reputação, beleza, dinheiro, podem facilmente nos dar a falsa ideia de que nossos problemas podem ser resolvidos. Acreditamos que não precisamos de Deus se pudermos mexer o tabuleiro com estes deuses que dominam nossos corações.
2. A segunda lição é que construímos ídolos quando nos sentimos desamparados.
Êxodo 32:1 mostra exatamente isso. “Mas vendo o povo que Moisés tardava em descer do monte, acercou-se o povo de Arão, e disse-lhe: Levanta-te, faze-nos deuses, que vão adiante de nós; porque quanto a este Moisés, o homem que nos tirou da terra do Egito, não sabemos o que lhe sucedeu.” Este versículo explica os motivos: “Não sabemos o que aconteceu com este Moisés.” Parece que a liderança orientada por Deus não resolve mais. Que Deus se torna impotente diante dos desafios que temos.
Os ídolos são uma tentativa de organizar o nosso mundo interior bagunçado, desorganizado, ou o mundo exterior quando ele se desestrutura. O povo pensou que Moisés tivesse morrido e, consequentemente, sentiu-se desamparado, afinal, ele era o líder.
A falsa noção de quem Deus é e o que Ele faz nos leva ao desespero. O problema é que os ídolos são como água do mar. Em um naufrágio, você será tentado a beber água do mar, mas a água salgada não saciará sua sede; pelo contrário, a intensificará ainda mais. A água do mar, nunca poderá satisfazer seu coração.
3. Ídolos são elaborações humanas.
“E ele os tomou das suas mãos, e trabalhou o ouro com um buril, e fez dele um bezerro de fundição. Então disseram: Estes são teus deuses, ó Israel, que te tiraram da terra do Egito.” (Ex 32.2-4) O texto diz que trabalharam o ouro com buril.
Blaise Pascal afirmou: “Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, e o homem, em retribuição, fez deus à sua imagem”. (Pensées). Sua frase é uma crítica à projeção humana: Pascal, com seu humor ácido e perspicaz, sugere que os seres humanos tendem a projetar em Deus suas próprias características, defeitos, desejos e sentimentos, em vez de compreender a natureza divina em si. Sua expressão "retribuição" é irônica e indica que o homem toma a liberdade de moldar o conceito de Deus conforme sua própria compreensão limitada, criando um Deus "à sua imagem".
Deus fez o homem, e o homem decidiu fazer Deus à sua imagem. Isso é idolatria. Idolatria é uma construção humana.
Arão cria artifícios filosóficos tentando demonstrar que a idolatria decorria de fatos não controláveis. Em Êxodo 32.24 ele diz algo quase absurdo: “Joguei o ouro no fogo, e saiu este bezerro”. Mas isso contradiz diretamente Êxodo 32.3, onde o texto afirma que eles trabalharam cuidadosamente o ouro com ferramentas até construírem aquele ídolo.
Assim também fazemos. Tentamos justificar nossos ídolos como se fossem inevitáveis, espontâneos ou acidentais, quando na verdade eles são fabricados pelo nosso coração, por deliberada e intenção de forjá-los para nossa satisfação e engano pessoal.
4. Em quarto lugar, o ídolo é sempre um falso substituto de Deus. Em Êxodo 32.4 o povo declara: “São estes, ó Israel, os teus deuses, que te tiraram da terra do Egito”.
Isso era mentira. Mas eles acreditavam nisso. Aquele simulacro de Deus acabara de sair do forno. Ele não havia libertado o povo, ele nem mesmo existiria se não fosse a habilidade do ourives em forjá-lo.
Nós também fazemos isso. Cremos em falsos deuses porque queremos crer, eles não precisam ser reais, pois eles nos justificam. Construímos um sistema racional em torno da idolatria. Criamos falsas premissas para justificar aquilo que tomou o lugar de Deus em nossa vida. Mudamos a verdade para sustentar nossa idolatria.
Existe algo ainda mais sutil neste texto: “E Arão, vendo isto, edificou um altar diante dele; e apregoou Arão, e disse: Amanhã será festa ao Senhor.” (Ex 32.5). Percebem a sutileza? Faz um ídolo e diz que no outro dia fariam uma festa a Yahweh. Aquele asqueroso ídolo, não era, nem de longe algo que pudesse trazer qualquer semelhança com o Deus verdadeiro.
5. Em quinto lugar, os ídolos nos enlouquecem e nos deixam descontrolados.
Êxodo 32.6 afirma: “O povo assentou-se para comer e beber e levantou-se para divertir-se”. Mais adiante veremos que “o povo estava sem controle.” (Ex 32.25). O ídolo tem um poder tremendo de fragmentar e desestruturar o nosso mundo interior e isto reflete no exterior. O que pensamos de Deus vai impactar nossa ética. Por sermos passionais e seres de desejos, elaboramos um deus que nos permita viver assim, com uma ética permissiva. Perdemos o equilíbrio emocional, o discernimento moral e o domínio próprio. Por isto que povos que se curvam diante dos ídolos facilmente se corrompem nos seus costumes e sua cultura. Foi exatamente isso que aconteceu com Israel neste episódio. O povo que havia sido libertado por Deus agora estava escravizado pelos próprios desejos, e estava sem controle.
6. A sexta lição que percebemos é que os ídolos exigem sacrifícios.
Existem dois versículos que demonstram isto:
“E Arão lhes disse: Arrancai os pendentes de ouro, que estão nas orelhas de vossas mulheres, e de vossos filhos, e de vossas filhas, e trazei-mos. Então todo o povo arrancou os pendentes de ouro, que estavam nas suas orelhas, e os trouxeram a Arão.” (Ex 32.2,3)
“E no dia seguinte madrugaram, e ofereceram holocaustos, e trouxeram ofertas pacíficas.” (Ex 32.6)
As pessoas dão ofertas e fazem sacrifícios e holocaustos. Investem tempo e saúde. Colocam seus recursos à disposição dos seus ídolos. É algo estranho, mas muito comum que seguidores de deuses falsos sejam mais liberais nas suas ofertas aos deuses falsos do que aqueles que seguem ao Deus verdadeiro. Muitas vezes ofereceremos aos nossos ídolos recursos, dinheiro e bens que muitas vezes não costumamos entregar a Deus. Grandes sacrifícios de tempo, saúde e dinheiro. Ídolos cobram caro aos seus seguidores.
É impressionante a capacidade que as pessoas têm de gastar fortunas, tempo, energia e dedicação construindo ídolos e investindo em falsos deuses. Grandes capelas, templos suntuosos, imagens gigantescas e caríssimas, sacrifícios dispendiosos. É surpreendente observar como as pessoas se enganam de tal forma que se entregam apaixonadamente àquilo que não é Deus.
Para servir a Deus, doar para a obra de Deus, investir tempo no Reino, dedicar talentos ao Senhor — tudo parece difícil. Mas quando se trata dos ídolos do coração, o investimento acontece com enorme facilidade. E foi exatamente isso que aconteceu aqui. O povo arrancou seus pendentes da orelha e sacrificou ao ídolo. Você alguma vez tirou uma joia sua para dar para a obra de Deus? Algum bem para adorar a Deus? Este texto nos diz que o povo trouxe joias e adereços de ouro. Os ídolos exigem entrega e devoção sacrificial, coisas estas que nem sempre estamos dispostos a fazer ao Deus verdadeiro. O problema é que, no final, ele sempre cobra muito mais do que pode oferecer.
Uma minissérie me chamou a atenção: OSHO. Ela descreve a ascensão e queda de um guru indiano que resolveu fazer uma base religiosa nos EUA. No auge dele, cerca de 15 mil pessoas orbitavam em torno do seu projeto mirabolante de fazer uma cidade. Intelectuais, artistas e pessoas milionárias eram seus seguidores, e ele assumia uma áurea de sacralidade e paz, com seu discurso de sexo livre e liberdade. As pessoas se sacrificavam pelo seu projeto, muitas trabalhando até 16 horas por dia, gratuitamente, para sustentar seus delírios. Ele gostava de Rolls Royce, e chegou a ter 96 destes carros superluxuosos. Seus seguidores milionários doavam estes carros. Ele tinha 2 jatinhos executivos. Costumo brincar com a igreja dizendo que estou trabalhando na Igreja Presbiteriana Central desde 2003, e eles nunca me deram um destes carros...
Esta é uma forma de perceber como os ídolos são capazes de atrair os seres humanos, e quanto as pessoas estão dispostas a doar sacrificialmente para atender o capricho de seus ídolos.
7. Idolatria traz juízo de Deus.
“Disse mais o Senhor a Moisés: Tenho visto a este povo, e eis que é povo de dura cerviz. Agora, pois, deixa-me, para que o meu furor se acenda contra ele, e o consuma; e eu farei de ti uma grande nação.” (Ex 32.9,10)
O pecado da idolatria agride a santidade de Deus, e por isto seu resultado nunca é neutro. A idolatria tem relação direta com Deus. Outros pecados que cometemos são geralmente contra as pessoas, relacionamentos, família, mas este pecado é direto contra Deus. Eu nego minha adoração, rejeito a Deus e me submeto aos meus ídolos com os quais crio uma relação de confiança, segurança e devoção. Ídolos destroem nossa comunhão com Deus, desestrutura nossa alma e traz dura disciplina sobre nós. Por isto a Bíblia afirma que as pessoas se tornarão semelhantes aos seus deuses. Impotentes, facilmente enchendo-se de teias de aranha nos cantos das casas.
Conclusão
Gostaria de trazer três aplicações diante de tais realidades:
A. Precisamos entender que os ídolos nada são e precisamos desmascará-los. Talvez a pergunta clássica para discernir os ídolos do coração seja esta: ““O que você ama, teme ou deseja mais do que a Deus?” Quando você responde honestamente a estas questões nossos ídolos se tornam perceptíveis.
Leon Tolstoi, conhecido literato russo escreveu um livreto com o título: “De que vive o homem?” Sua síntese é que é possível viver sem recursos, na pobreza, na perseguição, em dias amargos, mas é impossível viver sem Deus.
B. Precisamos identificar os ídolos e queimá-los. Normalmente fazemos o contrário: tentamos justificar os ídolos em vez de destruí-los. Arão se explica, tenta racionalizar e conjecturar sobre a loucura do povo, tenta colocar todo evento como algo natural: “Joguei o ouro no fogo e saiu este ídolo.” Richard Foster afirma que precisamos zombar dos nossos ídolos. Ele usa um exemplo simples: se seu ídolo é o dinheiro, doe! Quando você faz isto você está dizendo que sua segurança e confiança não estão no dinheiro, mas em Deus. Você confia nele para sua provisão.
Arão ainda tenta justificar-se dizendo que o povo era inclinado ao mal. Ele apresenta desculpas, afirma que foi pressionado, que não tinha alternativa. Mas idolatria nunca se vence com desculpas.
C. Mas este texto parece querer demonstrar alguma coisa ainda mais visceral para destronar os falsos ídolos. Não basta destruí-los externamente. Moisés fez o povo beber a água misturada com o ouro do bezerro destruído.
“E tomou o bezerro que tinham feito, e queimou-o no fogo, moendo-o até que se tornou em pó; e o aspergiu sobre as águas, e deu-o a beber aos filhos de Israel.” (Ex 32.20). Essa é uma imagem fortíssima. Não parece estranho levar o povo a beber o pó daquilo que anteriormente era o bezerro de ouro. O povo foi levado a beber desta água com ouro em pó. Qual o significado disto?
A lição que este texto parece nos ensinar é que é necessário internalizar a gravidade do pecado. Beber aponta simbolicamente para o fato de que a idolatria não está apenas fora de nós; ela está dentro de nós. É algo que faz parte da nossa natureza e vai até as entranhas da nossa alma.
Da mesma forma que Jesus tenta ensinar aos seus discípulos quando afirma que sua mensagem deve ser internalizada, passar pelas nossas vísceras e veias. Jesus escandaliza seus discípulos ao afirmar: “Quem comer a minha carne e beber o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Porque a minha carne verdadeiramente é comida, e o meu sangue verdadeiramente é bebida. Quem comer a minha carne e beber o meu sangue permanece em mim e eu nele. Assim como o Pai, que vive, me enviou, e eu vivo pelo Pai, assim, quem de mim se alimenta, também viverá por mim.” (Jo 6.54-57)
Moisés leva o povo a beber água com o pó do ouro dos ídolos. A experiência tinha que ser visceral. De forma semelhante Jesus aponta para a necessidade de internalizar sua mensagem. Não é apenas ter conceitos sobre ele, é necessário internalizar quem Jesus é. Seu sangue, seu corpo, precisam invadir a nossa natureza e se tornar parte de nós.
Simbolicamente participamos do corpo e do sangue de Cristo na Ceia, Moisés parece querer demonstrar que o pecado precisa ser reconhecido como algo profundamente entranhado no coração humano. Jesus deseja demonstrar que apenas a experiência da visceralidade da comunhão com ele, poderemos ter uma nova natureza identificada com ele.
Somente quando o sangue de Cristo penetra nas nossas veias, teremos vida. Somente Jesus pode limpar a profundidade do nosso pecado e libertar-nos dos ídolos do coração.
Quando pensamos nisto entendemos que existem dois cálices possíveis: O cálice da idolatria, que gera vazio, licenciosidade, humilhação, escravidão e o esforço constante de tentar convencer a nós mesmos de que aquilo que construímos pode nos salvar, e existe o cálice da comunhão de Jesus Cristo. Ele afirma que, se não comermos da sua carne e não bebermos o seu sangue, não temos parte com Ele. Isso é visceral. Identificação com toda nossa interioridade. É uma união profunda, real e transformadora. Apenas o coração satisfeito pela comunhão viva com Cristo, terá condições de rejeitar as sugestões idolátricas da alma.
D. No final do texto, Moisés diz: “Consagrai-vos hoje ao Senhor.” (Ex 32.29) Somos convidados a rejeitar os ídolos e nos consagrarmos a Deus.
O evangelho requer de nós uma entrega plena. Esta entrega consiste numa constante rejeição aos ídolos, aos substitutos de Deus que tentamos construir para nosso prazer, compensando nosso autoengano. É preciso uma rejeição radical, destruir os ídolos, quebrá-los, reduzi-los a pó, para então nos aproximarmos de Deus e experimentarmos sua graça e beleza revelada na cruz.
Você está disposto a consagrar-se a Deus hoje?
Quais ídolos tem dominado seu coração e tem assumido o lugar de Deus?
O que você confia, deseja e ama mais que a Deus?
Seu coração tem construído substitutos de Deus? Onde você tem posto sua confiança? Gostaria de quebrá-los hoje?