terça-feira, 25 de outubro de 2022

Revitalização de Presbíteros e a Revitalização de igrejas

 


 

 

 

Introdução:

 

Se você já tem estudando Revitalização de igrejas não é surpresa o fato de que a revitalização de uma instituição depende diretamente da revitalização dos seus líderes. É impossível renovar uma comunidade, se a liderança não está entusiasmada e disposta a se comprometer inteiramente com o projeto. Não se revitaliza a instituição antes de revitalizar o coração. John Maxweel afirma que “nenhuma instituição vai além de seus líderes”, e há um conhecido proverbio que afirma que “o ritmo do líder é o ritmo da instituição”.

 

Nas igrejas reformadas, o presbítero ocupa uma função fundamental. Ao contrário de outras igrejas, nas quais o presbítero tem uma função mais decorativo, já que se trata de um conselho consultivo, mas as decisões são feitas pelo pastor presidente ou pelo “apóstolo”, nas igrejas reformadas, o presbítero tem uma função deliberativa. Suas decisões validam ou não a orientação do pastor, e impedem o avanço de qualquer projeto, mesmo quando o pastor apresenta a proposta. Por isto não é tão raro vermos conflitos claros entre a visão do pastor local e de sua liderança, eventualmente transformando-se em uma ruptura ou cisma.

 

Na Igreja reformada, o pastor não se mantem no campo, se não houver aprovação dos presbíteros, mesmo quando a igreja expressa o desejo de que o pastor continue naquela igreja. Isto pode se tornar um ponto de disputa, e até protestos, mas a constituição da igreja concede tal poder ao conselho. E mesmo quando o conselho aceita, a contragosto a permanência do pastor, sua função será profundamente afetada, já que não possui a sustentação do conselho. E a liderança do pastor se torna inviável.

 

Presbíteros podem ser fator de encorajamento e da vitalidade da igreja, mas podem ser a causa do seu enfraquecimento, seja por desânimo ou por pecados.

 

O apóstolo Paulo foi muito criterioso na função dos presbíteros na igreja local. O capítulo 3 de Timóteo trata quase exclusivamente da liderança. O texto afirma, logo no seu início, que não há nenhum problema de se aspirar a um ofício cristão, pelo contrário, quem assim o faz, “excelente obra almeja”.  Para Deus, o ruim não é quando alguém aspira, mas a trágica ausência de aspiração. porque todas as vezes que ele quer fazer sua obra ele levanta líderes.

 

Das 26 características enumeradas dos líderes das igrejas enumeradas em Tm 3, 21 estão relacionadas ao ser do líder e 5 ao fazer. Entre os presbíteros, 11 características relacionam-se ao ser, e apenas 3 ao fazer. Isto nos mostra como Deus se preocupa com a qualidade de vida da liderança, com aquilo que ela é, seu caráter, seu ser, muito mais do que com aquilo que ela faz.

João Calvino faz uma diferença didática entre as funções dos presbíteros, dividindo-os em regentes e docentes. Creio que esta divisão gera alguns problemas porque biblicamente, os presbíteros eram pastores e esta diferença nos papéis parece inexistir. Por exemplo, em Atos 20, Paulo afirma que a função dos presbíteros deveria ser de pastoreio: “Atendei por vós, e por todo rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a Igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue” (At 20.28). A quem Paulo está se dirigindo? Em Atos 20.17 lemos: “De Mileto, mandou a Éfeso chamar os presbíteros da igreja”.

 

Quando Pedro se dirige aos presbíteros ele afirma: “Rogo, pois, aos presbíteros que há entre vós, eu, presbítero como eles, e testemunha dos sofrimentos de Cristo, e ainda coparticipantes da glória que há de ser revelada: pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer, não por sórdida ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho” (1 Pe 5.1-3).

 

Mais uma vez vemos a mesma ideia: presbíteros exercem o pastoreio do rebanho.

 

Podemos entender a divisão clássica de Calvino, para fins de estruturação, mas o problema é que, eventualmente, os presbíteros se tornam meros agentes administrativos, e não se sentem chamados a cuidar da doutrina e da vida do rebanho, e se afadigam apenas nos aspectos administrativos e burocráticos da instituição, perdendo a essência do seu chamado.

 

Presbíteros e as exigências da liderança

 

Como lideres da comunidade, não raramente tenho encontrado homens muito cansados no exercício da sua liderança na igreja local. Crises, conflitos entre membros, disputas, pecados da comunidade, cobranças, podem levar os líderes a uma grande estresse e tristeza. Principalmente quando fazem o seu melhor, e o que fazem não é o bastante, ou não é reconhecido. Criticas constante tem o poder de roubar a alegria da função.

 

Presbíteros se desanimam com a congregação. Quando esta é murmuradora, descontente, espiritualmente fragilizada, exigente. Em algumas igrejas, estes homens são acuados por um membro mais desaforado ou por uma irmãzinha mal educada, pra dizer o mínimo.

 

Presbíteros também se desanimam com os pastores. Durante muito tempo tenho participado de concílios, treinamentos, encontros, congressos, e o que posso dizer, sendo bem delicado, é que existem pastores pra lá de neuróticos e disfuncionais.

 

Não é fácil encontrar pastores autoritários, que não conseguem discutir ideias, levando-as facilmente para o campo pessoal, e se sentindo afrontado quando são contrariados. Muitos pastores são incoerentes, no que falam e vivem, espiritualmente deixando espaço para questionamentos, e quando as pessoas não são capazes de lidar com as inconsistências pastorais de forma direta e amorosa, elas procuram os presbíteros para acusar e desabafar. Desta forma, os lideres agora precisam tratar do assunto, que pode ser delicado, difícil de ser tratado, mas que precisa ser discutido.

 

Podemos encontrar ainda pastores desequilibrados. Eles são, como dissemos anteriormente, disfuncionais. Emocionalmente frágeis, ou passivo-agressivos, com paranoia, com síndrome de Peter Pan, ou a encarnação da divindade que não pode ser contrariado. As doenças podem estar relacionadas ao relacionamento que eles tem com a família, com os filhos, com o testemunho com os que são de fora, com mau uso (ou uso desregrado) do dinheiro, e assim por diante.

 

Tudo isto pode trazer frustração, cansaço e desânimo. Bons lideres deixam de exercer a função porque não conseguem mais lidar com as tensões administrativas e pastorais da igreja local.

 

Doenças dos presbíteros

 

Se até agora tratou das pressões que os  presbíteros sofrem no exercício de sua função, agora quero tratar com as lutas deles mesmos. Se antes a doença era da igreja e dos pastores, agora voltamos o holofote para as doenças comuns dos presbíteros.

 

A.    Considerar pastores como seus empregados. Esta tem sido uma das mais comuns e reincidentes reclamações dos pastores em relação ao comportamento de muitos presbíteros.

 

Pelo fato de serem os responsáveis na discussão do orçamento da igreja, e do salário do pastor, e se são tendentes e atraídos pelo desejo de controlar, facilmente adotam esta posição nas reuniões do conselho e na dinâmica pastoral. O resultado é um tratamento de cobrança, e muitas vezes desrespeitoso com o pastor.

 

B.    Confusão de papéis: ao invés de cooperadores, tornam-se fiscais. Isto acontece de forma constante.

 

Quando presbíteros invertem seus papéis, ao verem alguma coisa fora do lugar, ou alguma critica que ouviram ou algo que perceberam fora da função, eles pressionam o pastor dizendo implicitamente: “Pastor, isto não pode ficar assim, isto tem que ser consertado”. Eles não entendem que a função deles é, ao lado do pastor, buscar solução, e não dar tarefas, eventualmente árduas e difíceis, para que o pastor resolva.

 

Uma frase que uso constantemente pode ajudar. Quando as pessoas me trazem uma critica sobre a igreja eu afirmo: “Quem tem a visão, tem o dom!. O que estou querendo dizer: “Quem vê o problema, quase sempre é a pessoa antenada, que tem a capacidade de resolvê-lo”. Então, ao invés de cobrar do pastor para a distorção seja corrigida, tente resolvê-la, com ou sem a ajuda do pastor, conforme a necessidade do caso.

 

Por exemplo, é muito comum surgirem críticas sobre o trabalho das crianças, adolescentes e jovens. E este assunto é trazido para o conselho. Nada errado até aqui. Muitas vezes, porém, o assunto poderia ser resolvido “pastoralmente” pelo presbítero, que ao ouvir as críticas, se aproxima do grupo, participa das suas reuniões, se envolve e procura ajudar a resolver o conflito.

 

C.     Distanciamento do rebanho. Muitos presbíteros são estranhos e alheios à vida da igreja. Muitas vezes por causa das suas atividades. Um empresário, um profissional liberal, ou funcionário de uma empresa que exige muito de seu tempo pode praticamente incapacitar alguém de ter tempo ou disposição para atender todas as demandas do trabalho, vida pessoal, família e igreja.

 

Por estar distante demais da igreja, pouco pode ajudar nas tarefas pastorais. Muitos vezes o distanciamento tem a ver com sua própria personalidade, ou quem sabe, dificuldade para sair de sua comodidade e servir com mais disposição e tempo. Eventualmente sua esposa torna-se um problema. Ele nunca pode estar na igreja porque sua esposa nunca o encoraja. Um presbítero com uma esposa envolvida no trabalho torna-se certamente muito mais efetivo na obra.

 

D.    Domínio do Rebanho. Muitos presbíteros são controladores assim como há muitas pessoas controladoras. Quando isto acontece, ele quer estar à frente de todas as decisões, e não permite que outras pessoas cooperem nas decisões. É o líder autoritário.

 

Talvez seja sobre isto que o apóstolo Pedro se refira ao afirmar que os presbíteros não poderiam “ser dominadores que lhe foram confiados” (1 Pe 5.3). Tanto pastor como presbítero correm o risco de se acharem donos, quando deveriam ter atitude de servos.

 

Quando presbíteros agem desta forma, eles não esperam um pastor humilde, mas um pastor humilhado.

 

Processo de Revitalização

 

Gosto da ideia de Processo, porque é uma palavra com origem no latim procedere, que significa método, sistema, maneira de agir ou conjunto de medidas tomadas para atingir algum objetivo. etimologicamente, processo é uma palavra relacionada com percurso, e significa "avançar" ou "caminhar para a frente".

 

Num processo as coisas não estão concluídas, mas estão “se fazendo”, acontecendo. Possui uma dinâmica, diária, constante.

 

Eis alguns pressupostos que creio estarem no processo de revitalização dos presbíteros:

 

1.     Presbíteros devem estar atentos ao rebanho. Isto envolve o cuidado com o desempenho da ação pastoral, o uso dos recursos financeiros, a liturgia da igreja (embora esta seja uma função privativa dos pastores), cuidado com as crianças, jovens e todos os demais ministérios.

 

Presbíteros precisa ter um olhar pastoral. O que está acontecendo com os jovens, com as famílias, com a doutrina da igreja. Nosso pastor precisa de algum apoio? os diáconos precisam de ajuda? Como podemos ser mais acolhedores, amigáveis, efetivos na pregação do evangelho e na obra missionária. Isto tudo é cuidado pastoral.

 

2.     Presbíteros devem amar a Palavra. Isto tem a ver com o cuidado doutrinário. O que está sendo ensinado no púlpito da igreja? Quais pregadores tem sido convidados? Qual o conteúdo do ensino nos pequenos grupos e na Escola Dominical.

 

Creio que uma das funções do presbítero é ser guardião da doutrina bíblica. Por esta razão, entre as poucas tarefas que devem ser exercidas pelo presbítero, entre as três características relacionadas ao fazer em 1 Tm 3, encontra-se aquela que diz: “É necessário que o bispo seja...apto para ensinar” (1 Tm 3.2).

 

Quando os presbíteros não conhecem bem a Bíblia, eles podem apoiar novidades doutrinarias e até mesmo aceitar pensamentos anti-biblicos, trazendo grande dano sobre a comunidade local. Ler bons livros que revelem o pensamento ortodoxo e de sua denominação ajuda neste processo de compreensão doutrinária.

 

3.     Presbíteros devem buscar o bem de sua igreja local e de sua denominação. Não faz sentido ser presbítero e não defender as necessidades de sua igreja, com cuidado, bom senso, prudência e zelo.

 

Alguns anos atrás visitei uma igreja que, por influência de um presbítero que eram político da cidade, que por sua persuasão e influência, convenceu os outros colegas do conselho e da sua igreja local, a darem uma quadra adjacente à igreja, que haviam recebido de doação da missão americana, e doar para a prefeitura, transformando-a numa praça pública. Não acho que o projeto de uma praça seja ruim para a cidade, mas não faz sentido uma doação desta natureza à prefeitura que, por sua própria legislação, já reserva áreas em todos os condomínios e loteamentos destinados a área pública e lazer.

 

Presbíteros devem defender suas igrejas locais. Muitos pastores “disfuncionais” (preste atenção que estou usando cuidadosamente este termo, pois existem muitos outros adjetivos mais pesados para defini-los), podem “conspirar” contra as posses da igreja, empobrecendo suas comunidades e tomando decisões que trarão muitas perdas às futuras gerações.

 

4.     Presbíteros devem ser contribuintes fieis.  Este é um tema recorrente e difícil de ser tratado, mas sou bem enfático neste assunto. Eu não creio que uma pessoa que não contribui regular, generosa e proporcionalmente, jamais poderia ser membro de um conselho, pois ele assentará com seus colegas para discutir para onde vão os recursos da igreja, que são angariados por pessoas fieis. Trata-se de incoerência pessoal.

 

Quando a igreja entre numa campanha financeira, por decisão do conselho, os presbíteros devem ser os primeiros a contribuir. Dinheiro é uma questão espiritual, como dizem os ingleses: “Money speaks”. Acho que o corpo de Cristo é afetado quando um líder não compreende o poder do dinheiro na construção do reino de Deus.

 

5.     Presbíteros  devem ser modelos dentro de casa. Este é um ponto requerido dos presbíteros nas Escrituras: “Que governem bem a própria casa, criando os filhos sob disciplina, com todo respeito (pois se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará da igreja de Deus?)” (1 Tm 3.4-5).

 

Numa discussão sobre divórcio, alguns colegas defendiam que um pastor divorciado jamais poderia continuar no campo, independentemente da razão que levou ao divórcio. Vários aspectos foram mencionados, e eu, particularmente creio, que eventualmente nem todo homem ordenado e divorciado, deveria abandonar o ministério, apesar de ser um aspecto tão sensível, porque algumas mulheres simplesmente possuem comportamentos bizarros. Disse ainda que achava que um pastor com filhos descrentes, não deveria continuar no ministério. Que esta cláusula era mais clara que a do divórcio. Naturalmente a conversa causou uma boa discussão teológica e prática.

 

Mas a verdade é esta: presbíteros com filhos rebeldes e incrédulos, é um grave problema na vida da igreja. Precisamos olhar este assunto com muita compaixão e oração, mas Deus precisa conceder graça para alcançarmos nossos filhos e netos com a gloriosa mensagem do evangelho.

 

6.     Presbíteros devem participar da vida comunitária, no ensino, aconselhamento, mentoria e visitação. 

 

Já tive presbíteros que eram pastores mais eficientes que eu. Quando eu sabia de algum problema de um membro ou de alguma enfermidade, e que precisavam de apoio e suporte, quando chegava naquela casa, o presbítero já tinha visitado e orado com a família.

 

Sabemos de todos os compromissos que muitos homens possuem, e como é difícil este frágil equilíbrio do tempo, mas presbíteros deveriam estar atentos a pessoas que se aproximam da igreja, acolhê-los. Deveriam também estar antenados para perceber a falta ou ausência regular de uma família ou de um irmão.

 

7.     Vida de oração comunitária. Como não poderia deixar de ser, presbíteros deveriam, neste processo, se esforçar para ter uma vida de comunhão e oração, tanto individual, como comunitária.

 

É muito comum encontrarmos conselhos que desejam fazer uma reunião de oração só para os presbíteros. Apesar de considerar que oração nunca é demais, tenho constantemente desestimulado reuniões regulares neste sentido, embora esporadicamente as ache proveitosa, porque considero que os presbíteros deveriam ser grandemente desafiados a orar com a comunidade.

 

Sempre sonhei com um dia, em que todos presbíteros estivessem orando com a igreja. Sei que isto é um “impossible dream”, mas ainda acho que sonhar não cobra pedágio, então continuo imaginando o que poderia acontecer se os presbíteros viessem regularmente à igreja para participar das reuniões de oração com a comunidade. Creio que isto teria um profundo impacto na vida das pessoas. Grandes mudanças espirituais e avivamentos históricos se deram quando a igreja estava orando comunitariamente.

 

8.     Presbíteros precisam ser pacificadores. Muitos presbíteros são uma bomba relógio, sempre prontos a explodir. Irascíveis, desamorosos, desagregadores. Eles precisam ser cordatos. 2 Tm 2.23-24

 

9.     Presbíteros devem ser capazes de proteger as pessoas dos assuntos que são discutidos na reunião. Muitos presbíteros expõem a igreja com comentários feitos fora do ambiente conciliar. Isto traz dores, quebra a unidade. Não leve as dificuldades para sua casa, converse aberta e carinhosamente com seus pares. Discorde, se necessário, mas não ventile assuntos confidenciais, que estão relacionados à vida de pessoas, fora do ambiente da reunião.

 

Como revitalizar o ministério dos presbíteros?

 

Depois de termos considerado os processos, gostaria de apontar aspectos práticos que podem contribuir para uma descoberta e efetividade melhor no ministério dos presbíteros.

 

I. Aspectos práticos: Duas sugestões

 

A.    Presbíteros deveriam considerar rotatividade no ofício. Na Igreja Presbiteriana os mandatos dos oficiais duram cinco anos. É um longo tempo de atividade e naturalmente surge cansaço, sair do presbiterato para um período sabático de um ano pode ser reanimador.

 

As igrejas presbiterianas dos Estados Unidos tem esta prática nos seus estatutos. Quando vence o mandato do presbítero, ele fica por um ano fora do conselho. O sabático tem um enorme efeito no processo de descobrir novos líderes, porque nomes precisam ser levantados, e assim surge uma dinâmica.

 

Na Igreja Presbiteriana Central de Anápolis decidimos fazer rodízio e esta experiência tem sido adotada há quase 20 anos, trazendo enormes benefícios para a comunidade.

 

B.    Presbíteros devem buscar treinamento constante. Atualmente muitos livros e palestras estão disponíveis na internet, trazendo ideias interessantes para o exercício mais efetivo do ofício.

 

No Congresso de liderança do CTPI em 2012, Edson Queiroz surpreendeu os participantes ao encorajar os pastores para “levarem seus líderes para passear”. Sua sugestiva ideia fez todo sentido. Muitos pastores vão para congressos, passam por reciclagem, mas não se preocupam em levar seus líderes para aprender novos métodos, ver novas abordagens e modelos. Quando eles são  encorajados percebem que há formas bíblicas, criativas e ortodoxas de se fazer ministério nos tempos atuais.

 

 

 

 

 

 


sexta-feira, 21 de outubro de 2022

2 Co 1.15-22 O Sim de Deus!

 



 

 

 

Introdução

 

Uma das coisas mais desejadas por nós é a aprovação, reconhecimento e aceitação. Seja dos homens ou de Deus. Ter o sim, ou o “reforço positivo”, como afirma a psicologia behaviorista é uma fonte de grande alegria. Pode ser o sim da faculdade pela qual tanto aspirávamos, o sim de um emprego desejado, o sim de uma porta aberta, e o sim da pessoa amada.

 

Quando temos o não da expectativa frustrada, experimentamos um sentimento de rejeição, de fracasso, de autoestima baixa, de não valorização. Raramente ouvimos o não com o olhar de Deus, entendendo que se “uma porta se fecha aqui ou porta se abre ali”, ou que “portas que se fecham são iguais as que se abrem, se abertas ou fechadas por Deus”.

 

Certamente, o melhor sim e o que deve ser mais aspirado, é o sim de Deus. E o Deus das Escrituras Sagradas é o Deus do Sim. Paulo afirma neste texto: “Porque quantas são as promessas de Deus, tantas têm nele o sim.” (2 Co 1.20)). Esta afirmação, precisa ser bem entendida, porque não raramente gera enorme confusão entre o povo de Deus.

 

As pessoas dizem: “Em Deus sempre há sempre o sim.” E parece ser isto que o texto nos diz. No vs anterior lemos: “Porque o Filho de Deus, Cristo Jesus, (...)não foi sim e não; mas sempre nele houve o sim.” (2 Co 1.19) e no vs 18 lemos: “Nossa mensagem a vocês não é "sim" e "não", portanto, precisamos entender o que significa este sim de Deus. Qual é a mensagem que precisamos aprender na Palavra de Deus.


Quando estudamos cuidadosamente a Bíblia, porém, observamos que existem algumas coisas para as quais Deus não diz sim, porque ele não as aprova.

 

A.    Deus não diz sim ao pecado. Deus não faz concessão para a impureza, ele nunca diminuiu seu padrão ético. No Antigo Testamento ele diz a Israel: “Tu lhes dirás: Sede santos, porque Eu, Yahweh vosso Deus, o SENHOR, sou santo!”.. E no Novo Testamento a mesma exigência moral é feita à sua igreja: “Mas, assim como é santo aquele que os chamou, sejam santos vocês também em tudo o que fizerem, pois está escrito: "Sejam santos, porque eu sou santo." (1 Pe 1.15,16)

 

Deus não diz sim a imoralidade, ele não tem compromisso com a infidelidade e nem pactua com a iniquidade. “Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo.” (2 Tm 2.13) Para diminuir suas exigências morais Deus precisaria deixar de ser um Deus santo.

 

Portanto, não há concessão para a graça barata e o discipulado sem custo. Há muitos vivendo na prática do pecado sem considerar a gravidade de sua vida marcada pela impureza, falta de integridade e caráter. A Bíblia afirma: “De Deus não se zomba; aquilo que o homem semear isto também ceifará.” Cuidado! Não brinque com o pecado nem com o diabo.

 

B.     Deus não diz sim a todos os desejos. Já temos falado repetidas vezes como confundimos desejos com necessidades. “E o meu Deus, segundo a sua riqueza e glória, há de suprir em Cristo Jesus, cada uma de vossas necessidades.” (Fp 4.19). Deus tem compromisso com nossas necessidades, não com desejos.

 

Deus, portanto, não diz sim e não tem compromissos com desejos. Mesmo porque, desejos facilmente são contaminados. Quando a Bíblia usa a expressão “concupiscência”, se refere a um desejo bom e saudável que foi estragado e corrompido. A fome é boa, a gula é um desejo pervertido; o sono é bom, a preguiça é um desejo pervertido; sexo dentro dos padrões de Deus é abençoado, fora dos padrões de Deus atrai sua ira e julgamento.

 

Quando Deus admoesta Caim, para levá-lo ao arrependimento, ele diz o seguinte: “Então, lhe disse o Senhor: Por que andas irado, e por que descaiu o teu semblante? Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo.” (Gn 4.6-7). Nosso desejo, pecado, anseios, carne, conspiram contra Deus e é contra nós mesmos. O que fazemos por prazer não raramente se torna grande pesar.

 

C.    Deus não diz sim a todos os nossos pedidos. Deus ouve todas as orações, mas não diz sim a todas elas.

 

Ao orarmos, podemos pedir coisas boas e corretas, com coração puro e com fé, e Deus não nos dá porque ele tem propósitos e dentro dos seus misteriosos, eternos, sábios e amorosos planos, ele não quer dar. Outras vezes ele não nos dá porque nossos pedidos são maus, na sua própria essência são contrários a Deus: “pedis e não recebeis, porque pedis mal, para esbanjardes em vossos prazeres.” (Tg 4.3).

 

Então, podemos pedir coisas boas e não sermos atendidos porque Deus tem outros planos para nossa vida. Ou podemos pedir mal, para satisfazer desejos carnais e por esta razão, também não sermos atendidos.

 

Diante disto você pode estar falando: Bem, o tema do sermão é o Deus do sim. Mas o pregador até agora falou de três coisas que Deus NÃO dá. Afinal, vamos estudar o sim de Deus ou o NÃO de Deus?

 

Onde podemos encontrar o sim de Deus?

 

1.     Em Jesus, há sempre o sim. Veja que o texto não diz que em Deus temos o sim em todas as coisas, mas que, em Cristo, temos sempre o sim.

 

“Porque o Filho de Deus, Cristo Jesus, (...) não foi sim e não; mas sempre nele houve o sim.” (2 Co 1.19).

 

Quando olhamos para Cristo e sua obra, nele sempre veremos o sim. Nele não há inconstância, incerteza, ambiguidade. Nele sempre há o sim.

 

Minha mãe é a última de uma família de 10 irmãos que ainda está viva. Antes da morte de sua última irmã, cuja vida foi desregrada, confusa, louca no sentido mais complexo que esta palavra pode expressar, mas que se converteu a Cristo e teve a graça de criar seus dois filhos no caminho do Senhor e ambos servem fielmente a Deus, minha mãe a visitou no interior de Minas Gerais e perguntou: “Você tem medo de morrer?” E ela disse convictamente: “Zilá! Quem tem Jesus não tem medo da morte!”

 

Sua resposta firme, nos surpreendeu, mas é exatamente isto que a Palavra de Deus nos ensina neste texto. Em Cristo Jesus, não há sim e não, incerteza, dubiedade, insegurança, talvez. Nele sempre há o sim!

 

Jesus não falava da vida eterna em termos de probabilidades e possibilidades, mas em termos de certeza. “Quem tem o Filho, tem a vida eterna.” ... “Não se turbe o vosso coração, crede em Deus, crede também em mim, na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora, eu vo-lo teria dito, pois vou preparar-vos lugar.”

 

Em Jesus não há insegurança. Nele sempre há o sim. “Porque quantas são as promessas de Deus, tantas têm nele o sim.” (2 Co 1.20). Podemos estar seguros, certos, confiantes. “Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido.” (Rm 10.11)

 

2.     Nas promessas de Deus, sempre há o sim. “Porque quantas são as promessas de Deus, tantas têm nele o sim” (2 co 1.20)

 

Vamos olhar com atenção este texto.

Ele não diz: “Sempre teremos o sim, em qualquer condição ou situação”, antes afirma: Nas promessas de Deus, sempre há o sim. Sublinhe esta palavra ai: “Nas promessas de Deus.”

 

Este texto precisa ser lido com cuidado para desfazer toda confusão. Quando Deus faz uma promessa, sempre haverá o sim. A questão que importa é a seguinte: “Deus prometeu?”

 

Certa vez o conhecido pregador americano T. D. Jakes teve um problema em sua comunidade. Um grupo de pessoas estava orando fervorosamente pela cura de uma irmã e apesar dos insistentes pedidos, Deus não a curou. O problema é que alguém do grupo teria dito que havia recebido uma profecia de Deus de que ela seria curada. Então, quando veio a morte, aquilo chocou o grupo. Sabedor disto, ele se reuniu com o grupo que disse: “Eh, Deus prometeu e ele não a curou!”. E ele então disse: “Bem, neste caso, estamos realmente numa grave e séria crise, porque não podemos mais confiar neste Deus. Ele mentiu para nós. Ele disse que faria algo e não fez.” Quando as pessoas começaram a ficar chocadas com a palavra do pastor ele disse: “na verdade Deus não mentiu. Mentiu quem afirmou que Deus disse algo que ele nunca disse.”

 

O ser humano é capaz de construir projeções inconscientes na alma e projetá-las em Deus. Por isto a Bíblia adverte: “Não mandei esses profetas; todavia, eles foram correndo; não lhes falei a eles; contudo, profetizaram. Até quando sucederá isso no coração dos profetas que proclamam mentiras, que proclamam só o engano do próprio coração? O profeta que tem sonho conte-o como apenas sonho; mas aquele em quem está a minha palavra fale a minha palavra com verdade. Que tem a palha com o trigo? — diz o Senhor. Não é a minha palavra fogo, diz o Senhor, e martelo que esmiúça a penha?” (Jr 23.21,26, 28-29)

 

O sim de Deus não é para aquilo que desejamos que seja, nem para aquilo que dizemos que é, seu sim está fundamentado em suas promessas. “Deus não é homem, para que minta; nem filho de homem, para que se arrependa. Porventura, tendo ele prometido, não o fará? Ou, tendo falado, não o cumprirá?” (Nm 23.19)

 

No sim de Deus não temos o talvez. Não é uma aposta, nem salto no escuro. O justo vive pela fé, nas promessas de Deus.

 

O sim e o não de Deus se torna real em nossas vidas de três formas:

 

A.    Deus nos confirma em Cristo – “Mas aquele que nos confirma convosco em Cristo e nos ungiu é Deus.” (2 Co 1.21)

 

Somos confirmados em Cristo por meio da sua obra e de seu sacrifício, por esta razão, todas as bençãos espirituais que recebemos são por meio de Cristo. (Ef 1.13) Em Jesus temos a redenção. O preço de nosso pecado foi pago e fomos justificados (Col 1.13). Em Cristo fomos reconciliados, a paz com Deus nos é dada por meio de seu sangue (Col 1.19).

 

B.     Deus nos sela com seu Espírito – “...que também nos selou e nos deu o penhor do Espírito em nosso coração.” (2 Co 1.22)

 

O selo é a marca oficial de Deus em nós. Nós somos “carimbados” por Deus. “Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não vive em pecado; antes, Aquele que nasceu de Deus o guarda, e o Maligno não lhe toca.” (1 Jo 5.18)


C. Ele nos dá o penhor do Espírito – “...que também nos selou e nos deu o penhor do Espírito em nosso coração.”(2 Co 1.22)

 

Selo e penhor são duas bençãos que recebemos de Deus e que nos são dadas ao recebermos o Espírito de Deus, mas as duas tem sentido diferente. Selo é uma marca, penhor é uma garantia.

 

Paulo afirma: “Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus.” (Fp 1.6) A obra que Deus começou em nós será completada, não por causa de nós mesmos, mas por causa do Espírito em nós. Ele é o nosso penhor, ele é a nossa garantia. Quando falamos da doutrina da perseverança dos santos, algumas pessoas preferem falar da “perseverança do Espírito Santo.” Não somos nós que por nós mesmos perseveramos, mas é Deus que persevera em nós por meio do Espírito. Estamos marcados, identificados, reconhecidos pelo selo, e somos garantidos e protegidos pelo penhor.


Conclusão

 

Todos ansiamos pelo sim, mas o sim mais importante vem de Deus. Não importa o que os outros digam, se somos aplaudidos pelas pessoas, mas se não temos o aplauso dos céus, nada vale a pena.

 

A grande benção do Evangelho é que temos o sim de Deus por meio dele. Jesus nos torna aceitáveis diante do Pai. Não temos sim para tudo que queremos, nem temos o sim para todas as orações que fazemos, mas temos o sim de Deus por meio de Cristo.

 

Porque adoramos o Deus do sim, podemos descansar em suas promessas. Não precisamos ficar inseguros. O Deus que nos ama tanto a ponto de nos dar seu filho, não nos dará o seu sim? “Aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as coisas?” (Rm 8.32)

 

 


sábado, 17 de setembro de 2022

2 Co.1.3-11 Por que dói tanto?

 



 

 

Por que dói tanto?

2 Co.1.3-11

 

 

Introdução

 

Não raramente somos expostos a situações de muita dor, stress e aflição. Nestas horas ficamos nos perguntando porque passamos por tanta angústia e sofrimento. Neste texto Paulo está falando de angústia, sofrimento, tribulação a até mesmo desespero diante da dor extrema que ele mesmo enfrentou.

 

Nestas horas ficamos perguntando: Por que existe a dor? Por que as coisas são tão pesadas?

 

Esta é a segunda carta de Paulo aos Coríntios. Alguns a chamam de “carta desconhecida”, porque é a menos estudada. A primeira carta é muito apreciada porque ela descreve a igreja, que se parece tanto com as igrejas contemporâneas: disputas, conflitos, pecados, desvios teológicos, crises doutrinárias, questões sobre práticas diárias, usos e costumes. Estamos assim olhando para a igreja.

 

Na segunda carta, entretanto, nosso olhar foca em Paulo. A igreja de Corinto foi fundada nos anos 52/53 d.C., e aquela cidade tinha mais ou menos o mesmo número de Anápolis (cerca de 400 mil habitantes), com a diferença de que ela tinha um importante porto comercial e isto fazia com que a promiscuidade e a ética fossem muito relativizadas por causa da influência de outras culturas.

 

Paulo ficou naquela grande cidade um ano e meio e estabeleceu ali uma igreja. Depois teria enviado três cartas (alguns argumentam que foram quatro), sendo que duas delas se perderam. Paulo começa esta carta apresentando suas credenciais (2 Co 1.1), usando três argumentos:

(a)- Ele não havia recebido o apostolado de homens, mas de Deus;

(b)- Ele havia plantado aquela igreja e era seu fundador (2 Co 12.12)

(c)- Cristo havia aparecido pessoalmente a ele.

Quando lemos toda a carta, entendemos porque ele faz tanta questão de falar destas credenciais, já que em nenhuma outra carta ele as enfatiza.

 

ü  Paulo é acusado de ser de “mundano proceder”.  (2 Co 10.2). Não é fácil para um pastor ser acusado de ser mundano ou leviano;

 

ü  Paulo é questionado sobre a autoridade espiritual. Estaria Deus de fato falando através de sua vida? (2 Co 13.3)

 

ü  A igreja critica seus sermões. (2 Co 10.10). Não é fácil ouvir que nossos sermões são “fracos e desprezíveis.”

 

O Deus de toda consolação

Neste texto que vai de 2 Co 1.3-11 duas palavras são repetidas: Aflição e consolo. Aflição pode bem ser traduzido por pressão ou stress, duas palavras mais empregadas recentemente. Muitos se sentem assim ao enfrentarem o dia a dia e pensarem no dia de amanhã.

 

A palavra consolo é a mesma palavra usada por Jesus ao se referir ao Espírito Santo como “consolador” (Jo 16.7). Jesus usa o termo grego “parakaleo”, que também tem a ideia “daquele que está ao lado”, ou “encorajador”, “fortalecedor”.

 

Ao colocar os termos aflição e consolo lado a lado, somos lembrados de que Deus sempre está presente quando passamos por pressão ou stress. Contudo, em geral não oramos para Deus nos fortalecer, mas pedimos a Deus para não permitir que passemos pela aflição e que nossos problemas desapareçam. Quando as aflições não são retiradas nos enchemos de culpa, raiva, medo, preocupação e murmuração.

 

Ao lermos a Palavra de Deus, entretanto, observamos que muitas vezes Deus não libertou os seus das provações: Os amigos de Daniel não foram impedidos de serem atirados à fornalha de fogo ardente. Daniel não foi impedido de ser atirado à cova dos leões. Mas o que sempre percebemos é que, Deus sempre esteve com eles, e sempre estará conosco quando passamos pela provação e angústia.

 

Nossas dores são reais. Embora muitas vezes sejamos consumidos pelo vitimismo e pela hipocondria, e usemos a dor como uma forma de chamar a atenção das pessoas, muitas dores são reais e profundas. Dói muito. Paulo chega a afirmar neste texto que a dor que ele experimentou no Ásia, os levou a perder a esperança na própria vida. O fato de termos Deus ao nosso lado, não impede que sintamos dor.

 

Entretanto, ao lermos este texto observamos que a dor pode ser amenizada se tivermos algumas compreensões bíblicas sobre seu significado e proposito. Muitas vezes a grande dor que sentimos tem a ver com o fato de que não conseguimos ver nenhum sentido na dor em si. Gostaria de analisar com os irmãos, porque a dor que sofremos ganha proporções ainda maiores quando as enfrentamos.

 

Por que dói tanto?

 

1.     Porque não entendemos que Deus não elimina a dor, mas ilumina a dor. “É Ele que nos conforta em toda a nossa tribulação.” (1 Co 1.4)

 

Paulo bendiz a Deus porque ele é o Pai da misericórdia e de toda consolação. O texto diz que “ele nos conforta em toda tribulação”, mas não afirma que ele “nos livra de toda tribulação.” Talvez esta seja a primeira razão porque dói tanto. Não entendemos porque Deus não retira a aflição como desejamos e oramos tanto. Então, o nosso foco se volta para o livramento, e não para a presença de Deus esteja conosco no meio da dor.

 

Jesus foi claro ao declarar: “Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo passais por aflição, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo.” (Jo 16.33). Só teremos paz e bom ânimo se entendermos que a aflição estará sempre nos rondando, mas que Deus nunca nos deixará atravessar as noites escuras sem sua presença. O que nos traz paz é a compreensão das promessas de Deus, e não a ausência das tribulações.

 

Nosso Senhor não fugiu da provação, mas foi sempre confortado por Deus quando passava por elas. Na verdade, Jesus foi levado ao deserto, “pelo Espírito, para ser tentado pelo diabo.” (Mt 4.1) Para muitos esta declaração é complicada. Ser levado por Deus para enfrentar as provocações do diabo.  Mas o que aconteceu a Jesus no deserto? Passou pela aflição, venceu e “a seguir o diabo o deixou, vieram anjos e o serviram.” (Mt 4.11) Jesus passou pela tentação, mas a graça e a consolação do parakletos, o fortaleceu e o sustentou.

 

2.     Porque não entendemos que o fortalecimento que recebemos é exatamente igual à pressão recebida. “Porque assim como os sofrimentos se manifestam, assim também nossa consolação transborda por meio de Cristo.” (2 Co 1.5)

 

Se você puder, grife a frase “assim como”. Muitas vezes somos atingidos por uma dor muito maior, porque não somos capazes de perceber que a força que Deus dá não é inferior às pressões e aflições que recebemos.

 

Salmo 23: “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, porque tu estás comigo, a tua vara e teu cajado me consolam.” (Sl 23.3). O vale da sombra da morte é inevitável, mas nunca o atravessaremos sem a presença do bom pastor.

 

Paulo afirma “Porque não queremos, irmãos, que ignoreis a natureza da tribulação que nos sobreveio na Ásia, porquanto foi acima das nossas forças, a ponto de desesperarmos até da própria vida.” (2 Co 1.8). O que ele diz é que, olhando pela perspectiva humana, não havia nenhuma condição de atravessar as provações que enfrentaram, mas o mesmo Paulo afirma: “Não vos sobreveio tentação que não fosse humana; mas Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças; pelo contrário, juntamente com a tentação, vos proverá livramento, de sorte que a possais suportar.” (1 Co 10.13)

 

O cuidado de Deus sempre estará presente nas dores e angústias mais intensas que experimentamos. A força de Deus caminha conosco, no meio da aflição e dor. O bom pastor estará presente. Somos “participantes dos sofrimentos, mas também da consolação.” (2 Co 1.7). A dor que enfrentamos terá a maravilhosa graça de Deus em contrapartida.

 

3.     Dói muito, porque perdemos a dimensão do propósito de Deus no sofrimento. “Mas, se somos atribulados, é para o vosso conforto e salvação; se somos confortados, é também para o vosso conforto, o qual se torna eficaz, suportando vós com paciência os mesmos sofrimentos que nós também padecemos. (2 Co 1.6)

 

Traduzindo esta afirmação o que o texto diz é que o sofrimento que temos se torna inspiração e fonte de consolo para outras pessoas que andam conosco: a comunidade, os amigos, os filhos, os jovens. Precisamos aprender a transformar nossa dor em ministério, para que ela não seja mera dor. Você não é a única pessoa que sofre, mas durante o seu sofrimento, outros estão olhando para sua vida e vendo como tratam a dor, qual a perspectiva que temos no meio do sofrimento. Os descrentes observam isto, seus amigos incrédulos consideraram sua atitude no meio da dor. Não é uma questão de negar a dor, mas redimensionar a dor.

 

O autor da Carta aos Hebreus afirma: “Lembrai-vos dos vossos guias, os quais vos pregaram a Palavra de Deus, e considerai atentamente o fim de suas vidas, imitai a fé que tiveram.” (Hb 13.7). Esta é uma perspectiva muito interessante. A forma como envelhecemos, adoecemos e morremos transmite para as novas gerações a atitude que devemos ter diante das provações e aflições. Billy Graham afirma que a igreja ensina como será a vida “após a morte”, mas ensina pouco sobre lidar com a doença, envelhecimento e a dor em si, e como enfrentar o processo da morte.

 

A dor é didática: Deus vai usar a aflição para abençoar outras vidas, caso contrário a dor não tem qualquer relevância e valor, parece alguma coisa desproposital no meio das contradições da vida. A forma como os cristãos enfrentam a morte torna-se inspiração para muitos que virão depois deles.

 

Não foi isto que vimos recentemente? O Pastor Edson Caetano, que carinhosamente chamávamos de Black, lidou com fé e serenidade, em todo o seu processo de luta contra o câncer até sua morte em 19 de Agosto 2022. Na última visita que lhe fiz, ele não estava conseguindo mais caminhar, mas estava cheio de histórias de fé para compartilhar conosco, e com seu rosto cheio de graça e seus bonitos dentes, ria conosco contando seus casos. Levantou-se com o andador, apesar de já estar dez dias sem conseguir ir a cozinha, e queria me mostrar pessoalmente as frutas que Linda tinha trazido da casa deles em Cocalzinho, onde tinham um pequeno pomar e me deu um mamão. Dizendo ele: “da minha roça!” Ali estava alguém transformando sua doença em inspiração e desafiando a feiura da doença e da morte, com fé, serenidade e gratidão. Nada de murmuração e reclamação. Ele sabia que Deus tinha o controle de tudo e que sua vida era do Senhor. Ele sabia que Deus é fiel!

 

Sabe o que acontece quando vemos uma pessoa enfrentando a morte com tanta serenidade como fez o Black? Ele redimensiona e ressignifica a dor e morte. Ele dá uma dimensão exata de como deve ser o enfrentamento cristão com o sofrimento. Ele tinha a perspectiva da morte muito clara por causa de sua simples fé em Cristo. E isto se torna inspiração para todos nós que seguimos nesta mesma direção.

 

É isto que Paulo diz: “Se sofremos é para vosso conforto e salvação.” Deus usa pedagogicamente a dor para ensinar outros como lidar também com sofrimentos, que tiverem que passar por eles. Desta forma, a dor se reveste de significado. Deus quer usar o que estou passando como um ministério.

 

Chuck Colson, foi assessor do Presidente Richard Nixon e se envolveu no escândalo do Watergate (uma espécie de mensalão e petrolão brasileiro), foi julgado e condenado. Certa vez escreveu que frequentemente perguntava porque foi parar na prisão, pois, segundo ele não havia razão legal para que fosse preso, e por muito tempo lutou com a humilhação, vergonha e desgraça que acabou inteiramente com sua reputação.

 

Mas a resposta começou a surgir quando ele estava preso e começou a ver aquelas pessoas esquecidas ali na cadeia, conheceu a história de muitos deles, de alguns que jamais retornariam à liberdade e aos poucos um grande sentimento de compaixão e desejo de ajudá-los atingiu seu coração. Ao sair da cadeia, criou o ministério ”prison fellowships”, e passou a devotar sua vida para aliviar o sofrimento de homens e mulheres na prisão.

 

Porque Chuck Colson foi enviado para a prisão, histórias maravilhosas da graça de Deus começaram a acontecer na vida destes presos. Muitas vezes passamos pela aflição, não por causa de nós mesmos, mas por causa dos outros.  Deus usará nossa história para trazer consolo, esperança e fé no coração de outras pessoas.

 

4.     Passamos pela dor para que percebamos nossa vulnerabilidade e fragilidade. “Contudo, já em nós mesmos, tivemos a sentença de morte, para que não confiemos em nós, e sim no Deus que ressuscita os mortos; o qual nos livrou e livrará de tão grande morte; em quem temos esperado que ainda continuará a livrar-nos.” (2 Co 1.9,10)

 

Paulo menciona uma tribulação duríssima pela qual ele atravessou na Ásia: “Porque não queremos, irmãos, que ignoreis a natureza da tribulação que nos sobreveio na Ásia, porquanto foi acima das nossas forças, a ponto de desesperarmos até da própria vida.” (2 Co 1.8) Não sabemos ao certo a que tribulação ele se refere. Seria uma enfermidade? Uma doença grave? Ele adoeceu? Talvez sim. Mas a maioria dos comentaristas acredita que esta era uma referência ao que lhe aconteceu em Éfeso, durante sua viagem missionária. Naquela cidade o Evangelho começou a avançar poderosamente e muitas pessoas convertidas começaram a queimar livros de magia e o comércio de nichos mantido pelos ricos comerciantes que vendiam artigos religiosos, começou a ficar ameaçado, então eles promoveram uma manifestação pública, uma passeata encabeçada por Demétrio, e a Bíblia diz que “a cidade foi tomada de confusão.” (At 19.29)

 

Naquele momento eles passaram sério risco de serem linchados em praça pública. Paulo percebeu quão vulnerável ele era. Ele viu que, quão vulnerável e frágil era sua vida, que no seu corpo ele tinha uma sentença de morte. Não é assim que nos sentimos diante da dor? Quão frágil somos. Como a vida rapidamente passa...

 

Qual o resultado disto? Tal compreensão o ajudou a “não confiar em si mesmo, e sim no Deus que ressuscita os mortos.” O sofrimento tem o poder de quebrar nossa arrogância e altivez, frustrar nossa tentativa de controle e domínio das coisas, de esfacelar a autossuficiência. Diante da tribulação aprendemos dependência e humildade. A dor nos torna humildes e a enfermidade nos humaniza.  Temos em nosso corpo uma sentença de morte, não dá pra confiarmos na estabilidade de nossa saúde, nos recursos médicos, nas condições sociais que temos. Isto não garante nossa estabilidade. Seu seguro de vida não segura sua vida... Ele na verdade é um seguro de morte.

 

Conclusão

 

Com o envelhecimento vemos a morte cada vez mais próxima de nós, e a morte de pessoas queridas trazem dor.

-Perdi o Black, um querido colega de ministério, que já estava no ministério comigo por 14 anos como pastor auxiliar, fazia parte da minha equipe pastoral. Ele morreu um ano depois de ser diagnosticado com um câncer de pulmão.

-Perdi a esposa de outro pastor da minha equipe 15 dias depois da morte deste colega que mencionei. Gente de dentro de nossa casa, companheira inestimável para muitos dentro de nossa comunidade.

-Recentemente um dos grandes amigos meus foi diagnosticado com uma encefalite auto imune. Começou com um grande de ansiedade e hoje encontra-se num estágio quase catatônico: extrema passividade, mutismo, negativismo, rigidez corporal, alienação, incapaz de dar uma risada.

-Outro amigo meu, de Salvador, com a mesma idade que tenho, foi diagnosticado dias atrás com um câncer no pâncreas. Família assustada, amigos tentando entender toda situação. O que vai acontecer?

-Meu pai teve recentemente um AVC isquêmico, e com sua idade isto trouxe dificuldade maior dos movimentos e praticamente não consegue mais andar.

 

Todas estas coisas doem...

 

Mas é bom colocar a dor na sua perspectiva correta. Paulo inicia este texto dizendo: “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai de misericórdias e Deus de toda consolação!” (2 Co 1.3)

 

Ele aponta para o Deus de toda consolação. O nosso “parakaleo”, que “está ao lado”. Neste texto aprendemos que:

 

A.    Sua presença não elimina os problemas, mas nos conforta ao atravessamos as aflições.

 

B.     Ele não permite que nossa dor maior seja maior do que o fortalecimento que ele nos dá. Por isto sobrevivemos.

 

C.    Ele ensina que a nossa dor que enfrentamos se transforma num grande instrumento de Deus para ministrar aos outros. O sofrimento das pessoas que amam a Deus nos inspira a uma fé mais madura e sólida.

 

D.    No meio da dor, resgatamos a clara compreensão de nossa fragilidade e vulnerabilidade.  

 

Portanto, não podemos falar de pressão, aflição e dor sem lembrarmos do nosso Salvador Jesus. Sua dor nos inspira e consola, fortalece e encoraja, mas acima de tudo, é redentora. Por meio da sua morte, o Cordeiro de Deus derramou sua vida para resgate de todos aqueles que nele vierem a crer em seu nome. Sua morte nos trouxe perdão, libertação, nos livrou da nossa condenação.

 

A melhor forma de entender a dor é olhando para a cruz. Nela o nosso amigo Jesus teve a opção de não morrer, mas decidiu enfrentá-la por nos amar. A dor traz sofrimento, tudo isto dói, mas não estamos sós nesta trajetória.