sábado, 21 de julho de 2018

At 9.36-43 Uma mulher que não podia morrer





Em 2 Cr 2l.l1-20, temos um  relato  lacônico  acerca  de  Jeorão, filho de Josafá, rei de Judá, um homem tão maligno e cruel que ao morrer obriga o escriba a relatar o impacto lacônico de sua morte sobre a sociedade: "Morreu, sem deixar de si saudade".  
Morreu sem que ninguém o lamentasse, e foi sepultado na cidade de Davi, mas não nos túmulos dos reis.             
Na literatura popular, fala-se da velhinha de Siracusa, que diante da morte do tirano rei, enquanto o povo  inteiro fazia festa ela chorava,  e ao  ser indagada sobre sua reação respondeu: "Aquele eu sabia quem era, este eu não sei"   
       
Lemos agora um texto completamente diferente do relato da morte de Jeorão, registrando a  morte de Dorcas, uma mulher que na visão das pobres e desamparadas mulheres de Jope  não  podia  morrer,  e isto leva Pedro também a reação semelhante, e de suplicar sua  ressurreição.
Jope era uma cidade da costa do Mediterrâneo, a moderna Jafa. metrópole portuária ao sul da terra de Israel, localidade a 60 km de Jerusalém.. Hoje em dia é conhecida como Jaffa, comunidade residencial de Tel Aviv. Alguns associam esse nome a Jafé, filho de Noé, atribuindo a ele a fundação da cidade após o dilúvio. Nos dias atuais, é um centro turístico, por ser região de poucos conflitos. Ali, árabes e judeus têm convivência pacífica há mais de um século. Foi exatamente em Jope que o profeta Jonas zarpou (Jonas 1.3).

Uma questão teológica
Temos aqui uma questão que constantemente nos desafia: Por que Deus permite que pessoas tão generosas e boas, sejam levadas ainda no vigor de sua vida? Ela havia adoecido de uma doença que a narrativa bíblica não informa qual é, e sabemos que era grave porque ela entrou em óbito.
Dorcas era uma pessoa atuante na sua comunidade, e de forma especial, costurando roupas para aquelas que precisavam. Provavelmente ela tivesse um cuidado especial pelas viúvas, com poucos recursos e o fato é que quando ela morreu, todos choraram e sentiram muito a sua morte.
Por que Deus permite que estas coisas aconteçam?
Jesus certa vez foi perguntado sobre isto. Ao se encontrarem com um homem cego de nascença os discípulos disseram: “Quem é culpado dele ter nascido cego. Ele ou seus pais”, e Jesus afirmou que é muito perigoso pensar em qualquer enfermidade associando-a ao pecado ou culpa, mas ele afirmou: “Nem ele nem seus pais, mas para que nele, evidencie as obras de Deus” (Jo 9.1-3). Pessoas sofrem, adoecem, morrem. Tentar explicar a causa da dor e da morte, é sempre complicado, basta estudar o livro de Jó para perceber como seus amigos julgaram erroneamente a causa de seu sofrimento.
Os graves acontecimentos na vida de cristãos podem nos assustar e entristecer, mas estas coisas estão no campo do misterioso e amoroso plano de Deus. No caso de Dorcas, aprendemos que Deus queria revelar seu plano realizando uma obra portentosa, ressuscitando-a. Mas, e quando Deus não cura ou não ressuscita pessoas que amamos, ou permite o sofrimento? O que devemos fazer e o que pensar? A resposta da teologia bíblica e reformada é que, mesmo quando não entendemos, ainda assim sabemos que Deus é bom, seu plano é soberano e sábio e que ele trará seu consolo em meio à dor.

Dorcas, uma simples mulher com profunda sensibilidade

Dorcas não era uma mulher particularmente impressionante pela sua excepcionalidade. Alguns pessoas possuem dons maravilhosos de liderança, de comunicação, de gerência, capacidade para fazer fortuna ou liderar uma cidade ou mesmo nação. A única coisa que Dorcas sabia fazer bem era costurar. Mas sinceramente, quem é que consideraria a profissão de costureira algo notável? Muitas mulheres podiam fazer o mesmo.

Minha mãe foi uma admirável costureira e isto me leva a admirar muito este trabalho. Todos nós pudemos ir para a cidade, sair do sítio e estudar porque mamãe sustentava toda a família com seu trabalho de costureira para as mulheres de classe alta na cidade de Gurupi-TO. Seu trabalho era incansável, e me lembro bem de épocas de muitas demandas em que ela passava quase toda a noite, pedalando sua máquina de costura, com luz de lampião. Costureiras, portanto, ocupam um lugar muito especial no meu coração.

Dorcas tinha um só talento. Não era uma profetisa como Miriã, e não governou Israel  como Débora. Ela não tinha uma função de liderança na sua pequena comunidade. A Bíblia fala pouco a respeito dela, mas nos informa que ela servia a Deus com uma agulha na mão. Sua costura e amor fraternal eram conhecidos por muitos. Praticava boas obras com aquilo que melhor sabia fazer, ou seja, confeccionando vestes para os pobres. O mundo já se esqueceu de muitas coisas que aconteceram, mas as obras de Dorcas continuam sendo lembradas. A ferramenta dela era uma agulha com a qual trabalhava para vestir os pobres.

Dorcas, uma simples mulher com grande compromisso com Jesus
Esta é a situação de uma mulher comum, entretanto havia uma coisa em Dorcas que a tornou extraordinária: É a única mulher em toda Bíblia que foi chamada discípula!
Dorcas era uma seguidora de Jesus, e isso fazia toda a diferença.
Ela entregou seu seu coração a Jesus e passou a segui-lo. Jesus tornou-se seu Salvador, e assumiu o senhorio de sua vida. Sua fé é marcada pelo compromisso de glorificar a Deus através de sua vida, de imitar o seu mestre, que andou entre nós fazendo o bem. Sua vida foi disponibilizada para servir os outros. Não é assim que a verdadeira fé deve se expressar. Praticando boas obras?
Existe muita confusão teológica sobre o lugar das boas obras na fé cristã. Embora saibamos que somos salvos pela obra de Cristo e tomamos posse desta salvação pela fé, não por méritos, já que o céu não é uma conquista, mas uma dádiva, devemos lembrar que um dos textos mais enfáticos sobre este assunto encontra-se em Ef 2.8-9: “Pela graça sois salvos mediante a fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não de obras para que ninguém se glorie”. O texto é muito claro. Não deixa qualquer dúvida sobre o fato de que o céu não é merecimento. Mas veja o que diz Ef 2.10, o versículo seguinte: “Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, que o Pai preparou antecipadamente para que andássemos nelas”. Não somos salvos pelas boas obras, mas somos salvos para boas obras.

O que faz de Dorcas desta simples mulher alguém tão excepcional?

1.     Encarnou a vida de discípulo  - Sua comunidade não era rica, mas de  gente  necessitada,  e ela soube interpretar muito bem seu contexto e começa a lutar para que seu ambiente de pobreza e carência fosse modificado. Ela era "discípula" de Jesus. Não diz que ela era membro de uma igreja, ou que fazia parte de  qualquer associação, mas afirma que ela aprendia de Cristo, imitava Cristo e o seguia. Não era mero ouvinte, mas seguidora.

Ser discípulo nos leva a querer imitar o mestre. O discípulo está sempre perguntando: O que o meu mestre faria se estivesse em meu lugar?
Esta é a pergunta que devemos fazer onde Deus nos coloca, e com o currículo que temos na mão. Qual era o problema social da região onde Dorcas morava? Provavelmente o abandono que as viúvas sofriam naqueles dias? Atos 6 afirma que este era também o problema da Judéia. E na cidade onde vivemos, quais são os desafios. Com o preparo que tenho, com as ferramentas e habilidades que Deus me deu, como posso demonstrar que sou um discípulo de Cristo? Talvez o problema seja o de crianças na rua, falta de escolas e creches, saneamento básico, sistema de saúde, violência, falta de creches, praças, urbanização? O que podemos fazer como discípulos de Cristo para abençoar a vida das pessoas com as quais estamos lidando?
Qual é o problema social que nos aflige? Os nossos olhos estão focando naquilo que passa pelo coração de Deus? Olhe para seu preparo, para o que Deus lhe habilitou a fazer até aqui. Você não pode fazer tudo, mas pode fazer algo. Dorcas era uma mulher que não podia morrer.
O fundador do Exército da Salvação, William Booth, foi um cristão admirável. O seu slogan era: “Tudo aquilo que mexe com o coração de Deus deve também mexer com o meu coração”.
Assim era Dorcas. Ela tinha um profundo compromisso com Cristo.  Ela era discípula no verdadeiro sentido do termo. Assumiu o discipulado como um estilo de vida. Ela se dedicava a praticar boas obras pois o discípulo de Jesus vive para servir.  Ser discípulo significa reproduzir as obras de Jesus. Como Igreja necessitamos formar discípulos que irão alimentar e nutrir a próxima geração, cuidar da cidade, abençoar o mundo.

2.     Suas esmolas e suas boas obras - A Bíblia afirma que ela era “notável por suas boas obras”. Ela não buscava ser notada, seu objetivo era servir, mas Deus notabiliza pessoas com atitudes de serviço.

Dorcas não tinha  pretensão alguma de estar em evidência, nem de ser exaltada, mas seu objetivo era servir. As viúvas choravam sua morte, mostrando a Pedro as túnicas e vestidos. O texto de At l0.4, imediato a este, declara que Corné1lio  teve  suas orações e esmolas como memorial diante de Deus. Elas não ficaram no esquecimento, antes eram lembradas diante de Deus. Corné1lio, conquanto ainda não tivesse conhecimento da graça de Cristo, já possuía a semente  do  Verbo que o levava a orar e a contribuir, atos que muitos cristãos experimentam.

Dra Ludovina Siqueira
Tive o privilegio de pastorear uma notável mulher pelas suas obras no Rio de Janeiro. Dra Ludovina Siqueira, esposa do Presbítero George Siqueira. Quando cheguei à Gávea, seu marido me procurou e disse em tom de crítica diante dela. “Pastor, diga-lhe para vir na Escola Dominical no domingo de manhã”. E ela respondeu sem hesitar: “Eu já tenho dito ao George, que estou praticando aquilo que já aprendi”.
O que ela fazia na hora da Escola Dominical?
No seu bairro existia um orfanato dirigido pelos católicos, e ela, mesmo sendo protestante, resolveu cooperar com aquela importante obra. Ia nas feiras, com seu motorista particular, abria seu carro zero Km, e comprava toda a “xepa”. Já ouviram este termo, “Xepa”? São frutas, legumes, verduras, que não foram vendidos na feira livre e que os feirantes vendem por um preço bem barato, ou deixam na rua e são coletadas pelas pessoas carentes.
Dra Ludovina enchia seu carro e levava carinhosamente ao orfanato, até que um dia, uma freira mau humorada descobriu que ela era evangélica e a proibiu de ajudar as crianças, dizendo que aquela obra era católica e que ela não podia mais ajudar. Ela disse que não teria problema, mas que gostaria de conversar antes com a madre superiora. Ela argumentou que já fazia anos que servia semanalmente o orfanato de frutas e verduras, mas que agora, pelo fato de ser protestante, deixaria de servir, se aquilo realmente fosse um problema. A Madre superiora, uma mulher culta e elegante, não tinha estes problemas e não criou nenhum problema, afinal, o que importava era o fato de que aquela mulher, com seus bens, sua disposição e carinho, estava sustentando boa parte daquele belíssimo projeto que fica em Copacabana.
Como as boas obras podem abençoar as pessoas.
Como as boas obras glorificam a Deus.
Como as boas obras emprestam sentido, valor e significado às nossas vidas. Milhares de pessoas deprimidas, jovens sem sentido na vida, seriam plenos e felizes se aprendessem a parar de se preocupar com suas roupas de marcas, e seus luxos e passassem a servir.

3.     Sua atitude conspiratória – Vou me aventurar agora, e arriscar alguns palpites mais ousados para o texto. A vida de Dorcas foi tão excepcional porque ela era capaz de conspirar com a realidade, e construir novas realidades.

Onde havia a  morte, construía a vida; onde havia o desprezo, aceitação; onde a miséria tinha o poder de fazer brotar algo significativo.

3.1.   Dorcas conspirava contra a miséria - O que notabilizou esta mulher numa região tão pobre? Nesta geografia do abandono, que ficava nas margens do Mediterrâneo?

As pessoas gostam do trágico, da dor, porque só isto dá notícia. 
Raramente alguém se notabiliza por fazer o bem. Já viram o que se torna notícia? Escândalos, acidentes, assassinatos brutais. O bem não dá ibope. Dorcas era notável exatamente por fazer o bem relevante. Poucas pessoas conseguem tal proeza.
Quantas pessoas já 1ouviram falar de d. Rosa, uma intrépida presbiteriana no interior da Bahia que ao morrer com seus 96 anos de  idade, deixou um internato numa região miserável com 520 crianças. Pessoas assim, conspiram contra a miséria, a dor, o abandono, a fome, a  desumanidade, a opressão. É gente revolucionária, que não admite o status  quo do analfabetismo, da marginalidade, da opressão e protesta com seu estilo de  viver e de agir, contra estes aspectos da morte que se manifestam  cotidianamente.
Dorcas é uma mulher que não pode morrer...

3.2.   Conspirava contra o sistema - A quem esta mulher apoiava ? As viúvas, vítimas de um sistema que gerava viuvez e orfandade, pela busca do poder.  Um  sistema  que não pensava no valor da vida humana, nem na dignidade  da  existência, nem na dor das crianças e mães que ficavam desamparadas, sem terem  as condições mínimas para uma vida que valesse a pena, dependendo de  pessoas gentis como Dorcas o era.

Ela se depara com uma sociedade marcada por um sistema político econômico, perverso e  desumano e tenta mudar seu poder de desagregação e degradação. Era  mulher que lutava pelas mulheres para que reencontrassem seu valor e sua  dignidade, quando a sociedade já não se importava com elas. Aquele grupo de pessoas, sem valor, marginalizada socialmente, agora encontra sentido, comunidade, amizade, apoio. O sistema social continuava perverso, assim como acontece até hoje, mas esta dor é minimizada por uma mulher que se interpõe, em nome de Cristo, e decide amparar e cuidar.

3.3.   Conspirava contra o feio – Esta é uma forma complexa de expor este texto, mas deixe-me ver se vocês concordam comigo. Por que Dorcas fazia roupas? Por que não dava comida, entregava cestas básicas? Lutava por direitos sociais e políticos. Todas estas causas são nobres, mas porque ela optou por fazer roupas?

Dorcas possuía um grande senso estético e a beleza era algo que importava.
Deixe-me aprofundar: Quando Deus criou o universo, ele olhou para sua obra, como um artista admirado, e afirmou que “tudo era muito bom”. Em que sentido era “bom”? Podemos falar da ordem, do propósito, da ética envolvida, da harmonia das criação, mas porque não pensar também na beleza? Do ponto de vista estético, tudo era muito bom.
Dorcas queria ver aquelas mulheres viúvas, pobres, vestidas de preto e cinza  com um pouquinho de vaidade que salientasse o “it  feminino”.  Queria ver mulheres adornadas de roupas bonitas. Não se contentava em dar "vestidos", oferecia também "túnicas".  Deselegância  e  feiúra produzidas pela sociedade marginalizada não era algo  que  a agradava. Sonhava com mulheres mais bonitas, porque sabia que isto mexe com a vaidade feminina e com a auto estima. Gente  com senso estético como estético é o nosso Deus. Tudo que  Deus  fez "era muito bom", não apenas no sentido ético, mas estético da Palavra. Dorcas não apenas fazia vestidos, mas confeccionava túnicas, que eram roupas “desnecessárias” no ambiente de pessoas pobres. Túnica é coisa de gente da classe média...
Isto faz sentido?
Talvez você não concorde comigo. Bem, não é necessário concordar, mas não tive dúvidas ao pensar também nesta direção, afinal, a Bíblia diz que somos poemas dele: “Pois somos feitura (poiema), de Deus, criados em Cristo Jesus, para as boas obras, as quais ele, de antemão preparou, para que andássemos nelas” (Ef 2.10). Deus não se agrada de coisas feias, Deus quer ver as pessoas bonitas. Assim deve ser aqueles que desejam construir o reino. O reino de Deus emite sinais do belo. Conspire contra a feiura, a tristeza, a baixa auto-estima, o mal, a dor e o sofrimento, o que agridem nosso corpo e nossa visão.
Dorcas é uma mulher que não pode morrer...

3.4.   Conspirava contra a falta de esperança – Ela fazia, repartia, formava associações, conversava sobre a vida e os problemas de casa. Posso ver Dorcas assentada com todas  aquelas mulheres no seu simples ateliê de costura , trocando receitas, investindo em vida, conspirando contra a conspiração nefasta que  a  existência e os homens insistem em gerar. Mulheres assim fazem falta no reino. Mulheres assim não podem morrer...

Dorcas é um bom exemplo de discipulado. Uma vida que faz diferença. Sim! Uma agulha pode fazer diferença! Sua vida e milagre, demonstram como devem ser feitas as boas obras que agradam a Deus, elas nascem de um coração convertido, anunciam o amor de Cristo e causam impacto nas pessoas.
A experiência de Dorcas, me levar a perguntar:

1.     O que eu estou fazendo para servir ao meu próximo da melhor maneira possível?
2.     Qual é minha ação ao perceber a necessidade do meu irmão?
3.     Como estou usando o dom e as habilidades que Deus me deu?
4.     Sou sensível às necessidades do meu próximo?
5.     O que o mundo contaria a seu respeito depois de sua morte?


A ressurreição

Pedro não estava longe (cerca de 30 Kms), quando foi chamado. O texto não diz o que motivou os outros discípulos a fazerem isto, provavelmente o fato da dor ser muito grande e eles queriam ter ali a presença de um “pastor” para trazer consolo, ou talvez, acreditassem que ele poderia ser usado para ressuscitar Tabita. O fato é que Pedro ao defrontar-se com a situação orou, e sentiu-se impulsionado pelo Espírito a ordenou que ela voltasse a vida. Há poucos relatos de ressuscitação na Bíblia, e alguém chegou a comentar que Dorcas era tão notável que sua ótima reputação influenciou até o céu.

Quando Pedro chegou ao local do velório, o corpo da mulher já havia sido lavado em preparação para o sepultamento, ritual que seguia a tradição dos judeus. Jazia no andar superior da residência, local costumeiro de espera em caso de atraso do enterro, cujo prazo máximo poderia se estender até três dias, se fora de Jerusalém.

Podemos pensar que o povo esperava o milagre, pois procuraram o apóstolo e recomendaram expressamente que se apressasse para estar naquele velório. Ao chegar, Pedro ouviu choros e lamentações das viúvas que lhe mostraram roupas e túnicas costuradas por Dorcas.

Pedro lembrou-se da ressurreição da filha de Jairo, e assim como Jesus fez, ordenou que todos os presentes no recinto se retirassem. Mas, diferente do Senhor, ele ajoelhou-se para orar. Em seguida, ordenou:: "Tabita, levanta-te". E ela abriu os olhos e sentou-se. O apóstolo a ajudou levantar-se, e chamou suas amigas para vê-la viva. A emoção de tristeza se transformou em alegria, e deve ter sido imensa! Através de sua ressuscitação, muitas vidas foram impactadas e se entregaram a Jesus.
O discipulado nos leva a crer em milagres. O texto mostra que ao invés de sepultá-la, eles resolveram mandar chamar Pedro, que estava em Lida, cidade próxima. Pedro havia curado o paralítico Enéias naquela cidade, porque não poderia também ressuscitar Dorcas? Acaso há limites para aquilo que Deus pode fazer?
O apóstolo Pedro, foi cercado pelas viúvas no cenáculo, enquanto Dorcas já estava preparada para o enterro. Após pedir que todos saíssem, ele disse: “Tabita, levanta-te!” Após abrir os olhos, ela viu Pedro. “Ele, dando-lhe a mão, levantou-a; e, chamando os santos, especialmente as viúvas, apresentou-a viva” (At 9.41).


Aquele lugar de luto voltou a ser lugar de vida; um lugar de festa.
Onde Deus está operando, torna-se um lugar bom para viver.
Todos querem estar onde o poder de Deus é manifesto.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Jr 10.19-20 Auto destruição familiar





Introdução:

Teóricos do comportamento humano ultimamente tem feito diferença entre suicídio e auto destruição.

Poucas pessoas cometem suicídio, entretanto, milhares entram num processo inconsciente de auto destruição: Comem demais, vivem vida sedentária, consomem drogas, se envolvem em brigas e conflitos, bebem demais, se amarguram demais, num lento e constante processo de morte. É uma forma de auto sabotagem que faz parte desta lista de auto destruição. O resultado é a morte antecipada. Desenvolvem um estilo de vida adoecido e relacionamentos tóxicos.
Famílias também passam por processos de auto destruição.
São lares que entram em conflitos, ressentimentos, e chegam a um ponto que já não interessa mais o que foi feito, mas num processo interminável o mal é repetido em ações/reações continuas, conflitivas e destrutivas. Parece-se com a fábula de um homem que é acidentalmente ferido por seu amigo e fica cego de um dos olhos, e se dirige a Zeus, pedindo reparação. Zeus então lhe dá duas alternativas:

a)- Posso curar e o assunto encerra aqui;
b)- Posso furar o olho dele e pagar pelo mal que ele  gerou.

O homem, irritado respondeu: “prefiro que você fure os olhos dele para que ele saiba o quanto estou sofrendo!”

No texto que lemos de Jeremias, vemos a afirmação dolorida do profeta:
Ai de mim, por causa da minha ruina! É mui grave a minha ferida; então disse eu: com feito é isto o meu sofrimento e tenho de suportá-lo. A minha tenda foi destruída, todas as cordas se romperam; os meus filhos se foram e já não existem; ninguém ha que levante a minha tenda e lhe erga as lonas” (Jr 10.19-20).

O profeta está chorando.
No cerne da sua percepção ele coloca um olhar sobre a realidade das famílias de Israel, do povo que decidiu abandonar o Senhor. Ele fala da tenda, da família, da casa, deste habitat, suposto lugar de abrigo que fracassou. Seu olhar escatológico antevê a destruição da família. E por isto ele chora. “É mui grave a minha ferida”.

Causas da auto destruição familiar:

Primeiro, as cordas se romperam. Tendas possuem estruturas frágeis e com pouca base de sustentação, a não ser suas cordas.

Todos os anos minha esposa e eu acampamos. Sempre fazemos isto em épocas com poucos ventos e sem chuva, mas ainda assim, estamos sempre atentos sobre a situação dos ferros que são enterrados no chão e onde as cordas estão firmadas, por que isto dá firmeza às barracas. Sem estas cordas, qualquer vento de uma intensidade um pouco maior, pode derrubar a barraca.

Em 1987, fomos acampar na chácara dos queridos Walú e Presb. Magno, em Brasília. Era um encontro de casais, e como não havia lugar para acomodar todos, decidimos acampar. O ambiente estava delicioso, organizado, mas não prevíamos que um grande temporal desabaria sobre aquele acampamento. E quando isto aconteceu, tudo se tornou caótico. As cordas não sustentaram as barracas que foram derribadas e encharcadas com a forte chuva. Todos que estavam acampados tiveram que sair na chuva, e se acomodar de madrugada, como podiam, na sala e nos espaços disponíveis.

Quando as cordas não se sustentam, a tenda cai.
Que cordas são estas?
O salmista afirma:
Ora, destruídos os fundamentos, que poderá fazer o justo?” (Sl 11.3). Quando os fundamentos morais, espirituais, afetivos de uma família se rompem, a tenda cai.
Jesus fala da necessidade de construirmos casa sobre a rocha, porque quando ela se encontra em terreno frágil, ela cai. E quando ele fala dos fundamentos, afirma: “Aquela casa se manteve firme, porque aquele homem ouviu as minhas palavras e as praticou”.

A casa cai, quando a sua base espiritual é desmontada. Quando a Palavra de Deus é menosprezada.
As cordas de sua casa continuam firmes?

Segundo, lares sofrem processo de auto destruição quando os filhos são atingidos. “os meus filhos se foram e já não existem”.
Lares ruem quando suas gerações são fragmentadas.
Temos o grande compromisso de dar base para que a próxima geração seja alcançada com a graça de Deus e o Evangelho.

Duas perguntas são essenciais:
A.   Sua fé está chegando à próxima geração?
B.    Se positivo, qual é a qualidade da fé que está chegando?

O texto fala de filhos que se foram. Não geograficamente, mas emocionalmente. Filhos que se distanciam, cujos vínculos de afeto são destruídos, lares onde  prevalece o ódio.
Meu irmão mais velho costuma afirma que a alegria do velho é ter sua casa cheia. Naturalmente sabemos que nem todo idoso, infelizmente é acolhedor e bom anfitrião. Mas um lar se torna sem vida e sem brilho, quando os filhos não mais frequentam tais casas, quando os netos desenvolvem hostilidade em relação aos avós.
Meus dois filhos estão casados, mas ainda não sou avô. Então aproveito para brincar com meus amigos afirmando que “ser avô não deve ser coisa boa, porque todo avô fica bobo, babando o tempo todo!”. Ao falar isto, sei que trata-se apenas de uma provocação. A verdade é que nada é mais importante que saber que nossos filhos “não foram”, no pior sentido. Se tiverem que ir, que seja por desafios, oportunidades, estudos, trabalhos, formação de sua família, mas a porta estará sempre aberta para eles.

Jeremias fala dos filhos que foram, e não mais existem!
Fala daqueles que morreram no coração, se distanciaram.

O salmo 128 descreve o homem bem aventurado, dizendo que “sua esposa, no interior de sua casa, será como a videira frutífera, e seus filhos, como rebentos da oliveira à roda da sua mesa. Eis como será abençoado o homem que teme o Senhor!” Não há maior alegria para uma casa que filhos amados, redimidos, perdoados, queridos.
Uma das músicas mais fantásticas do João Alexandre diz o seguinte:

Paz e comunhão

Cuida do passarinho e também da flor
Eles esperam pelo teu amor
Faz do teu lar um ninho e do mundo, um chão
Onde se plante paz e comunhão

Para que brote e cresça a mais viva semente,
Para que a gente tenha o que colher,
Para que o pão que venha a ser por nós assado
Seja sinal traçado de viver.

Faz tua nova casa na varanda do velho chão,
Convida o teu irmão pra vir morar contigo,
Planta paredes novas, feitas para servir de lar e abrigo

Faz um café gostoso, põe a mesa no teu jardim,
Deixa que assim as plantas tenham paz contigo,
Convida o universo, faz a vida ganhar maior sentido.

Cuida da tua morada, cuida do pequeno mundo,
Deixa teu irmão bem perto, livre, livre...

Terceiro, ausência de esperança - “Ninguém há que levante a minha tenda e lhe erga as lonas”.

Este texto é pesado porque revela o desatino e a dor do profeta, que não olha mais a vida com perspectiva. Quantos lares estão vivendo assim, crendo que nada mais pode ser feito, pais que desistiram.

O texto é curioso porque ele diz que não há ninguém para levantar a sua tenda e erguer as lonas. Isto é estranho! Não deveria ser ele mesmo a levantar a sua tenda? Não seria isto uma tarefa do próprio pai? Por que ele espera que alguém faça o que ele deve fazer?

Este texto reflete a impotência de muitos, a falta de esperança daqueles que veem seus lares arruinados e apenas choram e lamentam, entrando num quadro de entorpecimento e apatia. Quando isto acontece, o máximo que fazem é chorar: ““Ai de mim, por causa da minha ruina!”
O que fazer quando não mais cremos que algo possa acontecer? Quando perdemos a perspectiva de um milagre? De uma obra portentosa de Deus?

Débora ou a mãe de Sísera. como reagimos?
O livro de Juízes registra num mesmo capítulo, a situação de duas mulheres, que enxergam a vida por prismas completamente diferentes. Uma é a mãe de Sisera, outra é Débora.
A mãe do comandante Sísera, “Olhava pela janela e exclamava pela grade: Por que tarde em vir o seu carro? Por que se demora os passos de seus cavalos?” (Jz 5.28). Este quadro descreve uma mulher passiva, vendo que algo de errado está acontecendo, mas que não consegue fazer nada para proteger seu filho, que na verdade já tinha morrido.
No mesmo texto, vemos a atitude de Débora:
Ficaram desertas as aldeias em Israel, até que eu, Débora, levantei-me por mãe em Israel...Desperta, Débora, desperta. Desperta, acorda, entoa um cântico!” (Jz 5.7, 12). Débora não fica inerte. Ao perceber as aldeias desertas, ela se levanta por mãe. Ela se desperta, acorda, é sacudida, sai para a luta em favor do seu povo.
A mãe de Sisera demonstra impotência. Fica olhando, vendo o desastre iminente, inerte, sem saber como se mover. Apenas lamenta!

Débora, se levanta por mãe, ela acorda!

Este texto, motivou o surgimento de um dos ministérios mais fantásticos no Brasil, chamado “Desperta Débora!”. Mães que oram, lutam, intercedem pelos seus filhos e pelos filhos da igreja. Precisamos de mães intercessoras. Precisamos de pais guerreiros.
Há momentos em que a atitude de passividade, entrega, resignação, espera, pode ser fatal. As aldeias de Israel ficaram desertas, até que Débora se levantou por mãe!.
Não podemos ficar esperando que surja alguém que levante a nossa tenda e erga as lonas.
Para que nossos lares não sejam destruídos, precisamos estar alertas como pai e mãe, não podemos ficar apenas lamentando que nossa casa está caída, que nossos filhos se foram, e que ninguém há que levante a tenda e erga as lonas. É preciso ter esperança. Orar com esperança. Crer. Interceder. Suplicar. Proteger. Sair à guerra.

Conclusão:
O texto fala do profeta dizendo:  Ai de mim, por causa da minha ruina! É mui grave a minha ferida; então disse eu: com feito é isto o meu sofrimento e tenho de suportá-lo. A minha tenda foi destruída”.
Não posso me transformar em uma vitima e ficar chorando. Sem arrependimento, sem clamor, sem ação, dominado pela impotência. Não posso apenas contemplar a gravidade da minha ferida e ficar me vitimizando: Ai de mim!... A minha tenda foi destruída... Ninguém há que levante a minha tenda...

A história da mulher cananeia registrada em Mt 15.21-28 descreve uma mulher perseverante, que sai à luta pela sua filha num processo de auto destruição.  Ao procurar Jesus, o desespero estava presente em seu rosto, sua família estava sendo destruída, sua filha estava dominada por forças satânicas. Ela descreve a situação como de alguém “horrivelmente endominhada”. Podemos imaginar um quadro tão confuso e caótico quanto este? O diabo fazendo ninho na vida de sua filha? Sua casa sendo morada do diabo?

Ele assume faz pelo menos três coisas fundamentais:
A.   Ela não nega a situação – Não dá nome bonitos, não psicologiza, não justifica, não faz avaliação psiquiátrica de sua filha. Já viram pais tentando fazer diagnóstico de seus filhos?
A mulher siro fenícia, encara o problema de frente. A realidade não era nada boa, mas ela não nega a catástrofe iminente.

B.    Ela identifica o problema – “Minha filha está horrivelmente endemoninhada”.  Estar dominada por forças malignas já seria uma dura realidade, mas ela a descreve como alguém “horrivelmente” dominada. Isto revela a gravidade da situação.

C.    Ela vai na direção daquele que pode socorrer – “Ela clamava” (Mt 15.22). Isto é esperança.

O mais surpreendente, contudo, é o fato de que Jesus parece indiferente ao seu clamor. A leitura cuidadosa do texto nos surpreende. Por três vezes Jesus constrange aquela mulher e aos seus discípulos com uma atitude de aparente descaso e indiferença. Ela por acaso desistiu? Pelo contrário. Do encontro inicial e fracassado, marcado pelo seu clamor, ela aumenta a intensidade e se ajoelha diante de Jesus. O texto afirma que “ela, porém, veio e o adorou, dizendo: Senhor, socorre-me!” (Mt 15.25). Como é que Jesus vai ignorar o clamor de alguém que tão intensamente luta pela sua casa? Com tanta humildade e perseverança ora a Deus?
Quando estamos no meio da aflição e buscamos a Deus eventualmente nos sentimos desamparados. Deus parece distante, ele parece ignorar nossa dor. Por três vezes aquela mulher clama o Senhor e parece ser desprezada e humilhada publicamente. O que Jesus queria desta mulher? Ele queria saber se realmente lutar por aquele assunto tão sério ocupava sua agenda. Muitas vezes paramos no primeiro round.
Mas Jesus atende àquela mulher dizendo: “ó mulher, grande é a tua fé! Faça-se contigo como queres. E, desde aquele momento, sua filha ficou sã!” (Mt 15.28)

Muitos lares hoje em dia estão em frangalhos. As cordas se romperam, a tenda caiu. O quadro é de desalento, tristeza e desânimo.  Nestas horas, podemos nos paralisar e nos acomodar, ou podemos reagir e lutar por aquilo que cremos que Deus pode nos conceder.
Esta hora não é hora de vitimizar. Não é hora de apenas chorar.
É hora de despertar!

Que Deus nos ajude!