sábado, 5 de setembro de 2026

Palestra 3: O Desafio Hermenêutico de Jonas. Misericórdia e compaixão



Palestra 2: Conferência Fé e TRabalho. Testemunhando Cristo no Cotidiano

 


1 Rs 18.1-19

 

Introdução

 

Minha filha estava morando nos Estados Unidos e considerando a possibilidade de se mudar para o Brasil e entrar no mercado de trabalho aqui. Encontramos uma irmã muito competente em São Paulo, que trabalhava como Head Hunter, e que se dispôs a ter uma conversa com ela sobre sua carreira. Depois de ver o seu currículo tão bom, ela lhe deu o seguinte feedback: “você tem certeza que quer entrar no mercado de empresas brasileiras?” Ela estava dizendo isto, porque sabia que além da competitividade, havia questões éticas muito pesadas em grandes empresas e ela não sabia como minha filha iria lidar com este sistema.

 

Não são raros o exemplo de funcionários cristãos que trabalham em empresas cujos valores éticos e morais são suspeitos, com uma política muitas vezes abusiva, exploratória, e que coloca os funcionários debaixo de uma condição em que eles precisam constantemente estar precisando se afirmar. Isto acontece não apenas no mercado empresarial e corporativo, mas na esfera pública. Muitos funcionários trabalham em autarquias corrompidas, que se acostumaram a exigir suborno e propina para aprovar projetos, ou são chefes corruptos e de condutas questionáveis. Obviamente um funcionário cristão precisa se manter firme, e na assumir posições firmes.

 

O Primeiro Livro dos Reis se concentra de forma particular no Reino do Norte, cuja capital se tornou Samaria, depois da crise política cujo pivô foram as taxas impostas pela realeza, nos dias de Roboão, filho de Salomão, Israel se dividiu em dois reinos, com diferentes capitais. Samaria era a capital do reino do norte e Jerusalém a capital do reino do Sul.

 

Por causa do distanciamento de Jerusalém, onde ficava a arca e o templo, os reis do Norte foram na sua grande maioria adoradores de Baal e deuses pagãos. Grandes profetas surgiram nestes dias, entre eles Elias e Eliseu, denunciando este desvio teológico. Um dos piores reis foi Acabe, que se casou com uma mulher gentia, seguidora zelosa de Baal, que acolheu e criou uma estrutura religiosa em torno destes deuses falsos, perseguindo e matando todos os profetas de Yahweh, o Deus de Israel. Elias foi caçado implacavelmente pelo rei durante os seus anos de atividade profética.

 

No palácio, as estruturas religiosas perseguiam aqueles que não se alinhavam com sua forma de pensar. Cargos políticos eram destinados àqueles que estavam identificados com a estrutura iníqua e religiosa bem como da perversão e corrupção política.

 

Apesar de todo este sistema, um homem chamado Obadias, mordomo de Acabe, sobreviveu num palácio hostil a Deus, e ainda soube lançar mão do seu cargo para proteger e beneficiar os profetas de Yahweh que existiam naqueles dias no Reino do Norte.

 

Sabendo que os profetas corriam perigo, pegou cem deles e os escondeu em duas cavernas, 50 em cada uma delas, e conseguiu mantê-los com água e pão durante o tempo em que estiveram foragidos. Não sabemos quanto tempo ele manteve esta estrutura subversiva e complexa debaixo do palácio, mas Obadias criou uma rede de proteção aos servos de Deus num ambiente de grande risco.

 

A rainha Jezabel era pagã, e promotora de deuses pagãos. 1 Rs 18.19 registra que ela criou um espaço para abrigar 850 sacerdotes pagãos, e eles se assentavam à mesa dos reis. Seria como se hoje, o Palácio do Planalto em Brasília, abrisse suas portas para que os babalorixás e pais de santo tivessem assento nas suas salas de jantar, recebendo tratamento VIP. Me chama a atenção o fato de que, mesmo sendo Israel uma teocracia, os profetas de Yahweh jamais receberam este tipo de tratamento tão especial quanto os profetas de Baal. Eles eram vistos pelos corredores, assentados junto a Acabe e Jezabel, dando conselho, invocando demônios. E Obadias, servo de Deus estava ali no meio deles, se mantendo na sua função pública, e conseguindo usar as estruturas do palácio para socorrer os profetas de Deus que estavam deserdados vivendo nas cavernas.

 

Como é possível sobreviver em um ambiente tão hostil e ainda dar sinais de Deus?

 

A história de Obadias em 1 Reis 18 apresenta uma das narrativas mais complexas, tensas e fascinantes sobre o dilema de servir a Deus no meio de um sistema corrupto. Ele era o administrador de Acabe, o rei que, sob a influência de Jezabel, institucionalizou a apostasia e a perseguição aos profetas de Yahweh em Israel.

 

Aprofundar a trajetória de Obadias é examinar a ética da resistência sutil, o risco calculado e o uso estratégico da profissão em favor do Reino de Deus.

 

Trabalhar no Coração da Besta

Para entender o risco que Obadias corria, é preciso olhar sua biografia no início do capítulo 18: ele era o homem que "temia muito ao Senhor" (v. 3), embora tivesse que, como funcionário, responder diretamente a Acabe, o monarca que buscava implacavelmente matar todos os profetas de Deus.

 

A paradoxalidade da posição: Obadias não estava em um mosteiro isolado ou seguro; ele estava no centro nevrálgico do poder político e econômico de Israel. Ele administrava a casa real, controlava recursos e lidava diariamente com Jezabel.

 

O risco de morte iminente: O texto relata que, quando Jezabel exterminava os profetas, Obadias os escondeu em cavernas, sustentando-os com pão e água. Fazer isso sob o nariz do regime era um crime de alta traição punível com a execução sumária imediata.

 

A tensão do compromisso: Obadias vivia em uma corda bamba diária. Um deslize na contabilidade, uma suspeita de Jezabel ou uma denúncia o colocariam na forca. Sua vida nos ensina que, às vezes, a fidelidade a Deus exige operar em territórios controlados pelo mal, onde a margem de erro é zero.

 

Profissão a Serviço do Reino: O Poder da Alavancagem Estratégica

Obadias não usou sua fé para abandonar o posto ou fazer protestos estéreis que o levariam a morte certa antes de poder ajudar alguém. Ele usou sua posição profissional como alavancagem para o Reino. Como administrador do palácio, Obadias tinha acesso a verbas, suprimentos e logística. Ele usou os recursos do próprio sistema apóstata (a infraestrutura de Acabe) para alimentar e salvar os profetas do Senhor. É o clássico exemplo de resgatar o que o sistema corrompeu e redirecioná-lo para a causa de Deus.

 

Enquanto Elias era o profeta do confronto público, como aconteceu no Monte Carmelo, Obadias era o agente secreto, o estrategista de bastidor que garantia a subsistência física da liderança espiritual de Israel. O Reino de Deus precisa tanto do profeta estridente quanto do administrador corajoso infiltrado nas esferas de poder.

 

Para durar tanto tempo em uma estrutura perversa sem ser demitido ou descoberto, Obadias precisava ser irrepreensível na sua função técnica. Ele era excelente no que fazia. Sua competência profissional era o escudo que mantinha sua credibilidade perante Acabe, permitindo-lhe continuar na posição onde podia fazer o bem. A ponto de Acabe lhe dar uma missão que era quase impossível: encontrar o profeta Elias. O rei formou dois grupos e enviou um grupo sob a liderança de Obadias e ele mesmo, pessoalmente, liderou outro grupo.

 

O Medo Real e a Humanidade de Obadias

 

Um detalhe impressionante da narrativa ocorre quando Obadias encontra Elias no caminho e recebe a ordem: "Vai, dize a teu senhor: Eis aqui Elias". A reação de Obadias revela que ele não era um super-herói destemido, mas um homem real tomado pelo pavor:

 

"Em que pequei, para que entregues teu servo nas mãos de Acabe, para que me mate?" (1 Reis 18.9). Obadias sabia que, se ele saísse anunciando Elias e o profeta desaparecesse milagrosamente (como era o costume de Elias acontecer, levado pelo Espírito), Acabe o executaria. A coragem verdadeira não é a ausência de medo, mas a ação apesar do medo. Obadias tremeu diante do risco, ponderou a morte, mas, no fim, obedeceu e cumpriu sua missão.

 

Relevância Contemporânea

 

A história de Obadias desafia a visão dicotômica de que o crente deve se isolar de estruturas seculares ou governamentais corrompidas. Mostra que Deus coloca homens e mulheres fiéis em posições corporativas, governamentais e sistêmicas difíceis não para se contaminarem com o sistema, mas para protegerem os vulneráveis, salvarem o que restou da verdade e gerenciarem recursos com justiça enquanto a oportunidade de agir se apresenta.

 

Assim como Obadias, muitos hoje trabalham em ambientes corporativos ou políticos antiéticos, onde manter a fé exige inteligência, discrição, excelência técnica e uma coragem silenciosa que sustenta vidas nos bastidores.

 

Recentemente um membro de nossa igreja foi contratada para ser pró-reitora de uma universidade particular de medicina no sudoeste de Goiás. A dona da faculdade é uma empresária sofisticada e arrojada, que adora carros de luxo (hobbies normalmente atribuídos ao publico masculino), e ao chegar ali, esta irmã encontra um ambiente dominado por liderança espírita e macumbeiros. Ela foi colocada por Deus para trabalhar nesta posição de destaque, num ambiente carregado por pessoas que não conhecem a Cristo. Ela entende que precisa ser uma profissional excelente, e entende também que precisa refletir Cristo na sua dinâmica de trabalho. Ela sabe que uma cristã autêntica precisa afirmar sua fé, e num ambiente como este é muito desafiador. Mas Deus a colocou ali por uma razão clara.

 

A história de Obadias comparado ao ambiente de trabalho contemporâneo nos tira da ilusão de que "testemunhar Cristo" significa apenas colar um versículo na mesa, usar jargões religiosos ou pregar sermões nos corredores da empresa. Na realidade corporativa, muitas vezes caótica, competitiva ou eticamente ambígua, Obadias nos ensina que o verdadeiro testemunho cristão no trabalho se manifesta em quatro dimensões profundas:

 

A Excelência como Parâmetro

 

Obadias administrava a casa de Acabe e Jezabel. Para sobreviver e ter influência em um regime corrupto, ele não podia ser negligente; ele precisava ser o melhor no que fazia.

O seu primeiro e mais poderoso testemunho no trabalho é a sua competência técnica e ética. Se o cristão é negligente, desorganizado ou usa a fé como desculpa para entregar um trabalho medíocre, ele perde a credibilidade. A excelência de Obadias fez com que o rei confiasse nele, abrindo espaço para que ele usasse sua posição em favor de um propósito maior. O bom trabalho abre portas que o discurso religioso jamais abriria.

 

Abrindo um parêntese, gostaria de dizer que alguns anos atrás almocei com o chanceler do Mackenzie em São Paulo. Esta universidade presbiteriana tem se esforçado para ser uma universidade confessional. Na conversa ele nos disse que muitas pessoas cristãs aplicam para vagas de professores e coordenadores, e que eles gostariam de contratá-las, mas que a grande dificuldade era encontrar pessoas cristãs, com competência e excelência para as funções disponíveis.

 

A Resistência Silenciosa (Proteger os Vulneráveis)

 

Obadias não organizou um protesto público contra Acabe na praça principal (esse era o papel de Elias). O papel de Obadias era o de agente de resgate nos bastidores: ele escondia os profetas nas cavernas e os sustentava com pão e água.

 

Fico imaginando quantos homens na história, por causa de Cristo, tomaram decisões de alto risco no seu ambiente de trabalho. Eles funcionam como uma espécie de “agente secreto” do reino, e conseguem fazer uma grande diferença na filosofia da empresa e no ambiente onde trabalham. Poucas coisas são tão urgentes e sábias nos tempos modernos que esta resistência silenciosa, a favor do reino, para proteger os vulneráveis, e glorificar a Deus.

No seu ambiente de trabalho, você provavelmente não derrubará o sistema corporativo injusto sozinho. Mas testemunhar a Cristo significa usar a sua posição — seja você um analista, um gerente ou um diretor — para proteger os vulneráveis. É recusar-se a participar de fraudes ou puxadas de tapete e blindar quem está sendo injustiçado. O testemunho de Obadias não foi verbal; foi o alívio que ele proporcionou aos necessitados sob o risco da própria pele.

 

Usar os Recursos do Sistema para o Bem

 

Obadias usava a infraestrutura e os suprimentos do palácio de Acabe para alimentar os profetas de Deus. Ele redirecionou recursos da própria estrutura hostil para sustentar a obra do Reino. Isto é uma verdadeira conspiração. Aliás, reino de Deus sempre foi subversivo nas suas abordagens. Só assim podemos entender como o povo de Deus sobreviveu em meio a perseguição tão violenta e desumana quanto o babilônico, e o império romano.

 

Testemunhar no trabalho significa entender que a empresa onde você está não é apenas um lugar para ganhar o seu sustento, mas um campo missionário estratégico. Muitas vezes, você tem acesso a ferramentas, redes de contato, influência ou capacidade de decisão que podem ser usadas para abençoar pessoas, promover a justiça, ser justo com subordinados e gerar um ambiente humanizado em meio à frieza do mercado.

 

Recentemente num congresso de revitalização do qual participei como preletor, uma das coisas que mais nos desafiou foi a ênfase em entendermos que o grande desafio não é treinar as pessoas para trabalhar na igreja, ainda que esta seja uma tarefa tão necessária, mas treiná-los para serem discípulos de Cristo no trabalho.

 

Integridade sem Ingenuidade (Navegar na Tensão)

 

Obadias vivia em uma corda bamba. Ele sabia o perigo que corria, temia a morte (como mostrou o seu medo diante de Elias), mas não se corrompeu. Ele mantinha os pés no palácio corrupto e o coração em Deus.

 

O ambiente de trabalho moderno exige sabedoria e pureza de intenções: "Simples como as pombas; prudentes como as serpentes". Você precisará lidar com chefes difíceis, políticas corporativas complexas e metas agressivas. Testemunhar a Cristo significa permanecer integro quando tudo ao redor está cedendo aos atalhos. É ser a âncora moral da sua equipe sem precisar apontar o dedo para os outros, mas deixando que a retidão das suas escolhas fale por si mesma.

 

Conclusão

 

Testemunhar Cristo no trabalho à maneira de Obadias é entender que o seu cargo é uma plataforma e a sua competência é o seu passe livre. Enquanto Elias confrontava o sistema de cima do monte, Obadias enfraquecia o sistema por dentro, salvando vidas debaixo dos narizes dos tiranos. Que no seu escritório, fábrica ou empresa, você saiba ser o profissional excelente que resiste ao mal e sustenta o bem nos bastidores.

Aplicações:

 

Não perca as referências sagradas. A Bíblia afirma que “Obadias temia muito a Yahweh, desde a sua mocidade”. (1 Rs 18.3) Quando ele se encontra com o profeta Elias ele declara: “eu temo ao Senhor desde jovem.”

 

Gosto de pensar no fato de que Deus levanta tantas jovens brilhantes, inteligentes e determinados, que nunca negociam sua fé, caráter e sua ética, quando são confrontados com o secularismo do mundo acadêmico. A descrição que temos de Obadias revela a razão pela qual ele conseguiu não apenas se manter no seu trabalho, e ainda usar sua influência para ajudar os profetas do Senhor. Ele “temia a Deus desde a sua mocidade.”

 

Temos percebido que quando os jovens temem ao Senhor e são firmes na fé e valores, tornam-se corajosos, ousados e resilientes, e esta atitude moral e espiritual os acompanha na medida em que se tornam adultos. A firmeza de fé da juventude é quase sempre um sinal de que continuarão a dar frutos para a glória de Deus.

 

A Bíblia afirma que “o temor do Senhor é o princípio da sabedoria.” Quando nossos fundamentos estão sobre o temor do Senhor, nada nos poderá corromper. Nós tememos a Deus, e não a homens. Nós servimos a Deus e queremos agradar ao Senhor, e não a homens, estruturas ou sistemas. Para se manter firme num ambiente contrário a Deus, o temor do Senhor é fundamental. Este é o lugar firme no qual colocamos nossos pés.

 

A partir de sua identidade de servo de Deus, lembre-se que você não está naquele lugar por acaso. Você está neste lugar, neste momento de sua história, fazendo o que você está fazendo, porque Deus quer que você esteja lá. Deus é Senhor da sua vida. Viva como servo de Deus. Tenha comportamento de servo de Deus.

 

Obadias usou a técnica da infiltração, como “sal e luz”, sua vida e influência foi usada para abençoar vidas, proteger aqueles que eram ameaçados e se encontravam em posição de vulnerabilidade. Portanto, aja como servo do Senhor, use a técnica da infiltração. Deus permitiu que você estivesse naquele lugar como um agente secreto, assim como Deus colocou Ester para ser rainha no palácio de Assuero, um rei pagão. Esta foi a mensagem que seu tio Mordecai lhe mandou: “Quem sabe se para tal conjuntura como esta, foste elevado a rainha?” (Et 4.12)

 

Assim age o evangelho, ele é clandestino, subversivo, transgressor, ou como definiu John Stott, “contracultural”. Desde a queda, estamos num ambiente hostil a Deus. O evangelho é estranho a nossa cultura. O apóstolo Pedro afirma que eles “estranham que não concorrais aos mesmos excessos de corrupção.” (1 Pe 4.3-4) Paulo afirma que vivemos numa geração “pervertida e corrupta.” (Fp 2.15) Por isto Jesus nos exorta: “Assim brilhe a vossa luz, para que os homens, vendo as vossas boas obras, glorifiquem a vosso pai que está nos céus.” (Mt 5.16)

 

Proteja aqueles que estão sendo ameaçados, mesmo com risco pessoal de ter a cabeça cortada. Às vezes isto significa perda de status, qualidade de vida, emprego.

 

Obadias faz um lance de alto risco. Sustentar cem profetas em covas. Já pensaram como era difícil a logística de levar o básico para aqueles homens? Com quem ele contava para executar esta tarefa? Ele tinha pessoas trabalhando com ele, e se alguém fosse descoberto ou o delatasse? Ele certamente seria morto. Contudo ele não revela temor a homem algum: Ele temia a Deus.

 

Na história cristã, não são raras as situações em que pessoas que amavam a Deus assumiram grandes riscos. Um dos casos mais conhecidos se deu com a família de Corrie Tem Boom, que decidiu proteger os judeus do extermínio nazista na Holanda. É necessário manter compromisso com o reino de Deus.

 

Conclusão

 

Quando eu pastoreei a Igreja Presbiteriana da Gávea no Rio de Janeiro, tive a oportunidade de receber como membro que se tornaria alguém muito especial na minha vida. Ele era diretor nacional da Eletrobras, um cargo do Segundo escalão do Governo Federal, uma função muito importante. Ele viajava o Brasil inteiro para reuniões com as diretorias regionais, estaduais, além de ter uma função de secretário-executivo na Comissión de la Integración Regional del América do Sul. Um dia chegou à mesa dele um documento, endossado por senadores e deputados, que favorecia tremendamente os empresários em causas contra a Eletrobras. Quando ele viu o documento, ele percebeu que era algo ilícito, imoral e indecente, e decidiu não assiná-lo. Procurou o seu chefe, que o havia levado para esta posição e disse: “Você sabe minha posição, eu sou cristão e não posso assinar esse documento por causa da minha consciência, minha fé, e dos meus filhos”. O presidente entendeu e disse, para deixar com ele que ele iria rever os termos. Um mês depois, o mesmo documento aparece com o mesmo teor sobre sua mesa para que ele assinasse. Ele mais uma vez procurou o presidente já com sua carta de renúncia dizendo: “Olha, eu não tenho condição de assinar esse documento, e já é a segunda vez que ele aparece, já conversamos sobre isso e eu estou aqui colocando meu cargo à disposição, porque eu não consigo caminhar com isso aqui.” E o chefe disse: “Infelizmente esse documento vem de cima, e eu não tenho como não atender.” E recebeu sua carta de demissão.

 

Ele tinha três filhos na universidade e ele ficou desempregado. Foram 15 dias mais ou menos, muita agonia, até que a Comission del América do Sul o convidou para ser Secretário Executivo com tempo integral. Seu trabalho seria no Uruguai. Ele ia ganhar o dobro que ganhava, ele tinha que fazer uma ponte aérea do Rio para o Uruguai mas valia o sacrifício. Deus o honrou tremendamente. Quando me lembro da sua história fico pensando quantos homens e mulheres de Deus estão em posição hoje em que eventualmente vão perder os seus privilégios e não terão um desfecho tão positivo quanto este, mas precisam confiar que Deus proverá e suprirá suas necessidades.

 

É sobre isso que nós estamos falando. Foi isso que Obadias fez. Ele não temeu os homens, mas temia a Deus, desde a sua mocidade e se manteve fiel. Este é o preço de testemunhar Cristo no cotidiano, muitas vezes em ambientes hostis.

 

Que Deus nos ajude.

 

Palestra I: Conferência Fé e Trabalho: O Trabalho como vocação Divina



Gn 2.15: "E tomou o Senhor Deus o homem, e o pôs no jardim do Éden para

o cultivar e o guardar."

 

Em torno da ideia do trabalho existem muitas piadas:

 

Na hora de comer, comer; na hora de dormir, dormir; na hora de trabalhar,

pernas para o ar, porque ninguém é de ferro”.

Às vezes me dá uma vontade de trabalhar, aí eu fico

quietinho até a vontade passar”.

 

De fato, muita ideia errônea tem sido construída em torno do trabalho. Aristóteles chegou a afirmar que o trabalho deveria ser deixado para os escravos e este conceito penetrou na mente europeia por anos, até ser desafiada pela Reforma no século XVI.

 

Em muitas culturas e religiões, a percepção de trabalho sempre sofreu graves distorções e trouxe muita confusão, sendo uma espécie de atividade delegada às classes inferiores. Aristóteles afirmava que “o escravo era uma ferramenta viva.”, e ainda afirmou que “todos os trabalhos pagos absorvem e degradam o espírito.”

 

O desprezo pelo trabalho estava embutido no arquétipo da cultura do Império Romano, e esta mesma visão caminhou pela era vitoriana, influenciando ainda hoje a forma como vemos o trabalho. A moral calvinista, formadora do pensamento norte americano, conseguiu transformar um pouco esta visão deturpada, mas ainda hoje, na elite brasileira, há uma tendência de associar trabalho a algo desprezível.

 

A Bíblia afirma que pela preguiça e frouxidão do homem, desaba o teto da casa sobre sua família. Um povo não orientado ao trabalho, empobrece, desonra a sua vida, enfraquece e desatina a nação. Nossa esperança é que, depois de tantos anos da abolição da escravatura, (1888) o conceito e honra do trabalho já tenha sido restaurado no inconsciente coletivo de nossa nação, afinal, a ociosidade é como ferrugem: consome muito mais que o trabalho.

 

Entretanto, a doutrina da criação, registrada inicialmente no livro de Gênesis, inclui dentre as tarefas humanas o trabalho, e isto antes da queda da raça humana. Ainda no Éden Deus disse ao homem: “Tenham domínio sobre os peixes, sobre as aves, sobre os animais domésticos e selvagens e sobre os animais do campo.” (Gn 1.26) O texto de Gn 2.15 é ainda mais enfático: “O Senhor Deus tomou o homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e guardar.”

 

A ideia de domínio não era a de exploração, mas acima de cuidado e proteção.  Ao homem foi dada a tarefa de dar nome aos animais e de cuidar do jardim. (2.20-21)

Isto demonstra que o trabalho não está associado à maldição, mas como parte intrínseca da tarefa de ser gente, de expressar nossa humanidade. “Este ensinamento percorre todo o Antigo Testamento e culmina em Jesus, que era um trabalhador antes de se tornar um pregador itinerante” (Samuel Escobar). O povo judeu tinha um provérbio que era repetido de pai para filho: “Quem não ensina ao seu filho uma profissão, faz dele um ladrão”.

 

Trabalho: Benção ou Maldição?

 

Pelo fato de termos sido o último país do Ocidente a abolir os escravos, o trabalho nunca foi muito valorizado no Brasil. É ainda muito presente entre nós, a tendência de menosprezar o trabalho braçal. De fato, muita ideia errônea foi construída em torno do trabalho. Aristóteles chegou a afirmar que o trabalho deveria ser deixado para os escravos e este conceito penetrou na mente europeia por anos, até ser desafiada pela Reforma no século XVI.

 

No entanto, a doutrina da criação, registrada inicialmente no livro de Gênesis, inclui dentre as tarefas humanas o trabalho, e isto antes da queda da Raça humana. Ainda no Éden Deus disse ao homem: “Tenham domínio sobre os peixes, sobre as aves, sobre os animais domésticos e selvagens e sobre os animais do campo” (Gn 1.26).

 

Assim como o sexo é algo que antecede a queda, trabalho não é resultante da queda, já que Deus destinara o homem a dar nome a todos os animais (Gn 2.19-20), o que implica em atividade intelectual e tarefa a ser realizada. Os textos de Gênesis fazem do trabalho uma participação na obra criadora de Deus.

 

Tanto a Reforma religiosa do Século XVI, com João Calvino e Lutero, quanto os Puritanos, procuraram associar o trabalho à vocação, demonstrando que ele era um instrumento de benção, não de opressão. Esta visão ajudou a formar a sociedade industrial Europeia. Lutero (1483-1546) afirmou: “De trabalho não há quem morra. De ociosidade, sim. Porque o homem nasceu para trabalhar como a ave nasceu para voar!”

Quando o trabalho encontra este sentido da sacralidade e é visto com um bem supremo ou vocação tudo passa a ser feito com maior sentido, porque é realizado, antes de mais nada, para Deus.

 

Análise de Gênesis 2.15:

"E tomou o Senhor Deus o homem, e o pôs no jardim do Éden para o cultivar e o guardar."

Perspectiva Exegética

A exegese busca extrair o significado original do texto a partir da sua raiz hebraica e do contexto literário e teológico da criação.

 

·       O Contexto Literário: Gênesis 2 apresenta a criação sob uma lente relacional e funcional. No capítulo 1, o homem é criado à imagem de Deus para governar; no capítulo 2, essa governança ganha solo, ferramentas e um endereço físico: o Éden. O trabalho não é introduzido como um mero plano de subsistência, mas como uma vocação estrutural do ser humano antes de qualquer queda ou corrupção do mundo.

 

A ação de tomar e pôr (Lachaq e Nuach): O texto diz que Deus "tomou" (lachaq) o homem e o "pôs" (nuach — fazer descansar, estabelecer, fixar com segurança) no jardim. O trabalho humano nasce, paradoxalmente, dentro de um contexto de repouso e graça. O homem não é colocado no jardim para ser escravizado, mas para habitar em segurança sob a soberania divina. O trabalho original nasce dentro do repouso e da provisão divina, e não como uma fuga da ansiedade ou uma busca desesperada por valor.

 

·       Os Verbos Fundamentais:

 

o   Cultivar (avad): Traduzido frequentemente como cultivar, trabalhar ou servir. É a mesma raiz usada para culto (avodah). O verbo ʿābad nos lembra que produzir é um ato de culto. Nós tiramos do caos o potencial da ordem.

 

O trabalho humano no Éden é, em sua essência, uma liturgia prática. Cultivar a terra é cooperar com o Criador para extrair o potencial latente da criação, transformando o potencial bruto em ordem e beleza. Qualidade, honestidade, criatividade e diligência não são apenas estratégias de carreira; são reflexos de um Deus criativo e trabalhador. O labor exegético deste versículo revela que o trabalho não é uma consequência da Queda (Gn 3), mas parte do desígnio original e perfeito de Deus para a humanidade.

 

O verbo hebraico carrega uma dupla acepção intrínseca: significa trabalhar, cultivar, tencionar a terra, mas também servir e adorar (por esta razão, o mesmo termo é usado posteriormente para o culto no Tabernáculo/Templo). No Éden, a agricultura e a liturgia são sinônimas. Cultivar a terra é uma forma de culto prático prestado a Deus.

 

Trabalho é um meio de Louvor a Deus (1 Co 15.58; Hb 13.16) – A igreja sempre sofre a questão do dualismo grego: as coisas materiais são más e as “espirituais” são boas. Na Bíblia todas as nossas atividades são espirituais, e Deus espera que o glorifiquemos com o serviço. Ao falar aos servos, (Cl 3.23-24 e Ef 6.5-7), afirma que o trabalho deve ser para o Senhor. A negligência incorre na condenação divina (Mt 25.24-29): “Servo mau e negligente.”

 

Como você tem tratado a sua "terra" (suas tarefas, sua profissão)?

 

o   Guardar (šāmar): Significa proteger, vigiar, preservar ou cuidar zelosamente. Este verbo é o mesmo utilizado mais tarde para a guarda da aliança e dos mandamentos divinos. O trabalhador não é apenas um explorador de recursos, mas um guardião responsável pela integridade, ecologia e santidade do espaço que administra.

 

No Pentateuco, šāmar é o verbo usado pelos sacerdotes para guardar os recintos sagrados do Tabernáculo contra impurezas e ameaças. Isso indica que o primeiro ser humano exercia uma função sacerdotal: o jardim não era apenas um pomar a ser administrado, mas um santuário a ser protegido de intrusões caóticas e profanas.

 

Šāmar significa que o sucesso profissional não vale a perda da alma, da ética ou da família. O trabalhador do Reino não destrói o ambiente; ele o guarda. Precisamos cuidar para que a ânsia por lavrar (produzir) não nos faça negligenciar o guardar (proteger seus valores, sua integridade e seus relacionamentos mais sagrados). A fronteira do Trabalho deve ser estabelecida neste ponto de convergência: Proteger com Integridade (Guardar)

 

O trabalho em Gênesis 2.15 é a expressão da dignidade humana. O homem foi projetado para atuar como um vice gerente (cocriador), cuja ocupação une a produtividade (trabalhar) com a preservação ética e espiritual (guardar). Trabalho possui uma ideia positiva e antecede a queda. No Éden, o homem é colocado para cultivar e guardar o jardim.

 

Trabalho é também um meio de testemunho (1 Tm 6.1). Por meio do trabalho, estou demonstrando o Deus que sirvo e as implicações diárias desta adoração se manifestam no meu dia a dia (Tt. 2:9-10).

 

Há vários exemplos de homens fiéis a Deus e que demonstraram sua fidelidade na forma como exerciam suas funções:

§  José (Gn 39)

§  Neemias (Ne. 2:1-2)

§  Daniel (Dn 5 e  6): Conselheiro na Babilônia (Nabucodonozor e Belsazar) e dos medos e persas (Dario e Ciro). Sua fidelidade estava acima das ideologias ou reinados. Os seus opositores não tinham de que acusá-lo, por causa de sua integridade (Dn 6.4-5).

 

Jesus ensinou: “Assim também brilhe a vossa luz, para que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem a vosso Pai que está nos céus.” (Mt 5.16) Por meio do trabalho diligente e com excelência da igreja, o nome de Deus é glorificado.

 

Trabalho não é apenas um meio de subsistência, mas uma forma de construir a sociedade, e deve ser usado para acudir ao necessitado (Ef 4.28; Fl 4.14-19). Sua prosperidade deve ser uma forma não apenas de acúmulo, mas de abençoar. (2 Co 8.1-5). Trabalho é também um meio de realização pessoal. Adão não trabalhava no Éden pela subsistência, mas pela realização. O trabalho deve ter como objetivo final a valorização do homem e dar-lhe sentido temporal à existência.

 

A poetisa Gabriela Mistral certa vez afirmou: “como seria triste o mundo se tudo estivesse feito, se não tivesse uma roseira para plantar, uma iniciativa para tomar”.

Perspectiva Pastoral (O impacto na vida e na identidade)

A compreensão do texto bíblico nos ajuda a lidar de forma positiva com o trabalho:

·       A cura da alienação laboral: Vivenciamos uma era onde o trabalho se tornou sinônimo de esgotamento, ansiedade ou pura mercantilização da vida (onde a pessoa vale apenas pelo que produz). Gênesis 2.15 nos resgata ao mostrar que o trabalho precede a Queda (Gn 3). Ele foi desenhado para ser um canal de expressão da imagem de Deus, e não uma sentença de condenação.

·       Vocação sagrada vs. secularismo: Essa passagem derruba a falsa dicotomia de que o trabalho "religioso" é mais nobre do que o trabalho secular. Seja na lavoura, na sala de aula, no escritório, na construção, na política ou na gestão de uma casa, o cristão exerce avodah (serviço/culto). O local de trabalho é o altar onde a ética, a justiça e a excelência são oferecidas a Deus.

·       O equilíbrio entre produzir e proteger (lavrar e cultivar): Muitos adoecem porque só sabem lavrar (produzir, correr atrás de metas, acumular) e se esquecem de guardar (proteger a alma, a família, a saúde mental e os limites éticos). Um trabalho que destrói o trabalhador ou a sua casa perdeu a proporção edênica. O verdadeiro trabalho cultiva o mundo sem devorar quem o executa.

O trabalho não é um castigo divino para tolerarmos, mas o sagrado chamado de Deus para transformarmos o mundo e expressarmos a nossa humanidade. Deus não colocou o homem ocioso no Éden, nem o jogou diretamente num deserto árido para sofrer. O trabalho nasce antes do suor do rosto (Gn 3).

 

Deus se importa com o que você faz na sua segunda-feira de manhã. O seu local de trabalho é o campo onde a graça de Deus quer se manifestar através das suas mãos.

O Éden foi perdido, mas a vocação foi restaurada em Cristo, o carpinteiro de Nazaré que santificou as mãos humanas. Volte para o seu trabalho amanhã não apenas para pagar boletos, mas sabendo que você foi posto por Deus ali para cultivar a terra com excelência e guardar a vida com justiça.

Do ponto de vista pastoral, Gênesis 2.15 desconstrói duas mentiras contemporâneas sobre o trabalho:

ü  O esgotamento utilitarista (onde o homem vale apenas pelo que produz)

ü  A aversão ao labor (a ideia de que o trabalho é um mal necessário ou uma maldição).

 

A dignidade vocacional: Precisamos lembrar aos exaustos e aos frustrados que o trabalho diário — seja ele manual, intelectual, doméstico ou corporativo — possui valor intrínseco aos olhos de Deus. Ele não é castigo divino, o castigo veio depois, tornando o trabalho difícil e espinhoso, conforme Gn 3.17-19.

 

O trabalho deve ser entendido na dimensão de culto e proteção: O seu labor na sociedade é uma extensão do sacerdócio. Quando um crente trabalha com honestidade, criatividade e justiça, ele está exercendo o abad (servindo e cultuando a Deus) e o shamar (guardando a criação contra a desordem, a corrupção e o caos).

 

Deus colocou o homem no jardim antes de lhe dar tarefas. Isso ensina que nossa identidade precede nossa produtividade. Descansamos em Deus para depois trabalhar, e não o contrário.

 

Aplicações:

1.     Precisamos desfazer a ideia de que o alarme despertador de segunda-feira é uma herança da serpente. O trabalho nasceu antes da Queda. Deus desenhou o ser humano para ser ativo. O jardim foi o primeiro escritório e o primeiro altar do homem.

 

2.     O nosso trabalho transforma o potencial bruto do mundo em algo útil. É a nossa ferramenta de cooperação com a criação contínua de Deus. Uma cocriação. Fazer bem-feito é um ato de adoração.

 

3.     O nosso trabalho é uma barreira contra o caos. Proteger a ética, zelar pela justiça no ambiente profissional, cuidar das pessoas e do espaço que nos foi confiado é uma postura sacerdotal.

 

Cristo, o último Adão, trabalhou com as próprias mãos na carpintaria de Nazaré e depois garantiu o nosso repouso definitivo na cruz. Não encare sua segunda-feira como uma condenação, mas como um altar onde você serve a Deus, e um posto avançado onde você protege o mundo do caos.

 

Os males que rondam o trabalho devem ser avaliados e discutidos: Karl Marx denunciou o desequilíbrio econômico afirmando que a maior mazela social tem a ver com a exploração da classe burguesa ao desvalorizar o valor humano do trabalho. Marx se referiu ao conceito da “mais-valia” que se dá pelo fato do trabalhador não ser valorizado pelo que fez. Este princípio é profundamente atualizado ainda no nosso mundo carregado de injustiça e opressão contra o trabalhador.

 

A Bíblia denuncia severamente o trabalho opressivo. Ela nos ensina que Deus ouviu o clamor dos israelitas escravizados no Egito. Tiago denuncia a exploração da mão de obra, e os baixos salários, de uma forma que nenhuma ONG poderia dizer de forma mais apropriada e contemporânea: “Eis que o salário dos trabalhadores que ceifaram os vossos campos e que por vós foi retido com fraude está clamando; e os clamor dos ceifeiros penetrou até os ouvidos do Senhor dos Exércitos” (Tg 5.4).

 

Tanto a Reforma religiosa do Século XVI, com João Calvino e Lutero, quanto os Puritanos, procuraram associar o trabalho à vocação, demonstrando que ele era um instrumento de benção, não de opressão. Esta visão ajudou a formar a sociedade industrial Europeia.

 

A visão ocidental moderna sobre o trabalho se baseia em duas correntes históricas: (1) Desprezo greco-romano (trabalha-se como meio único de sobrevivência. (2) O conceito hebraico-protestante como dom de Deus e realização humana.

 

Quando o trabalho encontra o sentido da sacralidade e é descrito com um bem supremo ou vocação as coisas passam a ser feitas com maior sentido, porque são realizadas antes de tudo para Deus. Se é dramática a situação brasileira com remunerações indignas, igualmente o é fazer o trabalho de forma negligente quando se lesa o empregador com uma baixa qualidade de atividade e descaso, mesmo quando se trata daquilo que é público. Por ser vocação o trabalho traz realização e nos torna plenos naquilo que fazemos.

 

Na onda recente de livros sobre a história do Brasil, textos e revelações surpreendentes têm sido feitas. O livro 1808, de Laurentino Gomes é uma leitura obrigatória para quem deseja se inteirar sobre o desenrolar e as tramas de nosso povo.

 

Outro texto mais recente é “Antologia Brasil – A história contada por quem viu”, uma coletânea organizada pelo historiador Jorge Caldeira, que reúne documentos e testemunhos na forma de escritos, manuscritos ou impressos, e que traz um painel vigoroso e acessível da história nacional, com base nos depoimentos de quem vivenciou e construiu a narrativa tupiniquim.

 

Num dos 173 textos reunidos, Caldeira aborda um dos sentimentos mais presentes no Brasil Império, e que ainda hoje reflete de forma danosa na cosmovisão cultural brasileira. O texto foi escrito por Thomas Ewbank, viajante americano em 1846: “No Brasil predomina a escravidão negra e os brasileiros recusam, com algo semelhante ao horror os serviços manuais (...) Interrompendo um jovem nacional de família respeitável e em má situação financeira sobre porque não aprende uma profissão, há dez probabilidades contra uma de ele perguntar se o interlocutor está querendo insultá-lo. “trabalhar? Trabalhar?” gritou um deles, “para isto temos os negros!”

 

Simon Schwartzman em seu artigo O campeonato da desigualdade e a identidade racial (2001), afirma que “A questão racial se mistura e se confunde com a da pobreza e da desigualdade. ... Até os anos 30, as elites brasileiras eram abertamente racistas; negros, mulatos, índios e imigrantes eram considerados inferiores, e os intelectuais discutiam como fazer o branqueamento do país.”

 

Assim como na cultura, trabalho em muitas religiões tem sido considerado maldição. Até mesmo no cristianismo esta associação esteve muitas vezes presente. Entretanto, do ponto de vista bíblico trabalho é associado a benção, afinal, o próprio Deus trabalhou, até descansar no sétimo dia. Mesmo antes do pecado, Deus delegou ao homem e à mulher a tarefa de dar nome aos animais e cuidar do jardim. Isto em teologia é chamado de Mandato cultural. O trabalho é a vocação inicial do homem, é uma bênção de Deus. Somos projetados para trabalhar e o trabalho dá significado e propósito à vida. O trabalho humano aponta para o trabalho de Deus.

 

Trabalho também é essencial na plenitude da vida na criação. Recentemente Elon Musk foi entrevistado por um grupo de empresários árabes, e levantou uma questão assustadora. Ele crê que com a tecnologia, automação e o avanço das pesquisas, precisaremos de menos trabalhadores e haverá menos empregos, desta forma, teremos mais tempo e geraremos mais riqueza e produtividade com menos pessoas na força do trabalho. O grande desafio será lidar com a realidade de uma sociedade sem atividade. As pessoas poderão até mesmo receber um salário para não trabalhar, (isto em certa medida já acontece até mesmo no Brasil), mas o grande dilema não será a sobrevivência nem sua manutenção, mas o significado, já que trabalho está associado à identidade pessoal.

 

Trabalho, portanto, precisa ser colocado na perspectiva correta. Como bem afirmou Seneca: “O trabalho é o alimento das almas nobres. O trabalho espanta os vícios que derivam do ócio.” O apóstolo Paulo foi até um pouco mais severo ao afirmar: “Aquele que não trabalha, é bom que não coma.”

 

Trabalho e prosperidade

 

Li a entrevista de um celebrado pianista que tem a fama de ser um virtuose. Quando lhe perguntaram se ele era um gênio, respondeu rispidamente que detestava ser chamado de gênio, porque esta questão, implicitamente deixava transparecer a ideia de que ele não precisava se esforçar para realizar suas performances no palco, e que as pessoas pareciam ignorar o fato de que, sistematicamente, ele passava oito horas diariamente praticando sua arte.

 

Sucesso de uma pessoa e de uma nação depende diretamente da vontade em fazer as coisas da forma correta. A Bíblia diz que “Em todo trabalho há proveito, mas ficar só em palavras leva à pobreza” (Pv 14.23), e nos encoraja a observar como é o ciclo da natureza. “Vai ter com a formiga, ó preguiçoso; considera os seus caminhos e sê sábio. Não tendo ela chefe, nem oficial, nem comandante, no estio prepara o seu pão, e na colheita ajunta o seu mantimento” (Pv 6.6-8).

 

William Douglas e Rubens Teixeira, no seu livro As 25 leis bíblicas do sucesso, contam a seguinte fábula:

“Você conhece a charada dos três sapos que estão em cima de uma folha no meio de um rio? Pois bem, um deles decide pular na água. Quantos sapos restam na folha? Pense um pouco antes de dar a resposta, porque ela não é tão óbvia como parece. A resposta correta é: restam três sapos, porque um deles apenas decidiu pular, mas não está escrito que o fez”. Dito isto, concluem dizendo: “A maior parte dos erros que cometemos não se deve a escolhas erradas, e sim à indecisão, à omissão e à falta de ação por medo de errar”. 

 

Uma cultura se autodestrói quando as pessoas criam mentalidade de dependência, ou não são suficientemente encorajadas e empoderadas para crer que o trabalho gera satisfação e bem-estar. Perde também sua pujança quando o ganho é feito através de atalhos, malandragens e corrupção. A propina é um cancro social, porque desestimula a competitividade sadia; a injustiça também enfraquece a honestidade e o trabalho.

 

Uma nação é enriquecida pelo trabalho. Pois este dá sentido e propósito à vida. “A lei do trabalho é tão poderosa que, de modo geral, quem obtém sucesso ou dinheiro sem esforço e de maneira ilícita corre sério risco de não manter suas conquistas por muito tempo” (Douglas & Teixeira - As 25 leis bíblicas do sucesso) Afinal, “A riqueza de procedência vã diminuirá, mas quem a ajunta com o próprio trabalho a aumentará” (Pv 13.11).

 

O homem e o trabalho numa sociedade de consumo.

A dignidade do Trabalhador

No sistema capitalista, o trabalho vem sempre associado à exploração, autoritarismo e desmandos. Muitas vezes o trabalho tem sido um instrumento de forte opressão ao ser humano. No Brasil, a demora na abolição dos escravos tornou ainda o trabalho ainda mais desvalorizado, razão porque se remunera tão mal os assalariados e operários.

 

A dignidade do trabalhador provém do fato dele ser um colaborador na obra criativa de Deus. Ninguém tem o direito de comer sem trabalhar (2 Ts 3.6-8,10,12). A comida é o fruto do trabalho, comer sem trabalhar é romper a solidariedade do povo. O trabalho é uma tarefa coletiva da humanidade. Todos devem participar (Ef 4.28) Digno é o trabalhador de seu trabalho.

Trabalho como instrumento de transformação histórica

Durante muito tempo, o trabalho não mudava a vida humana. O trabalho de muitos camponeses não transformava nada, o fim do trabalho era gerar alimentação apenas, ou produzir obras suntuosas para os poderosos. As plantações e cultivos eram feitos exatamente como os antepassados faziam, mas com o desenvolvimento técnico e científico, o trabalhador teve que ser educado, o trabalho mudou e a produtividade aumentou. A burguesia percebeu que o trabalho poderia mudar o mundo exterior e os trabalhadores aprenderam a se defender contra a exploração burguesa. Os trabalhadores descobriram que o trabalho transforma o mundo e quiseram participar desta transformação. "A questão não é "quanto esta pessoa trabalha?" a questão é: quanto esta pessoa realiza?"  Pear James

A família do Trabalhador

"Para o pleno desenvolvimento de sua personalidade, o trabalhador deve ter uma família cercada de condições dignas de habitação, alimentação, higiene, vestuário, transporte, educação e lazer que permitam uma vida sã, física e espiritualmente. Compete ao Estado, como promotor do Bem Comum, zelar principalmente para que estas condições mínimas sejam atendidas"[1]

A dignidade do trabalho

Não nos basta apenas considerar a dignidade do trabalhador, mas é necessário que consideramos a dignidade do trabalho em si. O trabalho, dentro da ética cristã, é fator de aperfeiçoamento da pessoa humana, de enriquecimento e progresso da nação. Constitui uma afirmação da pessoa humana. Lamentavelmente, muitos trabalhos denigrem a dignidade humana, transformam o homem em um ser vilipendiado, embrutecido, vítimas de sistemas cruéis e poderosos, sendo coisificados e explorados. "Muitos trabalhadores são sujeitos a um esgotamento corporal que evoca os trabalhos dos escravos ou dos campos de concentração" [2]

 

O salário do trabalhador

O assalariado deve receber uma remuneração justa e adequada às suas necessidades. Pagar menos que menos que o necessário agride a Deus (Jr 22.13; Tg 5.4).

 

No primeiro texto nossa atenção se volta para o trabalho sem remuneração. No segundo, para um pagamento que desvaloriza o trabalho, e que foi "retido com fraude", isto é, sistemas que conseguem tirar da boca do trabalhador, por meio de arranjos, aquilo que lhe é direito. Privar o trabalhador do seu salário atrai a ira de Deus.

 

O sistema capitalista

 

O problema básico do sistema é que sua lei número 1 é "tenha lucros!". Pelo afã de ganhar mais, "o trabalhador recebe pelo seu trabalho apenas o indispensável para sobreviver e o fruto do trabalho lhe é confiscado para aumentar o capital. Entra-se no ciclo da acumulação de capital. O capital torna-se o dono da produção. Esta não tem mais por fim a satisfação das necessidades doa trabalhador e sim o maior aumento do próprio capital para que o sistema de produção possa crescer indefinidamente"[3]

 

Continua Comblin: "o capital acumulado não serve para aumentar o sistema de produção e sim para edificar um mundo de luxo e de superconsumo para a satisfação de uma ínfima minoria da população. Trabalhão e capital estão entregues a uma minoria aristocrática... No Brasil, 1% da população reserva para o seu luxo, 50% do produto nacional".[4]

 

“Quem gosta de trabalhar, quando fica a toa, fica mais cansada”. Irene Maria de Jesus, artesã de Patos de Minhas-MG

Conclusão: A Obra de Cristo.

“Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também”. (Jo 5.17) Jesus disse isso após curar um homem no sábado. Os líderes religiosos da época criticaram a cura porque o sábado era um dia de descanso obrigatório em que não se podia realizar trabalho algum. Jesus respondeu que Deus, o seu Pai, continua sustentando e cuidando do universo todos os dias, sem parar nem mesmo nos sábados. Como Filho, Ele faz o mesmo trabalho de amor e misericórdia que vê o Pai fazer.

A redenção e o cuidado de Deus pela humanidade é um trabalho contínuo e incansável. Jesus veio à Terra para executar exatamente esse plano, trabalhando na história humana através de sua vida, morte e ressurreição. A Bíblia revela o paradoxo do sábado e a salvação. No Antigo Testamento, Deus descansou no sétimo dia porque a criação física estava concluída. Porém, a entrada do pecado no mundo quebrou essa harmonia. Deus Pai e Jesus "trabalham no sábado" porque a salvação não pode tirar folga. Curar o enfermo no sábado simbolizava que Jesus veio restaurar e recriar o ser humano caído, um trabalho de amor que não para nunca.

 

Na cruz, Jesus bradou "Está consumado", indicando que o preço pelo pecado foi totalmente pago e o sacrifício foi concluído. Embora o sacrifício na cruz tenha sido único, o trabalho de salvação continua hoje através da intercessão. Jesus intercede por nós, pecadores, diante do Pai como nosso advogado, intercessor judicial. 

 

 

 

 

 

 

 



[1] Mattos, Domicio, P. – Condição social da igreja, Rio, Ed Praia, 1965, pg 41

[2] Comblin, idem, pg 177

[3] Comblin, idem, pg 177

[4] Idem, pg 178