domingo, 11 de junho de 2017

2 Tm 4.9-18 Como enfrentar o inverno?

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Introdução:

A segunda carta de Paulo a Timóteo é chamada de “pastoral”, mas eu preferiria o termo “pessoal”, ainda que seu conteúdo também seja altamente pastoral. O motivo é simples: Paulo está se sentindo idoso, desamparado e só. Na prisão, as condições não eram favoráveis: o julgamento era iminente e com grande possibilidade de morte. Ele estava na cadeia por causa se testemunho do Evangelho e por pregar Jesus.
Ao escrever esta carta, ele pede para que seu discípulo Timóteo, lhe traga a capa, antes do inverno. Sua idade, situação e condição lhe deixam fragilizado. O inverno está chegando, e este fato, por si só, aumentaria a solidão. Morei por quase 9 anos no nordeste dos EUA, onde o frio e o longo inverno são capazes de tirar a alegria de muitos. O mês de fevereiro, com suas longas noites e dias curtos é estatisticamente o tempo de maior número de suicídios. Estudiosos daquela região encorajam as pessoas a deixarem a maior quantidade possível de luzes acesas na casa para diminuir o ambiente escuro. Eu, que felizmente não sou tendente à depressão, admito que estes meses eram realmente mais complicados, e sempre ficava com necessidade de sentir o calor e ter mais luminosidade.

Paulo pede a Timóteo que “viesse ter com ele antes de chegar o inverno”.
Inverno é bem mais que uma estação. Inverno é um condição de alma.
Todos passamos dias que se comparam ao verão: muito sol, calor, luz, são dias quentes. Passamos também pelo outono, quando as folhas caem, e o ambiente se torna não muito encorajador. Felizmente temos a primavera, com toda sua vida e cor, trazendo esperança e anunciando um tempo de plantio e expectativa de colheitas. O inverno, porém, é tempo de reclusão, silêncio, solidão. E todos nós atravessamos estes dias.
O que fazer em tais circunstâncias?
Neste texto, Paulo revela toda sua humanidade. Seus pedidos revelam necessidades da alma. Tais realidades se aplicam diretamente a cada um de nós, quando precisamos atravessar o inverno.
Como atravessar o inverno?
Este texto nos dá algumas sugestões para estes dias:

Primeiro, tenha amigos por perto
Nesta carta, Paulo fala de boas e más experiências de andar com as pessoas. Ele se sente injustiçado e ignorado por alguns e abandonado por outros.
Podemos destacar pelo menos três grupos de pessoas que caminharam ao seu redor.
Um era o grupo da debandada. Paulo vê uma série de amigos e companheiros seguindo sua história pessoal e o deixando. “...Crescente foi para a Galácia Tito, para a Dalmácia” (2 Tm 4.10); “Quanto a Tíquico, mandei-o até Éfeso” (2 Tm 4.12). O segundo grupo foi de oposição. Ele cita pelo menos três companheiros que se tornaram adversários: Alexandre, que parece ter sido muito hostil, já que Paulo afirma ter sofrido grandes danos de sua parte “Alexandre, o latoeiro, causou-me muitos males” (2 Tm 4.1.14), Figelo e Hermógenes - “Estás ciente de que todos os da Ásia me abandonaram; dentre eles cito Figelo e Hermógenes” (2 Tm 1.15); e o terceiro grupo que foi do abandono. Ele fala de Demas, que o abandonou, “seguindo o presente século”, indicando uma aparente apostasia por parte deste irmão, que não apenas prefere seguir sua vida sem dar satisfação, como abandonou a verdade da fé cristã (2 Tm 4.10).

Por isto ele pede a Timóteo: “Procura vir ter comigo depressa” (2 Tm 4.9).
Neste momento de sua vida, um amigo revelou-se um companheiro inestimável. Trata-se de Onesíforo (2 Tm 1.16). Ele afirma que ele lhe deu ânimo (2 Tm 1.16), não se afastou dele quando foi preso (2 Tm 1.16), e não desistido de procurá-lo em Roma. Parece que o local onde Paulo se encontrava não era muito fácil de achar, mas Onesíforo indagou, perguntou, até achá-lo. Associar-se com pessoas fracassadas ou suspeitas não parece ser uma atitude natural das pessoas. Gente bem sucedida facilmente faz amigos, não gente em necessidade.

Por isto Paulo insiste na vinda de Timóteo. Para atravessar o inverno, é necessário ter amigos por perto. Não é fácil atravessar dias sombrios solitariamente. A solidão pode matar mais que a escuridão e o frio do inverno.

Segundo, cuide-se fisicamente
Paulo pede que Timóteo lhe traga a capa que havia deixado em Trôade (2 Tm 4.13). Dá para entender a razão.
o termo capa, vem do grego phelones, que era uma pesada capa de inverno, feita de lã grosseira normalmente sem mangas, mas com uma passagem no meio, para a cabeça. agia como protetor contra o frio e a chuva. Provavelmente o frio de Roma era bem mais intenso que da Judeia. Paulo sabe que não estar bem agasalhado poderia lhe trazer graves complicações físicas. Era  necessário aquecer-se.
Eventualmente passamos pelos dias de inverno, de forma descuidada. Não nos preocupamos com a higiene, a saúde, a alimentação e o exercício físico. Ficamos com o corpo resfriado, nos expomos à baixas temperaturas e congelamos. Paulo precisava manter o seu corpo de forma aquecida.
Era necessário se cuidar bem fisicamente.

Terceiro, restaure relacionamentos quebrados
Há neste texto uma menção sutil a João Marcos. Esta situação é interessante quando entendemos quem foi este rapaz. Ele se tornou o pivô de uma grave crise de Paulo com Barnabé, quando se preparavam para a segunda viagem missionária.
Na primeira viagem, Paulo e Barnabé foram separados por Deus para que a obra avançasse. João Marcos era primo de Barnabé, e este resolveu convidá-lo a se unir aos dois. O resultado foi ruim, porque Marcos deixou o grupo no meio do projeto e decidiu voltar para casa. Eles estavam na ocasião em Perge da Panfília (At 15.13). Comentaristas afirmam que estavam cuidado de pessoas que estavam doentes e muitos estavam morrendo. Marcos considerou a situação e não quis mais se expor desta forma. . Esta situação desagradou profundamente a Paulo.
Na segunda viagem, novamente Barnabé quis levou a Marcos, mas Paulo não concordou. A situação foi tão tensa que vieram a separar-se. A linguagem bíblica parece apontar para uma grave crise de relacionamento. “Houve entre eles tal desavença que vieram a separar-se” (At 15.31). Na nossa linguagem diríamos que eles bateram boca e esmurraram a mesa. Resultado? Barnabé e Paulo se separaram em definitivo e passaram a fazer viagens missionárias com diferentes equipes.
Portanto, quando Paulo pede para que João Marcos venha para estar com, isto revela que as coisas entre eles foi resolvida.
Eventualmente discordamos uns dos outros, quanto a forma de fazer, o tipo de abordagem empregado e algumas vezes o fazemos de forma veemente, e até mesmo não conseguimos mais caminhar juntos. Isto pode deixar marcas de rupturas, amarguras e distanciamento. Quando Paulo pede para trazer Marcos, isto mostra que eles já haviam resolvido as coisas que as pessoas podem falhar na vida mas precisam ter outras chances para demonstrar seu valor, e ainda mais, Paulo parece fazer uma confissão explícita de que errou ao tratar Marcos com tanta dureza.
Não devemos atravessar o inverno com coração mal resolvido.
Toma contigo Marcos e traze-o, pois me é útil para o ministério” (2 Tm 4.11). Paulo reconhece que precisa dele para continuar seu ministério e que já os havia restaurado e que as diferenças haviam sido resolvidas. A presença de Marcos seria extremamente útil para os projetos ministeriais que Paulo tinha em mente. Paulo admite que o queria por perto.

Quarto, cuide da mente
Traga os livros especialmente os pergaminhos ((2 Tm 4.13). Isto revela a necessidade que Paulo tinha de continuar lendo, pensando, escrevendo. Livros (no grego biblion), é uma forma plural. É possível que indique rolos de velo, um material de escrita era extremamente caro, pelo que o papiro, material mais perecível, era empregado.  A melhor tradução aqui seria “traga-me os pergaminhos”. Paulo está se referindo aos “rolos” com conteúdo escrito, o material que era usado pelos rabinos, pelos escribas e nas sinagogas. Provavelmente Paulo não tinha muito coisa, mas aqueles livros seriam suficientes para manter sua ponderação intelectual e reflexão sobre os textos sagrados.
Pergaminhos, eram livros ou documentos feitos de peles preparadas de bezerro, de antílope, de cabra ou de ovelha.O material mais caro era feito de bezerro ainda não nascido, devido à sua textura fina e por isso eram caríssimos e poucas pessoas possuíam livros feitos deste material.
Não ocupar a mente no inverno pode ser fatal.
A ociosidade, aliada ao abandono e esquecimento, mesclado com dias de pouca luminosidade e frio, podem desencadear sérios fatores de risco.
A mente precisa estar aguçada.
Geriatras recomendam as pessoas que as pessoas mantenham suas mentes em atividade. Para atravessar bem o inverno, é medicinal ter mente clara, arguta, reflexiva, crítica e analítica. Paulo queria ter o livro para pesquisa e leituras, podemos vê-lo debruçado horas a fio nestes textos averiguando as promessas de Deus e os textos messiânicos.
Bons livros orientam, inspiram, aconselham, desafiam, ampliam a visão.

Quinto, experimente a presença de Deus
Paulo observa cinco coisas maravilhosas para quem anda com Deus:
a.     Deus nos assiste – “mas o Senhor me assistiu” (2 Tm 4.17). É maravilhoso saber que a assistência de Deus é sempre presente. “Deus é nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente nas tribulações” (Sl 46.1).

b.     Deus nos fortalece - “mas o Senhor me assistiu de forças” (2 Tm 4.17). quando nos sentimos fracos e desencorajadas, podemos saber que sua força nos revestirá para a luta.

c.     Deus nos usa como instrumentos mesmo quando somos fracos. “...Para que, por meu intermédio, a pregação fosse plenamente cumprida” (2 Tm 4.17). Paulo estava preso, recluso, parece que seu ministério tinha perdido o efeito. Ele estava preso, “mas a palavra de Deus não está algemada” (2 Tm 2.9). Muitas vezes nos sentimos fracos, impotentes. Não se assuste, você está nas mãos de um Deus sábio e poderoso, que pode fazer coisas maravilhosas mesmo com seus limites.

d.    Deus o livra do inimigo – “...e fui libertado da boca do leão” (2 Tm 4.18). Quem era “o leão?” Provavelmente o Império Romano. Para muitos ficar ainda hoje longe da boca do leão (fisco), seria um grande notícia, mas Paulo estava falando de algo (ou alguém), que colocava em risco sua integridade física. Para Pedro leão era o próprio diabo.

e.     Deus garante vida eterna – “...e me levará a salvo para o seu reino celeste” (2 Tm 4.18). É maravilhoso saber que andar com Deus é sempre algo que tem implicações eternas.

Conclusão

Na vida atravessaremos muitos desertos e muitos invernos.

São situações, ambientes, ocasiões, em que nos sentiremos fracos, impotentes. Tempo de frio e escuridão, mas mesmo neste ambiente, a graça de Deus há de nos fortalecer e encorajar.

O inverno de Cristo
Nosso Senhor Jesus também experimentou situação de abandono, de frio e escuridão. “Então, lhes disse: A minha alma está profundamente triste até a morte; ficai aqui e vigiai comigo” (Mt 26.38). Apesar de seu pedido, os seus discípulos e amigos não conseguiram cuidar dele. Na cruz, ele experimentou a solidão mais cruel: O abandono de Deus: “Por volta da hora nona, clamou Jesus em alta voz dizendo: Eli, Eli, lamá sabactani? O que quer dizer: Deus meu, Deus, por que me desamparaste?” (Mt 27.46). O profeta Isaias afirma que “designaram-lhe a sepultura com os perversos, mas com o rico esteve na sua morte, posto que nunca fez injustiça, nem dolo algum se achou em sua boca” (Is 53.9).
O único que experimentou a solidão absoluta foi Jesus. Deus se distanciou dele. Aqui temos uma questão dialética desafiadora: Deus se isolou de Deus! Naquele momento ele experimentou toda a ira de Deus contra o pecado da raça humana. Jesus experimentou o que nunca experimentaremos, a não ser que rejeitemos o sacrifício de Cristo e não sejamos salvos. Apenas o inferno contém esta dimensão do completo abandono de Deus. Jesus experimentou a solidão, sem poder contar com Deus. Sua dor era lancinante, porque estava, naquele momento, longe do Pai. Isaías afirmou que o Senhor decidiu "esmagá-lo", pelas nossas transgressões. 
Apesar de toda situação de dor, o profeta faz duas afirmações áureas sobre esta pesada experiência de Cristo: A primeira diz mas com o rico esteve na sua morte. Apesar de todo aparente abandono de Deus, em nenhum lugar da terra, Deus se fazia tão presente, porque naquele lugar, Jesus levava sobre si a iniquidade da raça humana, do seu povo eleito, que agora estava sendo redimido pela sua obra completa de justificação dos pecadores diante do Pai. A segunda afirmação foi: “Ele verá o fruto do penoso trabalho de sua alma e ficará satisfeito; o meu Servo, o justo, com o seu conhecimento, justificará a muitos, porque as iniquidades deles levará sobre si” (Is 53.11).
Jesus atravessou intencionalmente o inverno de sua vida, para nossa redenção. Ele estava substituindo os pecadores, o justo pelos injustos. O seu inverno foi proposital, Jesus o enfrentou para que eu e você não tivéssemos mais a condenação pelos nossos pecados. Ele o fez por amor. O seu inverno de dor, trazia justificação a muitos, e ele, o Cordeiro de Deus, vendo o penoso fruto de sua alma, ficaria satisfeito.

Não se assuste, portanto, com o inverno.
Depois dele sempre vem a primavera.

A morte de Cristo, enfrentando este terrível inverno, trouxe a cada um de nós, liberdade, perdão, justificação, vida eterna.

Zc 4.10 O dia dos humildes começos

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Zacarias é classificado pelos estudiosos bíblicos, como um dos profetas menores, não por possuir um conteúdo menos importante, mas por sua extensão e também por uma questão didática,. Ele foi um profeta pós exílico, nos dias de Dario, rei dos Medos e Persas (Sec VI a.C), tendo Ageu e Zacarias como seus contemporâneos. Enquanto Ageu se concentra na reconstrução do templo, Zacarias traz uma mensagem para encorajar o povo de Deus com respeito a Jerusalém e sua reconstrução, e do seu futuro a longo prazo.

A Bíblia de Genebra faz o seguinte comentário:
“As visões de Zacarias mesclam o presente e o futuro como em um tecido entrelaçado, impossível de ser rasgado em pedaços. Por essa razão, varias vezes torna-se difícil determinar que período de tempo o autor tem em mente... essa ‘visão de telescópio’ ou compressão do futuro próximo e distante, é uma característica comum dos escritos proféticos”.

Este texto nos fala dos humildes começos.
Como é bom considerar isto todas as vezes que iniciamos um novo projeto.
A Bíblia nos exorta a “não desprezarmos os dias dos humildes começos”.
Humildes começos possuem algumas características:

1.     Muitos dos grandes projetos da história começaram com ideias simples e poucos recursos.
Considere, por exemplo, uma das maiores empresas do mundo: a Apple. Dois estudantes nerds, começaram com alguns pressupostos na cabeça na área de informática. Tudo começou na garagem de uma casa que foi transformada numa pequena oficina. O resultado disto singelo começo é assustador. Suas ideias transformaram o mundo. O seu alcance, influência, impacto no mundo inteiro, transformaram o conceito do PC (Personal computer).

2.     A maioria dos grandes projetos não surge grande.
Um conhecido ditado diz o seguinte: “Roma não foi construída de um dia para outro”.
A reconstrução de Jerusalém seria uma árdua tarefa para aqueles que retornaram do exilio. Zorobabel enfrentaria a realidade de uma cidade fantasma, devastada pelos invasores e entregue aos chacais e raposas por longos anos. Além disto, teriam que enfrentar a oposição dos vizinhos nada simpáticos, interesses pessoais e políticos, e parcos recursos humanos e financeiros.
A palavra de Deus exorta o povo a “não desprezar o dia de humildes começos”. Ninguém sabe onde pequenos sonhos podem desembocar. No dia do lançamento alicerce do segundo templo, o povo de Judá se dividiu entre o entusiasmo da nova geração e a comparação inevitável que a antiga geração fazia entre o antigo templo, de Salomão, que era tão imponente, e este que agora fora reconstruído, com tantas necessidades e carências (Ed 3.10-12).  esta era a situação no início da reconstrução do templo nos dias de Ageu. “Quem dentre vós, que tenha sobrevivido contemplou esta casa na sua primeira glória? E como a vedes agora? Não é ela como nada aos vossos olhos?” (Ag 2.3).
A reconstrução do segundo templo agora começava sem o apoio de reis, sem recursos dos impostos que o palácio coletava, mas com a iniciativa de alguns homens que queriam resgatar a glória do Deus de Israel que naqueles tempos estava associada ao templo,

3.     Qualquer projeto vale a pena, se Deus é o seu iniciador – “As mãos de Zorobabel lançaram os fundamentos desta casa, elas mesmas a acabarão, para que saibais que o Senhor dos Exércitos é quem me enviou a vós outros”(Zc 4.9).

Em todo projeto que começamos, a questão não é saber se temos recursos ou não, mas se isto vem de Deus. Fazer as coisas por força da vontade, ainda que com as melhores intenções, mas sem a aprovação de Deus, é um completo fracasso.
Então, antes de qualquer coisa precisamos entender: Isto é, de fato a vontade do Senhor? O problema é que a carne e a vaidade podem facilmente se interpor em qualquer situação, mesmo quando as coisas estão feitas, a princípio, para Deus. A índole humana é vaidosa, carregada de soberba, e mesmo os gestos mais sagrados podem estar carregados de uma intencionalidade nada saudável. Submeter-se a Deus é a única forma de evitarmos estes desvios e riscos.
O início deste versículo dá a impressão de que a competência de Zorobabel estava conseguindo realizar a obra, mas a ênfase não é colocada no homem, mas em Deus: “...Para que saibais”. Na verdade, quando Zorobabel iniciou o projeto, Deus lhe deu uma palavra direta. “Esta é a palavra do Senhor a Zorobabel: Não por força, nem por violência, mas pelo meu Espirito, diz o Senhor dos Exércitos”(Zc 4.6).
No Antigo Testamento Deus repetidamente recomenda ao seu povo que não dependa do poderio militar que possuía, nem dos recursos disponíveis, nem das alianças estrangeiras, mas dependesse apenas, e tão somente, dele mesmo. “Assim diz o Senhor: Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem o forte, na sua forca, nem o rico, nas suas riquezas; mas o que se gloriar, glorie-se nisto; em me conhecer e saber que eu sou o Senhor e faço misericórdia, juízo e justiça na terra, porque destas coisas me agrado, diz o Senhor”  (Jr 9.23,24).
Quando o povo de Deus vai espiar a terra, todos acharam a terra maravilhosa, mas dez deles perceberam que a tarefa era maior que seus recursos. “também vimos ali gigantes (os filhos de Enaque são descendentes de gigantes), e éramos, aos nossos próprios olhos, como gafanhotos, e assim também éramos aos seus olhos”(Nm 13.33). infelizmente os espias se concentraram na força de seus braços, entretanto, Josué e Calebe, evocaram o poder de Deus. “A terra por meio da qual passamos a espiar é terra de muitíssima boa. Se o Senhor se agradar de nós, então, nos fara entrar nesta terra e no-lo dará” (Nm 14.7,8).
A questão não é o tamanho do projeto, nem as dificuldades e oposição, a questão não é se temos recursos, mas se temos a benção de Deus. A questão não é o tamanho do desafio, mas o tamanho de Deus, porque “para Deus não haverá impossível em todas as suas promessas”.

4.     Deus usa instrumentos ordinários e incomuns para realizar sua obra

Incomum: Deus usou Ciro para apregoar libertação ao povo de Deus e por fim ao exilio  (2 Cr 36.21-23; Ed 1.3), isto fez o povo ficar “como quem sonha”(Sl 126). Ciro era um rei pagão, que sequer conhecia a Deus (Is 45.1,4), ele não temia a Deus, não conhecia seu nome, mas ainda assim tornou-se instrumento para executar a vontade do Senhor.
Deus usa até mesmo uma mula para executar seu plano.

Ordinário: Neste texto de Zacarias, Deus usa seus servos para executar seus projetos. “As mãos de Zorobabel lançaram os fundamentos desta casa, elas mesmas a acabarão”(Zc 4.9).
Deus usa instrumentos. Alguns incomuns e sobrenaturais. Alguns comuns e ordinários. Deus usa reis pagãos, e usa seus servos.

Conclusão:
Não devemos desprezar o dia de humildes começos.
De todos os feitos aparentemente insignificantes que se tornaram portentosos, evidentemente nenhum deles foi mesmo significativo que o evento do Calvário. Naquela cruz, um palestino de pele queimada, criado na pobre região de Nazaré, na esquecida geografia da Galileia, é julgado inocente e ainda assim condenado à morte. Este poderia ser apenas mais um evento injusto da história, mais uma atrocidade  cometida pelos poderosos.
Mas aos olhos de Deus, este evento era centro na história da humanidade. Ali se realizava o evento da redenção.
Nenhum evento teve dias tão humildes como este...
O profeta Isaías profeticamente o anunciou:Ele foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca; como cordeiro foi levado ao matadouro, e como ovelha muda perante seus tosquiadores, ele não abriu a sua boca” (Is 53.7). Naquele ato, por meio de Jesus, o Senhor dos Exércitos removeu “a iniquidade desta terra, num só dia” (Zc 4.9). O autor da carta aos hebreus afirma: “Agora, porém, ao se cumprirem os tempos, se manifestou uma vez por todas, para aniquilar, pelo sacrifício de si mesmo, o pecado ... assim Cristo, tendo-se oferecido uma vez para sempre, para tirar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o aguardam para  a salvação” (Hb 10.28).
Um dia comum, se torna incomum.
Um evento ordinário, extraordinário.
Um lugar esquecido da terra, o epicentro da redenção. 
Um tempo anônimo na história torna-se o tema de centenas de livros, teses, e de milhões de sermões.
Mas acima de tudo, naquele ato, nossos pecados foram redimidos.
Dia de humildes começos... e grandes impactos.
Portanto,
Nunca desprezemos os dias dos humildes começos.

A história nos mostrará os efeitos e impactos que atos como estes que ora vivenciamos, causarão na história de uma cidade, e trarão glória ao Deus, que é o único digno de receber toda glória, honra e poder.  

quarta-feira, 7 de junho de 2017

2 Tm 1.3-14 Três pilares da espiritualidade cristã

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Em 2007 começamos a construir um prédio para abrigar o Edifício de Educação Cristã da Igreja Presbiteriana de Anápolis. A obra teria ao todo, seis pavimentos de 450 M2 cada um (incluindo a garagem), para abrigar as atividades da igreja. Depois de gastarmos uma fortuna na fundação, algo em torno de R$ 170 mil reais (valor não corrigido), orgulhoso da conquista convidei minha esposa para olhar o que já havia sido feito. Depois de olhar os enormes blocos de ferro e concreto, tudo absolutamente ainda informe, brincando comigo ela disse: “Gastamos todo deste dinheiro para fazer isto...?” É óbvio que o fundamento, apesar de ser a coisa mais importante em termos de segurança para um prédio deve ser o aspecto mais sólido de uma construção. Se algum dia, alguém decidir construir outra coisa onde atualmente temos este prédio, deve lembrar que temos pilastras de 18 metros de profundidade. Qualquer mudança na estrutura, exigirá enorme esforço. Fundações são perenes.

Toda construção precisa de alicerces sólidos para enfrentar as intempéries e tempestades. Por isto se gasta tanto tempo analisando o solo onde o edifício será construído, o material a ser utilizado, e os cálculos de engenharia para que se saiba a quantidade exata de ferros, cimentos e concretos. Uma obra exige um longo processo de cálculos, engenharia, estudos para que os alicerces sejam solidamente edificados.

A fé cristã é construída sobre muitos pilares, mas neste texto de Timóteo, Paulo fala de três aspectos fundamentais para uma fé cristã com saúde.

1.       Consciência pura

Nas cartas a Timóteo e Tito, que são pastorais em seu conteúdo, isto é, foram escritos a pessoas que estavam começando a exercer o ministério, Paulo fala muito da consciência.

A consciência enfrenta alguns perigos:

A.      Consciência não iluminada – Este é um sério problema, porque pessoas que não estão debaixo da orientação do Espirito Santo, correm sérios riscos de serem orientadas pela razão, emoção, ou até mesmo espíritos malignos. Para pessoas debaixo de influência de filosofia pagãs e demônios, culpa, confissão, perdão, reconhecimento de pecado, não é alguma coisa natural, podendo soar até estranha. Mesmo uma cultura moralmente legalista pode estar muito distanciada de Deus.

No livro de Jonas, Deus fala de pessoas que não sabiam discernir a mão direita da mão esquerda (Jn 4.11), e que estavam sendo destruídas por isto.

B.      Consciência contaminada – trata-se de pessoas que foram atingidas por uma cultura ou filosofia, e não acham errado aquilo que a Palavra de Deus considera errado. É muito comum vermos pessoas dizendo que não acham errado determinado comportamento, quando as Escrituras Sagradas são frontalmente contrárias a tais práticas. Numa época de moral relativa, onde as pessoas acham que a verdade encontra-se dentro delas, e não são definidas por Deus, é muito fácil vermos este processo de contaminação.

O profeta Isaias fala de pessoas que chamavam a luz trevas, e às trevas luz (Is 5.20). São mentes afetadas pelo pecado, pelo distanciamento de Deus, e que não conseguem mais ter pureza na sua consciência.

C.      Consciência cauterizada – A Bíblia fala deste tipo de pessoas que “pela hipocrisia dos que falam mentira e tem cauterizado a própria consciência” (1 Tm 4.2). Cauterizar é queimar um determinado lugar, criando um calo. A pessoa se torna insensível naquele ponto. De tanto ferir a consciência fazendo aquilo que é errado, a pessoa pode finalmente fazer tudo aquilo que anteriormente reprovava, achando que está justificada e que nada do que está fazendo é errado. Isto é reforçado por uma cultura que se coloca contra Deus e até mesmo por “espíritos enganadores e ensino de demônios” (1 Tm 4.1).
Passos para manter uma consciência pura:

1.       Coloque sempre sua vida sob o crivo da Palavra de Deus- O que conta não é o que você “acha certo”, mas aquilo que a Bíblia diz que é certo.

Neste ano comemoramos os 500 anos da reforma. Lutero, seu idealizador afirmou diante do tribunal que o acusava: “Fiz uma aliança com Deus: que Ele não me mande visões, nem sonhos, nem mesmo anjos. Estou satisfeito com o dom das Escrituras Sagradas, que me dão instrução abundante e tudo o que preciso conhecer tanto para esta vida quanto para o que há de vir. "A menos que vocês provem para mim pela Escritura e pela razão que eu estou enganado, eu não posso e não me retratarei. Minha consciência é cativa à Palavra de Deus. Ir contra a minha consciência não é correto nem seguro. Aqui permaneço eu. Não há nada mais que eu possa fazer. Que Deus me ajude. Amém."(...) "Diante da Palavra, todos precisam ceder."

não confie em seu coração: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?"

2.       Incline-se sempre ao arrependimento e à confissão – Há sempre o perigo do endurecimento das coronárias, e de nos acostumarmos ao pecado sem termos consciência de quão distante estamos de Deus.

Quando Jesus manda a carta à igreja de Laodicéia, ele a censura porque ela estava perdendo o primeiro amor, se julgando segura, rica e abastada, mas Jesus afirma que ele deveria comprar vestes brancas para se vestir a fim de que não fosse manifesta a vergonha de sua nudez, e colírio para ungires os olhos, a fim de que pudesse ver com clareza (Ap 3.15-18).

O apostolo João escreve à uma comunidade, que provavelmente se julgava boa demais para perceber seus erros. “Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está me nós (...) Se dissermos que não temos cometido pecado, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós” (1 Jo 1.8,10). Dá pra perceber a insistência do velho pastor em relação a uma igreja que não parecia perceber o risco de suas almas?

3.       Esteja sempre diante de Deus para experimentar a alegria de uma consciência perdoada e redimida – A questão não é “se pecamos”, mas se fomos perdoados e temos sido purificados pelo sangue do Cordeiro.

Estas coisas vos escrevi para que não pequeis, se, todavia alguém pecar, temos advogado junto ao Pai” (1 Jo 2.1).

Se por um lado temos a tentação de vivermos insensíveis e com a consciência cauterizada, por outro lado podemos viver uma existência que não experimenta o perdão de Deus, e desta forma vive constantemente acusada pelo diabo (Ap 12.10). “Ora, o Senhor é Espírito, e onde está o Espirito do Senhor, aí há liberdade” (2 Co 3.17). A maravilhosa verdade é que somos pecadores de fato, e Deus nos perdoa de fato.

2.       Fé sem Fingimento

Este é um segundo pilar da espiritualidade cristã citada neste texto. Se o primeiro fala da consciência pura, este segundo toca na integridade e no caráter.

Uma fé sem fingimento é aquela que possui profunda coerência entre aquilo que afirma crer e aquilo que se vive. O perigo da hipocrisia, de uma vida teatralizada, é sempre muito presente naqueles que buscam uma espiritualidade autêntica. Podemos falar do que não cremos, manter as aparências, criar um círculo falsa de fé e assim vamos vivendo de máscaras e véus.

Dois riscos podem ser apontados aqui:

A.      Falsa fé – Podemos colocar nossa fé em pessoas, conceitos e até mesmo em ídolos, substitutos de Deus. A maior tentação do povo de Deus no AT foi sempre a idolatria. O apóstolo Joao, um velho e tarimbado pastor, quando está encerrando sua primeira carta, de forma aparentemente desconecta afirma: “Filhinhos, guardai-vos dos ídolos” (1 Jo 5.19). Uma exortação aparentemente isolada, como se fosse uma nota de rodapé, como se Joao tivesse querendo afirmar: “Antes de encerrar... por favor, guardem seus corações das armadilhas da idolatria”. O que nos impressiona é que ele estava falando ao povo crente, não aos pagãos... Paulo fala em 2 Tm 1.9 sobre “A fé verdadeira”.

B.      Dissimulada fé – Já não se trata de uma falsa fé, mas a fé verdadeira vivida de forma falsa. Dá a impressão de crer, prega aquilo que não pratica, vive uma vida dupla, do tipo médico e monstro. Pastores e líderes não raramente surpreendem suas comunidades com um comportamento duplo e perigoso. Vida dissimulada.

Que cuidados devemos ter?

1.       Uma fé clarificada pelo Evangelho nos livra da “falsa fé” – Muitos afirmam que não importam a fé que você professa, mas o que importa é crer. Esta afirmação é equivocada. Podemos crer naquilo que gera uma falsa segurança e é falso. Milhares são consumidos por crendices e superstições, espiritualidades distorcidas pelo engano do coração, por sistemas filosóficos e pelo diabo. Corre-se grave risco quando se coloca a fé naquilo que é falso. Só a Palavra de Deus pode nos livrar dos falsos conceitos e das mentiras dos homens como afirma Paulo em 1 Tm 4.1-4.

2.       Rejeitar a tentação da dissimulação – Não fomos chamados para viver uma vida dupla. “Integridade não é um ingrediente da vida cristã, mas a essência da vida cristã” (Warren Wiersbe). Uma vida dicotomizada é uma agressão ao Deus que vê todas as coisas.

O fascínio de Moisés
Em 2 Co 3.12-18 vemos a narrativa trágica de um grande líder cristão que correu grande risco com a dissimulação. Este texto nos revela um grande líder sendo desmascarado. Seu nome: Moisés. Sem dúvida um grande homem de Deus. Aqui ficamos sabendo de algo que o AT não menciona. Ao descer do monte, depois de passar 40 dias com o Senhor, Moisés foi envolvido por um brilho tão imenso, que os filhos de Israel não podiam fitá-lo. Isto o obrigou a usar véu para conversar com o povo. Com o passar dos dias, o brilho acabou, mas Moisés continuou com o véu, para que os filhos de Israel continuassem pensando que o seu rosto ainda brilhava.
Por que? Medo. Medo de que os israelitas descobrissem que sua posição privilegiada diante de Deus estava desaparecendo. Então, fez o que milhões de pessoas já fizeram: Colocou um véu! Não deixou que ninguém visse o que se passava no seu interior.
A mesma realidade pode ocorrer hoje. Podemos ter um véu sobre as formas mais variadas, mas que na essência são a mesma coisa. Representam uma imagem ou fachada que queremos mostrar aos outros, e por trás da qual ocultamos nossa verdadeira imagem. A atitude de Moisés trouxe um efeito danoso nas próximas gerações. Por ter optado por viver uma vida de máscara o povo de Israel não mais conseguia entender o Evangelho. Paulo responsabiliza Moisés pela cegueira do povo (2 Co 3.15). Em outras palavras, sua atitude hipócrita endureceu o coração dos filhos.
A incapacidade de sermos autêntico, genuínos, obscurece o poder do Evangelho, nos nossos filhos fazendo com que os sentidos das novas gerações sejam endurecidos. Por que filhos não se convertem? Alguns frequentam a igreja anos a fio, mas não se rendem a Cristo. Paulo afirma que a dificuldade dos filhos de Israel em se converterem e terem o “véu removido” estava diretamente relacionado à atitude de Moisés, em manter as aparências e continuar com suas máscaras espirituais. Não seria esta a razão de tantos filhos de crentes terem também dificuldade em crer?  
Paulo fala da experiência de Timóteo, cuja vó Eunice e a mãe Loide, tiveram uma vida de integridade e “fé sem fingimento”.  Esta autenticidade estava marcando agora a vida de Timóteo. Quando se vive a fé de forma transparente, sem máscaras, o efeito é libertador nas próximas gerações.

3.       Total confiança na obra de Cristo
...E, por isso, estou sofrendo estas coisas; todavia, não me envergonho, porque sei em quem tenho crido e estou certo de que ele é poderoso para guardar o meu deposito até aquele Dia” (2 Tm 2.12).
Paulo não diz “em que”, mas “em quem”. Este é o terceiro pilar da vida cristã autentica que podemos observar neste texto. Paulo afirma: “Porque ninguém pode lancar outro fundamento, além do que foi posto, o qual é Jesus Cristo” (1 Co 3.11). Paulo afirma “si em quem tenho crido”, e diz ainda “estou certo”. Determinadas verdades são essenciais para a caminhada com Cristo. Não podemos ficar inseguros sobre quem estamos firmando nosso fé e esperança. Precisamos saber e estar bem certo disto.

Muitas vezes encontramos pessoas inseguras quanto a aspectos essenciais da sua vida espiritual. Paulo, porém, coloca sua inteira confiança na obra de Cristo, não apenas para sua salvação, mas também para a perseverança na fé. Se você não tem convicções bem claras no seu coração sobre Jesus Cristo, certamente viverá sempre inseguro.

Paulo fala que Deus “é poderoso para guardar o meu depósito até aquele Dia”.
Aqui aprendemos alguns princípios importantes:

Número 1: A obra da salvação está totalmente centrada naquilo que Deus faz, não nas nossas realizações. “Sei em quem tenho crido”

Número 2: A obra da salvação está nas mãos de alguém que é poderoso. “...Estou certo de que ele é poderoso”

Número 3: A obra da salvação é garantida pelo próprio Deus.  “...Poderoso para guardar o meu deposito”.

Número 4: A obra está ainda incompleto, mas temos a garantia de aquele que tem poder vai completa-la cabalmente. “Ele é poderoso para guardar o meu depósito até aquele Dia”.

Conclusão:
Recordando, Estes são os três pilares da fé autêntica:
Consciência pura
Fé sem fingimento;
Total confiança na obra de Cristo.
Para concluir este texto, Paulo faz duas recomendações a Timóteo. Esta é uma forma de responder ao desafio da fé:
1.       Mantém o padrão – (2 Tm 1.13)
2.       Guarda o bom depósito – (2 Tm 1.14)