Introdução
A Igreja de Cristo precisa crescer. Sua obra precisa avançar. O livro de Atos registra várias vezes o crescimento da igreja de forma celebrativa. Muitas pessoas têm medo do crescimento da igreja, isto gera numerofobia. Muitos acham que a única coisa importante é o crescimento: isto gera numerolatria.
O livro de Atos, escrito por Lucas, é estruturado através de "relatórios de progresso". Lucas não queria apenas contar histórias isoladas, mas mostrar que nada — nem perseguição, nem crises internas — podia parar a expansão do Evangelho. A igreja cresceu na Judeia, Samaria e até os confins da terra, como Jesus ordenou no Grande Mandamento.
Em Jerusalém, na fase inicial, o crescimento foi numérico e meteórico.
- Atos 1.15: O grupo inicial de cerca de 120 pessoas.
- Atos 2.41: No Pentecoste, 3.000 pessoas foram batizadas.
- Atos 2.47: "E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que iam sendo salvos".
- Atos 4.4: Mesmo sob ameaça, o número de homens chegou a quase 5.000.
- Atos 5.14: "E a multidão dos que criam no Senhor, tanto homens como mulheres, crescia cada vez mais".
- Atos 6.7: Um marco importante: "Crescia a palavra de Deus, e em Jerusalém se multiplicava muito o número dos discípulos; e grande parte dos sacerdotes obedecia à fé".
O Livro de Atos ainda registra a expansão regional, alcançando Judeia e Samaria. Com a perseguição, a igreja se espalha, mas não diminui.
- Atos 9.31: Um relatório geográfico: "A igreja em toda a Judeia, Galileia e Samaria tinha paz e era edificada; e, caminhando no temor do Senhor e no conforto do Espírito Santo, multiplicava-se".
- Atos 11.21: Em Antioquia: "A mão do Senhor estava com eles; e grande número creu e se converteu ao Senhor".
- Atos 11.24: Sobre o ministério de Barnabé: "E muita gente se uniu ao Senhor".
A igreja cresce e se espalha em vários outros lugares. A autoridade da Palavra prevalecia sobre as culturas locais.
- Atos 12.24: Após a morte de Herodes: "A palavra de Deus crescia e se multiplicava".
- Atos 14.1: Em Icônio: "Creu uma grande multidão, tanto de judeus como de gregos".
- Atos 16.5: "As igrejas eram confirmadas na fé, e cada dia cresciam em número".
E neste texto que lemos: “Assim a palavra do Senhor crescia e prevalecia poderosamente”. (At 19.20) O termo “assim” descreve a forma como a igreja crescia. É muito interessante observar, então, a partir desse texto, como a Palavra de Deus pode crescer, como o evangelho pode crescer, como a igreja pode crescer. Este texto de Atos é fundamental para começarmos essa reflexão.
Erwin McManus compara a igreja como um organismo vivo, e seu crescimento como algo orgânico, como o crescimento de qualquer organismo vivo. Entre as condições para esse crescimento estão:
A. Reprodução espontânea
B. Nutrição
C. Ecossistema equilibrado
D. Adaptação ao meio ambiente
E. Crescimento.
F.
O texto bíblico nos mostra alguns aspectos que fazem a igreja crescer.
1. Ousadia na proclamação – “Durante três meses, Paulo frequentou a sinagoga, onde falava ousadamente, dissertando e persuadindo com respeito ao reino de Deus.” (At 19.8)
Durante três meses, Paulo frequentou a sinagoga, evangelizando, falando ousadamente, dissertando e persuadindo a respeito do Reino de Deus. (At 19.8) É necessário falar do Reino, argumentar e persuadir com ousadia. Se a igreja não falar, e não for ousada, não haverá crescimento. No versículo 9 vemos que muitos se mostravam empedernidos e descrentes, falando mal do Caminho. Havia oposição, mas a igreja não deixou de afirmar intrepidamente a verdade.
“Dissertar”, vem do verbo grego διαλέγομαι (dialegomai). Embora hoje a palavra "dissertar" nos lembre uma aula formal ou uma redação de vestibular, o significado original no contexto de Lucas é muito mais dinâmico e "barulhento" do que imaginamos. Literalmente, significa "falar através de". É a raiz da nossa palavra diálogo. Esse termo descreve um intercâmbio de ideias. Não era um monólogo onde Paulo falava e todos ouviam em silêncio; era uma via de mão dupla.
Paulo usa raciocínio lógico, apresentando evidências das Escrituras. Ele permitia interatividade, perguntas, objeções e debates. ele "dissertava e persuadia". Ele não queria apenas informar, ele queria convencer o intelecto para alcançar o coração. Era uma forma de quebrar resistências intelectuais através da lógica. Paulo sentou-se na "mesa de negociações" das ideias e usou a razão como ferramenta de evangelismo. Ele não deu um sermão pronto; ele construiu um argumento junto com os seus ouvintes.
2. Discipulado sólido e contínuo – “Visto que alguns deles se mostravam empedernidos e descrentes, falando mal do Caminho diante da multidão, Paulo, apartando-se deles, separou os discípulos, passando a discorrer diariamente na escola de Tirano. Durou isto por espaço de dois anos, dando ensejo a que todos os habitantes da Ásia ouvissem a palavra do Senhor, tanto judeus como gregos.” (At 19.9-10)
O segundo aspecto demonstra a seriedade da igreja no cuidado com os novos convertidos: “Paulo, apartando-se deles, separou os discípulos, passando a discorrer diariamente na escola de Tirano. Durou isto por espaço de dois anos.” (At 19.10) Por dois anos, diariamente, Paulo discutia e ensinava as verdades da Palavra de Deus. Treinamento teológico sólido. As pessoas refletiam sobre a Palavra de Deus e a estudavam criteriosamente. Estudiosos afirmam que Paulo estudava a Bíblia das 11 até as 16 hs, e que dois anos de treinamento é equivalente a uma carga horária de um curso de mestrado em nossos dias.
Aqui vemos discipulado profundo e sólido. Paulo ensinava diariamente, formando discípulos, missionários e obreiros. Havia uma fundamentação teológica sólida para aqueles que aceitavam a palavra da salvação. O resultado disto foi o avanço da obra missionária: “Dando ensejo a que todos os habitantes da Ásia ouvissem a palavra do Senhor, tanto judeus como gregos.” Os estudiosos perguntam como a Palavra de Deus pode se espalhar? Aqueles homens que estudavam a Bíblia com Paulo, saiam dali e anunciavam o que ouviam. Houve, desta forma, uma propagação do evangelho.
Dois anos de ensino contínuo foi o tempo gasto para formação de obreiros. Base teológica sólida sustenta expansão.
3. Manifestação sobrenatural. “Deus fazia milagres extraordinários pelas mãos de Paulo.” (At 19.11)
“Deus fazia milagres extraordinários”. Portanto, é Deus é quem faz. Milagres não são resultados da habilidade e carisma de quem quer que seja. Se algo acontece fruto da ação e de qualquer nível de competência humana não é milagre. Milagre é a intervenção sobrenatural de Deus no curso ordinário da vida. É algo “extraordinário”, não cabe na esfera do comum.
O que aconteceu em Éfeso era surpreendente. Em nenhum momento da história do cristianismo se tem notícia de algo tão maravilhoso: “A ponto de levarem aos enfermos lenços e aventais do seu uso pessoal, diante dos quais as enfermidades fugiam das suas vítimas, e os espíritos malignos se retiravam.” (At 19.12) Não era necessária a presença de Paulo, seus lençóis e aventais de uso pessoal eram levados e através de suas roupas, as pessoas eram libertas de suas enfermidades, e os espíritos malignos se retiravam.
O texto continua: “Pelas mãos de Paulo”. Os servos de Deus são instrumentos. Não há poder em nós, mas por meio de nós Deus evidencia a sua glória. Milagres não são o fim, mas consequência. Aonde o evangelho chega, o sobrenatural acontece — inclusive em Éfeso, um ambiente sofisticado. Ainda hoje, nas ruinas de Éfeso, podemos ver a famosa biblioteca de Celso, uma das maiores e mais famosas bibliotecas do mundo antigo. Isto demonstra a sofisticação intelectual da cidade de Éfeso. Esta biblioteca foi fundada cerca de 100 anos depois que Paulo passou por esta cidade, portanto, Paulo não a conheceu. Naquele contexto elitizado, Deus revela seu poder.
4. Confronto com a falsa religiosidade. “E alguns judeus, exorcistas ambulantes, tentaram invocar o nome do Senhor Jesus sobre possessos de espíritos malignos, dizendo: Esconjuro-vos por Jesus, a quem Paulo prega.” (At 19.13)
O quarto aspecto que gera crescimento está relacionado ao desmascaramento daquilo que é falso. Em Atos 19.13–14, os filhos de Ceva, jovens que cresceram num ambiente religioso, judeus, exorcistas ambulantes, tentaram invocar o nome do Senhor Jesus sobre pessoas possuídas por espíritos malignos, dizendo: “Esconjuro-vos por Jesus, a quem Paulo prega”. Eram sete filhos do sumo sacerdote e tentaram imitar Paulo, tratando o sagrado como algo mecânico, mera questão de técnica e reprodução de frases de efeito. O resultado foi catastrófico. Os demônios saltaram sobre estes exorcistas que saíram apavorados e feridos naquele encontro com o diabo. Quando o sagrado é tratado como técnica, e não como relacionamento com Deus, o fracasso é inevitável.
Em Atos 19.15, o espírito maligno disse: “Conheço Jesus (ginōskō) e sei quem é Paulo (epístamai), mas vós quem sois?”
Esta afirmação do diabo se torna relevante quando entendemos a força dos termos na língua original. Aqui há algo interessante no grego, “conheço” Jesus e “sei” quem é Paulo.
A palavra “conheço” no grego é ginôsko. Isto mostra que os demônios tinham conhecimento com Jesus, por interação. Eles realmente sabiam quem era Jesus no mundo espiritual. Há um episódio na Bíblia que revela isto de forma clara, quando Jesus em Cafarnaum, logo no inicio de seu ministério, se encontra com um espírito imundo que reconhece a identidade divina de Jesus antes de ser expulso por ele: “Que temos nós contigo, Jesus Nazareno? Vieste para perder-nos? "Bem sei quem és: o Santo de Deus." (Mc 1.24). No mundo espiritual, Jesus é reconhecido. O diabo “conhece” Jesus por interação.
Quando falam de Paulo o verbo é diferente: “sei quem é Paulo”, (epistamai). Os demônios afirmam que eles tinham informações sobre Paulo. Eles sabem muito bem quem é Jesus, e sabem também quem somos. Os demônios conhecem nosso currículo, nossa biografia, o que fizemos e o que fazemos. Por isso que a vida de santidade tem que ser marcante, porque o diabo não se impressiona com gestos caricaturais de uma espiritualidade mecânica.
O mundo espiritual reconhece autenticidade, daqueles que tem vida na presença de Deus. Santidade não é aparência. “O possesso do espírito maligno saltou sobre eles, subjugando a todos, e, de tal modo prevaleceu contra eles, que, desnudos e feridos, fugiram daquela casa.” (At 19.16)
Este texto nos revela que não se manipula o sagrado. Autoridade espiritual nasce da vida com Deus. O Evangelho desmascara esta superficial e falsa religiosidade.
5. Espiritualidade contagiante. “Chegou este fato ao conhecimento de todos, assim judeus como gregos habitantes de Éfeso; veio temor sobre todos eles, e o nome do Senhor Jesus era engrandecido.” (At 19.17)
No versículo 17 temos outra dinâmica que faz o Evangelho e a igreja de Cristo crescer. O crescimento da igreja acontece quando há uma espiritualidade contagiante. As pessoas ficam sabendo disto e são impactadas por isto.
Preste atenção no que nos diz o versículo 17. “Chegou esse fato ao conhecimento de todos os habitantes de Éfeso”. Ao saberem destes acontecimentos, veio temor sobre todos eles e o nome do Senhor Jesus foi engrandecido. A vida de piedade e os milagres que acontecem geram temor na comunidade. Esse temor não é produzido artificialmente. Trata-se de uma presença misteriosa e profunda de Deus. É obra santa. Algo sensível, profundo, inaudível.
Eu me lembro de minha mãe, uma mulher temente a Deus morando em Conceição do Ipanema, (MG) uma cidade insignificante no interior de Minas. Um dia a vizinha veio desesperada trazendo no colo seu filho convulsionando por causa do tétano e algumas amigas a acompanhando. Naquela cidade não havia hospitais, era uma cidade pequena no interior de Minas. Minha mãe pediu para que todas as amigas ajoelhassem e orassem, enquanto ela faria um unguento bem quente com hortelã e mastruz e aplicaria na criança. Todas elas mulheres começaram a clamar o nome do Senhor Jesus, independentemente da religião que professavam. E aquela criança foi curada miraculosamente. Isso trouxe muito temor, muita gratidão ao coração de todas as pessoas que presenciaram o ato e a beleza de Deus agindo no meio daquele povo.
Quando a comunidade de Cristo está encharcada com uma sensação da presença de Deus as pessoas são tocadas. Me lembro de um jovem que visitou nossa igreja. Ele não era cristão e estava namorando uma garota da igreja, que não tinha muito compromisso com a obra do Senhor. Na primeira vez que ele entrou no templo, foi profundamente impactado pela presença de Deus. Após o culto, sua namorada disse: “vamos?” E ele disse: “eu preciso ficar aqui alguns minutos para digerir tudo isto que ouvi e senti neste culto.” Ela não percebeu nada de sagrado, mas a presença do Espírito Santo estava ali atingindo o coração daquele rapaz que nunca tinha se aproximado do evangelho.
Espiritualidade contagiante surge do temor genuíno. A presença de Deus impacta a comunidade. Não é algo manipulativo, nem de aparência, mas é o poder de Deus em ação.
6. O crescimento da igreja se dá num ambiente de confissão e transparência. “Muitos dos que creram vieram confessando e denunciando publicamente as suas próprias obras.” (At 19.18)
Essa dinâmica é interessante porque era uma confissão pública. Não é confissão privada, que normalmente fazemos diante de Deus. Confissão pública só é possível quando entendemos que não seremos julgados comunitariamente pela auto denuncia que fazemos dos pecados que confessamos. É o tipo de confissão que surge num ambiente de graça.
Tal nível de confissão, também só é possível quando entendemos que o sentido da confissão não é curiosidade mórbida. Às vezes nós admiramos mais com a vida passada de pecado daquele que deu o testemunho do que com a glória de Deus que restaurou o pecador. O foco essencial não é o que fizemos no passado, mas o que Deus fez no presente com sua graça e perdão.
Outro aspecto interessante deste texto é que “vieram confessando e denunciando publicamente as suas próprias obras.” É confissão dos pecados pessoais, não é confissão dos pecados dos outros. Às vezes nós queremos confessar o pecado dos outros. Quando o Filho Pródigo volta para casa de seu pai, ele “cai em si”. Muitas vezes caímos nos outros.
Scott Peck diz que uma das características de pessoas da mentira, é a incapacidade de confissão. Pessoas do mal não conseguem admitir erro, quando muito fazem uma espécie de confissão premiada ou delação premiada. Só confessa porque foi pego e para atenuar a pena, ou, o fazem tentando se justificar.
Os crentes de Éfeso confessaram publicamente seus pecados. Eles não tinham medo do julgamento da comunidade, porque eles entenderam de forma radical o perdão de seus pecados realizado por meio de Cristo. Nesse ambiente a igreja cresce. Não é um ambiente de mentira e hipocrisia, mas de transparência e sinceridade.
7. Ruptura radical. O crescimento da igreja se dá quando o discipulado se torna firme e radical, eventualmente com perdas financeiras. “Também muitos dos que tinham praticado artes mágicas, reunindo os seus livros, os queimaram diante de todos. Calculados os seus preços, achou-se que contavam a 50 mil denários. E assim a palavra do Senhor crescia e prevalecia poderosamente.” (At 19.19-20)
Os novos convertidos queimaram seus livros de magia. Eles não deram os seus livros e artefatos pagãos para os outros. Eles não venderam para reparar os prejuízos dos seus equivocados investimentos espirituais anteriormente feitos. Não venderam, não repassaram, mas queimaram. Houve perda financeira, mas ganho espiritual. Como diz Jim Elliot: “Não é tolo quem perde o que não pode reter para ganhar o que não pode perder”.
Um denário, corresponde a um dia de trabalho normal (Mt 20.2). compare com a realidade de um trabalho braçal no Brasil: Um ajudante de pedreiro, diarista ou trabalhador rural recebe por um dia de serviço entre 150,00 a 200,00 reais. Fazendo essa conta com o valor de R$ 200,00 por denário, chegamos a um número impressionante: 50.000 denários x 200 = 10.000.00. Estamos falando de R$ 10 milhões. Trata-se de muito dinheiro.
Os novos convertidos são radicais. Dinheiro deixa de ser importante. A vida e a comunhão com Deus eram mais preciosas.
Conclusão
Por que o crescimento importa?
Se pensarmos apenas em números ou em projeções estatísticas, certamente nossa leitura se torna meramente empresarial, e certamente perdemos o foco daquilo que Deus deseja para a igreja. O mais importante não é a estatística, mas o crescimento da Palavra, a salvação de vidas, e a glória de Deus. O foco não é crescimento numérico, mas crescimento da Palavra. Por isto, em todo o livro de Atos vemos a igreja celebrando o crescimento. Em Atos 19.20 vemos a afirmação de que “a palavra de Deus crescia e prevalecia poderosamente.” Prevalece contra o engano, contra as trevas. O nome de Jesus precisa ser proclamado. Somos chamados para anunciar as virtudes daquele que nos chamou das trevas para sua maravilhosa luz. (1 Pe 2.9)
Crescimento importa, porque Deus deseja que sua obra avance, que vidas conheçam a salvação, sejam libertas da superstição e vejam a glória de Deus em seus lares e nas novas gerações. Crescimento importa quando glorifica a Deus, desmascara as trevas, promove o reino de Deus.
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