Introdução
Jesus usa muitas formas estranhas de abordagem na Bíblia. Apenas no livro de Marcos, do capítulo 1 até o capítulo 10, existem várias situações atípicas:
Ø Ao ver o paralítico, ao invés de curá-lo imediatamente a expectativa de todos, ele afirma que seus pecados estavam perdoados (Mc 2.5), contrariando assim todo aparente senso comum.
Ø Ao contar a parábola do semeador, deixa todas as pessoas boquiabertas e afirma que seu objetivo tinha dupla finalidade: revelar a vontade do Pai para alguns e ocultá-la de outros. (Mc 4.11-12)
Ø Quando os discípulos enfrentam a tempestade, ele dorme na proa do navio, aparentemente indiferente a angústia dos seus discípulos, e ao ser acordado, ainda repreende os apavorados discípulos dizendo que eles não tinham fé. (Mc 4.40)
Ø Age com aparente descaso diante da mulher siro fenícia cuja filha estava possessa, simplesmente porque ela não era judia. (Mc 7.24-30)
Ø Para curar um surdo e gago, toca com saliva na língua da pessoa doente. (Mc 7.33)
E aqui, no texto lido, Jesus pergunta a Bartimeu, um homem cego, desesperançado, o que ele queria, algo que qualquer pessoa saberia de antemão e sem necessidade alguma de conhecimento da psique humana.
É necessário e imprescindível entender, que todas as atitudes de Jesus possuem intencionalidade. Ele nunca fez qualquer consideração sem um objetivo claro e específico. Seus gestos, palavras e posturas possuem objetivos didáticos e pedagógico. Seus milagres, reações e perguntas eram forma de ensinar às pessoas alguma mensagem extremamente importante.
Qual é o significado desta estranha pergunta feita a este cego? "Que queres que eu te faça?" (Mc 10.51).
- Perguntas nos situam existencialmente - Fazem-nos refletir sobre a vida com mais clareza e maturidade.
Esta é a chave de boa parte da psicologia moderna no aconselhamento não diretivo. Ajudam assim a pessoa a se defrontar com sua própria questão e a buscar uma compreensão maior da sua dor. Quando eu sou indagado, e a pergunta volta em forma de reflexão, posso me situar de forma mais direta.
"A quem você deseja matar?" Esta foi uma pergunta que fiz a uma mulher deprimida, porque o nível de ódio dela para consigo mesma era algo assombroso e se manifestou no sintoma de depressão. Era um desejo inconsciente de morte. Mas a quem este instinto de tanatos fora inicialmente preparado? No caso desta mulher, ela descobriu que queria matar sua mãe, o nível de rejeição e ódio que viera a sua alma contra sua mãe, suas demandas e autoritarismo, era assombroso. Lidar com esta dor e responder honestamente a pergunta ajuda a reorientar a vida.
- Nem sempre o problema visível é o nosso maior problema
Lutero afirmava que sempre existia um pecado sob outro pecado. Isto é, por detrás do problema que aparentemente surge em minha vida, em geral, existe outro maior que tento disfarçar. Por isto, Jesus ao lidar com o paralítico afirma que seus pecados foram perdoados, para escândalo dos religiosos. O maior problema era o sentimento de rejeição de dor, de culpa diante do Senhor, da acusação do inimigo, da associação que ele fazia entre sua enfermidade e sua vida espiritual.
O que existe por detrás de nossas doenças?
ü O que existe por detrás de nossa rebeldia: Desejo de atenção? Necessidade de se autenticar como pessoa? Raiva da vida e de Deus? Ira não resolvida?
ü O que existe por detrás da depressão: Raiva de Deus? Culpa? Raiva dos pais? Ira sepultada? Desejo inconsciente de morte?
ü O que existe por detrás da ansiedade: Falta de confiança em Deus? Desconfiança de Deus? Desejo de controle do futuro?
ü O que existe por detrás de sua doença crônica: Vontade de chamar atenção? Vitimismo? Desejo de visto, apreciado pelos outros?
ü O que existe por detrás da lascívia? Necessidade de significado? Falta de sentido de plenitude na alma? Desejo de dominação?
- Muitas vezes enfermidades se tornam bom negócio
Já ouviram falar de hipocondria?
Determinados doenças podem ser a forma que usamos para manipular os outros, chamarmos a atenção. Existe uma doença terrível no mundo da psique que usamos mais costumeiramente que acreditamos: O vitimismo! Será que realmente queremos a solução dos problemas ou encontramos prazer secreto na dor? Falar de nossas idiossincrasias, articular nossa confusão e sentimento, nos leva de encontro dos nossos medos, nos ajuda a refletir sobre nosso ponto de tensão e dor, mensurá-la, a entendê-la e enfrenta-la, e a não criar subterfúgios. Que queres? Muitas vezes nos contentamos com paliativos. Jesus tenta colocar as coisas no lugar certo. Que queres que eu te faça?
A situação de Bartimeu
-Tinha nome, família conhecida, mas sua tragédia pessoal o colocou à margem da vida.
-Sua situação era irreversível: era cego!
-Sua cegueira aliou-se à falta de oportunidades, e a necessidade de sobrevivência o levou a uma relação de dependência e mendicância, aliando-se a outros tantos que viviam marginalizados. Sua vida se tornou marginal, vivia à beira do caminho, nunca conseguia encontrar o centro de sua caminhada. Seus recursos interiores, seu potencial encontrava-se abaixo do aceitável. Ele apenas sobrevivia no círculo da dependência.
O nome de Jesus cria expectativa, gera fé. Fé é a capacidade de “ver o invisível”, o nome de Jesus faz renascer nele uma nova esperança, a despeito das circunstâncias adversas, ele é capaz de “crer contra a esperança”. Bartimeu é tomado por uma convicção de que esta oportunidade não podia ser perdida. Ele não conhece a Jesus, mas já ouvira falar dele e de seus milagres. Quando Jesus passa próximo a ele, ele começa a gritar, com todas as forças da alma: "Jesus, Filho de Davi, tem misericórdia de mim".
Que queres que eu te faça?
- Clame!
Nem sempre consideramos a dramaticidade deste texto. Bartimeu clama! O seu clamor é um brado, um gemido, um grito inquietante que incomoda as pessoas ao redor que tentam fazê-lo calar. Sua reação aos que tentam calá-lo é impressionante: “ele gritava cada vez mais” (Mc 10.48). As pessoas tentam sufocar sua alma, colocá-la em silêncio. Mas ele grita mais. Só ele sabe quanto dói a sua situação de dependência e impotência. Clamor é o gemido da alma. Quem clama e ora é porque percebe que precisa fazer isto.
"À tarde, pela manhã, e ao meu dia,
farei as minhas queixas ao Senhor e lamentarei, e ele ouvirá minha voz".
(Sl 55.17)
Não deixe de clamar porque os outros dizem querem que você se cale. "Muitos o repreendiam" (vs. 48). Afirmam que ele estava atrapalhando, mas quem sofre sabe a sua própria dor, sabe o que é ser cego, estar à beira do caminho. Viver sem viver, viver pela metade, viver sem sentido. Viver sem perceber a vida.
Não deixe de clamar porque as pessoas não o entendem, o criticam, o repreendem.
- Lance de si a capa
“Atirando a capa para o lado, o cego levantou-se de um salto e foi até onde Jesus estava.” (Mc 10.50) Sua atitude de deixar a capa de lado, simbolicamente, tem um peso extremo. Ele deixa para trás, aquilo que lhe era salvaguarda. Ele não se prende a mais nada. Existe um chamado de Jesus, O que vale a capa?
Durante muitos anos ela fora importante, agora não o é mais! O chamado de Jesus o reanima, e ele assume uma atitude simbólica muito interessante, "lançou de si a capa". Capa era sua proteção, no frio e na chuva. Era seu amuleto, sua proteção. Ele não precisava mais dela. A capa, suas proteções, sua defesa, suas máscaras que davam valor e segurança, nada mais representam.
Algumas das coisas mais significativas do passado devem ser deixadas para trás quando somos tocados por Cristo. Se insistirmos em manter, se tornam pesos. Dependência de coisas significativas do passado, são pesos mortos, pressupostos e valores contrários ao reino devem ser desprezados. Princípios antagônicos ao evangelho devem ser abandonados. “Jesus nos convida para virmos a ele como estamos, mas não diz que devemos permanecer como estamos.” (Hernandes D. Lopes) Não fique preso a coisas que foram significativas para você no passado.
Paulo diz: "Deixando as coisas que para trás ficam, prossigo para o alvo..." A mulher de Ló não conseguiu superar a perda de coisas que ficaram para trás, estava amarrado a experiências, seus badulaques, a vida de glamour de Sodoma, o lugar social que ocupava por ser uma mulher rica. Ficar preso ao passado pode ser a diferença entre salvação e morte.
- Dirija-se imediatamente a Cristo
“O cego levantou-se de um salto e foi até onde Jesus estava.” (Mc 10.50). O texto demonstra sua disposição e rapidez em estar ao lado de Cristo. Ele ouviu um chamado: “Coragem! Levante-se porque ele está te chamando.” (Mc 10.49). Há um chamado, Jesus o ouviu, seu clamor foi atendido. Carregado de esperança e fé, ele se levanta de um salto, tateando porque ainda estava cego, mas vai para perto de Cristo.
Muitas vezes corremos de Deus e não para Deus. Tentamos fugir e não nos aproximar. Bartimeu, entretanto, corre com celeridade em direção ao Mestre Jesus. Como desprezar uma oportunidade tão preciosa? Como tratar com morosidade algo tão urgente? Esta é a hora, este é o momento. Ele vai para perto de Jesus, de forma determinada e ligeira.
- Deixe claro o que você deseja
Quando Jesus lhe pergunta: “O que queres que eu te faça?” (Mc 10.51). Quando ele ouve “a estranha pergunta”, que parecia tão explicita e escancarada, ele não reluta na resposta direta: “Mestre, que eu possa ver de novo.” (Mc 10.51)
Muitas vezes Deus está nos perguntando: O que você quer que te faça? E nossa resposta é evasiva. Veja o exemplo do paralitico em Betesda. Quando Jesus lhe pergunta: “Queres ser curado?” A resposta deveria ser um simples e claro sim. Entretanto, ele justifica sua condição, explica-se, tenta demonstrar sua condição de impotência, quando na verdade, a respostas deveria ser apenas uma resposta clara à pergunta direta de Cristo.
Nossas orações às vezes são muito dispersivas. Não somos claro em dizer a Jesus o que precisamos. Diga apenas e de forma direta o que você precisa. Alguém já definiu oração como “uma palavra dita com desejo!".
Quando Jesus faz a estranha pergunta, "Que queres que eu te faça?" Ele poderia se sentir desolado e frustrado. Afinal seu desejo parecia óbvio demais. Por que Jesus fez isto?
Se nos fosse dado chance de dizer a Deus qual é o nosso ponto de desequilíbrio, onde nosso peito dói, qual é a nossa doença, o que desejamos, o que diríamos?
Aplicação: O maior cego é aquele que não quer ver! O que significa ter visão?
O cego diz: que eu torne a ver!
Visão tem algumas dimensões interessantes:
Ø Visão tem a ver com perspectiva – Gente com visão tem perspectiva, noção de espaço, de profundidade e cor. Assim acontece a Bartimeu, ele recebe uma nova capacidade de ser e existir.
John Newton foi ex-traficante de escravos inglês e trabalhou no comércio de escravos. Após quase morrer em uma violenta tempestade no mar, ele teve uma profunda experiência espiritual, abandonou o tráfico e tornou-se um pastor anglicano e abolicionista. Sua canção "Amazing Grace" (1773), foi escrita para ilustrar seu sermão de Ano Novo.
Graça maravilhosa, como é doce o som
Amazing grace, how sweet the sound
Que salvou um
miserável como eu
That saved a wretch like me
Eu estava perdido, mas agora fui encontradoI
once was lost, but now am found
Estava cego, mas agora vejo
Was blind, but now I see
Foi a graça que ensinou meu coração a temer'
Twas grace that taught my heart to fear
E a graça aliviou os meus medos
And grace my fears relieved
Quão preciosa foi esta graça
How precious did that grace appear
O momento em
que acreditei pela primeira vez
The hour I first believed
"Eu era cego, agora vejo". Nova perspectiva, sonhos, desejos. A visão de Jesus restaura a capacidade de enxergar a vida com luminosidade, claridade e beleza. Cego é aquele que não consegue ver as dimensões da sua humanidade, ter utopias, sonhos e perspectivas.
Visão traz cores ao nosso mundo – o universo deixa de ser escuro. A vida volta a brilhar, a ter contraste, a ter realce, purpurina. Com a visão de Jesus começamos a ter novos tons, sons, percepções que vão além do preto e branco.
Ø Visão revela movimento – Traz noção de que as coisas não estão estagnadas, mas em processo. Tem velocidade, tem marcha lenta, mas nunca está parada. O mover do Espírito em nós sempre cria novos movimentos e balanços.
Ø Visão tem luminosidade – saímos das trevas para a luz. Discernimento!
O texto paralelo de Mt 20.29-34 nos diz que Jesus, condoído, toca-lhe os olhos (Mt 20.34). A sua situação provoca compaixão em Deus, Jesus se move em direção a Bartimeu. Jesus ministra cura: "Vai, a tua fé te salvou?". Pessoas carregadas de fé acessam os canais de bênçãos de Deus. Fé é uma moeda de grande valor no mundo espiritual.
Conclusão
Normalmente nos apegamos muito ao milagre, nos esquecendo do maior milagre que Deus quer fazer em nossa vida, que é o milagre de nos transformar em seus discípulos, em seus seguidores. Não existe nenhum outro relato no evangelho sobre este cego que foi curado, mas este texto nos afirma que ele, depois da cura, "seguia Jesus estrada fora." (10.52)
A maior visão é aquela que nos capacita a crer em Jesus e a segui-lo. Nenhum projeto é mais importante que este. A maior cegueira da vida é nossa incapacidade de nos prontificarmos em seguir a Jesus. Esta nova visão que tem este jovem, gera nele um novo estilo de vida. Ele quer seguir a Jesus. Cria nele uma nova experiência de viver. Ele não apenas passa a ver as realidades físicas ao seu redor, mas tem o privilégio de seguir Jesus estrada fora. De andar com ele, seguir os seus passos, compartilhar de sua amizade e companheirismo, ser um discípulo.
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