Introdução
Muitos afirmam que desejam ter progresso espiritual. Querem ser mais consagrados, querem intimidade com Deus. Muitos estão cansados de uma vida de derrota espiritual, vivem numa gangorra emocional, às vezes se sentindo forte espiritualmente, outras vezes se vendo como um impostor. Então, surge uma pergunta muito importante: como ter uma vida espiritualmente vitoriosa? Não estou falando de ter sucesso financeiro, ser um mega star, não estou falando de coach gospel, nem de teologia da prosperidade, estou falando de vida com Cristo.
A vida cristã começa quando o homem entende sua grave condição pecaminosa e reconhece que precisa de um salvador, colocando sua inteira confiança na obra de Cristo na cruz. Portanto, arrependimento e fé são indispensáveis para uma vida com Cristo. Na sua mensagem inicial, Jesus começa seu ministério fazendo quatro afirmações: “O tempo está cumprido, o reino de Deus está próximo, arrependei-vos e crede no Evangelho.” (Mc 1.15). Se você ainda não reconheceu que é um pecador, e sem a graça de Deus condenado eternamente, e não entendeu o evangelho que nos ensina que “Jesus veio buscar o pecador, entre os quais eu sou o principal”, você ainda não nasceu de novo, e por isto mesmo, não pode ter progresso na sua vida espiritual.
É impossível começar a vida cristã enquanto não aceitamos a Jesus como salvador e o recebemos em nossa vida. Quando, através do seu Espírito Santo, ele vem morar dentro de nós, recebemos seu poder e a sua vida que nos foi transmitida. A vida de Cristo passa a fazer parte da nossa vida. “Sabendo isto: que a nossa velha natureza foi crucificada com ele.” (Rm 6.6).
Só podemos andar “em novidade de vida”, se rompermos com nossa condição adâmica e formos inseridos na vida de Cristo. Portanto, precisamos morrer com Jesus. Tudo isto é fruto da graça de Deus. Não temos nenhuma participação no que Deus fez. Nossa atitude é unicamente a de “acolher esta salvação”. Não importa quão complicados e perdidos estivermos ou academicamente instruídos ou sofisticados, temos que percorrer o mesmo caminho. “Se o grão de trigo não morrer, fica ele só”.
A cruz foi o meio que Deus empregou para iniciar a obra de poder e transformação em nossa vida. Tudo é fruto da obra realizada na cruz, através do seu sangue. Em Cristo somos feitos nova criatura. A cruz é a declaração de sentença que demonstra nosso pecado e fracasso e ao mesmo tempo nos capacita a termos uma vida perdoada, regenerada, transformada por meio de Jesus. Tudo que pertence à nova criação é realizado pela obra de Cristo. Por isto lemos neste texto que “fomos crucificados com Cristo – nós morremos naquela cruz. Para ter Vida vitoriosa, o segredo não está em nós nem naquilo que fazemos. A atividade que depender de recursos humanos para alcançar sucesso diante de Deus resultará em frustração e futilidade. A nossa suficiência vem de Deus!
Quando eu recebo a Jesus em minha vida o novo nascimento se dá. Uma nova vida, a de Jesus, é comunicada à minha vida. "Mas Deus nos prova seu grande amor ao enviar Cristo para morrer por nós quando ainda éramos pecadores. E, uma vez que fomos declarados justos por seu sangue, certamente seremos salvos da ira de Deus por meio dele." (Rm 5.8-9 NVT)
Neste texto Paulo mostra como o Evangelho opera em nossa vida, e nos fala daquilo que Watchman Nee chama de “A vereda do progresso”. Como posso crescer na vida cristã? Neste texto são mostradas algumas condições essenciais para se viver a vida cristã normal:
- Sabendo isto
O que precisamos saber?
“Sabendo isto, que foi crucificado com ele o nosso velho homem.” (Rm 6.6).
Trata-se de um conhecimento espiritual. No texto anterior ele havia dito: “ou será que vocês ignoram que todos nós fomos batizados na sua morte?” (Rm 6.3). Não saber, ou ignorar as verdades centrais do evangelho é um desastre. Adiante ele continua: “sabedores que havendo Cristo ressuscitado dentre os mortos, já não morre; a morte já não tem domínio sobre ele.” (Rm 6.9)
Existem fatos que, quando percebidos por libertam espiritualmente nossa vida. Ter “conhecimento” do que Cristo fez é libertador. Se você está em Cristo precisa “saber” quais as implicações deste fato.
Este saber é bem específico. Não é um saber intelectual. Como saber de sua nova condição? Porque o pastor disse? Não! Você sabe disto porque o evangelho afirma isto. Trata-se de uma compreensão espiritual. Todos tivemos experiências diferentes quanto a esta convicção, mas todos que quiserem progredir na vida cristã, precisam entender o significado da pessoa e da obra de Jesus para sua vida pessoal. Você sabe disto? “Que foi crucificado com ele o seu velho homem?” (Rm 6.6). Paulo diz: “Eu morri com Cristo, na sua morte.”
Quando Hudson Taylor, o pai das missões modernas foi para a Índia, mesmo sendo um missionário, encontrava muita dificuldade para viver sua vida cristã. Um dia escreveu para sua irmã: “Sinto que aqui está o segredo: não em perguntar como vou conseguir tirar da videira a seiva para colocar em mim mesmo, mas em recordar que Jesus é a videira, a raiz, a cepa, os ramos, os renovos, as folhas, a flor, o fruto; tudo, na verdade”. (Chinkiang, 1869). Posteriormente afirma: “Não preciso fazer nada de mim mesmo, sou apenas um ramo. Sou parte dele, e apenas preciso crer e agir com base nisso”.
Precisamos crer e agir com base nisto. Nós estamos em Cristo. Nele nos movemos e existimos. Sua vida é nossa vida, sua morte é nossa morte. Sua ressurreição é nossa ressurreição.
É grandioso saber que estamos em Cristo. Você já está morto, você tem uma vida nova em Cristo. Já fomos incluídos em Cristo. Oh! Se ao menos soubéssemos disto... Por esta razão Paulo faz esta afirmação, mas coloca uma questão: “Ou porventura ignorais?” (Rm 6.3).
2 - Considerai-vos “Assim também vós considerai-vos mortos para o pecado.” (Rm 6.11)
Este é o segundo passo para a vereda do progresso. Precisamos considerar... “Sabendo isto...considerai-vos”. Esta é a sequência de Rm 6
O saber é a revelação, o considerar é o fundamento para apoio e descanso. Muitos consideram sem saber, outros sabem sem considerar.
O termo “considerar”, no grego significa, fazer contas, fazer escrituração comercial. A contabilidade fundamenta-se numa ciência exata, não pode haver erros: Eu estou morto em Cristo, quer o sinta ou não, há um fato, uma história na qual repousa minha confiança, sua base não é a experiência nem a emoção. Cristo, de fato morreu e ressuscitou. Quer você creia quer não, Jesus morreu naquela cruz para levar todo nosso pecado. Isto não é emocional, é realidade. “Aquele que está em cristo, nova criatura é. As coisas antigas se passaram, eis que tudo se fez novo.” (2 Co 5.7) Considere isto...
Schaeffer afirma que precisamos considerar algumas coisas:
a. Cristo morreu na história - FATO
b.. Cristo ressuscitou na história - FATO
c. Morremos com ele, na história, quando o aceitamos - FÉ
d. Ressuscitaremos na história, quando ele voltar – FÉ.
Nossa fé tem como fundamento o fato, e não a experiência.
Watchman Nee ilustra da seguinte forma: A fé seguia o fato no topo de uma montanha, e a experiência vinha atrás. A fé nunca olhava para trás e os dois caminhavam juntos, mas aí, a fé, se preocupou com a experiência para observar seu progresso, perdeu o equilíbrio e caiu montanha abaixo, levando consigo a experiência.
Durante muito tempo aplicávamos as “Quatro Leis espirituais”, um esquema desenvolvido por Bill Bright, pastor presbiteriano. Ele fazia o seguinte escopo para entendermos isto:
FÉ
RAZÃO
EMOÇAO
A fé possui um componente racional e outro emocional, mas não dá para viver sua fé na base da razão: “pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios.” Precisamos da razão para firmar nossa fé. O que Schaeffer chama de FATO. Entretanto, muito de sua caminhada com Deus se dá pela fé e não pela razão, porque a razão é limitada para explicar tudo que está relacionado à fé.
Precisamos também da emoção. Entretanto, a razão é instável. Muitas vezes achamos que estamos firmes, outras vezes, nos sentimos fragilizados. Se depender do seu humor, provavelmente teremos muita dificuldade na vida cristã. Você não vive pelas emoções, mas pela fé. Não se baseie nos seus sentimentos para autenticar sua fé. Por isto este texto fala várias vezes: “Sabendo que.” Precisamos nos firmar nos FATOS DA FÉ. Não baseie sua vida cristã nas suas emoções, mas na Palavra de Deus, naquilo que Deus nos ensina.
A FÉ é a locomotiva da nossa vida espiritual. A razão e a emoção são importantes, mas não definidoras. Não podemos abrir mão de nenhuma das duas, mas não podemos firmar nossa fé nelas.
Paulo diz: “considerai-vos mortos para o pecado.”
Por que devemos nos considerar mortos? Pelo simples fato de que se já recebemos Cristo como nosso salvador pessoal, e entregamos nossa vida a ele, já estamos mortos em Cristo. Deus não poderia pedir-me para reconhecer-me morto se eu ainda estivesse vivo. É questão de contabilidade: “considerai-vos”. Considerar não é fazer de conta. Lance na sua contabilidade o fato de que você está morto.
É a fé que considera.
O que é fé? É a aceitação dos fatos divinos.
Fé na Bíblia, ao contrário do que pensamos, normalmente tem a ver com fato passado. Esperança tem a ver com o futuro. Então não devo dizer que Deus pode ou não morrer por mim, que eu posso ou não ser perdoado, que eu posso ou não ser crucificado com Jesus. Eu simplesmente assumo que isto é um fato, considero e descanso nisto. Não sinto que morri com Jesus, mas creio que morri com Ele. “A fé é a substancialização das coisas que se esperam.” (J.N.Darby).
“Toda tentação consiste principalmente em olhar para dentro de nós mesmos, desviar os olhos do Senhor” (W. Nee, 61) Deus está nos convidando constantemente a colocar nossa fé naquilo que ele faz.
Lembremo-nos que um dos principais objetivos do diabo é nos levar a duvidar das realidades divinas (Gn 3.4). É importante concordar com os fatos divinos e colocar nossa confiança nas suas promessas. A fé torna real, na minha experiência, as coisas que Deus fez. Deus incluiu-me em Cristo e, portanto, tudo que é verdade a respeito dele também se aplica a mim. “Quem tem o Filho tem a vida” (1 Jo 5.12). “Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós.” (Jo 15.3)
3 - Oferecei-vos a Deus - 6:13
A palavra “oferecer-se” aparece cinco vezes nos vs. 13,16,19 e esta palavra exprime ação, implicando em consagração. “Não se trata de consagração de nosso “velho homem” com seus instintos e recursos – nossa sabedoria, força e outros dons naturais” (W. Nee), mas “oferecei-vos a Deus como ressurretos dentre os mortos.” (Rm 6.13)
O apóstolo faz um contraste do oferecimento que outrora era feito, com o que atualmente se exige, o oferecimento antigo era dos nossos membros e o atual é também dos nossos membros. O que muda é para quem ou para que oferecemos nossos membros. Deus mudou a forma como você dispunha de seu próprio corpo: antes você o oferecia como “instrumento da iniquidade”, ou para a “escravidão da impureza”, e da “maldade” para a “maldade” (Rm 6.1,19) e agora Deus os quer como instrumentos da justiça (Rm 6.13) e para servirem a justiça para a santificação. O esquema abaixo elucida esta idéia, veja como os contrastes são claros.:
MEMBROS COMO INSTRUMENTOS DA INIQUIDADE
X
MEMBROS COMO INSTRUMENTOS DA JUSTIÇA VS.13
SERVOS DO PECADO X SERVOS DA JUSTIÇA VS. 16
ESCRAVOS DO PECADO X OBEDIÊNCIA DE CORAÇÃO VS. 17
ESCRAVIDÃO DA IMPUREZA x JUSTIÇA PARA A SANTIFICAÇÃO VS. 19
A COLHEITA: VERGONHA E MORTE VS. 21
A COLHEITA: FRUTO PARA A SANTIFICAÇÃO ETERNA VS. 22
Certo cristão foi convidado para fazer alguma coisa que lhe parecia contrário ao querer de Deus, então respondeu aos seus amigos que o convidavam da seguinte forma: “Não posso participar disto, porque não trouxe comigo minhas mãos”. Isto é o que acontece quando morremos com Cristo, transferimos nossos direitos a ele. Agostinho fez o mesmo quando uma de suas ex-amantes o procurou depois de sua conversão: “Não posso mais, o velho Agostinho morreu”.
Enquanto meu velho homem não for crucificado estarei sendo dominado por outro poder, mas a partir do momento em que eu me rendo, este velho homem é entregue para ser imolado.
Considere Abraão. Deus lhe diz: “dá-me teu filho!” Aquilo era a coisa mais preciosa que ele tinha, mas Abraão não exitou em oferecê-lo num altar e só não o sacrificou porque Deus jamais exigiu sacrifício de homens e providenciou para ele um cordeiro, que prefigurava seu Cordeiro que morreria muitos anos depois, naquele mesmo monte. Abrão havia submetido sua vida a Deus. O que Deus nos pede agora? Meu Eu (erudito, sofisticado, complicado, cheio de direitos e razões). Deus pede para que eu morra. Ele pede minha rendição. Não sou mais eu...
Antes você dispunha de seus talentos, podia se render aos seus impulsos e paixões. Seu desejo era satisfazer sua carne. Agora você resolve trazer meu corpo ao altar do Senhor.
Em qual altar está minha vida? A quem tenho oferecido? Não mais como “instrumentos da iniquidade”, mas agora, como “instrumentos da justiça”. Só posso fazer isto quando sei que morri em Jesus, e quando considero minha relação com Deus. “Sou do Senhor e agora não mais me considero propriedade minha, mas reconheço em tudo sua possessão e autoridade. Essa é a atitude com a qual Deus se deleita, e mantê-la é uma verdadeira consagração. Não me consagro para ser missionário ou pregador – consagro-me a Deus para fazer sua vontade onde eu estiver, seja na escola, no escritório ou na cozinha, ou onde quer que Ele, na sua sabedoria, deseje me enviar” (W. Nee, 82).
Conclusão
No início, perguntamos como é possível ter uma vida de vitória, andar na vereda do progresso espiritual. Como crescer em relação a Cristo?
Três palavras neste texto nos orientam nesta vereda:
Sabendo isto...
Considerai... analise os fatos sobre sua fé e descanse neste
Oferecei vossos membros não mais à injustiça e ao pecado, mas a Cristo e à justiça.

