Quando não entendemos nossas emoções
Salmo 77
Introdução
Você já percebeu que algumas vezes nossas emoções parecem sair totalmente do nosso controle mental? As emoções muitas vezes parecem escapar. Isto acontece quando nos deparamos com situações que tocam em medos, frustrações ou desejos profundos, que muitas vezes sequer tínhamos conhecido de sua realidade ou extensão.
Existem forças internas e expectativas que alimentam essa sensação de perda de controle. Isto pode ser gerado por fatores ocultos e desejos profundos, quando nossas expectativas são ameaçadas, a resposta emocional desregula-se. Sem uma autoanálise constante, o ser humano tende a funcionar no modo "automático" de relacionamento, reagindo a situações presentes com base em dores passadas ou em sentimentos de frustração acumulados. Muitas vezes acreditamos que a mente lógica deveria comandar tudo, mas as emoções não são falhas de pensamento; são sinais de alerta de que algo importante para nós (ou para o nosso senso de bem-estar e identidade) está em jogo.
No Séc IV, Agostinho, um dos maiores teólogos do cristianismo, fez uma afirmação interessante sobre este assunto: “a mente controla o corpo, mas a mente não controla a mente.”
O Salmo 77 é um retrato impressionante de uma crise emocional profunda e de como as emoções intensas (como a angústia, a insônia e o desespero) conseguem distorcer completamente a nossa percepção da realidade e da presença de Deus. O salmista Asafe vivencia esse "descontrole".
Nos versículos iniciais, o salmista descreve um estado de agitação em que a mente perde o controle sobre os próprios pensamentos:
Ele diz que sua alma recusa consolo, que se lembra de Deus e geme, e que seu espírito desfalece. A falta de descanso físico alimenta a desregulação emocional. "Não me deixas fechar os olhos; tão perturbado estou que não posso falar." A mente fica presa em um loop de sofrimento, incapaz de articular clareza. Ele passa a remoer os dias antigos e os anos eternos, comparando a situação de angústia atual com o que supõe ter sido a bondade de Deus no passado.
Quando surgem o pensamento catastrófico e as perguntas distorcidas, quando a emoção toma o volante, a lógica é sequestrada por questionamentos absolutistas e distorcidos. O salmista começa a duvidar do próprio caráter de Deus:
- "Rejeitará o Senhor para sempre e não tornará a ser propício?"
- "Cessou a sua benignidade para sempre? Acabou-se a promessa para todas as gerações?"
- "Esqueceu-se Deus de ter piedade? Ou encerrou ele as suas misericórdias na sua ira?"
Uma frase no vs. 2 parece sintetizar seus sentimentos: “A minha alma recusa a consolar-se”. Mesmo orando parece não encontrar alívio. O método fácil, acessível e disponível para resolver seu problema, a oração, é ineficaz. O meio mais universal, mais eficaz e mais barato de cura, que é o encontro da alma com o criador, parece não resolver sua dor, nem tirar sua alma do sofrimento. O salmista parece experimentar uma situação na qual, nem mesmo a oração parece aliviá-lo.
A noite se torna uma experiência do sofrimento infindável. Pesadelos, desassossego de alma, angústias internas vem à tona. Ele tem pesadelos e aflições sem fim surgem durante a noite. Ele encontra dificuldade de desabafar. Os conceitos não conseguem ser traduzidos em meio ao sofrimento. Ele não consegue articular o sofrimento: “Nem posso falar.” (Sl 77.4)
Duas expressões relacionadas a Deus parecem revelar sua dor: “Lembro-me de Deus e gemoe “Medito e desfalece o espírito.” (Sl 77.3)
A emoção dolorosa cria uma narrativa falsa de abandono. Para Asafe, naquele momento de crise, Deus havia mudado, as promessas tinham validade expirada e o cuidado divino havia acabado. A dor emocional distorceu a lente com a qual ele enxergava a realidade.
Apenas no versículo 10, o salmista percebe que precisa interromper o ciclo da ruminação emocional e faz uma autocrítica lúcida: "Então disse eu: Isto é a minha enfermidade..." ou, em outras traduções, "Esta é a minha angústia: a mudança da mão do Altíssimo." Ele toma consciência de que o problema não está em Deus, mas na percepção distorcida dele próprio causada pelo seu estado emocional ("minha enfermidade"). Ele reconhece que a sua mente está falhando ao julgar a fidelidade divina com base apenas na dor que sente.
No meio da aflição o salmista encontra algumas alternativas equivocadas e comuns:
1. Viver no passado: “Penso nos dias de outrora, trago à lembrança os anos de passados tempos.” (Sl 77.5)
Esta é uma das grandes tentações do ser humano, evadir-se da luta e tentar reviver o passado, isto tira de nós a capacidade do confronto com a situação presente que nos angustia. Uma das mais eficazes armas do diabo contra a nossa alma, é nos manter acorrentado às nossas experiências do passado, ou criar uma ilusão tola de que no passado é que as coisas eram boas.
Nem sempre o processo de enfrentamento é fácil, mas lidar com o presente sem saudosismo, é um grande desafio para nosso coração. Alguém afirmou que viver no futuro gera ansiedade, no passado; depressão.
2. Introspecção mórbida: “De noite indago o meu íntimo, e o meu espírito perscruta.” (Sl 77.6)
Martin Loyd Jhones no seu livro: “Depressão espiritual” adverte sobre o perigo do excesso de introspecção. Ele afirma o seguinte: “autoanálise é boa, mas excesso de introspecção, adoece.”
Observe como as pessoas tendentes a depressão despende boa parte de sua energia, refletindo, matutando, confabulando consigo mesma. São as emoções reverberando no interior. É um movimento egoico (uma linguagem psicanalista), as pessoas não conseguem olhar para fora, para a vida, para os outros, tudo gira em torno de si mesmo, vive na reflexão, na contemplação, na interioridade.
Naturalmente há um lado positivo na autoanálise. Kierkegaard afirmou que “uma vida sem reflexão não é digna de ser vivida.” É necessário desenvolver a arte da contemplação, de olhar para mim mesmo e perguntar como estamos, para onde estamos indo, qual o sentido de identidade e missão que recebemos. No Salmo 103.1,2 o salmista pratica o solilóquio, fazendo um exercício de conversar com sua alma, falar consigo mesmo. “Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e tudo o que há em mim bendiga ao seu santo nome. Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e não te esqueças de nem um só de seus benefícios.” Com quem ele está conversando? Com sua própria alma. Ele não está falando com Deus, mas lembrando a sua alma, que ela precisava, bendizer o Senhor e não se esquecer de nenhum só dos benefícios que ele já havia recebido. Muitas vezes precisamos olhar no espelho e dizer a nós mesmos algumas coisas que podemos estar esquecendo em relação à nossa vida espiritual. Isto é solilóquio.
O lado negativo é que isto pode nos levar a pensar que o socorro vem de dentro, e não de fora, enquanto as Escrituras nos revelam que “O nosso socorro vem de Deus”. Existem muitos homens fascinados pela introspecção, e o zen budismo hoje fala muito em meditação. É bom recordar quem o budismo é uma estranha religião sem Deus. A divindade não se encontra fora do ser humano, mas dentro dele. Este pensamento é profundamente equivocado. Meditação é falar consigo mesmo, e precisamos fazer isto, sossegar nossa alma. Mas oração é falar com Deus. Precisamos de um poder fora de nós, precisamos de Deus. “Deus é nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente na tribulação.” (Sl 46.1). Contemplação é uma prática cristã também, mas homens não cristãos e religiões pagãs são tendentes à reflexão, e não à oração, a doce experiência do encontro com o Salvador Jesus, de nos derramarmos aos pés da cruz.
3. Sentimento de rejeição da parte de Deus – “Rejeita o Senhor para sempre? Acaso, não torna a ser propício? Cessou perpetuamente a sua graça? Caducou a sua promessa para todas as gerações? Esqueceu-se Deus de ser benigno? Ou, na sua ira, terá ele reprimido as suas misericórdias?” (Sl 77.7-9)
Este sentimento pode não ter qualquer causa direta, mas pode também estar relacionado a conflitos com pecados antigos que voltam à tona. Pensamentos como: “Deus está me punindo pelos meus erros”, ou, “isto é consequência de meus pecados” usualmente surgem neste contexto.
É importante lembrar que a Bíblia afirma que “Aquele que encobre suas transgressões, jamais prosperará, mas o que confessa e deixa alcança misericórdia”, (Pv 28.13) e que “o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado.” (1 Jo 1.7) Como pode Deus nos punir por pecados que já foram perdoados, pagos na cruz de Cristo?
4. Sensação de que as promessas de Deus perderam sua validade – “Cessou perpetuamente a sua graça? Caducou a sua promessa para todas as gerações? Esqueceu-se Deus de ser benigno.” (Sl 77.8)
O salmista está questionando a validade da Palavra de Deus, parece que a Bíblia não funciona, venceu o prazo de validade. Será que suas promessas não valem mais? Será que sua bondade não se aplica a nossos dias?
5. Questionamento sobre o caráter de Deus: (Sl 77.9) “Deus deixou de ser benigno?” Houve uma transformação na forma de agir conosco ou o meu pecado é tão grande que Deus não pode mais ter misericórdia? Isto nos leva equivocadamente a dizer: “Deus, o que está acontecendo contigo?” (não comigo...)
Como resolver estes dilemas?
Quais alternativas que a Palavra de Deus tem para nossa vida, quando nem mesmo entendemos nossa confusão interior, contradições internas, ambiguidades e confusões?
1. Esteja consciente de que pensamentos podem se tornar confusos. É imprescindível lembrar-se que, sob o fogo da aflição, nossos pensamentos não são claros. Veja como esta percepção se torna clara no versículo seguinte: “Então, disse eu: isto é a minha aflição; mudou-se a destra do Altíssimo.” (Sl 77.10)
É como se você estivesse perdido e com muita sede no deserto, você começa a ter delírios, dificuldade de saber o que é fantasia e realidade.
Na hora da aflição é bom encontrar alguém que nos ajude a entender que emoções se tornam confusas e perdemos a lucidez e coerência quando atravessamos por períodos de tribulação e aflição. Por isto, no meio de embates, não tome decisões radicais, fale menos, reconheça seu limite emocional e a pressão das circunstâncias. Isto pode ser uma benção para sua vida. O salmista percebe que o problema não está em Deus. Ele não mudou! Quantas vezes encontro pessoas pensando exatamente isto... Lembre-se: Deus não mudou! Sua leitura e a interpretação dos fatos é que mudaram. Sua aflição está gerando isto...
É como um sedento tendo uma miragem no deserto. O deserto é o mesmo, a sede é a mesma, mas a interpretação dos eventos é diferente. As coisas são como são, mas você não está vendo bem. A desidratação extrema afeta diretamente o cérebro (que é composto por cerca de 75% de água), alterando a química neurológica e gerando distorções profundas na percepção da realidade, como Alucinações visuais e auditivas. O cérebro faminto por água e oxigênio começa a "preencher as lacunas" sensoriais criando estímulos falsos. É comum que a pessoa veja água onde não há (as famosas miragens, causadas também pela refração da luz no solo quente), oásis inexistentes, construções ou pessoas que não estão ali. Também podem ocorrer alucinações auditivas (vozes ou sons de água correndo). A confusão mental substitui o pensamento racional. A pessoa pode perder a noção de quem é, onde está, quanto tempo se passou, ou desenvolver desconfiança extrema e paranoia em relação a quem estiver por perto.
Alguns aspectos precisam ser mencionados: um deles é que você não é menor que ninguém por passar por experiências assim: Quantas vezes a Bíblia relata homens de fé lutando contra sua emoção, como aconteceu com Asafe, no Salmo 73; Jó, no capítulo 20; Habacuque (cap.1) e Joao Batista na prisão (Mt 11). Você não está ficando louco, mas os sentimentos estao confusos.
2. Relembre o que Deus faz e o que ele é – “Recordo os feitos do Senhor, pois me lembro das tuas maravilhas da antiguidade. Considero também nas tuas obras todas e cogito dos teus prodígios. O teu caminho, ó Deus, é de santidade. Que deus é tão grande como o nosso Deus? Tu és o Deus que operas maravilhas e, entre os povos, tens feito notório o teu poder.” (Sl 77.11-14)
Ao contrário do que estava pensando e sentindo, nestes versículos o salmista faz uma profunda confissão de fé acerca do seu Deus. Trazer à mente a bondade de Deus, seu caráter, sua bondade e sua misericórdia é extremamente salutar. Um conceito errado sobre Deus pode nos desestruturar em tempos de aflição.
O salmista recorda o que Deus fez na história do seu povo: Secou o mar vermelho, preservou um povo pequeno e inexpressivo no Egito e lhe deu promessa. fez estéreis darem à luz filhos. Por isto exclama: “O caminho de Deus é caminho de santidade, quem é tão grande como Deus, ele fez notório o seu poder entre os povos.” Este é o nosso Deus!
Nós estávamos no primeiro ano plantando igrejas nos Estados Unidos, quando uma jovem veio à nossa reunião de oração, seu nome era Carla Luciana, nascida em Belo Horizonte. Aos 12 anos sofreu um grave acidente automobilístico e aquele incidente causou um forte trauma em sua vida. Desde então ela nunca mais conseguia dormir sem acordar sobressaltada. Tratamentos, aconselhamento, terapia foram ineficientes. Falamos sobre a graça de Deus, e ela acolheu esta graça no seu coração e oramos por ela. No outro dia ela ligou pra minha esposa dizendo: “Algo tremendo aconteceu na minha vida esta noite, desde ontem, estou dormindo em qualquer lugar que eu me encoste sem medo, sem trauma, sem dor.” Louvado seja o Senhor! Precisamos sempre recordar o que Deus fez.
Ele recorda não apenas os feitos de Deus, mas Quem Deus é:
A. Santo: “O teu caminho, ó Deus, é de santidade.” (Sl 72.13) Tudo que Deus faz é santo, ele não tem segundas intenções, ele não vai nos trair, e nem age de forma suspeita. Ele é santo!!! Seus caminhos são caminhos de santidade.
Por que é necessário falar disto? Não raro projetamos em Deus relações de desconfiança e suspeita. Freud afirmava: “Deus é um pai amplificado”. Então, se tivermos um problema com nossos pais, ou se fomos abusados ou humilhados, é natural que projetemos isto de forma inconsciente em Deus. O mesmo acontece com pessoas que tiveram relações disfuncionais e patológicas na Igreja, com pastores e líderes da igreja, é natural que você as projete em Deus. Você confunde igreja (gente imperfeita), com Deus (Santo).
B. Ele é Deus sobre deuses: “Que deus é tão grande como o nosso Deus?” (Sl 77.13b)
Ele é Deus sobre deuses. Os povos vizinhos viviam reivindicando que seus deuses eram maiores. Quando ganhavam uma guerra atribuíam isto ao poder de seus deuses, mas o salmista lembra que Deus é incomparável, não há deus como nosso Deus.
C. Deus está acima de toda tribulação: “Viram-te as águas, ó Deus; as águas te viram e temeram, até os abismos se abalaram. Grossas nuvens se desfizeram em água; houve trovões nos espaços; também as suas setas cruzaram de uma parte para outra. O ribombar do teu trovão ecoou na redondeza; os relâmpagos alumiaram o mundo; a terra se abalou e tremeu. Pelo mar foi o teu caminho; as tuas veredas, pelas grandes águas; e não se descobrem os teus vestígios.” (Sl 77.16-19)
O salmista começa agora a pensar nas tempestades, abismos, grossas nuvens. Todas estas são figuras de tribulação e aflição, e coloca todas estas aflições sob o prisma de Deus. Muitas vezes nos deparamos com situações pesadas e constrangedoras, encruzilhadas nas quais não sabemos o que fazer, onde não vemos alternativas, Deus e capaz de dissolver as mais densas nuvens. O salmista coloca algumas figuras muito fortes no texto, para demonstrar o poder de Deus.
“As águas te viram e tremeram.” (Sl 77.16) Águas nas Escrituras tem o sentido de provação. “Quando passares pelas muitas águas” ... “Levantam os rios oh Deus, levantam os rios os teus bramidos”. (Sl 93.1) As águas tremem ao se deparar com o poder de Deus. As circunstâncias mais fúnebres são dissipadas pela presença de Deus. “Grossas nuvens se desfizeram em água” Nuvens grossas representam ameaça, quando elas se desfazem trazem alegria e vida à terra. Quanta benção traz a chuva. Chuvas representam benção, enquanto “trovões... relâmpagos... terremotos...” (vs. 17-18), representam juízo e ameaça, que desaparecem quando “os caminhos e as veredas de Deus se revelam”. Tudo é ameaçador, nos faz encolher de medo, mas com a presença de Deus o cenário muda.
Lembro-me do pavor que determinadas tempestades geravam em nós crianças na hora dos trovões e relâmpagos. Este texto nos fala de Deus caminhando no meio das grossas nuvens, passeando e fazer seus caminhos no meio da tempestade, e “não se descobrem os seus vestígios”. Que tamanho é a nossa tribulação, a que podemos compará-la? A um terremoto, a um trovão, a um relâmpago? Deus está acima de tudo isto.
O grande desafio é recordar os feitos do Altíssimo. Lembrar que podemos passar por momentos de confusão mental, interior, desordem e confusão, mas a vida não se reduz a isto. São tempos de tribulação, mas carregue neles a certeza de que um Deus poderoso, Criador dos céus e da terra, tem cuidado de você. Sua vida não está no final, está apenas numa intersecção, num momento de virada, num momento de dor e decisão. Mas quando Deus passa no meio destas tempestades não somos capaz, sequer de “descobrir os seus vestígios”. Nem as marcas, traumas, dores, serão mais lembradas.
O Salmo 77 nos mostra que as emoções desreguladas têm o poder de nos fazer duvidar de verdades absolutas e nos convencer de que estamos sozinhos. No entanto, o texto ensina que a saída para esse "descontrole" não é negar o que se sente (Asafe chora, geme e expressa sua angústia honestamente a Deus), mas forçar a mente a olhar para fora do próprio sofrimento, ancorando-se na memória da fidelidade de Deus quando as emoções dizem o contrário.
Como você tem lidado com esses momentos em que as emoções parecem nublar a sua visão da realidade ou da esperança?
O Salmo 77, com sua jornada de angústia, insônia e percepção distorcida pela dor, encontra sua conexão mais profunda e redentora na obra, na paixão e na ressurreição de Cristo. Se o salmista retrata o drama de uma mente esmagada pelo sofrimento e duvidando da fidelidade divina, Jesus é aquele que mergulha voluntariamente nesse mesmo abismo para resgatar a nossa percepção e nos reconciliar com o Pai.
Ele atravessa a noite escura da alma no Getsêmani. Jesus experimentou a angústia em seu grau mais absoluto, a ponto de o seu suor se tornar como grandes gotas de sangue. Ele conheceu a insônia da alma, a perturbação extrema e o peso de uma dor que parecia sufocar a capacidade de articulação. Cristo não apenas observa o nosso sofrimento à distância; Ele o encarna e o absorve.
Ele também experimentou o sentimento de abandono, quando Jesus grita na cruz: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?". Naquele momento, Cristo vivenciou o verdadeiro e total abandono — não por culpa própria, mas para que nós, que estávamos espiritualmente perdidos e cegos pela nossa miséria, nunca mais fôssemos de fato rejeitados. Ele suportou o silêncio de Deus para que o nosso clamor pudesse ser ouvido. Ele entra nas "águas profundas" da morte e do juízo que nos tragariam. O caminho de Deus continuou a ser traçado onde parecia haver apenas destruição: na cruz, o lugar da aparente derrota tornou-se o palco da maior vitória da história.
A cruz traz cura da nossa percepção distorcida. Asafe reconhece sua distorção emocional que nublava o caráter de Deus. A obra de Cristo atua exatamente na restauração da nossa capacidade de enxergar a realidade. O pecado e o sofrimento nos deixam "desidratados" espiritualmente, criando miragens de que estamos abandonados, de que Deus é severo demais ou de que a sua graça tem limites. Olhar para Cristo na cruz é o "contrapeso cognitivo" supremo da fé cristã: é a prova irrefutável e objetiva de que, não importa o que o nosso coração sinta ou o que as circunstâncias digam, o amor de Deus por nós é absoluto e inegociável. Na cruz, vemos o passo mais oculto, misterioso e doloroso de Deus, mas é exatamente ali que Ele pega a nossa mão ferida e nos conduz para fora do deserto da nossa desorientação emocional.
Que Deus nos ajude!!!
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