“Aonde quer que fores, irei eu; e onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus; onde quer que morreres, morrerei eu e aí serei sepultada”
Rute 1.16–17
Este texto do Livro de Rute não fala do compromisso de um homem com uma mulher, mas de uma nora para uma sogra. Originalmente Rute está falando com Noemi, não com um cônjuge. Entretanto, o texto será forçado se o transformarmos numa teologia dos compromissos do casamento. Considerando isto, queremos aplicá-lo como princípios de compromisso ao casamento. Pessoalmente, vi muitos convites de casamento com este versículo, e sempre o achei muito oportuno. Ele traduz na sua essência alguns princípios maravilhosos do relacionamento de um casal. O amor verdadeiro transforma sentimentos em compromissos.
Rute não está simplesmente dizendo “eu gosto de você e não quero deixá-la”; ela está assumindo compromissos concretos, em várias dimensões. O texto fala de pelo menos seis compromissos, que se transformam numa decisão para a vida inteira, afinal, o casamento é sustentado não apenas pelo amor que sentimos, mas pelos compromissos que assumimos, estes princípios extraordinários de fidelidade, pertencimento e compromisso devem ser aplicados à aliança matrimonial. Casamento não é apenas encontrar alguém que você ama. É decidir permanecer comprometido com essa pessoa.
1.
Compromisso de companhia
“Aonde quer que fores, irei eu”
Este é o primeiro compromisso: o de que vamos caminhar juntos. No casamento eu não quero apenas estar com o outro apenas quando a vida estiver boa. Queremos juntos.” Ruben Alves afirma que antes de dizer sim, deveríamos perguntar: “Esta é a pessoa com a qual gostaria de passar o resto de minha vida conversando com ela?” Não é apenas morar na mesma casa; é compartilhar a jornada.
“Aonde quer que fores, irei eu” é um compromisso de caminhar juntos. Rute não diz: “Vou ficar perto de você enquanto for conveniente.” Mas: “Aonde você for, eu vou.” Haverá momentos em que um estará forte e o outro fraco. Um estará animado e o outro cansado. Um terá sonhos; o outro estará enfrentando dificuldades. Um pensa em desistir, o outro mantém firme o compromisso. Isto não quer dizer que o casal sempre terá as mesmas opiniões. Significa que, mesmo nas diferenças, não deixarão de caminhar lado a lado. Um projeto a dois, compartilhado, dividido, estrada afora.
Portanto, a palavra-chave: COMPANHIA.
2.
Compromisso de permanência
“Onde quer que pousares, ali pousarei eu”
Aqui existe uma ideia ainda mais forte: “Onde você estabelecer sua vida, ali será o meu lugar também.” É o compromisso de construir uma vida comum. Dormir junto com o outro, compartilhar o mesmo teto. Nada de vidas distanciadas. Não é: “Eu fico enquanto estiver bom para mim”, mas: “Minha vida está ligada à sua.”
Rute não está apenas dizendo: “Eu vou viajar com você.” Mas: “Onde você estabelecer sua vida, ali será também o meu lugar.” Casamento implica em construir uma casa, uma história, uma vida, deixar de pensar somente em “minha vida” e começar a pensar em “nossa vida”.
Há casais que vivem juntos, mas continuam emocionalmente separados: cada um tem seus projetos, seus interesses, seu dinheiro, seus sonhos, suas decisões. Mas uma aliança diz: “O seu lugar tornou-se o meu lugar.” Quem entra numa aliança matrimonial deixa de construir duas histórias paralelas e começa a construir uma história compartilhada.
A Palavra-chave é PERMANÊNCIA.
3.
Compromisso de pertencimento
“O teu povo é o meu povo”
Rute aceita não apenas Noemi, mas a história, a família e o povo de Noemi. Ela decide se vincular a seu povo, de forma espontânea, intencional. Muitas pessoas se casam, mas querem se manter distante da família do outro, isto não dá certo.
Para um casal, isso pode ser aplicado de maneira muito bonita: “Eu não me caso apenas com uma pessoa; eu passo a fazer parte da sua história.” Há aqui acolhimento da família, das raízes, da história e das relações do outro.
“Teu povo é o meu povo” aponta para o compromisso de pertencer. Rute não está apenas aceitando Noemi. Ela está aceitando a história de Noemi, seus vínculos familiares, sua hereditariedade. Quando nos casamos, recebemos o outro com uma história, de alegrias, feridas, experiências, família, lembranças, qualidades e limitações. Estamos dizendo: ““Eu recebo você com a sua história.” Isso não significa concordar com tudo da família do outro, mas honrar as relações e compreender que agora existe uma nova família sendo formada.
O amor maduro não ama apenas a pessoa que encontrou; aprende também a acolher a história que essa pessoa carrega.
A Palavra-chave é PERTENCIMENTO.
4.
Compromisso de aliança espiritual
“O teu Deus é o meu Deus”
Este é um ponto ainda mais profundo. Não apenas “Vou acompanhar você.” Mas: “Vou compartilhar a sua fé.” Firmar uma aliança espiritual. No casamento cristão, o compromisso não é somente, viver com o outro, mas mergulhar nos mistérios da sacralidade, um desejo de buscar a Deus com o outro. Compromisso de orar juntos, adorar juntos, servir a Deus juntos e conduzir a família debaixo do senhorio de Cristo.
“Teu Deus é o meu Deus” é o compromisso de caminhar com Deus. Rute não apenas diz “seu povo será meu povo.” Mas, “seu Deus será o meu Deus.” Não basta o marido amar a esposa e a esposa amar o marido, os dois precisam amar a Deus. Quando marido e mulher colocam Deus no centro, eles têm um referencial maior do que suas próprias vontades. Quando houver conflito, não será apenas “Quem está certo?” Mas, “o que agrada a Deus?” Numa decisão, não será apenas “o que queremos?” Mas: “O que Deus quer de nós?” Na crise o ponto não é apenas “como vamos sair disso?” Mas, “O que podemos aprender e edificar nossa fé em meio a esta turbulência?”
Um casamento forte não é aquele em que duas pessoas olham uma para a outra o tempo todo e ambas olham juntas para Deus.
A palavra-chave é COMPROMISSO ESPIRITUAL.
5.
Compromisso de fidelidade
“Onde quer que morreres, morrerei eu”
Esta é outra linguagem radical: Nem mesmo a morte será capaz de desfazer o vínculo que estou assumindo. Para um casamento, isso está profundamente vinculado à ideia da aliança: “Na saúde e na doença, na alegria e na tristeza…” É a fidelidade que não depende das circunstâncias.
“Onde quer que morreres, morrerei eu.” Eu não abandonarei você quando as circunstâncias mudarem. Esse é o grande teste do casamento. É fácil permanecer quando tudo está bem. É fácil amar quando existe saúde, dinheiro, disposição, beleza e sonhos realizados, mas a aliança matrimonial é testada quando essas coisas desaparecem.
Quando chega a doença, a crise financeira, os filhos dão trabalho, surgem
as diferenças, o outro envelhece, a vida não acontece como planejamos, é nesse momento que a palavra aliança ganha significado.
O sentimento pergunta: “Como estou me sentindo?” A aliança pergunta: “Qual foi o compromisso que assumi?”
A palavra-chave é FIDELIDADE.
6.
Compromisso de perenidade
“E aí serei sepultada”
Essa última frase é impressionante porque Rute está falando de algo permanente, não apenas de um compromisso temporário. Escolhi você para a minha caminhada até o fim. Escolhi você até que a morte nos separe. Casamento não é um contrato para enquanto der certo; é uma aliança para permanecer juntos enquanto a vida durar. Até o fim. Estes são os compromissos de uma aliança.
“E aí serei sepultada” é o compromisso de até o fim. Meu compromisso com você não tem prazo de validade. Neste momento o texto fala de morte e sepultamento. É como se dissesse: “Minha história será ligada à sua até o fim.”
Aqui podemos lembrar as palavras de Jesus: “O que Deus ajuntou não o separe o homem.” (Mt 19.6) O casamento cristão não é pensado como uma experiência provisória. É uma aliança. Não significa que não haverá problemas, mas que, quando surgirem, a primeira resposta não será abandonar a aliança, mas buscar restaurá-la.
Palavra-chave: Perenidade.
Expressão de Rute | Compromisso |
“Aonde quer que fores, irei eu” | Compromisso de companhia |
“Onde quer que pousares, ali pousarei eu” | Compromisso de permanência |
“O teu povo é o meu povo” | Compromisso de pertencimento |
“O teu Deus é o meu Deus” | Compromisso espiritual |
“Onde quer que morreres, morrerei eu” | Compromisso de fidelidade |
“E aí serei sepultada” | Compromisso de perenidade |
Conclusão: seis decisões para uma vida inteira
Isto nos leva a entender que o amor verdadeiro não é apenas um sentimento que une duas pessoas; é uma sequência de compromissos que sustenta duas vidas, uma espécie de renovação da aliança:
Eu caminharei com você.
Eu permanecerei com você.
Eu pertencerei à sua história.
Eu buscarei a Deus com você.
Eu permanecerei fiel a você.
Eu estarei com você até o fim.
“O amor começa com um sentimento,
mas o casamento permanece por causa dos compromissos.”
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