domingo, 25 de janeiro de 2015

Jó 42.2 Nenhum dos teus planos pode ser frustrado

 Introdução:

Uma das doutrinas bíblicas mais combatidas ultimamente é a “Soberania de Deus”. Em 2007, na comemoração do Acampamento El Rancho 40 anos, tivemos um preletor que afirmou categoricamente que “Deus não tem nada a ver com as calamidades e tragédias humanas”. Todos que estávamos presentes ficamos nos perguntando e interpelamos o pregador: “Se Deus não está por detrás dos eventos da história, quem está?”, “Se Deus não governa o cosmos, a vida humana, quem governa?” Se Deus não é Deus, isto é, se ele não exerce os atributos da divindade como onisciência, onipotência e onipresença, quem o faz?

Uma das grandes lutas de Jó é o fato de que Deus governa soberanamente. Jó teve grandes lutas com isto. Resignado, em alguns momentos, reclamou do fato de Deus fazer as coisas do jeito que fazia. O capítulo 23, de uma forma especial. “Ainda hoje a minha queixa é a de um revoltado, apesar de a minha mão reprimir o meu gemido. Ah! Se eu soubesse onde o poderia achar! Então, me chegaria ao seu tribunal” (Jó 23.2,3). A crise de Jó se torna clara na sua afirmação: “Mas, se ele resolveu alguma coisa, que o pode dissuadir? O que ele deseja, isso fará” (Jó 23.13). Uma tradução mais antiga afirma: “Ele é Ele!”. Ao lermos isoladamente este texto, temos a impressão de que as coisas estão bem resolvidas na alma de Jó, mas quando analisamos a situação de forma mais profunda, percebemos, na verdade, que ele está indignado com o jeito de Deus ser Deus. Sua onipotência, sua soberania, são perturbadores para Jó. “Por isso, me perturbo perante ele; e quando o considero, temo-o” (Jó 23.15). Por que ele se perturba? Pela compreensão da autoridade de Deus, e por perceber sua impotência diante do Eterno.

No final do livro, quando o assunto e a discussão em torno de todas estas questões misteriosas da morte, do mal e do sofrimento estão fechando o ciclo, Jó afirma: “Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado” (Jó 42.2). Felizmente neste contexto, esta declaração não está associada a amargura, mas a louvor e adoração.

Quais são os princípios que precisamos extrair desta afirmação?


Primeiro princípio

Deus elaborou seu projeto antes dos tempos eternos

A história não segue sem planos. O universo possui coerência: começo, meio e fim.

Ao dialogar sobre as diferentes correntes filosóficas, tenho a impressão de que se não fosse cristão seria existencialista, embora reconheça que o existencialismo é a linha filosófica mais desesperadora que existe. Faria isto, porque fora de Deus, não há a mínima chance de termos esperança. Sem Deus o que paira é o caos, o desespero, as contradições e angústias não resolvidas da humanidade.

Se não existe um Deus soberano detrás das coisas – O que nos resta? Um autor existencialista chegou a afirmar: “Sem Deus, tudo é permitido!”.

Jean Paul Sartre, um dos ícones do existencialismo chegou a afirmar: “O mundo é um absurdo, Deus dá ordem ao absurdo, mas Deus não existe!”. Sem Deus, portanto, só resta o caos, a desordem, a falta de sentido e propósito. Nada faz sentido. Usando uma linguagem do mundo da economia diria: “A conta não fecha!”

A Bíblia faz questão de considerar a história, não numa perspectiva cíclica como queria Platão, mas numa perspectiva ascensional. Na primeira, a história está dando voltas, num indo e vindo infinito de repetições, sem finalidade alguma, porque não existe propósito nem direção alguma. Na visão bíblica, a história tem propósito. Podemos ver encadeamento, ordem e sentido: Criação, queda, redenção e consumação. Deus está escrevendo a história de acordo com seu plano, e ele executa os seus intentos no decorrer dos anos. A visão da história para o cristianismo é ascensional, ela possui teleologia (objetividade e direção). A vida possui intencionalidade, não caminha para um caos, mas para um propósito Eterno. Deus é soberano e não há absolutamente ninguém ou algo que possa impedir o seu divino propósito de ser executado. Tudo está sob controle. “Os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis” (Rm 11.29).

Os céus não se surpreendem. Deus não fica chocado com os escândalos e a maldade humana. Ele sabe de tudo: começo, meio e fim.

A Bíblia afirma que, nos propósitos eternos, o seu Filho um dia viria para salvar o mundo perdido. É o que os teólogos chamam de pacto da redenção. Feito pela Trindade. Por isto a esdrúxula afirmação de Apocalipse exaltando “O Cordeiro de Deus que foi morto, antes da fundação do mundo” (Ap 13.8). A morte de Cristo faz parte do projeto de Deus para resgatar a humanidade de sua desorientação e falta de sentido. Ele morreu para pagar o preço de nossa dívida, e nos propósitos eternos isto foi feito antes da fundação do mundo. Antes de se tornar parte do Kronos (com geografia, espaço e tempo), fazia parte do projeto da eternidade no pacto da redenção feito entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo para resgatar a humanidade que falharia.


Segundo princípio

Deus tem todo Poder

“Bem sei que tudo podes!” Se você abriga algum pensamento de que exista alguma área na qual Deus não tem acesso, nem pode governar, a resposta é não! Não existe. Em todas as coisas, visíveis e invisíveis, Deus tem acesso. Até no inferno, já que o nosso credo apostólico afirma que ele desceu ao hades, e o livro de Apocalipse afirma que ele tem as chaves do inferno e da morte. Em todo lugar ele está presente, em todos os momentos. Isto é onisciência! Embora Deus pareça silencioso demais em alguns momentos da história e da nossa vida, nunca duvide: Deus está lá!

Ele não apenas está presente e sabe todas as coisas. Nenhum pardal morre, nem um fio de sua cabeça cai, sem que Deus ordene isto, mas ele também tem todo poder. Deus pode fazer todas as coisas, embora ele nem sempre faça todas as coisas. Ele pode curar todas as pessoas, embora nem sempre cure. Ele age de acordo com seus planos e tem todo poder para agir, da forma que quer, e como quer, para cumprir seus propósitos eternos. Ele é Deus! Onipotência é um dos seus atributos, e não é negociável nem comunicável.

Quando Deus afirma alguma coisa, ele faz, porque ele pode fazer, ainda que pareça impossível: Ele pode fazer brotar água da pedra, pode fazer uma mulher de 90 anos dar a luz, pode fazer uma adolescente que não conheceu homem algum engravidar, pode enviar carne para 2 milhões de pessoas no deserto comerem por um mês inteiro. Por três vezes, em situações anacrônicas, Deus pergunta: “Existe alguma coisa demasiadamente difícil para mim?

Quando disse a Moisés que daria carne para dois milhões de pessoas comerem no deserto por um mês inteiro, Moisés começou a fazer as contas e a questionar se Deus não estava exagerando. O que Ele respondeu: “Ter-se-ia, por acaso, encurtado a mão do Senhor?”

Em Apocalipse 4, a primeira visão de João é a de um Ancião de dias assentado no trono. Não, o trono não está em disputa. Não existem forças lutando para assumir o trono. Ele não está vago. Não está sendo pleiteado por ninguém. Já está ocupado, e aquele que se assenta no trono celestial, de onde procedem todas as decisões, e a história das nações. Nabucodonozor se por não entender que “O céu domina” (Dn 2.20)

Os homens tentam fazer de conta que não existe este Deus soberano. Tentam sabotar a Deus, lutar contra ele. “Por que se enfurecem os gentios e os povos imaginam coisas vãs? Os reis da terra conspiram contra o Senhor e o seu ungido (messias), dizendo: Rompamos os seus alcos e sacudamos de nós as suas algemas” (Sl 2.1.3). Sabe o que Deus faz quando os homens conspiram contra ele? O Salmo 2 afirma que “Deus ri!”. Isto mesmo: Deus solta gargalhada, isto lhe parece cômico, hilário e irônico. “Ri-se aquele que habita nos céus; o Senhor zomba deles. Na sua ira, a seu tempo, lhes há de falar e no seu furor os confundirá” (Sl 2.4-5). Afinal, “Agindo eu, quem impedirá?” (Is 43.13), diz o Senhor.

Isaias 44.7 afirma que Deus sabe o fim, desde o começo. “Quem há, como eu, feito predicçõs desde que estabeleci o mais antigo povo?”.


Terceiro Princípio

Os céus não se surpreendem

Nós nos assustamos quando os fatos acontecem. Somos pegos completamente desprevenidos. Às vezes até com as coisas mais óbvias. Ficamos chocados quando sabemos da morte iminente de uma pessoa querida, mesmo quando sabemos que sua vida está por um fio e vem lutando com uma enfermidade por muitos anos. Para Deus, nada do que acontece se constitui surpresa, ele não é pego no contrapé das novidades e nem se assusta diante dos fatos, por mais trágicos que sejam. Ele não apenas age na história, mas é ele quem a escreve. Ele não apenas intervém na história – Ele faz a história.

O livro de Daniel é profético, fala da ascensão e queda dos reis.

A descrição que ele faz dos reinos que viriam é tão precisa que alguns comentaristas liberais levantaram uma tese para “explicar isto”. Para eles, os eventos anunciados pelo profeta Daniel foram descritos depois de acontecidos, isto é, o livro de Daniel foi escrito por alguém inescrupuloso que tenta enganar seus leitores. Os fatos foram registrados depois de acontecidos. Neste caso, teríamos uma fraude na Bíblia.

A verdade é que desconhecem o Deus da Bíblia.

O livro de Jeremias afirma que, por causa da desobediência e rebeldia, o povo de Israel seria levado cativo por uma potência do norte, mas retornariam depois de 70 anos à sua terra. Como predito aconteceu. Jerusalém foi sitiada, conquistada pela Babilônia, e milhares de pessoas morreram na guerra, e alguns foram levados cativos, para se tornarem escravos e guerreiros. Ali, Daniel e seus amigos se tornaram personagens centrais. Depois de Nabucodonozor, assume o reinado seu filho, Belsazar. O império assírio é tomado pelos medos e persas. Surgem outros personagens que conhecemos como Dario e Ciro. Um dia, depois de 70 anos, Ciro que nada sabe da profecia, acorda de manhã e resolve alforriar o povo de Israel, dando liberdade aos judeus, encorajando-os a voltar para Jerusalém para reerguer novamente os muros e o templo (ver livro de Esdras e Neemias). Esta notícia pega os judeus completamente de surpresa. Neste contexto foi escrito o Salmo 126. “Quando o Senhor restaurou a sorte de Sião, ficamos como quem sonha...” Eles simplesmente não entendiam e não acreditavam no que estava acontecendo.

Deus não havia profetizado? O Profeta Jeremias não havia anunciado tais predições? Por que a surpresa?

Um detalhe importante não pode deixar de ser observado. O profeta Isaías afirma que Deus levantou Ciro, um rei pagão e líder de uma potência militar, como seu servo, para assinar o decreto liberando os judeus e ainda disponibilizar recursos do tesouro dos medos e persas. O mais surpreendente ainda: Deus afirma pelo profeta que Ciro era seu “ungido”, embora não o conhecesse pessoalmente. Ciro, sem o saber, estava cumprindo o propósito que Deus tinha para seu povo, e a profecia afirma que isto aconteceria “não por preço, nem por presente, ele edificará a casa e libertará os meus exilados”(Is 45.13). É interessante notar a frase “ainda que não me conheça” (Is 45.4, 15). Portanto, não precisamos conhecer a Deus para sermos seus instrumentos e fazer o que ele quer fazer.

A vontade de Deus será feita, quando queremos, quando ignoramos ou quando não queremos. Ciro não conhecia a Deus, mas Deus o chama de seu ungido (Is 45.1), palavra forte no hebraico que significa “ungido”. Da mesma forma Faraó fez a vontade de Deus, ainda que não quisesse. Até o seu endurecimento fazia parte do projeto de Deus para mostrar sua glória ao povo que agora era desafiado para tomar posse da terra que anteriormente havia prometido ao patriarca Abraão.


Conclusão

Como é possível se interpor contra Deus? É possível barrar seus projetos e planos? Por que os seus planos não podem ser frustrados ou “impedidos”?

A. Ninguém pode se interpor a Deus – quem pode resistir à sua mão, e aos seus propósitos? Jó compreende isto. “Eu sei que tudo podes”. Não existe qualquer coisa que possa barrar a obra de Deus ou sua ação no mundo. “Eu sou Deus, e não há Deus além de mim...”

Nada consegue derrotar aquele a quem Deus escolheu para vencer. Nada pode impedir seu plano para a história. David Nicholas afirmou: “As promessas de Deus são como as estrelas. Quanto mais escura a noite, mais brilham”.

“As nações são consideradas por ele como um pingo que cai de um balde e como um pó de balança; as ilhas são como pó fino que se levanta”(Is 40.15). “Todas as nações são, perante ele como coisa que não é nada; eles as considera menos do que nada, como um vácuo. Com que me comparareis a Deus? Ou que coisa semelhante confrontareis com ele?” (Is 40.17-18).

No livro de Daniel lemos: “Não há quem possa deter a sua mão, nem lhe dizer: Que fazes?” (Dn 4.35)

B. Os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis - Quando tratamos deste assunto, “Precisamos distinguir entre o que Deus gostaria de ver acontecer e o que ele realmente deseja que aconteça” (Howard Marshal).

Os teólogos chamam a atenção para a vontade permissiva e decretiva de Deus. Deus muitas vezes permite que algo aconteça, mas não tem prazer em que isto aconteça. Deus não tem prazer no sofrimento de Jó, mas permitiu que ele andasse por este tenebroso caminho por causa de seus propósitos. Muitas outras situações acontecem na vida acontecem. Deus permite que elas aconteçam. Ele tem o poder de impedi-las, mas não o faz.

A vontade decretiva de Deus possui outro aspecto. Deus traça determinados planos e deseja cumpri-los. Os seus decretos são irrevogáveis, o que ele prometeu ele há de cumprir. Nada vai impedir que a história de Deus se cumpra. O livro de Apocalipse afirma que Cristo vai voltar em glória, para governar, e não há poder na terra ou no céu que possa impedir este decreto de Deus.

John Piper tenta elucidar este ponto com três ilustrações:

A traição de Judas foi um ato moralmente mal e inspirado por Satanás (Lc 22.3); Entretanto, Lucas diz que “èesse Jesus foi entregue pelo determinado desígnio (boule) e presciência de Deus” (At 2.23).

O desprezo de Herodes por Jesus (Lc 23.11) e a conveniência covarde de Pilatos (Lc 23.24) também foram atitudes pecaminosas. No entanto, em At 4.27-28 Lucas expressa seu entendimento da soberania de Deus nestes atos, ao registrar na oração que tais atitudes faziam parte do “santo conselho” (boule) de Deus.è

Em Apocalipse, a besta e os dez chifres (At 17.8,12) que empreenderam guerra contra o Cordeiro, cometeram atos malignos. No entanto, Deus influenciou o coração dos dez reis para que fizessem algo contra a sua vontade. Deus quis (em um sentido), que fizessem algo contra sua vontade (em outro sentido).è

C. Deus é fiel, e zela por sua palavra para a cumprir – “Se ele prometeu, ele ha de cumprir, e se ele falou, é certo que fará”.

Deus é absolutamente livre para fazer o que deseja fazer, ou de não fazer. Ele tem o poder de restringir o mal, ou liberdade de não restringir, se assim o deseja, para cumprir seus santos e misteriosos propósitos. Deus tem o poder de restringir o mal dos governos seculares. Quando ele faz, é sua vontade fazê-lo, quando não faz, é sua vontade, não fazê-lo.

O Salmo 33.1 afirma que “O Senhor frustra os desígnios das nações e anula os intentos dos povos”. Quando o rei Nabucodonozor teve um surto psiquiátrico e passou a viver como animal, apesar da glória de seu império, Daniel afirma que Deus lhe fez isto para que ele aprendesse que “o céu domina”.

Num poema de Clarice Lispector, [1] chamado de "oração por um padre", a autora afirma que fez “uma reza” (sic) por um sacerdote com medo de morrer e ouve dele a seguinte afirmação: "Faze com que ele não indague demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta".

No livro, A Cabana, de William P Young, há um interessante diálogo entre Deus e Mack, um dos personagens do romance, que passa por uma grande aflição e tem que enfrentar sua tentação no nível mais profundo, porque envolve suspeita de Deus. Então Deus, voluntariamente se coloca no banco dos réus e convida o personagem a argüir com ele, e a discussão é assim:

“A verdadeira falha implícita de sua vida, Mackenzie, é que você não acha que sou bom. Se soubesse que sou bom e que tudo – os meios, os fins e todos os processos das vidas individuais – estão cobertos por minha bondade, mesmo que nem sempre entenda o que estou fazendo, confiaria em mim, mas não confia (...) A confiança é fruto de um relacionamento em que você sabe que é amado. Como não sabe que eu o amo, não pode confiar em mim (...) você vê a morte e a dor como males definitivos, e Deus como o traidor definitivo, ou talvez, na melhor das hipóteses, como fundamentalmente indigno de confiança. Você dita os termos, julga meus atos e me declara culpado”[2].


R.C. Sproul afirma:

“Jó não sabia porque Deus o chamou para sofrer, mas sabia que Deus o havia chamado para sofrer... em última instância, a única resposta de Deus a Jó era a revelação de si mesmo. Era como se ele dissesse: Jó, eu sou a resposta. Deus queria que Jó confiasse não num plano, mas numa pessoa, um Deus pessoal que é soberano, sábio e bom” [3]


[1] Lispector, Clarice - A descoberta do mundo, Rio, Ed. Rocco, 1999, pg 32,

[2] Young, William P., A cabana – Rio, Ed Sextante, 2008, pg 115

[3] Sproul, R. C. Surprised by suffering, Walker and Co., 1988, pg 47,51

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Jó 41.1-11 Não brinque nem negocie com Satanás



Quadro ao lado pintado por Doré (1865)





Introdução:

O Livro de Jó possui um conteúdo crítico, por isto é objeto de estudo de psicólogos e teólogos. Ele toca nas questões mais profundas da existência e nos obriga a refletir sobre mistérios da vida, das forças cósmicas e de Deus.


Recentemente fui assistir o filme “Êxodus: deuses e reis”, uma adaptação da história bíblica. O filme narra a vida de Moisés (Christian Bale), nascido dos hebreus e criado na família real. Seus efeitos especiais são muito bem elaborados e possui uma maravilhosa fotografia, embora o roteirista tenha preferido descrever Moisés pelo ângulo de suas angústias e crises com identidade, chamado e com o próprio Deus. Caso decida assistir o filme é importante ter em mente um comentário de um dos artistas: “Nós não queremos reescrever a Bíblia, mas fazer um filme sobre o homem Moisés”. Dito isto, fica mais fácil assisti-lo sem ficar preocupado com seu conteúdo, se é o mesmo das Escrituras, porque de fato ele não é fiel ao que a Bíblia ensina. O filme retrata Moisés recebendo ordens de Deus e eventualmente questionando-o e discordando de seus métodos.


O livro de Jó também mostra um servo de Deus, lidando com a incompreensibilidade e mistério de Yahweh. Na tentativa de entender os processos da divindade, Jó chega a fazer 16 perguntas sobre os motivos de Deus, iniciando com os “porquês”, e Deus não responde a nenhuma delas diretamente.

“Por que” é uma questão filosófica, busca entender os motivos e razões de Deus em agir da forma que age; é uma questão que procura dissecar a intencionalidade do Sagrado. Deus deixa claro que não explica nem justifica suas razões. Entretanto, Deus retorna suas perguntas levantando outras 70 perguntas relacionadas à sua majestade e poder.

Só entre os capítulos 38-41, por 15 vezes, Deus indaga Jó sobre “Quem”, isto é, qual é o agente por detrás dos movimentos da história, da criação e da manutenção do cosmos? Como os movimentos da natureza surgiram e são mantidos? Quem inicia todo este processo harmônico e estético do universo? Seu alvo é levar Jó a entender que o “porque” não é a questão mais importante, mas “Quem”, isto é, o ponto de partida da história e da existência em si mesma. Deus não explica nada a Jó, nem satisfaz sua curiosidade, mas revela seu caráter, poder e atributos.

Jó expõe suas queixas 34 vezes, mas o silêncio foi a resposta obtida. Quando Deus falou, não respondeu a nenhuma de suas perguntas diretamente, mas fê-lo entender sua natureza e quem ele era.

No capítulo 38-41, Deus faz perguntas a Jó sobre criação, animais e os mistérios da natureza. Logo no início do capítulo 41 ele fala do “crocodilo” (RA), uma tradução inadequada para a palavra Leviatã (RC), e é sobre este Leviatã que queremos falar.

Quem é este Leviatã?

Na literatura apócrifa, ele é considerado um dos quatro príncipes do inferno, já que a tradução do termo “Liwjathan” do hebraico, é literalmente “serpente sinuosa”, seu arquétipo se refere à brutalidade e ferocidade, uma criatura abissal de proporções gigantescas.

Esta é uma figura mitológica de grandes proporções, e na tradição católica foi tratada como o demônio representante do quinto pecado, a inveja, e que é também um dos sete príncipes infernais, representado em forma de crocodilo, na mitologia fenícia.

Na sua descrição temos a informação de que este ser é o maior (ou mais poderoso) dos mundos aquáticos. Alguns tentam fazer aqui uma associação com os extintos dinossauros, grandes animais marítimos como a baleia, ou até mesmo elementos mitológicos como o dragão. Ao lado do Beemoth, traduzido como hipopótamo (Jó 40.15ss), o Leviatã tem sido interpretado hiperbolicamente. Gustavo Doré (1865) pintou um quadro sobre a destruição do Leviatã, no qual um anjo de Deus luta contra ele.

O dicionário judaico de lendas e tradições escrito por Alan Uterman afirma que os olhos do Leviatã iluminam o mar à noite e podem ser vistos a milhas de distância. Segundo a escatologia judaica, no final dos tempos, com a chegada do Messias, Gabriel entrará em luta cósmica para derrotá-lo. Talvez seja inspirado nesta tradição hebraica que Doré pintou o seu quadro.


Existem algumas descrições difíceis de entender sobre este monstro:

Jó 41.18 – “Cada um dos seus espirros faz resplandecer luz, e os seus olhos sao como as pestanas da alva”.

Jó 41.19 – “Da sua boca saem tochas, faíscas de fogo saltam dela”.

Jó 41.20 – “Das suas narinas procede fumaça, como de uma panela fervente ou de juncos que ardem”.

Jó 41.21 - “O seu hálito faz incendiar os carvões, e da sua boca sai chama”.


Todas estas descrições não se aplicam a figura do animal conhecido como “crocodilo”, parece mais uma descrição de um dragão, um ser mitológico.

De que este texto está falando?

Para onde esta figura do Leviatã aponta?

Russel Shedd, no seu comentário na Bíblia Vida Nova afirma que se trata de “expressões simbólicas referindo-se a tipos de instrumentos em que Deus se utilizou para julgamentos físicos do passado como o Egito e a Assíria”. Por se tratar de uma descrição metafórica e simbólica, toda interpretação corre o risco de se tornar mítica ou alegórica, mas gostaria de propor que este ser fosse interpretado como Satanás, o grande Leviatã, pelas descrições que encontramos dele:

A. Não pode ser controlado por homem algum – “Podes tu, com anzol apanhar o crocodilo (Leviatã) ou lhe travar a língua com uma corda? (Jó 41.1). Não dá para dominá-lo, porque ele não tem atitude de servo, não dá para restringi-lo, dominá-lo.

Não seria uma referência clara sobre Satanás, um ser impetuoso, a quem nenhum homem pode dominar pela força? A Bíblia fala de que alguns judeus exorcistas, tentaram dominar e exorcizar um possesso de espírito maligno, sem a autoridade do nome de Jesus e foram subjugados tendo que sair daquele lugar desnudo e ferido (At 19.13-16).

Não dá para brincar com ele – “Brincarás com ele, como se fora um passarinho? Ou tê-lo-ás preso à correia para as tuas meninas?“ (Jó 41.5). Satanás não é um brinquedinho, um “amiguinho”. Eventualmente determinados filmes com conteúdos esotéricos ou até mesmo desenhos animados, tentam relativizar a potência do mal e dar-lhe um caráter brando, mas a verdade é que não podemos brincar com ocultismo, esoterismo e feitiçaria. O Pr. Glênio Paranaguá, afirma que precisamos aprender que feitiçaria não é obra do diabo, já que a Bíblia diz que é obra da carne (Gl 5.19-20). Trata-se de uma obra da carne, da tentativa do homem de controlar as forças espirituais. Na verdade, quando uma pessoa se envolve com este tipo de atividade, se expõe de forma direta à obra do diabo. Está brincando com o maligno.

Não brinque com o diabo.

Muitas pessoas adentram o universo da feitiçaria, ocultismo e magia, por brincadeira ou curiosidade, tentando aprisionar o Leviatã e dá-lo como brinquedo a seus filhos. Satanás não algo para se tratar com condescendência e malemolência. Não se brinca com o diabo!

C. Não se negocia com o diabo – “Acaso, os teus sócios negociam com ele? Ou o repartirão entre os mercadores?” (Jó 41.6). Não dá para fazer pactos com as trevas, negociar com o maligno, fazer acordo com o maligno, e se assentar à mesa para conversar e construir um projeto.

O diabo é mentiroso e Pai da mentira e tem sido assim desde a criação (Jo 8.44). Eva tentou seguir sua orientação e foi uma tragédia! Muitos pactos e alianças sinistras tem sido feitos com as trevas, muitos o fazem na sua ignorância, outros por descuido. Ele vai te destruir, porque é próprio da natureza das trevas agir com atitudes escusas.

D. Caminhar com o Leviatã traz desespero e angústia – “Eis que a gente se engana em sua esperança, acaso não será o homem derribado só em vê-lo?” (Jó 41.9). Só sua presença por perto, só de olharmos para ele, a esperança se esvai e o corpo enfraquece. “No seu pescoço reside a força, e diante dele salta o desespero” (Jó 41.22). Desespero é um sentimento comum naqueles que resolvem fazer do maligno sua companhia. Não se conhece paz e sossego ao seu lado.

Saul se envolveu com médiuns e adivinhos e consultou os demônios na esperança de falar com os mortos. Nesta trama foi envolvido e engalfinhado pelo engano, e seu desespero aumentou ainda mais, e poucos dias depois deste incidente ele se suicidou. Não dá para caminhar com demônios e ter paz, alegria e esperança. Diante dele salta o desespero.

E. Satanás é um ser sem misericórdia – “Acaso te fará muitas súplicas? Ou te falará palavras brandas?” (Jó 41.3). Dante Alighieri ao descrever o inferno, afirma que na sua entrada há uma placa com os seguintes dizeres: “Aqui cessa toda esperança!”.

Satanás não se comove com a dor e não ameniza seu chicote. Ele vem para “matar, roubar e destruir”, seu propósito é roubar toda paz, alegria e espontaneidade. É destruir todo vigor e alegria, é levar o ser humano à desgraça e sofrimento. Ele não usa palavras brandas e nem trata com benignidade. Ele é maligno por definição e na sua essência.

F. Não dá para derrotá-lo com instrumentos comuns – “Na terra não tem ele igual, pois foi feito para nunca ter medo” (Jó 41.33).“Ninguém há tão ousado que se atreva a despertá-lo” (Jó 41.10).

Que armas, senão as espirituais, podem ser usadas contra Satanás? Que instrumentos podem ser usados para confrontá-lo, senão a obra maravilhosa do Espírito Santo e o precioso sangue do filho de Deus. Precisamos de autoridade espiritual para lutar contra Satanás, porque as nossas forças não são eficientes contra ele. Determinadas castas só saem com jejum e oração.

Por causa de todas estas descrições acima, podemos entender que se trata de uma referência simbólica ao diabo.

Conclusão:

Para concluir esta reflexão, queremos dar duas aplicações:

1. Apesar de todo poder, Satanás está sob o domínio de Deus – Os vs 11,12 tornam-se meio confusos, porque surgem no meio da descrição que está sendo feita do Leviatã. É importante considerar, porém, que é Deus quem está falando a Jó, desde 38.1ss.

Portanto, prestemos atenção ao contexto e o desenvolvimento natural e gramatical do texto. Em 41.10, Deus afirma:

“Ninguém há tão ousado que se atreva a despertá-lo”.

Em outras palavras, não provoque o diabo. Não lhe dê energia. O mal se nutre da força que lhe damos e das brechas que abrimos para sua operação. Por isto, os muros precisam ser fechados bem como todas as brechas. Não provoque Satanás, nem as trevas. Não pactue, não se envolva, não o desperte!

Mas em seguida, o texto afirma:

“Quem é, pois, aquele que pode erguer-se diante de mim?

Quem primeiro me deu a mim para que eu haja de retribuir-lhe,

pois o que está debaixo de todos os céus é meu!”

(Jó 41.10b-11).

Há um contraste intencional do texto entre a incapacidade humana de lutar e vencer o Leviatã, e ao mesmo tempo, do controle absoluto de Deus sobre todas as coisas. Esta ideia está presente desde o início do livro.

Quando Satanás se propôs a tocar em Jó, não o pode fazê-lo, sem autorização explícita e delimitada de Deus. Para tocar em Jó, seus bens e familiares, Deus autoriza e dá uma permissão com limites bem definidos, inicialmente para tocar apenas numa área, depois também na sua saúde, Deus precisa autorizar. O Leviatã não tem liberdade plena de ação. Sua obra é limitada pelo próprio Deus. Felizmente...

Quando Paulo narra a majestade de Deus, nos sublimes e densos capítulos de Romanos 9-11, ao encerrar a visão da soberania de Deus ele afirma: “Oh profundidade da riqueza, tanto da sabedoria, do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem primeiro foi o seu conselheiro? Ou quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído? Porque dele, e por meio dele, e para ele, são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém! (Rm 11.33-36).

Observaram o que há no meio desta doxologia?

Ele transcreve a frase de Jó 41.11.

“Quem primeiro me deu a mim, para que eu haja de retribuir-lhe?” (Jó 41.11).

Entre todos os ensinamentos do livro de Jó, um dos mais claros é que Deus tem todas as coisas estão sob seu domínio.

“Pois, o que está debaixo de todos os céus é meu” (Jó 41.11b).

Não há força política, humana ou espiritual que lhe possa resistir. O Leviatã é poderoso, forte, avassalador, diante dele salta o desespero (Jó 41.22), ele não foi feito para ter medo (Jó 41.33); mas apesar de sua arrogância, ele teme e treme diante de Deus (Tg 2.19).

2. O impacto da soberania de Deus traz uma nova compreensão e louvor a Deus, apesar do caos– Logo após a descrição que Deus faz acerca do seu governo sobre todas as coisas, Jó responde com adoração: “ Então, respondeu Jó ao Senhor; bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos, pode ser frustrado” (Jó 42.1,2).

Sua situação ainda não mudara. A dor, a doença, as perdas – tudo estava do mesmo jeito. Mas agora Jó via todas estas coisas com uma nova lente, sua interpretação dos fatos mudaram. A circunstância não havia mudado, mas seu coração sim. Quando Jesus se aproxima dos discípulos que estavam amedrontados com a violência do mar da Galiléia, Jesus primeiramente fala aos corações dos homens, antes de mandar o mar se acalmar. Muitas vezes Deus não quer mudar os fatos, mas quer mudar a mente, a forma de ver e analisar a vida, ele quer nos dar novas lentes. Foi exatamente isto que aconteceu a Jó. Antes de qualquer mudança, seu coração já era outro, e os fatos tinham outro sentido.

Vivemos dias em que a soberania de Deus parece assustar até mesmo os crentes e por isto tem sido relativizada por muitos. Gostamos de pensar num Deus dialético, ambíguo, inconstante. Talvez seja por isto que o filme “Moisés: deuses e homens”, citado no início, mostra Deus na figura de um garoto impulsivo e temperamental. O teísmo aberto ou a chamada “teologia relacional” coloca Deus não como “Senhor da história”, mas como alguém que participa da história, como coadjuvante e não o protagonista. Deus não tem papel principal, mas o homem. Na medida em que surgem os problemas, dizem eles, Deus vai agindo. Deus intervém na história, mas não faz a história. Mas não é isto que a Bíblia nos ensina.

Ao lermos a Palavra de Deus. Vemos sua soberania em ação desde o princípio, e o livro de Apocalipse isto. Tudo está sob controle. A história está sendo levada para um desfecho no qual o Filho do Homem virá nas nuvens, montado num cavalo branco para declarar que ele é “Rei dos reis e Senhor dos Senhores!” . É isto que a Bíblia ensina: “Os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis” (Rm 11.29). Os decretos de Deus não mudam por causa da intervenção humana, tudo já está selado e sendo conduzido pelo seu eterno e amoroso propósito. Deus está no controle da história levando-a para o fim que ele mesmo planejou, e nenhum dos seus planos pode ser frustrado. Ele não deve nada a ninguém, e nem procura se explicar a ninguém.

Esta ideia assustou Jó no meio do seu drama. “Mas, se ele resolveu alguma coisa, quem o pode dissuadir? O que ele deseja, isso fará” Pois ele cumprirá o que está ordenado a meu respeito, e muitas coisas como estas ainda tem consigo. Por isso, me perturbo perante ele; e, quando o considero, temo-o” (Jó 23.13-15). Jó ficou assustado ao reconhecer a absoluta soberania, seu controle sobre todas as coisas, mas, agora, no desfecho da narrativa, a visão de um Deus que tem as coisas sob controle, torna-se a fonte de sua segurança e louvor.

Quando ele fala deste absoluto domínio de Deus no capitulo 23, ele afirma que isto o “perturbava” (Jó 23.15), mas agora, que isto era motivo de adoração (Jó 42.1,2). O que mudou?

A verdade é que nada é mais libertador que a compreensão de que o Deus soberano e amoroso controla o universo, não estamos à mercê das coincidências, acaso, sorte ou circunstâncias, e nem ainda na mão dos homens (poderes políticos ou históricos), ou espirituais como o Beemoth e o Leviatã. Posso não entender os complexos mecanismos, e os paradoxos processos da existência humana, nem conseguir respostas ao meus “porquês”, ou ao mal, o sofrimento e a morte, e eventualmente posso até me assustar com estas coisas, mas quando me lembro de que os “céus dominam” (Dn 4.26), e que até mesmo o mal contra mim será usado para o meu bem, então posso me regozijar (Gn 50.20).

Jó não mais contempla o caos, mas contempla a Deus. Ele não via o sofrimento como mero sofrimento, mas os interpretava à luz da soberania de Deus. Os eventos tão dramáticos e doloridos, a potência do mal que o atingiu em cheio, o estrago do Leviatã, a maldade humana, a força do mal, tornam-se agora minimizados diante da autoridade inquestionável de Deus.

Em Jó 38, Deus começa uma série quase infindável de perguntas a Jó, que até então o havia colocado no banco dos réus. A cada pergunta de Deus, Jó é levado a refletir nos mistérios insondáveis da sua soberania e poder.

Assim se dá conosco:

Quando olhamos para nosso coração confuso e amedrontado, nossa tendência é o desespero; quando olhamos para o mal ao redor, sentimos medo e nos tornamos cínicos, mas quando contemplamos a Deus, seu poder e autoridade, podemos ficar seguro. Afinal, nada do que nos acontece é resultado dos horóscopos, das estrelas ou do acaso, mas de Deus.

Não precisamos temer o Leviatã que nos ronda, nem as forças do mal que conspiram. Se algo acontecer, sabemos, ainda que não entendamos nem sejamos capazes de equacionar, que é Deus quem abri regos para o aguaceiro (Jó 38.25); que gera as gotas do orvalho (Jó 38.28); Quem sabe as ordenanças do céu (Gn 38.33); quem pôs sabedoria nas camadas das nuvens (Jó 38.36); e quem prepara aos pássaros o seu alimento (Jó 38.41). E nenhum dos seus planos pode ser frustrado.

Posso saber ainda que “O meu Deus, segundo a sua riqueza e glória, há de suprir em Cristo Jesus, cada uma das minhas necessidades” (Fp 4.19); que ele me escolheu, em Cristo Jesus, antes da fundação do mundo, para viver de forma santa e irrepreensível perante ele, e em amor me predestinou para a adoção de filho, que por meio de Jesus, segundo a sua bondosa vontade, me deu a redenção pelo sangue do seu filho e a remissão dos pecados, segundo a riqueza de sua graça.

Aleluia!!!

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Jó 31 Lidando com as áreas de tentação





Introdução:

Grande parte do livro de Jó descreve os discursos dos seus amigos tentando convencê-lo de que seu sofrimento era resultado de seu pecado. Ele se defende tentando falando dos mistérios de Deus e sua inocência. Fazendo uma retrospectiva de sua vida à luz da Lei de Deus. Neste texto, ele descreve, as áreas conflitantes nas quais, o homem, desde aquela época sempre foi derrubado.

1. Área sexual: "Se o meu coração segue os meus olhos" 1-4,7
Esta é uma das áreas mais complexas para o homem, é a luxúria, a Bíblia fala de “concupiscência dos olhos”, que foi uma das causas da queda de Eva, lá no Éden. Somos uma geração provocada pelas imagens, bombardeada pela pornografia. Qualquer site que você abra, mesmo um jornal sério, você verá ali uma proposta para que você acesse. Basta um click.



É interessante a linguagem de Jó: “Se o meu coração segue meus olhos”. Este é o problema.

Muitas pessoas comem em demasia, porque “seus olhos são maiores que seu estômago”. Esta questão da estética sempre fascinou o homem, mas pode ser uma armadilha também para a mulher, com sua idolatrização do corpo.


Fala-se, hoje em dia, de uma pornografia reversa, que se aplica à mulher. Este termo criado por Rick Thomas, que está estudando o fenômeno de mulheres obcecadas não por olhar, consumir e desejar imagens, mas por provocar olhares, serem olhadas, consumidas e desejadas. São mulheres, casadas ou não, que encontram prazer em estimular olhares lascivos e chamar a atenção sobre si. Desejam capturar o olhar dos homens e se vestirão, com o fim de serem desejadas e cobiçadas. Mulheres assim, afirma Thomas “não estão ativamente consumindo pornografia, mas fazem isto de forma reversa. Podem até condenar pessoas que consomem pornografia, mas sua dependência é mais sutil. Vestem-se provocativamente para atrair e seduzir, ainda que não necessariamente queiram ser possuídas. Seu desejo é estimular reações nos outros”. Atitudes como estas tem raízes na insegurança quanto à imagem e valor pessoal, por isto estão sempre desejando ou competindo pela admiração masculina.
Deus exorta seu povo a viver de forma pura (Pv 5.15-21; 1 Co 7.2; Hb 14.4).

2. Abuso de poder e injustiça – “Se desprezei o direito do meu servo ou da minha serva, quando eles contendiam comigo, então, que faria eu quando Deus se levantasse? E, inquirindo ele a causa, que lhe responderia eu? (Jó 31.13,14). “Se eu levantei a mão contra o órfão, por me ver apoiado pelos juízes da porta, então, caia a omoplata do meu ombro, se seja arrancado o meu braço da articulação” (Jó 31.21,29). Ele fala de sistemas judiciários corruptos, de juízes, que também naqueles dias, apoiavam causas desonestas e davam veredictos por dinheiro ou por relacionamento.
Vivemos dias assim.
Não é muito difícil dar um jeitinho para trapacear, para tirar o direito do trabalhador e daqueles que são menos assistidos. Jó avalia esta área da tentação humana, que é um grande problema em nosso país acostumado com falcatruas e desonestidades. É preciso romper com o cancro da corrupção (1 Pe 3.7; Ef 6.9).
3. Desamor e egoísmo – Outra área mencionada por Jó: “Se retive o que os pobres desejavam ou fiz desfalecer os olhos da viúva; ou, se sozinho comi o meu bocado, e o órfão dele não participou... se a alguém vi perecer por falta de roupa, e ao necessitado, por não ter coberta; se os seus lombos não me abençoaram, se ele não se aquentava com a lã dos meus cordeiros” (Jó 31.16,17,19-20).  A consideração de Jó não é mais sexo, lascívia, luxúria, nem abuso de poder e corrupção, mas a simples e trágica indiferença e apatia com a dor do outro. É o descaso com que tratamos pessoas pobres e simples, atitude esta que fere tanto a Deus. Certamente pensamos que não odiamos as pessoas, mas a expressão mais cruel e maligna do ódio não é a afronta, mas a indiferença.
Estas coisas trazem o castigo de Deus.

Precisamos lutar contra o egoísmo, a preocupação narcisista e exagerada conosco. Não temos dificuldade em comprar roupas, viagens caríssimas, bolsas, ir a restaurantes luxuosos, mas temos dificuldade em repartir e cuidar, e Deus trata esta indiferença de forma muito séria. A exortação da palavra é “E não nos cansemos de fazer o bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não desfalecermos” (Gl 6.10).  

4. Confiança no dinheiro, Ganância e Avareza – Este é outra área de tentação mencionada por Jó. “Se no ouro pus a minha esperança ou disse ao ouro fino: em ti confio; se eu me alegrei por serem grandes os meus bens e por ter a minha mão alcançado muito” (Jó 31.24-25). É fácil se perder pelo ganho, se afastar de Deus por causa do dinheiro. A Bíblia diz que “o espírito de ganância tira a vida de quem o possui” (Pv 1.18).
Somos uma geração consumista, capitalista, gostamos de ganhos, riquezas e acúmulos. Nossa alma é gananciosa, insaciável, desejamos mais e mais e não percebemos que estamos sendo devorados por este espírito que nos seduz e atrai. A Bíblia diz “Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes. Ora, os que querem ficar ricos caem em tentação, e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e na perdição. Porque o amor do dinheiro é a raiz de todos os males; e, alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores” (1 Tm 6.8-10).

5. O fascínio pelo místico e esotérico – É surpreendente a observação de Jó: “Se olhei para o sol, quando resplandecia, ou para a lua, que caminhava esplendente, e o meu coração se deixou enganar em oculto, e beijos lhes atire com a mão, também isto seria delito à punição de juízes; pois, assim negaria eu ao Deus lá de cima” (Jó 31.26-28).
Os dias pós-modernos são caracterizados, não pelo paganismo e ateísmo, mas pelo esoterismo e espiritualismo. As séries que fazem sucesso na TV, os filmes concorridos, são místicos e zen, povoados de bruxas, feitiçarias, enigmas dos deuses, astrologia. Podemos equivocadamente nos encantar com estas coisas místicas e sermos atraídos por ela.

Alguns anos atrás aconselhei uma pessoa com background evangélico que estava fazendo pós-doutorado em medicina na Harvard, e se envolveu com um vidente, passando a viver num mundo de ameaças e estranhos acontecimentos.  Tenho visto pessoas que freqüentam igrejas evangélicas, e na hora da crise, consideram a possibilidade de consultar curandeiros. Um jovem crente narrou sua vergonha, indo para o nordeste do Brasil, ao resolver “brincar” com uma adivinha, e o constrangimento e embaraço que passou...
Não brinque com estas coisas. Jó afirma que se fizesse isto “negaria o Deus lá de cima”. Estas atitudes esotéricas são contrárias à Palavra de Deus.

6. Prazer na vingança e no ódio – “Se me alegrei da desgraça do que me tem ódio e se exultei quando o mal o atingiu. Também não deixei pecar a minha boca, pedindo com imprecações a sua morte” (Jó 31.29,30). Uma área de tentação que experimentamos é prazer na desgraça daquele que nos tem ódio. Não parece razoável exultar quando aquele que nos persegue se dá mal? Não fizemos nada contra ele, foi ele quem se arrebentou sozinho. No entanto, Deus não tem prazer neste macabro prazer que eventualmente experimentamos. Jó menciona ainda “imprecações”, que são orações que fazemos para que Deus faça mal àqueles que nos ferem. Você nunca fez isto? Nunca teve vontade fazer isto?

7. Tentação de ocultar os pecados – “Se, como Adão, encobri as minhas transgressões, ocultando o meu delito no meu seio; porque eu temia a grande multidão, e o desprezo das famílias me apavorava” (Jó 31.33,34). Lamentavelmente tenho chegado à conclusão que o ato de pecar em si tem se tornado menos trágico que a tentativa de encobrir pecados para manter as aparências. O que tememos? Reputação?

Jó descreve duas razões pelas quais normalmente somos tentados a agir assim: Primeiro, o temor do julgamento. Ele diz que as pessoas temem a perda da reputação. Que reputação? Nossa reputação está em Deus. Pouco importa se a multidão nos aplaude, quando Deus nos exorta e nos convida ao arrependimento. Quando nos importamos demais com as pessoas, e usamos mentira para acobertar o erro cometido, em geral o fazemos por medo de não sermos aplaudidos por homens.
O segundo aspecto é o medo de ser desprezado pelos outros, quando descobrirem que você falhou. Esta é uma grande possibilidade. Reputação se constrói como a construção da catedral, mas rui facilmente com um pequeno cupim destruindo a madeira. Entretanto, mais uma vez, Jó sente-se seguro por compreender que se recusou a encobrir suas transgressões como fez Adão, por causa da reputação dos homens e do desprezo advindo de sua atitude pecaminosa.

Conclusão:

Estas são áreas de tentações comuns nos dias Jó, e ainda hoje. Como elas nos desafiam.

Quem consegue passar incólume por este teste? Você passaria? Nunca tropeçou em nenhum destes pontos?

O Salmo 15 faz uma pergunta essencial: “Quem, Senhor, habitará no teu tabernáculo? Quem há de morar no teu santo monte” (Sl 15.1). Esta é uma pergunta chave: Quem tem performance adequada para morar no santo monte de Deus? Apocalipse faz pergunta similar: “Chegou o grande dia da ira deles; e quem é que pode suster-se?” (Ap 6.17). Quem é que pode estar em pé, no dia do Senhor, com um currículo invejável, com uma vida totalmente aprovada, sem mancha, sem mácula?

O grande dilema é que, embora passemos em alguns testes, falhamos em outros.

Talvez a gente não adultere, nem mate (mas odeie no coração), ou com facilidade tratemos com deferência os ricos, mas desprezamos os pobres e fazemos acepção de pessoas. O problema é que  “Qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos” (Tg 2.10).
O dilema é o seguinte:
Fazemos uma omelete com 11 ovos bons, mas colocamos um ovo estragado na receita. Apenas um! E danificamos tudo. Nosso currículo nos reprova, somos julgados pela lei perfeita de Deus e um só tropeço nos torna transgressor da lei. “Ora, sabemos que tudo o que a lei diz, aos que vivem na lei o diz para que se cale toda boca, e todo mundo seja culpável diante de Deus” (Rm 3.19). A Lei não pode dar vida, a lei mostra o nosso pecado, mas não nos capacita a ter vitória sobre eles. Ao pensar nestas áreas de tentação experimentadas por Jó você pode ter duas atitudes: Uma, a de afirmar que passou em todos estes testes (ou que falhou em alguns, ou todos eles); outra, é a de reconhecer como você é falho e impotente diante destas coisas.

A Solução Divina:

A palavra de Deus ensina é que “ninguém será justificado diante de Deus pelas obras da lei”. A lei não te isenta, a lei te condena. Jamais alguém a cumpriu a lei, a não ser Jesus, e Ele nos livrou da maldição da lei, fazendo-se ele mesmo maldição em nosso lugar. Ninguém conseguiu cumpri-la sem tropeço. Ninguém! (Rm 3.9-12). O padrão de Deus é muito alto, ninguém jamais vai conseguir realizar esta façanha, nenhum currículo é suficiente.

Em Rm 3.25 Deus faz uma proposta. “A que Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça”. O que Deus fez? Ele enviou Jesus para cumprir a lei em meu lugar. Minha justiça agora é a justiça de Cristo, pois a minha justiça é falha e incompleta. “Todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3.23), e ele vai nos justificar, gratuitamente (Rm 3.24). É bom observarmos o que o texto diz:

a)- Fomos justificados – Deus me declara justo. É ato passivo. Deus é quem realiza isto em minha vida. Reconheço que não sou justo o bastante, mas ele me absolve mediante a substituição. O Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, assume meu lugar de fracassado e vai para aquela cruz. Ele ficou em meu lugar. Seu sangue me justifica. Ele pagou um alto preço. Ele me comprou... Observe que o texto afirma que Deus me justifica, e nunca que eu me justifico a mim mesmo. Este é o ponto de partida do Evangelho, reconheço minha inadequação e passo a confiar plenamente no Evangelho. A justiça própria é o inimigo número 1 do Evangelho.

b) – Ele fez isto gratuitamente – Não pagamos nada, não demos nada em troca, e nem temos algo para dar. Deus entra em nosso lugar, assume a nossa culpa e nos redime com o precioso sangue. Somos salvos pela graça, que por definição rejeita qualquer critério meritório. Se for mérito é justiça, e não graça!


Rev. Samuel Vieira - Men’s breakfast – Medfor, MA- June/ 96


Lc 1.8-23 Expectativa



Introdução:

Se você é leitor desta coluna, talvez você queira ouvir este sermão. Basta clicar:

Recentemente conversei com uma pessoa que me relatou que andava visitando igrejas, buscando uma comunidade onde poderia servir ao Senhor, e no final, desanimada afirmou que estava freqüentando uma igreja, mas disse que “ia sem expectativa!”. Fiquei pensando na situação desta mulher. Não seria este um problema mais comum que imaginamos?

Existem dois graves riscos em nossa vida no tocante à área espiritual. O primeiro é a incredulidade. O segundo, O ateísmo prático.

No primeiro, vive-se distanciado das realidades de Deus. O apóstolo Paulo lembrava os cristãos que eles não mais viviam como os pagãos, “na vaidade de seus próprios pensamentos, obscurecidos de entendimento, alheios à vida de Deus por causa da ignorância (espiritual) em que vivem, pela dureza de seus corações” (Ef 4.17-18). Paulo afirma que os ímpios vivem “alheios à vida de Deus”, isto é, “naquele tempo, estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança e sem Deus no mundo” (Ef 2.12). São pessoas que vivem sem Deus. “Diz o néscio no seu coração, não há Deus!” (Sl 14.1).

No segundo, trata-se de pessoas que professam ter fé, mas vivem como se Deus não existisse, ou de pessoas que creem, mas Deus se parece muito distante para se interessar por suas vidas ou se importar com elas. Deus é algo como um amuleto, que se usa em determinados momentos, mas é algo mitológico, como dragões, anjos, duendes, sereias, que podem ser reais ou não. 98% da população brasileira afirma crer em um Deus, mas apenas 37% delas creem no poder da oração.

Certo dia Jesus estava se dirigindo à casa de um homem chamado Jairo, cuja filha estava num estado terminal, na caminhada apressada que fazia, parou e perguntou: “Quem me tocou?”. A pergunta soou um tanto estranha aos discípulos, que responderam: “Não vês que a multidão te aperta? Como dizes tu, quem me tocou”, e Jesus respondeu: “Alguém me tocou, porque de mim saiu poder”. Está claro que apenas uma pessoa, tocava em Jesus com intencionalidade e expectativa, e era a mulher hemorrágica, que havia sido curada naquele momento de uma terrível enfermidade que a afligia por 12 anos. As demais pessoas caminhavam ao lado de Cristo, mas aquela tinha expectativa de Deus. Muitos exerciam crendices, mas aquela mulher, de fato cria na possibilidade de uma cura.

O autor aos hebreus adverte os cristãos: “Tende cuidado, irmãos, jamais aconteça haver em qualquer de vós perverso coração de incredulidade que vos afaste do Deus vivo” (Hb 3.12). Ele exorta aos cristãos, quanto ao risco de viverem com o coração incrédulo. A maior censura de Jesus aos seus discípulos se deu nesta área. Ele sempre os repreendia por causa da falta de fé ou da incredulidade. “Como sois assim, homens de pequena fé... Não temas, crê somente!”. A palavra chave para fé, nestes casos, é expectativa. Mantenha a expectativa de algo que Deus vai fazer. Isto significa manter-se nas pontas dos pés, olhando cuidadosamente para a intervenção que Deus fará.
Podemos ir à igreja, ler a palavra, orar, e ainda assim termos um coração incrédulo, sem qualquer expectativa. Peter Wagner afirma que “algumas pessoas quando oram, crêem que Deus as ouve, outras quando oram realmente crêem que Deus as ouve”. O grande problema no coração da maioria dos cristãos é a falta de expectativa. Muitos oram, sem expectativa. Muitos pregam o evangelho, sem expectativa, muitos vão à igreja, sem expectativa...

Neste texto vemos a narrativa bíblica de um homem de Deus, Zacarias, que é surpreendido por uma intervenção sobrenatural de Deus quando realiza seu ofício sacerdotal. O texto bíblico parece apontar para a realidade da alma deste pastor, que vê seu cotidiano sendo “invadido” pelo sobrenatural, e a partir deste momento, sua vida nunca mais foi a mesma.

Percebemos que a espiritualidade torna-se sem expectativa, quando a vida passa a viver no automático 

Observe bem a narrativa bíblica acerca da atividade de Zacarias: “Ora, aconteceu que, exercendo ele diante de Deus o sacerdócio na ordem do seu turno, coube-lhe por sorte, segundo o costume sacerdotal, entrar no santuário do Senhor, para queimar o incenso” (Lc 1.8-9). 
Ele não está ali porque tem expectativa da intervenção sobrenatural de Deus, assim como centenas de vezes vamos ao culto, sem  expectativa de um mover de Deus. Ele encontra-se ali por causa da “ordem do seu turno”, ele está escalado, e precisa ir. Se você é pastor, pense nisto: Quantas vezes você já foi “escalado” para conduzir o culto, sem que em seu coração tivesse nada além da compreensão de que isto é sua tarefa? Ou o ministro de música que conduz o louvor, porque hoje o seu grupo vai cantar? Ou o professor de Escola Dominical ou o líder de um pequeno grupo.
Nestes casos, a descrição da atividade de Zacarias, e a razão que o leva ao culto é bem significativa. “Coube-lhe por sorte”. Aquele dia ele tinha que exercer sua função de queimar o incenso. Muitas vezes a tarefa sacerdotal era longa, demorada e cansativa. Todos os rituais que deveriam ser praticados. Observe ainda outra frase “segundo o costume sacerdotal”. As coisas são feitas por sorteio, por causa de uma prática pastoral. Zacarias está exercendo seu papel, se Deus está presente ou não, se vai ou não manifestar-se de maneira especial naquele dia, não lhe parece ser alguma coisa tão relevante.

Parece com aquela antiga piada de uma mulher tentando acordar seu filho domingo de manhã para ir a Igreja. O filho diz que não quer ir, e a mãe diz que não está perguntando se ele "quer ir", mas é prá ele se levantar já daquela cama.
O filho, mau humorado, levanta a coberta e diz:
-"Me dê duas razões prá eu ir a igreja hoje?"
E a mãe responde:
-"Primeiro, você tem 42 anos".
-"Segundo, você é o pastor da igreja!"

Fico me perguntando o que aconteceria se não tivéssemos mais os programas da igreja que desenvolvemos. Será que isto faria diferença? 
A verdade é que existem determinados comportamentos religiosos ou sociais que nos fazem falta. Quando eu não vou à igreja no domingo, sinto falta Vamos por uma questão de "costume". 
Outra pergunta, porém, me vem à mente: 
E se Deus não estivesse presente naquele lugar, e se as orações e atos litúrgicos que desenvolvemos não tivessem de fato, conexão alguma com o Eterno, que diferença isto faria?
Eu louvo a Deus quando leio o verso seguinte: “E, durante este tempo, toda a multidão do povo, permanecia da parte de fora, orando” (Lc 1.10). Eu agradeço a Deus, porque muitas vezes não sou eu quem estou com expectativa, mas uma fé autêntica surge da comunidade. Muitas vezes não é o “homem de fé”, que está “cheio de fé”, mas os adoradores que na sua simplicidade se aproximam do altar de Deus e permanecem zelosamente orando. Muitas vezes milagres se dão não por causa do líder, mas por causa dos corações sedentos e desejosos daqueles que se reúnem para glorificar a Deus.

Por que o estado espiritual de Zacarias se encontra assim?
Gostaria de levantar três hipóteses:

Uma questão pessoal

O texto nos diz que ele e Isabel já eram idosos (vs 18). Ela era estéril. Por muitos anos oraram desejosos por um milagre. Quantas vezes clamaram por uma intervenção de Deus. Eles queriam tanto um filho, isto era um desejo legítimo – mas Deus se calou e não lhes concedeu este favor.

Não é assim que acontece conosco? Oramos para Deus agir, e quando ele não faz, passamos a desenvolver uma espécie de dúvida sutil em nosso coração? Se Deus não ouviu antes, porque devemos esperar que ele agirá agora? O que acontece conosco quando pedimos uma benção a Deus, rogamos um milagre e ele não se dá?

Jym Cymbala, autor de fresh Wind, fresh fire, narra sua luta como pastor, indo pregar aos domingos, depois de uma semana de lutas com sua filha que se enveredara pelas drogas, e estava morando com um traficante, cheia de piercing, afastada de Deus e da família. Ele afirma que muitas vezes dirigia para sua igreja, para pregar o sermão dominical, sentindo-se absolutamente impotente para falar de milagres e da obra de Deus, vendo sua filha morrendo aos poucos. Como pregar as maravilhas de Deus em tais situações? Como inspirar fé? Como falar de um Deus de milagres se ele não opera na minha própria vida?

Muitas pessoas enfrentando grandes lutas, no meio de suas crises familiares, deprimidas, continuam fiéis, mas podem desenvolver sutilmente uma incredulidade que os afaste do Deus vivo, como procede a exortação do texto de Hebreus que anteriormente citamos. Crises pessoais podem dificultar nossas convicções e destruir nossas expectativas.

Uma questão profissional

Zacarias era sacerdote, cujo papel, descontadas as diferenças religiosas do judaísmo com o cristianismo refere-se a função de um padre ou pastor em nossos dias. Atividades religiosas, gestos litúrgicos, repetições de ritos. Com o passar do tempo, estas questões se tornam repetitivas, e a monotonia tira a inspiração. Freud afirmava que a “religião é uma neurose obsessiva compulsiva”, e do ponto de vista psicológico, ele tem toda razão. Se você não considerar a existência de um Deus que aceita seus sacrifícios, orações e ritos, o ato religioso ele é obsessivo, porque fazemos sem encontrar qualquer elemento racional no gesto. Quando imbuído de uma compreensão sobrenatural, orar, cantar, tornam-se gestos maravilhosos, mas na perspectiva atéia de Freud, ele estava certo.

É possível se tornar um religioso, e continuar realizando todos os ritos por mera formalidade.  Wayne Cordeiro relata sua experiência de um dia, fazendo jogging, perceber que seu corpo estava pifando. Teve que ser levado com urgência a um hospital e diagnosticado com um colapso emocional. Ele diz que como atleta, crê que muitos líderes espirituais ainda estão “correndo, porém mortos”, são os “walking deads” espirituais. Oram, cantam, vão à igreja, mas estão mortos espiritualmente.

Zacarias provavelmente sofre de uma doença comum entre pastores, missionários e seminaristas que é a “dessacralização do Sagrado”. Por constantemente lidar com coisas espirituais, o sobrenatural se torna natural e o milagre se torna normal. Perde-se a dimensão do Sagrado. Vê os atos litúrgicos como gestos repetitivos, lê a bíblia para preparar sermão, e assim vai seguindo sua vida no automático. Zacarias vai ao templo, “segundo o costume”, por causa de sua escala de trabalho, e não porque espera encontrar Deus. Pelo contrário, a manifestação do Sagrado lhe desestabilizou profundamente: “Vendo-o, Zacarias turbou-se, e apoderou-se dele o temor” (Lc 1.12). O Sagrado é invasivo, quebra nossa rotina, manifesta-se e desestabiliza a ordem dos rituais, e isto nos assusta grandemente.

Um fator histórico

Creio que o terceiro elemento que levou Zacarias a perder a expectativa, tem a ver com o momento histórico em que ele vive. Em determinados momentos da história do povo de Deus, vemos muitas manifestações angelicais, sonhos, visões, milagres, intervenções divinas, mas em outros momentos Deus se parece estranho e alheio. Nos dias de Samuel, a palavra de Deus afirma que “naqueles dias, a palavra de Deus era mui rara; as visões não eram frequentes” (1 Sm 3.1). Sem dúvida, Zacarias estava vivendo num destes tempos de escassez dos eventos de Deus.

Aqueles dias eram raras as manifestações de milagres. Não apenas Deus deixou de responder sua oração familiar, mas não fala mais a seu povo. Estes dias são conhecidos na história eclesiástica como “período inter testamentário”, ou período do silêncio de Deus. Não há registro de nenhum livro canônico neste período ou de manifestações proféticas. Não há mais revelação... Deus se silenciou... Longos e áridos 430 anos. Para se ter uma ideia, a Lei Áurea foi promulgada em 1888 (127 anos atrás), e a Proclamação da República em 1889 (128 anos atrás), e estes eventos estão muito longe de nossos tempos.

Nos dias de Zacarias, todos os eventos aconteciam no templo, os sacrifícios eram oferecidos, os cânticos eram feitos, as ofertas eram trazidas, as atividades religiosas estavam seguindo seu curso normal, mas Deus está silencioso. Zacarias é o primeiro homem, depois de 430 anos de silêncio, a quem Deus dirige uma palavra cujo objetivo tem a ver com o seu plano para a nação judaica e o mundo. Ele recebe a palavra antes mesmo de Maria e José.

Conclusão
Para encerrar nossa reflexão, gostaria de propor três aplicações praticas:

1.    ==>  Nunca se afaste de Deus, mesmo quando lhe parecer muito distante – Apesar de todo silêncio, Deus é um Deus presente. Estar perto de Deus significa sempre a possibilidade de experimentar um milagre. Mesmo em dias quando parece estar fazendo no automático da fé, ore para que Deus encharque seu coração com fogo e que a chama e paixão espiritual não morram em seu coração,. Suplique a Deus a misericórdia para sua vida, mas não se afaste das coisas de Deus. Como no caso de Zacarias Deus pode surpreendê-lo. Estar ao lado de Deus é “sempre um risco”. Ore para que Deus se manifeste em seu tempo e crie expectativas em seu coração.

2.       ==> Deus se revela a pessoas que não esperam mais revelação. Se este é o seu caso, lembre-se disto. Deus pode surpreendê-lo novamente. A Bíblia afirma que “tendo Deus, outrora falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos nossos pais pelos profetas, no últimos dias, nos fala por seu filho” (Hb 1.1-4), e que “Deus, nunca deixou de dar testemunho de si mesmo” (At 14.17). Natal é Emanuel, Deus conosco! Ele continua agindo, mesmo que muitas vezes se pareça estranhamento silencioso em situações provocativas.

3.       ==>Tome cuidado com uma existência sem expectativa – Mesmo diante da explicita manifestação de Deus na sua história, Zacarias tem dificuldade em crer (Lc 1.20). 
O autor aos hebreus afirma que “é necessário que aquele que se aproxima de Deus, creia que ele existe, e que é galardoador daqueles que o buscam”. (Hb 11-3,6). A fé sem expectativa, não aguarda nada, não espera nada, e não recebe nada, por causa da incredulidade. Sempre há um risco de termos uma geração de “crentes com coração incrédulo”.

Apesar do evento monótono e repetitivo de sua função sacerdotal, Zacarias estava ali no templo, adorando, servindo. Ele não se afasta dos eventos sagrados. Precisamos orar para que Deus mantenha em nós a sua chama acesa, para que nosso coração nunca perca a expectativa do Sagrado.


sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Jó 21 A Fé ante os Paradoxos




Introdução:

Um grande dilema da fé é conciliar a convicção de que há um Deus justo e Todo-Poderoso que governa o universo, com as ambiguidades da vida. Muitas vezes nos deparamos com fatos cruéis que não fazem nenhum sentido. Uma tragédia na natureza, uma doença numa pequena criança, um acidente fatal como um raio que cai acidentalmente sobre uma pessoa. Além do mais, a vida é paradoxal e contraditória, existem muitas questões difíceis de resolver.

Estes dilemas, na sua maioria, são bem administrados por nós, quando a situação está sob controle e as coisas vão bem. Em geral nos recusamos a falar sobre tais assuntos ou os negamos para não ter que dar muitas explicações, mas quando vem os dias maus, estas questões filosoficamente não resolvidas brotam com muita violência em nossa mente.

É nestas horas que o maligno lança as mais duras setas, da dúvida, da insegurança, do amor ou até mesmo da existência de Deus. Estas questões sobre o caráter de Deus surgem de forma inesperada, dando-nos a impressão de que Deus não tem o controle da situação, ou não é santo e bondoso como pensávamos. Passamos a viver uma relação de insegurança e desconfiança contra Deus, e até mesmo de ódio. As setas do maligno vão diretamente contra o caráter de Deus como fez com Eva, levantando suspeitas sobre os motivos de Deus e seus objetivos. Quando não há mais confiança na soberania amorosa de Deus, as coisas perdem o sentido e tudo mais se parece nada mais que caótico, ou se preferirmos a linguagem de Eclesiastes, “tudo é sem sentido”.

Para onde vamos quando a confusão e a desordem dominam? Quando a falência ou a depressão batem à porta, quando somos confrontados com o luto e a dor, quando nossos ídolos são quebrados? Aquilo que amávamos mais que a Deus, desejávamos mais que qualquer outra coisa, agora já não mais existe? Quando a enfermidade bate à porta?

Ao deparar com as ambiguidades e dores, Jó olhou para Deus: “Eu sei que o meu redentor vive”.  Para onde mais ele poderia olhar? Ao lidar com a tragédia de uma nação pagã destruindo o seu povo, Habacuque correu para o único lugar seguro. “Ainda que... Eu todavia me alegro no Senhor, e exulto no Deus da minha salvação. O senhor Deus é a minha fortaleza”” (Hab. 1.17-18). Fortaleza é esconderijo, lugar para onde se corre na hora dos misseis e dos bombardeios, na hora das setas incendiárias e ataque dos inimigos. Jeremias, diante de Jerusalém, sua cidade amada, destruída afirma: “Quero trazer à memória o que me pode dar esperança: As misericórdias do Senhor, são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não tem fim, renovam-se cada manhã” (Lm 3.21-23).

Quais são os conflitos de Jó demonstrados apenas neste texto?

è O silêncio de Deus – (Jó 21.4). Deus parece ser estranhamente silencioso diante das provocações. (Jó 21.14,17-18).

è A prosperidade dos ímpios – (Jó 21.7) Jó não entendem porque homens ímpios podem seguir na vida com todas as coisas aparentemente tão bem sucedidas. Por que Deus permite isto?

è A falta de justiça no tempo presente – (Jó 21.19; 29-32). Jó tem uma noção de uma justiça futura. Algumas pessoas até comentavam isto com ele, mas ele não entendia este fato de um assunto tão sério não ser julgado imediatamente.

Entenda o tamanho da crise de Jó:

i.                Ele começa dizendo que tem uma queixa contra Deus (Jó 21.4). Ele deixa claro que não está chateado diretamente com as pessoas e as circunstâncias, mas contra Deus, que parece tão distante e alheio às dores humanas. Ele diz: “Não tenho motivos de me impacientar?” O fato de Deus se manter silencioso não era suficiente para ele se inquietar e perder a paciência com Deus?

ii.              Ele afirma que os paradoxos são tão grandes que as pessoas ficariam boquiabertas quando os relatasse (Jó 21.5). Já afirma que as pessoas colocariam as mãos à boca quando ouvissem o que ele tinha para dizer. Já se sentiram assim ao receber uma noticia reveladora? Ele diz que só de pensar nesta questão teológica, isto lhe causava arrepios.

A pergunta dele vem em seguida:
Como é, pois, que vivem os perversos, envelhecem e ainda se tornam mais poderosos?” (Jó 21.7).

Como entender este paradoxo?
Por que prosperam os ímpios?

Por que acontecem coisas ruins a pessoas boas e coisas boas a pessoas ruins?
Se Deus é Todo-Poderoso ele não é bom, se é bom, não é Todo-Poderoso.

Este é o cerne da crise de Jó. Esta é a mesma crise de Asafe no Sl 73. Este é o mesmo dilema de Habacuque em Hab 1.12-13.

A visão de Jó sobre os ímpios

Jó tinha a seguinte percepção, equivocada ou não, dos homens sem Deus.
è Quanto mais velho, mais ricos – Jó 21.7
è Seus lares não passam por privações como os demais – Jó 21.8-9
è São prósperos nos negócios – Jó 21.10
è Suas vidas seguem o estilo do Zeca Pagodinho: “Deixa a vida me levar, vida leva eu”, e parece que isto funciona. Vivem de baile em baile, nos carnavais da vida, cantam com tamboril e harpa, alegram-se ao som da flauta. Esta é uma descrição de pagodeiro e sambista da Vila Isabel (Jó 21.13; 32-33).

O ímpio afronta Deus

Acima de todas estas coisas, Jó ainda via outro aspecto mais sórdidos. Tais pessoas não dão a mínima para realidades espirituais, elas não consideram Deus. Na verdade, elas desacatam a Deus. O que assombra Jó é que Deus é afrontado, mas não reage (Jó 21.14-15). Tais pessoas dizem três coisas assustadoras a Deus:

A.     Elas rejeitam aberta e hostilmente a Deus – (Jó 21.14) – Ted Turner, um dos empresários mais ricos nos EUA, afirmou alguns anos atrás que cristianismo é religião para gente fraca. Existem pessoas que se espantam com isto, mas os escarnecedores afrontam abertamente a Deus. “São estes que dizem: Retira-te de nós” (Jó 21.14);

B.     Elas se recusam a servir a Deus – “Que é o Todo-Poderoso para que o sirvamos?” (Jó 21.15). A mesma atitude de Faraó, ao ouvir que Deus queria que o seu povo o adorasse. “Quem é o Senhor para que lhe ouça a voz e deixe ir a Israel? Não conheço o Senhor, nem tampouco deixarei ir a Israel” (Ex 5.2). Servir a Deus? Deve ser brincadeira! Tais pessoas só servem aos seus próprios interesses e seu narcisismo. Só se preocupam com auto satisfação. Vivem a vida para si mesmas.

C.     Elas não oram – “E que nos aproveitará que lhe façamos orações?” (Jó 21.15). Elas não se submetem a Deus, não interessam em pedir direção de Deus, não dependem de Deus, então, para que orar? A melhor definição do ímpio é a ausência de piedade. Oração é marca de quem é piedoso. Eles não oram, porque de um ponto de vista pragmático, não vem razão para orar. São coerentes com o que crêem.

A Falta de Julgamento

Jó chega à conclusão de que não há, qualquer julgamento divino sobre a raça humana.
As perguntas são retóricas; sempre precedidas da afirmação “Quantas vezes”

i.                Quantas vezes” sucede que se apaga a lâmpada dos perversos?
ii.              Quantas vezes lhe sobrevém a destruição?
iii.             Quantas vezes Deus em sua ira lhes reparte dores?
iv.             Quantas vezes são como a palha diante do vento e como a progana arrebatada pelo remoinho?

Na argumentação de Jó, percebe-se que ele deseja que todos os seus interlocutores respondam “nunca!”
Os perversos, na visão de Jó, não enfrentam calamidades e sobressaltos, parecem blindados ao julgamento dos céus, parecem incólumes aos eventos doloridos da vida. Esta visão de Jó o deixa estremecido e frágil.

Quem liga para a eternidade?

Uma atitude normal do crente é afirmar: Deus vai julgar tais homens a eternidade... ou, sua família, descendência, posteridade, vai sofrer os danos do seu desprezo por Deus. Esta é uma resposta de senso comum, não é?  Entretanto, para Jó, esta resposta é inconsistente e vazia. Na sua inquietação filosófica ele diz:

Deus, dizeis vós, guarda a iniquidade do perverso para seus filhos,
mas é a ele que deveria Deus dar o pago, para que o sinta.
Seus próprios olhos devem ver a sua ruina, e ele, beber do furor do Todo-Poderoso.
Porque depois de morto, cortado já o número dos seus meses, que interessa a ele a sua casa?”   
(Jó 21.19-21).

O argumento de Jó é direto. Tal homem vai ser julgado nos seus filhos? Ele nem vai estar aqui para ver o que vai acontecer... de que vale justiça depois que ele já partiu para a eternidade?

Os perversos, na visão de Jó, não enfrentam calamidades, não tem doença nem mau tempo, “suas casas tem paz, sem temor, e a vara de Deus não os fustiga. O seu touro gera e não falha, suas novilhas tem a cria e não abortam” (Jó 21.9-10). 

Como afirmou Rui Barbosa: 
De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.

Para Jó, o fato é que os ímpios, e não seus filhos, deveriam ser julgados imediatamente. Afinal, tal homem despreza a Deus, e morre em pleno vigor, despreocupado e tranquilo, com seus baldes cheios de leite e fresca a medula de seus ossos (Jó 21.23-24). Esta ausência imediata de juízo deixa Jó estupefato.

Você nunca teve tais pensamentos em algum momento de sua vida?

As respostas teológicas, amplamente defendidas e difundidas na teologia hebraica, não solucionam o problema. As respostas pré –fabricadas dos cristãos, também não!
No início do texto Jó dirige-se aos seus amigos que trouxeram estas explicações de gaveta para a questão do sofrimento:

Respondeu, porem, Jó: Ouvi atentamente as minhas razoes,
e já isso me será a vossa consolação. Tolerai-me, e eu falarei;
e havendo eu falado, podereis zombar” (Jó 21.1-3).

E conclui dizendo:
“Como, pois, me consolas em vão?
Das vossas respostas só resta falsidade” (Jó 21.34)


É possível responder estas questões?

1.    De forma direta e simples, a resposta é: Não existe resposta fácil!  O simplismo do espiritismo para o sofrimento é: “Carma!” – Na encarnação passada, dizem eles, as pessoas que sofrem praticaram muitos males e por isto precisam purgar suas culpas através do sofrimento. O problema é muito sério:

(a)- Se existe reencarnação, não temos consciência do que fomos. Portanto, somos julgados sem consciência. Nenhum tribunal da vida, julgaria uma pessoa que não se sente responsabilizada pelos seus atos. Distúrbios psiquiátricos é uma destas causas;

(b)- Ainda mais sério, auto-expiação dos pecados, nega a expiação de Cristo na cruz pelos nossos pecados. Se Cristo já expiou nossos pecados, porque temos que expiar novamente? Seu sacrifício não valeu nada?

Acho mais razoável pensar como o grande pregador Billy Graham:
“Apesar do progresso cientifico e humano, existem ainda três questões que desafiam o ser humano e para a quais ainda não encontramos respostas adequadas: O mistério do sofrimento, o mistério da morte e o mistério do mal.

2.    A Bíblia diz que Deus vai julgar a terra – Julgamento de Deus é algo que a cultura pós-moderna tenta negar. Deus é bom, afirmam, como vai julgar e condenar alguém? Apesar de toda insistência filosófica atual, a verdade é que a Bíblia afirma constantemente que o juízo vem. O inferno não é um conceito arcaico, de uma teologia de beduínos do deserto. Ela foi reiteradas vezes ensinada por Jesus.

O apóstolo Paulo ensina a mesma coisa:
Ora, Deus não levou em conta os tempos de ignorância; agora, porem, 
notifica a todos homens, que em toda parte, se arrependam; 
porquanto estabeleceu um dia em que ha de julgar o mundo com justiça, 
por meio de um varão que destinou e acreditou diante de todos, 
ressuscitando-o dentre os mortos” 
(At 17.3031).

O livro de Apocalipse é repleto de figuras de linguagem acerca do juízo de Deus. (Ap 14-15).

No sermão escatológico de Cristo (que fala das últimas coisas), ele não apenas reitera o juízo de Deus sobre indivíduos, mas fala também do julgamento sobre nações, e fala abertamente sobre o inferno (Mt 25.31-46).

Este mesmo pensamento está presente na literatura judaica:

Adorai o Senhor na beleza de sua santidade;
tremei diante dele, todas as terras...
porque vem, vem julgar a terra.
Julgará o mundo com justiça, e os povos, consoante a sua fidelidade”
(Sl 94.9-13)

3.    Deus está conduzindo a história, segundo seus projetos e propósitos – os eventos circunstanciais que nos atingem, não estão fora de sua soberania e controle, ainda que nos parecem tão anacrônicos e paradoxais.

Às vezes nos assustamos com a maldade humana, mas a Bíblia diz que Deus não estabelece logo o juízo porque ele é longânimo, termo que dá a ideia de alguém que tem “pavio longo”(ao contrário de quem tem pavio curto). Deus não é regido por provocações, nem é passional no seu julgamento. Ao fazer isto, ele deseja que tenhamos tempo para nos arrependermos e nos voltemos para ele.

Não retarda o Senhor a sua promessa,
como alguns a julgam demorada,
pelo contrario, ele é longânimo para convosco,
não querendo que nenhum pereça,
senão que todos cheguem ao arrependimento”
(2 Pe 3.9)

Jó está impaciente. Jó questiona. 
Não é assim que fazemos tantas vezes? 
Contudo, Deus possui agenda e propósito. O livro de Jó não foi escrito por causa de Jó, mas por nossa causa. A vida humana é instável, cheia de contingencias, não temos controle sobre as circunstâncias e sobre a vida, não podemos controlar o tempo, o vento, as tempestades. Vivemos num mundo mal, afastado de Deus e corrompido pelas escolhas morais e pela ganância humana. Muitas vezes nos assustamos e nos chocamos. O sofrimento nos impacta, nos assusta. Se nesta hora, nossos alicerces forem estabilidade, sucesso, ausência de sofrimento e vitória, podemos nos assustar.

Jesus já nos advertiu:
No mundo passais por aflições,
mas tende bom animo, eu venci o mundo”

(Jo 16.33)

O Grande paradoxo

J. I. Packer, no seu livro "Evangelização e Soberania de Deus", faz uma diferença semântica entre  Paradoxo e contradição. Contradição surge quando uma ideia se opor à outra, e temos que estabelecer o que é verdadeiro e falso. Neste caso, afirmar que Deus é soberano mas não é bom, que Ele é Todo-Poderoso, mas não é justo, torna-se paradoxal. Um atributo não exclui o outro. Paradoxo, é quando duas ideias parecem ser contraditórias, mas que na verdade não o são. Ele afirma que a Bíblia possui muitos exemplos como este, principalmente se falarmos de oração e decreto de deus: "Se Deus ja sabe todas as coisas, por que orar?", ou "Evangelização e predestinação". Se Deus já tem seus predestinados, porque anunciar a salvação? Estas coisas são paradoxais, não contraditórias.
O maior paradoxo da Bíblia, porém, tem a ver com um Deus santo sendo julgado e condenado numa cruz. Ali acontece o maior de todos os paradoxos. Aquele que não pecou, torna-se maldição em nosso lugar. Na cruz, Jesus, o justo, tomou o amargo remédio de Deus contra o pecado e a iniquidade. "Ele foi moído pelas nossas transgressões, e palas suas pisaduras fomos sarados.
O maior paradoxo da vida, não são as contradições históricas, nem justos que sofrem como pecadores, são serrados ao meio, são julgados por governos iníquos ou ainda, perdem sua vida por causa de seu testemunho fiel.
o maior paradoxo é um Deus justo, assumindo o lugar dos pecadores.
O maior paradoxo da humanidade é de um Deus assumindo o lugar dos pecadores.
Toda vez que você se sentir injustiçado, como Jó se percebe, observando a vida com suas ambiguidades, julgando-se no direito de "ter um tratamento melhor",  da parte de Deus, olhe para Jesus. Este sim, sofreu até a morte, para satisfazer a justiça de Deus, por causa do seu e do meu pecado.