segunda-feira, 6 de abril de 2026

Mc 15.33-41 O desamparo de Deus

 




Introdução:


De acordo com os evangelhos, 7 frases foram proferidas por Jesus enquanto se encontrava na cruz:


"Mulher, eis ai teu filho; filho, eis ai tua mãe"
"Hoje mesmo estarás comigo no paraíso"
"Pai, perdoa- lhes, porque não sabem. Que fazem"
“Tenho sede"
"Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito"
"Tudo está consumado"
"Deus meu, Deus meu; por que me desamparaste”


Certamente todas estas frases trazem conceitos valiosos, hoje vamos estudar a última declaração. Qual é o significado deste brado de Jesus? “Deus abandonou Deus. Quem pode compreender isto?” (Lutero).

 

Abandono: Um sentimento

 

Para alguns, este lamento reflete apenas o sentimento que Cristo experimenta ali na cruz, nada mais que um sentimento. Jesus se sentiu só, e seu brado reflete este aspecto humano de sua personalidade. Muitas vezes sentimos o que os filósofos têm chamado de “solidão cósmica”.

 

Você mesmo deve ter experimentado este senso de orfandade e solidão. Quantas vezes a vi as pessoas dizendo que Deus se esqueceu delas, e que não sabem se Ele tem conhecimento das coisas que lhe estão acontecendo. Habacuque, Jeremias, Jó, foram alguns destes personagens que relatam seu sentimento de abandono. O salmista várias vezes expressa também esta sensação de abandono. “O teu Deus, onde está?”. Em determinados momentos de nossa vida, Deus parece desaparecer. Naturalmente Deus não cochila nem dorme, ele é o guarda de Israel. Quando tudo parece perdido, o encontramos nos lugares mais inusitados, como Agar, que no desespero foge de casa indo para o deserto e ali encontra Deus, e isto a impacta tanto que diz: “Certamente este é um Deus que vê”.

 

Quando Jesus afirma "Deus meu, Deus meu; por que me desamparaste” estaria expressando este sentimento de desamparo. Aqui vemos o Filho de Deus, uma das três pessoas da Trindade, bradando ao Pai e perguntando sobre o sentimento de abandono que enfrenta. Aqui vemos Deus se sentindo abandonado pelo próprio Deus.

 

Sou muito simpático a esta idéia, e aprecio tremendamente o diálogo narrado no livro “A Cabana”, quando Mackenzie, sentindo-se abandonado por Deus por causa de uma tragédia acontecida com sua pequena filha, conversa com ele.

 

         -Jamais pense que o que meu filho optou por fazer, não nos custou caro. O amor deixa uma marca significativa. Ele declarou baixinho e gentilmente, nós estávamos lá, juntos.

Mack ficou surpreso.

              -Na cruz? Espere aí, eu pensei que você o tinha abandonado. Você sabe: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?” – era uma das citações das Escrituras que frequentemente assombrava Mack na sua grande tristeza.

              -Você não entendeu o mistério naquilo. Independentemente do que ele sentiu no momento, eu nunca o deixei.

              -Como pode dizer isso? Você o abandonou, exatamente como me abandonou!

              -Mackenzie, eu nunca o abandonei e nunca deixei você.

              -Isto não faz nenhum sentido – reagiu ele rispidamente.

              -Sei que não, pelo menos por enquanto. Mas pense nisto: quando tudo que consegue ver é sua dor, talvez você perca a visão de mim, não é?

 

Sou extremamente solidário com esta visão. Mas será que o brado de Jesus realmente falava de seu sentimento, e não de uma realidade de desamparo e abandono experimentado pelo Filho de Deus?

 

Abandono: Uma realidade

 

Para outros, este brado nos leva para o cerne do Evangelho e nos ajuda a entender por que Jesus precisou ser abandonado na cruz. Vemos aqui o paradoxo do Deus da vida enfrentando a morte, o Deus da comunhão desamparado, solitário e abandonado. Por que foi necessário tal abandono? Não é a Trindade a melhor comunidade como afirmou Leonardo Boff. O que este texto nos quer ensinar?

 

Jesus experimentou um abandono real de Deus. É exatamente isto que o evangelho nos ensina. Jesus precisava ser crucificado para lidar com o problema do pecado humano e satisfazer as exigências do caráter de Deus. Ele satisfez a ira divina. O salvador precisava entrar na "arena" humana sob as mesmas regras. Para ser o "Segundo Adão": Assim como a humanidade caiu através de um homem (Adão), a restauração precisava vir através de um homem (Rm 5.12-19). Ele precisava viver a vida que não vivemos e obedecer onde falhamos. Para pagar a nossa fiança, Ele precisava de um corpo capaz de sofrer e de sangue capaz de ser derramado (Hb 9.22). Para ser um Sumo Sacerdote misericordioso ele precisava sentir fome, cansaço, tentação e dor para poder interceder por nós como alguém que conhece a nossa pele (Hb 4.15).

 

Por outro lado, ele precisava ser Deus, para que a eficácia fosse infinita. O pecado contra um Deus infinito gera uma dívida infinita. Apenas alguém com natureza divina poderia oferecer um sacrifício de valor infinito, capaz de cobrir os pecados de toda a humanidade através dos séculos. Além do mais, ele precisava suportar a ira Divina. Nenhum ser humano comum suportaria o peso total do julgamento de Deus contra o pecado sem ser aniquilado. Somente Deus poderia absorver a ira divina na cruz e não ser destruído por ela. Outro aspecto é que era necessário perfeição moral. Somente Deus é intrinsecamente santo. Para ser o "Cordeiro sem mancha", Ele precisava de uma natureza que não fosse contaminada pelo pecado original.

 

A mediação perfeita é uma ponte que toca os dois lados. imagine um abismo entre Deus e o Homem. Uma ponte que só toca um dos lados não serve para a travessia. Se Jesus fosse apenas Deus, Ele não poderia representar a humanidade (não seria um de nós). Se fosse apenas Homem, Ele não teria poder para nos elevar até Deus (não teria o valor necessário). Como disse o antigo teólogo Anselmo de Cantuária: "A dívida era do homem, mas somente Deus podia pagá-la; por isso, o Redentor precisava ser o Deus-Homem".

 

Porque o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e dar a sua vida em resgate de muitos.” (Mc 10.45) É necessário sublinhar a palavra resgate.

 

Resgate é um pagamento que se dá para que alguém seja liberto. A expressão proferida por João Batista, no início do evangelho de João, diz claramente: “Ele é o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”. Jesus veio para lidar com o pecado de toda humanidade. Na linguagem de Darrell W. Johnson, “ele veio para realizar um trabalho com implicações cósmicas”[1]

 

A morte de Cristo não é acidental, mas faz parte de um projeto de Deus para a humanidade.
Os teólogos chamam a isto de "Pacto da redenção", feito pelas três pessoas da Trindade nos tempos eternos. Deus fez o homem para viver com ele em plena comunhão, mas o homem decidiu viver de forma autônoma e independente, e pela sua rebeldia se distanciou e se afastou da comunhão com o Pai. Deus então vem em busca deste homem para restabelecer sua comunhão e restaurar o mundo consigo mesmo:

 

A. A redenção foi planejada desde a eternidade – O precioso sangue de Cristo, fazia parte do plano de Deus. Por isto Pedro afirma que o sangue de Cristo era conhecido, “com efeito, antes da fundação do mundo, porém manifestado no fim dos tempos, por amor de vós.” (1 Pe 1.20). Em Apocalipse afirma que o Cordeiro “for morto desde a fundação do mundo.” (Ap 13.8) Afinal, quando Jesus morreu? Há dois mil anos atrás, sob o poder de Poncio Pilatos, ou na eternidade? As duas respostas estão corretas.

 

B. Prometeu que enviaria um descendente de Eva para esmagar a cabeça da serpente. (Gn 3.15). Este é um anúncio de seu plano para a humanidade. E para demonstrar que a roupagem que o homem faz é ineficaz para cobrir sua vergonha e nudez, que seus esforços próprios são insuficientes, providenciou vestimentas para Adão e Eva, e os cobriu (Gn 3.21).

 

B. Preparou um povo, com a idéia dos sacrifícios e oferendas, para entender o sacrifício que seu amado Filho faria em resgate dos homens. A idéia do redentor e das ofertas substitutivas vai assumindo todas as figuras sacrificiais do AT. Ainda hoje nos assustamos com a quantidade de animais oferecidos no AT, mas isto nada mais era que uma forma de comunicar simbolicamente, seu plano final através do Cordeiro eterno que seria morto, afinal, "é impossível que o sangue de touros e bodes remova pecados". Então, porque eram feitos estes sacrifícios? O autor da carta aos hebreus afirma eram "sombras" ou "tipos" que apontavam para Jesus (Hb 10.1). Foi o método que Deus usou para que, didaticamente, o povo hebreu entendesse o sacrifício de seu filho na cruz.

 

C. A primeira epístola de Pedro, afirma que "fomos resgatados pelo precioso sangue, como de Cordeiro, sem defeito e sem mácula. Sangue este conhecido com efeito, antes da fundação do mundo, porém manifestado no fim dos tempos, por amor de vós." (1 Pe 1.18-20) O que podemos entender de tais afirmações? O sangue do Cordeiro foi conhecido "antes da fundação do mundo".

 

Ao juntarmos estes textos, percebemos que a morte de Cristo não foi um acidente de percurso, mas fazia parte essencial no projeto de Deus para nos reconciliar consigo mesmo. Jesus morreria, uma vez por todas, pelos homens. Por esta razão, Jesus foi sempre claro quanto à sua morte. Ele disse isto várias vezes aos seus discípulos. "Começou Jesus Cristo a mostrar aos seus discípulos que era necessário seguir para Jerusalém, sofrer muitas coisas dos anciãos... Ser morte e ressuscitado ao terceiro dia.” (Mt 16.21) Sua morte não foi acidental, mas vital e necessária.

 

Sendo assim, morrer na cruz era seu inexorável destino. Sendo a cruz inevitável, então, porque ele afirma que estava desamparado, e pergunta ao Pai, por que ele o desamparara?
Ao morrer na cruz, Jesus estava assumindo o lugar de maldição em lugar da humanidade. O justo pelos injustos. “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio, maldição em nosso lugar, porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro” (Gl 3.13). Ao morrer desta forma, ele estava atendendo uma necessidade legal, atendendo uma exigência que era feita pela lei. A Bíblia ensina que "A alma que pecar, essa morrerá" (Rm 6.23). Se Deus simplesmente ignorasse o nosso pecado e nos salvasse, ele não estaria sendo justo, pois quebraria sua própria lei.

 

C. S. Lewis, traduz isto muito corretamente no livro, "O leão, o feiticeiro e o guarda-roupa", quando Aslam morre no lugar de Edmundo, por ele ter quebrado uma lei de Nárnia e ter traído seus irmãos. Sua sentença era condenação e morte, mas Aslam assume seu lugar.

 

Se Deus quebrasse sua própria lei, seria como a atitude de um juiz iníquo, que conhecendo a lei, a ignora para proteger alguém. Se Deus agisse desta forma, seria injusto. Ouvi falar de um juiz que teve que julgar seu próprio filho. A pena pelo delito que ele cometera era uma multa muito alta, e o juiz aplicou corretamente a multa que puniria seu próprio filho, baseada no código penal. Assim que leu a sentença, sabendo que seu filho não teria condições de assumir e resgatar sua culpa, ele sofreu a penalidade em seu lugar. Se ele apenas absolvesse seu filho, não teria sido justo. Foi assim que Deus fez. "Aquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nele fossemos feitos justiça de Deus." (2 Co 5.21)

 

Este brado de dor na cruz revela a angústia que ele estava experimentando em si mesmo ao receber toda ira do julgamento de Deus sobre si. O profeta Isaias diz:

Certamente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus e oprimido. Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz, estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados... Todavia, ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando der ele a sua alma como oferta pelo pecado, verá a sua posteridade e prolongará os seus dias; e a vontade do Senhor prosperará nas suas mãos.” (Is 53.4,5,11)

 

O que fez Jesus na cruz? Ele assumiu todo pecado da humanidade. A sua dor e seu grito de solidão é resultante do fato de que ele, mais do que ninguém, sentiu a dor e desamparo que o pecado causa aos seres humanos, em toda sua intensidade.

 

A Bíblia diz que Jesus enfrentou a maldição e o juízo de Deus em si mesmo. Ele se tornou maldito por nossa casa. Por isto Paulo afirma que "Justificados, pois, pela fé, temos paz com Deus" (Rm 5.1), e, "Nenhuma condenação há para aqueles que estão em Cristo Jesus" (Rm 8.1).

 

Jesus satisfez a justiça divina. A condenação que estava sobre nós foi paga. Deus imputa agora, a todos os que olham para esta cruz, a justiça de Cristo. A pena foi paga, e fomos declarados justos, absolvidos. Estamos livres aos olhos de Deus. Deus imputou esta justiça a nós que recebemos a Cristo em nossos corações. “Imputar” é atribuir a outrem, algo que ele não possui. Todo julgamento e condenação foram colocados sobre Jesus.  Seu brado reflete o desamparo e o peso do pecado. Toda ira e maldição foram colocados em Jesus.

 

No AT, os animais eram sacrificados, apontando para o sacrifício perfeito que seria realizado em Cristo. Agora, na cruz, vemos todas as profecias e todo o simbolismo do Antigo Testamento se cumprindo. Por esta razão, o véu se rasga em duas partes, de alto a baixo (Mc 15.38). Não um ato humano, mas divino. Não é de “baixo para o alto”. Deus demonstra que através do seu Filho não há mais separação, ou culpa. Tudo está pago! O véu do templo, a que se refere o evangelista, era extremamente espesso, entretecido com 72 dobras torcidas, cada uma delas com 22 fios, da largura de uma mão. Tinha 18 metros de altura e 9 de largura, e agora, a divisão entre justos e pecadores, entre o Deus santo e o homem que se afastara deste Deus, é desfeita pela obra de seu amado Filho.

Jesus sofre realmente o abandono e o desamparo de Deus, assumindo minha culpa e meu pecado. Jesus não apenas sente o abandono, mas de fato, é abandonado.

 

Conclusão


Conta-se que um garotinho ganhou um lindo barquinho que havia sido feito artesanalmente pelo seu pai, e ele não cessava de brincar e admirar-se com este brinquedo. Um dia, após uma chuva, resolveu colocá-lo num pequeno rio que passava próximo à sua casa, mas a correnteza forte o arrastou, e o menino ficou ali chocado e chorando o presente perdido.  Alguns dias depois, passando pelo centro da cidade, viu seu barquinho à venda numa loja de artesanato. Tentou convencer o dono que aquele era o seu barquinho, mas o comerciante afirmou que o tinha comprado de um determinado homem, e que se ele quisesse reavê-lo teria de pagar o preço estipulado. Ele foi correndo para sua casa, para ver se conseguiria juntar o dinheiro para ter novamente seu presente de volta, e, depois de muito esforço, conseguiu reunir a grana, foi à loja, e readquiriu seu estimado bem. Ao sair dali, com seu barquinho, abraçava-o, e lhe dizia: agora você é meu, por duas razões: primeiro, foi meu pai quem o fez; segundo eu o comprei.
Foi isto que Deus fez por nós. Ele nos fez para ele, para louvor da glória de sua graça, somos obra dele, mas nos distanciamos e nos privamos de sua companhia, agora ele envia seu próprio filho, e ele nos “comprou”, (este é um termo muito presente no NT), para que novamente voltássemos para ele, de onde nunca deveríamos ter saído.



[1] Johnson, Darrell W. – Who is Jesus? Vancouver, Regente College Publishing, 2011, pg  13

domingo, 5 de abril de 2026

Jo 20.11-18 Mulher, por que choras?

 


segunda-feira, 16 de março de 2026

Mc 10.2-12 É Lícito?