sábado, 6 de abril de 2019

Gn 34 A Anatomia da Ira


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Introdução: 
“Não me diga que estou nervoso, porque fico mais nervoso ainda!”. 
Foi esta a charge que vi numa tirinha de desenhos. Ira é uma reação muito comum nos nossos corações. Talvez não lutemos com drogas ou roubos, mas todos lutamos com ira, assim como sentimos, vemos e sofremos o impacto de pessoas iracundas sobre a nossa vida. Esta provavelmente é a razão que a palavra de Deus diga: “Irai-vos e não pequeis, não se ponha o sol sobre a vossa ira”(Ef 4.25). A questão não é se temos ou não ira, mas quão intensa é a nossa ira, porque ela tem sido nossa incômoda companheira e como lidamos com esta ira.
O texto lido narra os efeitos danosos da ira. Siquém, príncipe da casa de Hamor, se enamora com Diná, e os dois se envolvem num relacionamento sexual antes do casamento. Não sabemos se o sexo foi consensual como parece indicar o vs.34.3 “Sua alma se apegou a Diná, filha de Jacó, e amou a jovem, e falou-lhe ao coração”, ou, como afirma o vs. 2: “tomando-a, a possuiu e assim a humilhou” (34.2). Talvez porque sexo antes do casamento significava uma grave afronta na cultura antiga é que o vs. 7 nos fala diz; “...indignaram-se e muito se iraram, pois Siquém praticara um desatino em Israel, violentando a filha de Jacó, o que se não devia fazer”. Os textos são ambíguos, pois ora falam de amor e linguagem do coração, o que dá a ideia de sexo consensual; ora falam de humilhação, violência e desatino, o que transmite a ideia de estupro.
O fato é que, diante da reputação ferida, dois filhos de Jacó reagiram com muita ira. Criaram uma situação premeditada e fria, para vingarem “a humilhação” da irmã, e de forma brutal e covarde, mataram toda a família de Hamor e Siquém numa emboscada. A indignação deles se transformou numa arma mortífera, trazendo consequências danosas para toda a família.
Por que você anda tão irado?
Ira não é uma reação muito incomum nas nossas vidas. O profeta Jonas, por duas ouviu Deus lhe perguntando: "É razoável a sua esta tua ira” (Jonas 4.4,9)? A irritabilidade entre casais, ou  colegas de trabalho e no trânsito, são tão visíveis no cotidiano que temos a impressão de que vivemos numa sociedade à flor da pele. A ira é um pecado muito presente.
O texto lido de Gn 34 revela as graves conseqüências que a ira pode trazer.
  1. A ira retira o bom senso – Bom senso é a capacidade de lidar com situações cotidianas e de pressão. Uma pessoa iracunda perde a capacidade de emitir respostas apropriadas às provocações diárias. Ela transforma um desentendimento em desgaste e irritação. Sob o efeito da ira, fazem coisas ridículas, comportam-se de forma inadequada e falam coisas que ferem e machucam. Perdem o senso do ridículo.
Diante da situação que expunha a reputação da família e trazia humilhação para a irmã, Simeão e Levi agiram de forma absolutamente insana. Hamor, o pai de Siquém, veio pessoalmente apaziguar a ira e os ânimos. Isto revela um procedimento maduro e equilibrado, mas a ira de Simeao e Levi não deixou que eles vissem que as coisas poderiam ser resolvidas com acordos e perdão. Hamor afirma: “A alma de meu filho Siquém está enamorada fortemente de vossa filha; peço-te que lha deis por esposa” (34.8). “Majorai de muito o dote de casamento e as dádivas, e darei o que me pedirdes; dai-me, porém, a jovem por esposa” (Gn 34.12). Esta é uma linguagem de gente pacificadora e não atitude de hostilidade. No entanto, a ira não permite que o bom senso regule as relações.
Quantas vezes é exatamente isto que acontece na nossa vida. Em situações de ira, pessoas ferem, e apesar das tentativas de paz, de perdão e para resolver o problema de forma pacifica pessoas feridas, amarguras e iradas não conseguem enfrentar os problemas com bom senso. Pessoas com ira não avaliam bem a situação, o homem sem domínio próprio torna-se tolo e sem juízo. Age impulsivamente, perde a razão e mata, machuca e fere. A ira destes irmãos se manifestou num incidente já resolvido, a situação estava sendo reparada, mas nada disto os impediu de agir de forma brutal.
  1. A ira embrutece – É exatamente isto que vemos no texto. A indignação dos irmãos os torna monstruosos (Gn 34.25). Eles estabelecem condições difíceis. (todos os machos da família de Hamor deveriam ser circuncidados, numa época em que não se conhecia anestesia, nem bisturi), e ao terceiro dia, quando a dor era mais intensa, entraram naquela aldeia e dizimaram os homens. A atitude deles foi covarde e desumana.
Encontramos em Provérbios, várias advertências quanto ao domínio próprio: “Melhor é o homem paciente do que o guerreiro, mais vale controlar o seu espírito do que conquistar uma cidade”(Pv 16.32). Como cidade derribada, que não tem muros, assim é o homem que não tem domínio próprio(Pv 25.28).
  1. Ira reflete frustrações – Por isto é costumeiramente chamada de “pecado de superfície”. Ira aponta para algo mais profundo no coração. Em geral tratamos sintomas e comportamentos, mas dificilmente paramos para considerar o que está por detrás das atitudes e reações. Por isto a ira está sempre conectada aos nossos ídolos, como reputação e auto estima. É um pecado que aponta para outro pecado mais grave, e que se torna uma “cortina de fumaça”. .
Ira é é uma resposta idolátrica. Quando nossos ídolos caem, ficamos enfurecidos. Os exemplos incluem Jonas, Judas, os fariseus e nós mesmos. A razão que nos leva a ficarmos irados tão freqüentemente revela nossa vida auto centrada. Ira é um bom estudo de caso da extensão e profundidade de nossa pecaminosidade. Podemos não comer carne ou roubar um banco, mas será que podemos impedir que a ira aflore? Uma das coisas mais claras nas características dos fariseus é sua ira.
Um material escrito pelo “Sonship Ministries”, numa apostila não publicada em portugues, “Gospel Transformation”, descreve a ira de “A a Z”. Vale a pena ler atentamente, perguntando se meu coração tem sido traido por estas coisas:
A            Ira para com meus filhos, porque eles desorganizam minha falsa paz, controle e domínio. Eles arruínam meus planos e alvos.
 B            Ira para com o cônjuge, porque ele falha em satisfazer minhas expectativas. Eu tenho certos padrões...
 C            Ira diante de meus inimigos porque eles mudaram a visão de mim mesmo que era de uma pessoa boa. (Eu construo minha própria justiça...)
 D            Ira diante de Deus porque ele governa minha vida (Eu governo minha vida...)
 E             Ira diante de outros, porque eles não dão atenção devida aos meus problemas, ouvindo-me ou cuidando de mim (Pessoas devem me servir...)
 F             Ira com alguém no supermercado que passa com seu carrinho de compra em cima de meus pés. Como alguém pode ser tão estúpido?
 G            Ira após perder o jogo no computador. Como uma máquina pode me derrotar?
 H            Ira por não estar casado, ou por estar casado, divorciado ou viúvo.
 I              Ira pela meia-idade, terceira idade ou "qualquer" idade.
 J             Ira por causa da morte. Porque eu deveria morrer e deixar aqueles que eu amo? Deixar o que eu conquistei?
 K             Ira sobre o meu fracasso (no trabalho, escola, universidade, casamento, uma dada situação na vida). Eu mereço algo mais ou alguma coisa diferente...
 L             Ira por não ter reconhecimento. Ninguém percebe o grande trabalho que fiz e estou realizando. Compare o que estou fazendo com o que alguém já fez no passado...
 M           Ira sobre uma incompreensão acerca do que eu disse ou fiz (ídolos da reputação).
 N            Ira sobre desordem doméstica:  O líquido que caiu no tapete, a vasilha que se quebrou, brinquedos espalhados pela casa, cabelos no banheiro, sujeira na pia, papel de toalha colocado de forma incorreta, sabonete quebrado em dois.
 O            Ira por perceber que as pessoas não fazem aquilo que eu preparei cuidadosa e antecipadamente. A atitude deles quebra meus planos. Eu tenho planos, mas eles precisam do carro. Agora tenho que ficar em casa ao invés de ir assistir um filme (prazer, controle). Meu chefe arruinou meus planos para o feriado. Agora eu sou uma vitima...
 P             Ira quando eu não atinjo minhas expectativas próprias. Eu não concluí meu projeto no tempo.
 Q            Ira quando não consigo virar corretamente o bolo (eu sou uma mãe perfeita...).
 R            Ira quando a máquina de lavar estraga a roupa. Eu tinha plano de terminar o trabalho da lavanderia hoje...
 R            Ira quando o carro quebra, justamente quando eu tinha grandes planos. Eu temo o que as pessoas vão pensar se eu chegar tarde. Como fica a minha reputação?
 T             Ira por conviver com gente mau humorada, fariseus e com minha esposa que controla o dinheiro.
 U            Ira porque Deus traz alguém parecido com os “ninivitas” na igreja, gente que não sabe como se "comportar".
 V            Ira porque as pessoas mostram favoritismo. Por que estas pessoas não prestam atenção em mim?
 X             Ira quando as pessoas demonstram amor por mim (vítima). Eu não posso aceitar o amor delas porque eu não quero sofrer novamente com outras pessoas que vão ser falhas em amar.
X             Ira porque as pessoas rejeitam meu convite para almoçarem comigo. Provavelmente elas não se sentem honradas na minha presença...
 Y             Ira porque as crianças não fazem o que eu quero que façam... controle e poder... 
Z             Ira porque as pessoas me cortam no trânsito, buracos na pista que estragam meu carro, radares que são colocados para me apanhar quando ultrapasso os limites, pessoas que buzinam quando não arranco rapidamente.

Em todas estas situacoes observamos que estamos lidando com nossos ídolos, que sao de barro e falham: Nossa imagem, reputação, aceitaçãoa. Quando eles se quebram brota a ira. Isto reflete nosso narcisismo, egocentrismo e a vida da carne, auto-centrada, que deseja reconhecimento e aclamação.
4.     Ira traz dores à familia – O texto nos mostra como isto machucou Jacó, pai de Levi e Simeão. “Então Jacó disse a Simeão e Levi: “Voces me puseram em grandes puros, atraindo sobre mim o óodio dos cananeus e dos ferezeus, habitantes desta terra. Somos poucos, e se eles juntaram suas forças e nos atacarem, eu e minha família seremos destruídos” (Gn 34.30).
Apesar de todo constrangimeno, Simeão e Levi acham que estao certos. Eles se defendem e argumentam. Não é exatamente assim que procedemos quando agimos com irritação, ferimos e machucamos os outros? Quantos são capazes de dizer, depois de uma acesso de ira, que estao errados?
A atitude de Simeão e Levi traz danos profundos à sua família. A partir de agora, a tensão com os vizinhos e a paz tornam-se ameaçadas. A desgraça da atitude destes irmãos paira sobre esta família tão pacífica e ordeira, pois o texto inicialmente parece apontar para um ambiente tranquilo entre a vizinhança. A partir de agora, eles estão sobre suspeita e ameaça. Quantos estragos a ira causa hoje em dia na história de uma família? Um assassinato, uma agressão, tudo isto desencadeia uma série de medos e culpas que seguem a história familiar por muitos anos.

5.     Ira nos priva de bençãos – Este incidente é narrado em Gn 34, e parece que a Bíblia vira a página e este assunto é esquecido. Isto, porém, não é verdade.
Alguns anos depois, Jacó sente que a hora de sua morte está chegando, e ele chama todos os seus filhos para “abençoá-los” e dar profecias quanto às suas vidas. No entanto, o que ele diz acerca de Simeão e Levi é algo tão duro, que eu não gostaria de ouvir isto de ninguém, e de forma alguma, de meu pai, na hora de sua morte. Esta narrativa encontra-se em Gn 39.
Simeão e Levi são irmaos; as suas espadas são instrumentos de violência, No seu secreto conselho não entre minha alma, com a sua congregação minha glória não se ajunte; porque no seu furor mataram homens, e na sua teima arrebataram bois. Maldito seja o seu furor, pois era forte, e a sua ira, pois era dura; eu os dividirei em Jacó e os espalharei em Israel ” (Gn 49.5-7).
Não existe, neste texto, nenhuma benção. O pai afirmou que não se pactuaria com eles, que não gostaria de caminhar com eles por causa da ira e furor. O pai profetiza que, por causa da ira, eles seriam divididos e espalhados. Gente nômade, sem identidade, confusa. Alguma coisa poderia ser mais dura que esta?

Conclusão:
Como a ira é uma atitude muito presente em nossas vidas. Gostaria de dar 4 sugestões bíblicas de como devemos lidar com ela:
1.     Pergunte a si mesmo: “Por que estou irado?” – Esta é uma pergunta de clarificação, que nos orienta ao auto-exame e à reflexão. Quando você faz esta pergunta a si mesmo, muitos fantasmas que se encontram escondidos no porão de sua alma, são expurgados. Jogue luminosidade no porão escuro de sua casa, e veja quantas lacraias, baratas e ratos brotam dali.
Quando Deus vai tratar com dois personagens bíblicos debaixo do impacto da ira, ele toca na essência do problema deles, tentando-os levar à refletir:
Caim: “O Senhor disse a Caim: Por que te iraste? E por que descaiu o teu semblante? Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se procederes mal, o teu pecado será contra ti e a ti cumpre dominá-lo” (Gn 4.6-7). A repreensão do Senhor, infelizmente, não gerou nenhuma mudança no coração de Caim, que saiu dali e matou seu irmão. 
Jonas : Por duas vezes Deus lhe pergunta: “É razoável esta tua ira?” (Jn 4,4,9). Sua resposta, na segunda vez que Deus pergunta reflete bem o coração do homem indignado: “É razoável esta minha ira até a morte”. O texto de Jonas termina de forma lacônica, e não nos dá a entender que Jonas tenha refletido sobre esta questão e mudado. Pessoas iracundas, geralmente não querem pensar sobre o que estão fazendo, e são sempre muito cheias de razão.

2.     Coloque sua ira no lugar certo – A nossa ira geralmente é pecaminosa, porque ela mexe com os ídolos. Um dos maiores é a da reputação, quando voce julga que deveria ser tratado de forma diferente. Raramente nossa ira é positiva. Na verdade, em apenas dois casos ela pode ser positiva:
Primeiro, quando fere a santidade e a glória de Deus – Muitos pecados humanos ferem o coração de Deus. A Bíblia afirma que o pecado de Sodoma inquietou os céus. Deus decide averiguar pessoalmente, se manifestando numa teofania no encontro dele com Abraão (Gn 18). Deus pessoalmente conversa com Abraão, o texto fala que o Senhor conversou com ele, e não anjos, seus mensageiros. A perversidade da cidade fere a Deus. No caso de Nínive, Deus afirma que a maldade da cidade tinha subido até ele. Você se recorda que alguma vez tenha ficado irado por causa do nome do Senhor?
Segundo, quando é uma ira voltada para o fraco, o necessitado, o pobre, o explorado pela malignidade humana ou pelo sistema. Oscar Bulhole afirma que temos que recuperar a capacidade de indignação da exploração que o homem tem sofrido na América Latina. Você alguma vez ficou irado ao ver o pobre sendo explorado e massacrado? Você se recorda de alguma vez que tenha sentido ira por isto?
Não. Em geral nossa ira é por causa de alguma coisa que nos fizeram, que mexeu com o nosso brio e com nossa auto-estima.

3.     Não dê espaço para sua ira – É isto que a Palavra de Deus nos ensina: “Não deixe que o sol se ponha sobre a sua ira, nem deis lugar ao diabo” (Ef 4.26,27).
Quando o sol se põe sobre nossa ira, isto demonstra que ela foi recalcada e desceu para as nossas visceras. Quando isto acontece, ficamos contaminados pela amargura. Ira não resolvida, que passa de um dia para o outro, é um desastre. Este texto ainda nos adverte a não dar lugar ao diabo. Falamos muito de brechas espirituais que abrimos quando nos envolvemos com seitas malignas ou ao fazermos pactos ou associações com sociedades secretas ou malignas, e de fato precisamos nos proteger e afastar destas coisas. No entanto, poucos param para considerar o quanto a ira pode ser uma porta para o diabo.
Vocês se recordam da história de Saul? Como um espírito maligno estava sempre oprimindo-o e causando depressão? Ao lermos atentamente a sua história, percebemos que o mal entrava sempre pelas portas da ira. Logo depois de um dia mal resolvido, em que ficava zangado , enciumado, ou irritado, o diabo vinha sobre ele e o dominava. Existem muitas pessoas sofrendo nas mãos do diabo, por causa da ira mal resolvida.
4.     Transfira seus direitos a Deus – A Palavra de Deus nos ensina: “Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira (de Deus), porque assim está escrito:A mim pertence a vingança, eu retribuirei, diz o Senhor” (Rm 12.19).
Este texto nos ensina a deixar nossa ira para Deus. Quando somos feridos ou injustiçados, Deus toma a nossa causa. Ele é chamado na Bíblia do “Deus das vinganças” (Sl 94.1). Ele mesmo é o Deus dos orfãos e das viúvas, isto é, de pessoas que não possuem ninguém que as defenda. Quando levamos a Deus a injustiça e a infâmia sofrida, ele mesmo se torna nosso defensor. A vingança não é uma tarefa nossa, porque “A ira do homem não produz a justiça divina” (Tg 1.20). Portanto, deixe com Deus os seus direitos. “A mim me pertence a vingança, diz o Senhor”.

Conclusão:  A ira tem causados muitos males em nossa sociedade, destruído famílias, desautorizado pessoas, destruído relacionamentos, traumatizado crianças. Como dissemos no início, talvez não lutemos com drogas ou roubos, mas lutamos com a ira, emoções descontroladas, temperamentos desequilibrados, atitudes destemperadas.
A ira tem um enorme poder de destruição, fere famílias inteiras, priva-nos de bençãos e causam grandes tragédias.
Que Deus nos ajude. Que o domínio próprio, fruto do Espírito Santo em nós, gere uma disposição diferente e saudável em nossa vida.

Josué 2 Raabe: Os estranhos métodos de Deus


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Introdução:

Não é fácil entender Deus, além do mais, Deus não é mesmo para ser compreendido. Ele abriga os mistérios maiores da existência. Um dos religiosos mais populares do Brasil, o Padre Fábio de Melo disse recentemente: “Quem me dera pudesse compreender os segredos e mistérios dessa vida, esse arranjo de chegadas e partidas; essa trama de pessoas que se encontram, se entrelaçam e misturadas ganham outra direção”.

A verdade é que Deus governa o universo. Seu governo está sobre todas as coisas: cosmos, criação, natureza. Por isto Jesus fala ao mar e ele se acalma, e os discípulos perguntam assustados: “Quem é este, que até o vento e o mar lhe obedecem?”.

Deus governa a história. Apesar de todos os descaminhos e eventos aparentemente sem sentidos, a história converge para o fim que Deus mesmo deseja. Daniel diz ao poderoso Nabucodonozor que os eventos catastróficos que ele pessoalmente estava para enfrentar tinham como objetivo, fazer com com ele conhecesse “...que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens e os dá a quem quer” (Dn 4.25) e que o “o céu domina” (Dn 2.26). Não era o rei quem tinha o poder sobre a história, e sim Deus.

Deus governa seu povo. A Bíblia narra a história do povo de Deus, mas alguém já observou que, na verdade, a Bíblia registra a história de Deus no meio de um povo. Seu objetivo é exaltar, não um povo, mas o Deus quem o governa e sustenta miraculosamente .

 Não há um único centímetro quadrado, em todos os domínios de nossa existência, sobre os quais Cristo, que é soberano sobre tudo, não clame: “É meu!“ (Abraham Kuyper).

Um olhar sobre o texto

Este texto narra a ação do povo de Deus que estava se preparando para invadir Jericó. Eles foram enviados à cidade para as futuras ações que deveriam desenvolver. Ao chegarem à cidade, foram repousar num prostíbulo. Uma denúncia sobre dois homens estranhos na cidade, fez o rei se alvoroçar e mandar trazê-los. Foram até à casa de Raabe, que os havia escondido no terraço da casa entre as canas de linho e ela mentindo afirmou que os homens já tinham ido embora, dando assim oportunidade para que eles fugissem.

Nesta história surpreendente, aprendemos algumas coisas sobre a forma de Deus agir.

Primeiro, Deus usa ambientes inesperados

Foram, pois, e entraram na casa de uma mulher prostituta, cujo nome era Raabe, e pousaram ali” (Js 2.1). Convenhamos, este não parece ser um lugar adequado para dois homens do povo de Deus estarem. Aquela mulher era conhecida por sua profissão, e eles não apenas entraram ali, como também pousaram. Portanto, este não é um ambiente adequado para Deus estar.

Entretanto, Deus agiu neste estranho palco.
Quantas vezes Deus age de forma inusitada em ambientes estranhos.
Ele se revela em ambientes de opressão, de pecado e de morte para livrar seu povo.
Deus manifesta sua graça e realiza seus planos em ambientes de guerra, resgatando vidas em contextos de morte. Deus atua nos vales sombrios, gélidos e solitários das UTIs, no meio do caos e da tormenta.

Philipe Yancey escreveu um livro chamado: “Encontrando Deus nos lugares inesperados”. Ele narra jornalisticamente, quantas vezes Deus se revelou em ambientes surpreendentemente carregados de incredulidade, oposição, resistência. A narrativa deste texto descreve Deus, mais uma vez, se manifestando num lugar inesperado. Numa zona de meretrício, e neste ambiente sombrio de pecado, aparece o cenário de salvação de uma prostituta e sua família, e dos espias que para ali se dirigiram.

Eugene Peterson afirma que “Dez atua em diferentes palcos”.
Eis aqui um exemplo.

Por que Deus salvou Raabe?
Na verdade ela foi salva por crer no Deus de Israel. A Bíblia afirma que “o temor do Senhor visitou Raabe” (2.9-10). Raabe tinha os seus deuses como todos os povos antigos tinham suas divindades, mas quando ela ouviu falar do Deus de Israel, ele entendeu, que pela primeira vez estava diante de um Deus, não como os deuses pagãos, mas de um Deus que intervém na história. O temor que ela teve de Deus, levou-a a confiar no Deus verdadeiro, quando ouviu a forma como Deus havia agido libertando o povo errante do poderoso exército de Faraó, e dos demais deuses da redondeza.
Aquele Deus não era como os deuses pagãos de Canaã onde ela habitava,

A fé em Deus, mesmo numa vida tão chafurdada no pecado, como ela tinha, a livrara da morte. Ela confiou em Deus para sua salvação.


Segundo, Deus emprega instrumentos incomuns

Por que Deus fez o seu povo depender da proteção de uma prostituta?
Ele podia ter usado alguém com uma reputação melhor, poderia ter agido de outra forma, entretanto, decidiu usar uma mulher, cujo estilo de vida era tão questionável que nem mesmo serviria como testemunha em um tribunal.

Por que Deus “se fragiliza” a este ponto?
Creio que esta é uma forma de ironia divina: usar instrumentos fracos e inusitados.
Deus quis usar Raabe, que posteriormente figurará entre os “heróis da Bíblia”, sendo citada na galeria do povo de Deus no livro de hebreus: “Pela fé, Raabe, a meretriz, não foi destruída com os desobedientes, porque acolheu com paz aos espias” (Hb 11.31). E para não restar duvida sobre a estranheza disto tudo, o livro de hebreus faz questão de dizer que “a meretriz” Raabe, foi salva por sua fé. Esta parte poderia ser omitida na Bíblia, não? O texto sagrado não precisava informar, novamente, a profissão desta mulher.

A Mocidade para Cristo tem um lema interessante para descrever a forma de Deus fazer as coisas: “Deus usa os sem noção”. Veja como Paulo descreve a ação de Deus:

Irmãos, pensem no que vocês eram quando foram chamados. Poucos eram sábios segundo os padrões humanos; poucos eram poderosos; poucos eram de nobre nascimento. Mas Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios, e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes. Ele escolheu as coisas insignificantes do mundo, as desprezadas e as que nada são, para reduzir a nada as que são, para que ninguém se vanglorie diante dele” (1 Co 1.26-29).

Embora Deus não aprove a conduta de pecado, a genealogia de Jesus inclui adúlteros, assassinos e idólatras. Deus usou pessoas falhas! Deus pode usar pessoas de moral duvidosa para cumprir seus planos, embora isto não justifique o erro. Deus é soberano e faz o que quer e quando quer, da forma que quer. Ele usa mesmo até uma nação totalmente ímpia para que sua vontade seja feita e usa pessoas ímpias para executar seus propósitos. “O Senhor fez todas as coisas para os seus próprios fins e até ao ímpio, para o dia da calamidade” (Pv 16.4).

Curiosamente, foi Maria Madalena quem teve a primeira visão do Cristo ressuscitado e recebeu a missão de anunciar isto aos demais apóstolos. Ela  foi a primeira a ter visto Jesus após sua morte e anunciou aquilo que viu e por isto, Maria Madalena, uma mulher com vida questionável, tornou-se central na proclamação da fé cristã, a primeira a ver o Jesus ressuscitado, e a primeira a anunciar o grande milagre do cristianismo.

O Poder de Deus

Certo dia, durante a programação de uma emissora, ligou para a rádio uma senhora que estava passando por momentos muito difíceis. Aproveitando aquela oportunidade, ela resolveu fazer seu apelo e disse:

- "Estou passando por uma grande prova. O desemprego bateu à minha porta, tenho filhos pequenos, meu esposo está fazendo alguns serviços extra, porém a renda não é suficiente. Se algum irmão puder me ajudar com qualquer alimento, eu ficaria muito grata; aquilo que DEUS tocar em seu coração, eu agradeço e será de grande ajuda".

E ali ela aproveitou para dar seu endereço.

Entretanto, no momento desse apelo, um homem ateu estava ouvindo a programação e disse:

- "É hoje que eu mostro que Deus não se importa com ninguém!".
Então, ele se dirigiu para o mercado e fez uma grande compra. De tudo comprou, e em dobro. Chegou em casa e disse para duas pessoas que trabalhavam com ele:

-   "Vocês vão até a casa desta senhora. Vão entregar esta compra e, quando ela perguntar quem mandou, vocês vão dizer que foi o diabo. O diabo é quem está enviando esta compra".

Aqueles dois homens seguiram rumo à casa da senhora. Bateram palmas e ela, humilde, atendeu. Eles disseram:

-  "Viemos trazer esta compra para a senhora".
-  "Entrem, por favor. Vão colocando aqui...".

E ali descarregaram tudo. E a senhora disse:
-  "Que Deus abençoe. Muito obrigado, muito obrigado mesmo!".

E aqueles dois homens pararam, olharam um para o outro e sussurraram:
-  "Será que ela não vai perguntar quem mandou a compra?".
E o outro respondeu:
-  "Não sei... estranho, né?".

Então o primeiro, com todo o seu atrevimento, perguntou:
-  "Ei, você não vai perguntar quem mandou esta compra?".

E a senhora, com muita sabedoria, respondeu:
-  "Eu não, porque quando o meu Deus manda, até o Diabo obedece...".

Terceiro, Deus tem projetos surpreendentes

A vida de Raabe torna-se um verdadeiro enigma para o estudioso da Bíblia. Ela fala bem mais que o episódio específico da história na conquista de Jericó. A vida de Raabe, transcende este episódio.

A.   Raabe é citada na genealogia de Cristo – Será que é coincidência o surgimento de seu nome quando se fala da ancestralidade de Cristo? No sangue do Deus que se tornou humano, passa o DNA de Raabe. “Salmon gerou de Raabe, a Boaz” (Mt 1.5).

B.    Raabe é citada na galeria dos “heróis” da Bíblia. Como vimos anteriormente. (Hb 11.31). Com a lembrança bíblica, de que ela era uma prostituta.

Isto nos leva a considerar que ninguém pode antecipar o que Deus deseja fazer através de nossas vidas, por pior que seja o nosso “currículo”, e por mais desanimador que seja seu histórico. Ninguém pode antecipar o que Deus pode fazer através de uma vida hoje desorientada, que venha colocar sua confiança no Deus de Israel, que faz o povo atravessar o Mar Vermelho.

Portanto, olhe para sua vida, não como a pessoa de fracasso e de moral dúbia como você é, mas olhe sua vida com a perspectiva do que Deus pode fazer com ela, quando decidir a confiar no Deus de Israel.

James Meeks faz uma pergunta surpreendente sobre Raabe. Ele decidiu fazer um programa evangelístico na sua cidade e chamou o projeto de “Ladies da noite”. Dizendo o seguinte: Quando saímos para evangelizar  nunca sabemos quem iremos encontrar e nem o que Deus pode fazer com esta vida. O pastor que evangelizou um jovem caipira da Carolina do Norte poderia saber que ele se tornaria um dos maiores evangelistas da história da igreja cristã em todos os tempos? O professor de Escola Dominical que evangelizou Moody, sabia o quanto Deus usaria aquele homem no ministério? E ele cita esta mulher, perguntando:

Quem salvou quem? Raabe salvou os judeus ou os judeus salvaram Raabe?
E ele responde:
Na verdade, Raabe salvou os judeus duas vezes, e os judeus salvaram Raabe apenas uma. Os judeus foram salvos porque ela protegeu os espias quando foram a Jericó, mas também porque, do seu DNA, nasceria o salvador do mundo, Jesus.

Quarto, Deus tem uma pedagogia inusitada

O quarto ponto que queremos destacar é a presença de um detalhe aparentemente insignificante, mas que é central neste texto: o fio de escarlata.

Quando os espias são libertos por Raabe, eles assumem o compromisso com uma condição: “Disseram-lhe os homens: desobrigados seremos deste teu juramento que nos fizeste jurar, se, vindo nós a terra, não atares este cordão de fio de escarlata à janela por onde nos fizeste descer; e se não recolheres em casa contigo teu pai, e tua mãe, e teus irmãos, e a toda a família de teu pai” (Js 1.17-18).

E o texto diz: “...e ela atou o cordão de escarlata à janela” (Js 2.21).

O que vemos aqui é a pedagogia de Deus para a salvação. É necessário ter a marca de vermelho na sua vida. Este é o sinal do sangue derramado. É o sinal da redenção.

Sem a marca do sangue não há salvação na sua vida.
Sem a marca do sangue não há salvação para sua família.
Portanto, coloque a marca do sangue e traga sua família para dentro deste círculo.

Foi assim com o povo de Deus ao sair do Egito. Deus pediu que eles colocassem toda sua família dentro de casa, e com o sangue do cordeiro, tingisse a marca do sangue nos portais da casa. O sangue lhes seria por proteção.

Agora, na casa de Raabe, o sangue lhe seria por proteção.
Raabe entendeu claramente a mensagem: por isto ela atou o cordão de escarlata à janela. O texto dá a impressão de que, ela não adiou sua ação. Desde então sua casa era marcada pelo fio de escarlata. Ela não deixou para fazer isto no outro dia, nem quando a guerra começasse, não, a partir de então sua casa seria marcada pelo fio de escarlata. Depois que os homens partiram ela não ficou duvidando se ela seria de fato liberta. Talvez os dias foram passando e as pessoas comentassem sobre aquele fio vermelho que saia de sua casa, mas ela não se importava. O fio vermelho era a garantia de salvação dela e de sua família.

Da mesma forma, devemos marcar nossa casa com o fio de escarlata. O sangue precioso do filho de Deus.
A presença do sangue percorrer as páginas da Bíblia:

a.     Quando Adão pecou, ele fez vestimentas para si com folhas de figueira – mas sua roupagem era inadequada, e por isto “fez o Senhor Deus vestimenta de peles, para Adao e sua mulher, e os vestiu” (Gn 3.21). As suas vestes não os protegiam. Deus matou um animal e assim vestiu a Adão e Eva. Precisamos estar cobertos pela roupagem de Cristo. Foi o primeiro relato da morte de um animal e seu derramamento de sangue na Bíblia.

b.    Quando Caim e Abel foram oferecer sacrifícios a Deus, antes mesmo da lei ser instituída, Abel “trouxe das primícias de seu rebanho e da gordura deste”, e, “agradou-se o Senhor de Abel e de sua oferta” (Gn 4.4). Mais uma vez vemos o sangue sendo derramado. Era um sacrifício de sangue.

c.     Em 1 Pe 1.18-19 está escrito: “Sabendo que mediante coisas perecíveis como prata ou ouro que vocês foram redimidos da sua maneira vazia de viver que lhes foi transmitida por seus antepassados, mas pelo precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem mancha e sem defeito”(1 Pe 1.18,19).

d.    A carta aos Hebreus afirma: “Com efeito, quase todas as coisas, segundo a lei, se purificam com sangue, e sem derramamento de sangue não ha remissão de pecados” (Hb 9.22). Por esta razão, a expiação de nossos pecados é feita através do sangue de Cristo.

e.     Em Apocalipse 7.13-14, há um interessante episódio: Então um dos anciãos me perguntou: "Quem são estes que estão vestidos de branco, e de onde vieram? "Respondi: "Senhor, tu o sabes". E ele disse: "Estes são os que vieram da grande tribulação e lavaram as suas vestes e as branquearam no sangue do Cordeiro. Por isso, eles estão diante do trono de Deus e o servem dia e noite em seu santuário; e aquele que está assentado no trono estenderá sobre eles o seu tabernáculo” (Ap 7.13-15).

O fio de escarlata que salva a vida de Raabe, é o mesmo fio que precisa nos cobrir. É o sangue de Cristo vertido na cruz. Neste sangue há poder, cura, proteção e libertação. Apenas esta marca escarlata, pode nos livrar da morte e da condenação. Somente este sangue nos livra da ira, condenação e inferno.

Conclusão:

Deus usa ambientes inesperados...
Deus emprega instrumentos incomuns...
Deus tem projetos surpreendentes...
Deus tem uma pedagogia inusitada

A grande pedagogia de Deus é sua obra na cruz. 
Através deste fio de escarlata, e apenas através dele, Raabe poderia ser salva.

Imagine que ela ficasse com dúvidas sobre seu compromisso. Que ela deixasse de crer naquilo, se pensasse que era um superstição ou que não poderia confiar na palavra que lhe foi dada.

Ela teria morrido com toda sua família.

Mas quando o infortúnio chegou, a hora da verdade chegou, ela estava na sua casa protegida pelo fio de escarlata.

E ainda mais: Deus lhe deu família, Deus lhe deu uma nova história, Deus decidiu fazer dela parte integrante do seu projeto para a humanidade, através do seu filho.

Raabe vai para a galeria dos heróis da Bíblia...
Raabe fará parte da genealogia de Cristo.

Que surpresa e que benção maravilhosa!!!
Quão estranhos métodos Deus usa!!!