Local: Igreja Presbiteriana de Anápolis | Data: 16 de agosto de 2026
Vamos abrir a palavra do Senhor para estudá-la, Salmo 10. Eu vou ler aí na versão Nova Almeida Atualizada, ela diz o seguinte a palavra do Senhor:
"Por que, Senhor, te conservas longe? Por que te escondes nas horas da angústia? Com arrogância os ímpios perseguem os pobres; que eles sejam apanhados nas ciladas que armaram. Pois o perverso se gloria da sua própria cobiça; o avarento maldiz o Senhor e blasfema contra ele em sua soberba. O perverso não investiga; tudo que ele pensa é que Deus não existe. São prósperos os caminhos dele em todo o tempo; muito acima e longe dele estão os teus juízos. Quanto aos seus adversários, ele a todos trata com desprezo, pois lá no seu íntimo ele diz: 'Eu jamais serei abalado, de geração em geração nenhum mal me sobrevirá.' A sua boca está cheia de maldição, enganos e opressão; debaixo da língua ele tem insulto e maldade. Põe-se de tocaia nas aldeias, trucidando inocentes nos lugares ocultos. Seus olhos espreitam o desamparado; ele se põe de emboscada como leão na sua caverna, está de emboscada para enlaçar o pobre; apanha-o e o arrasta com a sua rede. Abaixa-se e rasteja; nas suas garras caem os necessitados. Diz ele no seu íntimo: Deus se esqueceu, virou o rosto, nunca verá isso. Levanta-te, Senhor, ó Deus, ergue a tua mão, não te esqueças dos pobres. Porque o ímpio despreza a Deus, dizendo em seu íntimo que Deus não lhe pedirá contas. Tu, porém, tens visto isso, porque atentas ao sofrimento e à dor, para que os possas tomar em tuas mãos. A ti se entrega o desamparado; tu tens sido o defensor do órfão. Quebra o braço do perverso, do malvado; pede contas da sua maldade até que descubras de todo. O Senhor é rei eterno; da sua terra somem as nações. Tens ouvido, Senhor, o desejo dos humildes; tu lhes firmarás o coração e ouvirás o seu clamor, para fazeres justiça ao órfão e ao oprimido, a fim de que o ser humano, que é da terra, não volte a espalhar o terror."
Essa é a palavra do Senhor!
Falsos pressupostos
É interessante como na ciência, na história, na humanidade, na nossa vida pessoal, facilmente construímos falsos pressupostos e nos firmamos neles, nos ancoramos em algumas ideias, princípios, alguma visão de alguma coisa que consideramos extremamente relevante e verdadeiro, mas que são falsos pressupostos. E nem sempre os nossos falsos pressupostos — na maioria das vezes, obviamente — são criados para o mal. Às vezes a gente se ampara em determinados pressupostos crendo que esses pressupostos são bons.
Há um exemplo clássico na história da medicina que pode nos ensinar um pouco disso. Em 1950, uma droga prometia um ótimo tratamento para gestantes, servia tanto de sedativo como para combater náuseas, e foi introduzida no mercado e, de fato, era capaz de trazer alguns benefícios. O nome dessa droga era Talidomida. E se você estudou um pouco disso, sabe a tragédia que foi esta droga. Uma das médicas da época, Frances Kelsey, ao dar o parecer sobre ela, afirmou que não era uma droga confiável, mas ainda não tinha provas suficientes para tirá-la do mercado. O resultado foi que milhares de crianças no mundo nasceram sem braços ou sem pernas, completamente deformadas, por causa do efeito da Talidomida.
Falsos pressupostos.
Esse texto aqui é interessante porque o salmista é um homem de Deus e está vivendo uma crise. Aliás, há muitos Salmos chamados salmos “cânticos de lamento”, ou salmos de crise. Entre 150 salmos, temos 67 salmos que são chamados “salmos de crise”. Um dos homens mais fantásticos que eu conheci foi Carlos Bosma, professor de hebraico, holandês e missionário no Brasil, cuja família foi parcialmente trucidada durante a Segunda Guerra Mundial, por terem protegido os judeus contra os nazistas. Seu pai crente fiel, lia todos os dias os salmos e os transformava nas suas orações. Um dia Bosma lhe perguntou: "Pai, por que que você lê tantos os salmos?" Ele disse: "Porque os salmos dizem exatamente o que eu sinto, os salmos refletem o meu coração".
No Salmo 10, o salmista vai denunciar pressupostos que os homens ímpios constroem e como eles se tornam em fundamentos. Ele começa a olhar esses pressupostos e desmascará-los, mostrando o risco e o perigo dessas concepções para a alma.
Primeiro pressuposto: Não há Deus
Primeiro pressuposto é o de que não há Deus. "Em sua soberba o perverso não investiga; tudo que ele pensa é que Deus não existe". (Sl 10.4) Na arrogância o perverso diz: "Deus não existe". É um falso pressuposto que tem o poder de dominar o coração e fazer sentido. O ímpio não reconhece um Deus por detrás das coisas, que governa a história, na história. Deus não existe! Richard Dawkins, famoso físico inglês, chegou a afirmar que Deus é um delírio. Freud afirmou que a religião é uma neurose obsessiva compulsiva. Marx afirma que “a religião é o ópio do povo”, e assim por diante... Tais homens estabelecem esses pressupostos e vivem neles, e eles se tornam o fundamento de suas vidas. "Deus não existe". O texto é interessante em dizer que eles não investigam. Eles não analisam isto de forma profunda.
Estamos vivendo uma época muito interessante, da questão de crer ou não em Deus. Tal pensamento sempre existiu, mas tem sido mais sistemático ultimamente. No campo da biologia, somos obrigados a estudar nos meios acadêmicos a teoria da evolução, como se ela fosse verdadeira e não apenas uma teoria. Entretanto, tal teoria não é ainda a grande questão filosófica. Há algo por detrás desta linha de pensamento que é bem mais perigoso: O conceito da “Geração espontânea”, também desenvolvida por Darwin, que afirma não existir uma inteligência por detrás das coisas existentes, tudo é resultado da evolução cega; não existe uma mente inteligente por detrás do universo e das coisas que existem. Apenas a casualidade.
Muitos cientistas cristãos contemporâneos estão trabalhando numa tese alternativa para essa questão da teoria do criacionismo/evolucionismo, e uma das coisas que eles têm trabalhado, é a questão do Genesis design. O falecido Dr.Adauton Lourenço, doutor em biologia e presbítero da nossa igreja, falava o seguinte: "Como cientista eu não defendo o criacionismo bíblico, eu defendo o criacionismo científico". Mesmo pessoas, até mesmo não cristãs, atualmente, tem admitido a ideia de um ser superior no processo da criação, isto é chamado de intelligent design. Eles creem numa mente superior por detrás de toda criação. Este é um pressuposto divino diferente do pressuposto ateu que sustenta a geração espontânea, afirmando que as coisas surgiram sem nenhuma mente, nenhuma força, nenhuma potência sobrenatural.
O que a Bíblia está dizendo é que o perverso no seu coração, não indaga, que não há Deus, é o que ele pensa. Esse é um falso pressuposto. O salmista, no Salmo 14, versículo 1, afirma o seguinte: "Diz o insensato no seu coração: Não há Deus". Então, o primeiro falso pressuposto que a palavra de Deus está combatendo, é o de que não existe uma inteligência por detrás da criação, um ser inteligente que rege e governa a humanidade. Não há sentido, proposito, inteligência, apenas o acaso e o nihilismo. O salmista diz: "Eles não investigam, eles simplesmente afirmam isso aí", e por isso desprezam a Deus.
Segundo pressuposto: Não há justiça
Segundo falso pressuposto está no versículo 11: "Diz ele no seu íntimo: Deus se esqueceu, virou o rosto e nunca verá isto". É o pressuposto de que não há justiça, não há juízo, não há Deus por detrás e, por conseguinte, não há também justiça. É a não admissão de uma lei moral. O mundo é governado por leis cegas e não podemos de forma nenhuma imaginar a possibilidade de que tais leis sejam capazes de estabelecer a lei moral. Tudo é válido. Você faz o que você acha correto, o que você sente que é importante, e o critério moral é subjetivo. Você define o que é certo e errado.
C.S. Lewis, no primeiro capítulo do seu livro, Cristianismo Puro e Simples, fala sobre o certo e errado. Ele diz: "Não faz sentido nenhum dizer que algo é certo ou errado se você não pressupõe que exista algo que seja absoluto sobre a ética”. Não faz sentido dizer que algo é certo ou que é errado. Ele usa uma alegoria interessante: "Imagine que você esteja dentro do ônibus, e um adolescente entra e tira uma senhora idosa do seu assento para tomar seu lugar. Certamente muitos protestariam evocando as prioridades dos idosos, o respeito humano, etc. Mas por que que deveríamos dizer que isto é certo ou é errado se não existe lei moral, nem absolutos? Por que que é possível dizer que algo é certo ou errado?
Este texto fala exatamente sobre isso: não há juízo, não há lei moral, não há nenhum parâmetro para dizer: "Ok, isso é certo, isso é errado". Filosofia antecede a ética. O que você pensa é o que você faz. Teologia antecede moral; a sua concepção sobre Deus vai determinar sua atitude sobre comportamento e atos. O que o texto está dizendo é que muitos afirmam não existir lei moral, nada que governe o mundo, não há justiça. "Deus se esqueceu, virou o rosto, isso nunca será visto". Ninguém verá. Ou, como disse um escritor ateu: "Sem Deus, tudo é permitido!".Se não existe uma lei moral, tudo é permitido.
Aliás, essa ideia não é nova, porque ela foi o cerne do pressuposto da serpente no Éden. Não foi isso Satanás fez? Estabeleceu um diálogo que começou com botânica, falando de frutas, o que podia e não podia comer e de repente estão discutindo teologia. E quando entra na questão teológica, a serpente diz: "É certo que Deus realmente disse que vocês não podem comer do fruto do bem e do mal?". Ela disse: "De todos os frutos podemos comer, mas do fruto do bem e do mal não podemos, porque se fizermos isto, morreremos". A serpente então induz um pensamento: "Isso é bobagem! É certo que você não vai morrer, porque Deus sabe que no dia em que vocês comerem do fruto do bem e do mal vocês serão iguais a ele". Não há juízo moral, pode desobedecer e pecar que não há consequência, pode fazer coisas erradas que isso não trará nenhuma implicação. Ora, esse é o falso pressuposto de que não existe uma lei moral.
Isso muitas vezes acontece porque a justiça não é aplicada imediatamente ao mal. Isso às vezes nos perturba, porque gostaríamos de ver o julgamento imediato. Precisamos entender, porém, que trata-se de um falso pressuposto. Existe lei moral, há juízo, existe o certo e o errado. Você pode até pensar que Deus não está vendo, não sabe de nada, não vê, mas este é um falso pressuposto.
Terceiro pressuposto: Falsa segurança
O terceiro pressuposto está no versículo 6: "Pois lá no seu íntimo ele diz: Jamais serei abalado, de geração em geração nenhum mal me sobrevirá". Nada vai me acontecer, eu estou seguro, posso fazer o que eu quiser, estou firme, Deus se esqueceu, Deus não vê, não há juízo moral, então eu posso fazer o que quiser. Este pensamento é um pensamento muito complexo e muito atual. Como foi nos dias de Noé, estamos seguros de que o juízo não virá, nada vai acontecer, está tudo certo, não precisamos ter nenhuma preocupação.
O apóstolo Pedro, escreve: "Onde está o juízo de Deus? porque desde quando as coisas foram criadas até hoje tudo permanece do mesmo jeito.” (2 Pe 3.8-9) As pessoas zombeteira e ironicamente perguntam. Ele responde: "Essas pessoas ignoram que Deus é longânimo e está dando tempo para que todos se arrependam. “A perspectiva do apóstolo é de que, na verdade, Deus está dando tempo para que haja arrependimento. A misericórdia e a longanimidade de Deus é que impedem de não haver julgamento imediato dos pecados.
É mais ou menos como a história de um rapaz que convive com um colega blasfemo, orgulhoso, que diz: "Rapaz, nada acontece. Deus não vê nada, não há interferência de Deus na humanidade.” E diz mais: "Vou insultar Deus e você verá que ele não faz nada.” E olhando para o céu disse: “Ei, Deus, você está me ouvindo? Se está pode jogar uma praga em cima de mim, manda um raio para me destruir". E o rapaz cristão estava tremendo de medo, mas o rapaz termina seus impropérios e nada acontece. Cheio de empáfia afirma: "Está vendo? Nada acontece". Naquela tarde, o rapaz crente mal podia aguardar para procurar o velho pastor e conversar. "Pastor, como é que pode? O cara desafiou a Deus, blasfemou e insultou e nada aconteceu". E o pastor olhou para ele, deu uma risadinha no canto da boca e disse: "Meu filho, Deus a vida inteira tem suportado o pecado de toda raça humana e as tolices que os homens praticam. Você acha que ele iria perder a paciência com um bobo como esse?"
É isto que precisamos entender: “Deus é longânimo, e não quer que nenhum se perca".
Pressupostos verdadeiros
Está, agora meus queridos irmãos, esse texto aqui vai trazer alguns pressupostos corretos que precisamos entender. Falamos dos três falsos pressupostos: Não há Deus, não tem juízo moral e a falsa segurança. Mas este texto vai nos ensinar alguns pressupostos muito interessantes.
Primeiro pressuposto: O Senhor vê. "Tu, porém, tens visto isso, porque atentas ao sofrimento e à dor". (Sl 10.14) O Senhor vê. Deus está presente e não está calado. Deus vê, está atento ao que está acontecendo, não ignora os eventos e sabe exatamente o que está acontecendo. E a melhor definição, talvez aqui, seria a do Dr. Francis Schaeffer, que escreveu um livro cujo título é: "Deus está lá e não está calado".
Muitas vezes a aparente inação de Deus pode nos levar a achar que não somos vistos, que Deus não vê o que acontece, não observa. Os salmistas, muitas vezes, no meio da aflição dizem: "Por que te esqueceste de mim?". Um senso de abandono, um senso de que Deus é alheio. Muitas vezes temos esta impressão quando estamos no meio da tempestade, do furacão. É muito comum nós esquecermos que Deus vê.
Há um texto na palavra de Deus muito bonito em Gênesis 16.13. Agar, concubina de Abraão, é expulsa de casa, sai chorando, perdida, desorientada, caminhando a ermo, e não sabe onde vai chegar ou se chegará a algum lugar. No meio de sua solidão, num beco sem saída, o sol insolente, Deu e ela diz: "Certamente tu és o Deus que vê". Eu acho bonito isso. Que coisa fantástica é entender que Deus vê. Quando nós sentimos abandonados, na solidão e dominados pela tristeza. Que benção poder vislumbrar a graça de um Deus que vê. Esse é um pressuposto fundamental para nós. Nunca podemos nos esquecer que Deus está vendo o que estamos passando.
Segundo: Deus age. Este texto vai nos ensinar outra coisa maravilhosa: "Tu, porém, tens visto isso... porque atentas ao sofrimento e à dor, para que os possas tomar em tuas mãos". (Sl 10.14) Deus age. Não apenas vê, mas age. Deus protege o vulnerável. É isso que esse texto está dizendo.
No vs 18, este princípio se complementa: "Para fazeres justiça ao órfão e ao oprimido, a fim de que o ser humano que é da terra não volte a espalhar o terror".
Deus faz justiça ao órfão e ao oprimido. "A ti se entrega o desamparado; tu tens sido defensor do órfão". (Sl 10.14) Deus protege as pessoas vulneráveis.” O Antigo Testamento fala de três grupos vulneráveis: O estrangeiro, o órfão e a viúva. O senso de orfandade é um extremamente pesado, mas a Bíblia faz questão de dizer, que Deus é o Deus do órfão e da viúva. Ele não apenas vê, mas ampara o vulnerável, o desamparado, o órfão, o oprimido. Ele atenta ao sofrimento e à dor, cuida do desamparado, defende o órfão. Deus não apenas vê, mas age. Deus age na nossa solidão, no abandono, no desamparo. Que pressuposto maravilhoso e que bom saber que no meio da dor nós não estamos sós. Deus está agindo, ainda que agora a gente possa olhar e aparentemente não vermos esse movimento de Deus, mas ele está presente.
Terceiro: O Senhor governa. "O Senhor é rei eterno". (Sl 10.16) Ele não apenas é Rei, mas é eterno. Ele não apenas é eterno, mas é Rei. Ora, se nós falamos de rei, estamos falando de alguém que governa, que dirige, tem poder, conduz e coordena a história. É fantástico crer nisso.
Quando João, o velho apóstolo, foi colocado exilado na ilha de Pátmos por ser uma persona non grata do Império Romano, para morrer ali fazendo trabalho escravo — e ele já era idoso — A Bíblia mostra que uma das suas primeiras visões foi do governo de Deus. “Olhei, e vi o céu aberto, e no ceú um trono, e alguém sentado nele.” (Ap 4.1). Eu gosto de refletir sobre a descrição da sua visão: "Vi um trono e alguém sentado". Nós precisamos entender que Deus governa, está assentado no trono, e o trono não está vazio, alguém está sentado nele, alguém governa esse universo aparentemente caótico. Precisamos dar transcendência à nossa vida, porque muitas vezes olhamos só no plano humano e terreno e interpretamos a vida de forma apenas horizontal, sem sobrenaturalidade. Há uma frase fantástica de Abraham Kuyper, que foi primeiro-ministro da Holanda: "Não há nenhum centímetro em todo o universo, em todas as galáxias, que Deus não reivindique: 'Isso é meu'.
Tudo pertence a Deus. “Ao Senhor pertence a terra e tudo o que nela se contém, o mundo e os que nele habitam.” (Sl 24.1). Tudo está debaixo da sua coordenação. Estrelas, cosmo, macrocosmo, microcosmo, tudo isso está debaixo do domínio soberano de Deus". Ele governa todas as coisas. É muito bom saber que Deus governa, porque muitas vezes nós estamos debaixo de governos extremamente mal-conduzidos e a gente se assusta, mas o texto faz questão de dizer: "O Senhor governa".
Quarto Pressuposto: Deus julga - "Quebra o braço do perverso e do malvado; pede contas da sua maldade até que a descubras de todo. O Senhor é rei eterno". (Sl 10.15) O Senhor julga.
Essa questão do julgamento de Deus é algo complexo para nossa cultura, que quer pensar em Deus apenas como Deus de amor, misericórdia e graça, e todos estes aspectos fazem parte dos atributos divinos. Não somos consumidos por causa da misericórdia de Deus. Nosso Deus é misericordioso, deixa de dar o que merecemos. É gracioso, e nos dá o que não merecemos. Mas uma das coisas que a Bíblia faz questão de frisar é que Deus julga.
Recentemente ouvi um pastor conhecido no Brasil, aparentemente intelectual, com linguagem sofisticada dizendo: "Eu não posso entender um Deus que coloca no inferno alguém por causa dos seus pecados". Estou falando de um pastor, viu, gente? Isto é assustador porque não veio da boca de um ímpio. Isto naturalmente é o que o ímpio pensa. Este pastor continua: "Não posso aceitar que o Deus amoroso coloque alguém no inferno".
A questão da justiça ela pode ser colocada em dois parâmetros: um pessoal e outro cósmico.
O pessoal é mais ou menos o seguinte: nós que não gostamos de pensar no Deus de justiça, reivindica e evoca justiça quando somos tratados de forma desumana ou injusta. Protestamos e dizemos: "Queremos justiça!". Interessante, né? Deus não pode julgar, o Deus que é santo não pode julgar, mas nós que somos pecadores, queremos justiça. Então, do ponto de vista pessoal, você se autodenuncia quando diz: "Eu quero justiça". Por que você quer justiça? Porque na verdade, justiça é alguma coisa extremamente importante.
Do ponto de vista da justiça “cósmica”, também ansiamos por justiça, uma justiça que seja eterna, uma justiça que não seja passional como a nossa justiça, uma justiça que não seja impulsiva como a nossa justiça, ansiamos por justiça divina que repare todo mal dos poderosos que esmagam o aflito, dos dominadores que exploram os pobres. Por isso a Bíblia Sagrada está constantemente falando do Deus que julga. Esse texto é veemente ao afirmar: “Deus quebra o braço do perverso e do malvado, pede contas da sua maldade até que ele descubra de todo". Deus vai julgar.
A questão do julgamento de Deus na história, se torna desafiador, principalmente quando colocamos um olhar no Evangelho. Por quê?
A questão é a seguinte: Como o Deus justo deixa de julgar nossos pecados? Não é complexo? Justiça é dar a cada um segundo seus merecimentos. Enquanto misericórdia é Deus deixar de dar o que merecemos e graça é Deus dar o que não merecemos. Justiça significa: Deus dá o que nós merecemos. O que merecemos? Por sermos pecadores, merecemos julgamento e condenação.
Entretanto, quando olhamos para o Evangelho, não vemos exatamente isso. Será que Deus não aplica a justiça? Mas se Deus é misericordioso, onde está a justiça? A Bíblia nos fala de algo revolucionário, você não vai ouvir isso em nenhuma outra religião, mas vai ouvir isso na Bíblia.
O que acontece: Deus nos absolve não por causa de nossa justiça. Nós não temos justiça própria para chegar diante de Deus e dizer: "Deus, me julgue de acordo com a minha justiça” e assim sermos absolvidos. De acordo com nossa justiça estamos perdidos.
A nossa justiça não é inerente em nós. O que Deus fez?
O apóstolo Paulo, na carta aos Romanos, capítulo 3, explica: “Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus, a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos.” (Rm 3.23-25)
Deus fez uma proposta. “A quem Deus propôs.” Colocar o Filho dele para nos substituir na cruz. Jesus vem exatamente com essa missão: Satisfazer a justiça de Deus. Mediante o seu sangue temos a redenção.
O Deus que é justo não poderia deixar de nos condenar por causa dos nossos pecados, e então, enviou Jesus para ser nossa propiciação, nos substituir. Toda ira de Deus que poderia vir sobre nós, foi colocada sobre Jesus. Ele é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, Ele é o nosso substituto e assume o nosso lugar na cruz. Ele paga por mim o que eu não sou capaz de pagar. A justiça foi feita, mas a justiça não foi aplicada a mim. Jesus entra como meu Justificador. É um Justificador judicial e legal perante Deus. Ele pagou a minha culpa pelo seu sangue. Eu estou livre, não porque tivesse em mim mesmo qualquer coisa para me justificar diante de um Deus justo, mas porque Deus colocou em Cristo a minha culpa, a minha condenação e o meu pecado.
Olha o que que o profeta Isaías escreveu 600 anos antes de Cristo: “Certamente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus e oprimido. Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo caminho, mas o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos.” (Is 53.4-6)
É um texto autoexplicativo. Deus colocou sobre Jesus a minha iniquidade, o meu pecado, a minha culpa. Versículo 7: "Ele foi oprimido e humilhado, mas não abriu a sua boca; como cordeiro foi levado ao matadouro, como ovelha muda perante os seus tosquiadores, ele não abriu a sua boca".
Deus coloca em Cristo toda a culpa do meu pecado. Jesus assumiu o meu lugar. Ele é o Cordeiro que tira a minha culpa. Ele morreu por mim. Deus me vê em Cristo. Quando ele olha pra mim ele não vê a minha culpa, mas o sangue de Cristo e sua justiça, os méritos e a justiça de Cristo foram aplicados a mim. Esta é a mensagem central do Evangelho, tão esquecida, tão mal compreendida.
O Deus justo exerce justiça. Ele não deixou impune nossos pecados; Jesus os pagou na cruz. Dentre as declarações que Jesus fez na cruz, uma delas diz: "Tudo está consumado". A melhor tradução seria: "Tudo está pago". A dívida que havia contra mim foi paga. Jesus assumiu meu lugar. Isso é o Evangelho. É isso que a Palavra de Deus nos ensina. O juízo foi aplicado, o Deus justo colocou sobre seu Filho toda a sua ira e Jesus me substituiu para me libertar e me dar vida.
Essa é a palavra de Deus. Que o Senhor coloque isso no nosso coração. Que Ele aplique essa verdade à nossa vida, em nome de Jesus.
Oração:
Ó Pai, obrigado por Jesus, porque sem Ele estaríamos condenados diante de um Deus puro e justo como o Senhor. Mas por meio dele encontramos absolvição. Obrigado por tão grande obra que Cristo fez, pelo amor do Senhor por nós. Nós te louvamos, nós te adoramos, em nome de Jesus. Amém.