Introdução
Jesus se encontra em Bâneas, no sopé do Monte Hermon, e ali indaga aos discípulos qual era a visão que as pessoas tinham sobre ele. (Mt 16.13-14) Depois da resposta, Jesus perguntou sobre a visão dos discípulos: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 15-16) Diante da resposta de Pedro, Jesus faz uma declaração que até hoje causa muita especulação sobre seu significado. “Eu lhe digo que tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a minha igreja.” (Mt 16.18)
Qual o significado desta declaração?
A. Igreja Católica - Pedro é a pedra. 800 milhões de católicos no mundo creem nisso. Este é um dos textos básicos para justificar a ideia do Papa, como substituto de Cristo. “Vicarius filli Dei”. Ele fala em nome de Cristo.
B. A pedra seria A declaração de Pedro: “Tu és o Cristo filho do Deus vivo.”
C. Jesus é o próprio fundamento. Cristo é a "pedra viva" (1 Pe 2.4), fundamento sólido, eterno e ativo da Igreja. Ele é a "pedra angular" preciosa, sendo a base de toda a construção espiritual (a Igreja) onde os fiéis também são chamados a ser pedras vivas. Jesus é a rocha dura e segura sobre a qual a vida espiritual e a igreja são construídas, oferecendo estabilidade.
Depois deste diálogo, Jesus abre sua agenda: “É necessário que o Filho do homem seja crucificado.” (Mt 16.21)
Este texto apresenta três tipos de espiritualidade:
1. A espiritualidade do monte: Êxtase e surpresa.
2. A espiritualidade do vale: Discussão sem poder
3. Espiritualidade de Jesus. Oração, intimidade e poder.
A Espiritualidade do monte
É muito comum encontrarmos pessoas que vivem uma espiritualidade mística, se realizam com as manifestações sobrenaturais e buscam este tipo de experiência, sem aprofundar sua compreensão do Evangelho.
Este tipo de espiritualidade tem algumas características:
A. Vê milagres, mas não discerne a centralidade da pessoa de Jesus. O evangelho é repleto de milagres, mas milagres não revelam a essência do evangelho. Apesar de toda glória presenciada por Pedro, Tiago e João no Monte da Transfiguração, eles não sabiam da verdadeira identidade de Cristo. (Mc 9.5)
B. Vê milagres sem discernir a missão de Deus. “Vamos ficar no monte.” Espiritualidade de fuga. Entretanto, é no vale que discernimos nossa missão, lidamos com famílias quebradas, jovens possessos. Ao descer do monte Jesus traz libertação àquela família. Todos se maravilhavam, a multidão ficou encantada. Mas Jesus se dirige aos seus discípulos (Lc 9.44) revelando que não iria mudar sua agenda: Ele iria para a cruz.
Logo após a multiplicação dos pães, os discípulos quiseram arrebatá-lo para fazê-lo rei. (Jo 6.14-16). Jesus foge desta visão equivocada, porque ele não quer ser rei de soluções econômicas, mas rei sobre nossas vidas. Não quer sua imagem associada a de um milagreiro.
A Espiritualidade do Vale
Quando Jesus desce do monte, ele encontra seus discípulos, e numerosa multidão ao redor deles, num debate acalorado com os escribas (Mc 9.16). Jesus pergunta sobre a natureza da discussão e no meio da discussão teológica há um homem angustiado, por causa da situação espiritual do seu filho, que comprometia sua saúde e sanidade. O garoto estava possesso de um espírito mudo. Há muita dor naquele homem por causa da condição de seu filho.
Os discípulos discutem a obra quando deveriam fazer a obra. Eles param na discussão. É uma teologia com muita discussão e pouco poder.
Jesus repreende o demônio e finalmente liberta aquela criança. Os discípulos perguntam: “Por que não pudemos?” (Mc 9.28) Enquanto os discípulos discutem o diabo age com crueldade, joga o jovem no fogo, na água, no chão, não há paz na casa. Por que não puderam? Porque eles ficaram discutindo ao invés de buscar a Deus.
O diabo age com crueldade com a criança “desde a infância.” O termo infância no grego é “brefos”, e se refere à vida precoce de uma criança. Era uma criança marcada por uma obra maligna.
Além da ação direta do demônio, temos que considerar que hoje, de uma forma mais explicita, temos um projeto maligno e supra-humano para destruir as crianças. Em Junho de 2024, houve um debate na internet sobre um livro pedagógico no Brasil no qual um pai se propõe a casar com a filha, fazer a mãe escrava da casa, mas a filha rejeita e comete suicídio. Veja a gravidade de uma estória como esta escrita para crianças e subsidiada pelo estado.
Nossos filhos são alvos do ataque maligno na mídia, literatura, e muitas crianças são escravizadas por ideologias, falsas religiões, superstições e ação maligna. Recentemente em nossa família, uma criança de apenas 11 anos, cujos pais não são crentes, publicou uma homenagem a Iemanjá no seu Instagram. A igreja precisa de poder para libertar os cativos de toda influência, opressão e possessão,
Há uma tristeza na voz de Jesus quando vê os discípulos impotentes. “Ó Geração incrédula, até quando estarei com vocês? Até quando terei de suportá-los? Tragam o menino até aqui.” (Mc 9.19) A síntese bíblica sobre os discípulos era apenas uma: “Eles não puderam”.(Mc 9.17) Se a igreja não tem poder nem autoridade, não é porque falta poder, mas porque não o buscamos.
Que grau de compromisso temos na busca e na oração?
A Espiritualidade de Jesus
A espiritualidade de Jesus possui algumas características importantes e fundamentais. Sua espiritualidade é marcada pela oração. Ele levou seus discípulos para o monte, para um tempo de privacidade (Mc 9.2)
A. Jesus ora no monte.
o Porque Jesus orou o Shekinah de Deus se revelou.
o Porque Jesus orou, o Pai se revela – “Este é o meu filho amado, que me dá prazer. Escutem o que ele diz.” (Mc 9.7)
O Pai celeste faz uma manifestação afetiva para o Filho. Infelizmente, o que dá prazer em Jesus, sua vida de oração e intimidade, dá cansaço nos discípulos.
B. A espiritualidade de Jesus é marcada pelo compromisso com a obediência.
o Qual é a agenda de Jesus? “O Filho do Homem será entregue nas mãos dos homens e estes o matarão.” (Mc 9.31). Ele se dirige para Jerusalém. Ele tem um grau profundo de compromisso com a cruz (Lc 9.44). Obediência ainda que o caminho seja a cruz. Sua obediência está explicita no seu rosto (Lc 9.51) Ele toma a “resolução intrépida” de ir para Jerusalém (Lc 9. 53),
o Sua obediência está associada ao seu poder. Seu poder está relacionado à obra de Cristo. Jesus governa no céu, no inferno e na terra. Ele recomenda aos discípulos uma vida de oração e jejum.
Conclusão
Provavelmente nossa espiritualidade oscila entre um ou outro destes pêndulos. Muitas vezes somos profundamente atraídos pela espiritualidade do monte, queremos sinais, milagres, transfiguração. Outras vezes, nos tornamos secos e vazios nos nossos debates, nos perdemos em discussões enquanto tantas pessoas sofrem ao nosso redor e nada fazemos.
Neste texto somos desafiados a olhar mais para Jesus, ver como ele lida com a devoção, seu desejo de estar com o Pai o leva ao monte. Ele não foge desta espiritualidade que envolve a “mística” da oração (no sentido mais puro possível), ele ora. Muitas pessoas perguntam: “Por que devemos orar se Deus já sabe de todas as coisas?” Minha resposta mais simples sobre este assunto é a seguinte: “Porque Jesus orava...” Este simples fato deveria ser suficiente para nos transformar em pessoas dedicadas a oração.
Neste texto somos desafiados a olhar com compaixão o sofrimento do outro. Este homem sofria e seu filho sofria terrivelmente. Não apenas penetrar na dor do outro, mas pedir a Deus a graça de lidar efetivamente com o sofrimento, principalmente quando tal sofrimento está associado a uma ação maligna.
A impotência dos discípulos neste texto nos choca, mas ela aponta também para nossa própria impotência. Precisamos do poder de Cristo para lidar com intrepidez com as obras do diabo. A única resposta de Cristo aos discípulos, quando indagaram por que eles não puderam foi a seguinte: “Este tipo de espírito só pode ser expulso por meio da oração (e jejum).” (Mc 9.29). Apenas a intimidade com Deus pode nos capacitar efetivamente com as trevas e confrontar ações malignas.

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