quinta-feira, 31 de agosto de 2023

At 6.1-7 Como lidar com as crises internas?

 


 

 

 

Introdução

 

Toda instituição passa por crise.

 

Participei do desdobramento de um Presbitério, e a proposta que foi trazida é que a igreja que tinha mais condições financeiras deveria levar consigo todas as igrejas deficitárias. Argumentei que esta decisão era muito arriscada, porque conquanto aquela igreja estivesse vivendo de fato, um tempo muito especial, é bom lembrar que igrejas passam por dificuldades. Colocar apenas igrejas frágeis com uma única Igreja era um grande risco! Igrejas passam por fáceis de crescimento e declínio. Ciclos. Felizmente o concilio foi razoável e fez o descobramento utilizando outros critérios além do financeiro.

 

A Igreja primitiva é descrita como idílica, perfeita, vive num clima de euforia até o cap. 4, sendo visitada pelo Espírito Santo, resiste à perseguição ousadamente.

 

O cap. 5, porém, chama para a realidade dos fatos. Era uma igreja vitoriosa sem triunfalismos. É uma igreja com Ananias e Safira.

 

No cap. 6, os problemas continuam a surgir: pobres, cestas básicas, propriedades vendidas. Uma minoria, os "helenistas" sente-se discriminada. Havia um murmúrio de que as viúvas de tradição hebraica estavam sendo privilegiadas. Crises, comentários...diz que me diz...

 

A crise em Jerusalém surge por causa do seu crescimento. Era preciso administrar a chegada de tantas pessoas sendo que muitas delas precisavam de cuidado e apoio financeiro. Coisas boas podem também gerar crises.

 

  1. Problemas surgem por causa da própria dinâmica orgânica – “Multiplicando-se o número dos discípulos.” (6.1) Até mesmo um bom motivo pode trazer desequilíbrio.

 

Crescimento gera crise. Crescer dói.

Em Maio 2023 o Conselho da Igreja de Anápolis gastou duas horas para reorientar o projeto da construção do novo templo, isto depois do projeto já ter sido aprovado e apresentado a igreja. A liderança tem investido muitas horas pensando em estratégias, currículo, meios mais eficazes para acolher as pessoas que tem chegado a igreja.

 

  1. As ameaças surgem de dentro. Na verdade, problemas internos são os únicos que nos ameaçam

 

No cap. 5, após serem ameaçados e açoitados, saem do Sinédrio sem medo – At 5.40,41. As ameaças do Sinédrio não lhes impunham medo.

 

No cap. 6, a língua dos fofoqueiros faz a igreja tremer. Nossas guerras internas ameaçam mais que os romanos "cupim da língua suspeita". A Igreja só morre por suicídio, não por ataques do diabo. Sucumbe pelo peso de nossas próprias falhas.

 

Curiosamente a crise é de cultura, como veremos adiante. Um grupo, numa igreja multicultural, se sente desprestigiado, marginalizado, em relação a outro.

 

Notícia boa: O maior inimigo da Igreja não é o diabo;

Notícia ruim: Seu maior inimigo é você mesmo.

 

Nunca Israel foi destruída pelos seus inimigos, Deus demonstrou isto sobejamente por meio dos profetas.

 

Este texto nos revela como a Igreja apostólica resolveu uma crise interna, que ameaçou a unidade da igreja nascente. O que ela fez? Como lidou com a crise? Os princípios contidos neste texto são fundamentais para que aprendamos a lidar também com os dilemas que toda comunidade eventualmente encontrará.

 

  1. Não evite o conflito. Não jogue para baixo do tapete.

 

Então, os doze convocaram a comunidade dos discípulos.” (At 6.2) Eles decidem discutir e tratar o assunto. Eles não o evitam. Existem muitos conflitos que são altamente produtivos, e serão capazes de colocar a igreja num outro patamar.

 

O silêncio, a indiferença, a recusa em lidar com o problema, para evitar desgaste e confrontação pode causar ruídos imensos e danos irreparáveis.

 

  1. Apresente uma proposta coerente e teologicamente bem fundamentada. “disseram: Não é razoável...”. At 5.2. Frise a palavra “razoável”. É uma questão da coerência e lógica. É necessário usar argumentos, colocar a mente para pensar. Eles já tinham pensado, conversado, debatido o assunto antes de apresentá-lo à igreja.

 

Discirna a questão do grupo -

            a)- Detecte os pontos fracos - Onde está nossa vulnerabilidade ?

            b)- Aprenda a ser amigo da honestidade -  Valorize sua consciência. Deus ainda fala com voz interior.

            c)- Saiba discernir as raízes das más ações - Muitos pecados interiores vêm da preguiça, mental, espiritual, física, vácuos de autoridade, excesso de leviandade, espírito crítico.

            d)- Não estabeleça exigências irreais ao próximo - Deus não requer de nós sucesso, mas fidelidade;

            e)- Seja ensinável

            f)- Desenvolva um relacionamento com Deus, sem exigência, de lado a lado. Experiência relacional.

 

  1. Nossos problemas são resolvidos quando identificamos nossas prioridades - A Igreja Primitiva está lidando com graves problemas internos. Ela tem que agir. O que fazer?

 

Estabeleça prioridades. Os discípulos entenderam que não era possível lidar sozinhos com todas as necessidades. Eles precisavam descobrir alternativas. Cortela afirma que “prioridade não tem S”. Se não discernirmos o urgente do prioritário, corremos o risco de nos perdermos.

 

Um dos dilemas da igreja que está em franco crescimento é fazer mudanças necessárias. Como adequar o espaço? Como acolher de forma diferenciada? Como começar a pensar com uma mentalidade, não mais de igreja pequena, mas de uma igreja grande. As categorias devem mudar. Novos tempos e situações exigem novas abordagens.

 

Antes de mais nada, ela reformula, reestrutura sua forma de ação. Uma das decisões cruciais é planejar a estrutura da Igreja, reformular. Nesta mudança, decide se ater a dois ministérios: Oração e Palavra.

 

Uma das grandes dificuldades da Igreja diante das crises é valorizar demais as crises, e se perder nas críticas. Não se assentar para reformular…

Uma das melhores formas de responder às críticas, é criar uma nova estratégia. Muitas vezes a crise demonstra nossa necessidade em mudar. Temos que parar de nos defender e perguntar: O que este feedback que estão me trazendo tem de verdadeiro? Caso negativo, por que estão criticando?

 

Onde vamos colocar nossas atenções?  O que poderia acontecer aqui? Todos saírem para resolver o problema das viúvas, esquecendo-se de outras áreas que precisam ser continuadas.

 

Quando a crise surge, novamente é localizada. Não deixe que exacerbem o valor da crise, que maximizem o ponto vulnerável. Trate deles. Mas não se esqueça que outras coisas importantes estão acontecendo. E precisamos continuar.

 

Eles percebem suas limitações. Não iam poder alcançar tudo, ser Onipotente... "cimento fino, racha". O tempo que você valoriza em um lado, é o que você desvaloriza noutro.

 

  1. Quando tivermos problemas, porque nossas intenções estão sendo questionadas, nossos atos devem ser radicais

 

Estevão, Prócoro, Filipe, Timão. Nicanor, Pármenas e Nicolau são todos gregos. Nenhum é judeu, embora a liderança da Igreja até ali tenha sido toda judia.

 

Quando acusada de não orar, que a liderança deve fazer?  Orar com mais intensidade… ensina-se o povo orar, orando.

Acusada de displicente? O que fazer? Responder com santidade e busca.

Acusada de desorganizada? O que fazer?  Reestruturar, planejar, reorganizar.

Nenhuma comunidade terá saúde maior que a da liderança, e jamais pode exigir atitudes maiores que a que ele está vivendo.

 

  1. A solução de problemas requer pessoas com duas virtudes essenciais, que embora distintas, não podem andar separadas:

 

5.1. Cheios do Espírito Santo

 

            5.2. Cheios de sabedoria

 

Pode alguém ser cheio e não ter sabedoria? Pode alguém ser sábio sem ser cheio do Espírito?

A grande crise da Igreja, não é se o Espírito está ou não agindo, mas é a crise do bom senso. É uma igreja infantilizada, gente imatura, sem senso crítico. Tenho visto algumas coisas na Igreja que conspiram contra o bom senso.

 

De outro lado,

 

            -Biblicistas secos, excelentes exegetas, sem deixarem suas almas serem tocadas pelo Espírito Santo. Grandes historiadores, porém, áridos. Tais pessoas precisam se embriagar na oração, ter alma quebrantada.

 

Júlio Andrade Ferreira afirma que encontrou muitas pessoas que eram irmãos na razão e não na fé, e que encontrou muitos que eram irmãos na fé e não na razão. Será que não podemos ter os dois andando juntos?

 

  1. Abalos internos não podem ser vistos como ameaça, mas como oportunidade para descobrir novos valores

 

De onde surge Estevão? De uma crise.

Ninguém toma seu ministério ou puxa seu tapete. Deus é Senhor de seu ministério, exalta e abate. Deus é soberano...O problema não era para destruir, é para ser resolvido. A crise revela o potencial de Estevão que até então era um membro anônimo da comunidade.

 

Crises não podem ser vistos como ameaça, mas como oportunidade de repensar modelo e a estratégia. A Igreja precisa agir imediatamente. Ao invés de ser apostolar, passa a ser ministerial. Deixa de ser regida pelos apóstolos e passa a ser regida pelos presbíteros e diáconos. Foi a primeira eleição na história da igreja.

 

  1. Toda crise deve ser administrada com reverência

 

Os apóstolos não perdem a autoridade. Eles "impõem as mãos". (At.5:6). Resolvemos nossas questões enquanto a comunidade nos respeita. Isto se aplica no seu casamento: Reverenciar como filho, como Pai. Na solução dos problemas deve-se preservar o temor a Deus. Liderança tem que ter reverência pela Igreja, pelo Corpo de Cristo.

 

Muitas vezes tentamos resolver as crises com atitudes que não revelam o temor do Senhor. São as manipulações, as conversas no corredor da igreja, as discussões infindáveis, a indiscrição e grosseria. A reverência gera respeito, temor. Estamos diante de coisas sobrenaturais e devemos tratar a igreja com sobrenaturalidade.

 

  1. O processo de amadurecimento de uma comunidade não pode ser demorado - Algumas pessoas não tolerariam entrar em alguma coisa ainda em fluxo. Para onde estamos indo? Estamos desnorteados internamente. Quem somos face à modernidade?

 

Os neo-convertidos não toleram uma igreja se achando...O que será daqui a 10 anos? As crises devem ser resolvidas com prontidão e maturidade. Identidade da Igreja agora. Temos que entrar na síntese, não na dialética tese/antítese.

 

É preciso destruir as paredes velhas, ampliar as salas, melhorar o visual. Não dá pra ficar com rebocos caídos e banheiros sem terminar. É necessário concluir etapas.

 

  1. Crises devem ser resolvidas para que o reino avance. O vs 7 nos diz isto: A igreja crescia. Ela continua avançando porque não gastou tempo demais resolvendo problemas.

 

Muitas igrejas vivem num estilo novelesco, com problemas que não se resolvem, infindáveis, que passam de uma geração para a outra. O reino de Deus perde. A igreja gasta toda sua energia resolvendo as lutas internas e não consegue ver as oportunidades e os campos que já estão brancos. 

2 Cr 33.1-16 Nunca é tarde para mudanças

 


 

 

Introdução

 

Manassés é um dos mais perniciosos reis em toda a história do povo de Israel. Ele assumiu o trono quando tinha 12 anos, e daí para a frente seu coração se afastou de Deus e de seus propósitos, de uma maneira estranha. Seu afastamento trouxe consequências imensas para sua vida e para o povo de Israel.

 

a.      Ele se curvou diante dos deuses da terra que Deus havia expulsado de Canaã, ele ressuscitou velhos hábitos religiosos condenados por Deus (2 Cr 33.2).

 

b.      Ele reconstruiu altares pagãos que o seu piedoso pai, Ezequias, havia derribado (2 Cr 33.3).

 

c.      Ele se tornou sincrético na sua religiosidade, abarcando vários deuses.

 

d.      Ele se tornou sacrílego, contaminando o sagrado templo de Salomão, lugar construído para cultuar a Deus (2 Cr 33.4).

 

e.      Ele sacrificou filhos a Moloque. Um culto pavoroso, no qual os filhos primogênitos eram atirados vivos a uma fogueira acesa como oferendas a este deus pagão (2 Cr 33.6).

 

f.       Era místico e esotérico: adivinha pelas nuvens, praticava feitiçarias, consultava com médiuns e necromantes (2 Rs 21.6).

 

Manassés era espiritualizado.

Atraído a todas as formas de cultos pagãos, mas nunca se inclinava ao Deus verdadeiro. Comportamento semelhante aos artistas e músicos brasileiros, que se inclinam diante de deuses da umbanda, são dados a cultos da terra, tomam chás alucinógenos em cerimonias religiosas pagãs, mas não se curvam diante do Deus verdadeiro.

 

Sua influência trouxe graves problemas para a nação, induzindo muitos à prática de uma religiosidade que distanciava o povo do Deus de Israel. Ele se recusou a ouvir o Senhor quando este lhes enviou os profetas (2 Cr 33.10). Sua rebelião se tornou oposição a Deus, posteriormente apostasia, trazendo o juízo de Deus.

 

O julgamento veio de forma severa. (2 Cr 33.11).

 

A péssima sugestão que Satanás sempre fez à raça humana de que “pode pecar que não há juízo de Deus” (Ml 3.13,14), mais uma vez é desmascarada. O juízo de Deus sobre Manassés trouxe humilhação pública, decadência social e muito sofrimento. Manassés foi levado para a Babilônia, com ganchos e cadeias. No primeiro caso, o nariz era perfurado, e as pessoas eram levadas como animais, no segundo, eram acorrentados e além do seu peso precisavam carregar as pesadas correntes no severo calor do deserto.

 

Manassés, convertido?

 

Na cadeia e no exílio, o arrogante e místico rei, que desprezou a Deus e recusou ouvir sua voz, passa por uma reviravolta existencial, e tem um encontro com Deus. Manassés se converteu.

 

O texto narra sua mudança: “Ele, angustiado, suplicou deveras ao Senhor seu Deus, e muito se humilhou perante o Deus de seus pais” (2 Cr 33.12).

 

Observe os termos descritos aqui:

 

Angustiado”. Sabe o que é angústia.?

É um sentimento profundo de dor, que atinge o peito, consome o ser, e quando o médico pergunta ao paciente o que ele está sentindo ele diz: “Tá doendo, aqui!” e passa a mão genericamente no peito. Ele não sabe o que sente, nem onde sente a dor, mas o que ele sente é visceral, profundo.

 

Suplicou deveras ao Senhor”- Ele, de verdade, suplicou a Deus. Em geral pensamos que suplica é uma oração. E de fato é. Só que é uma oração acompanhada de choro e lágrimas profundas. O texto diz que ele “muito se humilhou”. Sua oração veio de dentro da alma.

 

Já oraram assim? Já tiveram uma situação semelhante na qual suas orações não se organizam, mas você está ali orando a Deus, quebrantado e moído? Esta foi a experiência  de Manassés.

 

“...Muito se humilhou perante o Deus de seus pais”. É muito importante esta menção, porque na verdade ele retorna ao Deus de Israel. Ele não dirige suas preces a Moloque, nem aos deuses de Canaã. “...então, reconheceu Manassés que o Senhor era Deus”.

 

Certo vez ouvi uma afirmação de que conversão tem muitas fases:

A primeira é a conversão dos deuses falsos para o Deus verdadeiro;

A segunda, do meu eu e da vida auto centrada, à obediência e submissão;

Terceiro, do bolso, último a se converter e o primeiro a esfriar.

 

Manassés se converte ao Deus de Israel. Ele percebe a natureza do Deus de seu povo. Ele reconhece que só o Senhor é Deus, e que não há outro Deus.

 

Encontrando Deus na Babilônia

A espiritualidade no Antigo testamento é marcada pela centralidade do culto em Jerusalém e no templo. O judeu acreditava (e acredita), que Deus deve ser encontrado em Jerusalém, na terra santa. Alguns cristãos sionistas modernos, lamentavelmente possuem esta visão distorcida da adoração e do tamanho do Deus das Escrituras Sagradas.

 

Entretanto, Manassés não encontra Deus em Israel, nem no sagrado templo, mas sua experiência de transformação e conversão acontece na Babilônia.

 

Ele encontra Deus nos lugares improváveis da vida.

 

Já leram o livro de Philipe Yancey: “Encontrando Deus nos lugares inesperados”? É onde não se espera que Deus é percebido. Durante anos, Manassés esteve no templo, mas rejeitou a Deus frontalmente e não o discerniu. Agora numa prisão, em terra distante, Deus se revela ao seu coração de forma sobrenatural. E “Deus se tornou favorável para com ele” (2 Cr 33.13).

 

Isto acontece por uma razão muito simples: “Deus não frequenta igrejas, apenas corações” (Pe Antonio Vieira).

 

Tempo de mudanças

 

A história de Manassés nos revela que nunca é tarde para mudanças.

Revela-nos ainda que não importa o nível de sua decadência moral e falência espiritual, Deus tem poder para mudar sua história.

 

Se olharmos para o currículo espiritual deste homem, veremos que ele foi rebelde, idólatra, prepotente, arrogante, desobediente, mas ainda assim sua história foi transformada.

 

É muito importante considerarmos uma história como esta. Muitas vezes achamos que para nós não há mais esperança, que nada pode acontecer por causa dos desvios praticados, muitas vezes fomos longe demais no nosso histórico de desvio. A história de Manassés vem nos falar do triunfo da graça de Deus sobre o pecador. É sempre possível recomeçar.

 

É possível que o homem vá para longe demais de Deus, escrevendo uma trajetória de decadência, mas sempre é possível mudar. Nunca é tarde para que a obra de Deus triunfo no coração do pecador.

Comece reconhecendo seu pecado, se humilhando diante de Deus.

 

Reconheça que ele é realmente Deus...

Não se trata de delação premiada. Um artifício jurídico usado para favorecer o criminoso, que mesmo não tendo arrependimento, resolve contar um pouco dos seus imbróglios e se delatar. Arrependimento não é isto. Trata-se de voltar, de fato, para Deus.

 

Assim, de forma surpreendente, Manassés é restaurado. E Deus lhe dá uma segunda chance. Miraculosamente, o rei decide enviar-lhe de volta para Jerusalém e reassumir seu reinado. Isto não é um comportamento comum entre imperadores e dominadores. Manassés volta, mas ele é um novo homem. Sua conversão não foi circunstancial e oportunista. Ele decide agora buscar a glória de Deus.

 

Ao retornar, eis algumas de suas atitudes.

i.                Ele restaura Jerusalém que havia sido destruída pela guerra (2 Cr 33.14). ele restaura tanto os muros quanto o exército.

 

ii.               Ele restaura o templo. Ele que tanto havia profanado o lugar de Deus, agora decide trazer Deus de volta para o centro de Israel (2 Cr 33.15).

 

iii.              Ele destrói o que construiu. Nos tempos do seu paganismo, havia construído muitos altares a ídolos e outros deuses, mas agora ele manda destruir. O que ele fez, manda desfazer.

 

iv.              Ele restaura o culto (2 Cr 33.16). Não apenas o “local do culto”, mas o culto mesmo. Numa linguagem moderna diríamos: “Ele voltou à comunhão do Senhor”.

 

v.               Ele reconhece que apenas o Senhor era Deus. Até então, ele dividia seu coração a outros deuses e cultos, mas agora ele se quebranta diante do único Deus verdadeiro.

 

Manassés tem o seu coração mudado.

Deus muda sua condição.

Se o meu povo, que por mim se chama, com fé se humilhar e orar.

Eu ouvirei as suas preces e sararei sua terra”.

 

Antes do filho pródigo ser restaurado à condição de vida digna, ele precisa passar pelo momento de dor... “então, caindo em si...

 

A alma precisa ser tocada para que mudanças surjam.

Muitas vezes queremos bençãos de Deus com infidelidade, queremos mudança sem transformação no coração, queremos graça sem arrependimento, perdão sem confissão, misericórdia sem quebrantamento. Quando o coração muda, a situação também é tangenciada. E se Deus não mudar a situação, mas se tivermos o coração mudado, teremos condições de enfrentar a calamidade com outros olhos. “Se diante de mim, não se abrir o mar; Deus vai me fazer andar por sobre as águas”.

 

Pe Antonio Vieira afirma que “arrependimento não é pedir perdão, é se voltar para Deus”. A alma precisa mudar a história ser transformada.

 

Queremos mudar a situação?

Deus quer mudar o coração.

 

Mude seu jeito de pensar, de agir, de se comportar. Transforme sua rebeldia em obediência, sua rebelião em submissão, e você vai experimentar uma história com desdobramentos absolutamente diferentes.

 

Manassés, na cadeia, não tinha mais nada a perder, mas agora tem a Deus. Antes tinha tudo e desprezou a Deus, agora não tem nada, mas é restaurado por Deus.

 

Conclusão

Esta é a trajetória proposta pelo Evangelho.

 

A.    Não interessa onde você esteja, Deus pode restaurar sua história. Manassés estava na Babilônia, dentro de uma masmorra. Ali ele orou de coração ao Senhor e foi ouvido.

 

Você pode estar na caverna da culpa, na escuridão do pecado, no calabouço dos vícios, vivendo longe do Senhor, fugindo de Deus. Mas se seu coração retornar ao Senhor, onde você estiver, Deus o ouvirá.

 

B.     Não importa como você esteja, Deus pode transformar sua história.

 

A história de Manassés é uma história de equívocos, transgressões, maldade. O juízo de Deus veio sobre sua vida, mas o arrependimento mudou sua história. Não importa como você está. Jesus é o carpinteiro de Nazaré, perito em consertar madeira torta.

 

C.    Não interessa o que você tenha feito, não importa a gravidade de seu pecado, há sempre graça abundante em Deus para nos restaurar.

 

Paulo afirma que ele era o maior dos pecadores, mas ainda assim foi alcançado pela graça. Ele prendeu e mandou matar muitos Irmãos da igreja primitiva, e depois se tornou o maior apostolo do cristianismo. Deus restaurou sua história, o perdoou, o justificou. Deus pode fazer isto conosco também.

 

D.    Deus não olha para você como você é, mas como você pode ser.

 

Assim Jesus fez com Pedro: “Tu é Shimon (areia), mas tu serás Petros (Pedra”. Areia é sem consistência. Você aperta nas mãos e sai entre os dedos. Frágil, inconstante. Pedro é rocha, firme, inabalável. Jesus olhou para o frágil e inconstante Pedro e anunciou que ele seria transformado numa rocha inabalável.

 

Miguel Ângelo, grande pintor renascentista, olhava para uma rocha bruta de mármore e não via apenas um bloco de pedra, mas ele vislumbrava a obra de arte que aquela pedra poderia se transformar.

 

Certa vez estava em Olinda. Sara e eu estávamos admirados com a habilidade de uma artesã que com apenas um raio da roda de bicicleta pegava uma casca da árvore de cajá manga e fazia uma obra de arte: barcos, casas, aldeias, vilas. Como ela capaz de fazer isto? Ela nos disse: “Veja só, quando eu olho para esta casca, eu vejo as figuras e as formas. Por exemplo, aqui eu vejo um barco. Aqui eu vejo uma casa.’ E nós, admirados, olhávamos para aquela casca e víamos apenas uma casca. É Assim que Deus faz conosco. Ele vê formas onde nada vemos; arquitetura, onde nada existe.

 

A cruz e nossa restauração

 

A cruz é lugar de negação, de morte, de condenação, mas este lugar se transforma em lugar de vida e restauração. A cruz aponta para o fracasso do homem, mas aponta para a misericórdia de Deus. Fala-nos de uma humanidade que rejeita a Deus, mas fala-nos de um Deus que busca o homem. Fala-nos dos pecados da raça humana e do desprezo pela vida ao mesmo tempo que nos fala da graça incondicional de um Deus que se doa por inteira à raça humana.

 

Com Jesus é sempre fazer o caminho de volta. Deus permite retorno.

Há sempre a possibilidade de restauração e mudanças. Ele pode tirar o pecador de sua condenação e dar-lhe absolvição. Foi isto que Jesus fez na cruz. Ele nos resgatou das trevas para sua luz, tirou-nos do tremedal de lama e colocou nossos pés sobre uma rocha.

 

Tenho encontrado pessoas que parecem ter ido longe demais no seu cinismo, indiferença, chafurdada em pecado, opondo-se a Deus. Temos a tendência de olhar para elas com certo descrédito. Parece não haver mais retorno para sua condição de depravação e destruição.

 

Haverá ainda esperança?

Muitas desacreditam de si próprias, dominadas pela escravidão do pecado, dos vícios. Aquilo que faziam por prazer agora se tornam seu pesar. Vem a angústia, o vazio da alma, a solidão, a escravidão de um estilo de vida de mentira e engano, de malandragem, esperteza, aos laços da iniquidade que agora amarram. Nem elas mesmas acreditam que algo possa ser feito. O desespero, a dor, a solidão, o descrédito passam a dominar seu coração.

 

Tive o privilégio de receber como membro de nossa igreja um querido pastor que por conflitos pessoais e institucionais se afastou da igreja e abandonou a comunhão do povo de Deus por 22 anos. Ele era uma pessoa muito querida, mas as feridas, e o distanciamento foram esfriando seu coração. Agora, estava voltando a comunhão, dando aulas na Escola Dominical da congregação e auxiliando o pastorado da igreja. Ele havia pastoreado a igreja (sede) da qual agora se tornara membro (congregação). Algo muito simbólico.

 

Entre um café e uma boa prosa, resolvi convidá-lo para pregar no aniversário da igreja. Uma proposta ousada, sem dúvida. Ele disse que não teria coragem de pregar, porque ele havia pisado na bola, traído a confiança de muitas pessoas e não se sentia autorizado a pregar novamente. No final de sua fala ele me disse: “O senhor entende minha situação, não é pastor? Certamente o senhor concorda comigo.” Olhei diretamente para seus olhos e disse que não entendia o que ele me falara. Ele ficou admirado e disse: “Não?”

 

Eu lhe disse que ele não devia nada a ninguém a não ser Deus. Que sua esposa o havia perdoado, que ele era membro em plena comunhão com a igreja, que apesar de tudo ele era muito querido da igreja e que o que ele estava dizendo era o anti-evangelho. O evangelho restaura qualquer pessoa em qualquer situação. E que o seu ponto de vista, não fazia nenhum sentido, à uz da mensagem do evangelho.

 

Ele relutantemente, aceitou o convite. Para minha surpresa, quando anunciei quem seria o pregador, muitas pessoas antigas se levantaram e bateram palmas. Eu nunca havia visto uma cena como aquela, nem antes; e nem vi depois. Comovente. Ele subiu, pregou uma mensagem simples e abençoadora e todos fomos edificados. Creio que esta foi a forma que Deus usou para lhe dizer de uma vez por todas: “Filho, estão perdoados teus pecados. Vai e não peques mais!”

 

Deus pode mudar?

 

Is 1.18 afirma: “Vinde pois e arrazoemos, porque ainda que vossos pecados estejam vermelhos com a escarlate, eles se tornarão brancos como a neve”.

 

Arrazoar é discutir, argumentar. Deus é quem está convidando seu povo para experimentar liberdade e cura, para ser restaurado. Deus convida o seu povo para experimentar a graça da restauração.

 

Portanto, duas lições profundas podem ser tiradas da vida de Manassés:

 

Primeiro, independentemente da capacidade de Deus nos amar de forma incondicional, o pecado traz sérias consequências.

 

Segundo, independentemente da gravidade do pecado, é sempre possível retornar. Nunca é tarde para mudanças!

 

 


2 Co 5.17-21 Três pilares da fé cristã

 


 

 

 

Introdução

 

A fé cristã se sustenta sobre premissas fundamentais. Jesus afirmou: “Errais, não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus.” (Mt 22.26) Um falso pressuposto teológico é destrutivo para nossa vida e mortal para nossa alma. Jesus também afirmou: “E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará.” (Jo 8.32). Se é certo que a verdade liberta, também é certo que a mentira escraviza, subjuga e oprime.

 

Neste texto há três premissas que jamais devem ser esquecidas. Elas são libertadoras e abençoadoras.

 

1.     Deus nos fez novas criaturas – “Aquele que está em Cristo, nova criatura é, as coisas antigas se passaram, eis que se fizeram novas.” Esta é a primeira premissa.”

 

Novas criaturas. Que premissa maravilhosa!

 

Sem Jesus, estávamos longe das promessas, éramos por natureza filhos da ira de Deus (Ef 2.3) por causa de nossos pecados, eternamente condenados. Mas agora Deus nos fez novas criaturas. “Se alguém está em Cristo (não na igreja), nova criatura é.”

 

Novas criaturas são forjadas e formadas pelo novo nascimento. Uma acao do Espírito Santo sobre nossas vidas. Novas criaturas são criadas por Deus para viverem para Deus, e não para si mesmas.

 

Em 1937, o famoso médico sul africano, Christian Barney, realizou um procedimento até então questionável e arriscado, fazendo o transplante de um coração. Este procedimento cirúrgico foi um sucesso e passou a ser realizado no mundo inteiro.

 

Este texto, entretanto, está falando de algo ainda mais necessário e profundo. Deus fez um novo procedimento por meio de Cristo. Ele tirou nossa velha natureza, orientada pela carne e pelo nosso Eu, e colocou em nós novas orientações geradas pelo seu Espírito. Isto é revolucionário e transformador. Você quer um novo coração?

 

A verdade é que, o antigo coração, centrado nos desejos pecaminosos, frutos da velha natureza, sempre traz muitos problemas. David Livinsgtone certa vez afirmou que “um coração com Cristo é um coração missionário; mas um coração sem Cristo é um campo missionário.” O coração do problema humano é o problema do coração.

 

Ser nova criatura é uma das grandes bençãos que recebemos de Deus. Apenas esta cirurgia realizada pelo Espírito Santo é capaz de nos transformar para a glória de Deus.

 

2.     Tudo provém de Deus – “Ora tudo provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo e nos deu o ministério da reconciliação.” (2 Co 5.18)

 

Esta é a segunda grande premissa deste texto.

 

O evangelho não é sobre nós, nem sobre nossa capacidade de fazer as coisas. O Evangelho é sobre Jesus, o que ele fez, o que ele é capaz de fazer. Por isto a Bíblia não tem heróis. Assim como os famosos personagens da Marvel Comics, nossos heróis bíblicos também são frágeis, têm pés de barro. Batman tem seu lado sombrio e obscuro, meio ligado às trevas. O homem aranha é desengonçado e nunca se dá bem com as meninas.

 

Quando olhamos a Bíblia, observamos que ela não está interessada apenas em contar a história dos homens, desvinculado da intervenção de Deus. Quem são nossos heróis sem Deus? Abraão? Que logo depois da promessa de Deus que faria dele uma grande nação e que através da sua vida, abençoaria todas as famílias da terra fica amedrontado e mente contra sua mulher, comprometendo sua integridade. Sansão? Um dos gigantes da fé. Frágil, pusilânime, inconstante, que estava sempre tropeçando na sua impulsividade...

 

O foco da Bíblia está no Deus que dirige a história humana. “Não a nós Senhor, mas ao teu nome dai glória.”

 

A missão começa em Deus. Ele estava consigo mesmo reconciliando o mundo através do sacrifício de Cristo. Por isto Jó indaga: “Porque, como se justificaria o homem para com Deus?” (Jó 9:2). Essa pergunta inquieta todos aqueles que buscam um relacionamento sincero com Deus. A maldade do homem o desqualifica diante do Deus justo e santo. A Bíblia afirma que “nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei” (Rm 3.20).

 

A beleza do Evangelho é que eu aceito que tenho pecado contra Deus e mereço sua punição, mas ainda assim sei que Deus é gracioso e me declara justo por meio de Cristo. Por causa de Jesus eu me torno aceitável perante Deus.

 

Como pode o homem justificar-se diante de Deus?” Ninguém é capaz de se justificar diante de Deus. Todos somos pecadores e imperfeitos. O que Deus fez? Ele fez uma proposta a Jesus, de que ele entraria em nosso lugar e assumiria a condenação em si mesmo. “...A quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, pra manifestar a sua justiça.” (Rm 3.25) Aquele que sofreu o agravo, toma a iniciativa de restaurar o relacionamento.

 

Tudo provém de Deus...

Vs. 18 – Ele nos deu o ministério da reconciliação.

Vs 19 – Ele nos confiou a palavra da reconciliação. Colocou sobre nós, a grande responsabilidade de realizar seu projeto para a história humana.

Vs 20 – Ele nos fez embaixadores. Quando falamos, representamos o rei que nos transformou em seus representantes.

 

3.     Deus nos provê justiça perfeita – “Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós, para que nele, fossemos feitos justiça de Deus.” (2 Co 5.21)

 

Sempre que pregamos o evangelho, precisamos lembrar do caráter de Deus. Sendo amoroso, não deixa de cuidar de nós. Este é o lado mais fácil de compreender sobre Deus. Ele é bom, misericordioso, gracioso, perdoador. Mas há um outro lado, igualmente importante, que tendemos a rejeitar e nem sempre considerado: Deus é justo. Sendo justo ele não pode deixar impunes os nossos pecados.

 

Então o que fez Deus para conciliar esta realidade?

A Bíblia diz que o salário do pecado é a morte. Nós merecemos o castigo por nossas transgressões e pecados. É o que o grande teólogo Charles Hodge chamou da base judicial de nossa redenção.

 

Então o que Deus fez?

Jesus assumiu o nosso lugar. “Deus o fez pecado por nós” como diz o texto. O ofendido assume um papel de ofensor. Sua oferta de si mesmo se transforma em nosso resgate.

 

É neste ponto que encontramos o maior de todos os obstáculos: Como um Juiz absolutamente justo e reto pode de alguma forma justificar (declarar justo) um criminoso absolutamente culpado e condenado? Como qualquer ser humano pode escapar da condenação do inferno? O próprio Deus nos diz que aquele “que justifica o perverso e o que condena o justo abomináveis são para o senhor, tanto um como o outro.” (Pv 17.15) Então, por causa de sua justiça, ele colocou Jesus em nosso lugar. Ele não deixou os pecados impunes, mas apiicou sua ira em Cristo. Jesus satisfez a justiça requerida por um Deus santo.

 

Na serie Nárnia, de C. S. Lewis, Aslam ajuda a libertar Edmundo da Feiticeira e se oferece para morrer em seu lugar para pagar sua culpa e é humilhado por sua inimiga. A feiticeira branca pensou que com isso teria se livrado de Aslam, mas o ato de amor assumindo o lugar de Edmundo, devolveu sua vida e o livrou da condenação.

 

No final, para surpresa de todos, Edmundo, que comprometeu toda ordem de Nárnia ao fazer pacto com a feiticeira, recebe o nome de "o Justo" porque foi justificado por Aslam. Edmundo se vendeu e traiu por um manjar turco, mas mesmo assim Aslam se entregou e morreu no lugar do traidor.

 

No final Aslam lhe diz: "Eu morri em seu lugar, Edmundo. Só eu posso lhe condenar, mas achei por bem não fazê-lo. Uma vez justificado, o passado deve ser enterrado e tudo, a partir de então, se faz novo. "... não vale a pena falar do que aconteceu. O que passou, passou."

 

Assim como Edmundo, o traidor, foi perdoado e justificado, sabemos que traidores como nós podem ser restaurados. Se você já experimentou a graça de Cristo, conheço muito bem um destes traidores: você!