sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Jó 21 A Fé ante os Paradoxos




Introdução:

Um grande dilema da fé é conciliar a convicção de que há um Deus justo e Todo-Poderoso que governa o universo, com as ambiguidades da vida. Muitas vezes nos deparamos com fatos cruéis que não fazem nenhum sentido. Uma tragédia na natureza, uma doença numa pequena criança, um acidente fatal como um raio que cai acidentalmente sobre uma pessoa. Além do mais, a vida é paradoxal e contraditória, existem muitas questões difíceis de resolver.

Estes dilemas, na sua maioria, são bem administrados por nós, quando a situação está sob controle e as coisas vão bem. Em geral nos recusamos a falar sobre tais assuntos ou os negamos para não ter que dar muitas explicações, mas quando vem os dias maus, estas questões filosoficamente não resolvidas brotam com muita violência em nossa mente.

É nestas horas que o maligno lança as mais duras setas, da dúvida, da insegurança, do amor ou até mesmo da existência de Deus. Estas questões sobre o caráter de Deus surgem de forma inesperada, dando-nos a impressão de que Deus não tem o controle da situação, ou não é santo e bondoso como pensávamos. Passamos a viver uma relação de insegurança e desconfiança contra Deus, e até mesmo de ódio. As setas do maligno vão diretamente contra o caráter de Deus como fez com Eva, levantando suspeitas sobre os motivos de Deus e seus objetivos. Quando não há mais confiança na soberania amorosa de Deus, as coisas perdem o sentido e tudo mais se parece nada mais que caótico, ou se preferirmos a linguagem de Eclesiastes, “tudo é sem sentido”.

Para onde vamos quando a confusão e a desordem dominam? Quando a falência ou a depressão batem à porta, quando somos confrontados com o luto e a dor, quando nossos ídolos são quebrados? Aquilo que amávamos mais que a Deus, desejávamos mais que qualquer outra coisa, agora já não mais existe? Quando a enfermidade bate à porta?

Ao deparar com as ambiguidades e dores, Jó olhou para Deus: “Eu sei que o meu redentor vive”.  Para onde mais ele poderia olhar? Ao lidar com a tragédia de uma nação pagã destruindo o seu povo, Habacuque correu para o único lugar seguro. “Ainda que... Eu todavia me alegro no Senhor, e exulto no Deus da minha salvação. O senhor Deus é a minha fortaleza”” (Hab. 1.17-18). Fortaleza é esconderijo, lugar para onde se corre na hora dos misseis e dos bombardeios, na hora das setas incendiárias e ataque dos inimigos. Jeremias, diante de Jerusalém, sua cidade amada, destruída afirma: “Quero trazer à memória o que me pode dar esperança: As misericórdias do Senhor, são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não tem fim, renovam-se cada manhã” (Lm 3.21-23).

Quais são os conflitos de Jó demonstrados apenas neste texto?

è O silêncio de Deus – (Jó 21.4). Deus parece ser estranhamente silencioso diante das provocações. (Jó 21.14,17-18).

è A prosperidade dos ímpios – (Jó 21.7) Jó não entendem porque homens ímpios podem seguir na vida com todas as coisas aparentemente tão bem sucedidas. Por que Deus permite isto?

è A falta de justiça no tempo presente – (Jó 21.19; 29-32). Jó tem uma noção de uma justiça futura. Algumas pessoas até comentavam isto com ele, mas ele não entendia este fato de um assunto tão sério não ser julgado imediatamente.

Entenda o tamanho da crise de Jó:

i.                Ele começa dizendo que tem uma queixa contra Deus (Jó 21.4). Ele deixa claro que não está chateado diretamente com as pessoas e as circunstâncias, mas contra Deus, que parece tão distante e alheio às dores humanas. Ele diz: “Não tenho motivos de me impacientar?” O fato de Deus se manter silencioso não era suficiente para ele se inquietar e perder a paciência com Deus?

ii.              Ele afirma que os paradoxos são tão grandes que as pessoas ficariam boquiabertas quando os relatasse (Jó 21.5). Já afirma que as pessoas colocariam as mãos à boca quando ouvissem o que ele tinha para dizer. Já se sentiram assim ao receber uma noticia reveladora? Ele diz que só de pensar nesta questão teológica, isto lhe causava arrepios.

A pergunta dele vem em seguida:
Como é, pois, que vivem os perversos, envelhecem e ainda se tornam mais poderosos?” (Jó 21.7).

Como entender este paradoxo?
Por que prosperam os ímpios?

Por que acontecem coisas ruins a pessoas boas e coisas boas a pessoas ruins?
Se Deus é Todo-Poderoso ele não é bom, se é bom, não é Todo-Poderoso.

Este é o cerne da crise de Jó. Esta é a mesma crise de Asafe no Sl 73. Este é o mesmo dilema de Habacuque em Hab 1.12-13.

A visão de Jó sobre os ímpios

Jó tinha a seguinte percepção, equivocada ou não, dos homens sem Deus.
è Quanto mais velho, mais ricos – Jó 21.7
è Seus lares não passam por privações como os demais – Jó 21.8-9
è São prósperos nos negócios – Jó 21.10
è Suas vidas seguem o estilo do Zeca Pagodinho: “Deixa a vida me levar, vida leva eu”, e parece que isto funciona. Vivem de baile em baile, nos carnavais da vida, cantam com tamboril e harpa, alegram-se ao som da flauta. Esta é uma descrição de pagodeiro e sambista da Vila Isabel (Jó 21.13; 32-33).

O ímpio afronta Deus

Acima de todas estas coisas, Jó ainda via outro aspecto mais sórdidos. Tais pessoas não dão a mínima para realidades espirituais, elas não consideram Deus. Na verdade, elas desacatam a Deus. O que assombra Jó é que Deus é afrontado, mas não reage (Jó 21.14-15). Tais pessoas dizem três coisas assustadoras a Deus:

A.     Elas rejeitam aberta e hostilmente a Deus – (Jó 21.14) – Ted Turner, um dos empresários mais ricos nos EUA, afirmou alguns anos atrás que cristianismo é religião para gente fraca. Existem pessoas que se espantam com isto, mas os escarnecedores afrontam abertamente a Deus. “São estes que dizem: Retira-te de nós” (Jó 21.14);

B.     Elas se recusam a servir a Deus – “Que é o Todo-Poderoso para que o sirvamos?” (Jó 21.15). A mesma atitude de Faraó, ao ouvir que Deus queria que o seu povo o adorasse. “Quem é o Senhor para que lhe ouça a voz e deixe ir a Israel? Não conheço o Senhor, nem tampouco deixarei ir a Israel” (Ex 5.2). Servir a Deus? Deve ser brincadeira! Tais pessoas só servem aos seus próprios interesses e seu narcisismo. Só se preocupam com auto satisfação. Vivem a vida para si mesmas.

C.     Elas não oram – “E que nos aproveitará que lhe façamos orações?” (Jó 21.15). Elas não se submetem a Deus, não interessam em pedir direção de Deus, não dependem de Deus, então, para que orar? A melhor definição do ímpio é a ausência de piedade. Oração é marca de quem é piedoso. Eles não oram, porque de um ponto de vista pragmático, não vem razão para orar. São coerentes com o que crêem.

A Falta de Julgamento

Jó chega à conclusão de que não há, qualquer julgamento divino sobre a raça humana.
As perguntas são retóricas; sempre precedidas da afirmação “Quantas vezes”

i.                Quantas vezes” sucede que se apaga a lâmpada dos perversos?
ii.              Quantas vezes lhe sobrevém a destruição?
iii.             Quantas vezes Deus em sua ira lhes reparte dores?
iv.             Quantas vezes são como a palha diante do vento e como a progana arrebatada pelo remoinho?

Na argumentação de Jó, percebe-se que ele deseja que todos os seus interlocutores respondam “nunca!”
Os perversos, na visão de Jó, não enfrentam calamidades e sobressaltos, parecem blindados ao julgamento dos céus, parecem incólumes aos eventos doloridos da vida. Esta visão de Jó o deixa estremecido e frágil.

Quem liga para a eternidade?

Uma atitude normal do crente é afirmar: Deus vai julgar tais homens a eternidade... ou, sua família, descendência, posteridade, vai sofrer os danos do seu desprezo por Deus. Esta é uma resposta de senso comum, não é?  Entretanto, para Jó, esta resposta é inconsistente e vazia. Na sua inquietação filosófica ele diz:

Deus, dizeis vós, guarda a iniquidade do perverso para seus filhos,
mas é a ele que deveria Deus dar o pago, para que o sinta.
Seus próprios olhos devem ver a sua ruina, e ele, beber do furor do Todo-Poderoso.
Porque depois de morto, cortado já o número dos seus meses, que interessa a ele a sua casa?”   
(Jó 21.19-21).

O argumento de Jó é direto. Tal homem vai ser julgado nos seus filhos? Ele nem vai estar aqui para ver o que vai acontecer... de que vale justiça depois que ele já partiu para a eternidade?

Os perversos, na visão de Jó, não enfrentam calamidades, não tem doença nem mau tempo, “suas casas tem paz, sem temor, e a vara de Deus não os fustiga. O seu touro gera e não falha, suas novilhas tem a cria e não abortam” (Jó 21.9-10). 

Como afirmou Rui Barbosa: 
De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.

Para Jó, o fato é que os ímpios, e não seus filhos, deveriam ser julgados imediatamente. Afinal, tal homem despreza a Deus, e morre em pleno vigor, despreocupado e tranquilo, com seus baldes cheios de leite e fresca a medula de seus ossos (Jó 21.23-24). Esta ausência imediata de juízo deixa Jó estupefato.

Você nunca teve tais pensamentos em algum momento de sua vida?

As respostas teológicas, amplamente defendidas e difundidas na teologia hebraica, não solucionam o problema. As respostas pré –fabricadas dos cristãos, também não!
No início do texto Jó dirige-se aos seus amigos que trouxeram estas explicações de gaveta para a questão do sofrimento:

Respondeu, porem, Jó: Ouvi atentamente as minhas razoes,
e já isso me será a vossa consolação. Tolerai-me, e eu falarei;
e havendo eu falado, podereis zombar” (Jó 21.1-3).

E conclui dizendo:
“Como, pois, me consolas em vão?
Das vossas respostas só resta falsidade” (Jó 21.34)


É possível responder estas questões?

1.    De forma direta e simples, a resposta é: Não existe resposta fácil!  O simplismo do espiritismo para o sofrimento é: “Carma!” – Na encarnação passada, dizem eles, as pessoas que sofrem praticaram muitos males e por isto precisam purgar suas culpas através do sofrimento. O problema é muito sério:

(a)- Se existe reencarnação, não temos consciência do que fomos. Portanto, somos julgados sem consciência. Nenhum tribunal da vida, julgaria uma pessoa que não se sente responsabilizada pelos seus atos. Distúrbios psiquiátricos é uma destas causas;

(b)- Ainda mais sério, auto-expiação dos pecados, nega a expiação de Cristo na cruz pelos nossos pecados. Se Cristo já expiou nossos pecados, porque temos que expiar novamente? Seu sacrifício não valeu nada?

Acho mais razoável pensar como o grande pregador Billy Graham:
“Apesar do progresso cientifico e humano, existem ainda três questões que desafiam o ser humano e para a quais ainda não encontramos respostas adequadas: O mistério do sofrimento, o mistério da morte e o mistério do mal.

2.    A Bíblia diz que Deus vai julgar a terra – Julgamento de Deus é algo que a cultura pós-moderna tenta negar. Deus é bom, afirmam, como vai julgar e condenar alguém? Apesar de toda insistência filosófica atual, a verdade é que a Bíblia afirma constantemente que o juízo vem. O inferno não é um conceito arcaico, de uma teologia de beduínos do deserto. Ela foi reiteradas vezes ensinada por Jesus.

O apóstolo Paulo ensina a mesma coisa:
Ora, Deus não levou em conta os tempos de ignorância; agora, porem, 
notifica a todos homens, que em toda parte, se arrependam; 
porquanto estabeleceu um dia em que ha de julgar o mundo com justiça, 
por meio de um varão que destinou e acreditou diante de todos, 
ressuscitando-o dentre os mortos” 
(At 17.3031).

O livro de Apocalipse é repleto de figuras de linguagem acerca do juízo de Deus. (Ap 14-15).

No sermão escatológico de Cristo (que fala das últimas coisas), ele não apenas reitera o juízo de Deus sobre indivíduos, mas fala também do julgamento sobre nações, e fala abertamente sobre o inferno (Mt 25.31-46).

Este mesmo pensamento está presente na literatura judaica:

Adorai o Senhor na beleza de sua santidade;
tremei diante dele, todas as terras...
porque vem, vem julgar a terra.
Julgará o mundo com justiça, e os povos, consoante a sua fidelidade”
(Sl 94.9-13)

3.    Deus está conduzindo a história, segundo seus projetos e propósitos – os eventos circunstanciais que nos atingem, não estão fora de sua soberania e controle, ainda que nos parecem tão anacrônicos e paradoxais.

Às vezes nos assustamos com a maldade humana, mas a Bíblia diz que Deus não estabelece logo o juízo porque ele é longânimo, termo que dá a ideia de alguém que tem “pavio longo”(ao contrário de quem tem pavio curto). Deus não é regido por provocações, nem é passional no seu julgamento. Ao fazer isto, ele deseja que tenhamos tempo para nos arrependermos e nos voltemos para ele.

Não retarda o Senhor a sua promessa,
como alguns a julgam demorada,
pelo contrario, ele é longânimo para convosco,
não querendo que nenhum pereça,
senão que todos cheguem ao arrependimento”
(2 Pe 3.9)

Jó está impaciente. Jó questiona. 
Não é assim que fazemos tantas vezes? 
Contudo, Deus possui agenda e propósito. O livro de Jó não foi escrito por causa de Jó, mas por nossa causa. A vida humana é instável, cheia de contingencias, não temos controle sobre as circunstâncias e sobre a vida, não podemos controlar o tempo, o vento, as tempestades. Vivemos num mundo mal, afastado de Deus e corrompido pelas escolhas morais e pela ganância humana. Muitas vezes nos assustamos e nos chocamos. O sofrimento nos impacta, nos assusta. Se nesta hora, nossos alicerces forem estabilidade, sucesso, ausência de sofrimento e vitória, podemos nos assustar.

Jesus já nos advertiu:
No mundo passais por aflições,
mas tende bom animo, eu venci o mundo”

(Jo 16.33)

O Grande paradoxo

J. I. Packer, no seu livro "Evangelização e Soberania de Deus", faz uma diferença semântica entre  Paradoxo e contradição. Contradição surge quando uma ideia se opor à outra, e temos que estabelecer o que é verdadeiro e falso. Neste caso, afirmar que Deus é soberano mas não é bom, que Ele é Todo-Poderoso, mas não é justo, torna-se paradoxal. Um atributo não exclui o outro. Paradoxo, é quando duas ideias parecem ser contraditórias, mas que na verdade não o são. Ele afirma que a Bíblia possui muitos exemplos como este, principalmente se falarmos de oração e decreto de deus: "Se Deus ja sabe todas as coisas, por que orar?", ou "Evangelização e predestinação". Se Deus já tem seus predestinados, porque anunciar a salvação? Estas coisas são paradoxais, não contraditórias.
O maior paradoxo da Bíblia, porém, tem a ver com um Deus santo sendo julgado e condenado numa cruz. Ali acontece o maior de todos os paradoxos. Aquele que não pecou, torna-se maldição em nosso lugar. Na cruz, Jesus, o justo, tomou o amargo remédio de Deus contra o pecado e a iniquidade. "Ele foi moído pelas nossas transgressões, e palas suas pisaduras fomos sarados.
O maior paradoxo da vida, não são as contradições históricas, nem justos que sofrem como pecadores, são serrados ao meio, são julgados por governos iníquos ou ainda, perdem sua vida por causa de seu testemunho fiel.
o maior paradoxo é um Deus justo, assumindo o lugar dos pecadores.
O maior paradoxo da humanidade é de um Deus assumindo o lugar dos pecadores.
Toda vez que você se sentir injustiçado, como Jó se percebe, observando a vida com suas ambiguidades, julgando-se no direito de "ter um tratamento melhor",  da parte de Deus, olhe para Jesus. Este sim, sofreu até a morte, para satisfazer a justiça de Deus, por causa do seu e do meu pecado.

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quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Is 43.14-25 Feliz Ano Novo?




Introdução:


Várias coisas já foram ditas sobre o ano novo:
è O escritor Inglês Charles Lamb afirmou que ninguém observa o primeiro dia de janeiro com indiferença.
èNo final do ano é fácil reconhecer a diferença entre o otimista e o negativista. O otimista fica acordado até meia-noite para ver a entrada do ano novo, o negativista fica acordado para ter a certeza de que o ano velho se foi (Bill Vaughn).
èMuita gente fica ansiosa e apreensiva com a chegada do ano, como no conhecido caso da velhinha de Siracusa, que no dia da morte do tirano que governava seu país por muitos, andava chorando enquanto o povo estava em festa. Indagado porque chorava ela respondeu: “Este que estava aí, pelo menos a gente conhecia, mas o que virá ninguém sabe como é”.
èHá também muita gente ansiosa e apreensiva, porque um ano novo representa uma expectativa de insegurança.
èMuitos soltam fogos nesta época do ano para abafar o barulho do seu próprio coração, cheio de ansiedade, preocupações e medos.
èOs seres humanos gostam de encontrar um futuro previsível, por isto andam atrás dos futurólogos, videntes, xamãs, adivinhadores, mas se existe uma coisa que a vida não dá é previsibilidade. “O coração do homem pode fazer planos, mas a resposta certa dos lábios vem do Senhor”.

No texto que lemos, Deus está tentando dizer algo ao povo sobre o uso do tempo. Como lidar com o passado e futuro.
Sobre o passado: Ele exorta seu povo para que esta página seja virada: “Não vos lembreis das coisas passadas, nem considereis as antigas” (Is 43.18). Passado pode servir como experiência, mas apegar-se ao passado, em geral é dramático.
Sobre o futuro: Ele nos convida para que fiquemos atentos às oportunidades que oferecidas: “Eis que faço coisa nova, que está saindo à luz, porventura, não o percebeis? Eis que porei um caminho no deserto e rios no ermo” (Is 43.19).

Um conselho em relação ao passado: Deixe o passado no passado.
Uma promessa em relação ao futuro: Considere as possibilidades do futuro.

1.     Deixe o passado no passado - Não vos lembreis das coisas passadas, nem considereis as antigas” (Is 43.18). O passado pode ser bom para a vida, quando ele se torna a experiência que nos orienta para o próximo passo a ser dado, mas pode ser um empecilho quando nos apegamos a ele.
É muito fácil se prender ao passado de fracasso, culpa, dor, ressentimento, ou até mesmo desenvolvermos atitudes saudosistas: “bons tempos foram aqueles...” A verdade, porém, é que na maioria das vezes aquele tempo também foi pesado, difícil e duro. Se o trouxermos conosco, ele virá cheirando a mofo, e alimentando amarguras.

A Bíblia fala de algumas pessoas que insistirem em viver de memórias, apegadas ao seu passado. Por isto é importante:

A.     Deixar Sodoma para trás – A mulher de Ló é um clássico exemplo. A ordem dos anjos era para que saíssem imediatamente da cidade e não olhassem para trás. Mas a história daquela mulher estava em Sodoma, suas memórias e seu coração, nas coisas que possuía. Ela não queria deixar o passado. Por isto os anjos os pegaram pela mão para os livrar da morte. Mas a mulher de Ló, resolveu “olhar para trás”, e virou uma estátua de sal (Gn 19.26). Sua vida paralisou, não conseguiu mais avançar. Ela saiu de Sodoma, mas Sodoma não saiu dela, apesar da ordem direta de Deus para sairem sem olhar para trás. Strong afirma que a palavra “olhar para trás”  no hebraico, é nabat, que significa “mostrar consideração, contemplar, prestar atenção”. Não se tratava de mera curiosidade, mas de alguém cujo coração estava preso a algo que precisava abandonar.

B.     Deixe o Egito no Egito – Outro grupo que encontramos na Bíblia e que causou muito problema para si mesmo pela dificuldade de deixar o passado foi o povo que saiu do deserto. O livro de Números registra: “E o populacho que estava no meio deles veio a ter grande desejo das comidas dos egípcios; pelo que os filhos de Israel tornaram a chorar e também disseram: quem nos dará carne a comer? Lembramo-nos dos peixes que, no Egito, comíamos de graça; dos pepinos, dos melões, dos alhos silvestres, das cebolas e dos alhos” (Nm 11.4-5).

Eles tinham saudade do Egito!
O Egito na bíblia é o maior símbolo da escravidão e cativeiro, mas eles estavam sentindo saudade de lá. Isto mostra como a memória é capaz de esquecer as dificuldades enfrentadas, os açoites recebidos e desejar voltar ao passado.
Saudade do Egito é qualquer coisa que no passado tenha feito mal, e agora, pela falta de sentido ou pela dureza da realidade presente, nos leva a querer voltar atrás, até mesmo em eventuais pecados que tanto nos fustigaram e nos fizeram sofrer ou relacionamentos tóxicos que nos mantiveram cativos.

C.     Deixar o velho homem no passado – “No sentido de que, quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem, que se corrompe segundo as concupiscências do engano”  (Ef 4.22). Não trazer conosco o antigo estilo de vida que tinhamos longe de Deus. É fácil se perder, regredir, titubear, como um cão que volta a comer seu próprio vômito.
A Bíblia diz que longe de Deus, andávamos na vaidade dos nossos próprios pensamentos (mente vazia), obscurecidos de entendimento (obnubilação de pensamento, dureza de coração (embrutecimento) alheios à vida de Deus e em impureza moral.
No texto de Isaías Deus mostra ao seu povo a necessidade de não ocupar a mente naquilo que pode distanciar de Deus. “Quem tem posto a mão no arado, não pode mais olhar para trás”. Muitas vezes queremos o novo, mas recursando a deixar o velho.
Em geral o “velho homem” vem com uma bagagem pesada:
i.                Culpa
ii.              Ressentimento, ira e raiva
iii.             Vida de pecado
Deixe o velho homem no passado. A linguagem bíblica é interessante: “quanto ao estilo de vida anterior, vos despojeis do velho homem que se corrompe segundo os enganos da concupiscência”. “Despojar” é um termo militar. Assim que um exército dominava uma cidade, desarmava seus habitantes e se apossavam de suas riquezas. Tirar as armas do velho homem, da velha natureza, é não dar alimento para a carne, não “empoderar” nossa tendência para o mal, esvaziar seu poder e influência. Mesmo já tendo sido derrotado se você o deixar armado e bem nutrido, ele é uma ameaça.

2.     Considere novas possibilidades, abra-se para o novo.  É isto que lemos neste texto de Isaias: ““Eis que faço coisa nova, que está saindo à luz, porventura, não o percebeis? Eis que porei um caminho no deserto e rios no ermo” (Is 43.19).
Considere a pergunta feita por Deus: “Porventura não o percebeis?” Deus está fazendo coisas novas, abrindo novos caminhos, dando novas direções, mas será que estamos vendo as possibilidades e caminhos que ele está abrindo, sinais que ele está dando?
Josué Rodrigues afirma: “Portas que se fecham são iguais as que se abrem, se abertas ou fechadas por Deus” . Quando as portas se fecham, a tendência é nos desesperarmos, quando deveríamos ficar na ponta dos pés perguntando: “Deus está fazendo coisa nova, dando novas perspectivas, eu preciso perceber por onde o Senhor quer que eu ande”.
É típico de gente agarrada ao passado, não conseguir ver novas portas se abrindo. Em geral, Deus manda um pacote todo, cheio de surpresas, para que  contemplemos. Portanto, pare de olhar para as dificuldades e olhe para as possibilidades; deixe de focar no problema e atente para a solução; de contemplar crises e perceber novos caminhos.
A promessa de Deus é magnífica: Abrir caminhos no deserto e fazer brotar rios no ermo. Pense nestas duas figuras.

Deserto é um lugar difícil de atravessar. A solidão, as pedras, os animais peçonhentos, o calor do dia e o frio da noite. Deserto na Bíblia é lugar de tentação, privação, escassez. Deus afirma que vai colocar veredas no deserto, vai construir trilhas, vai apontar rumos. Preste atenção: ele não diz que vai retirar o deserto, mas que vai fazer estradas no deserto para que você encontre orientação.
Ele afirma também que vai colocar rios no ermo. Ermo é lugar solitário, distante. Ali Deus vai colocar águas caudalosas, ninguém vai morrer de sede, apesar de estar neste lugar inóspito.
Lembra-se do episódio da travessia no deserto?
Quando o exército de Faraó ameaçou o povo de Deus, as coisas ficaram muito difíceis e o povo começou a se desesperar, e a clamar pelo socorro de Deus. E Deus lhes dá uma ordem estapafúrdia: “Disse o Senhor a Moisés: Por que clamas a mim? Dize aos filhos de Israel que marchem” (Ex 14.15).  Apesar da situação não apontar saída, Deus ordena que não paralisem sua história.

3.     Converta seus afetos a Deus – Depois de todas as maravilhosas promessas que consideramos neste texto, Deus faz um desabafo com seu povo: “Contudo, não me tens invocado, ó Jacó, e de mim te cansaste, ó Israel. Não me trouxeste o gado miúdo dos teus holocaustos, nem me honraste com os teus sacrifícios; não te dei trabalho com ofertas de manjares, nem te cansei com incenso. Não me compraste por dinheiro cana aromática, nem com a gordura dos seus sacríficos me satisfizeste, mas me deste trabalho com os teus pecados e me cansaste com as tuas iniquidades” (Is 43.22-24).

Deus afirma que os afetos e o coração do povo não era dele.
Ele enumera uma série de atos litúrgicos que o povo de Deus costumava fazer no Antigo Testamento. Ele fala das ofertas, dos sacrifícios, dos manjares, da gordura queimada no altar, mas salienta que eles deixaram tais práticas. O culto se tornara frio, sem alegria e eles não pensavam em Deus. A falta de ofertas pacificas e sacrifícios revelava a distância do coração. Como uma triste música de Barbra Streissand: “You don’t bring me flowers, anymore”. (Voce não mais me manda flores).
Trazer flores na música reflete o coração. O amado esqueceu, não se importava, estava desatento. Deus afirma que o povo perdera a ternura, e não o cultuava de coração. E todas estas coisas eram perceptíveis na forma como as pessoas faziam seus cultos e traziam (ou não), suas ofertas.

Duas considerações precisam ser feitas:
A.     Quando ouço pregadores da teologia da prosperidade falando de que precisamos trazer ofertas para que Deus possa abençoar, uma forma de “pressionar” e “barganhar” com Deus, usando o dinheiro como moeda de troca para Deus abençoar, tenho a triste convicção de que perderam toda lógica da adoração e a centralidade do evangelho. Nós não damos dinheiro para pressionar Deus, nem oramos para convencê-lo a dar o que ele não quer dar, nem o cultuamos porque ele gosta mais de nós, mas fazemos estas coisas porque elas refletem o coração de quem ama.
Trazer ofertas e dízimos é uma forma de dizer o quanto o amamos e confiamos na sua provisão. É uma forma de expressar alegria nEle, assim como alguém que ama dá um presente ao amado. O presente não fará obrigatoriamente que uma pessoa goste do outro, ele não é instrumento de coerção, mas de afeto. Deus continuava demonstrando sua graça, fazendo promessas, cuidando do seu povo, apesar da atitude de distanciamento na adoração que lhe prestavam. Ele continua a apontar caminhos, a trazer surpresas, apesar de nosso fracasso em corresponder aos seus afetos.
Entretanto, a ausência ou a mesquinhez das ofertas no culto vétero-testamentário é vista como descaso. “Com tais ofertas de vossas mãos, aceitaria eu a vossa pessoa?” (Ml 1.9).

B.     Doação, ofertas e sacrifícios, ocupam lugar central na adoração porque tais coisas estão ligadas aos afetos. “Onde estiver o teu tesouro, ali estará o teu coração”. Doar revela o coração, por isto Deus reclama do povo não mais lhe queimar incenso, trazer canas aromáticas, é porque estas coisas mexem com finanças, coração, afetos. Deus fala neste texto até de “gado miúdo”, “ofertas de manjares”, coisas pequenas, mas que eram sacrifício de “aroma” suave ao Senhor.
Porque Deus está toca neste assunto? Ele precisa de dádivas? Depende dos recursos que lhe trazemos? Pelo contrário, algumas vezes Ele afirma que não estava interessado no sacrifício de seu povo, porque suas atitudes encobriam motivos. Por que, então, ele está falando destas coisas neste texto? Porque elas refletem o coração. O que Deus sente falta é do afeto, da gratidão, da expressão simples e genuíno de adoração. Não é o dinheiro que conta, é o que está por detrás do dinheiro, assim como o que conta não é o presente dado em si mesmo, mas o que tal presente representa: apreciação, carinho, gratidão, afeto, etc.

Conclusão:
Portanto, este texto aponta para três realidades:
ð Deixe o passado no passado. Não atravesse o ano com todo este lixo de  culpa, ressentimento, pecado, amargura que você carrega. Enterre este lixo, deixe-o para trás. Paulo afirma: “Esquecendo-me das coisas que para trás ficam, prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação em Cristo Jesus”

ð Preste atenção nas novas possibilidades de Deus. Você está no deserto? Ele pode fazer estradas no deserto, abrir rios no ermo. Nos lugares mais improváveis, sua presença estará ali;


ð Tome cuidado com seus afetos em relação a Deus – é fácil esfriar o coração, afastar do caminho de Deus, esquecer dele, distanciar-se. Renove seus compromissos com Deus, volte ao primeiro amor, seja afetivo para com Deus e com sua obra, seja generoso e gracioso, como ele tem sido.