Introdução
Famílias passam por crises conjugais mesmo quando amam o Senhor. Alguém chegou a afirmar que um cristão, ao se casar com uma mulher cristã, não significa que automaticamente terão um lar cristão. Afinal, como pecadores que somos, temos uma forte tendência ao narcisismo e sempre achamos que o outro é quem tem problema.
A Bíblia mostra como o pecado se revela na família. Basta ler as narrativas de Gênesis com atenção para perceber como lares debaixo da promessa de Deus passaram por graves crises.
É isto que vemos neste texto.
Sara está em crise existencial.
Deus, por seus planos misteriosos, não quis dar-lhe um filho. Até hoje, lares que desejam filhos e por alguma razão são impedidos, sofrem muito com a espera e com a situação, mas nos dias de Sara, havia outro componente presente na falta de um filho. Uma mulher estéril era vista como amaldiçoada por Deus.
Então, Sara teve uma ideia original. Tomou sua escrava Agar, e a deu a Abraão para que pudesse ter descendência através dela. Como a escrava não era dona de si mesmo, nem de seu ventre, a criança que nasceria, seria o sucessor da família. A criança seria deles. Sara faz a proposta a Abraão, que “muito a contragosto”, resolveu, “anuir ao conselho de Sarai”. (Gn 16.2)
Esta decisão traria graves consequências. A imediata foi a incapacidade de Sara de lidar com sua escrava, e isto pode ser visto de dois ângulos: primeiro, sua inveja e impotência; segundo, pela possível atitude esnobe de Agar, que agora, empoderada, se sente muito especial. Seja qual for o motivo, logo após o nascimento da criança, Sara faz uma ameaça: “Disse Sarai a Abrão: Seja sobre ti a afronta que se me faz a mim. Eu te dei a minha serva para a possuíres; ela, porém, vendo que concebeu, desprezou-me. Julgue o Senhor entre mim e ti.” (Gn 16.5). Outra tradução livre diz: “É por sua causa que eu estou sofrendo. Fui eu que lhe entreguei a minha escrava nos seus braços. Mas agora que ela está grávida, ela olha para mim com desprezo. Que o SENHOR julgue quem de nós dois é o culpado.” (VFL)
O que ela está dizendo a Abraão é que ele era o culpado daquela situação: “É por sua causa que eu estou sofrendo.” Disse ainda que não estava a fim de caminhar mais naquele relacionamento.
O que Sara disse na lógica de Abraão, na lógica masculina:
“Nós precisamos resolver o problema da sucessão familiar. Você precisa de um herdeiro, então, pegue Agar e tenha filhos com ela”. O homem tem uma perspectiva prática, por isto tem mais facilidade em ir direto ao ponto, e isto muitas vezes se torna um problema na comunicação. Sara oferece Agar a seu marido, mas que esposa faria isto? Sua palavra expressa algo diferente do que o seu coração sentia. Ela não disse o que queria dizer.
A mulher é mais subjetiva.
O que Sara queria dizer: “Eu não suporto mais esta situação sem filhos. Estou a ponto de enlouquecer. Por que Deus não me dá esta benção? Me abraça Abraão, porque eu preciso de seu apoio e cuidado”.
Mulheres dizem sim quando querem dizer não. Sua palavra expressa algo diferente do que o seu coração sentia. As coisas nem sempre são o que parecem ser. Só Deus pode nos ajudar, Nossas diferenças nos forçam a depender de Deus. Sem ele o casamento é impossível!
Abraão, provavelmente não entendeu muita coisa. Aliás, não é fácil entender a psicologia feminina. Não foi Sara quem propôs que Abraão a possuísse? Não foi sua ideia? Por que então ela reage desta forma, afirmando que a situação está insuportável e pedindo que Abraão tomasse uma atitude radical, como ele de fato fez? Mulheres dizem não quando querem dizer sim e dizem sim quando querem dizer não. Lógica simples.
O que Sara não disse e queria dizer?
Um pouco de psicologia feminina, se é que somos capazes de entender, nos mostra que Sara não disse o que precisava dizer, e Abraão não entendeu a mensagem subliminar que ela queria comunicar. Ela estava dizendo que a situação para ela estava insuportável. Sua esterilidade estava gerando outro tipo mais agudo de esterilidade (a esterilidade da alma), que faz aflorar atitudes de falta de bom senso e desespero. Você que é mulher, já considerou o fato de que não consegue verbalizar corretamente sua dor mais profunda?
Sara estava esperando que Abraão acolhesse sua dor, fosse empático a ela. Lamentavelmente, empatia quase nunca é uma resposta masculina. Os homens tendem a serem autistas, criando um super foco naquilo que interessa, com pouca capacidade de ver a coisa de forma correta. Muitos outros são narcisistas, e o mundo gira em torno de seus desejos, imagem, reputação e sucesso.
Em psicanálise, ou na psicologia não diretiva, o terapeuta tenta ajudar a pessoa a verbalizar sua angústia, que nem sempre é fácil. Estes métodos entendem que a resposta correta não será dada por alguém de fora, mas pela própria pessoa, na medida em que fala.
Abraão precisava aprender, como todos os demais homens, que mulheres dizem não quando querem dizer sim e dizem sim quando querem dizer não. Lógica simples. As coisas nem sempre são o que parecem ser. Por esta razão é que nossas diferenças nos forçam a depender de Deus. Sem ele o casamento é impossível. São dois mundos diferentes, dois universos, o masculino e o feminino, com suas peculiaridades, que são colocados juntos. E precisam dar certo…
O que Abraão deveria ter feito:
- Abraçado Sara, declarado seu amor por ela. Abraão não conseguiu dar segurança ao coração de Sara e aumentou a sua dor. O que ela precisava naquele momento era de um abraço e aconchego. Sara precisava de ninho. Ele precisava ter sensibilidade à sua mulher.
- Reafirmar as promessas de Deus. Ele deveria ter lembrado e comunicado a Sara que Deus lhes daria filhos através dela. Que Deus tem seus métodos incompreensíveis, mas que eles seriam surpreendidos. É bom lembrar que a promessa, inicialmente, foi dada a Abraão, Sara não ouviu Deus falando, mas Abraão sim, portanto, ele deveria deixar claro o que Deus queria, e não demonstrar insegurança e incerteza quanto ao que foi dito. Sara cria um atalho, Abraão concorda em entrar por ele, como se Deus precisasse de uma pequena ajuda para cumprir sua promessa. Por isto, posteriormente, quando Deus anuncia a Sara o fato de que ela teria filho aos 90 anos, ele faz questão de enfatizar: “Acaso existe alguma coisa demasiadamente difícil para mim?”
Qual foram os erros de Abraão?
1. Falta de empatia
O que ela queria ouvir era simplesmente que ele a entendia, que a espera certamente era desgastante, mas que ele a amava. Esta era uma hora de reafirmar o seu amor por ela, dizer que precisavam confiar em Deus e depender de Deus. Abraão não conseguiu dar segurança ao seu coração e aumentou a sua dor. A atitude de Abraão gerou dúvida no coração de sua mulher.
Muitas vezes, nós, maridos, criamos enorme insegurança no coração da esposa, porque somos incapazes de entender o que elas estão querendo comunicar.
Prestem atenção neste manual para entender as mulheres... como a linguagem feminina pode estar comunicando algo diferente daquilo que ela diz:
Hum... tô com ciúmes
Sei... Não acredito em nada do que disse
Tá... para de falar
Não é nada... tá tudo errado, tem alguma coisa
Não fala comigo... pede desculpas agora
Esquece... não adianta que não vai entender
Então vai... não vá de jeito nenhum
De boa.. com raiva
Sai daqui agora ... se sair morre
Não precisa vir pra casa.. vem já
Não... sim
Sim ... talvez
Talvez... não
A nossa comunicação é falha, temos dificuldade em entender o que o outro diz. Saint Exupéry, em “O pequeno príncipe”, afirma que “a linguagem é uma fonte de mau entendidos”. Uma das máximas na comunicação é que: “comunicação não é o que outro diz, mas o que ele entende.”
2. Não encorajou a fé de Sara.
Quanto Sara tentou achar uma forma de criar um atalho na promessa de Deus, Abraão deveria ter lembrado e comunicado que Deus havia prometido lhe dar filhos através dela. Que Deus tem métodos incompreensíveis, mas que ele poderia fazer o impossível, como de fato o fez, e que precisavam confiar em Deus.
O que fez Abraão? Ele esqueceu das promessas de Deus e foi incapaz de reafirmar a promessa que havia recebido. Ele precisava recordar as palavras de Deus anteriormente proferidas, e por não se firmar nas promessas de Deus, isto levou Sara a uma profunda crise de fé. Isto está claro em Gênesis 18, como veremos adiante.
Larry Crabb afirma que, no relacionamento conjugal, a mulher busca segurança enquanto o homem busca significado. A mulher quer ter certeza de que ela pode confiar inteiramente no seu marido. O homem que é capaz de incutir isto no coração de sua esposa, é um homem maduro. A mulher, geralmente, não tem dificuldade de acompanhar e seguir seu esposo, desde que demonstre que pode descansar na sua liderança. Esta é uma meta dificilmente alcançável, mas esta é uma meta fundamental se quisermos liderar com eficiência a nossa casa.
A Bíblia afirma que “aquele que perturba a sua casa, herda o vento” (Pv 11.29). Homens falham em não transmitir segurança. Muitas vezes, a insegurança no coração da mulher está diretamente relacionada ao fato de que os homens lideram suas casas com muita ambiguidade. A discussão sobre a “submissão” feminina na relação familiar, que tem causado muita incompreensão, tem a ver com isto. Não é difícil para uma mulher se submeter a um homem que a ame como Cristo amou a igreja. Por isto é que, no mesmo texto em que a Bíblia fala da submissão da mulher, há uma ordem direta de Deus ao homem para que ame sua esposa como Cristo amou: Sacrificialmente e sem reservas. Será que uma mulher terá medo de ser liderada por alguém que a ama como Cristo amou a igreja?
A Bíblia fala que Mical desprezou a Davi. É muito fácil culpar Mical, já que sua atitude foi de fato desprezível. Mas existem algumas coisas na dinâmica de sua história que precisam ser consideradas. Poucas pessoas na Bíblia passaram por situações tão anacrônicas quanto Mical. Ela amava Davi e seu pai a casou com ele. Tempos depois, por ter protegeido seu marido e para machucar Davi, Saul a entrega a Paltiel, com quem viveu cerca de 13 anos. Depois, foi obrigada a voltar para Davi, que a estas alturas, já havia se casado com outras 6 mulheres. Ela deixou de ser a princesa, e agora era dividida em relacionamentos complexos. O texto bíblico parece demonstrar que seu relacionamento com Paltiel era muito apaixonante, pelo menos da parte dele. Para demonstrar poder, Davi simplesmente ordena que ela retorne como sua esposa. Será que ela queria voltar? Alguém a perguntou?
Podemos imaginar que seu desprezo pela espiritualidade de Davi tivesse raízes mais profundas, provavelmente ligado ao desprezo e indiferença que ela sentia nos mecanismos de poder com os quais teve que enfrentar. O fato dela ter desprezado a atitude espiritual de Davi pode estar conectado à indiferença que ela sentia da parte dele. Seria desprezo pela sua espiritualidade ou desprezo por Davi?
Certa vez, um seminarista me relatou que estava fazendo trabalho com a mocidade de uma igreja no interior de São Paulo. No culto à noite assentou-se ao lado da esposa do pastor, e enquanto ele pregava, ela o cutucava declarando cinicamente: “hipócrita! Falso!” Mulheres que veem de forma tão clara a contradição da fé de seus maridos, encontram terreno fértil para uma fé superficial ou sarcasmo com as coisas de Deus.
Abraão foi um ótimo crente, sendo considerado o pai da fé, mas deixou lacunas terríveis na sua função de marido. Podemos perceber isto em vários momentos.
Em relação a Agar
- Em Gn 16.6-8, vemos que Sara passou a humilhar Agar que estava grávida.
Quando o conflito brotou na sua casa, faz todo sentido, seja do ponto de vista prático quanto cultural, que ele ficasse ao lado de Sara, mas Agar era uma mulher, escrava, que estava grávida de um filho seu. Ela precisava ser protegida. Entretanto, ele a deixa na mão de Sara que queria destruir a “concorrente” e a expulsa de casa, obrigando-o a caminhar para o deserto, totalmente despreparada e desprotegida.
Deus, na sua infinita graça, se aproxima dela e a protege (Gn 16.7-8), orientando-a a se humilhar e retornar para sua casa. Não há sinal de Abraão neste momento de dor e desamparo, nem sequer enviou alguém para dar o suporte que fosse necessário, nem a preparou ou aconselhou nesta arriscada tarefa que ela fez de tentar voltar para sua parentela que ficava no Egito, uma longa viagem pelo deserto.
- Em Gn 21.9-20, Surge outra situação de conflito envolvendo Agar, agora acompanhada de seu filho Ismael.
Desta vez Abraão demonstrou cuidado. “Levantou-se, pois, Abraão de madrugada, tomou pão e um odre de água, pô-los às costas de Agar, deu-lhe o menino e a despediu.” (Gn 21.14), mas isto não os impediu de correrem grave risco que comprometia a integridade de ambos: “Ela saiu, andando errante pelo deserto de Berseba. Tendo-se acabado a água do odre, colocou ela o menino debaixo de um dos arbustos e, afastando-se, foi sentar-se defronte, à distância de um tiro de arco; porque dizia: Assim, não verei morrer o menino; e, sentando-se em frente dele, levantou a voz e chorou.” (Gn 21.15-16).
A situação dela e de seu filho é perigosíssima. Eles entregam o ponto, e mais uma vez, quem cuida diretamente é o próprio Deus, que além de protegê-los, ainda faz promessa para o filho. “Ergue-te, levanta o rapaz, segura-o pela mão, porque eu farei dele um grande povo.” (Gn 21.18)
Abraão foi insensível com Agar por duas vezes e até mesmo com seu filho Ismael. Sua atitude revela pouco cuidado e proteção, coisas estas que até pessoas desconhecidas precisam receber. A graça de Deus se mostra surpreendente. Nestas duas situações, vemos Deus protegendo Agar e Ismael. O que a livra da morte não é a atitude protetora de Abraão, mas a intervenção sobrenatural de Deus. É Deus quem cuida, não Abraão.
Em relação a Sara
No caso de Sara, veremos que Abraão também demonstra negligência, que o levou até mesmo a instrumentalizá-la para proteger sua integridade física.
- Sara no Egito - Gn 12.10-20.
Logo após receber as promessas de Deus para sua vida e para sua futura geração, o que vemos Abraão fazendo? Ele a entrega nas mãos dos reis do Egito. “Havia fome naquela terra; desceu, pois, Abrão ao Egito, para aí ficar, porquanto era grande a fome na terra. Quando se aproximava do Egito, quase ao entrar, disse a Sarai, sua mulher: Ora, bem sei que és mulher de formosa aparência; os egípcios, quando te virem, vão dizer: É a mulher dele e me matarão, deixando-te com vida. Dize, pois, que és minha irmã, para que me considerem por amor de ti e, por tua causa, me conservem a vida.” (Gn 12.10-13)
Para se proteger, ele expõe Sara a uma situação constrangedora: “Viram-na os príncipes de Faraó e gabaram-na junto dele; e a mulher foi levada para a casa de Faraó.” (Gn 12.15). O texto não diz quanto tempo ela ficou no palácio, mas a narrativa bíblica parece demonstrar que passou um tempo considerável. “Este, por causa dela, tratou bem a Abrão, o qual veio a ter ovelhas, bois, jumentos, escravos e escravas, jumentas e camelos.” Considerando este tempo que parece ser bem grande, fica uma pergunta inquietante: Teria Sara sido possuída por algum destes príncipes? O texto afirma: “Porém o Senhor puniu Faraó e a sua casa com grandes pragas, por causa de Sarai, mulher de Abrão.” (Gn 12.17)
- Sara no Neguev — Abimeleque — Gn 20.1-13.
Cenário semelhante aconteceria no Neguebe. “Disse Abraão de Sara, sua mulher: Ela é minha irmã; assim, pois, Abimeleque, rei de Gerar, mandou buscá-la. Deus, porém, veio a Abimeleque em sonhos de noite e lhe disse: Vais ser punido de morte por causa da mulher que tomaste, porque ela tem marido. Ora, Abimeleque ainda não a havia possuído; por isso, disse: Senhor, matarás até uma nação inocente?” (Gn 20.2-4). Neste texto, nos é dito que ela chegou a ir para casa de Abimeleque, para fazer parte do seu harém, mas Deus interveio e não permitiu que ele a possuísse.
Abraão barganha Sara, instrumentaliza, negocia. Seu relacionamento é substituído por negociações, Sara se transforma em instrumento de barganha. Como isto deve ter chegado ao coração de Sara? Será que a realidade cultural daquele tempo, tão distante da nossa, seria suficiente para explicar a atitude de Abraão?
Certamente, sua atitude pode ter um impacto direto na fé de Sara, como veremos adiante. Quando maridos não são firmes nas suas convicções, tendem a esvaziar o coração de suas esposas na sua espiritualidade.
Assim como Deus foi compassivo com Agar, ele se demonstrou cuidado especial com Sara, em ambas, trazendo-a de volta para seu projeto, de através dela, criar um povo para seu louvor e glória, e através deste povo abençoar todas as famílias da terra.
Graças a Deus pela misericórdia de Deus, porque Abraão mesmo não encorajou e protegeu a fé de Sara.
Quem havia recebido a promessa? “Disse também Deus a Abraão: A Sarai, tua mulher, já não lhe chamarás Sarai, porém Sara. Abençoá-la-ei e dela te darei um filho; sim, eu a abençoarei, e ela se tornará nações; reis de povos procederão dela. Então, se prostrou Abraão, rosto em terra, e se riu, e disse consigo: A um homem de cem anos há de nascer um filho? Dará à luz Sara com seus noventa anos? Disse Abraão a Deus: Tomara que viva Ismael diante de ti. Deus lhe respondeu: De fato, Sara, tua mulher, te dará um filho, e lhe chamarás Isaque; estabelecerei com ele a minha aliança, aliança perpétua para a sua descendência.” (Gn 17.15-19)
Naturalmente crer nesta promessa era algo desafiador. “Então, se prostrou Abraão, rosto em terra, e se riu.” (Gn 17.16) O próprio Abraão teve dificuldade em crer. O pai da fé também enfrenta dúvidas na sua fé. Sua incredulidade certamente atingiu diretamente o coração de Sara.
O texto bíblico mostra que Abraão não foi seguro quando ela propôs que ele possuísse Agar. Esta era a hora dele afirmar sua fé nas promessas de Deus: “Deus prometeu que nos daria filho através de você! Nosso papel é crer. Não precisamos fazer nada para que suas promessas se cumpram. Deus não precisa de nossa ajuda.” Isto não apenas consolaria o coração de Sara, como fortaleceria sua fé. Quem recebeu a promessa foi Abraão, ele simplesmente deveria crer e reafirmar sua fé nas promessas de Deus.
Algum tempo depois deste episódio narrado em Gênesis 16, Deus veio até à sua tenda, e curiosamente, apesar de se encontrar Abraão, seu interesse estava em Sara, pois logo após as conversas preliminares em Gênesis 18, ele pergunta a Abraão:
“Sara, tua mulher, onde está? Ele respondeu: Está aí na tenda. Disse um deles: Certamente voltarei a ti, daqui a um ano; e Sara, tua mulher, dará à luz um filho. Sara o estava escutando, à porta da tenda, atrás dele.” (Gn 18.9-10).
No capítulo 18 Deus não quer falar com Abraão, mas com Sara. Ele não quer mandar recado por Abraão. Deus agora deseja falar, diretamente com Sara, que por razões naturais (sua idade) e por causa de sua fé frágil, encontra dificuldade em crer. Como boa mulher, curiosa, estava bisbilhotando a conversa daqueles homens com Abraão, escutando à porta da tenda.
Deus a confronta com seu riso de incredulidade. Deus a confronta: “Riu-se, pois, Sara no seu íntimo, dizendo consigo mesma: Depois de velha, e velho também, o meu senhor, terei ainda prazer?” (Gn 18,12).” “Mas o Senhor disse a Abraão: "Por que Sara riu e disse: ‘Poderei realmente dar à luz, agora que sou idosa? Existe alguma coisa impossível para o Senhor? Na primavera voltarei a você, e Sara terá um filho". Sara teve medo, e por isso mentiu: "Eu não ri". Mas ele disse: "Não negue, você riu". (Gn 18.13-15 NVI).
Sara não tinha mais ovulação. Seu ciclo menstrual já não existia. Como mulher ela sabia muito bem, pela prática e observação da vida, como estas coisas funcionam. Ela tenta negar seu riso, mas Deus sabe de todas as coisas. Não sei se creríamos se nos fosse dada promessa tão grande. O Novo Testamento, demonstra o desafio: “Abraão, esperando contra a esperança, creu, para vir a ser pai de muitas nações, segundo lhe fora dito: Assim será a tua descendência. E, sem enfraquecer na fé, embora levasse em conta o seu próprio corpo amortecido, sendo já de cem anos, e a idade avançada de Sara, não duvidou, por incredulidade, da promessa de Deus; mas, pela fé, se fortaleceu, dando glória a Deus.” (Rm 4.18-20) A Bíblia declara que o corpo de Abraão era já “amortecido”, isto é, ele não tinha mais função erétil. Passado o susto, o texto afirma o que aconteceu com Abraão: “crendo contra a esperança, creu...” Sua fé teve que superar a incredulidade inicial.
O autor da carta aos hebreus, faz uma consideração semelhante: “Por isso, também de um, aliás já amortecido, saiu uma posteridade tão numerosa como as estrelas do céu e inumerável como a areia que está na praia do mar.” (Hb 11.12). Pela segunda vez a Bíblia reafirma a incapacidade fisiológica de Abraão de responder a estímulos sexuais. Não é sem razão que a Bíblia afirma que “... creu, no Deus que vivifica os mortos e chama à existência as coisas que não existem.” (Rm 4.17) O corpo de Abraão não dependia mais de estímulos sensoriais adequados, ele precisava de ressurreição...
Sara faz uma pergunta intrigante: “Riu-se, pois, Sara no seu íntimo, dizendo consigo mesma: Depois de velha, e velho também o meu senhor, terei ainda prazer?” (Gn 18.12) Há um detalhe curioso neste texto. Ela não pergunta se sendo velha teria ainda filho, mas se teria ainda prazer. Estaria Sara se referindo ao prazer sexual? Ela fala do prazer de ter sexo ou do prazer de ter filho? Particularmente creio que ter um filho é uma grande alegria e inspiração, mas fazer sexo é algo que dá prazer... ou deveria dar.
Seja como for, o fato é que, quando Deus faz promessa, mesmo sendo feita diretamente para Sara, ela encontra dificuldade em crer. Certamente a inconsistência de Abraão como marido pode ter contribuído para a falta de fé de Sara. O que fazemos no casamento pode inspirar, encorajar, estimular a fé do cônjuge, ou enfraquecer sua capacidade de crer.
Diante disto precisamos fazer uma pergunta pessoal e honesta: A dinâmica de sua fé inspira seu cônjuge a confiar e amar a Deus? A colocar sua vida nas mãos deste Deus, mesmo quando as coisas parecem impossíveis? A crer e investir sua vida no reino de Deus?
Ao ouvir esta estranha promessa de Deus, Sara ri, mas seu riso não era de fé, de alguém que está admirada e impressionada com uma promessa divina que a leva a rir de alegria e expectativa. Seu riso é de incredulidade, de suspeita. Por isto ela é censurada por Deus.
A falta de sensibilidade de Abraão provocou graves problemas de fé no coração de Sara. Por não ter entendido a mensagem que ela envia, e não der dado a resposta de fé adequada ao momento, ele gerou insegurança em seu coração e enfraqueceu sua fé. Ele foi incapaz de perceber as necessidades da sua esposa, e não conseguiu transmitir segurança nas suas convicções espirituais
3. Confusão familiar que duraria para sempre, com muita guerra e hostilidade
A atitude de Abraão, trouxe um problema imediato, mas que teria um efeito profundo que atravessaria milênios. Deste relacionamento, nasceria Ismael, que é o pai dos árabes. Os árabes são filhos de Ismael, e os judeus são filhos de Isaque. Por causa de sua insensibilidade, Abraão jogaria seu filho com Agar, na incerteza do deserto. Abraão possivelmente já havia socorrido pessoas no deserto, ou ouvido histórias sobre a inclemência do frio durante a noite e o intenso e sufocante calor durante o dia, mas agora se torna uma pessoa que parece perder sua humanidade e manda Agar sair de casa. Não fosse a intervenção graciosa de Deus, amos teriam morrido no deserto.
Apesar de toda esta insólita situação, o custo ainda vai se demonstrar mais caro, nas consequências históricas que adviriam deste conflito familiar: A briga entre judeus e árabes. Este é o preço que pagamos quando temos comportamentos como os de Abraão. O preço histórico da amargura, ódio, competição, que perdura através das gerações. Nada é mais cruel que um conflito hediondo entre membros de uma família. Sabe quando esta briga entre os descendentes de Ismael e Isaque vai acabar? Nunca! Esta é uma briga histórica e familiar, e tudo começou com a atitude leviana de Abraão. Não é de se admirar que este conflito dure tanto tempo e não acabe: é uma briga de família.
Muitas vezes há grande esforço de líderes mundiais em estabelecer a paz entre árabes e judeus. Este esforço é louvável e deve ser sempre procurado. Entretanto, logo depois de suprimirem um conflito, surge outro imediato e eles voltam a brigar. É uma briga que traz um DNA histórico, e não surgiu ontem porque o judeu invadiu as Colinas de Golã, uma região geopolítica, conquistada por Israel da Síria durante a Guerra dos Seis Dias, e posteriormente anexada pelo governo de Israel. Ele vem desde as origens. Este conflito é apenas parte de toda uma teia de ódio e hostilidade. E isto começou na casa de Abraão, quando ele não teve sensibilidade em antecipar o pedido atravessado de sua esposa.
4. Abraão ignora a promessa de Deus de que ele teria filhos com Sara.
Abraão perdeu a benção de transferir e comunicar sua fé de forma eficiente a sua esposa. A crise de Sara revela sua suspeita. Certamente Abraão havia compartilhado com Sara sua experiência com Deus descrita em Gênesis 12.
“Então o Senhor disse a Abrão: "Saia da sua terra, do meio dos seus parentes e da casa de seu pai, e vá para a terra que eu lhe mostrarei. "Farei de você um grande povo, e o abençoarei. Tornarei famoso o seu nome, e você será uma bênção. Abençoarei os que o abençoarem, e amaldiçoarei os que o amaldiçoarem; e por meio de você todos os povos da terra serão abençoados". Partiu Abrão, como lhe ordenara o Senhor, e Ló foi com ele. Abrão tinha setenta e cinco anos quando saiu de Harã. Levou sua mulher Sarai” (Gn 12.1-5).
Sara sempre esteve ao lado de Abraão, acompanhando talvez apreensivamente a grande guinada da vida deles quando seu marido decidiu mudar para uma terra longínqua por causa de uma convicção espiritual. Sara e Abraão saem da Mesopotâmia e vão para Canaã. É provável que Abraão tenha conversado com ela algumas vezes sobre a promessa de que Deus faria deles uma grande nação. O tempo passou e a promessa não cumpriu. O que vemos em Gênesis 16 é uma mulher jogando a toalha, questionando a validade das promessas que Deus lhe havia feito e trazendo uma solução humana, querendo dar um jeitinho nas promessas de Deus. Porque a promessa não se cumpriu logo, as coisas se complicaram e era necessário “ajudar Deus” neste processo e nas suas promessas. Quando Abraão concordou com ela em possuir Agar, ele gerou grandes dúvidas sobre suas experiências espirituais das quais falava com tão grande convicção.
Assim como Sara, muitas vezes tentamos colocar remendos na Palavra de Deus, quando parece radical demais... Nesta hora, Abraão deveria ter refirmado sua fé. Deixado claro o que havia recebido de Deus. Infelizmente ele não fez.
O apóstolo Paulo, afirma que maridos devem amar suas mulheres, mas nem sempre entendemos o efeito abençoador que este amor gera em relação à espiritualidade familiar. Paulo compara o amor de um homem com uma mulher ao amor de Cristo pela sua igreja. Jesus morreu pela sua igreja “para que a santificasse... para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa” (Ef 5.26,27). É importante frisar as expressões “para que” e “para”, pois falam de propósitos. Cristo quer nos apresentar a Deus. Esta é a mesma ideia que precisamos ter quanto ao nosso casamento. Nossa missão é ajudar um ao outro no processo de se aproximarem de Deus, tornando-se discípulos mais profundos e autênticos, encorajando sua fé.
Ao se referir à missão do casamento, Tim Keller afirma:
“Qual é, então, a finalidade do casamento? É ajudar um o outro a alcançar sua identidade gloriosa, a nova criação, na qual Deus, a seu tempo, nos transformar... é olhar para o outro, vislumbrar a pessoa que Deus está criando e dizer: “vejo a identidade que Deus está formando em você, e vibro com isto! Quero participar do processo... cada cônjuge deve, então, entregar-se ao casamento como instrumento para essa obra, e visualizar o dia em que ambos estarão juntos diante de Deus, vendo cada um ser apresentado em beleza glória imaculadas”.
Ao invés de ajudar Sara a colocar sua confiança em Deus, Abraão lhe roubou o pouco de fé que havia em seu coração. Maridos e mulheres são hábeis em retirar a fé do coração do outro, a colocar em xeque a fé. Sara, na sua falta de fé, quer apressar as promessas, ou pior ainda, dar um jeitinho nas promessas de Deus. “Já que ele não cumpre o que prometeu, nós iremos dar um jeito na sua promessa” Abraão não conseguiu se firmar nas gloriosas promessas de Deus e sustentá-las de forma eficiente. Abraão era ótimo crente, mas péssimo marido, e por causa disto, abalou profundamente a fé de Sara.
A atitude de Abraão gerou descrença no coração de Sara. Abraão falhou em expressar sua confiança nas promessas de Deus e ajudar Sara na caminhada de fé.
Conclusão
i. Mulher diz não quando quer dizer sim, e sim quando quer dizer não. Preste atenção não apenas no que ela fala, mas aquilo que seu corpo fala, ou que a entonação de voz sugere! E mais importante ainda: O que ela não diz, mas seu copo diz. Seu silêncio.
ii. Homens assumem comportamentos levianos, quando não consideram os desejos mais profundos de sua esposa e as instrumentaliza – tome cuidado com atos levianos. O preço é caro!
iii. Crise feminina pode ser uma grande oportunidade para reafirmarmos nosso amor e compromisso. São ocasiões oportunas para imprimir a fé em Deus em seus corações. Errar em entender os anseios femininos pode ter como resultado uma esposa rixosa, reativa, amarga e eventualmente até cruel como se tornou Sara. Errar em transmitir as verdades de Deus, pode comprometer sua fé e espiritualidade.
iv. Não é fácil construir uma visão a dois, pois temos ângulos e perspectivas e percepções emocionais diferentes. Homem e mulher percebem a vida de forma distinta.
v. Não fazer a coisa certa traz consequências geracionais – Abraão feriu mortalmente a saúde emocional de Sara e causou um conflito milenar. Construa uma trilha que facilidade a jornada de seus filhos e não uma estrada que sacrifique os netos.
vi. Não precisamos dar um jeitinho nas promessas de Deus – Deus é fiel e zela pela sua Palavra. Apenas confie no que ele disse, ainda que as circunstâncias pareçam desfavoráveis. Afinal, ele é Deus ou não é? O que Deus disse a Sara não pode ser esquecido por nós: “Acaso existe alguma coisa demasiadamente difícil para Deus?”
vii. Entenda o grande chamado de Deus: Ajudar um ao outro no amadurecimento da fé e no compromisso com Jesus. Todos passamos por crises de fé, ter alguém que nos encoraje é uma benção maravilhosa.
Lembre-se:
As coisas não são o que parecem ser... As coisas são o que são.
Mas outro aspecto final, essencial, fundamental, precisa ser percebido aqui, quando olhamos o casamento pela ótica do evangelho.
Somos, por natureza, uma contradição embrulhada. Quando analiso a vida de Abraão, com suas incoerências e fragilidades, sem perceber, me coloco nas contradições e impotência de nossa própria natureza. O Evangelho revela quem eu sou, e me denuncia.
O problema do coração é o coração do problema. Paulo faz uma pergunta fundamental: “Quem, porém, e é suficiente para estas coisas?” (2 Co 2.14). Ele não responde imediatamente sua pergunta, mas se caminharmos um pouco veremos que ele responde a esta pergunta no capítulo seguinte: “Não que por nós mesmos sejamos capazes de pensar alguma coisa, como se partisse de nós; pelo contrário, a nossa suficiência vem de Deus.” (2 Co 3.5)
Percebemos nitidamente duas realidades: A fraqueza e inconsistência humana e a suficiência de Deus.
Isto nos obriga a pensar na necessidade de arrependimento e confissão. Precisamos nos encontrar com as sombras e mecanismo estranhos do próprio coração, ser honesto em discernir nossos próprios pecados. Isto nos leva ao arrependimento: voltar atrás, reconhecer o caminho errado e não querer prosseguir nele.
Me obriga ainda a olhar para a beleza da obra de Deus, a crer nas possibilidades que a graça de Deus é capaz de gerar em nossas vidas. Apesar de todo fracasso de Abraão, das inconsistências de Sara, Deus fez desta família alguma coisa gloriosa. Uma grande nação. Dele veio nosso Salvador, Cristo Jesus. Abraão é o pai da fé. Um título até irônico para alguém que vacilou tanto. O Evangelho não é sobre nós, sobre o que podemos fazer, mas sobre Deus, aquilo que ele é capaz de fazer. Nestas horas posso dizer: “Pai, reconheço meu pecado. Preciso da tua graça. Preciso da tua ajuda. Obrigado pela tua misericórdia.”
Isto me leva a refletir sobre a graça e o poder de Deus revelados no evangelho. Nunca devemos esquecer que aquilo que a Bíblia nos revela, não é sobre nós, mas sobre Deus. Isto traz maturidade, confissão e acolhimento da graça em nossas vidas.