quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Zc 3.1-10 No tribunal de Deus


Introdução:

Este texto exige do leitor um pouco de imaginação. A cena é a de um tribunal, e nele se encontra o réu, que será apontado como culpado pela promotoria, defendido pelo advogado, e sentenciado pelo juiz. Além destes, o texto relato a presença de outras que estavam ali. Os personagens são: O Sumo sacerdote Josué (3.1); O Anjo do Senhor (3.1); Satanás (3.2); Yahweh – O SENHOR, e as testemunhas “os que estavam diante dele” ((3.4).

Josué encontra-se diante do Anjo do Senhor, mas o papel de Satanás é declarado: Ele estava ali para se opor a Josué. O termo Satanás vem do hebraico, cujo significado é “acusador”. Em Apocalipse 12.10 vemos o céu em festa, porque Satanás, o acusador, havia sido expulso dos céus pela autoridade de Cristo. Curiosamente, o acusado, Josué, não esboça qualquer defesa, nem abre sua boca.

Satanás encontra-se diante do Anjo do Senhor para se opor a Josué. Ele não está dirigindo sua atenção nem está interessado em qualquer outro personagem do texto, sua acusação é contra Josué.

Quem é este Anjo do Senhor?

O termo “Anjo”, especificamente neste texto, aparece com letra maiúscula. Trata-se daquilo que os teólogos chamam de “teofania”, isto é, uma manifestação cristológica. Vemos o anjo do Senhor aparecendo várias vezes no AT. Jesus se manifestando a-temporalmente, já que não havia assumido sua forma humana e revela-se como uma figura angelical.
Temos, portanto, um homem, Satanás, Jesus e Deus – afora as testemunhas. O tribunal do Senhor está montado.
Por que Josué não se pronuncia? Várias razões podem ser apontadas, entre elas:

ð  Ele é réu confesso – Ele está “trajado de vestes sujas” (3.3), ele não tem defesa, seria realmente condenado. Por isto Satanás se opõe à ele e o acusa.

ð  Porque, mesmo que as acusações de Satanás fossem exacerbadas, o fato é, que num nível inconsciente ele se percebia culpado. Não é assim que acontece conosco? Eventualmente nos sentimos injustiçados por certas acusações que nos fazem, e isto nos fere muito, porque em certo nível, todos temos algum grau de culpa;

ð  Porque Deus é sua defesa. Ele não se defende, mas Deus o defende: “Mas o Senhor, disse a Satanás: O Senhor te repreende, ó Satanás” (3.2). Não é isto maravilhoso? Ter Deus julgando a nosso favor? A Bíblia diz todos somos pecadores, e, “Se, todavia, alguém pecar, temos advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o justo” )1 Jo 2.1). Por isto, no diz do juízo, nossas defesas são ineficazes e inoperantes, mas a defesa de Cristo é suficiente e eficaz. Portanto, no juízo, certifique-se de que Jesus Cristo, o justo, será seu advogado.

A defesa que Deus faz a favor de Josué, possui alguns elementos:
A.      Sua eleição – Muitas pessoas discutem sobre a questão da eleição na Bíblia, mas esta verdade bíblica é coerente e sistemática, tanto no AT como no NT. A mente de Deus não pode ser equacionada, mas em todos os lugares da Bíblia você encontrará a afirmação da eleição livre e soberana que Deus faz ao seu povo. Este é o primeiro argumento que Deus usa para absolver Josué: “O Senhor, que escolheu a Jerusalém, te repreende” (Zc 3.2).
Deus repreende a Satanás tendo por base sua livre escolha. “O Senhor escolheu”. Eleicao é sempre um processo de Deus, feito pela sua livre vontade e ele não pressupõe virtudes naquele que é eleito - é sempre ato de sua graça e livre vontade. Sua graça é abundante, imerecida e plena.

B.       Deus tem pleno conhecimento da realidade espiritual de Josué – Ele não ignora sua realidade. A aceitação de Deus a favor de seu povo não se dá porque Deus não nos conhece, mas antes, apesar de nos conhecer. “Não é este um tição tirado do fogo?” (Zc 3.2). Deus sabe da biografia de Josué. Sua condição moral e espiritual não era nada boa, ele está trajado de roupas sujas. Apesar de se encontrar diante de Deus e do Anjo do Senhor, sua condição e aparência são horríveis. Deus sabe que ele é “tição”, chamuscado, queimado, torrado, mas ainda assim dispensa sua maravilhosa graça.

C.      Deus declara sua absolvição – “Eis que tenho feito que passe de tia a tua iniquidade” (3.4). Josué não conquista sua absolvição, mas a recebe livremente do pai. Ele está inadequadamente em pé diante deste tribunal, mas graciosamente recebe a noticia de que sua iniquidade não mais estava sobre seus ombros. Neste tribunal onde todos os segredos são revelados, ele seria totalmente reprovado, se as bases de sua justificação fossem seus atos e suas roupas.

Esta é uma promessa maravilhosa. Não mais condenado, nem à mercê da acusação do diabo, não mais vítima de uma consciência culpada, não mais tendo que se esconder por causa da devastadora culpa, resultado de decisões pecaminosas, mas perdoado. “Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu ou antes, quem ressuscitou, o qual está a direita de Deus e também intercede por vós” (Rm 8.33-34). Percebe quanto regozijo e alegria há nestas declarações de Paulo? Você também tem se apropriado do perdão de Deus através de Cristo, desta forma?
Mas o texto prossegue, após a sua maravilhosa declaração de perdão, absolvendo o Sacerdote maltrapilho, Deus passa a instruir seu servo.

D.      Deus ordena trocar as vestes – “Tomou este a palavra e disse aos que estavam diante dele: Tirai-lhe as vestes sujas” (3.4). No livro de Apocalipse lemos que vestes brancas, são os “atos de justiça dos santos” (Ap 19.8). Tem a ver com nossa atitude, comportamento, ética.
Na parábola do casamento relatada por Jesus, um dos convidados decidiu entrar na festa e ficar nela sem trocou suas roupas sem colocar as “vestes nupciais”, e logo vem o dono da festa e pergunta: “Amigo, como entraste aqui sem veste nupcial?” (Mt 22.12). Estas vestes eram geralmente providenciadas pelo dono da festa, mas aquele homem se recusou a usá-las. Muitos ainda hoje querem participar deste convite amoroso da graça de Jesus, trajando suas antigas e maltrapilhas roupagens, sujas do pecado e da imoralidade.

E.       Deus restaura sua dignidade e autoridade – “Ponham-lhe um turbante limpo sobre a cabeça” (3.5). Roupa limpa e turbante limpo. Estes turbantes eram espécies de mitras sacerdotais, símbolos de autoridade espiritual. Ainda hoje vemos isto em concílios católicos, com os cardeais colocando estas mitras, e em religiões como o monoteísmo com seus talibãs colocando estes símbolos que são sinal de autoridade e geram respeito no povo.
Um detalhe é interessante e não podem ser esquecidos: “E o anjo do Senhor estava ali” (Zc 3.5). Tudo isto é feito na presença de Jesus, tudo isto encontra-se diante do nosso advogado. Restauração plena. “Agora, pois, nenhuma condenação há, para aqueles que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1).

Este sacerdote maltrapilho somos todos nós. Josué fala da natureza daquilo que somos. Diante do tribunal eterno, não ousamos levantar a voz. Que autoridade temos? Nossas roupas estão sujas, nossa autoridade destituída, Satanás, de forma avassaladora denunciando implacavelmente e nos acusando. Graças a Deus por Jesus, que é o nosso advogado. Ele assume nossa condição e se torna propiciação pelos nossos pecados. Ele tira a culpa dos pecados, assumindo-a em nosso lugar, nos deixando limpos.

F.       Deus lhe ordena a viver em santa obediência e temor- (3.7). A obra de Deus é tao maravilhosa que a única resposta que se pode dar é de uma vida de santidade.

Por que isto é tão importante?
Porque Deus quer que ele tenha autoridade para fazer sua obra e ter “livre acesso entre os que ali se encontram” (3.7). Quem são estes que se encontram neste tribunal?

i.                     As testemunhas – O texto sugere que outros personagens acompanhavam com interesse o desenrolar deste julgamento. A estes foi ordenado que lhe tirassem a roupa suja e lhe restituíssem a dignidade (3.4), e é diante destes que Deus deseja que Josué permaneça. Não mais uma vida de fuga e medo, mas uma vida de pessoas redimidas e tratadas.

ii.                   Satanás – Uma vida de obediência e perdão, habilita o seu povo a não ficar constrangido diante das acusações do diabo, afinal, ele sabe tudo sobre nosso pássaro, e nos precisamos saber tudo o que Deus nos fez. “Sou grato a Deus que me confiou o ministério, a mim que antes era blasfemo e insolente” (1 Tm 1.12). Satanás não tem poder de me acusar, naquilo que Deus teve prazer em perdoar.

iii.                 O Anjo do Senhor – É uma benção estar diante de Cristo, pecador sim, mas redimido e restaurado. Sinto-me amado,  aceito, adotado, herdeiro das infindáveis graças de Deus.

G.      Deus promete a vinda do Messias – “Eis que farei vir o meu servo, o Renovo” (3.8). Este texto é profético e messiânico, escrito cerca de 600 anos antes da vinda de Cristo. “Tirarei a iniquidade desta terra, num só dia” (3.9). A obra que Deus realizaria pelo sacrifício de Cristo seria completo, cabal e único. Com o sangue de seu filho, toda justiça de Deus foi satisfeita. “Tudo está pago!”. Jesus morreu, uma vez só, pelos pecadores, e naquele ato tirou toda culpa.

Este texto, desconstrói-se uma serie de pressupostos religiosos apregoados e defendidos em diferentes religiões:

a)- O conceito do purgatório – A expiação humana não se dá por um longo e complexo processo de sofrimento e pagamento de contas. Jesus, num único dia, fez a obra que séculos não fariam.

b)- O conceito de reencarnação – Mediante o qual, precisamos de várias vidas para sermos aperfeiçoados, até conseguirmos aperfeiçoar nossa natureza moral e espiritual e nos tornamos espirito de luz, e não precisamos mais nos encarnarmos.

c)- Auto flagelação – A ideia de que, através do sofrimento, mutilação, cilícios e auto punição seremos capazes de nos purificarmos. A obra do Servo de Deus, realizaria tudo isto num “único dia”.

d)- Moralismo – A iniquidade também não é retirada, nem somos absolvidos, porque vivemos um padrão moral que nos impressiona, mas pelo sacrifício único, pleno, eficaz do Cordeiro de Deus.

H. Deus promete uma experiência de vida comunitária e compartilhada – “Cada um de vós, convidará o seu próximo para debaixo da vide e debaixo da figueira” (Zc 3.10).

Deus não nos chama para um projeto de solidão, mas de amizades duradouras e longas. Ele afirma que teremos a alegria de assentarmos debaixo de um pé de manga e tocar modas de viola, assentarmos com os amigos para comer um gostoso feijão com arroz. Vida compartilhada, sem solidão e abandono.

Isto tem feito um sentido cada dia maior para mim. Quanto mais envelheço, mais sinto necessidade de amigos e pessoas para compartilhar minha história, para conversar e contar “causos”. Deus deseja que experimentemos esta maravilhosa restauração, compartilhando a sombra do dia e comendo juntos. Deus fala do seu povo vivendo em comunidade e comunhão.

Conclusão:

Que benção estar diante do tribunal de Cristo, tendo ao nosso lado o Anjo do Senhor. As acusações estão presentes, mas aquele que nos restaura e purifica, traz sua graça e misericórdia para experimentar tão grandes benefícios como os que foram mencionados nesta passagem das Escrituras Sagradas.
Neste tribunal, tão temido, podemos experimentar não a condenação, mas a restauração da dignidade e da honra que Deus deseja dar àqueles que são renovados pela maravilhosa expiação e graça que pode ser encontrada na cruz de Cristo.

Que Deus nos abençoe!!

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Desmascarando os Ídolos



Leitura Bíblica: Ez 14.1-8

Introdução:

Quando falamos de ídolos, geralmente pensamos nas figuras caricaturais de pagãos elevando suas preces a esculturas bizarras e representações de animais ou pessoas de sua devoção (Is 44.16-17). Uma definição simples de ídolo, porém, é tudo aquilo que ocupa nosso coração ao invés de Deus. Precisamos reconhecer a tendência que temos em nosso coração em não crer em Deus e criar substitutos em nossa vida.
O profeta Ezequiel fala de “Ídolos do coração”. Representações divinas que construímos na nossa alma e que se tornam substitutos de Deus.
q  “Um ídolo é algo dentro da criação que é colocado de forma inflacionada a assumir o lugar de Deus. Todas as coisas podem se tornar potencialmente em ídolos. Um ídolo pode ser um objeto físico, uma propriedade ou uma pessoa, uma atividade, uma regra, uma instituição, uma esperança, um prazer, um herói…Sendo isto verdade, como poderemos determinar quando alguma coisa é …um ídolo?” Richard Keyes The Idol factory in No God, but God.

A Questão essencial:
"Há alguma coisa ou alguém, além de Jesus Cristo que tem assumido no nosso coração uma função de confiança, preocupação, lealdade, serviço, medo ou prazer?” Existe alguém ou algo que temo, amo, confio ou desejo - Mais que a Deus?

Êxodo 32.1-4,19-24 Facilmente o povo abandona a Deus e se curva diante de deuses falsos. Tão logo Moisés desapareceu por 40 dias, seu irmão Arão, resolve fazer um deus, um ídolo. (Ex. 32) Arão dá uma desculpa esfarrapada e joga a culpa no povo. “Tu sabes que o povo é propenso para o mal” (vs.22) e justifica-se: “eu o lancei no fogo, e saiu este bezerro” (Vs. 24).
Para Lutero, idolatria é o pecado detrás de todos os pecados.

Por que a grande tentação do Antigo Testamento é sempre a idolatria?


  1. O grande problema da vida é a dificuldade de dar a Deus a centralidade de tudo que fazemos (Rm 1.18-23). Num nível motivacional nós não queremos dar a honra que Deus é merecedor, por isso criamos ídolos, ou melhor, estabelecemos coisas como deuses para nossas vidas. Para negarmos o controle de Deus sobre nossas vidas, nós escolhemos outras coisas que possam ser substitutos de Deus. “Eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do criador” (Rm 1.25). Por isso, distorcemos a vida e seguimos a mentira.
ü  Tim Keller. “Na base de nossas escolhas, nossa estrutura emocional, nossa personalidade é um falso sistema de fé centralizado em um ídolo". Os homens “mudaram a glória de Deus” (Rm 1.23). Por esta razão, todo ser humano torna-se escravo. Ninguém de fato é livre porque para quem damos a vida, somos obrigados a servir. Os homens “Adoraram e serviram a criatura em lugar do criador” (Rm 1.25), isto é, quando passaram a adorar, passaram também a servir.
ü  Mesmo após nossa conversão, facilmente somos distraídos pelos “ídolos de nosso coração”. Os homens “Levantaram ídolos dentro do seu coração” (Ez 14.3). Ídolo tem a ver com nosso coração. Deus revela aqui não que estas pessoas adoravam determinados ídolos feitos em barro, mas que os ídolos estavam arraigados nos seus corações.

ü  Ídolos controlam o coração. Por isto o profeta Ezequiel se refere aos ídolos do coração, eles habitam o interior, a nossa alma, afetam o coração e passam a exercer o controle. Ídolos são forjados nos corações (Ez 14.4).

  1. O ídolo, também, nos faz pensar que é impossível ser feliz sem sua presença
ü  Glotunaria - transforma a comida em obsessão.
ü  Ambição - Torna-nos escravos do sucesso.
ü  Luxúria - Nos faz depender de sexo e pornografia.
ü  Ganância– Nos faz viver em torno do lucro.
ü  Vaidade – nos torna prisioneiro da estética.
ü  Os ídolos nos fazem crer que se não tivermos estas coisas não podemos ser felizes.
ü  Karl Meninger – Livro: Pecados de nossa época, fala de um homem rico e avarento: “Eu não posso imaginar tocando nos meus bens, eu morreria se desse mesmo uma pequena parte dele”.  

  1. Ídolo é um sempre um substituto de Deus - O pecado nos predispõe a querer viver de forma independente de Deus. “Adoraram a criatura em lugar do criador” (Rm 1.25).
ü  Trabalho - pode se tornar um ídolo se o perseguimos de uma forma que ignoramos as responsabilidades espirituais;
ü  Família – Mesmo sendo uma instituição divina, pode se tornar um ídolo;
ü  Bem-estar - um desejo legítimo torna-se um ídolo quando não nos desestabilizarmos por causa de nosso conforto.

O que tem ocupado o meu coração? Alguma coisa ou alguém está tomando o lugar de Deus em minha vida? O que tem ocupado minha mente?

  1. Ídolos criam falsa sensação de controle, temos a impressão de que temos poder, mas na verdade, é ele que nos controla.
ü  Ilustração ratinho experimental: Existe uma charge em Psicologia experimental de certa pessoa estava estudando o comportamento de pequenos ratos que precisavam encontrar sua comida dentro da gaiola. Lá pelas tantas, um ratinho olhou para o outro e disse: “acho que esta pessoa está condicionada, porque todas as vezes que eu aberto esta barra ele me dá comida”.
É isto que o ídolo faz conosco. Criamos deuses à nossa imagem e semelhança e pensamos que podemos controla-los, mas não percebemos, na verdade, que são eles quem nos dominam. Os ídolos criam falsas leis, falsas definições de sucesso e fracasso, de valor e estigma. Ídolos fazem promessa de benção e maldição para aqueles que seguem suas leis ou a desobedecem. Por exemplo: “Se fizer bastante dinheiro, estarei seguro”, ou, "Minha vida será bem sucedida se"…ou, "as pessoas me respeitarão e vão gostar de mim, se"…

O resultado, segundo Oden, é que nos tornamos escravos destes ídolos.
  • Torno-me ansioso na medida em que idolatro valores finitos.
    • Exemplo: Idolatria do corpo - Torno-me frágil e ansioso quando percebo que as rugas aparecem e ele não tem mais aquela estrutura bonita.
    • Idolatria do sucesso - Me desespero quando não estou em evidência.
    • Idolatria do dinheiro - Não consigo pensar na idéia de viver sem ele;
  • Sinto-me inseguro quando tais ídolos não estou em evidencia.
  • Experimento vazio e falta de sentido. Alguns chamam isto de desespero, e as formas mais brandas são o desapontamento, desilusão e cinismo.[1]



Conclusão:
Desmascarando os ídolos

É necessário tirar dos ídolos o status que lhe atribuímos de imprescindíveis, insubstituíveis e necessários. Este é o primeiro caminho. Quando Moisés chegou ao arraial, depois de receber, ele quebrou os ídolos (Ex 32.1-24). Isto demostrou como é fragilidade daquele bezerro de ouro em quem o povo de Israel colocou a confiança. Ídolos precisam ser denunciados, desmascarados, porque criam um campo de ilusão acerca deles.
Quando confrontamos falsos ídolos, que criam ilusória percepção de segurança, veremos não apenas como eram frágeis, mas surgirá no coração um grande sentimento de liberdade.
Para lutar contra um inimigo tão astuto, precisamos construir uma liturgia de vida para que possamos consagrar nossos afetos a Deus, o único merecedor de nossa adoração.

  1. Não trazer outros ídolos diante do Senhor –Então falou o Senhor todas estas palavras: eu sou o Senhor, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de mim” (Ex 20.3).
É estranho pensar que podemos “trazer outros deuses diante de Deus”, mas não é isto que fazemos? Muitas vezes oramos para que Deus nos dê algo, e Deus está olhando para nós e dizendo. “Você não precisa disto! Eu não devo lhe dar isto! Sua necessidade é falsa. Eu quero que você queira a mim, e não isto que você está pedindo!”

  1. Regozijar-se na graça e obra de JesusPrecisamos admitir que temos buscado segurança em nos esquemas e na justiça própria, mas a grande mensagem do Evangelho é que nós somos aceitos em Cristo.  Todos os problemas surgem porque nos esquecemos quão amados somos por Jesus, quão honrados, quão bonitos, quão seguros, quão ricos, quão respeitados e livres somos em Deus. Todas as outras formas de encontrar sentido e prestígio são vãs. Precisamos confiar somente em Jesus.

3.       Guardar-se dos ídolos – Nosso coração precisa estar atento às sofisticadas formas de se revelar em nossas vidas. “Filhinhos, guardai-vos dos ídolos” (I Jo 5.21). 

Deixe-me dar uma lista de exemplos de idolatrias sutis, voltando à pergunta que fizemos assim:
a.       Medo – A quem ou o que tememos?
b.       Confiança – Em que ou em quem colocamos nossa confiança?
c.        Desejo – O que tem se tornado o objeto de meu desejo?
d.       Amor – O que eu amo, acima de Deus?
Alguns exemplos:
i.                     Um medo obsessivo de que meu filho não saia bem na vida pode me governar e me dominar completamente, de tal maneira que posso viver constante manipulando-o, controlando-o, preocupado e até mesmo irado. Eu não o confio a Deus, mas passo a ser mentalmente dominado por este medo que passa a exercer o controle minha vida.

ii.                   A vida dos filhos - Quando estávamos nos mudando dos Estados Unidos para o Brasil, no final de 2002, minha esposa, foi tomada de uma grande aflição, quando minha filha Priscila nos pediu para ficar até que ela terminasse o High School. No meio da ansiedade Deus lhe trouxe uma compreensão clara ao coração: "Eu sempre cuidei dela, pode ser que você esteja pensando que a responsabilidade era sua, mas eu apenas a dei a você, para que você estivesse com ela estes anos, mas quem sempre cuidou dela fui eu". Isto acalmou seu coração. Compreendeu que existia um Deus acima, e assim pode colocar sua confiança não mais nos seus recursos, nem no seu domínio, nem naquilo que julgava ser sua responsabilidade, mas em Deus.

iii.                 Desejo por segurança e estabilidade financeira pode se transformar num ídolo. Queremos tanto ter uma vida tranquila, sossegada, recursos financeiros disponíveis, que passamos a colocar nosso coração nisto, e se algo ameaça este ídolo, nos desesperamos, perdemos o controle, porque achamos que a segurança financeira pode controlar a vida. Por isto não somos capazes de ser liberal com meus recursos. Não trago o dízimo à igreja, não contribuo para a obra de Deus porque internamente tenho medo de ficar sem dinheiro. Por isto a Palavra nos ensina que “o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males”, e “a avareza é idolatria”.

Uma senhora idosa, aos 90 anos de idade andava muito preocupada, e seu filho procurou saber o que estava acontecendo. Ela respondeu: “Tenho medo de que meu dinheiro não seja suficiente até o final da vida”. Como ela tinha muitos bens e uma situação financeira tranquila, o filho colocou no papel tudo o que ela possuía e disse: “mamãe, a senhora pode viver neste estilo de vida, por mais 15 anos, sem faltar absolutamente nada para a senhora”. E ela respondeu: “E depois dos 15 anos?”.
Que medo domina sua vida? Quando confiamos em sistemas ou métodos e não em Deus isto é sinal de idolatria. Quem você pensa que controla sua vida? Os ídolos nos fazem crer que circunstâncias, controles externos é que fazem isto, e tiramos assim os olhos de Deus.

É bom entender que tais categorias não são estáticas, mas dinâmicas. Por exemplo, temer que o dinheiro vá faltar e ficar dominado pelo pensamento de que não terá no futuro para as suas necessidades, faz você pôr seu coração e sua confiança nos bens. Confiar no dinheiro e em posses para sua paz pode revelar onde está o seu coração. Dinheiro pode se tornar um ídolo ao qual passamos a servir e obedecer. Jesus afirmou que o dinheiro é uma entidade espiritual, um ser com vida própria, chamou-o de Mamom (Mt 6.24). O termo que é traduzido para riquezas vem do grego e era uma referência de Jesus a um ser espiritual, e pela sua natureza exigirá adoração.
Considere os tipos de comportamentos ou pecados de superfície que podem virar ídolos nos corações. Pense nos pontos acima: A quem eu amo, temo, confio e desejo mais que a Deus?
Considere novamente a avareza, que é idolatria. Um dos ídolos de nossa cultura e de nossa geração. Como você pode saber que isto é um ídolo em sua vida? Como funciona seu desejo, confiança e medo em relação a ele?

As quatro categorias – medo, confiança, amor e desejo – são exemplos de como as coisas podem reger nossas vidas. Considere os tipos de comportamento ou pecados de superfície que podem ser proveniente destes ídolos:

Eu temo:
__ Rejeição das pessoas, ataques ou controle                                            __ Perda do controle
__ Perder, ou não ganhar reputação                                                             __ Falta de dinheiro
__ Ser demitido ou ver meu chefe irado comigo                                       __ Ficar doido
__ Mau comportamento de meus filhos.                                                     __ Meia Idade
__ Meu passado ou meu pecado sendo exposto        .                               __ O futuro
__ Rejeição de minha esposa ou amigos                                                     __ Doenças
__ Perda de uma herança                                                                                __ Velhice
__ acusações de amigos ou esposa (o)                                                         __ Morte
__ Punição                                                                                                         __ Falência.

Eu confio
__ Bebida/jogo (escapismo de frustrações e tédio).                                   __ Meus próprios recursos
__ Sexo/Pornografia (Prazer, alivio).                                                            __ Segurança/ Paz
__ Comida (alivio da monotonia, saúde, prazer, paz).                              __ Meus dons e habilidades.
__ Alguma figura idealizada (atleta, pastor, músico)                                __ Controle/Ordem.
__ Herança, seguros, posses (para manter minha segurança).                  __ Luxúria.
__ Saúde (meu estilo de vida, minha ginástica...)                                      __ Status.
__ Meu trabalho (segurança, status, ganho financeiro)                            __ Dinheiro.
__ Meus filhos, trabalho, casamento (para alegria)
__ Prazer (comida, bebida, drogas, sexo, diversão)
__ Aparência física (ginástica, moda, beleza)

Eu desejo
__ Me sentir bem (comer, beber, drogas, sexo).                                          __ Prazer/conforto
__ Libertação de limitações financeiras                                                      __ Paz em minha casa
__ Adoração/reconhecimento/sucesso                                                        __ Amor dos outros
__ Que meus filhos sejam responsáveis                                                      __ Bens materiais
__ Bênçãos de Deus                                                                                        __ A casa boa
__ Que meu esposo (a)/amigo me ame                                                         __ Conhecimento
__ Circunstâncias sejam mudadas                                                                 __ Aprovação
__ Competência e afirmação                                                                          __ Saúde

Fonte: Apostila Gospel Transformation (Sonship).

Conclusão:
Mais sutil do que tudo ainda, não somente confiamos em outras coisas para nos abençoar, mas também confiamos em nós mesmos. Em outras palavras, podemos nos colocar no trono, e nos transformar em nossos próprios deuses. Assim, o orgulho, a independência e a altivez, passam a nos dominar. Não mais nos curvamos diante de Deus, porque não dependemos dele na vida. Acreditamos que somos senhores do destino, e que somos nós que fazemos a história. Não precisamos de Deus.
Não é esta a sugestão luciférica desde o paraíso? Vocês podem se tornar como Deus! Deus governa o universo em cima de pressupostos mentirosos, ele mente! Você pode se libertar dele e se colocar no mesmo nível espiritual.





Perguntas para discussão:


1. O conceito de Idolatria ficou claro para você?
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2. Onde está o teu coração? O que poderia ser tirado de você sem o qual não conseguiria viver? Até que ponto este medo não revela um ídolo de seu coração?
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3. O que realmente deseja acima de tudo?
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4. Em que você tem consumido sua vida? Onde você tem colocado seus talentos, dons e recursos, além de Deus? Como isto afeta sua espiritualidade?
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5. Você não gostaria de quebrar este ídolo do seu coração? Que sentimento você tem quando você pensa em abandonar este ídolo?
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Samuel Vieira





[1] . Oden, Thomas C., Two worlds: Notes on the death of modernity in America and Russia, chap. 6

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Ap 22.6-21 As últimas Palavras de Deus


Introdução:
Um dos textos que tive em minha companhia durante este tempo em que estive pesquisando o livro de Apocalipse foi o livro  “The God’s final word” (As últimas palavras de Deus), da autoria de Ray Stedman.[1] Embora tenha divergência teológicas em alguns textos com este autor creio que ele foi um dos que mais me inspiraram quando ao modelo e a abordagem que gostaria de dar a este livro, cuja finalidade é devocional e pastoral. O título deste livro citado, é o que resolvi dar a este último sermão expositivo de Apocalipse.

Não é acidental que Apocalipse apareça como o último livro da Bíblia. Ele agrega, sintetiza e faz a conclusão de todos os demais temas da Bíblia. Genesis nos fala do início da história humana e da civilização, o livro de apocalipse de acordo com sua própria etiologia, nos revela o capítulo final da raça humana. (apokalupsis literalmente significa que algo foi descortinado, o véu que obscurece nosso entendimento foi removido e o mistério desfeito).

Só Deus conhece o fim desde o começo. Este texto é uma revelação, uma profecia. Na medida em que caminhamos pelo livro de Apocalipse vimos muitos mistérios sendo revelados e denunciados. Descobrimos porque o mal persiste na terra e desvendamos alguns mistérios relacionados às realidades espirituais. O Livro de Apocalipse nos traz o projeto final de Deus para a humanidade, já que “os dons e vocação de Deus são irrevogáveis”. (Rm. 11:29) E este texto aqui, em especial, é feito de uma série de pequenos lembretes e advertências. Estas são as últimas palavras de Deus, reconhecidas pela Igreja Cristã em todo o mundo, como o fechamento do cânon, isto é, todos os livros que são dignos de confiança e que podem ser regra de fé e prática estão aqui encerrados, e nada mais pode ser acrescentado ao que já foi escrito.

Controvérsias tem surgido sobre este assunto. Tanto de liberais como de pentecostais. Tillich afirma que a na época dos pais apostólicos, o cânon ainda não havia sido estabelecido. “Foram necessários mais de 200 anos para que a igreja tomasse uma decisão final sobre os livros do Novo Testamento que seriam aceitos como canônicos”.[2] E isto foi uma reação clara contra o conceito gnóstico bem como dos montanistas que adotaram a idéia da “sucessão profética”. A igreja negou peremptoriamente a possibilidade de novas revelações e a tradição hierárquica foi confirmada contra o “espírito profético”, que ficou confinado a movimentos sectaristas. [3] Tillich levanta questões dúvidas na questão da autoridade final do cânon. Tinha a igreja na época da patrística autoridade para definir o cânon, ou esta decisão foi tomada para suprimir as religiões estáticas que surgiam freneticamente em torno da igreja naqueles dias? As principais correntes teológicas da Igreja, tanto católicas, ortodoxas ou protestantes reconhecem a autoridade da Igreja para tomar esta decisão conclusiva.

Do lado dos pentecostais, este mesmo sentimento tem sido expresso. Alguns anos atrás assisti um vídeo no qual Peter Vágner, reconhecido professor de teologia do Fuller, Pasadena, CA, cujas raízes teológicas são de tradição Reformada, levantava questões sobre a possibilidade de novas revelações: “As vezes tenho a impressão de que tratamos Deus como um escritor aposentado, que falava, mas não fala mais”.  Contra tais possibilidades a igreja foi veemente. A Igreja determinou que a Bíblia fôsse uma norma absoluta. A Bíblia encerra em si mesma, todo o propósito de Deus, e não há necessidades de novas revelações ou profecias que possam ser acrescentadas ao conteúdo das Escrituras.

Obviamente este assunto é exaustivo, e não temos o objetivo de continuar nele agora.  Queremos sim, entender o sentido das últimas palavras de Deus, expressas neste livro de revelação.

Normalmente, as últimas palavras das pessoas são marcantes, citadas e lembradas por outros. São gravadas com ouro, porque elas representam a síntese do pensamento das pessoas, ou são revelações que podem mudar o curso de vida de outras pessoas, ou podem estabelecer um novo momento na vida daquela pessoa, ainda que moribunda. Assim foi com o ladrão na cruz, que vivia vida irresponsável e inconsequente, mas que diante da morte, vendo sua miséria declara a Jesus. “Lembra-te de mim, quando entrares no teu reino”.  E se surpreende pela absolvição profunda e marcante de Jesus que lhe afirma: “Hoje mesmo estarás comigo no paraíso”. (Lc.23:39-43)
Um das declarações finais mais freqüentemente citadas nos púlpitos seria a de Bocage, poeta desbocado, agnóstico e irreverente, que demonstrava não ter temor algum de Deus nos seus escritos, mas que diante da morte, grita desesperado. “amigos, rasguem os meus versos, crê na eternidade!”.
Neste texto vemos as últimas palavras de Deus, consideradas assim pela igreja de Cristo. Cremos que só a Bíblia é infalível e única regra de fé e prática, e que a Escritura traduz os decretos de Deus em sua inteireza e que nada, além da Bíblia pode ser definidora de qualquer conceito teológico. Os reformados diziam, sola scriptura, isto é, nada além da Escritura deve ser ouvido. Tudo o que Deus declarou, toda a sua verdade, completa, suficiente para nossa salvação e para fazer-nos sábios para a vida eterna encontra-se de forma plena, nas páginas do Velho e do Novo Testamento.  A Igreja entende que tais verdades são completas, embora não exaustivas, isto é, nem tudo que é verdade está relatada na Bíblia, mas tudo o que está na Bíblia é verdade. Cremos que nem a tradição, nem novas revelações, nem novos profetas ou mesmo suposta ciência que contradiga a Bíblia possa ser considerada de valor. A Palavra de Deus é infalível e inerrante.

Quais são as últimas palavras de Deus?

1.      Deus nos lembra que sua Palavra é absolutamente digna de confiança “Estas palavras são fiéis e verdadeiras”. (22:6) O conteúdo profético e narrativa da Bíblia não  é um amontoado de teorias, hipóteses ou possibilidades filosóficas ou espirituais. O que está narrado aqui é fiel. O anjo que comunica tal verdade a João faz questão de lhe assegurar isto, afirmando que o que ele ouviu isto do próprio senhor, o “O Deus dos espíritos dos profetas, enviou seu anjo para mostrar aos seus servos as coisas que em breve devem acontecer.(22:6)
Ao ler este texto, fiquei me perguntando porque o anjo faz questão de assegurar isto ao profeta? Provavelmente isto se deu como uma contraprova ao coração de João. Talvez ele mesmo pudesse se pegar indagando se aquilo tudo que ele ouvia era de fato proveniente de Deus, apesar de tudo lhe estar sendo claro. Deus sabia que o diabo poderia causar crise no coração deste fiel homem de Deus, assim como causou crise no coração de João Batista quando estava preso. (Mt. 11:2-6).  O anjo dá a João uma contraprova, uma palavra de encorajamento, reafirmando que tudo o que ele ouviu não era fruto de uma mente imaginosa dele, nem resultado de alucinações, mas era a revelação de Deus ao seu povo, verdadeira e confiável. (3:14;19:11)  Isto era uma profecia, vinda em forma de cenas, de visões e imagens. “Passarão os céus e a terra, mas as minhas palavras não passarão”.
Talvez esta afirmação tenha sido feita por causa de nós, os leitores. Pela sua natureza simbólica, o conteúdo deste livro seria questionado, como foi e ainda tem sido por muitos. Nós precisávamos estar seguro do que Deus revelara a João, por isto o anjo reafirma: “O Senhor, o Deus do espírito dos profetas, enviou seu anjo para mostrar aos seus servos”. (22:6) Em outras palavras, reafirma o fato de que esta profecia tem o mesmo peso e valor de outros tantos profetas da História de Israel, a quem João certamente admirava. Esta é a garantia do próprio Deus de que estas palavras são fiéis são fiéis e verdadeiras. Por isto devemos nos aproximar dela com reverência e sincero desejo de apreender sua mensagem. “Bem aventurado aquele que guarda as palavras da profecia deste livro”. (22:7).

2.      Deus reafirma que o futuro está próximo, “Eis que venho sem demora” (22:7) Muitos negligenciam esta palavra de Deus, achando-a demorada e perguntando: “Onde está a promessa de sua vinda? Porque, desde que os pais dormiram, todas as cousas permanecem como desde o princípio da criação”. (II Pd. 3:4)  Desde a época apostólica até hoje, muito escárnio e dúvida tem sido lançado sobre a volta de Jesus, mas se existe uma doutrina clara, sistematicamente repetida no Novo Testamento, tanto nos lábios de Jesus como de seus apóstolos é que ele virá outra vez.  Por isto, Deus, ao concluir suas últimas recomendações, ao trazer suas últimas palavras faz questão de enfatizar. “Eis que venho sem demora. Bem aventurado aquele que guarda as palavras da profecia deste livro!”. (22:7)
Mais uma vez este texto nos lembra. “Eis que venho sem demora!”  Muitos podem dizer que estas palavras foram escritas muito tempo atrás, e os apóstolos criam que Jesus voltaria logo, mas até hoje não voltou. Por que devemos esperar esta promessa? Não estariam os discípulos errados na interpretação das palavras de Jesus. Aqui é importante saber que este livro faz uma conexão entre tempo e eternidade que transcende a compreensão humana. Nós vemos o tempo de forma linear e cronológica. Olhamos para a experiência de João a 2000 anos atrás e achamos que isto é um longo tempo. Por isto Pedro tenta explicar esta tensão entre o nosso tempo e o tempo de Deus afirmando: “ Há todavia, uma cousa, amados, que não deveis esquecer: que, para o Senhor, um dia é como mil anos, e mil anos, como um dia. Não retarda o Senhor a sua promessa, ainda que alguns a julguem demorada”. (II Pd.3:8-9)  Existe uma coisa que não devemos esquecer. O que não podemos esquecer? Deus lê o tempo e a história numa perspectiva transcendental, dentro da ótica da meta-história, com as lentes da eternidade, enquanto nós, lemos a vida de forma cronológica, dentro da categoria aristotélica de tempo/espaço. Contudo, devemos estar certos. Jesus está voltando, sem demora!
Thomas A. Édson, foi o inventor da lâmpada incandescente e de milhares de outros pequenos objetos que revolucionaram a história da humanidade. Ele foi um dos maiores gênios criativos de todos os tempos. Mas algo ainda mais espetacular sobre a vida deste homem é que ele era um homem profundamente temente a Deus, e que esperava ansiosamente a vinda do Senhor. Um dia ele surpreendeu dois de seus auxiliares, um cristão e outro não cristão, discutindo sobre a vinda do Senhor. O não cristão não conseguia entender como isto seria cientificamente possível. Como é que Jesus viria nas nuvens, e a igreja seria arrebatada? Isto lhe pareceu uma história ridícula. Como isto poderia acontecer, se temos pessoas de todas as partes do mundo, como todos poderiam vê-lo?
Thomas Édson interferiu colocando alguns pedaços de borracha e algumas tachinhas e pequenos pregos sobre uma mesa daquela oficina. Logo em seguida, tomou um imã e passou sobre aqueles objetos. Os pregos se ligaram imediatamente ao imã, enquanto a borracha sequer se moveu. Então ele perguntou? “Porque as borrachas ficaram no mesmo lugar enquanto os pregos se moveram?” A resposta era óbvia. Os elementos químicos presentes nos pregos exerciam sobre eles uma força de atração em direção ao imã. E Édson então concluiu: “Assim será com a vinda do Senhor. Aqueles que estiverem identificados na sua natureza inerente, sentir-se-ão irresistivelmente atraídos a Jesus, e subirão para encontrá-lo””.

Eis que venho sem demora!”. Os cristãos são chamados a guardar as palavras desta profecia. “Deus não ordena os crentes apenas a lerem o livro de Apocalipse para satisfazer sua curiosidade acerca do futuro. Ele não providencia um material com detalhes especulativos e cartazes cronológicos sobre os eventos do fim dos tempos…Deus inspirou esta revelação com um propósito: revelar a glória do seu Filho e chamar os crentes a viver de forma santa, vida obediente à luz do seu iminente retorno. O propósito deste livro não é providenciar entretenimento, mas providenciar motivação para uma vida de santidade”.[4]

O tempo está próximo! (22:10)

3.      Nas suas últimas palavras, Deus afirma que Estas profecias não devem ser seladas, mas devem ser anunciadas –Não seles as palavras da profecia deste livro, porque o fim está próximo”. (22:10) Esta mensagem precisa ser anunciada. A mensagem deste livro não é para ser escondida. Uma razão é dada. “O tempo está próximo”.  (22:10)  Pelo fato de que os homens são mortais e passam, eles precisam ouvir a mensagem da salvação. Porque estamos às portas da vinda do Senhor, esta mensagem deve ser proclamada. (10:11) Esta mensagem deve ser pregada para produzir obediência, reverência e adoração.
Isto ainda nos aponta para o fato de que o livro de Apocalipse não tem uma mensagem que não possa ser absorvida pela igreja, pelo contrário, é uma mensagem clara. Ele não possui um código indecifrável, um significado secreto que foge da norma de interpretação que o próprio texto revela. “Se a verdade não é clara nestas palavras, então esta ordem não faz sentido”. [5]  Não devemos selar as palavras de Apocalipse para um pequeno grupo de eruditos, ou acreditar que seu conteúdo não é acessível para os leigos da igreja. Um velho pregador costumava dizer sobre a Palavra de Deus: “Se Deus não disse o que teria dito, porque ele não disse o que teria de dizer?” Não expor o livro de Apocalipse retira daqueles que amam a Deus o privilégio de perceber a Soberania de Deus na história e seu plano glorioso para o futuro da humanidade.

4.      Deus nos revela, nas suas últimas palavras, que apesar de todas estas verdades profundas, reveladoras e radicais, sua mensagem produz sempre resultados contraditórios e paradoxais: Ela provoca santidade em alguns, mas estimula rebeldia em outros. “Continue o injusto fazendo injustiça, continue o imundo ainda sendo imundo; o justo continue na prática da justiça, e o santo continue a santificar-se”. (22:11)
A forma como este texto é traduzido é um tanto estranho, dando-nos a idéia de que Deus está recomendando e referendando a prática da injustiça e da imundícia. Contudo, o que este texto está mostrando, e isto é mais uma das revelações deste livro, é que muitos, apesar de ouvirem todo o desígnio de Deus, não sentirão necessidade alguma de refletirem sobre o estado calamitoso de sua alma, e que, não mudarão seu estilo de vida em relação as coisas espirituais, apesar de tudo o que Deus já anunciou pelos santos profetas, e tem nos  lembrado no estudo de sua palavra, ao passo que, por outro lado, muitos vendo a gravidade e a seriedade do chamado divino, resolvem responder de forma profunda e santa à voz de Deus.
Estes que respondem ao convite de Deus, por causa de suas convicções e por amarem a Deus continuarão a praticar a justiça, apesar de toda a injustiça ao seu redor. Muitas vezes perdendo privilégios humanos, “preferindo ser maltratado junto com o povo de Deus a usufruir prazeres transitórios do pecado”. (Hb.11:25) Muitas vezes sendo zombados pelas suas escolhas, porque os valores sociais e humanos privilegiam quem pratica a injustiça. Mas, por amor a Deus, tais pessoas continuam a praticar justiça. Não se vendem, não se deixam subornar, não negociam valores. Vão continuar na prática da santidade e da busca a Deus, apesar do mundo facilitar tanto aqueles que resolvem viver na imundícia. Mesmo diante da desprestígio dos valores morais eternos, que tem sido tão desvalorizados, pagarão ainda o preço do amor a Deus porque “consideram o opróbrio de Cristo por maiores riquezas do que os tesouros do Egito, porque contemplam o galardão”. (Hb.11:26)  Muitas vezes sendo ridicularizados, muitas vezes zombados, mas sempre amando a Deus e aguardando a manifestação plena do Filho do Homem na História. Vivem em santidade, em plena expectiva de fé no Deus que faz e age na história. Esperando o galardão que Jesus tem “para retribuir a cada um segundo as suas obras”. (22:12).
Sr. Augusto Abrantes era um velho, pobre e negro presbítero da minha congregação na cidade de Gurupí-TO., com uma família imensa para criar, recursos muito limitados, mantia sua casa com trabalho duro e com muito respeito, sempre presente nos trabalhos da igreja e trazendo seus filhos à casa do Senhor. Por sua respeitabilidade, elegeu-se vereador da cidade. Certo dia foi procurado por um grupo de vereadores de um partido de oposição, que queria aprovação de um determinado projeto que os favorecia politicamente e que, percebendo que apenas mais um voto era necessário para a devida aprovação, acreditaram que seria fácil convencer aquele pobre homem. Foram sutilmente procurar o velho presbítero, sugerindo-lhe que, caso ele os apoiasse, o grupo lhe construiria uma casa porque ele, apesar da numerosa família que possuía, ainda não possuía casa própria.
Aquele homem, pediu para que parassem o carro no qual ele estava, desceu do carro lentamente, olhou para dentro do carro daqueles homens e lhes disse de forma pausada e sem expressar agressão no tom de voz: “Já foi o tempo em que preto se vendia. Passar bem senhores!”.

5.      Deus nos lembra, nas suas últimas palavras declaradas nas Escrituras, que ainda é tempo de salvação. “Bem aventurados aqueles que lavam as suas vestiduras no sangue do Cordeiro, para que lhes assista o direito à árvore da vida, e entrem na cidade pelas portas”. (22:14) Que o sangue de seu Filho continua a operar, e que não existe outro caminho para os céus a não ser que nossa vida seja purificada pelo sangue do Cordeiro. Esta é a essência do Evangelho. Haverá uma hora que será tarde para arrependimento. Por isto eta passagem final contém um comovente apelo para que todos aceitem o Evangelho. Mais uma vez, com grande ênfase, repete-se a necessidade de uma vida pura e santa. Há promessa de vida, de benção para aqueles que lavam suas vestiduras no sangue do Cordeiro, e uma advertência contra os ímpios: “Fora ficam os cães, os que praticam artes mágicas, aqueles que são imorais sexualmente, os assassinos, idólatras, e todos os que praticam e amam a mentira”. (22:15) Para os judeus, cães não eram animais de estimação e domesticados como são atualmente, na realidade eram símbolo de tudo o que era selvagem e impuro. “Cães” era um termo usado para pessoas perversas e inescrupulosas. (Sl.22:16,20; Fp.3:2)
O Evangelho é novamente anunciado aqui com um convite para aqueles que tem sede, para aqueles que desejam, para aqueles que entendem a necessidade que tem de serem lavados pelo sangue do Cordeiro, de terem suas vestiduras alvejadas pelo sangue. “Aquele que tem sede venha, e quem quiser receba de graça a água da vida”. 22:17  As portas estão abertas, o convite está feito. Deus mais uma vez dá oportunidade a nós, pecadores, para que nos arrependamos de nosso estilo inconsequente de viver e mudemos nossa atitude, nos aproximemos de sua graciosa oferta. Quando o Senhor vier será tarde demais. Hoje é tempo de salvação, esta é a hora de arrependimento! Aqui, neste comovente apelo, vemos que todo o mover de Deus se volta para que o homem seja salvo. Deus não quer que nenhum homem se perca, mas que todos sejam salvos.
Por isto, este texto nos mostra de que forma Deus opera para convidar as pessoas do mundo inteiro à salvação:
5.1.   O Espírito convida você a vir – O Espírito Santo é o principal agente motivador de Deus para que nos voltemos a Deus. Na verdade, conversão é obra exclusiva do Espírito. Ele convence do pecado, da justiça e do juízo (Jo.16:8), e é por esta razão que Deus motiva ao profeta Zacarias a dizer: “Não por força, nem por violência, mas pelo meu Espírito”. Zac.4:6 É este Espírito quem o convida a vir, quem diz de forma veemente: Vem! O Espírito de Deus tem chamado as pessoas a se aproximarem de Deus.
5.2.   A noiva convida você a vir – A noiva aqui é uma referência clara à Igreja de Cristo, como já vimos isto em estudos anteriores. A Igreja de Cristo é a boca de Deus, é o agente de Deus para tornar esta mensagem conhecida, para estender o convite a todos os homens, em todo lugar. A Igreja de forma incansável tem convidado as pessoas a virem. Sou pregador do Evangelho a mais de 20 anos, neste tempo não faço a mínima idéia de quantas pessoas já convidei para aceitar o convite de Jesus para salvação. Espero continuar, como parte desta noiva de Cristo, a dizer isto pelo resto de minha vida. Aceite o convite de Jesus. Venha! Se você tem sede de Deus, venha a Jesus, se você quer receber de graça a água da vida, venha! Porque Jesus Cristo está voltando, venha!

6.      Deus nos adverte, nas suas últimas declarações relatadas na Palavra, que não tenhamos a tentação de ampliar, nem subtrair o conteúdo de sua mensagem – Se alguém fizer qualquer acréscimo, Deus lhe acrescentará os flagelos escritos neste livro; e, se alguém tirar qualquer cousa das palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua parte da árvore da vida, da cidade santa e das cousas que se acham escritas neste livro!”. (22:18-20)
A advertência é clara: Não mude uma palavra desta profecia! Não acrescente nada à Palavra de Deus, não subtraia nada. Esta advertência também se aplica àqueles que, intencionalmente deturpam o ensino deste livro. “O cânon das Escrituras foi fechado no final do primeiro século quando o livro de Apocalipse foi  concluído. Qualquer falso profeta ou charlatão que acrescenta supostas novas revelações (tais como os Montanistas fizeram na Igreja primitiva, Joseph Smith e Mary Baker Eddy e outros profetas tem feito em tempos recentes) sofrerão as consequências de tais distorções. Deus trará a tais pessoas os flagelos deste livro. O julgamento de Deus é igualmente severo àqueles que retiram parte das Escrituras (como o herético Márcion fez na Igreja Primitiva e os liberais da Alta Crítica fizeram nos tempos modernos), Deus vai retirar-lhes a sua parte da árvore da vida”. [6]
A palavra de Deus não é uma descoberta humana, não pode ser manipulada em laboratórios ao bel prazer de curiosos. Seu objetivo é trazer obediência e temor e ensinar aos homens o caminho de Deus.

Conclusão
Como responder a estas solenes palavras?  Deus ainda tem falado por meio delas. Estas são as últimas palavras de Deus. Mas tanto nas suas primeiras palavras quanto nas últimas, Deus tem afirmado sempre que nem uma delas cairá por terra, mas fará tudo aquilo para o qual foi designada. A palavra não volta vazia, e ao pensarmos sobre o significado disto que ora foi exposto, é mister que nosso coração responda de forma convicta: Eu tenho sede Senhor. Eu desejo muito a sua companhia.
E porque ele vem, e sua volta inexoravelmente se dará conforme tudo o que ele antes predeterminou, e por sabermos que nada vai surpreender a Deus, nenhum evento da história está fora de seu domínio, antes, todas as coisas estão debaixo da sua grandiosa e tremenda majestade é que podemos dizer: Tudo está sob controle!

Maranatha vem, Senhor Jesus!





[1] . Stedman, Ray C., Grand Rapids, MI – Discovery House, 1991
[2] . Tillich, Paul – A history of Christian Thoughts – pg. 18
[3] . Tillich, op. Cit., 41
[4] . MacArthur, pg. 295
[5] MacArthur, pg. 297
[6] . John MacArthur, pg.310