sexta-feira, 16 de março de 2018

Gn 4.10 Deus ouve... não apenas orações


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Introdução
Hoje a homilia não será expositiva, mas temática.
Em geral, prefiro a exposição bíblica que o estudo de temas, embora não haja nada errado com estudos desta natureza. Acho, entretanto, que a exposição nos ajuda a entender e aprofundar em um texto, e desta forma a comunidade aprende a estudar a Bíblia. Estudos temáticos podem se tornar associações gerais que permitem tendências que nem sempre são bíblicas e por isto não refletem o propósito de Deus. Texto fora do contexto pode se tornar pretexto.
É conhecida a história de um homem que resolveu pregar um texto aleatório da Bíblia e quando a abriu, leu o seguinte versículo: “Foi Judas e enforcou-se”. Assustado, abriu o texto seguinte que dizia: “Vai tu e faze o mesmo!”, ainda mais apavorado, leu outro texto que complicou ainda mais sua situação: “O que tem que fazer, faça-o logo”. Estudos temáticos podem se tornar formas manipulativas da Bíblia, por outro lado, as correlações são necessárias, porque o melhor intérprete da Bíblia é ela mesma, e textos obscuros podem ser clarificados quando lidos à luz de textos claros.
Feitas estas considerações, vamos adiante.
O ponto que quero frisar hoje é que, Deus não ouve apenas orações. Existem outras coisas que chegam ao seu trono celestial de onde tudo é julgado (Ap 4.1) com a mesma veemência de sinceras e profundas orações. O Deus que tudo vê sabe o que os homens fazem às escondidas, mas diante de dele não se esconde nada, de bom ou de ruim. Deus vê, ele ouve.
Tira a Rebeca do castigo!
Moisés é colega de ministério em Goiânia, e um dia me contou a surpreendente história com sua filha de apenas 3 anos. Ela havia desobedecido, resmungado e como bom pai, ele a disciplinou e a colocou de castigo. Ela deveria ficar assentada na cama de seu quarto até que se comportasse e mostrasse nova atitude. Ela ficou ali, mas logo em seguida a impaciência começou a tomar conta. Enquanto seu pai estava na sala de TV, ela choramingando perguntou ao pai:
-“Quando o Senhor ora, Deus fala com o Senhor?”
- “fala sim”, foi sua resposta.
- “E o Senhor ouve o que Deus fala?”
- Ele, sem querer dar muita conversa respondeu: “-Sim!”
Ela então raspou a garganta e disse tentando imitar uma voz grave e masculina:
- “Moisés, tira a Rebeca do castigo!”
Deus ouve as orações
Deus ouve as orações. Não tenha dúvidas disto.
A confiança nesta verdade muda radicalmente a nossa história, nosso estilo de vida, quem somos e para onde estamos indo. Assistindo a um episódio de House of cards, há um diálogo entre um homem alcoólatra e ateu, afirmando que não cria em nada: nem em forças superiores, Deus, demônios ou entidades, e o outro replicou: “Eu não estou dizendo que você deveria crer em Deus, e sim que você não deveria descartar possibilidades”.
Orar é uma grande fonte de inspiração e benção, e alguns chamam a oração de “A terceira fonte do saber”, não aprendemos apenas pelo intelecto e intuição, mas também pela dimensão mística e sobrenatural. A oração abre janelas para uma dimensão transcendente da vida.
Mas o Deus das Escritura Sagradas não ouve apenas orações.
Deus ouve gemidos, dores, sussurros, angústias, opressão, maldade, e é sobre estas coisas que Deus afirma ouvir e ver na Bíblia, que estamos falando deste tema: Deus ouve, não apenas, orações.
“A voz do sangue de teu irmão, clama da terra a mim”
A primeira vez que vemos um relato sobre este assunto surge em Gn 4.10. Logo após o assassinato de Abel, Caim tenta se distanciar da “cena do crime”, e tenta transparecer que as coisas estão dentro da normalidade. Deus se aproxima dele indagando: “Onde está Abel, teu irmão? E ele respondeu: Não sei; acaso sou eu tutor de meu irmão?” (Gn 4.9).
Deus afirma que o sangue de Abel clamava.
A violência humana, conspira contra a santidade da vida, contra a vida e contra o Deus que dá a vida. Por isto eliminar alguém através de ódio ou vingança é algo tão pesado, mesmo para pessoas que “se acostumaram a matar”.
Quando Adolf Eichmann formulou “a solução final” enviando milhares de judeus à câmara da morte, ele o fez porque alegava que era muito dura a rotina diária daqueles que eram obrigados a atirar, de sangue frio, na cabeça das pessoas que precisavam ser exerminadas. A câmara de gás, além de mais barata e efetiva, não obrigava aqueles insensíveis soldados a continuarem exterminando. Eles, na verdade, não estavam mais suportando a tarefa de execução, ainda que justificada pela ideologia e pela deontologia.
“A terra clama” diante da violência.
Nações violentas sentem o peso do sangue derramado. No Brasil em 2016 foram assassinadas 64 mil pessoas, e em todo o mundo, 540 mil pessoas. Isto equivale a 11% de todo mundo. Se Alagoas fosse um pais, seria o país mais violento do mundo. O sangue de inocentes, vítimas, execuções sejam pelos motivos que forem, chegam em forma de clamor diante do Deus santo. Isto traz peso para a sociedade. O homicídio agride a santidade de Deus. Fere o propósito de Deus ao criar a humanidade.
“Descerei e verei, se de fato, o que tem praticado corresponde a esse clamor que é vindo até mim”
Aqui nos deparamos com a segunda situação. Trata-se da maldade corporativa de uma nação. Deus vê a forma injusta que uma nação e seus lideres tratam o povo, a injustiça social clama aos céus. Deus ouve a gravidade do pecado de um povo.
Pecado não tem apenas uma dimensão individual e pessoal, mas pode ter natureza sistêmica e coletiva. A maldade de Sodoma e Gomorra, cidades cujos habitantes eram “maus e grandes pecadores contra o Senhor” (Gn 13.13) chegaram ao trono do santo juiz. Deus viu o mal que aquela nação praticava e a julgou severamente e por isto vem, pessoalmente, observar “se de fato, o que tem praticado corresponde a esse clamor que é vindo até mim” (Gn 18.21).
O mesmo se deu com Nínive. “Dispõe-te, vai a grande cidade de Nínive e clama contra ela, porque a sua malicia subiu até mim” (Jn 1.2).  A violência de Nínive, cidade sanguinária, cheia de mentiras e de roubo, que gerava massa de cadáveres e mortos sem fim e que tropeçava sobre os mortos chegou ao trono santo de Deus (Naum 3.1-4) e foi julgada por Deus:  Não há remédio para a tua ferida, a tua chaga é incurável” (Naum 3.19).
Nações violentas sofrem por séculos o efeito de sua violência, em forma de culpa corporativa e desestrutura psicológica social. Nações corruptas e desumanas são julgadas por Deus. Estas coisas não passam desapercebidas pelo Deus santo. Ele ouve o clamor e a dor de uma sociedade massacrada, marcada pela injustiça e opressão. Deus não é alheio!

A maldade de uma nação, tem o poder de persegui-la por anos a fio, às vezes por séculos
Um estudo sobre as primeiras posições na lista dos países considerados pela revista Forbes (2016) como os “mais felizes do mundo”, bem como os seus índices de suicídio revela que, nos 10 países, no ano do estudo, eram, por ordem de primeiro a décimo, a Noruega, a Dinamarca, a Finlândia, a Austrália, a Nova Zelândia, a Suécia, o Canadá, a Suíça, os Países Baixos e os Estados Unidos. Por sua vez, esta lista se baseava no chamado “Índice de Prosperidade”, elaborado pelo Instituto Legatum, de Londres, que classifica 110 países.As conclusões do estudo indicaram que os países mais destacados na “lista da prosperidade” eram, ao mesmo tempo, os que apresentavam os índices mais altos de suicídio.
https://pt.aleteia.org/2016/03/07/o-grande-paradoxo-indice-de-suicidios-e-maior-nos-paises-considerados-mais-felizes/
“Certamente vi o clamor do meu povo, que está no Egito, e ouvi o seu clamor por causa de seus exatores (carrascos): conheço-lhe o sofrimento”
Este é o terceiro aspecto que o Deus de toda glória ouve, além das orações. Trata-se da opressão social, da injustiça, lideranças opressivas, governos corruptos. Deus vê e intervém. Este foi o motivo de Deus enviar Moisés para libertar seu povo. “Certamente vi o clamor do meu povo, que está no Egito, e ouvi o seu clamor por causa de seus exatores (carrascos): conheço-lhe o sofrimento” (Ex 3.6-9). O sofrimento daquele povo chegava aos céus.
Deus vê o sofrimento. Deus ouve o clamor do oprimido e daquele que sofre.
A maldade, a violência, agride os céus. O mal afronta a Deus.
Quando Agar foi expulsa de casa, com seu filho Ismael ainda pequeno, Deus os encontra no deserto e o texto não diz que Deus ouviu a oração de Abraão, que poderia ter intercedido a favor de seu filho neste momento tão estranho, cruel e desumano, nem mesmo de Agar, que estava definhando e morrendo de sede no deserto, mas Deus envia seu anjo para dizer que ouviu a voz do menino. “Não temas, porque Deus ouviu a voz do menino, daí onde está” (Gn 21.17).
Este menino fala pelas crianças violentadas, estupradas, banidas, órfãs da guerra, da irresponsabilidade de milhões de pais que geram filhos e os abandonam. Este texto é figura de tantas crianças que não tem para onde ir, que se perdem no deserto da vida, no ostracismo, abandono e crueldade.

Este texto fala por Malala Yousafnai, que quando criança ainda recebeu um tiro na face por defender o direito das meninas do sexo feminino irem para a escola no Paquistão, que estava subordinado ao duro regime dos Talibãs. Malala sobreviveu e recebeu o prêmio Nobel da Paz em 2014 (dividido com outra pessoa).
Este texto fala pela criança Síria, que foi encontrada morta na praia depois da tentativa desesperada de seus pais em fugir da guerra do seu país.
Este texto fala pela garota vietnamita, eternizada na chocante foto em que aparece nua, sozinha e desamparada, fugindo da guerra.
Este texto fala pelo garoto carioca, que viu seu pai sendo assassinado na semana passada (Março 2018), na sua frente e que sai do carro onde seu pai estava morto, sem direção, correndo aflito em direção ao policial que lhe dê a mão e o protege. 
Este texto fala pelas milhares de crianças colocadas nas câmaras de gás.
Este texto fala pelos milhões de garotos e garotas do Benin, Biafra, e pobres países da África Central, que são entregues à morte pela pobreza, guerra e exploração.
Deus vê o grito de milhões de crianças desamparadas e famintas ao redor do mundo.
“Eis que o salário dos trabalhadores que por vós foi retido com fraude, está clamando, e seu clamor subiu ao Senhor dos Exércitos”
Este é o quarto elemento que Deus ouve... além de nossas orações. Deus vê a forma como os trabalhadores são tratados por instituições gananciosas e inescrupulosas, que querem ter lucro a despeito e às custas daqueles que são contratados.
Isto é uma exortação forte aos cristãos que possuem recursos. Tratem com bondade e justiça os seus funcionários! Deixem as ameaças! Deus é o “Deus dos órfãos e das viúvas”, das pessoas oprimidas em sistemas injustos. Deus é o Deus dos estrangeiros, pessoas sem terra, sem raízes, arrancadas de suas origens por causa da escassez econômica, perseguição politica ou religiosa.
Todos sabemos que funcionário só é bom se é produtivo. Por isto os contratamos. Entretanto, devemos ser liberais ao ponto de considerar que eles também precisam ganhar, recompense-os pelo seu esforço e por gerarem lucros. Dê salário compatível, “não amordaces o boi que debulha”, como prescreve a Lei Judaica.
“Os que tinham sido por mortos por causa do testemunho que sustentavam, clamavam em grande voz dizendo: Até quando, ó Soberano Senhor, santo e verdadeiro, não julgas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra”
Devo confessar que hesitei em tratar deste quinto aspecto, por se tratar de um texto enigmático e simbólico, do livro de Apocalipse. Mas o que este texto está afirmando, é que além das orações que os habitantes da terra fazem, existe um grupo de mártires, que já se encontra nos céus, debaixo do altar do grande Deus, que foram mortos por causa do testemunho da palavra, por serem fieis a Jesus, e que clamam diante do Deus soberano (Ap 5.9).
Jacques Ellul defende a ideia de que as orações dos santos, é a quinta força que move a história da humanidade, porque ela é descrita como o quinto selo, logo depois da aparição dos quatro cavalos, que são as forças que impulsionam e mudam o curso da história.
A verdade é, que o sangue dos mártires tem profundo impacto na história da humanidade. Grandes transformações politicas e sociais aconteceram depois de trágicas situações de massacres contra o povo de Deus. Martírio é como um holocausto de aroma suave a Deus. Não sem razão Jesus afirmou que daria poder aos seus discípulos para serem suas testemunhas, e a palavra grega que surge em Atos 1.8 literalmente refere-se a “mártires”.
O clamor dos que foram mortos por causa do testemunho, encontra-se constantemente diante de Deus. E o que eles pedem? Que Deus julgue o sangue dos que habitam a terra.
Conclusão
Não poderia deixar de falar sobre o efeito da cruz diante do Pai.
Não são apenas as orações que chegam aos céus, mas a oferta maravilhosa que seu Filho amado fez de si mesmo ao Pai, para expiar a culpa da humanidade.
O que Deus ouve de seu Filho?
A.     Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. Deus ouve o clamor de seu filho a favor daqueles que o esmagam, que zombam dele, que o desprezam. Na cruz, o Filho intervém a nosso favor. Ele clama ao Pai que nos perdoe. Ele nos defende judicialmente diante do Pai.
B.     Tudo está pago!” Esta é outra profunda afirmação que o Filho faz ao Pai, e que chega a Deus como uma declaração de que toda a dívida dos nossos pecados foi perdoada, ele rasgou a duplicata que nos fazia devedor, entrando ele mesmo em nosso lugar, realizando um sacrifício perfeito. Deus Pai aceita a oferenda do Filho. “tudo está pago!”.
Os céus ouvem o que o Filho realizou e o que ele pediu e afirmou!
Não são apenas orações que chegam aos céus... diante de Deus, o próprio Filho assume o nosso lugar, como sacrifício pleno e perfeito.

quinta-feira, 15 de março de 2018

Atos 4.23-31 O que você pede em suas orações?




Introdução

Cada vez mais tenho me impressionado com o conteúdo das orações da Bíblia e como os crentes primitivos oravam de forma diferente de nossas modernas orações individuais ou coletivas. As orações da igreja neo-testamentária não se assemelham com as nossas orações que fazemos nem com as orações que ouvimos em nossas igrejas.

A.   O conteúdo da oração moderna é centrada no Eu. “Senhor, eu quero!”, “Senhor eu preciso”,  e nos casos extremos: “Senhor eu decreto!”. Não que nas orações não possamos clamar por necessidades específicas, mas o problema é que as orações estão muito voltadas para o Eu. Deus se transforma em alguém à minha disposição para atender às minhas necessidades.

B.    As orações modernos são muito superficiais. Oramos pouco, e oramos mal. Temas profundos como a dor da cidade, problemas sociais, a depravação humana, não se constituem no objeto de nossa oração. Não oramos pelos pecadores para que se convertam, não oramos pelo avanço da obra missionária. Os temas de nossas orações são ensimesmados e superficiais, em busca de conforto e de soluções imediatas para os problemas que enfrentamos.

C.    Terceiro, nossas orações não se identificam com as orações bíblicas: Leia oração de Paulo em Efésios 1.15-23 e Ef 3.14-21. Você já orou dessa forma? Compare suas orações, se é que você tem orado sistematicamente, com as orações que lemos nestes textos. Como são diferentes das nossas.

D.   Oramos muito por coisas. Queremos, pedimos, “reivindicamos e decretamos”. “Como pai, o que mais gostaria de ouvir dos meus filhos não é a lista de itens que precisam – muitos deles legítimos, outros nem tanto, e, quem sabe, a maioria absolutamente supérflua – mas de estar com eles, poder amá-los e ser amado, gozar de uma amizade intensa, íntima e pessoal”(Ricardo Barbosa).


Hoje queremos analisar a oração dos discípulos, registrada em At 4.23-31.
Os discípulos estavam sob enorme pressão politica e religiosa. Ameaçados de morte pelos mesmos líderes que dias atrás colocaram Jesus na cruz. Suas ameaças eram reais e graves. Qual seria nossa oração nesta hora? Certamente pediríamos livramento, pediríamos para que as ameaças acabassem, mas surpreendentemente eles não pediram nada daquilo que seria o centro de nossas orações atuais.

Quais foram os temas de suas orações?
O que eles pediram a Deus?
Qual a natureza e conteúdo de suas orações?
A análise deste texto vai nos revelar onde estava o coração dos discípulos e pelo que oravam?

Primeiramente observamos que a oração dos discípulos estava centrada na soberania de Deus. Esta foi a primeira declaração que fizeram: “Tu, soberano Senhor, que fizeste o céu, a terra, o mar e tudo o que neles há” (At 4.24).
O que oramos vai depender, antes de mais nada, da compreensão e percepção daquele a quem dirigimos nossas orações.
Precisamos colocar o centro de nossas orações no Deus que governa todas as coisas, dirige a história, ouve as orações de seu povo, e vê todas as coisas. Não precisamos dizer a Deus o que está acontecendo, porque ele é soberano, não precisamos dar o enredo e fazer a narrativa, ele a conhece.
Ao orar, é necessário reconhecer que o destino humano é decidido, não pela "vontade do homem," e, sim, pela vontade de Deus. 
“Quando Jesus afirma que o nosso Pai sabe o que necessitamos, isto muda radicalmente todo o conceito utilitário que temos da oração. A pauta das nossas orações não somos mais nós e nossas necessidades, mas Deus e nossa comunhão com Ele. Oramos, não para reivindicar nossas necessidades, mas para demonstrar amor e afeto por nosso Pai” (Ricardo Barbosa).
Como bem afirmou R.C. Sproul: “Nada escapa da atenção de Deus; nada ultrapassa os limites do Seu poder. Deus é autoridade em todas as coisas. Se eu pensasse, mesmo que por um momento, que uma única molécula estava solta no universo, fora do controle e domínio do Deus todo-poderoso, eu não dormiria esta noite. Minha confiança no futuro repousa na minha confiança no Deus que controla a história. Mas como é que Deus exerce esse controle e manifesta essa autoridade? Como é que Deus faz acontecer as coisas que Ele soberanamente decreta?”
Agostinho reitera: “nada acontece neste universo fora da vontade de Deus” e que, em certo sentido, Deus ordena tudo o que acontece. Nada escapa da atenção de Deus.  
A soberania de Deus se expressa na realização do seu plano para a história, mesmo imperceptível (Is 46.10-11). A maior expressão desta soberania foi o envio do Seu Filho ao mundo, na plenitude dos tempos (Gl 4.4), isto é, no tempo em que achou mais apropriado. Deus na grande história e na nossa história individual faz tudo como Ele quer (Is 46.11),. "O nosso Deus está nos céus; ele faz tudo o que lhe apraz" (Sl 115.3).
A. W. Pink argumenta: “Deus preordena tudo que acontece... Deus inicia todas as coisas, controla todas as coisas...” Edwin H. Palmer concorda: “Deus está por trás de tudo. Ele decide e faz todas as coisas acontecerem... Ele preordenou tudo ‘segundo o conselho de Sua vontade’ (Ef 1.11).
Portanto, oração é um ato de humildade, um ato de fraqueza. Quando oramos, admitimos a Deus que precisamos desesperadamente de ajuda, que não temos o controle das coisas. Que não somos autossuficientes. A oração reconhece que Deus é soberano e controla todas as coisas. Nos curvamos perante sua soberania. Reconhecemos que Deus governa com sua mão poderosa e que não podemos controlar qualquer coisa em nós mesmos. Não podemos mudar qualquer coisa e precisamos esperar que Deus mude.
Ao orarmos desta forma, isto muda radicalmente a essência de nossos pedidos. O que pedimos, como pedimos, para que pedimos e a quem pedimos?

Em segundo lugar, a oração dos discípulos estava centrada na Palavra de Deus. Eles liam a Bíblia e oravam de acordo com a Bíblia. “...que disseste por intermédio do Espírito Santo, por boca de Davi, nosso pai, teu servo: Por que se enfureceram os gentios, e os povos imaginaram coisas vãs? Levantaram-se os reis da terra, e as autoridades ajuntaram-se à uma contra o Senhor e contra o seu Ungido” (At 4.25-26).
Com a Bíblia aberta eles interpretaram os eventos que os atingiam. Aquilo que lhes aconteciam fazia parte de um plano soberano, e por isto não deveriam ficar assustados ou surpresos.
Esta é a única forma de nos livrar de equívocos teológicos, de orações vazias e até mesmo heréticas. A melhor forma de orar é, na medida em que lemos a Palavra de Deus, oremos as verdades de Deus, ou para usar uma paráfrase de Michel Quoist, “precisamos orar os salmos”.
Na leitura da Bíblia devemos considerar:

i.               Há algum princípio que aprendi na leitura e preciso assimilar? Ore para que Deus lhe dê humildade e coragem para mudar.
ii.              Há alguma promessa das Escrituras da qual preciso me assenhorear? Suplique a Deus para que seu coração assimile esta verdade.
iii.            Há algum pecado que precisa ser confessado? Você foi confrontado com a Palavra de Deus? Ore por isto, peça sua graça, seu perdão, confesse, arrependa-se.

Orar baseado nas promessas da Palavra mudam a perspectiva na oração.
Os discípulos oram com a Bíblia aberta.

Uma das promessas mais impressionantes das Escrituras encontra-se no livro do Profeta Isaías “Não trabalharão debalde, nem terão filhos para a calamidade, pelo contrário, eles serão a posteridade bendita do Senhor, e estarão para sempre com eles”(Is 65.23). Esta é uma clara promessa de Deus aos pais concernente aos filhos. Muitas vezes ficamos preocupados com a situação espiritual deles – e não deveríamos ficar? O que podemos fazer diante de tudo o que tem acontecido neste mundo caído? Leia com atenção as promessas da Palavra de Deus. “Não trabalharão em vão”. Isto é, o que fazemos hoje pelos filhos, o investimento espiritual, não será vazio. Deus vai abençoar tudo isto. Outra verdade: “Não terão filhos para a calamidade”. Que promessa maravilhosa. Deus não nos tem dado filhos para povoar o inferno.  Elas são a posteridade bendita de Deus. Ao lermos tantas promessas, não vale a pena orar por elas, baseados naquilo que Deus afirma?
Isto significa orar segundo as Escrituras Sagradas.

Em terceiro lugar, a oração dos apóstolos reconhecia o governo de Deus. O que os reis e lideres pagãos estão fazendo, senão cumprir “tudo o que tua mão e o teu propósito predeterminaram”? (At 2.28). Na verdade, podemos fazer a vontade de Deus de duas formas, completamente antagônicas:

a.     Fazemos a vontade de Deus porque desejamos glorificar o seu nome. Ao obedecermos a sua vontade, ao orarmos para que a obra de Deus se realize na história e ao participar fazendo aquilo que ele espera de nós, estamos fazendo de boa vontade.

b.     Fazemos a vontade de Deus, lutando contra Deus. Não fazemos a vontade de Deus apenas quando o obedecemos, mas também quando o desobedecemos. Isto pode parecer um tanto quanto estranho, mas será que, quando os reis da terra se levantam contra o Senhor e o seu Ungido, em algum momento, Deus perdeu o controle da história? Se isto acontecesse, ele deixaria de ser Deus.

Os apóstolos afirmam que a reação histórica à obra de Deus, fazia parte de um projeto maior de Deus. Ele estava cumprindo seus propósitos através da oposição. Eles estavam fazendo ““tudo o que tua mão e o teu propósito predeterminaram”. Isto já havia sido profetizado.
Aqueles homens ímpios, na sua arrogância e altivez, no seu orgulho e rejeição, estavam cumprindo o propósito de Deus, ao perseguir a igreja, tanto quanto Faraó, ao endurecer o coração e não deixar o povo de Deus sair do Egito. Fazia parte do projeto de Deus que Faraó endurecesse o coração. “Eu, porém, endurecerei o coração de Faraó e multiplicarei na terra do Egito os meus sinais e as minhas maravilhas” (Ex 7.3). A dureza daquele homem não escapava à soberania de Deus.
Na oração precisamos aprender que Deus não perdeu o controle. Seja nos dando o que pedimos ou negando o que lhe pedimos. Ele é Deus! Sua glória não deixou de brilhar. Ele é soberano, seus propósitos predeterminados se cumprirão, porque “os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis” (Rm 11.29).

Em quarto lugar, a oração dos apóstolos não estava centrada no livramento, mas no propósito de Deus. Em nenhum momento eles oram por livramento. Não é surpreendente?
O que faríamos se estivéssemos diante de ameaças e perseguição? Não convocaríamos um grupo de pessoas para lutarmos em oração para que Deus nos livrasse da oposição e até mesmo do martírio? Pois os apóstolos não oraram por isto em nenhum momento.
Não oram por livramento e nem oram para Deus mudar a situação.
Então, qual foi o motivo de sua oração?
Eles oram por ousadia.
Agora, Senhor, olha para as suas ameaças e concede aos teus servos que anunciem com toda intrepidez a tua palavra, enquanto estendes a mão para fazer curas e prodígios por intermédio do nome do teu santo Servo Jesus” (At 2.29-30).
Eles pedem coragem para enfrentarem a situação, para não recuarem, para não terem medo.
Eles oram também para que o Evangelho prevaleça.
Eles não estão preocupados com seus problemas pessoais, mas com a glória e avanço da mensagem de Jesus Cristo. O que eles pedem é força para enfrentar as ameaças e poder para que o nome de Cristo se torne conhecido.

Conclusão
Orações assim atingem os céus.
Orações assim confrontam as trevas.
Orações assim mexem com as estruturas sísmicas da terra. “Tendo eles orado, tremeu o lugar onde estava reunidos”. O chão tremeu. Muitos movimentos pentecostais gostam de falar que o chão vai tremer, mas o chão treme quando a oração não é ensimesmada, mas o seu conteúdo é a glória de Deus.
Orações assim nos enchem do Espírito Santo. “E todos ficaram cheios do Espírito Santo”. Só se enche do Espírito, quem ora de acordo com o propósito do Espírito.
Orações assim fazem o evangelho avançar. “com intrepidez, anunciavam a palavra de Deus”. Igrejas que buscam conforto e querem evitar o confronto, cujos membros estão interessados em bem estar e ausência de conflito não será uma igreja poderosa no anúncio das eternas mensagens de Cristo.

Qual foi o conteúdo da oração da igreja?
Pelo que pediram? Intrepidez.

O que tiveram?
Intrepidez.