segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

At 2.42-47 O Efeito do Pentecostes

          
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Introdução

A grande benção do Pentecostes se reflete na forma com as pessoas passam a viver. O texto lido demonstra o que acontece com a Igreja, depois da ação do Espírito sobre ela. As marcas distintivas desta igreja se tornam evidentes:

  1. Perseverança na doutrina dos apóstolosE perseveravam na doutrina dos apóstolos” (At 2.42) (didake ton apostolon).

A Igreja primitiva se apegou às doutrinas. Isto contraria o pensamento moderno de que cada um tem o direito de pensar e fazer como pensa.

Conheço muitas pessoas mesmo dentro da igreja avessas à doutrinas. A geração atual é avessa a dogmas, a afirmações estabelecidas, mas a primeira marca que é destacada na vida da igreja é a doutrina apostólica. O que os apóstolos ensinavam era recebido  com autoridade porque haviam recebido tal autoridade através de Cristo.
Não há doutrina bíblica se não procede dos apóstolo. Paulo chega a afirmar: “Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além da que vos tenho pregado, seja anátema” (Gl 1.8). Os crentes primitivos não eram "livres" para pregar e crer no que quisessem. Eles deveriam aprender e ensinar Debruçavam  o que os apóstolos ensinavam só assim a mensagem seria preservada sem desvios. A BJ diz na sua nota de rodapé, que se tratava das "instruções para os neoconvertidos, à luz dos fatos acontecido entre eles".
A  Igreja  de Jerusalém era uma igreja centrada no ensino daqueles homens que haviam aprendido diretamente de Cristo. Isto seria algo fundamental na fé cristã alguns anos depois, quando diversos escritos apócrifos giravam na comunidade primitiva. Os líderes decidiram estabelecer o canon bíblico, que são os 39 livros do Antigo e os 27 do Novo Testamento, e todos estes, tinham como critério de validade, o fato de terem sido escritos por alguém que recebera o ensinamento de Cristo em primeira mão.
Em tempos de tantos conceitos alternativos, plurais, subjetivos e relativos, a doutrina precisa ocupar lugar central na pregação e no ensino. Só a doutrina apostólica, pode livrar a igreja de erros e enganos.

  1. Vida em comunhão -  ...e na comunhão, no partir do pão e nas orações” (At 2.42). (koinonia).

A Igreja primitiva valoriza a comunhão. Isto contraria o nosso individualismo e isolamento.

A sociedade moderna busca privacidade, enquanto a igreja primitiva busca comunidade. “Da multidão dos que creram era um o coração e a alma. Ninguém considerava exclusivamente sua nem uma das coisas que possuía; tudo, porém, lhes era comum” (At 4.32).
Comunhão é muito mais que intercâmbio social, ideologia ou solidariedade. Trata-se da unidade que é gerada pela ação do Espírito, levando seu povo a um só propósito e intenção. Trata-se de objetivos comuns. Por isto  viviam  juntos,  compartilhavam a mesma visão, e faziam isto "diariamente" (At 2.46).
Esta comunhão se revela de forma direta na disponibilidade dos bens e generosidade. Eles decidiram “ter tudo em comum” (At 2.44). Sentiam-se responsáveis com o outro e partiam o pão “à medida que alguém tinha necessidade" (At 2.44). O que se propõe não é um modelo econômico, mas um estilo de vida, libertando-se da posse idolátrica e obsessiva, e  colocando seus bens para servir outros, como resultado da expressão de fé.

  1. Vida de oração comunitária – “E perseveram...nas orações” (At 2.42)

A Igreja primitiva valorizava a vida de oração comunitária. Isto contraria a nossa espiritualidade auto centrada.

Oração não era apenas algo vivenciada individualmente, mas era uma forma de buscar a Deus andando com os outros. Oração era hábito da Igreja, o oxigênio da alma, ali o povo de Deus encontrava força para o dia a dia.


4.Profundo temor de DeusEm cada alma havia temor” (At 2.43). (phobos).

A Igreja primitiva era impactada pelo temor a Deus. Isto contraria o nosso secularismo.

A palavra temor é traduzida de outras formas. A versão RC traduz por “espanto”, a NIV, em inglês traduz este termo por awe, que é uma interjeição para se referir a algo inesperado e que nos obriga a, surpreso, colocarmos a mão na boca. Aqueles irmãos entendiam que Deus é Deus, havia um senso de fascínio e sobrenaturalidade com o Sagrado.
O povo de Israel tinha uma visão muito profunda de um Deus tremendo. Parece que perdemos esta percepção da majestade de Deus. Esquecemos a exortação bíblica que afirma que “Deus é fogo consumidor” (Hb 12.29) e que, “de Deus não se zomba, aquilo que o homem semear, isto também ceifará” (Gl 6.7).
Temos perdido o temor do  Deus tremendo, glorioso e santo. O livro de Hebreus afirma que “horrível coisa, cair  nas  mãos  do Deus vivo”. É bom estar nas suas mãos, mas cair nas suas mãos e ser julgado por ele não é nada fácil.
O texto fala que “em cada alma havia temor”. Temor é uma sensação de medo, mas não de repulsa, é algo que  atrai, seduz. É a experiência de Jacó, extasiado,  impressionado  com  a escada, cheio de alegria que se mistura com a simples ideia de que esteve diante  de Deus.
A compreensão da Santidade de Deus gera uma igreja reverente, Aliás, esta é a  tradução  da  palavra "phobos", que melhor se adequa a nossa realidade: "temor  reverencial". O imperfeito do tempo verbal presente neste texto denota que não era um  pânico  momentâneo, mas algo continuo e presente na vida daquela igreja.

  1. Marcada por evidências sobrenaturais...e muitos sinais e prodígios eram feitos por intermédio dos apóstolos” (At 2.43).

A Igreja primitiva era impactada pela sobrenaturalidade. Isto contraria a realidade ordinária.

Milagres, sinais e prodígios são o lado reverso do ordinário. A Igreja de Cristo experimentava sinais claros e sobrenaturais da presença de Deus.  Muitas  coisas tremendas, verdadeiros milagres e prodígios inquestionáveis se davam entre eles. Tais prodígios eram decorrentes de um andar piedoso com  Cristo.
Não deveríamos esperar o mesmo como comunidade de Cristo ainda hoje?
Desprezo e abomino toda exploração midiática em torno de milagres e curas, mas igualmente desprezo nossa incapacidade de crer e esperar que algo de sobrenatural possa se dar no meio da igreja. Nosso secularismo conspira contra tudo que cremos e pregamos. Deveríamos ser mais crentes e aguardar mais de Deus. Nossa falta de fé é incapacitante e denuncia a superficialidade da espiritualidade que vivenciamos.

5.Opcão pela solidariedade e simplicidade  Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade”(At 2.46)

A Igreja primitiva era impactada pela generosidade. Isto contraria o nosso egoísmo e acúmulo de bens.

A única coisa que pode garantir  tal nível  de  relacionamento é a simplicidade. Se a hospitalidade é algo complexo, se receber alguém em sua casa é tão pesado e complexo, isto se dá pela dificuldade em optar pela simplicidade e estilo de vida simples. Para que haja vida comum, é necessário determinadas "práticas comuns". Todo projeto da igreja deve ser mobilizado para gerar acessibilidade, não existe  uma  casta seleta, nem um clube fechado que impeça a aproximação dos outros.

  1. Louvor contínuo a Deus-  Louvando a Deus e contando com a simpatia de todo povo” (At 2.47).

A Igreja primitiva tinha disposição para a adoração e louvor. Isto contraria a ingratidão e murmuração.

Havia na comunidade um senso de adoração continuo. Deus precisava ser louvado. Cânticos expressando o coração agradecido era algo comum. O Espírito de Deus se move sobre aquela igreja impulsionando-os à adoração. Louvor é a declaração de vitória de Jesus. Louvor é anúncio da autoridade  de Jesus, e os demônios ficam apavorados quando isto acontece.

Muita coisa surpreendente acontece quando a igreja canta louvores. "Tendo eles começado a cantar e a dar louvores, pôs o Senhor emboscada contra os filhos de Amom  e Moabe e foram desbaratados" (2 Cr 20.22).

Satanás é derrotado quando a igreja entoa louvores de coração a Deus.

  1. Era um igreja amável - “Louvando a Deus e contando com a simpatia de todo povo” (At 2.47).

A Igreja primitiva era amável e acolhedora. Isto contraria a indiferença e antipatia para da igreja contemporânea.

A atitude fraterna e solidária da igreja impactava a comunidade ao redor. Era uma acolhedora e amigável e por isto querida. O grego possui duas palavras para "bom". O termo "agatos" descreve um  objeto  como bom e outra é "kalos" que significa que algo não é apenas bom,  mas  que também tem aspecto de bom. Há muita gente boa  que  é  dura,  do  tipo Edward mão de tesoura, que mesmo quando tenta fazer  o  bem,  acaba  ferindo.  A Igreja primitiva era formada de gente atraente. O Reino de Deus não inclui o ministério da chatice.

  1. A igreja crescia naturalmente em números  - “Enquanto isso, acrescentava-se-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos” (At 2.47).

A Igreja primitiva se expandia não apenas em simpatia, mas também em número. Isto contrasta com igrejas estagnadas e sem crescimento.

A simpatia da igreja é colocada aqui como um elemento chave para atrair as pessoas. Por alguma razão, parece que é natural hoje em dia igrejas distanciadas e mau humoradas. Santidade não pode ser sinónimo de antipatia. A igreja primitiva era simpática, e assim atraia as pessoas à mensagem do evangelho. O resultado? Crescimento espontâneo e natural.
Uma das características de um organismo vivo é sua capacidade de adaptabilidade e adequação. Será que temos conseguido equilibrar o evangelho com doutrina e simpatia? Algumas igrejas querem ser simpáticas sendo politicamente corretas, sem falar de santidade, sem temor a Deus. Outras acham que, para serem santas precisam hostilizar os pecadores. Como equilibrar estes aspectos que facilmente se polarizam?
Neste texto vemos a implícita estratégia de evangelização da Igreja primitiva: "Enquanto  isso", isto, é, na medida em que conta com a simpatia da atraiam as pessoas ao evangelho. Sua atitude de cortesia se tornaram seu “business card”.


Conclusão:

A obra do Espírito teve como resultado o empoderamento comunitário. Um povo marcado pela acao de Deus. O seu resultado? O estabelecimento de uma "Nova sociedade de Deus".
Toda igreja marcada pela ação do Espírito Santo pode esperar semelhantes resultados. As marcas aqui percebidas não são exclusividade do povo de Deus num momento especifico da história, e que não podem ser percebidos ainda hoje. Na verdade, deveríamos suspeitar de qualquer igreja que se considera legitimamente bíblica e neo-testamentária que não experimente os mesmos efeitos aqui descritos.


Que Deus nos ajude e tenha misericórdia de nós!

sábado, 13 de janeiro de 2018

At 2.37-41 Que faremos irmãos?


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Introdução:

A Bíblia fala da obra do Espírito Santo de muitas maneiras:

a.  Paulo contrasta a vida no Espírito com a vida na carne(Gl 5.16); 
b. Ensina que é possível entristecer o Espírito (Ef 4.30) 
c. Apagar o Espírito (1 Ts 5.17); 
d. Recomenda que nos enchamos do Espírito (Ef 5.18); 
e. Faz promessa maravilhosa sobre o poder do Espírito (At 1.8). 

Cada uma destas exortações exige de nós uma resposta. Não dá para assumir uma atitude de neutralidade quanto a estas verdades.

Uma das perguntas essenciais do texto de Atos 2 surge no vs. 37: “Que faremos irmãos?”  Porque, antes de mais nada, Pentecostes exige uma resposta, assim como todo o Evangelho. Creio ser esta a questão nevrálgica em At. 2, diante da experiência que os Apóstolos vivem.
Estudar o capitulo 2 de Atos se constitui num enorme desafio para a vida, porque ele nos mostra como diferentes grupos reagiram diferentemente ao evento do Pentecostes. Naquele dia cinco grupos significativos, provindos de 17 nações, revelam,  em linhas gerais, a  forma  como  a igreja de Cristo ainda hoje reage ao  derramamento  do  Espírito ou ao evento do Pentecostes. Certamente nos identificamos com um ou outro grupo.

  1. GRUPO DOS DISCÍPULOS - Vem de uma caminhada com o Mestre e agora experimenta o cumprimento da promessa em suas  vidas.  Jesus por diversas vezes havia falado sobre este dia. Dois textos são sempre citados. Em Lc 24.49 ele fala da promessa do Alto, e em At 1.4,8, fala do poder que receberiam para viverem uma vida poderosa de testemunho. Tal promessa se torna realidade em Atos 2.

Certamente os discípulos não tinham uma compreensão teológica clara do que aconteceria, mas a promessa se cumpre e eles compreendem que algo sobrenatural estava acontecendo ali, naquela hora. Portanto, a pergunta “que faremos irmãos”, é essencial, por lidar, antes de tudo com a experiência cristã. Pentecostes, em última instancia, não tem a ver com definição, mas com experiência.
Um grande pregador da IPB, Rev Miguel Rizzo, contou a elucidativa história de uma  senhora,  que sendo quase iletrada se converte e resolve batizar. Ao ser indagada sobre a convicção de sua fé, não sabia muito o que responder sobre a fé, nem entender o que era a  pessoa teantrópica de Jesus, nem discutia temas pesados sobre  o  infralapsarianismo, predestinação e escatologia. Mas quando o pastor lhe pediu para falar de sua experiência de fé ela responde: “Eu estou certa de que Jesus morreu na cruz para me salvar, lavando meus pecados, e sei que Jesus mora no meu coração"
Muitas vezes são pessoas simples, sem muita capacidade de elaboração intelectual, mas que experimentaram as mais poderosas  ações do Espírito.  Outros, eruditos e conhecedores do assunto, não possuem experiência deste impacto transformador.
O grupo dos discípulos é aquele que espera com ansiosa expectativa, vivendo em santidade, oração, temor, expectativa, e que é visitado de forma maravilhosa pelo poder do Espírito de Deus.

  1. GRUPO DA METODOLOGIA – O texto nos fala de um grupo presente no evento cuja pergunta central é "como os ouvimos falar cada um em nossa própria língua materna” (At 2.11). É o grupo da metodologia, mais preocupado com o funcionamento e com o mecanismo do pentecoste, do que com o pentecoste em si mesmo. A pergunta deste grupo revela o desejo de conhecer a  engrenagem das ações de Deus, talvez por curiosidade.

At 19.13 descreve um grupo de rapazes, filhos de Ceva, Sumo sacerdote, uma autoridade suprema na hierarquia judaica, que tentou expelir o demônio de  uma  pessoa,  decorando  as palavras que Paulo usava, e as supostas fórmulas  que  ele  proferia.  As palavras eram as mesmas, o jeito era o mesmo, só que eles conheciam apenas as palavras e o método, mas não conheciam o poder. O resultado foi completo fracasso: foram subjugados e envergonhados pelas forças demoníacas.

At. 8.14ss, registra a atitude de Simão que desejou comprar o "poder", oferecendo a Pedro grande soma de dinheiro. Achava que era uma questão de jeito, de truque, de método. Muitos hoje tem se impressionado com cacuetes e estilos e param por ai. Acreditam que repetindo fórmulas ou copiando  modelos será suficiente  para  experimentar  o poder de Deus.  Pessoas assim se perdem na organização e na burocracia eclesiástica, nas formas e trejeitos dos conhecidos apóstolos da mídia, e se tornam ridículos na sua abordagem, tornando-se, no máximo papagaios de piratas, performáticos. Excelentes religiosos mas péssimos modelos de vida cristã. São pessoas impressionados com sinais, com ventos, com manifestações, que vivem correndo atrás de fenômenos, se afadigam tanto com o  maquinário, com as peças e as engrenagens, mas esquecem de ligar o  motor que é a vida genuína com Deus e com seu amor. Esquecem do dínamo do Espírito Santo.

Stanley Jones, no seu livro “O Cristo de todos os caminhos” fala de um muçulmano, homem muito religioso, que era o guia de uma excursão que fariam numa região desértica. Antes de sair de viagem, estendeu seu tapete em frente o seu carro, ajoelhou e pediu a Alá que os guardasse na viagem, mas depois de terem andado cerca de 50 km, o carro parou e ao verificar o problema, perceberam que ele havia esquecido de colocar combustível no carro. Esta, sem dúvida, é uma boa parábola de nosso tempo. Temos todos os gestos, mas falta a presença do Espírito. Temos a instituição, mas vazia de autoridade, temos gestos públicos caricaturais, mas falta alguma coisa essencial. “Tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder. Foge também destes” (2 Tm 3.5). A Bíblia nos exorta a fugirmos de pessoas que tem jeito de crente, forma de crente, faz barulho de crente, tem trejeito de crente, mas não possuem o poder.

  1. GRUPO FILOSÓFICO – Este é o terceiro grupo que surge no texto. Neste caso, a pergunta é "O que quer isto dizer?” (At 2.12).

Esta pergunta aponta para pessoas especializadas em descobrir  novidades  teológicas,  fatos novos, que querem conhecer o “porquê”, o significado filosófico último da experiência ou de um fato acontecido. Querem entender de forma epistemológica, a finalidade da graça sobrenatural, a essência do fenômeno, estudar as implicações temporais, seu conteúdo,  mas nunca se deixam confrontar com o  poder do cristianismo puro e simples anunciado por Jesus, que se revela na experiência com o Espírito Santo de Deus.

Alguns dos teólogos mais interessantes que li são pessoas de capacidade analítica surpreendente, fazem acuradas exegeses dos textos mais complexos das Escrituras, conhecem os diferentes métodos hermenêuticos, discorrem a crítica das formas, analisam os textos mais densos da palavra, mas não se  sentem fascinados com o Sagrado, perderam sua capacidade de assombro diante do Eterno, não oram mais, não há em seus corações, a leitura da Bíblia não se aplica às suas vidas, e não  mais os  confronta.

É o grupo filosófico diante do evento do sagrado. É o grupo que quer analisar as experiências e facilmente se torna crítico da Bíblia, da Igreja, mas não se impressionam com aquilo que Deus está fazendo. Querem apenas saber o que é isto, ou “O que quer isto dizer?”.

Paulo diz que "o saber ensoberbece, mas o amor  edifica"  (Rm 8.1). O máximo que conseguem com este saber distanciado da vida é ficarem enfatuados ou "inchados", sem serem tocados ou transformados pelo Evangelho. 

Quer saber se você faz parte deste grupo? Ao sair da Igreja, veja qual é a pergunta que você faz. Você pode fazer duas coisas.
         -Avalia o sermão no sentido teológico, hermenêutico e homilético, ou mesmo estético;
         -Ou avalia o culto no sentido do encontro do seu coração com Deus, o que a palavra de Deus fez em sua vida?

Qual é a sua avaliação?

  1. GRUPO CRÍTICO – Surge no texto ainda outro grupo de pessoas. Neste caso, nem esperava o evento, nem queria saber o que estava acontecendo, mas vê o que acontece de forma zombeteira e crítica. O que eles dizem? “Estão embriagados” (At 2.13).

Este grupo acha engraçado o sotaque dos "galileus", acha bizarro o que vê, e isto tudo se torna motivo de chacota. É o grupo que avalia o que vê em termos de zombaria não com atitude de adoração e temor. Vê, mas desprestigia.  Fazem com o pentecostes o mesmo que fizeram com Jesus ao expelir demônios: "Ele expele demônios por Belzebú",  e Jesus responde: “Uma casa não pode subsistir se estiver dividida contra si". Que coisa espantosa: o diabo , cuja raiz de sua palavra  significa "aquele que divide" (diabolos), não perde de vista a unidade de seu projeto, e luta pela unidade de "sua casa".

O discurso de Festo ilustra o que estamos falando.

Ao ser confrontado com a verdade e a autoridade  da mensagem que Paulo pregava, não teve outra saída senão ridicularizar com cinismo:  "As muitas letras te fazem delirar" (At 26.24).

Não é muito raro encontrarmos pessoas assim, que diante das evidências do sobrenatural resolvem fazer brincadeira, que ao serem confrontadas resolvem zombar, que consideram lixo aquilo que é precioso, que desprezam as verdades de Deus e minimizam o amor de Cristo que sempre buscam encontrar razões para criticar e zombar daquilo que é Eterno, trazendo sobre si mesmos, severo julgamento. A palavra de Deus diz que “Horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo”. Estar nas mãos de Deus é maravilhoso, mas cair nas mãos de Deus é horrível!

  1. GRUPO DO QUEBRANTAMENTO – O último grupo que percebemos no texto é descrito como um grupo que é impactado pelo Pentecoste. A pergunta direta que fazem revelam o quanto seus corações foram tocados: "Que faremos irmãos?" (At 2.37).

São pessoas impactadas com a ação do Espírito, que se abrem para as mudanças que Deus deseja fazer, se veem confrontadas e vão em direção a Deus, se aproximam de Deus, porque consideram fundamental o encontro, e identificam nas manifestações sobrenaturais algo sublime,  e não querem perder a benção. Tais pessoas demonstram "perplexidade"  quando se deparam com as coisas de Deus (At 2.6),7.

A presença de Deus as impacta, por isto perguntam honestamente: "Que faremos irmãos?" Pessoas que olham para as coisas de Deus e estão interessadas em saber o que farão para se aproximar da sarça que arde e não queima. Estão quebrantadas. Estão diante de algo sobrenatural e querem dar a Deus a resposta adequada.

A resposta de Pedro é a resposta do evangelho a todos que se dispõe em se vulnerabilizar para as coisas de Deus:

Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo” (At 2.38).

Conclusão
Em 1984, estava pregando numa pequena congregação em Goiânia, quando uma mulher se levantou no meio do sermão e me interrompeu dizendo em voz alta: "Hoje eu vim aqui para me entregar a Jesus!”. Certamente este não é um procedimento muito comum numa liturgia presbiteriana, mas o momento era sagrado demais para ser desprezado. Interrompi a mensagem, e convidei-a para que viesse a frente e orássemos por ela. Em seguida, outra pessoa disse do outro lado: “Eu também gostaria de entregar hoje minha vida a Jesus”. O culto terminou numa grande celebração e louvor.
Pessoas sensíveis pelo Espírito, não deixam a oportunidade para outro dia. Percebem que não podem deixar que a benção de Deus passe por ela e que ela não a receba.

Todos os que se aproximam de Deus, abertos ao que ele  deseja  dizer, são impactados.
"Que faremos irmãos?"

Esta é a pergunta que interessa.
Esta é a resposta que precisamos dar a Deus.
Este é o ponto de convergência para os prodigiosos sinais de Deus.

Que resposta você vai dar hoje?

At 2.1 O Pentecoste desfaz as barreiras humanas

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Introdução:

Uma das coisas mais fascinantes que percebemos no Pentecostes é a forma como Deus conduziu todos os detalhes deste grande evento salvífico de sua igreja.  Uma das áreas que ele mais atingiu foi a questão da religiosidade e de como se deve adorar a Deus.

  1. O Pentecostes Desfaz o conceito de uma forma sagrada de adorar  Todas as religiões criam rituais que demonstrem a forma sagrada de adorar. Os hindus, com a yoga, afirmam que a respiração deve ser suspensa, os pés e as mãos e o corpo inteiro, colocados em determinada postura. Os muçulmanos também têm uma postura e um ritual próprio de adoração que deve ser feita rigorosamente, se curvando sobre seu tapete e repetindo mantras. O Budismo mostra a posição característica de Buda, sentado sobre as pernas cruzadas e as mãos sobre as coxas, impassível.

O Pentecostes mostra que quando o espírito foi derramado sobre a igreja os discípulos “estavam assentados” (At 2.2), desmistificando assim, uma postura específica especial para salvação, e demonstre que todas as posturas podem ser sagradas quando o coração é alcançado. Já orei muitas vezes em restaurantes apinhados de gente, em lanchonetes com pessoas cujo coração fora tocado e precisava de Deus, Já orei de olhos abertos enquanto dirigia meu carro, com tráfico imenso ao redor. Durante a faculdade orávamos de olhos abertos no meio do campus, de braços dados aos irmãos de fé, pedindo direção de Deus para testemunharmos o amor de Cristo aos demais colegas.
“No Pentecostes, Deus naturalizou-se na vida humana. Tudo o que é natural tornou-se religioso e tudo o que é religioso, natural... Aqui estava a religião desprendendo-se de todo o ritual e cerimônias sagradas” (S. Jones, pg 139).
O evangelho usa ritos e cerimônias, mas estes não são essenciais. Todas as vezes que a liturgia se torna mais importante no culto, perdemos a capacidade de nos alegrarmos na caminhada com Deus e nos tornamos inflexíveis na nossa forma de adorar. O ritualismo, as cerimônias e a liturgia podem tornar-se um fim em si mesmos, e assim perdemos o poder maravilhoso que emana não de rituais, mas do Espírito Santo, Deus que foi derramado sobre nós para nos dar vida. Cristianismo não é uma religião de formas, mas de relacionamento. O que conta não é o como fazemos, mas se o Espírito de Deus tem liberdade para agir sobre seu povo. O rito pode ser um entrave à vida verdadeira no Espírito. Nada é essencial para Deus, a não ser ele mesmo. Não carecemos de ritos nem cerimônias.

  1. O Pentecostes nos liberta da idéia de uma idade sagrada - "Jovens e velhos" (At 2.20). Acaba-se o conflito de gerações, agora  existe  encontro  de gerações. Moços e velhos seriam transformados tornando-se canais da graça divina.

Igrejas sempre têm conflitos nesta área. Conservadores estão sempre criticando os jovens pela abertura litúrgica e sua forma de adorar. Os jovens estão sempre achando que os velhos estão fora do seu tempo e que são um entrave na obra do Senhor por causa do conservadorismo. O Espírito Santo, porém, não vê nas gerações qualquer conflito, pelo contrário, revela-se a ambos.
Os idosos aferram-se às tradições, achando que o que é velho é que e bom, confundem acidente com essência, histórico com revelado, temporal com eterno, esquecendo-se que o velho também foi novo quando surgiu. A igreja teve problemas com o piano quando foi introduzido por Lutero na adoração polifônica da Alemanha. Aquilo era moderno demais. Violões foram objeto de longo discussão entre antiga e nova geração, quando foram introduzidos como instrumentos litúrgicos na igreja, bateria nem se fala, até hoje existem igrejas que enfrentam enormes dificuldades quanto a este assunto.
Os jovens, por sua vez, precisam entender que as coisas novas não são necessariamente certas, que a verdade conquistada no meio de muitas lutas precisa ser conservada. O texto fala de jovens tendo visões e velhos sonhando. “Os velhos precisam da visão dos moços e estes carecem dos sonhos dos velhos”, e estas bençãos são ministradas pelo Espírito Santo que não é atingido por questões temporais que carregamos e valorizamos tanto. O evangelho tem um senso de novidade, de descoberta, de estar com uma visão adiante, porque tanto sonhos como visões apontam para uma singularidade que precisa surgir. O Pentecostes não é conservador nem liberal. Moços e velhos seriam renovados pelo mover do Espírito.

  1. O Pentecostes Desfaz a diferença entre homem e mulher – vossos filhos e vossas filhas, profetizarão” (At 2.17). Pela primeira vez na história, a religião permite que a mulher adentre a dimensão do sagrado, sem nenhuma restrição.

Na religião Judaica, os homens entravam no lugar dos santos, que era um local proibido para as mulheres. Elas podiam, no máximo, ficar no pátio dos gentios. Os judeus ortodoxos oravam sinceramente, dizendo: “graças te dou por não ter nascido nem gentio, nem cachorro, nem mulher”. Aqui o Espírito se derrama profusamente sobre ambos os sexos, desfaz a barreira. As mulheres passam a ser batizadas. Este é o pensamento do Evangelho. “Dessarte, não pode haver judeu nem grego (distinção cultural); nem escravo nem liberto (distinção social); nem homem nem mulher (distinção de sexo); porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gl 3.28).
Quando Buda consentiu que uma mulher entrasse no Sangha, fê-lo com grande tristeza afirmando que este lugar sagrada não seria mais eterno porque as mulheres haviam colocado seus pés naquele lugar.
Ainda hoje a religião islâmica mantém a mulher sobre um clima de profunda humilhação e subordinação. Quando Jesus conversou com a samaritana, os discípulos ficaram boquiabertos por verem-no dialogando com ela. No Pentecostes a mulher recebe sua carta de alforria, é libertada de um militar esquema de opressão. O Espírito Santo afirma sua dignidade e se manifesta sobre piedosas mulheres que participavam de uma reunião de oração. Aqui a religião liberta-se da idéia da superioridade do sexo.
         
  1. O Pentecostes rompe a barreira da classe social – “Até sobre os meus servos e sobre as minhas servas derramarei do meu Espírito naqueles dias, e profetizarão" (At 2.18). O Pentecostes é um evento de aproximação e mudança das relações - "O Espírito é uma força histórica  que  muda  as  relações  entre  as pessoas"[1]. O Pentecostes põe fim a um conceito de classe social mais elevada ou de um grupo religioso superior. Não existe casta, nem místicos, nem grupo mais elevado que recebe enquanto outras pessoas não. Aqui o Espírito se manifesta a todos.

O evento mais celebrado nos meios pentecostais é o fenômeno da Rua Azuza, em Los Angeles, quando se deu início ao conhecido e contemporâneo movimento pentecostal. O que poucas pessoas sabem é que a primeira pessoa a ter as experiências que abalariam o mundo foi um negro de nome Seymour. Ele teve algumas experiências e compartilhou com outro pastor branco, em 1906, quando a segregação racial era ainda muito forte nos Estados Unidos. O pastor que o ouviu, ficou interessado e sendo professor de um instituto formador de liderança o convidou para participar de uma reunião, o problema é que, enquanto ele explicava o que estava acontecendo Seymour teve que ficar numa cadeira do lado de fora do auditório, porque sendo negro, não lhe era permitido adentrar aquele recinto. O Espírito Santo já havia sido derramado sobre aquele homem, mas as estruturas históricas ainda mantinham esta toda e perversa divisão de classes.
No Pentecostes, servos e servas, escravos e livres, adentram o sobrenatural. A religião se desprende de uma classe privilegiada e se centraliza em Deus. O cristianismo focaliza no ser humano, independentemente de quem ele é e qual sua condição social. Stanley Jones viu na frente de um templo hinduísta a seguinte placa: “párias e cães não podem entrar”. Párias são grupos religiosos inferiores do sistema hindu dividido por casta, que coloca determinadas pessoas com impossibilidade de adentrarem o sagrado.
Soube recentemente de um grupo muito grande de uma casta hindu que se converteu ao cristianismo na Índia. Isto gerou perseguição religiosa e protesto. Qual era o problema? Enquanto o hinduísmo declara que aquele grupo estava distanciado de Deus, o cristianismo fala do fato de que Cristo morreu por todos os homens, independentemente de sua classe social.
No Pentecostes o Espírito Santo se manifesta a todos. Sustenta a grande verdade de que o homem é homem, e tem valor em si mesmo. Nenhum grupo religioso ou social pode determinar qualquer coisa diferente disto, porque o Pentecostes acentua a dignidade humana.

  1. O Pentecostes elimina a concepção de um grupo místico superior a outras pessoas – O Espírito Santo foi derramado a todos, e não apenas aos apóstolos. O texto diz: “E todos foram cheios do Espírito Santo”. Não houve distinção, ou um grupo espiritual que fosse superior a outro e tivesse acesso exclusivo ao sagrado.

Isto é muito importante em nossos dias, quando determinados místicos deixam a impressão de que são superiores e possuem o conhecimento e acesso privilegiado a Deus. Pastores e profetas também passam esta impressão de que são um grupo privilegiado que tem acesso às coisas sagradas enquanto outros não. O texto afirma que no Pentecostes todos ficaram cheios do Espírito, independentemente de sua competência espiritual. Havia 120 pessoas no lugar, e não foram apenas os “espirituais” que tiveram acesso ao dom do Espírito Santo, mas todos foram tocados pela manifestação maravilhosa de Deus.
S. Jones afirma: “Seria um terrível desapontamento para a minha fé se eu tivesse que admitir que há pessoas que, pela estrutura de seu ser, são incapazes de receber e compreender o Espírito em todas a sua plenitude” [2]
O texto demonstra que, diferentemente de tendências modernas centradas no homem, o poder aqui vem de fora, não de dentro das pessoas. Não se tratava de desenvolver determinadas energias interiores para alcançar experiências. “Veio do céu um som como o de um vento impetuoso”.  
Existe um pensamento moderno que tenta despertar “O Cristo que há em nós”. O Pentecostes denuncia esta vã tentativa de encontrar a divindade em nós. Deus está fora de nós, não vem de dentro, por isto temos que “nascer do Alto”, o Espírito vem do Alto. “Ficai em Jerusalém até que do alto sejais revestidos de poder” (Lc 24.49). enquanto todas as religiões falam da necessidade de encontramos o self interior, o cristianismo está ensinando sobre a necessidade de morrermos para o nosso eu. “Quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á, mas quem perder por minha causa, salvá-la-á”. O cristianismo não fala de uma busca interior para força, mas da necessidade de encontrarmos, fora de nós mesmos, aquele que pode nos salvar.
Cultos modernos se baseiam no culto do eu, na auto divinização. A filosofia do zen budismo afirma “Tu és aquele”, ou “eu sou brama”, referindo-se a uma divindade. É a tentativa de encontrar Deus dentro de si mesmo. O Evangelho mostra um lado absoluta distinto: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Lc. 9.23-24). Paulo fala da necessidade de crucificarmos o nosso eu na cruz. “sabendo isto, que foi crucificado com ele o nosso velho homem” (Rm 6.6). Ninguém pode amar a Deus sem primeiro entregar-se a Ele.

  1. O Pentecostes desfaz a barreira da comunicação entre as pessoas – “Como os ouvimos falar, na nossa língua materna" (At 12.8).

Aqui ocorre o reverso de Babel. Lá os homens tentam erguer uma torre que alcance os céus. É a tentativa da religiosidade fundada sob o controle e o resultado foi a confusão: ninguém conseguia mais se entender. No Pentecostes temos a antibabel.  Quando Deus está presente, aqueles que estão distanciados por causa da linguagem começam a entender uns aos outros. A língua torna-se meio de comunicação não de conflito e divisão. Na Babel (Gn 11), todos falavam a mesma língua e se desentenderam, no pentecostes, todos tinham dialetos diferentes e se comunicaram.
As barreiras culturais são desfeitas.
É possível falar a linguagem do céu e assim ser entendido. O problema da raça humana não é a distância que existe na suas línguas e culturas, mas a distância que existe nos corações. Existem muitos, vivendo dentro da mesma casa, que não conseguem se entender porque lhes falta um espírito de unidade, enquanto muitos, ainda que distanciados linguisticamente, tem encontrado a capacidade de comunicação, porque estão identificados pelo mesmo Espírito.

Samuel Vieira
Anápolis - Agosto 2009




[1] Fabris, Rinaldo - Atos dos Apóstolos são Paulo, Ed. Paulinas, 1984 .

[2] Op. Cit. Pg. 158