³⁸ E João lhe respondeu, dizendo: Mestre, vimos um que em teu nome expulsava demônios, o qual não nos segue; e nós lho proibimos, porque não nos segue.
³⁹ Jesus, porém, disse: Não lho proibais; porque ninguém há que faça milagre em meu nome e possa logo falar mal de mim.
⁴⁰ Porque quem não é contra nós, é por nós.
Introdução
Sempre tivemos todas imagináveis intolerâncias na história da humanidade. A mais comum delas é a religiosa. No Século XX, houve mais mártires do cristianismo que todos os séculos anteriores (de I ao XIX, somados). Encontramos ainda:
ü Intolerância Ideológica/partidária e política; raciais (conflitos étnicos e tribais); No seculo XX vimos o perigo quer tais ideologias trazem: Fascismo, Nazismo, Totalitarismo da esquerda e da direita, comunismo.
ü Intolerância sexual (incluindo ai a desvalorização da mulher, a intolerância por preferências sexuais, etc). Em cada uma delas surgem inquisições, cassações, cancelamentos e perseguições, incluindo a morte.
ü Racial: que envolve as guerras tribais e conflitos étnicos
Dois exemplos recentes:
Alemanha -1939-1945
Por causa de ideologia racial, surgiu o Arianismo, a crença na superioridade da "raça ariana". que desembocou no trágico surgimento do fascismo. Eles utilizaram o Darwinismo Social de forma distorcida para justificar que as raças estavam em uma luta constante pela sobrevivência, fazendo surgir o antissemitismo violento: O movimento Völkisch definia o povo judeu como a antítese da alma germânica. Eles não viam o judaísmo como uma religião, mas como uma "raça" que supostamente contaminava a pureza do sangue alemão.
Sérvia
Na década de 90, ocorreu uma grande faxina étnica na Servia, marcados por brutais faxinas étnicas nos Bálcãs, especialmente durante os anos 90. A limpeza étnica (etničko čišćenje) não foi um efeito colateral da guerra; foi o próprio objetivo da guerra.
Sob a liderança de Slobodan Milošević, decidiram criar um território homogeneamente sérvio. A ideia era que, se um território deveria ser sérvio, não poderia haver "outros" (croatas, bósnios muçulmanos ou albaneses) vivendo nele. Eles criaram um padrão sistemático: Vilas eram cercadas, e o objetivo inicial era o medo. Homens e meninos em idade de combate eram separados das mulheres e idosos. Milhares eram colocados em ônibus e trens, forçados a abandonar suas casas com apenas a roupa do corpo, começaram a estuprar como arma de guerra para destruir o tecido social e a identidade das comunidades. Mesquitas, bibliotecas e arquivos históricos eram destruídos para apagar qualquer vestígio de que aquele povo um dia viveu ali.
O ápice do horror, e o evento mais vergonhoso ocorreu em Srebrenica (1995), uma zona que deveria ser protegida pela ONU. Milícias sérvias, comandadas por Ratko Mladić, executaram mais de 8.000 homens e meninos bósnios muçulmanos em poucos dias. Foi o primeiro ato de genocídio em solo europeu oficialmente reconhecido após a Segunda Guerra Mundial, sufocando a moralidade básica e a vizinhança que existia há décadas. Vizinhos que tomavam café juntos um dia, passaram a denunciar e matar uns aos outros no dia seguinte. O "padrão perfeito" de Deus foi ignorado em favor de um "padrão de sangue".
Na área religiosa houve grandes conflitos entre:
Þ Católicos x judeus
Þ Católicos x protestantes – Principalmente na Irlanda. No Brasil templos evangélicos foram destruídos pelo obscurantismo e símbolos católicos igualmente foram alvo de zombaria, etc.
Þ Islamismo x cristianismo – Não se trata de um caso recente de conflito, mas se arrasta desde as cruzadas religiosas.
O caso do Pastor Youcef Nadarkhani é um dos testemunhos mais emblemáticos no século XXI. Ele se tornou um símbolo global da perseguição religiosa e da resiliência da fé cristã em regimes teocráticos. Ele era pastor de igrejas domésticas no Irã, e foi preso originalmente em 2009. O motivo inicial foi protestar contra o monopólio islâmico na educação de seus filhos, mas a acusação rapidamente escalou para apostasia (abandonar o Islã pelo Cristianismo) e evangelismo.
Em 2010, um tribunal iraniano o condenou à morte por enforcamento. O que tornou o caso dramático foi o "ultimato" dado pelos juízes: Eles ofereceram liberdade total se ele renunciasse publicamente a Cristo e retornasse ao Islã. Por três vezes, ele se recusou. Sua resposta histórica foi: "Eu sou um cristão e continuarei sendo. Não posso negar a verdade que encontrei."
Devido a uma campanha global massiva e pressão diplomática, o governo iraniano acabou cedendo. Em 2012, ele foi absolvido da acusação de apostasia, mas condenado por "evangelizar muçulmanos". Como já havia cumprido tempo suficiente, foi libertado. Infelizmente, a "liberdade" no Irã é frágil. Em 2016, ele foi preso novamente em uma operação contra cristãos. Desta vez, a acusação foi "agir contra a segurança nacional". Ele foi novamente condenado a 10 anos de prisão e enviado para a notória Prisão de Evin. Durante o tempo de prisão, ele chegou a fazer greves de fome para protestar contra a proibição de seus filhos frequentarem a escola.
Em fevereiro de 2023, como parte de uma anistia em massa concedida pelo governo iraniano (após grandes protestos nacionais), o Pastor Youcef Nadarkhani foi finalmente libertado. Atualmente, ele permanece no Irã sob vigilância, mas fora das grades. Qual é o seu crime? Crer e pensar de forma diferente.
Um olhar para o texto bíblico
Neste texto vemos a atitude dos discípulos sendo questionada por Jesus. Encontraram um grupo que não andava com eles, e que expulsavam demônios em nome de Jesus, e o proibiram, “porque não seguia conosco” (Mc 9.38) e Jesus os admoesta a não agirem desta forma.
Ao agir assim, resolveu formular a tese diferente dos islâmicos que dizem: “matar um infiel garante galardão no céu”. Por isto, uma das práticas espirituais do islamismo tem sido o Jihad, que é o extermínio daqueles que discordam do Alcorão e do Profeta Maomé. Jesus estabelece as relações com os grupos diferentes.
Como lidar com as diferenças entre grupos, denominações e pessoas que diferem do nosso ponto de vista?
- Aprenda a respeitar as diferenças – Jesus afirma que o fato de alguém não estar fazendo parte do nosso grupo, não significa que devemos excluí-los. Este princípio teria sido uma benção historicamente para os cristãos se fosse praticado.
“Acolhei o que é débil na fé, não, porém, para discutir opinião. Um crê que de tudo pode comer, o fraco come legumes.”(Rm 14.1)
Racismo, intolerância, segregacionismo, exclusivismo, não são coisas com a quais nascemos, mas é um aprendizado. Se colocarmos crianças de diversas culturas e línguas, de cor e sexo juntas, elas vão conviver naturalmente, sem nenhum julgamento ou preconceito, mas na medida em que vamos fazendo leituras, nós as tornamos arrogantes, petulantes e com sentimento de superioridade. O ódio aos judeus, aos negros, aos bruxos, aos protestantes, são coisas ensinadas pelos pais.
O artigo que reproduzo abaixo, foi publicado no Jornal Contexto, da cidade de Anápolis-GO, que narra meu encontro com D. Helder Câmara:
Em 1992, fiz uma viagem complicada a Recife para apoiar um amigo que se encontrava numa constrangedora situação. Não foi uma viagem muito agradável e tive que fazê-la em caráter de urgência.
Nestes três dias em que ali estive, andei ao seu lado, tentando ajudá-lo a alinhavar opções no quadro tenebroso em que se metera. Numa destas manhãs, passamos próximo à paróquia onde D. Hélder Câmara exercia seu sacerdócio. Naquela época ele era arcebispo de Olinda e Recife. Perguntei ao meu amigo se seria possível passar por lá e tentar conversar com ele. Não tínhamos entrevista marcada, e por isto seria muito remota a possibilidade deste encontro, além do mais, ele vivia constantemente atendendo convites para preleções no Brasil e na Europa.
D. Hélder foi um dos maiores defensores dos direitos humanos durante a ditadura militar, encabeçou a edição do livro “Brasil, nunca mais” e tornou-se um dos bastiões de defesa daqueles que, por causa de uma visão ideológica diferente, eram opositores do governo. Ele era um homem de hábitos simples e morava num quartinho da sacristia no Recife, apesar de ser um personagem badalado em todos os círculos oficiais por onde passava.
Na secretaria fomos indagados se tínhamos entrevista marcada e respondi que não, afirmei que era pastor presbiteriano e surpreendentemente, cinco minutos depois estávamos trocando experiências com este homem notável. Disse-lhe que o que me impulsionara a este encontro fora o desejo de expressar minha admiração pela sua luta pela cidadania e democracia do Brasil. Ele afirmou estar surpreso com a visita de um pastor, e que não se lembrava de acontecimento semelhante em sua vida.
Contou-nos ainda, que quando criança, vindo do obscurantismo rançoso e interiorano da religiosidade de então, ouviu o pároco recomendar às crianças que não passassem sequer na calçada de uma igreja protestante. Ao chegar em casa, contou isto à sua mãe que disse: “Você não deve nada a ninguém. Nós precisamos aprender a respeitar as diferenças e convicções dos outros, portanto, nunca faça isto!”, e esta palavra de sua mãe o orientou pelo resto da vida.
Foi uma visita breve, agradável e marcante. Ficamos ali uns 15 minutos e fomos embora, afinal, éramos intrusos na sua agenda tão carregada. Contudo, aquele encontro certamente tornou-se um evento a ser lembrado na minha história. Não precisamos concordar com todos os pontos de vista, mas podemos permitir a todos o direito de pensar. Este homem ensinou um pouco disto ao Brasil.
Em Mc 9.30 vemos que os discípulos estavam hostilizando aqueles que não andavam com eles. Vemos ainda esta atitude em igrejas evangélicas que se acham detentoras do Espírito Santo. Se não estiver “debaixo da visão”, ou dentro da estrutura profética ou cobertura de determinado apóstolo ou patriarca, não pode ter a benção. Os judeus também se julgavam donos de Yahweh, reduzindo-o a um Deus tribal, Deus de um determinado clã, mas a Palavra de Deus nos mostra o que aconteceu com eles por causa deste fechamento. Este exclusivismo tem caráter sectário, trazendo uma mentalidade de seitas.
Jesus ensina seus discípulos a aprender a respeitar as diferenças, a não julgar e discriminar só porque determinado grupo não se alia conosco ou não anda conosco.
- Aprenda a respeitar opiniões divergentes, mas não negocie valores e princípios de sua fé – Vivemos dias complicados, porque a palavra-chave tem sido inclusivismo e tolerância.
O problema da tolerância, porém, pode nos levar a outras dimensões: “Devemos concordar com tudo? Até com aquilo que não creio?”.
Um dos bons princípios que aprendi sobre este assunto diz o seguinte: “Posso não concordar com teu pensamento, mas defendo até o último instante, o direito de você pensar”.
Alguns anos atrás, o Brasil se envolveu numa grande discussão sobre a PL 125, apresentado pela Senadora Marta Suplicy, que chegava ao ponto de afirmar que qualquer pregador poderia ser processado, se falasse alguma coisa contra a questão homossexual. Ora, todos nós precisamos respeitar as pessoas, independentemente da sua cor, opção sexual, raça, gênero, mas isto não significa que devemos concordar com seu ponto de vista. Tratar com respeito, não significa concordar. Por esta razão, alguns grupos evangélicos nos EUA têm falado que, em nosso tempo presente, precisamos ser intolerantes, no sentido de que vamos dizer o que pensamos.
A Bíblia nos ensina: “Cada um tenha opinião bem definida na sua própria cabeça” (Rm 14.5). O problema não é ser radical. Por preguiça ou por inconstância, temos concordado com conceitos diabólicos só para parecermos agradáveis a determinadas pessoas. Não precisamos e nem podemos apoiar causas com as quais não concordamos. Precisamos ter ideias claras sobre o que queremos fazer.
- Você não precisa e nem pode concordar com tudo e com todos, mas aprenda a amar a todos, mesmo aqueles contra os quais você discorda veementemente – Você não está julgando a pessoa, mas sua opinião.
Converteu-se um rapaz em nossa igreja no Rio, que trabalhava numa multinacional, a Michellin. Um dia, seu supervisor chegou perto dele e de seu colega e lhes disse: “Estamos transferindo ambos para outro setor e vocês deverão trabalhar juntos, mas como eu sei que protestantes e espíritas são opostos, queria pedir que vocês deixassem suas divergências de parte, para que o trabalho não fosse prejudicado.” O jovem cristão respondeu: “Quem falou que não amamos os espíritas? Eu amo muito os espíritas”. Naquele final de semana, aquele colega espírita lhe disse que gostaria de visitar sua igreja.
Ao se apresentar diante da Dieta de Worms, na presença do Imperador Carlos V, Lutero fez sua defesa afirmando que se pudessem provar pelas Escrituras que ele laborava em erro em rejeitaria seu ponto de vista, caso contrário, se firmaria nas suas declarações, já que não é lícito agir contra a consciência de ninguém.
O ponto central da sua defesa foi a verdade. Ele se recusou a aceitar que o Papa ou os Concílios fossem infalíveis, pois eles já haviam se contradito. Ele apelou para algo superior: "A menos que eu seja convencido pelo testemunho das Escrituras ou pela razão clara... minha consciência está cativa à Palavra de Deus. Recusar-me a agir contra a minha consciência não é seguro nem correto." No encerramento de sua defesa ele disse: "Aqui estou; não posso fazer outra coisa. Que Deus me ajude. Amém."
Um antigo princípio da Reforma dizia o seguinte: “Nas coisas essenciais, unidade; nas secundarias, liberdade; mas acima de tudo, Amor!”
Aplicações práticas:
- Solidifique suas convicções numa clara cosmovisão cristã. Aprenda a ter uma mente bíblica. Você realmente sabe o que a bíblia ensina acerca das controvérsias éticas e religiosas? Você tem um bom fundamento para sua fé?
Em Ef. 4.14 lemos: “Para que não sejamos mais, como meninos, agitados de um lado para outro, e levados ao redor por todo o vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astucia com que induzem ao erro”. Você sabe o que Deus pensa sobre os assuntos mais controvertidos que tem sido discutidos hoje? Guerras, aborto, ecologia, namoro, jogos de azar, finanças, divorcio, sexo antes do casamento, drogas?
Firme sua mente nas verdades de Deus. Eva titubeou nas suas convicções e Satanás incrustou em sua mente uma enorme dúvida, que trouxe sérias conseqüências não apenas para si mesma, mas para toda raça humana.
Temos sido muito superficiais e ingênuos na crítica filosófica, por isto a Palavra de Deus recomenda: “Antes, santificai a Cristo, como Senhor, em vossos corações, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós.” (1 Pe 3.15)
Qual é a regra de fé e prática para nossas vidas? Por que você deve fazer isto e não aquilo? Você está convencido das verdades do Evangelho? Se você não se convencer que as verdades do Evangelho, ao serem levadas às últimas conseqüências, sempre se mostrarão absolutamente coerentes, você nunca será um bom cristão.
- Entenda que não alinhar seu pensamento ao pensamento de Deus inevitavelmente o levará a errar na missão que Deus tem para sua vida.
O que você crê, determina o que você faz. Ética precede teologia (ou filosofia de vida). O discípulo de Cristo deve aprender a pensar como Cristo pensa, seguir seus ensinamentos, ter a visão de Cristo.
Somos orientados pela palavra de Deus ou pelos nossos sentimentos (pensamentos, idéias?). A grande questão é: somos orientados pelo sentimento, pela filosofia secular, ou pela Palavra de Deus?
- Considere o modelo de Jesus – Ele aprendeu a lidar com diferentes. Em Mt 11.19 ele é chamado de “amigo de pecadores”.
Enfrentou corajosamente as barreiras criadas pelos homens.
Barreira cultural: dialogava com publicanos, samaritanos e gentios;
Barreira Sexual: Dialogou com prostitutas e mulheres de conduta duvidosa.
Barreira religiosa: Tocou leprosos, mulher hemorrágica e mortos.
Por que?
Jesus não concordava com o erro da mulher samaritana, nem com a atitude da adúltera, mas amou e acolheu. Devemos viver na fronteira entre a santidade de Deus e o acolhimento aos pecadores, sem negociar verdades divinas.
Ainda hoje, esta é a atitude de Jesus. Ele nos acolhe, não para continuarmos pensando e agindo como agimos, mas para entendermos o seu pensamento e considerar que existe uma nova proposta de benção para sua vida. Ao amar os divergentes, ele calça as sandálias daquele que pensa de forma divergente, e traduz o sentido mais profundo de sua missão e encarnação na história humana.
