Introdução
Alguns anos atrás, li o texto Crianças aprendem o que vêem que considerei lindo.
Crianças aprendem o que vivenciam. Se uma criança vive com crítica, aprenderá a condenar.
Se uma criança vive com hostilidade,
aprenderá a lutar. Se uma criança vive com vergonha, aprenderá a culpa.
Se uma criança vive com tolerância, aprenderá a ser paciente. Se uma criança
vive sendo ridicularizada, aprenderá a ser tímida.
Se uma criança vive sendo encorajada, aprenderá a ser confiante. Se uma criança
vive com honestidade, aprenderá justiça.
Se uma criança vive com segurança, aprenderá a ter fé. Se uma criança vive com
aprovação, aprenderá a gostar de si mesma.
Se uma criança vive com aceitação, aprenderá amizade. E aprenderá a achar amor
no mundo.
Este texto de Marcos nos fala do relacionamento de Jesus com as crianças. Muitos poucos sermões sobre o ministério de Jesus e seu relacionamento com as crianças tem sido pregados. Como estamos expondo o livro de Marcos, não podemos fugir nem deixar de aprender ricas lições sobre o cuidado que devemos ter com as crianças.
Em Lc 15, Jesus conta a história da dracma perdida. Por que aquela mulher perdeu sua preciosa moeda dentro de casa? Esta parábola é uma referência à nossa vida. O texto demonstra como nós, de forma desatenta, podemos perder coisas de grande valor, dentro de casa, como aconteceu àquela mulher. Talvez por descuido, desatenção ou por considerar insignificante... isto pode acontecer com coisas preciosas como nossos filhos. Como é possível perdê-los dentro de casa? Na hora de passar a tocha da fé, na nossa incapacidade de transmitir o evangelho da graça. Os dias são maus: cansaço, hora intensa de trabalho, deixamos de orar com os filhos e terceirizamos sua salvação. Filhos tem se perdido dentro das casas.
O texto parece demonstrar que Jesus deseja tocar as crianças, mas os discípulos as hostilizam. Não consideram a importância dos filhos se aproximarem de Cristo. Esta muitas vezes pode ser nossa atitude, e assim perdemos nossos filhos dentro da igreja, como a dracma que se perdeu dentro de casa.
A Bíblia afirma: “Ensina a criança o caminho em que deve andar, e ainda quando for velho, não se desviará dele”. (Pv 22.6) O texto não diz: “ensina o jovem”, mas “ensina a criança”. Contudo, podemos tratar com descaso as crianças.
Tanto no âmbito doméstico quanto eclesiais, corremos o mesmo risco de descaso e menosprezo. Alguns departamentos infantis são horríveis, verdadeiros depósitos de móveis velhos, conteúdos mal preparados, falta de investimento. Não criamos ambiente para acolher nossos filhos, muitas vezes usamos os piores ambientes e estruturas para os colocarmos ali. Muitas vezes a programação da igreja não contempla este espaço para os filhos. Alguém afirmou que “Uma criança pode se desviar mais cedo do que você imagina, cair mais rápido que você pensa, e sofrer mais que você considera”.
Os discípulos “repreendiam as crianças”. (Mc 10.13). “Repreender” não soa agressivo? Não é um termo forte? Muitas vezes tenho a impressão de que não estamos preocupados em termos uma igreja para nossos filhos, mas queremos uma igreja para nós. Que satisfaça a nossa cultura, nosso gosto musical, nosso estilo, nossa formação, a forma como gostamos dos cultos, mas não consideramos se nossos filhos estão participando da comunidade. E se começássemos a pensar numa igreja que tivesse a linguagem para nossos filhos e não para nós? Honestamente, entre uma igreja que atenda as suas necessidades e uma igreja que atenda a necessidade de seus filhos e netos, o que você preferiria? Tome cuidado para não dar uma resposta “politicamente correta”. Será que você realmente está preocupado com seus filhos e netos?
Quantos filhos estão ficando, quantos estão saindo? Na igreja que freqüentei durante a minha mocidade, posso afirmar sem medo, que apenas 25% dos filhos permaneceram na fé. Alguns não só se distanciariam, mas são cínicos e incrédulos quanto às verdades espirituais. Certo presbítero de uma igreja no litoral Sul de São Paulo afirmou que se tivessem apenas mantido os filhos, e não tivessem evangelizado ninguém mais, ela seria, 3 vezes maior do que é hoje.
Pense nos recursos financeiros da igreja: Eles contemplam os filhos?
Que esforço intencional temos feito para acolhê-los bem? Nossa liturgia e estilos de cultos estão considerando suas necessidades?
Vamos continuar usando flanelógrafos enquanto nossos filhos são expostos a todos os recursos virtuais e teorias modernas de pedagogia?
Este texto nos mostra algumas atitudes (movimentos) de Jesus diante do descaso dos discípulos:
- Ele demonstra indignação com a falta de sensibilidade para com as crianças – “Jesus, porém, vendo isto, indignou-se”. (Mc 10.14) Indignação é um termo duro. A Bíblia diz que Jesus se “indignou” com os mercadores no templo que estavam vendendo sacrifícios e transformando a casa de Deus em casa de negociatas... qualquer semelhança com nossos dias é mera coincidência; Mostra ainda outra situação na qual ficou indignado, em Mc 3, ao ver a dureza do coração das pessoas no incidente com o homem da mão ressequida. O Evangelista está usando esta mesma palavra para demonstrar como Jesus reagiu ao ver o comportamento de seus discípulos, ao tratar de forma estranha as crianças que dele se aproximavam.
- Jesus ensina os discípulos – “E disse-lhes: Deixai vir a mim os pequeninos, não os embaraceis, porque dos tais é o reino de Deus” (Mc 10.14). Jesus se aproxima das crianças para demonstrar qual deve ser a atitude de seus seguidores. Crianças não são menos importantes. Crianças participam do culto doméstico e espalham a boa semente mais que imaginamos, podem crescer conhecendo a Cristo, e com disposição para trabalhar por Cristo, crianças aprendem conceitos de vida cristã quando são ainda muito novas.
Precisamos nos preocupar com as crianças. Algumas tem sofrido abusos e danos irreversíveis para o resto da vida. Muitas podem se distanciar de Deus e isto afetá-las eternamente. No Brasil, 4000 crianças são assassinadas por ano no Brasil. Crianças podem nunca saber o que é infância e podem ter futuro, ou não, dependendo muito de como são tratadas.
- Jesus nos exorta a não “embaraçarmos” as crianças. (Mc 10.14), já parou para considerar o significado desta palavra?
A ideia de que me à mente é de um rolo de linha de anzol. Você pode praticar pesca esportiva usando dois tipos de material: carretilha ou molinete. Este último não tem uma performance tão boa, mas é bem mais fácil de operar, enquanto o primeiro, exige um determinado treinamento. Ao jogarmos a linha, precisamos manter pressão com o dedo, para que ela não corra demais e se enrole. Um erro de arremesso de uma carretilha embola tanto a linha, que dificilmente você a desembaraça, e mesmo que consiga fazê-lo, a linha vai ficar toda “viciada”.
Como podemos embaraçar as crianças?
- Mau testemunho em casa e na igreja – crianças vão formando sua concepção de divindade e de sagrado, a partir daquilo que vêem.
- Na Europa, temos hoje a geração pós cristã, os filhos estão rejeitando as igrejas. Por causa do descrédito institucional, história de autoritarismo e desmandos. Filhos vomitam a educação contraditória da fé, quando a vivência não é coerente em casa.
- Jesus as toma nos braços – (Mc 10.16). Esta figura é muito linda. Atitude de acolhimento, proteção, colo, segurança, ternura. Enquanto os discípulos as espantam e repreendem, Jesus as acolhe e as coloca nos braços. De alguma forma precisamos tomá-la em nossos braços.
- Jesus impõe as mãos sobre as crianças – (Mc 10.16). Aqui vemos a idéia de proteção espiritual, de unção. Nossos filhos precisam ser espiritualmente protegidos. Orar por eles e com eles. Entrar nos seus quartos de madrugada e orar por eles. Diariamente nossos filhos são expostos a cenas de violência na televisão, a abusos e bullying, será que estamos atentos sobre os ataques espirituais que nossos filhos sofrem?
- Jesus as abençoa – (Mc 10.16). Abençoar é o contrário de amaldiçoar. Abençoar vem do latim benedicere, que significa “afirmar o outro”. Reconhecer o valor da criança e afirmar tal valor. Facilmente depreciamos a simplicidade e alegria do coração das crianças. Já viram como pré-adolescentes e adolescentes tem sofrido tantos distúrbios psiquiátricos? No fundo temos crianças vivendo além de suas possibilidades. O que está acontecendo com esta geração?
Conclusão
No início do meu ministério, preparamos a igreja para uma conferência evangelística. Todos estávamos envolvidos, fizemos convites, oramos pelo evento e convidamos um pregador de fora para nos trazer a mensagem. No final do culto, 9 pessoas, entre elas uma criança, aceitaram o convite para entregar sua vida a Jesus. Depois de conversar com “os adultos”, me curvei para conversar com aquela menina de apenas 9 anos, e lhe perguntei: “Por que você se levantou e veio até à frente?”. E ela, emocionada me respondeu: “Por que Jesus me tocou”.
Envergonhado devo admitir, que a melhor e mais abrangente resposta que recebi naquela noite, foi a de uma criança, sendo tocada por Jesus. Não devemos nunca subestimar o que uma criança tocada por Jesus é capaz de experimentar.
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