sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Ef 6.5-9 Vós servos...E vós senhores...



“Quanto a vós outros, servos, obedecei a vosso senhor segundo a carne com temor e tremor, na sinceridade do vosso coração, como a Cristo, não servindo à vista, como para agradar a homens, mas como servos de Cristo, fazendo, de coração, a vontade de Deus; servindo de boa vontade, como ao Senhor e não como a homens, certos de que cada um, se fizer alguma coisa boa, receberá isso outra vez do Senhor, quer seja servo, quer livre. E vós, senhores, de igual modo procedei para com eles, deixando as ameaças, sabendo que o Senhor, tanto deles como vosso, está nos céus e que para com ele não há acepção de pessoas”.


Introdução:
As relações trabalhistas são um grande ponto de tensão em todas as sociedades humanas, marcadas por lutas de poder e revoluções.
No antigo Egito vemos o povo de Deus e outros povos sendo explorados e escravizados pelo poderoso império. Na Babilônia, jovens eram castrados, acorrentados, e levados para servirem nos palácios.  
A escravidão foi uma das maiores afrontas contra a humanidade, e também um dos problemas mais sérios na época que esta carta foi escrita. Na Roma Antiga, praticamente todo trabalho era feito por escravos, uma alta porcentagem da população consistia em escravos. Fala-se em termos de 60 milhões de escravos no Império Romano, isto é, 50% da população. Muitos eram médicos, professores e administradores. O conceito sobre escravo era deprimente, e roubava toda a dignidade do homem, criado à imagem e semelhança de Deus. Aristóteles lastimavelmente afirmou que “escravo era uma ferramenta viva, assim como a ferramenta é um escravo inanimado”.
 A questão sobre a visão bíblica sobre a escravatura, é ainda um das mais debatidos até hoje. Deveria a igreja cristã se manifestar de forma mais objetiva e clara sobre as questões da escravatura? A Igreja não teria sido omissa ao se silenciar sobre este tema? Por que os textos neo-testamentários não são mais enfáticos sobre o assunto?
Antes de julgar a visão cristã de fascista ou omissa, precisamos ler com cuidado o texto que estamos observando e especialmente a carta de Paulo a Filemon, para entendermos como a visão cristã diferia abertamente do conceito daqueles dias, sendo em muitos aspectos absolutamente revolucionário.
Ultimamente, mais do que nunca, as relações trabalhistas se tornaram pivô de graves conflitos históricos. Assim temos a revolução industrial, a marcha dos operários, a lutas de classes insufladas pelo marxismo e as tensões presentes em torno das condições do trabalho, salários e benefícios aos trabalhadores. Certamente a discussão sobre este assunto precisa ser considerada com cuidado pela igreja.
O pensamento da Reforma sobre o trabalho precisa também ser considerado, quando consideramos este texto. De uma forma subliminar esta passagem bíblica demonstra como a visão cristã reconhecia o valor dos escravos e sua humanidade. Ele faz recomendações bíblicas para ambos: servos e senhores. E se observarmos ele é profundamente diferente da visão antropológica de seus dias, e transformador em seu conteúdo.
A Reforma do Século XVI, abriu importante discussão sobre o valor e significado do trabalho. “A Reforma Protestante muda radicalmente a visão sobre o trabalho conduzindo-o a um pleno reconhecimento. Será através da Reforma, que o trabalho assumirá verdadeiramente um status de importância e contribuirá decisivamente para uma outra subjetividade manifesta no trabalho. Quem melhor traduziu o impacto das reformas protestantes, na valorização religiosa do trabalho, foi Weber em A ética protestante e o espírito do capitalismo” [1905] (Cesar Sanson).

Diante da grave situação dos escravos o apóstolo Paulo se dirige aos servos e senhores para demonstrar qual a visão do Evangelho. Quando ele se dirige aos “servos”, está falando a uma classe sem voz e direitos em seus dias. Sua carta não se dirige a pessoas protegidas por leis e sindicatos, com carteira assinada e plano de aposentadoria, mas a pessoas que eram párias sociais, uma classe sub-humana, sem direito à liberdade, sem possibilidade de emitir sentimentos, e expressar sua vontade, considerado moeda e objeto de posse de seu senhor. As relações sociais no Império Romano eram bem diferentes das relações ocidentais dos últimos séculos. Sem compreendermos bem tais relações dificilmente entenderemos este texto.
A escravidão não era baseada em etnias ou “raças”. Qualquer ser humano poderia se tornar um escravo e alguns escravos conseguiam se tornar livre. Homens livres e escravos viviam e trabalhavam juntos no século I e eram, socialmente, distinguidos por seu status social de escravo ou livre.
O que a Palavra de Deus procura demonstrar neste texto de Efésios é que tanto escravos quanto senhores deveriam viver, como cristãos, no contexto social, pagão e secularizado em que se encontravam.

Quanto a vós servos...
Alguns princípios podem ser extraídos deste texto: 

A.    O trabalho do cristão não pode ser feito causa por fiscalização humana – Tudo deve ser feito para a glória de Deus - “não servindo à vista, como para agradar a homens, mas como servos de Cristo, fazendo, de coração, a vontade de Deus; servindo de boa vontade, como ao Senhor e não como a homens”.

“Servir à vista vem do grego oftalmodoulian  (Ef 6.6), cuja raiz da palavra é “oftalmo”, bem conhecida em português.   O trabalhador cristão não deve produzir para ser visto, ou porque há vigilância e controle. Trabalho é oportunidade de testemunho, e por isto deve ser feito com sinceridade e esmero.
Há uma insistência nos versos 5 a 7 de que a obediência é antes de tudo a Cristo e não ao homem, tendo como fim principal a glória de Deus. Assim, a razão pela qual um servo obedece a seu senhor não é o medo da punição ou a recompensa, mas para exaltar o nome de Deus, sendo realizado para demonstrar quem governa nossas vidas.
Dizem que o olho do dono que engorda o gado. Ou seja, se o patrão não ficar em cima o serviço não sai. Isto não pode ser verdade para o crente, já que ele serve ao Senhor. Aquele que “serve à vista” é o que trabalha com empenho somente na presença do chefe ou apenas para causar uma boa impressão. Ele finge que trabalha.
O trabalhador cristão, precisa ter uma ética clara do trabalho: diligência é um destes aspectos. Produzir bem no seu trabalho, ser eficiente, excelente. Isto tem a ver com a espiritualidade cristã. Ética de vida. Outro aspecto prático é a honestidade. Seja íntegro, estando ou não presente o seu chefe ou o proprietário da empresa. O mesmo princípio se aplica aos que trabalham em autarquias públicas. Existem muitos trabalhadores desonestos no uso do seu tempo, ao fazerem as coisas pela metade, ao administrarem de forma desonesta o seu tempo.

B.    A Sacralidade do trabalho - Tudo o que fizermos deve ser feito com excelência, porque deve ser feito para Deus. “Quer comais, ou bebais, ou façais qualquer coisa, fazei tudo para a glória de Deus” (1 Co 10.31). Servos de Cristo, devem servir de boa vontade, pois o que fazem torna-se uma liturgia e adoração a Deus ainda que seus senhores não se agradem, e eventualmente não reconheçam seu esforço ou a qualidade do que você faz, e nem nos elogiem, Deus observa e recompensará você.

A obediência do servo deve ser com temor e tremor, e por sua vez, os senhores temporais, precisam reconhecer que há um senhor acima deles. O patrão nos dias de Jesus tinha o poder de decisão e suas ordens deveriam ser obedecidas, mas o patrão temente a deus devia fazer com temor.
No início de meu ministério tive uma ovelha proveniente de uma família muito humilde, mas cujo caráter e integridade estava acima de qualquer prova. Marta começou a trabalhar numa loja, cujo patrão era extremamente desconfiado, e por isto centralizava tudo o que se referia a dinheiro em suas mãos. Ele dizia que “não confiava nem na sua mulher”. Um dia, porém, pediu que ela depositasse uma certa quantia no banco, serviço que ele fazia pessoalmente, e Marta foi ao banco, com o depósito e o dinheiro, mas ao chegar lá, observou que o patrão tinha colocado dinheiro a mais. Ela fez um novo depósito, com valor mais alto e trouxe ao patrão dizendo o que havia acontecido.  Na semana seguinte, ele pediu novamente para que o depósito fosse feito, e mais uma vez, ele errou o valor. Quando ela fez a correção e lhe mostrou, ele disse: “Eu estava precisando de uma pessoa para trabalhar de caixa na empresa, mas não confiava em ninguém, e por isto colocava dinheiro a mais porque eu estava fazendo um teste contigo, mas você, por duas vezes, provou que é digna de confiança, eu quero lhe dar uma promoção e colocar você com a responsabilidade de cuidar da tesouraria da empresa”.
Você tem glorificado a Deus no seu trabalho?
Empregados e patões, numa sociedade pagã como Roma, ou nos dias atuais onde a lei do "tenha lucros" é tão imperativa, precisam se esforçar para discernir a sacralidade do que fazem. 

C.     Trabalho é considerado vocação – “fazendo, de coração, a vontade de Deus” (Ef 6.6). O trabalho cumpre um plano de Deus. Faz parte de seu propósito. Por isto Faça seu trabalho para o Senhor (Ef 6.7).

Trabalhar é visto biblicamente como a “vontade de Deus” para nossas vidas. Não existe diferença entre trabalho sacro e secular. Este foi uma das coisas mais revolucionárias da Reforma Protestante do Século XVI, as pessoas viam a vocação sacerdotal como superior às demais vocações, mas a reforma insistiu que todo trabalho glorifica a Deus, quando feito para Deus. Na ética do trabalho, Lutero (1483-1546) e Calvino (1509-1564) afirmavam que o homem cumpria sua vocação através do trabalho. Não há lugar para ociosidade. Por esta razão, Lutero preferiu traduzir a palavra "beruf" para trabalho, em lugar de "arbeit", porque acentuava mais a vocação que o trabalho. 
Calvino, diz: “Se seguirmos fielmente nosso chamamento divino, receberemos o consolo de saber que não há trabalho insignificante ou impuro que não seja verdadeiramente respeitado e importante ante os olhos de Deus". 
Calvino defendeu ainda três princípios éticos fundamentais: 
                      Trabalho, 
                               Poupança 
                                      Frugalidade.

Todo trabalho que o servo de Deus realiza é um serviço que visa a glória de Deus, e por isto deve ser feito “de coração”. Nem todo trabalho que fazemos é agradável de se fazer, mas precisa ser feito de coração, glorificando o Senhor.

Todo trabalho glorifica a Deus quando feito para Deus!

D.    Trabalho recebe recompensa de Deus - “Certos de que cada um, se fizer alguma coisa boa, receberá isso outra vez do Senhor, quer seja servo, quer livre (Ef 6.8).

Esta é outra razão para sermos servos competentes e excelentes naquilo que nos é dado a fazer. Há uma promessa para aqueles que agirem bem. O galardão do próprio Deus. Deus vê a todos e recompensa a cada um. Esta recompensa que vem do Senhor (Ef 6.8). Naquela época, os escravos eram tratados como objetos, e o que faziam nunca era apreciados e valorizados. Um escravo que se convertia muitas vezes recebia um tratamento mais áspero ainda por causa da sua fé. A única motivação que poderiam encontrar ao fazer as coisas com excelência e esmero era a compreensão de que estavam fazendo para Deus. Eles precisavam entender que estavam servindo a Cristo, e não aos homens e a recompensa por sua vez, viria de Cristo.

Como isto se aplica aos nossos dias?

Quantas vezes fazemos as coisas, nos esforçamos, sem nunca termos reconhecimento do trabalho ou uma palavra de elogio ou encorajamento. Eventualmente olhamos para os lados e vemos pessoas menos competentes sendo premiadas e promovidas, e temos uma sensação de abatimento e desgaste. O que pode motivar fazer bem as coisas? Compreensão de que a recompensa do que fazemos vem de deus, para quem estamos fazendo as coisas. Então, pare de fazer olhando para os lado, olhe para cima!

E vós senhores...

"De igual modo"... temos aqui um princípio de justiça e equidade, completamente antagônico à visão daqueles dias. Paulo agora fala àqueles que antes de conhecerem a Jesus acreditavam que tinham direito de fazer o que desejassem, já que eram donos de seus escravos. O que a Bíblia determina é que ajam com respeito, sem o conceito de superioridade que massacrasse os servos.

Eis alguns princípios:

A.    Senhores e servos são iguais aos olhos de Deus – “Para com Deus não há acepção de pessoas”. Aristóteles afirmava que não seria possível amizade entre um escravo e um senhor, porque não tinham nada em comum. Um conhecido advogado romano chamado Gaius, nas suas Institutas escreveu: “É universalmente aceito que o mestre possui o poder da vida e da morte sobre o escravo”.

A visão cristã se opõe frontalmente ao pensamento secular daqueles dias.

Na carta a Filemon, Paulo escreve a um patrão cristão cujo escravo havia fugido de casa e agora estava preso e que também se converteu ao cristianismo. Ambos agora eram cristãos e Paulo o envia de volta dizendo o seguinte: “...Receba-o, não como escravo antes, muito acima de escravo, como irmão caríssimo, especialmente de mim e, com maior razão de ti, quer na carne, quer no Senhor” (Fm 16). Considere como a visão cristão e do pensamento secular são diferentes.
Esta posição precisa ser atualizada ainda hoje, numa sociedade capitalista e mercantilista, não é muito difícil que as pessoas confundam posição social com valor diante de Deus. Aos olhos do Senhor não há diferença. A sociedade pode criar castas humanas e fazer diferença entre as pessoas com recursos e sem recursos financeiros, mas para Deus, “não há acepção de pessoas”. Se dispensarmos favor a uma pessoa rica em detrimento de uma pessoa pobre, isto se torna uma agressão aos olhos de Deus.

Estabelecer diferença por causa da situação financeira ou status social agride a Deus!

B.     Deixe as ameaças – “E vós, senhores...de igual modo procedei para com eles, deixando as ameaças...” 6:9 Ao patrão, cumpre gerar um ambiente de tranquilidade, fraterno, que retira a pressão do trabalhador, que reconheça que o funcionário é um ser humano.

Este texto adverte contra o abuso da posição de autoridade. 
Ameaça é a arma que muitos poderosos usam contra os indefesos, que chefes de departamentos empregam contra os funcionários que estão numa condição hierárquica inferior. Aqueles que se encontram em posição de chefia não devem abusar de sua autoridade. Nos tempos antigos, o castigo era usado como forma de controlar os escravos. Hoje em dia, a ameaça e o constrangimento tornam-se armas dos fortes contra os sem poder.
Os escravos viviam ameaçados e eram até mesmo executados por causa dos caprichos e destemperos emocionais de seus patrões,  tanto de mulheres quanto de homens. Graças ao sistema trabalhista que temos, este nível de tortura não é mais possível, mas muitas empresas e patrões ainda hoje mantém funcionários num sistema de medo e tortura mental, ameaças constantes de demissões, fragilizando pessoas que dependem do trabalho para sua manutenção e que são impotentes em meio a relações trabalhistas abusivas.
Stephen Kanitz relata o fato acontecido em Harvard num curso de MBA. Certo professor de Administração trouxe o caso de uma empresa que estava com sérios problemas financeiros, e entregou aos alunos para que discutissem o material e trouxessem um parecer sobre quais medidas deveriam ser adotadas para que a empresa tivesse um equilíbrio nas contas. Um dos alunos colocou em primeiro lugar o corte de funcionários, efetuando uma demissão em massa. Ao ouvir o relatório, o funcionário falou para o aluno para que saísse da sua sala e não voltasse mais.  Todos ficaram chocados com a rispidez do professor, e o aluno parecia não estar entendendo o que acontecia e toda sala ficou num silêncio e espantada. Quando o aluno finalmente entendeu que seu professor estava falando sério, pegou seu laptop, juntou suas folhas e ia saindo cabisbaixo da classe quando seu professor o chamou de volta e lhe disse: "Me perdoe pelo que fiz! Eu sei que causei profundo constrangimento a você e toda a sala. Volte!" Então, começou a dizer: "Vocês viram como foi duro o que fiz? Imagine agora a situação real de um funcionário, aplicado, que serviu a empresa por longos anos, mas agora é mandado de volta para sua casa e precisa justificar isto a sua esposa, filhos e amigos, e ainda precisam administrar sua situação financeira sem terem agora o seu trabalho! Esta deve ser a última opção quando analisamos situação financeira da empresa, e não a primeira". 
Patrões devem parar de tratar os funcionários de forma abusiva “sabendo que o Senhor, tanto deles como vosso, está nos céus, e que para com ele não há acepção de pessoas” (Ef 6.9).

C.    Reconheça que, do ponto de vista espiritual, não há diferença para Deus entre o que tem poder e o que não tem poder – A tradução Living Bible afirma: "Deus não tem favoritos”.

Os patrões precisam reconhecer que também são servos, de um senhor acima deles. Pessoas com poder e bens tem dificuldade para aceitar o senhorio de Cristo, acostumaram a mandar e não querem aprender a obedecer. Se você quer ser um cristão, o princípio da submissão é essencial.

Conclusão: Algumas aplicações.

Primeira, A Bíblia muitas vezes recomenda o cuidado com órfãos e viúvas. O que isto significa? Num sistema sem planejamento social, sem garantias trabalhistas, uma vez morto o marido, filhos e esposas eram abandonados à miséria e à prostituição. A igreja de Cristo é desafiada a olhar com compaixão os desempregados, os que não tem condições de trabalhar e precisam de cuidado.
Tenho encorajando empresários a considerarem a possibilidade de criarem empresas que tenham pouco lucro, mas causem impacto social. Muitas regiões pobres do Brasil estão precisando não de assistência social, mas de trabalho. São hordas de desempregados, gente honesta e íntegra, que precisam de oportunidade de trabalho. A igreja precisa olhar com cuidado esta possibilidade.

Segunda, Por outro lado, precisamos ter uma visão clara do trabalho como uma dimensão espiritual. Muitas vezes  o trabalho é considerado de maneira ambivalente. Mas desde a Reforma, especialmente em Lutero, a fórmula ora et labora demonstra que os dois modos de vida não são antagônicos. Calvino afirma que “o trabalho profissional deve formar uma muralha contra a preguiça, todos devem trabalhar – quem não trabalha não deve comer”. Na concepção calvinista, “não somente a religião concernia a toda a vida – econômica, profissional, familiar –, mas tudo devia concorrer para a glória de Deus (…) e Calvino afirmará que ‘dentre todas as coisas deste mundo, o trabalhador é o mais semelhante a Deus’” (WILLAIME, 2005: 70). Na visão de Calvino, o trabalho é um sinal de graça.

Terceira, O lugar de trabalho é um dos ambientes mais hostis e competitivos, numa sociedade capitalista onde a regra número 1 é "tenha lucros!" mas paradoxalmente, mais profícuos para que patrões e funcionários demonstrem seu amor a Cristo. Patrões e funcionários cristãos devem criar ambiente de cuidado no qual demonstram sua fé de forma genuína e graciosa. Funcionários devem revelar seu chamado fazendo com excelência e integridade suas tarefas. 
Numa época de tanta suspeita e desconfiança, de malandragens e desonestidade, é fácil enrolar no trabalho, fazer as coisas de forma desleixada e medíocre. Esta é a forma mais fácil de desonrar a Deus e deixar de revelar ao mundo a beleza do evangelho.


Samuel Vieira
Medford, 30.4.00
Atualizado em Anápolis

04 Novembro 2017

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Js 24.14-25 Quando pastores desencorajam a fé...

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Introdução:

Não é muito difícil encontrar pastores que desanimam a fé das ovelhas. Algumas destas situações são tão graves que muitos nunca mais se recuperam. São abusos de autoridade, infidelidade de caráter, incoerência moral, heresia, e tais atitudes tem um efeito devastador sobre o coração dos fiéis. A palavra de Deus sempre exorta contra os falsos profetas: “Eis que sou contra os que profetizam sonhos mentirosos, diz o Senhor, e os contam, e com suas mentiras e leviandades fazem errar o meu povo” (Jr 23.32). No Novo Testamento há constantes exortações sobre os falsos mestres e guias, a Epístola de Judas, é toda voltada para este tema. O apóstolo Pedro assim os descreve: “...tendo olhos cheios de adultério e insaciáveis no pecado engodando almas inconstantes, tendo coração exercitado na avareza, filhos malditos” (2 Pe 2.14).

Tais obreiros desencorajam as ovelhas de duas formas:

Primeiro, mau exemplo – A vida de contradição, mentiras e enganos, desencoraja a fé genuína e pura daqueles que a aceitaram de forma pura. Quando homens proclamam a Palavra de Deus mas vivem num estilo de vida de hipocrisia, o resultado é apostasia e desânimo. Eles não apenas causam frieza no coração das pessoas, mas esvaziam a santidade e o temor de Deus.

Segundo, falsos ensinamentos – É neste sentido que o apóstolo exorta a igreja de Filipos a acautelar-se dos “falsos obreiros”, que ensinam aquilo que é contrário às Escrituras. O resultado deste tipo de ensinamento é o liberalismo teológico que nega o que Deus falou e afirma o que Deus negou, gerando secularismo como temos visto nas igrejas da Europa e do Nordeste dos EUA. Tais pastores questionam a Bíblia e sua autoridade e inerrância e levam igrejas e denominações à destruição e fracasso, desviam o rebanho, geram questionamentos ao invés de provocar fé autêntica e pura.

Talvez a ilustração abaixo reflita um pouco deste tipo de sentimento de incredulidade de uma comunidade cristã. Certamente os nomes e fatos são fictícios, apenas estou reproduzindo-os para exemplificar:

Em Aquiraz, pertinho de fortaleza, Ceará, Tacilita Bernarda começou a construir um anexo do seu prostíbulo, e uma igreja neopentecostal fez forte campanha contra a construção, com orações contínuas. Uma semana antes da inauguração, um raio incendiou o cabaré. Tacilita processou a igreja e o pastor, responsabilizando-os pela “intervenção divina”, que destruiu a obra. A igreja alegou que não havia prova de intervenção divina a partir das orações.
O juiz teria feito o seguinte comentário na audiência de abertura: “Pelo que li até agora, temos de um lado a proprietária de um prostíbulo que acredita firmemente no poder das orações, e do outro lado, uma igreja inteira que afirma que as orações não valem nada”.

Um olhar sobre o texto:
No texto de Josué 24, vemos este grande líder do povo de Israel se despedindo, depois de uma longa liderança. Ele ajunta o povo para dar um recado final, ele deseja conclamar todos a renovarem sua aliança com o Senhor. Uma leitura superficial, leva-nos a acreditar que ele está encorajando o povo, mas quando colocamos uma lente mais de perto, vemos que na verdade ele está usando um recurso didático diferente: Ele os “desencoraja” a servir o Senhor.
Nos versículos iniciais (14-15), ele encoraja o povo a abandonar os falsos deuses ou fazerem uma opção diferente: Abandonarem ao Senhor. Ele afirma que já havia optado: “Eu e minha casa serviremos ao Senhor” (24.15).
O povo responde imediata e unanimemente que vai seguir Yahweh. Aí então, Josué didaticamente tenta mostrar que eles precisam pensar e considerar quais as implicações de seguir ao Senhor. Josué coloca as coisas mais ou menos assim: “Seguir a Yahweh é uma opção arriscada”.

Quais são os argumentos que ele usa?

1.      Não pode ser uma decisão emocional – O povo estava reunido, ouvindo seu velho líder perto da morte fazendo uma declaração de fé, e responde rapidamente: “Então respondeu o povo, e disse: Longe de nós o abandonarmos o Senhor para servirmos outros Deuses, porque o Senhor é o nosso Deus” (Jos 24.16,17a).

Josué se interpõe e começa a questionar a decisão deles, literalmente, ele os desencoraja a tomar esta decisão. Ela não podia ser algo emocional.
Muitas pessoas tem agido assim. Respondem a Cristo de forma rápida sem considerar o que estão fazendo. Jesus várias vezes desencorajou seguidores a o acompanharem, pondo à prova aqueles que queriam segui-lo. Vejam o relato de Mateus: “Vendo Jesus muita gente ao seu redor, ordenou passar para a outra margem. Então, aproximando-se dele um escriba disse-lhe: Mestre, seguir-te-ei para onde quer que fores. Mas Jesus respondeu: as raposas tem seus covis e as aves do céu, ninhos; mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça. E outro dos discípulos lhe disse: Senhor, permite-me ir primeiro sepultar meu pai. Replicou-lhe, porém, Jesus: Segue-me, e deixa aos mortos o sepultar os seus próprios mortos” (Mt 8.18-22).
Noutra ocasião, depois de um claro discurso sobre sua morte, ele convidou os discípulos a comerem sua carne e beberem seu sangue, mas muitos se escandalizaram dizendo: “Duro é este discurso, quem o pode ouvir?”  (Jo 6.60), e se vocês pensam que Jesus tenta aliviar, amenizando o que dissera, veja sua reação: “Então perguntou Jesus aos doze: Porventura quereis também vós outros retirar-vos?” (Jo 6.67).
Jesus desencoraja muitos seguidores quando estes fazem menção de se tornarem seus discípulos, por perceber a superficialidade do compromisso que desejam adotar, porque eles não expressam uma anseio profundo ou não estão entendendo o que fazem.

2.      É preciso avaliar os custos – Josué tenta demonstrar ao povo emotivo de Israel, que as exigências de seguirem ao Senhor eram muito altas. Eles precisavam considerar se realmente queriam seguir a Yahweh.

Ele afirma categoricamente: “Não podereis servir ao Senhor” (Js 24.19). Ele abertamente desencoraja o povo a seguir ao Senhor. E para justificar, usa dois argumentos:

Primeiro, considere o caráter de Deus

Não podereis servir ao Senhor porquanto é Deus santo, Deus zeloso, que não perdoará a vossa transgressão nem os vossos pecados” (Js 24.19). Qualquer seguidor de Cristo precisa considerar seu caráter santo e zeloso. Isto livra da fé negligente e vazia, da religiosidade displicente, da ética frouxa, do discipulado barato. Deus é exigente quanto ao seu povo por causa do seu caráter santo. “Sede santos porque eu sou santo” (Mt 5.48).

Tentar seguir uma vida de ambiguidade e pecado ao mesmo tempo em que parecem servir a Deus é fogo santo no altar: Pode trazer juízo ao invés de trazer benção. “De Deus não se zomba”. No AT Yahweh várias vezes rejeitou sacrifícios, ofertas e cultos do povo por causa do vazio de seus ritos. “De que me serve a mim a multidão de vossos sacrifícios? Diz o Senhor, estou farto dos holocaustos de carneiros, e da gordura de animais cevados, e não me agrado do sangue de novilhos, nem de cordeiros, nem de bodes. Quando vindes para comparecer perante mim, quem vos requereu o só pisardes nos meus átrios?  (Is 1.11,12). “Aborreço, desprezo as vossas festas, e com as vossas assembleias solenes não tenho nenhum prazer. E, ainda que me ofereçais holocaustos e vossas ofertas de manjares, não me agradarei deles, nem atentarei para as ofertas pacíficas de vossos animais cevados. Afasta de mim o estrépito dos cânticos, porque não ouvirei as melodias das tuas liras” (Am 5.21-23).
Josué quer mostrar ao povo que não adianta tentar seguir uma vida de ambiguidades e pecado diante do Deus santo. Ao invés de bençãos, atrairiam maldição.

Segundo, considere as exigências de Deus

Ele, “...não perdoará a vossa transgressão nem os vossos pecados” (Js 24.19). Josué sabia de quão perdoador era o Deus de Israel, ele não é um Deus vingativo. Mas ele também sabia como o povo facilmente perdia a noção de uma vida santa, e era atraído pelos deuses da terra e pelos seus detestáveis ídolos. Ele está dizendo mais ou menos o seguinte: “Não podemos ficar fazendo de conta que somos o povo de Deus quanto não queremos, de fato, obedecê-lo”. Por isto se torna ainda mais enfático: “Sois testemunhas contra vós mesmos de que escolhestes ao Senhor para o servir” (Jos 24.22). 

Em Lucas 14.27-33 há um belíssimo texto que tem sido usado muitas vezes para falar de liderança, e ele se aplica perfeitamente aos princípios de organização e ordem. “Pois, qual de vós, pretendendo construir uma torre, não se assenta primeiro para calcular a despesa e verificar se tem os meios para a concluir? Para não suceder que, tendo lançado os alicerces e não a podendo acabar, todos os que a virem zombem dele dizendo: Este homem começou a construir e não pôde acabar”. Na verdade, porém, Jesus não está falando de liderança, mas de discipulado. No vs 27 ele afirma: “E qualquer que não tomar a sua cruz, e vier após mim, não pode ser meu discípulo”, e no vs. 33 conclui: “Assim, pois, todo aquele que dentre vós, não renuncia a tudo quanto tem, não pode ser meu discípulo”.

Precisamos avaliar as exigências de Deus para o discipulado. É Ele quem diz como deve ser o padrão, e não nós. Ele é o Mestre, nós somos discípulos.

3.      Considere a família no processo – Josué demonstra que seguir ao Senhor é uma decisão importante, porque não leva em conta apenas um ato individual e pessoal, mas corporativo e solidário, porque implica também em envolver a família. Os filhos devem estar incluídos na decisão que tomamos de seguir a Deus.

Desta forma, afirma categoricamente: “Eu e minha casa serviremos ao Senhor” (Js 24.15). Ele está querendo lembrar que o propósito não é apenas de virmos a Deus, mas de apresentarmos nossa casa diante de Deus. O chamado é para família. “Estas palavras que te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tuca casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te e ao levantar-te” (Dt 6.6-7). Que palavras tão relevantes eram estas? “Ouve, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de toda a tua força” (Dt 6.4-5)

Quando Moisés foi enviado por Deus para tirar o povo da escravidão do Egito, Faraó não gostou nada da ideia, e por isto ofereceu quatro contrapropostas na negociação, e nenhuma delas foi aceita. Inicialmente ele fez uma contrapartida para que o povo servisse a Deus no Egito, não houvesse uma mobilização para sair do país. Moisés rejeitou! Na segunda proposta Faraó disse que os deixava sair, conquanto não fossem muito longe do Egito, mas ficassem ali na fronteira. Na terceira, ele sugeriu para que não levassem as crianças, e na última, para que não levassem os bens. Satanás não se importa que a gente vá, mas seu alvo é que deixemos a família para trás. Em todas estas quatro propostas malignas, a resposta foi sempre não. Bens e família deveriam também estar envolvido no ato do culto.
Josué se interpõe seguindo o mesmo pensamento: “Eu e minha casa serviremos ao Senhor” (Jos 24.15).

O chamado cristão envolve a família.

Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e tua casa” (At 16.31). Esta é uma decisão importantíssima para o discipulado. Deus não está interessado num chamado individual, mas tem planos para a família. Por isto a Reforma Protestante sempre se refere à “família do Pacto” ou “A família da aliança” (Harriet Van Gronigen & Gerard Van Gronigen, Cultura Cristã). Susan Hunt fala do “pacto geracional” (A graça que vem do lar, Cultura Cristã).  

4.      Precisamos considerar a exclusividade de Deus – Josué sabia quão inclinado era o coração daquele povo a seguir outros Deuses e ídolos que os influenciavam. Por isto, depois de ouvir a afirmação de que queriam seguir ao Deus de Israel, Josué afirma: “Sois testemunhas contra vós mesmos de que escolhestes o Senhor para o servir. E disseram: nós o somos. Agora, pois, deitai fora os Deuses e4stranhos que há no meio de vós, e inclinai o coração ao Senhor, Deus de Israel” (Js 22-23).

Mais uma vez, Josué tenta “desencorajar” e dissuadir o povo a “não seguir ao Deus de Israel”, e o motivo é específico. Se quisessem seguir precisavam considerar o fato de que Yahweh exige exclusividade, é zeloso e não reparte sua glória com ninguém”. Não poderiam servir a Deus e aos deuses das nações pagãs. Este é o mesmo argumento que o profeta Elias quando deseja convencer o povo de Israel a deixar de seguir Baal. “Até quando coxeareis entre dois pensamentos? Se o Senhor é Deus, segui-o; se é Baal, segui-o” (1 Rs 18.21).
O mesmo princípio se aplica nos nossos dias. Os deuses modernos são sofisticados e dividem nossa atenção. Os “deuses do coração” (Ez 14), disputam lugar com o Deus verdadeiro. Dentre eles nomeamos a reputação, o lazer, o entretenimento, o conforto, a aprovação das pessoas, todos eles exigindo uma atenção dividida na adoração que devemos prestar a Deus. É bom considerar que o primeiro mandamento não é contra o ateísmo, mas contra o politeísmo: “Não terás outros deuses diante de mim”. O grande problema da raça humana não é a incredulidade, mas a idolatria. É fácil construir altares para deuses falsos, que exigem adoração, e nos dão a entender que não é possível viver sem eles.

Conclusão: Josué desencoraja o povo?

Na verdade, não!

O que ele faz é aplicar um princípio de “aprendizado por contraste!”

Eugene Peterson no livro “A vocação espiritual do pastor”, afirma que eventualmente pastores deveriam se recusar a orar em determinados ambientes e por alguns motivos fúteis e banais. Ele afirma que as pessoas facilmente banalizam as orações e perdem a compreensão do que significa falar com Deus. Se recusar a orar, eventualmente, poderia gerar mais impacto no coração das pessoas, do que as orações formais e superficiais que faríamos.

Josué queria colocar as coisas no lugar, da forma certa. Dizer o que as pessoas estavam acostumadas a ouvir, talvez não gerasse o efeito necessário.

Nos dias atuais, temos uma igreja viciada em clichês e comportamentos religiosos, as atitudes seguem um desenrolar de superficialidade e eventualmente apenas um tratamento de choque pode gerar crise suficiente para que mudanças necessárias e urgentes ocorram.
A igreja atual, também tornou-se consumista, sem compromisso, com discipulado barato, sem levar a sério as implicações de seguir a Cristo e do chamado que receberam. Perdeu a noção da santidade de Deus e do medo do pecado. Para quebrar o ritualismo religioso e a frieza eventualmente apenas um tratamento de impacto pode produzir efeitos. Foi isto que Jesus disse aos discípulos que estavam oscilando no seu compromisso: “Quereis, vós outros, também retirar-vos?


Josué está fazendo exatamente isto: “Escolhei hoje a quem sirvais”.

sábado, 21 de outubro de 2017

1 Pe 4.1-7 “Esta gente incômoda”… Como responder a oposição?

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Introdução:

Nos últimos dias temos visto uma reação incomum da igreja em relação a temas públicos como arte, política e questões do gênero. Alguns irmãos estão se sentindo acuados e eventualmente apavorados diante do poder das trevas, dando um poder excessivo a mídia e ao diabo vivendo com medo e sem esperança.
Hoje queria pensar sobre a questão da esperança diante de oposição.
A igreja de Cristo tem muita experiência quanto a este assunto. Durante milênios ela tem sofrido todo tipo de acusação, perseguição, oposição. Acho que já temos um certo background que nos ajuda a enfrentar e a responder a oposição velada ou aberta em relação a Fe que professamos.
Se Hananias, Mizael e Azarias ficassem com medo, não teriam enfrentado a Babilönia com todo seu glamour e poderio. Se os apóstolos tivessem levado em conta os riscos ao pregarem o evangelho mesmo quando tinham sido explicitamente proibidos, teriam se fechado numa atitude de vitimização e o cristianismo teria morrido ali (At 4.19). Se a igreja Primitiva ficasse se justificando diante da ameaça de um dos mais longos e poderosos impérios já existentes na terra (500 anos), não teriam avançado com tanta eficiência sobre a decadente e degradada sociedade romana.
Recentemente a chanceler alemã Ângela Merkel, que é filha de pastor luterano e nunca escondeu sua fé (atualmente a mulher mais poderosa do mundo) numa palestra na Universidade de Berna, Suíça, foi questionada sobre o “perigo” que os imigrantes muçulmanos representariam para a Europa e sua resposta foi fantástica. A reação de Merkel causou grande desconforto entre os ouvintes, pois foi um tanto inesperada. Afinal, pareceram ter saído de uma líder religiosa, não uma liderança política. Até o momento nenhuma igreja deu declarações tão incisivas sobre o assunto.
Ela disse acreditar que a melhor resposta é os europeus terem “a coragem de ser cristãos, de fomentar o diálogo (com os muçulmanos), de voltar à Igreja, de se aprofundar de novo na Bíblia”. Depois acrescentou, “se você perguntar às crianças em idade escolar o que é o Pentecostes, as respostas provavelmente serão muito decepcionantes”. Com isto ela quis mostrar que não haveria motivos para se ter medo do Islã. Merkel disse que “Gostaria de ver mais pessoas tendo a coragem de dizer: Eu sou cristão”. Lembrou que na Alemanha a frequência à igreja caiu significativamente. Sua sugestão é que ao invés de ter medo das pessoas de outra religião, as pessoas deveriam voltar para as raízes do continente. Lembrou que “nossa tradição é assistir a um culto na igreja e aprender os fundamentos bíblicos”.

E nesta direção que desejo colocar esta homilia de hoje.
Precisamos entender que o maior inimigo que enfrentamos não é a oposição que vem de fora, nem as acusações da mídia, nem a pressão moral que conspira contra valores ou a igreja. O maior problema encontra-se na qualidade de fé que temos professado. Como diz o velho ditado: “Descobrimos o inimigo e ele é um de nós.” Júlio A. Ferreira afirmou: “Nada, exceto a infidelidade, pode destruir a igreja, nem mesmo diabo”.
Diante da discussão sobre ideologia do gênero, a depravação explícita da arte, movimentos LGBTs, filosofias pagãs e seculares que nossos filhos ouvem nas escolas, ficamos como animais assustados e acuados, quando na verdade o nosso maior medo deve ser a qualidade de fé que professamos e como tem sido nosso discipulado cristão. Todas estas formas liberais, contra culturais e pecaminosas, agressivas aos valores cristãos e a fé já se manifestaram na historia, não há nada novo nisto. “A velha moralidade nada mais e que a antiga imoralidade” (Schaeffer).
A questão fundamental é:  Como esta a vida da igreja?
Nosso temor deve ser que qualidade de crentes estamos produzindo, o nível de discipulado que as igrejas triunfalistas e consumistas estão gerando, qual compromisso temos como o evangelho e o reino de Deus em nossos dias? Que compromisso temos com a Palavra de Deus?
O temor não deve ser o que o sistema está produzindo, nem a forca do pensamento secular e humanista, afinal “o mundo jaz no maligno” e nem mesmo a força do diabo “nosso adversário”, que anda em derredor , procurando alguém para devorar, pode nos destruir: “resisti ao diabo e ele fugirá de vós” (1 Pe 5.8).

No primeiro período da década de 60 A.D., os cristãos foram perseguidos duramente em Roma. O Imperador naqueles dias era Nero. Pedro e Paulo perderam suas vidas durante o seu império. O Apóstolo Pedro, percebendo que as coisas iam de mal a pior, escreveu esta carta de instrução e encorajamento aos cristãos espalhados pelo Império Romano. Os cristãos estavam sendo perseguidos. Muitas acusações surgiram contra eles:
· Os cristãos foram acusados de antropófagos, pois diziam comer o sangue  e a carne de um certo Jesus
· Foram acusados de praticar incesto, porque casavam-se com suas irmãs.
· Foram taxados de revolucionários e rebeldes, pois não se curvavam diante dos deuses pagãos, nem da estátua de César.
· Nero detestava os cristãos. Outros imperadores também os perseguiram. Pedro escreve esta carta para fortalecer os irmãos.

Como eles deveriam reagir, que resposta dar a todo este contexto de oposição?

1.     Eles deveriam seguir o modelo de vida de Jesus - “…armai-vos tambem vós do mesmo pensamento…” (1 Pe. 4:1). Como Jesus lidou com a oposição, as acusações que sofreu, qual era sua reação diante de pessoas que brutalmente feriam a glória de Deus? Se estilo de vida deve nos inspirar.

Nada é mais eficaz do que viver e agir como Cristo fez. Jesus deixou o pecado. Ele tinha como sua única opção a de fazer tudo para glorificar a Deus. Ele não podia agir de forma que ferisse o coração do Pai celestial. Ele não deixou que o pecado o orientasse a sua vida.
Ao viver de forma santa, a igreja emudece os acusadores.
Quando os opositores de Daniel quiseram destitui-lo do alto posto que tinha no palácio, eles disseram. “Nunca acharemos ocasião alguma para acusar a este Daniel, se não a procurarmos contra ele na lei do seu Deus.” (Dn 6.5). Eles chegaram à conclusão que a única coisa que poderia acusá-lo seria a sua fé. Isto é o que acontece quando existe integridade e caráter. Os inimigos só vão encontrar do que nos acusar na nossa fé, na forma de culto que prestamos, na devoção que demonstramos a Deus. Poderão nos chamar de carola, fanáticos, supersticiosos, místicos, mas vão ter que parar aqui.
Jesus foi acusado e levado diante do tribunal de Roma. Pilatos, corrupto e populista, o enviou para a morte, mas antes de sua execução precisou fazer um veredito absurdo e contraditório. “Não vejo nele crime algum”. Qual tribunal do mundo, por mais corrupto que seja, seria capaz de condenar um homem depois de isentá-lo? Historicamente é mais fácil criar falsos pressupostos, trazer falsas testemunhas, mas dar um veredito declarando uma pessoa inocente e ainda assim condená-lo é lgo absurdamente inconsistente e incoerente.
Então, se quisermos enfrentar a oposição de forma efetiva, precisamos seguir o modelo de Cristo.

2.     Eles precisariam deixar de viver segundo o estilo pagão - Pedro fala das paixões carnais – “…já não vivais de acordo com as paixões dos homens”. (1 Pe 4.2).
Pedro mostra aos irmãos que eles não podiam mais viver desta forma, porque eles estavam vindo daquela vida de depravação. “porque basta o tempo decorrido para terdes executado a vontade dos gentios”. Ele diz: “vocês já agiram assim, este foi o comportamento de vocês, em nada diferente ao que os opositores de sua vida nos dias de hoje”.   
O homem sem Deus é orientado por paixões. Este é o modus operandi da vida de um homem distanciado de Deus. Agir de acordo com as paixões mundanas é o procedimento habitual. Eles não fazem isto porque querem fazer o mal, eles fazem isto porque são incapazes de viver sem satisfazer suas paixões, eles são dominados pelo pecado,  mas se quisermos viver de forma diferente hoje, temos que abandonar os impulsos do velho homem, que “se corrompe segundo as concupiscências do engano” (Ef 4.22).

3.     Eles deveriam ignorar as pressões sociais“…difamando-vos, estranham que não concorrais com eles ao mesmo excesso de devassidão”.(1 Pe 4.4).
O que a palavra de Deus nos ensina aqui é muito importante: O homem sem Deus não consegue entender porque alguém não faria o que ele faz. Eles estranham... Qual é o resultado? Oposição. Difamação.
Os cristãos foram acusados de todas as formas no império romano. Eram acusados de praticar incesto, de desrespeitarem a lei, de segregação social. Eles continuaram vivendo vida santa e dando testemunho do Cristo ressurreto. Trezentos anos depois, o império romano se rendia à conspiração silenciosa e santa da igreja.
Estas atitudes estão presentes hoje.
Muito se fala hoje de discriminação sexual, mas quanto ouvimos falar de discriminação religiosa? Recentemente (outubro 2017) o articulista J. R. Guzzo da Revista Veja publicou o artigo "Gente incômoda" afirmando que os evangélicos são o grupo religioso que mais cresce no Brasil e os caracteriza como "incômodos" para grande parte da população brasileira. O apóstolo Pedro afirma: “Se, pelo nome de Cristo, sois injuriados, bem aventurados sois, porque sobre vós repousa o Espírito da glória de Deus. Não sofra, porém, nenhum de vós, como assassino, ou ladrão, ou malfeitor, ou como quem se intromete em negócios de outrem; mas se sofrer como cristão, não se envergonhe disso; antes, glorifique a Deus com esse nome” (1 Pe 4.14,15).
Portanto, este tipo de comentário feito pelo Sr. Guzzo, pouca diferença faz para a vida da igreja. O povo de Cristo muitas vezes foi execrado em praça pública por sua fé, mas o que não podemos permitir é que a igreja dê motivos éticos para que as acusações tenham fundamento.

Para vencer esta ferrenha oposição, temos algumas armas altamente eficientes:

A.   Nossa união com Cristo: “Ora, tendo Cristo sofrido na carne, armai-vos vós do mesmo pensamento…” (1 Pe.4.1). “O sofrimento e morte de Jesus conquistaram o pecado fazendo-nos penetrar na sua vida ressurreta”[1] Jesus carregou sobre si nossos pecados em seu corpo, para que, tendo morrido para o pecado, vivamos para a justiça (Rm 6.8-12). Nunca confie na sua carne (Fp 3.2-11), mas mantenha sua comunhão com Cristo para estar firme no dia mau, na hora da oposição e enfrentamento.

B.    Uma nova atitude mental – “Armai-vos também vós do mesmo pensamento”. (1 Pe 4.1) Desta forma, entendendo o propósito de Jesus e sua vitória sobre o pecado, somos motivados a viver em santidade.
O que fez Jesus?
pois ele, quando ultrajado, não revidava com ultraje; quando maltratado, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga retamente” (1 Pe 2.23). Este era o processo mental de Jesus, este era seu pensamento. Glorificar o pai com seu estilo de vida.

C.    Uma compreensão clara do processo de deterioração resultante do pecado – (1 Pe 4.3,4; Rm 6.21) “Por isso, difamando-vos, estranham que não concorrais com eles ao mesmo excesso de devassidão” (1 Pe 4.4).
Pecado gera decadência: dissolução; concupiscência (desejo estragado); borracheiras (degradação moral, corrupção); orgias (imoralidade e perversão sexual), bebedices; detestáveis idolatrias. Tudo isto é um processo de destruição da alma e da dignidade humana.
Já vimos isto na história. Tais atitudes degradantes cansam as pessoas, mesmo uma sociedade pagã, não suporta este nível baixo de moral. O império romano caiu, apesar de sua riqueza e pujança, não sobreviveu. Seus excessos morais foram tão aviltantes que o castelo ruiu. Assim acontecerá ao homem que segue este processo de auto destruição psicológica e moral.

D.   Entendendo que devassidão moral traz juízo de Deus – “Os quais hão de prestar contas àquele que é competente para julgar vivos e mortos” (1 Pe 4.5).
A sociedade pagã, não tem conceito de pecado, e muito menos de juízo. Contudo, uma das coisas que trazem profunda mudança em nossa atitude é a compreensão de que estamos diante de um Deus santo.

Conclusão:
Não precisamos ficar assustados com as acusações, e com estes levantes que temos presenciado nos últimos dias. Nada disto deve causar estranheza. Historicamente os cristãos foram acusados de todas as formas no império romano. Permaneceram firmes na graça e prevaleceram. Assim também se dará nesta geração. A igreja é vitoriosa, porque Jesus tem um compromisso por este povo por quem ele morreu na cruz.

Isto me traz algumas aplicações:

Primeira, não preciso viver sem esperança e com medo de que o cristianismo, nossos valores e convicções serão destruídos. A Igreja é de Cristo. “Todo aquele que contra ela se levantar será reduzido a pó”. Isto me dá esperança e ousadia.

Segunda, isto me desafia. Ao invés de ficar julgando e olhando para fora, preciso olhar para dentro. “Porque a ocasião de começar o juízo pela casa de Deus é chegada; ora, se primeiro vem por nós, qual será o fim daqueles que não obedecem ao evangelho de Deus?”  (1 Pe 4.17). Isto deve gerar em mim temor e santidade.



[1] . Stott, John R. W. – The Message of first peter – Bible Speaks Today – Downers Grove, Il. Ingter Varsity Press, 1988.pg. 170