Leitura Bíblica:
“E Moisés foi educado em toda a ciência
dos egípcios e era poderoso em palavras e obras. Quando completou quarenta
anos, veio-lhe a ideia de visitar seus irmãos, os filhos de Israel. Vendo um
homem tratado injustamente, tomou-lhe a defesa e vingou o oprimido, matando o
egípcio. Ora, Moisés cuidava que seus irmãos entenderiam que Deus os queria
salvar por intermédio dele; eles, porém, não compreenderam. No dia seguinte,
aproximou-se de uns que brigavam e procurou reconduzi-los à paz, dizendo:
Homens, vós sois irmãos; por que vos ofendeis uns aos outros? Mas o que agredia
o próximo o repeliu, dizendo: Quem te constituiu autoridade e juiz sobre nós?
Acaso, queres matar-me, como fizeste ontem ao egípcio? A estas palavras Moisés
fugiu e tornou-se peregrino na terra de Midiã, onde lhe nasceram dois filhos.”
Leiamos ainda:
“Pela fé, Moisés, apenas nascido, foi
ocultado por seus pais, durante três meses, porque viram que a criança era
formosa; também não ficaram amedrontados pelo decreto do rei. Pela fé, Moisés,
quando já homem feito, recusou ser chamado filho da filha de Faraó, preferindo
ser maltratado junto com o povo de Deus a usufruir prazeres transitórios do
pecado; porquanto considerou o opróbrio de Cristo por maiores riquezas do que
os tesouros do Egito, porque contemplava o galardão.” (Hb 11.23-26)
Hoje gostaria de meditar de forma mais
intensa no registro de At 7.22, que nos diz: “E Moisés foi educado em toda a
ciência dos egípcios e era poderoso em palavras e obras.” Associando-o ao
texto de Hb 11.26: “Porquanto considerou o opróbrio de Cristo por maiores
riquezas do que os tesouros do Egito, porque contemplava o galardão.”
A pergunta que me vem à mente quando leio
este texto é a seguinte: Como a fé de Moisés sobreviveu num ambiente tão hostil
como o Egito, imerso na idolatria, no orgulho
intelectual e na arrogância deste poderio militar? Moisés cresceu como filho da filha de Faraó, sendo
instruído em toda a sabedoria dos egípcios. Viveu sob a influência direta de
uma cultura politeísta e pagã, oposta ao Deus dos hebreus. Todo o cenário
aponta para um ambiente
hostil à fé. Apesar
de pagão, este ambiente preparou Moisés. A Bíblia afirma que ele se tornou
"poderoso em palavras e obras" (At 7,22), habilidades úteis
para sua futura missão. Miraculosamente, Moisés não foi absorvido pela cultura pagã.
O ambiente religioso do Egito nos
dias de Moisés, situado no contexto do Novo Império, por volta dos séculos
XIII-XII a.C.) era caracterizado por um forte politeísmo,
no qual a religião estava intrinsecamente ligada à política, à natureza e à
vida cotidiana.
Os
egípcios cultuavam centenas de deuses que representavam forças da natureza,
conceitos cósmicos e aspectos da vida. As principais divindades incluíam Rá
(deus Sol), Osíris (deus dos mortos), Ísis (mãe/magia), Horus (céu/faraó) e
Seth (caos). Os faraós
também eram considerados divindade, não era apenas um governante, mas seres divinos ou semidivinos,
intermediário entre os homens e os deuses. Eram responsáveis por manter Maat (ordem,
justiça e harmonia cósmica) contra o caos. Os templos eram considerados casas
dos deuses, não apenas locais de adoração pública. A religião egípcia era
obcecada pela vida eterna: mumificação, túmulos elaborados e o Livro dos Mortos eram essenciais para garantir que a alma
sobrevivesse no submundo.
A
narrativa bíblica do Êxodo coloca o monoteísmo de Moisés (adoração ao único
Deus, Yahweh) em confronto direto com o sistema politeísta. As dez pragas são claramente,
julgamentos divinos sobre os deuses egípcios, mostrando a superioridade do Deus
de Israel sobre as forças que os egípcios adoravam. Era um ambiente de crenças profundas na intervenção
divina em todas as áreas da vida, com Faraó no centro, contrastando
radicalmente com a crença monoteísta judaica.
Quando
olhamos a educação acadêmica de Moisés no Egito, a pergunta que surge é: Como
sua fé conseguiu se manter firme numa cultura tão pagã? A Bíblia afirma que “Moisés foi educado em toda a ciência dos egípcios.”
Mas,
não será este o grande desafio que temos nos nossos dias, de manter a fé firme
numa cultura pagã? Ou será que somos ingênuos em acreditar que, porque nossos
alunos frequentam uma universidade evangélica, eles estão protegidos da cultura
secular de nossos dias?
Moisés
teve que se inserir numa cultura pagã e manter viva a sua fé num ambiente
hostil ao pensamento monoteísta e à ética judaica. E nós? Nossos filhos? Será
que temos um ambiente que nos ajude a ter uma fé bíblica? Eventualmente somos
até encorajados a ter algum tipo de crença, mas que tipo de fé nossos filhos
estão sendo assimilado?
Nesta
semana, uma sobrinha neta da família, com 12 anos de idade, colocou no seu
Instagram um post exaltando Iemanjá, uma das divindades mais reverenciadas nas religiões
de matriz africana (Candomblé e Umbanda), conhecida como a rainha do mar, mãe
dos orixás e orixá da fertilidade. Sara e eu ficamos abalados e chocados, com seu post, pois,
afinal de contas, seu pai cresceu num lar cristão, e se afastou da fé, mas
agora Satanás está cobrando o pedágio pelo desprezo do pai à fé na qual ele foi
criado. Sua filha está cultivando uma atração a Iemanjá. Quem lhe ensinou isto?
Talvez sua mãe, que aparentemente não professa nenhuma fé, mas certamente está
cercada por um ambiente místico e pagão e que a tem atraído a este
direcionamento maligno.
Este
é o problema da cultura pagã, ela nos enreda.
Os
Guinnes, discípulo de Francis Schaeffer, usa uma profunda metáfora do poder da
cultura. Seu artigo é uma das
críticas mais agudas e necessárias para a liderança cristã contemporânea. Em
seu artigo, “O poder da Jibóia” extraído do livro "Prophetic
Untimeliness"), Guinness utiliza a imagem da jiboia para ilustrar como
a modernidade e o secularismo tratam a Igreja.
O primeiro ponto que ele destaca é o
método da Jiboia. Ela abraça, não morde. A jiboia não mata sua presa por
veneno ou por um ataque violento e repentino. Ela mata pelo abraço. Ela se
enrola na vítima e, a cada vez que a presa expira (solta o ar), a jiboia aperta
um pouco mais, até que não haja mais espaço para a respiração e o coração pare.
Guinness
argumenta que o maior perigo para a Igreja hoje não é a perseguição violenta (o
rugido do leão), mas a acomodação cultural (o abraço da jiboia). O mundo
moderno "abraça" a igreja, oferecendo relevância, sucesso e métodos
eficientes, mas, nesse processo, sufoca a essência do Evangelho.
O
autor alerta que, na tentativa de sermos "relevantes" e
"modernos", acabamos adotando estratégias, linguagem e valores do
mundo secular, e ai vem o sufocamento: Quando a igreja se torna indistinguível
da cultura ao seu redor — focando apenas em entretenimento, marketing e
resultados numéricos — ela "expira" sua identidade bíblica, e a
cultura secular "aperta" o cerco, ocupando o espaço que deveria ser
da verdade revelada.
A secularização
não é apenas o afastamento das pessoas da igreja, mas a igreja operando com uma
mentalidade secular. É o pastor que se torna um CEO, a adoração que se torna um
show e a fé que se torna um produto de consumo. A jiboia da modernidade não nos
pede para negar a Deus; ela apenas nos convida a viver e gerir a igreja como se
Deus não importasse para os processos práticos e o antídoto, a solução proposta
não é o isolamento do mundo, mas o que ele chama de "intempestividade".
O pastor e a igreja devem ter a coragem de estar "fora de sintonia"
com o seu tempo quando esse tempo está fora de sintonia com Deus. É a
capacidade de ser moderno no uso das ferramentas, mas antimoderno na
fidelidade aos princípios eternos.
O dilema é sempre desafiador:
Contextualização excessiva:
Sincretismo
Não contextualização:
Obscurantismo
A igreja está
inserida numa cultura. Qual é a nossa cultura?
Partimos
do pressuposto de que nossa cultura é cristã, que estamos num ambiente seguro
para proteger a fé, mas a verdade é que todos os filmes que você assiste,
reels, Instagram, influencers, todos eles, são marcados por uma cultura
secular, ou se for religiosa, sincrética e mística. Nossa cultura é anticristã.
Nancy Pearcey afirma que o grande desafio que temos hoje é o de transformar a
cultura, a forma de pensar e de agir de uma sociedade, porque cultura é formada
a partir da cosmovisão, que leva uma comunidade a adotar um estilo de vida,
construir símbolos, pensar e agir. A cultura muda a forma como nos vestimos, o
que comemos, e como devemos viver, mas o desafio está ainda mais em baixo, tem
a ver com a cosmovisão que faz a cultura surgir.
Assim
era a cultura da Igreja Primitiva, debaixo do domínio politico de Roma,
politeísta, moral frouxa, valores frágeis, homossexualismo aceito, e a pior de
todas as depravações morais que foi o escravagismo, em que as pessoas não
tinham nome, identidade, e eram vendidas como gado em praças públicas. O
cristianismo foi profundamente responsável por esta mudança de cenário
especialmente no mundo ocidental. A igreja cristã precisa se afirmar neste
ambiente assim como Moisés teve que se manter firme numa cultura hostil à sua
forma de ser, crer e viver.
Alguns
pilares são essenciais para responder ao pensamento pagão
1.
Ensino sólido sobre Deus em casa
Como
Moisés manteu sua estrutura de fé, apesar de ter vivido debaixo de uma cultura
pagã por tanto tempo? A única explicação que temos é que seus pais, Anrão e
Joquebede, não tinham tempo a perder, e entenderam que precisavam incutir em
Moisés a fé judaica o mais rápido possível, porque muito cedo Moisés iria morar
no palácio, pois ser considerado filho da filha de faraó.
A
Bíblia não registra um número exato de anos que ele viveu com seus pais
biológicos, mas nos dá uma pista crucial no texto de Êxodo 2.10: "Sendo
o menino já grande, ela [Joquebede] o trouxe à filha de Faraó, a qual o
adotou por filho". Com base nos costumes da época e no contexto
bíblico, a estimativa é que Moisés tenha ido para o palácio entre os 3 e 5 anos
de idade. Ele era da idade de meus netos (3-6 anos: 2026). Muito novos...
Na
cultura hebraica antiga, o desmame ocorria muito mais tarde do que hoje,
geralmente por volta dos 3 anos (podendo chegar aos 5 em alguns casos). Esse
foi o tempo que Joquebede, a mãe biológica, "recebeu" de Deus para
estar com seu filho sob o nariz do Faraó. Ela usou esta Janela de
Oportunidade
Joquebede
sabia que seu tempo era curto. Ela tinha apenas esses poucos anos para:
·
Ensinar
a Moisés que ele era um hebreu, não um egípcio.
·
Contar
as histórias dos patriarcas (Abraão, Isaque e Jacó).
·
Implantar
nele a fé no Deus Único antes que ele fosse cercado pelos deuses do Egito.
O
impacto desses primeiros 5 anos foi tão profundo que, mesmo passando os 35 anos
seguintes sendo educado como um príncipe egípcio, Moisés nunca esqueceu os
pontos essenciais de sua fé e de sal identidade.
Isto
nos faz refletir que o tempo de influência não precisa ser longo para ser
eterno, mas precisa ser intencional. Joquebede não teve 18 anos; ela teve
apenas cerca de 5 anos. No entanto, ela preparou Moisés para resistir a uma
vida inteira de tentações no palácio.
Outro
aspecto a ser considerado, é sobre o pai de Moisés. Ele se chamava Anrão
(ou Amram, no original hebraico). Embora não seja um personagem com
tanto destaque individual é fundamental entender a linhagem e a fé que
preservaram a vida do libertador de Israel.
Anrão
era da tribo de Levi. Ele se casou com Joquebede, que também era
descendente de Levi. Juntos, eles tiveram três filhos que se tornaram os
pilares da nação de Israel:
·
Miriã: A profetisa.
·
Arão: O primeiro Sumo Sacerdote.
·
Moisés: O legislador e libertador.
Anrão
viveu durante o período mais sombrio da escravidão no Egito, quando Faraó
decretou que todos os meninos hebreus recém-nascidos deveriam ser jogados no
Rio Nilo. O Novo Testamento, na "Galeria da Fé", destaca que não foi
apenas Joquebede, mas "seus pais" (plural) que esconderam
Moisés por três meses: "Pela fé Moisés, já nascido, foi escondido três
meses por seus pais, porque viram que era um menino formoso; e não
temeram o edito do rei." (Hb 11.23
Anrão representa a resistência silenciosa e a preservação
da identidade espiritual em meio ao "caos". Ele não viveu para ver a
travessia do Mar Vermelho, mas a sua coragem de desobedecer a um decreto
injusto para preservar a vida do filho foi o "ponto inicial" que
permitiu que o plano de Deus se cumprisse décadas depois. Ele aponta para a
necessidade de uma família corajosa para assumir a sua fé diante da oposição
e a assumir riscos até mesmo de morrer.
Anrão e Joquebede são essenciais
neste cenário. Esta família, não teve muito tempo para influenciar a vida de um
filho, assim como nós: Temos bem pouco tempo para incutir as verdades eternas
no coração de nossos filhos.
O Cálculo do Tempo (Anual)
Essa
é uma das estatísticas mais impactantes para qualquer líder de ministério
infantil ou pais. Quando olhamos para os números, a disparidade é chocante e
serve como um "alerta" para a necessidade de discipulado no lar. A
proporção geralmente utilizada em treinamentos de liderança (como a estratégia Pense
Laranja, adotada pela nossa igreja) mostra como precisamos estar alertas.
Para
uma criança em idade escolar, a conta média funciona assim:
·
Na Igreja: Se a criança for a todos os cultos
dominicais e participar de todas as atividades extras, ela terá cerca de 40
a 80 horas de influência por ano.
·
Em Casa (Família): Descontando o tempo de sono e o
tempo na escola, os pais têm aproximadamente 3.000 horas de tempo
potencial de influência por ano.
A Proporção Real
Se
colocarmos isso em uma balança, a proporção é de aproximadamente 1 para 50.
Isso
significa que o que a igreja faz em um ano, a família tem o potencial de fazer
em apenas uma semana.
Por que esse dado é vital?
Não
podemos "terceirizar" a fé das crianças para o ministério infantil da
igreja. O "abraço" da cultura secular (escola, internet, amigos) dura
3.000 horas; se a família não for a base, a jiboia vence por puro cansaço e
tempo de exposição. Se o pastor influenciar os pais (os embaixadores no lar), ele
potencializa sua influência em 50 vezes. A igreja não deve ser o
"posto de gasolina" onde os pais deixam os filhos para serem
abastecidos. A igreja deve ser o centro de treinamento onde os pais são
equipados para serem os principais discípulos em suas 3.000 horas anuais.
Como
diz o provérbio africano frequentemente citado no meio cristão: "É
preciso uma aldeia inteira para educar uma criança", mas a
Bíblia é clara em Deuteronômio 6: a "aldeia" (igreja) apoia, mas a
"mesa" (família) ensina.
Algumas
lições desta família:
A. Família de
posição firme, que estava disposta a assumir riscos para defender princípios. “Pela
fé, Moisés, apenas nascido, foi ocultado por seus pais, durante três meses,
porque viram que a criança era formosa; também não ficaram amedrontados pelo
decreto do rei.” (Hb 11.23). vivemos numa época do comodismo, de não
correr risco, mas a fé, para ser afirmada, precisa ser ousada.
B. Família que incutiu
na mente de seu filho, pelo breve tempo possível, sua identidade espiritual.
Esta
identidade tinha dois aspectos:
i.
Havia algo superior ao sucesso e à glória humana – “Pela fé,
Moisés, quando já homem feito, recusou ser chamado filho da filha de Faraó, preferindo
ser maltratado junto com o povo de Deus a usufruir prazeres transitórios do
pecado; porquanto considerou o opróbrio de Cristo por maiores riquezas
do que os tesouros do Egito, porque contemplava o galardão.” (Hb 11.24-26).
A frase “considerou o opróbrio de Cristo”, em outra versão (ARA), diz
que ele “entendeu”. O ensino recebido em casa o sustentou e moldou sua mente.
Ele assimilou esta verdade. Ela chegou ao seu coração.
ii.
Assimilou a identidade de um povo – “Preferindo
ser maltratado junto com o povo de Deus.” (Hb 11.25)
Este
é um aspecto que me incomoda atualmente. Os pais não conseguem, não tentam ou não
querem transmitir a identidade de um povo aos seus filhos, de que fazem parte
de uma comunidade, eleita por Deus, chamada para dar gloria ao nome de Deus., e
não estou me referindo a uma igreja local, mas um povo universal: “Povo
santo, sacerdócio real, povo de propriedade exclusiva de Deus a fim de
proclamar as virtudes daquele que vos chamou das trevas para sua maravilhosa
luz.”(1 Pe 2.9)
Que povo era este?
Aos
40 anos Moisés teve a ideia de visitar o seu povo. Esta ideia de pertencer a um
povo, estava clara na sua mente. É a identidade grupal. Ele, que vivia rodeado
de luxo e pompa no palácio, sabia que aquele povo escravo era seu povo, sua
raiz, seu sangue, sua história. Isto estava claro no seu coração. Ele preferia
ser maltratado com o povo de Deus, “a usufruir prazeres transitórios do
pecado; porquanto considerou o opróbrio de Cristo por maiores riquezas do que
os tesouros do Egito, porque contemplava o galardão.”
Ele
sai em defesa do seu povo. Será que nossos filhos amarão o povo de Deus assim?
Ele “vingou o oprimido.” (At 7.24). Ele os considerava irmãos: “Ele
pensava que seus irmãos.” (At 7.26). Moisés construiu uma identidade de
povo, elemento quase insignificante na forma como desenvolvemos nossa fé, que é
sempre percebido de forma intimista e individual, não comunitária e eclesial.
No máximo trazemos nossos filhos para batismo, respondemos exteriormente as
perguntas sobre como precisamos criar nossos filhos.
Alguns
anos atrás, fui procurado por um casal que era membro formal, mas não
frequentava a igreja alguns anos e que queria batizar seus filhos. Preocupado
com as respostas que fariam e não querendo que eles dessem respostas meramente
formais diante de Deus, eu os chamei para uma conversa. Disse que eles
precisavam vir a igreja, ter compromisso, trazer seus filhos. Eles foram
simpáticos e prometeram que o fariam. Eu batizei seus filhos, eles responderam
sim às perguntas, e nunca mais voltaram à igreja.
2. Seu encontro
pessoal com Deus
A
segunda razão que me leva a considerar o motivo de Moisés ter se mantido fiel
numa cultura pagã, tem a ver com sua experiência pessoal com Deus. Não apenas a
fé dos pais, mas a sua fé.
O
texto bíblico é sutil, mas aponta nesta direção: “Quando completou quarenta
anos, veio-lhe a ideia de visitar seus irmãos, os filhos de Israel.” (At
7.22) Surge um impulso no coração. Para aqueles que gostariam que Deus lhes
falasse, considere este movimento de Deus no coração de Moisés como um evento
divino, porque ele pode fazer você entender como Deus está operando na sua
vida, não apenas por meios extraordinários como sinais, mas pelos meios ordinários:
impulsos, percepções, desejos. “Veio-lhe a ideia de visitar seus irmãos.”
De onde vem esta ideia? Como surgem estes impulsos em nossa alma?
Bill
Hybels chama tais movimentos de sussurros da alma. Santo
Agostinho diz: “Quando Deus se agita, o homem se levanta.” São estes santos movimentos
divinos que surgem no coração de um jovem na universidade, na escola, e o
despertam para ir em direção as coisas de Deus. A história de Moisés, assim
como a nossa, é marcada por um chamado, por uma direção que Deus deseja dar.
Ele nos orienta, ele nos guia, ele nos move, ele aponta direção, ele inclina
nossos corações.
Posteriormente
Moisés teria uma grande manifestação. Isto ocorreria apenas aos 80 anos. Esta
foi a única manifestação sobrenatural de Deus na história de Moisés, as demais
pareciam cotidianos, normais, ordinárias, mas também eram sobrenaturais. Deus
inclina o nosso coração para efetuar sua vontade. “Decorridos quarenta anos,
apareceu-lhe, no deserto do monte Sinai, um anjo, por entre as chamas de
uma sarça que ardia.” (At 7.30)
É certo
de que este relato de sua experiência com Deus é sobre a etapa posterior de sua
vida, mas a verdade é que nenhuma fé subsiste sem que haja um encontro pessoal
com Deus.
Talvez
Moisés tivesse suas crises de fé depois de embates filosóficos e teológicos na
universidade do Cairo, acerca dos deuses do Egito, mas ele não sairia do luxo
do palácio e para a solidão do deserto, sem que algo sobrenatural o tivesse
movido a isto.
Agora, depois de 40 anos no deserto, Deus lhe
aparece.
Este encontro o tira da zona de conforto. Ele precisa sair de seu espaço no
deserto de Midiã, com a vida já organizada, para enfrentar o homem mais
poderoso da terra. Seria um encontro de Maduro com Trump. Moisés é chamado para
um desafio missionário, e sua experiência sobrenatural o impacta e o capacita,
depois de sua grande resistência, a obedecer e fazer o que Deus esperava dele.
“Deus
lhe aparece”. (At 7.30) Este é o segredo da nossa história. Quando os
sinais de Deus se tornam visíveis na nossa vida, e não podemos mais negar a
evidencia de sua presença e graça.
3. O "Mistério"
da Soberania
A
história da perseverança de nossa fé em Cristo, e que nos mantém crendo é,
acima de tudo, resultado da graça de Deus.
A
história de Moisés nos revela um pouco disto.
Aos
três meses de idade, quando os pais não mais podiam escondê-lo, Joquebede cria
um estratagema. Ela decide colocar estrategicamente seu filho no Rio Nilo para
que ele fosse, e isto competia à graça e à vontade de Deus, encontrado por alguém
e dele tivesse compaixão. Uma possibilidade remota, mas ainda uma
possibilidade. Acima de tudo, vemos uma ação sobrenatural. A Bíblia registra
que o menino Moisés, “era formoso aos olhos de Deus.” (At 7.20) Sua graça
e soberania estavam presentes, se evidenciando na história desta criança.
Assim
trabalha a soberania de Deus em nossa história. O Deus que destina os fins também
providencia os meios e usa pessoas para executar seu plano na história. Deus estava
cuidando dos detalhes. A história de Moisés é de milagres, mas a nossa também. Quem
aqui nunca passou por uma experiência familiar de ter alguém miraculosamente
guardado. Para que propósito?
Meu
filho, aos 4 anos de idade foi acidentado no Rio de Janeiro. Levado às pressas
para o hospital, ensanguentado, corte na perna, corte na cabeça. Deus o
protegeu e o livrou. Meu neto Gabriel, nasceu precocemente, com 1600 kg, por um
milagre de Deus que deu à milha filha sensibilidade para dizer à sua médica,
numa consulta de rotina, que algo não estava certo, quando os exames já haviam
apontado que tudo estava bem. Um comentário dela na saída do hospital, alertou
a médica, e um exame posterior apontaria para o fato de que, se ela tivesse voltado
para casa, o bebê teria morrido, porque o cordão umbilical já não o alimentava
mais como necessário.
Na
história de Moisés não foi diferente. A filha de Faraó vai ao Rio Nilo para se
divertir com as amigas, um comportamento próprio de jovens daqueles dias. O
choro de uma criança chama sua atenção e ela ao ver a criança se encanta pelo
filho de uma escrava e decide adotá-lo. Algo surpreendente. Assim é a soberana
graça de Deus.
Aos
cinco anos, é levado para o palácio, cercado de cuidados e luxo. Cresce num
ambiente rico, poderoso e sofisticado. Vai para as melhores universidades e
Cairo tinha, a melhor universidade do mundo. Grandes arquitetos, engenheiros, médicos.
A arqueologia revela o avanço da cultura egípcia em relação às demais nações vizinhas.
O contexto pagão, ao invés de distanciar Moisés, serviu para mostrar que ele
havia sido preservado por Deus para um propósito, sendo retirado da condenação para
o palácio, da morte para a vida, da escassez para o luxo.
Deus o manteve em uma cultura pagã e o treina como líder, sem
permitir que ele se tornasse um pagão, para cuidar de seu povo e estabelecer
sua nação, como havia prometido a Abraão.
Em Êxodo 3, Deus se revela a Moisés
numa sarça ardente. Deus o encontra no lugar mais inóspito possível. Três coisas
acontecem:
A.
Deus se
revela e se dá a conhecer-
“Eu sou o que sou!” (Ex 3.14) Esta
e a primeira vez que Yahweh. o Deus do pacto, o nome mais sagrado de Deus, é
mencionado na Bíblia.
B.
Deus lhe dá
vocação – Missão. Se você está refletindo
sobre vocação, deixe-me lhe dizer algumas coisas que este texto nos ensina
sobre este assunto.
§ Ele chama – “Venha e eu o enviarei a Faraó (Ex 3.10)
§ Ele capacita – Moisés
se sente impotente e inadequado. “Quem sou eu para ir a Faraó? (Ex 3.11)
mas Deus lhe afirma: “Eu o enviarei!”
§ Ele dá o sustento e promete sua companhia- “Eu estarei
com você!” (Ex 3.12)
§ Ele envia – “Agora venha, e eu o enviarei a Faraó.” (Ex
3.10)
C.
Ele espera atitude
de reverencia – “Moisés escondeu o rosto, porque tem medo de olhar para Deus.”
(Ex 3.6) Deus revela sua santidade: “Tira
as sandálias dos pés.” (Ex 3.5) A terra onde ele estava não possuía, em si
mesma, qualquer elemento sobrenatural, mas se torna sagrada pela presença do Deus
Soberano. Se hoje fosse possível identificar o local exato desta manifestação, chagaríamos
ali e não veríamos nada diferente.
Conclusão
Como se manter fiel numa cultura pagã?
A vida de Cristo nos ensina a
necessidade de contextualização e inserção. Sua obra é encarnacional. Ele nunca
quis que sua igreja se tornasse um gueto. “Não peço que os tire do mundo,
mas que os livre do mal” transformando numa seita obscurantista,
distante da cultura. Mas é importante frisar que Jesus nunca quis que a igreja
adotasse o sincretismo, sem envolvimento com seu tempo e cultura.
A igreja deve manter sua identidade de sal no contato com o mundo. “Se o sal
se tornar insipido, como lhe restaurar o sabor?” Uma igreja que vive como o
mundo vive, deixou de ser a igreja de Cristo.
A vida de Moisés foi assim. Ele viveu
com luxo, dinheiro, riqueza, glória, mas nunca deixou de ser um crente fiel.
A vida de José foi assim. Como se
tornar primeiro-ministro do país mais importante do mundo, aos 30 anos de
idade, sendo estrangeiro, e nunca perder a compreensão de quem ele era, de quem
era seu povo e quem era seu Deus?
A vida de Daniel foi assim. Daniel é o maior exemplo bíblico de
longevidade ministerial e
integridade cultural. Ele não apenas sobreviveu a crises políticas, mas
manteve sua influência enquanto impérios inteiros desmoronavam ao seu redor. Daniel
serviu a 2 Impérios (Babilônico e Medo-Persa) e a pelo menos 4 Reis principais
(Nabucodonozor, Belsazar, Dario, o Medo, e Ciro, o Grande)
Jesus revela sua fidelidade ao Pai,
num mundo que o hostilizava e o rejeitou. Revela graça e amor num contexto de líderes
religiosos inescrupulosos, convivendo com um império que massacrava e explorava
o povo da Judeia, com pessoas ingratas e contraditórias que eram capazes de
clamar em um domingo “Hosanas ao Filho de Davi!” e na mesma semana gritar: “Crucifica-o!”
Mas Jesus nunca hesitou em continuar
fiel. “Minha comida e a minha bebida consiste em fazer a vontade de meu Pai.”
Ele não negociaria sua relação com o Pai. Como ovelha muda foi levado
perante seus tosquiadores, não abriu a sua boca, para realizar o plano do Pai.
Seu desejo era ser fiel e servir ao pai. Sua grande missão era cumprir o plano
de Deus numa cruz, esmagar a cabeça da serpente, derramar seu sangue para nos
resgatar dos nossos pecados e satisfazer a justiça de Deus, assumindo o nosso
lugar, nossa condenação e juízo e morrendo por nós na infame cruz.
Como tem sido sua relação com a
cultura atual e sua estratégia maligna de distanciá-lo de Deus? Você tem estado
alerta aos riscos de negar a sua fé e suas convicções por conveniência, prazer
mundano e privilégios que o diabo lhe oferece?
Como resistir a todas estas pressões?
Como se manter firme na fé no meio
desta geração pagã?