quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Jó 1.3-22 O mistério da dor humana



Introdução:

O Livro de Jó tem sempre atraído os estudiosos. Carl Gustav Jung escreveu um livro chamado “Respostas a Jó”, tentando analisar a luta espiritual com a dor que Jó enfrentou. Dos 700 sermões que João Calvino escreveu, 159 foram baseados em Jó.
No estudo anterior analisamos aspectos da sugestão que Satanás fez a Deus de que nenhum homem o amava por aquilo que ele era, mas por aquilo que ele dava. Por isto, insinua que se os bens, família e saúde de Jó fossem tirados, ele o amaldiçoaria. Analisamos os intrigantes aspectos da espiritualidade luciférica contrastada com a espiritualidade das Escrituras, de forma especial, da  graça de Deus.
No estudo de hoje vamos encontrar outro dilema da raça humana: A questão da dor.
Por que sofremos?
Se Deus é poderoso e amoroso, porque ele não retira o mal definitivamente da face da terra?
Por que prosperam os ímpios e sofre o justo?
Por que coisas boas acontecem a pessoas ruins e coisas ruins acontecem a pessoas más?
Uma equação perversa foi feita por um filósofo ateu: “Ou Deus é bom e não é Todo-poderoso, ou é Todo-poderoso, mas não é bom”.

Numa palestra em 1999 proferida na Harvard, pelo Dr. Billy Graham, e da qual eu pude participar, ele falou deste assunto, afirmando que apesar de todo progresso humano e todo conhecimento cientifico que ele tem alcançado, três coisas permanecem sem resposta:
ü       O Problema do mal
ü       O problema do sofrimento
ü       O problema da dor.

Este capítulo primeiro de Jó, levanta algumas causas do sofrimento humano. Mostra as causas, mas não resolve o dilema:

  1. A dor humana decorre dos atos malignos dos homens – O sofrimento surge por causa das ambições desenfreadas, do desejo de dominar e possuir a qualquer preço.

Aqui vemos dois grupos sendo citados: Os “sabeus” (1.15) e os “caldeus” (1.17). O primeiro é um grupo sem poder, de homens da região que se agregaram em torno de um líder forte e faziam arrastões nas periferias e nas fazendas, matando e saqueando. Era uma espécie de figura subversiva, um cangaceiro “lampião” da região da Judéia. Estes homens vieram com ímpeto sobre as propriedades de Jó levando os animais e matando os servos de Jó ao fio da espada. O segundo é um grupo remanescente da forte caldéia, mais organizado politicamente, mas igualmente cruel. Eles vieram em três bandos, deram sobre os camelos, os levaram e mataram também os servos de Jó.
Muito sofrimento é decorrente pura e simplesmente das ações deliberadas de homens perversos. São guerras, assaltos, seqüestros, latrocínios, balas perdidas, roubos. Eventualmente somos duramente esmagados por homens malignos. Jesus nos ensina na oração dominical para que clamemos ao Pai celeste, que nos livre do mal. Certamente o mal tem suas manifestações em atitudes como estas.
Jesus mesmo foi traído, rejeitado, vilipendiado, espancado, crucificado. Ele sofreu os efeitos de líderes políticos inescrupulosos, de um julgamento de farsa num tribunal corrupto. Vivemos num mundo caído, onde Caim facilmente chama Abel para andar com ele, mas cujo propósito é maligno em sua alma.
No ano de 2014 ouvimos falar do grupo terrorista Boko Haram na Nigéria, que seqüestra meninas e as vendem como escravas; ouvimos falar do “Estado Islâmico”, outro grupo radical fortemente armado e que extermina toda pessoa que não alinhe seu pensamento ao islamismo; tivemos o desfecho do mensalão em Brasília, com políticos do primeiro escalão do governo recebendo milhões em propinas e sendo condenados; em seguida surge outro rombo ainda maior ligado à Petrobras, quando diretores, empresários e doleiros foram presos por envolvimentos em quadrilhas assaltando os erários públicos. Além de tudo isto, às dezenas temos prefeitos inescrupulosos de pequenas cidades que desviam os recursos da merenda escolar, fazendo transações milionárias, e assim, corruptos e corruptores se tornam verdadeiras aves de rapina, saqueando e roubando os recursos que deveriam ser usados para obras sociais e melhorias na infra-estrutura de nosso país.
Vivemos num caído, violento e eventualmente somos atingidos de forma brutal.
A Bíblia afirma que tais dores são resultantes de escolhas morais e porque o homem se afastou de Deus. Por ter se distanciado do Pai celestial, perdeu suas referências do sagrado, propósito e sentido. Os caldeus e os sabeus apontam são paradigmas da maldade humana em todas épocas e aponta para esta dura realidade presente de tantas formas distintas – e iguais.

  1. A dor surge por causa de fenômenos da natureza – O texto relata dois incidentes. “Fogo caiu do céu” (Jó 1.16) e um forte vento do deserto (Jó 1.19). São cataclismas que atingem cidades inteiras e até mesmo civilizações.

ü       A erupção do Vesúvio em 79, foi uma das mais conhecidas e catastróficas erupções vulcânicas de todos os tempos. As cidades de Pompéia, Herculano foram completamente destruídas. O Vesúvio espalhou uma nuvem mortal de rochas, cinzas e fumaça a uma altura de 30 KM, cuspindo lava e púmice a uma proporção de 1.5 milhões de toneladas por segundo, liberando uma energia térmica centenas de milhares de vezes maior do que o bombardeamento de Hiroshima. Estima-se que 16.000 cidadãos destas cidades morreram.
ü       O Furacão Katrina, que destruiu uma partte dos EUA, uma tempestade tropical que alcançou a categoria 5, com ventos que alcançaram mais de 280 quilômetros por hora e causaram grandes prejuízos na região metropolitana de New Orleans, em 29 de Agosto de 2005, e cerca de um milhão de pessoas teve que sair às pressas de suas casa, trazendo prejuízo de 2 bilhões de dólares e causando a morte de cerca de mil pessoas. nami de proporções inimagináveis matou 240 mil pessoas na Indonésia.
ü       Tsunami 2004. – No dia 24 de Dezembro deste ano, um terremoto de magnitude 9.1, desencadeou um tsunami no Oceano Índico, na costa da província indonésia de Aceh, causando a morte de 226 mil pessoas na Indonésia, Sri Lanka, Índia, Tailândia e outros nove países. O impacto foi tão grande que chegou a alterar o eixo da terra. No total foram 226.306 vítimas, 1.8 milhões de desabrigados; 469 mil imóveis danificados ou destruídos e prejuízo de U$ 10.7 bilhões.

Quando surgem catástrofes, de grandes proporções como estas, ou pequenas, somos pegos absolutamente indefesos. Num destes eventos “naturais”, todos os filhos de Jó morrem por causa de um furacão, de uma só vez.

  1. O diabo é o causador do mal – Este texto nos coloca Satanás como agente de todos os males por detrás dos fatos. As perdas, dores e lutos se deram pela ação maligna. Jó vivia em um ambiente de alegria com seus filhos e família, e perdeu tudo o que tinha.

A Bíblia descreve Satanás como o adversário de nossas almas. Ele veio para roubar, matar e destruir. É um ser sem misericórdia, impiedoso. Ai do homem que estiver ao alcance dele. Na Bíblia, os termos definem bem o caráter de Lúcifer. Ele é chamado de diabo, ou aquele que divide; de Satanás, ou adversário.

  1. Deus e mal: Grandes mistérios – Esta é, teológica e filosoficamente, a mais complicada de todas. Mas o texto afirma que ele é a causa última de toda dor, embora não como agente direto, pois, na medida em que ele permite, Satanás tem liberdade de ação. Felizmente ele só pode agir quando tem permissão, ele não tem liberdade de fazer o que, quando e como quem quer, o mal, e mesmo quando tem tal permissão, seu campo de ação é claramente delimitado por Deus.

O Profeta Isaías afirma: “Eu formo a luz e crio as trevas; faço a paz e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas estas coisas” (Is 45.7). Diante do impacto desta declaração, o profeta faz a seguinte afirmação: “Verdadeiramente, tu és Deus misterioso, ó Deus de Israel , o Salvador” (Is 45.15). Que tipo de reação podemos ter ao depararmos com uma declaração tão incisiva do próprio Deus?
Se você está chegando à conclusão de que Deus é um “agente do mal”, precisamos repensar tal ideia. O que o texto de Jó tenta mostrar é que Deus, por alguma razão soberana e suprema, dentro dos seus sábios e providentes planos, permite a dor e a ação do mal. Isto é o que os teólogos chamam de “vontade permissiva” de Deus. Deus permite a ação do mal, como fez ao deixar que Satanás tocasse na família, bens e mesmo a saúde de Jó. Deus não perdeu o controle da situação, e Satanás só pode agir dentro do limite que o próprio Deus impôs.
Esta dura realidade certamente nos choca.
O profeta Habacuque entra em crise com Deus, porque ele ora para que Deus não permita que os assírios invadam Jerusalém, e Deus lhe afirma que era ele quem estava incitando o povo pagão a vir sobre o seu próprio povo. O profeta ao ouvir isto, se desestabiliza: “Tu és tão puro de olhos que não podes ver o mal, e a opressão não podes contemplar. Por que, pois, toleras os que procedem perfidamente e te calas quando o perverso devora aquele que é mais justo do que ele?” (HC 1.13)

Por que Deus permite o mal se ele pode impedir o mal?
Por que Satanás ainda consegue causar tanta destruição se Deus poderia simplesmente destrui-lo?
Se ele é Santo em todos os seus motivos, porque permite a injustiça?

O propósito de Deus, em última instância, não é nos fazer feliz, mas nos tornar santos, parecidos com seu Filho Jesus. Neste processo, se necessário for, ele vai nos disciplinar, vai causar privação, e vai permitir que determinadas coisas que não queremos ter, aconteçam conosco. Nunca se esqueça, porém, que Ele é Santo. Tudo o que Ele faz tem motivos claros e santos.
Satanás não age livremente, mas precisa da “permissão” de Deus para praticar o mal, indo até onde Deus permite que ele vá. Os teólogos chamam isto de “vontade permissiva” ao invés de “vontade descritiva”, por exemplo, “os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis” (Rm 11.29). Isto é, quando ele afirma que algo vai acontecer, não existe força espiritual ou política que possa impedir que tal plano se cumpra. A vontade permissiva significa que Deus, por alguma razão, permite que determinado “mal” se cumpra, para que ele execute seu plano redentivo e amoroso. É neste sentido, e apenas desta forma, que entenderemos a afirmação do próprio Deus de que ele forma a luz e cria as trevas; faz a paz e cria o mal.

Conclusão:

O mal continua sendo um mistério e gerando indagações.
 Sabemos as causas, mas mesmo sabendo de tudo isto, quando ele nos acomete, somos profundamente feridos e gera muita dor. Por esta razão, ao invés de tentarmos explicar e dar sentido à dor, precisamos nos assentar silenciosamente diante daquele que sofre e criarmos uma empatia com seu sofrimento. Tentar explicar demais, é na maioria das vezes, inútil. Por isto, a atitude dos amigos de Jó no encontro inicial que tiveram torna-se algo tão nobre. “Sentaram-se com ele na terra, sete dias e sete noites; e nenhum lhe dizia palavra alguma, pois viam que a dor era muito grande” (Jó 2.12-13). O problema é que, posteriormente, tentaram teologizar sobre a dor do amigo, e o resultado foi caótico. Nem jó recebeu bem a atitude dos amigos, acusando-os de serem “consoladores molestos” (Jó 16.1-4); nem Deus, que viu na disposição destes exegetas do sofrimento do outro, uma afronta ao seu nome.
No final do livro, Deus lhes dirige a Palavra em tons severos: “O meu servo (Jó), orará por vós; porque dele aceitarei a intercessão, para que não vos trate segundo a vossa loucura”. Deus ficou tão irado com eles que nem sequer permitiu que orassem, e o que me assusta nisto tudo, é que muitos de seus discursos e conceitos são os mesmos que hoje aplicamos diante da dor, e não teríamos nenhuma dificuldade de ler parte deste discurso em nossas liturgias.
Contemplemos o mal e a dor como mistérios.
Não vamos conseguir explicá-los, mas com temor e oração, e acima de tudo com a graça de Deus, veremos que o bom pastor anda conosco no vale da sombra e da morte, lugar sombrio e de trevas, e que Ele é o Deus de 

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Jó 1.1-12 Espiritualidade Cristã & Espiritualidade Luciférica


                   


Introdução:

Philipe Yancey no livro “A Bíblia que Jesus lia”, faz interessante comentário sobre o livro de Jó, afirmando que o problema central do livro não é a questão do sofrimento, mas da fé. Como a fé age, e como a fé se comporta em meio à distância de Deus na hora do sofrimento.
Tanto Yancey quanto Rubem Amorese desenvolveram teses semelhantes, afirmando que Satanás faz uma aposta com Deus, ao dizer: "Porventura, Jó debalde teme a Deus? (Jó 1.9). A pergunta feita por Lúcifer é provocativa: "Os homens só amam o Senhor por interesse ou por aquilo que o Senhor lhes dá? Tire a benção e não sobra nada no coração de quem o adora”. Ele insinua que nenhum ser humano adora a Deus por aquilo que ele é, ou por uma afetividade desinteressada.
Satanás argumenta: Todo amor e toda fé humana é pragmática, resultante da benção e da prosperidade que os homens recebem. Nenhum homem adora por nada, sem exigir nada em troca... Não há adorador que não seja motivado por motivos gananciosos, para tirar vantagem, ou pessoais - medo de ser castigado. Sem retribuição nenhum homem ama. Satanás insinua que a atitude de Jó é apenas um reflexo de todos os benefícios que ele estava recebendo de Deus: “Acaso, não o cercaste com sebe, a ele, a sua casa e a tudo quanto tem? A obra de suas mãos abençoaste, e os seus bens se multiplicaram na terra. Estende, porém, a mão, e toca-lhe em tudo quanto tem, e verás se não blasfema contra ti na tua face” (Jó 1.10-11).
Deus faz aqui uma “aposta” arriscada. “Eis que tudo quanto ele tem está no teu poder; somente contra ele não estendas a mão” (Jó 1.12). Temos aqui uma suspeita do diabo e uma expectativa divina.
A mulher de Jó, sem saber, age exatamente como Satanás havia sugerido ao dizer: “Ainda conservas a tua integridade? Amaldiçoa a Deus e morre” (Jó 2.9). Na prática, seu pensamento utilitarista demonstra que Satanás não estava errado. Os seres humanos tendem a agir com o pensamento de que, “Se Deus fizer eu faço”, ou, “Se eu fizer, Deus estará obrigado a fazer”. O “toma lá dá cá” no mundo espiritual funciona desta forma. Não é assim que funciona a teologia animista das religiões afro-brasileiras? Quando os homens desejam receber um favor de uma entidade, eles fazem sacrifícios. Sacrifícios maiores significam maior aceitação. Não é sem razão, dentro desta lógica maquiavélica, que oferecem ainda hoje, sacrifícios de animais e pessoas em rituais satânicos. Os deuses assim se tornariam propícios e recompensariam aqueles que fazem grandes sacrifícios. Esta lógica, infelizmente encontra-se frequentemente nos arraiais evangélicos no Brasil, de uma forma mais explicita na teologia da prosperidade.
É a teologia meritória e retributiva, que se contrapõe completamente à teologia da graça. Ao homem justo Deus retribui com benção, ao homem ímpio, Deus pune. Se alguém está na miséria financeira, enfrentando lutas, angustias e enfermidades, é porque fez alguma coisa errada, ou pecou. Se é prospera, fez algo bom e está recebendo a retribuição divina. Pobreza, enfermidade, doença, lutas, são punições divinas a homens pecadores. Riqueza, prosperidade e benção são resultantes da obediência.
Por esta razão, equivocadamente, muitos não contribuem hoje para a obra de Deus por que amam a obra do Senhor e o Senhor da obra, mas por causa do pensamento utilitarista: “Se eu fizer, Deus fará, se eu der, ele me dará, se contribuir Deus vai me abençoar”. Perdemos a capacidade de fazer as coisas para Deus por causa dos afetos e cobramos se Deus não faz do jeito que esperamos porque julgamos termos direitos espirituais adquiridos, através de nossa fidelidade e performance espiritual. O mundo espiritual é feito de barganhas e trocas. C. S. Lewis no livro, Os anéis mágicos afirma que o garoto Ari, um personagem deste romance, “percebeu a tempo que o leão não era criatura com a qual se pudesse fazer barganhas”. Muitas pessoas ainda não entenderam isto.
Da mesma forma, a doutrina da certeza da salvação tem sido tão desprezada, pois ela se fundamenta completamente na graça de Deus, e não na capacidade humana de fazer as coisas para Deus. Pensamos na salvação como resultado dos méritos humanos. O homem é salvo porque construiu uma boa performance. Nos esquecemos que “pela graça sois salvos, mediante a fé, e isto não vem de vós, não de obras para que ninguém se glorie”(Ef 2.8-9). Não mérito, mas graça.

O que está por detrás do sofrimento de Jó?

Deus acredita na espiritualidade de relação e num relacionamento a partir dos afetos, enquanto Satanás a questiona. Este afirma que os homens só fazem as coisas para Deus se Deus fizer o que esperam, caso contrário, ninguém o amará.
Nossas relações são utilitaristas, funcionais e profissionais. Somos conhecidos mais pelo que fazemos que pelo que somos. Buscamos plenitude nas nossas realizações pessoais. Numa conversa não estamos interessados em saber o que o outro é, mas o que ele faz. As pessoas são admiradas não pelo seu caráter e integridade, mas pelas suas realizações e performances. A proposta do diabo é utilitarista. Deus, no entanto, deseja uma aproximação relacional/ afetiva.

Desde cedo nossas relações com as pessoas são assim:
Como pais agimos com os filhos tendo como base uma educação behaviorista, comportamental, baseada em estímulos/resposta, reforços positivos e negativos. Usamos o poder para obrigar os filhos a produzirem as respostas que queremos, e os punimos se eles não correspondem ao  padrão esperado, muitas vezes baseado não nos talentos e dons que possuem, mas no desejo e eventual projeção de fracassos pessoais. Por causa de nossas frustrações pessoais, ideais não alcançados, projetamos os mesmos nos filhos. Se eles forem bonzinhos, vamos recompensá-los, se não corresponderem à expectativa, punimos e nos tornamos indiferentes por não terem feito o que esperávamos e queríamos. Tentamos suborná-los com presentes, brinquedos e viagens. E aqui não estamos falando de ética, mas de projeções em profissões e sonhos.
Os filhos agem da mesma forma. Eles aprendem a manipular comportamentos e a manter uma relação de suborno.  Tornam-se utilitaristas e usam o afeto para tirar vantagens, negociam e barganham de forma inconsciente ou não, com seus pais. Aprendem a emitir comportamentos para terem o que desejam. A disciplina não chega aos seus corações e nem o afeto é construído. Amam se fizerem o que eles desejam, basta uma pequena frustração, ou uma resposta negativa para que a atitude de rebeldia e hostilidade se manifeste. Constroem um mundo de negociatas nas relações. Pais e filhos facilmente se tornam vítimas destes comportamentos manipulativos, e se corrompem, criando afetos mercantilistas.

Na relação com Deus, as coisas não são diferentes:
Usamos a oração como um pé de cabra para tirar das mãos de Deus algo que ele não quer nos dar. Usamos a oração para convencer a Deus de nos dar algo que julgamos fundamental para a nossa vida e se a oração não for bastante, nos tornamos mais religiosos e generosos, porque queremos “impressionar” Deus com a penitência, auto-negação e até mesmo flagelação. Muitos estão certos que se jejuarem, convencerão Deus a lhes darem o que de outra forma Deus não faria. Se esquecem que oração não é para mudar o coração de Deus, mas para alinhar o coração ao pensamento de Deus. Precisamos orar para aprender a submeter o coração autônomo e frio a Deus, para estabelecer comunhão e amizade, para identificar seus propósitos e planos de amor e nos identificarmos com ele, e não para que ele dê o que julgamos merecedores. Quando assim o fazemos, transformamos a oração num meio de extrair bençãos de um Deus que não quer abençoar. Para muitos, o medo e a rejeição são a mola propulsora do relacionamento com  Deus  e os pregadores usam este estratagema. Buscamos o poder e controle para estar seguro, e não o amor de Deus para identificarmos nossa identidade e quem somos em Cristo. Buscamos autonomia e independência, assim como pastores usam a igreja para  sua realização  profissional  não  para  se  criar um universo  de  relações saudáveis e amigáveis. Buscamos o poder pelo poder e para manipular.
Fazemos isto também em relação às nossas ofertas e dízimos: para não sermos “amaldiçoados” e para sermos “favorecidos” por Deus, trazemos nossas ofertas. O motivo não é a gratidão de um coração redimido que encontra prazer em contribuir para a construção do reino de Deus, mas a tentativa de controlar Deus através das ofertas. “Agora Deus está obrigado a me dar...” pensamos nas nossas ofertas como uma nota promissória assinada por Deus. É certo que a Bíblia afirma que Deus abençoa a fidelidade, de forma direta a nossa contribuição, mas quando damos por este motivo interesseiro, perdemos de vista a perspectiva maior de relacionamento de afeto e gratidão que deve mover o coração do servo de Deus.

Quem é o Deus de nossa espiritualidade?

O Deus que se revela na bíblia é trinitário. O monoteísmo cristão é trinitário.  O Deus cristão é um Deus em relação/comunhão. A Trindade é a melhor comunidade (Boff). Não é um Deus solitário. O Uno cristão é diferente e relaciona-se com outros iguais. São tão completos que são um.  Nenhum é superior.  O homem, criado à sua imagem e semelhança foi feito para se relacionar com ele. Deus não depende em nada do homem, mas o criou para uma caminhada de amor. A realização de Deus se dá no afeto não profissionalmente. E é desta forma, no deserto, que Jó vai conhecer o Deus da sua espiritualidade.

Temos atualmente dois grandes modelos de espiritualidade:

1.       Relacional cognitivo/conceitual: O conhecimento de Deus se dá por uma correta teologia, e pelas informações que temos a respeito dele. Quanto mais  informações tivermos a seu respeito e quanto mais correto for a teologia mais perto dele  estarei: Seus decretos, seus atributos. É o nível conceitual, que fica no campo das ideias.

2.        Relacionamento experiencial/carismático: O conhecimento de Deus se dá através da experiência, de suas manifestações e sinais. Posso dizer que conheço a Deus pelo que Ele faz. Deus é a fonte de energia:  Busca-se uma relação de poder. Quanto mais poder, mais se conhece dele.

Jó cresceu na teologia da retribuição: Deus dava e abençoava, recompensando seus adoradores fieis. Ele cresceu com a teologia retributiva, por isto é que alguns comentaristas afirmam que o grande pecado de Jó foi a justiça própria, que surge da teologia meritória. Eu quero convencer a Deus de minha bondade, e assim, pode ser que Deus faça justiça para mim. Pessoas da teologia retributiva querem “justiça” de Deus, aqueles que assimilaram a concepção da graça de Deus, só desejam a graça e a misericórdia de Deus.
Paulo afirma algo absurdo para a teologia retributiva: “Quero ser encontrado em Deus, não tendo justiça própria, senão a que procede de Cristo” (Fp 3.10). Daniel afirma que ele não estava orando baseado na justiça que tinham diante de Deus, mas firmado na sua muita misericórdia. Misericórdia vai além da justiça: Na justiça, Deus dá o que merecemos; na misericórdia, Deus deixa de dar o que merecemos, e na graça, Deus dá o que não merecemos. Qual é a base de sua relação com Deus?
Jó era fiel: ajudava as pessoas, contribuía financeiramente para os necessitados, orava e fazia sacrifício pelos filhos. Jó chegou ao ponto de exigir que Deus o colocasse num tribunal para que ele lhe mostrasse a sua bondade. Deus, por motivos óbvios, não atendeu este pedido de Jó. Afinal, “se considerar os nossos pecados, quem subsistirá?”.

Quais são os fundamentos de sua espiritualidade?
Se Deus permitir que o diabo tire alguma coisa que você ama, você ainda assim seria capaz de continuar glorificando a Deus e dizendo: “Deus deu, Deus tirou, bendito seja o nome do Senhor?” Se Deus nos privar de bênçãos que aspiramos, continuaríamos ainda sendo fiéis?

Temos, portanto, dois paradigmas de espiritualidade presentes aqui:

Espiritualidade satânica
Utilitarista, barganha
Perspectiva de manipulação e controle
Lei, justiça própria

 Espiritualidade divina
Afetiva, doação livre
Aproximação, amizade
Graça e misericórdia

Na Trindade não existe exploração, mas doação. Jesus pela primeira vez na teologia hebraica chama alguém de Pai, usando um termo próprio de crianças de colo. Isto ainda hoje é escandaloso para muitos. No Islamismo, a ideia de Deus como Pai é inadmissível. Ele é poder. Para o judaísmo o conceito de Senhor dos Exércitos também era incompatível com a figura do Pai. No entanto, chamou Deus pai de “paizinho”.  Jesus sobe ao calvário porque amava o Pai e amou o mundo. João afirma que “Jesus amou seus discípulos até o fim” (Jo 13.1). No seu batismo ouve a declaração de Deus Pai: “Este é o meu filho amado, em quem tenho prazer". A mesma afirmação é feita novamente na transfiguração.
No deserto, Satanás usará o mesmo argumento descrito no livro de Jó. Ao ver o sofrimento e a fome do Filho amado de Deus, indaga: "Se és Filho de Deus". A dúvida é lançada no momento em que Jesus sente a dor da privação. Ele está com fome, e tem necessidades e desejos. Diante da sua necessidade física, Satanás levanta a suspeita. Não é assim que ele faz conosco? Diante de necessidades de cura, milagres, intervenções sobrenaturais de Deus, ou quando desejamos algo que não nos é dado imediatamente pelo Pai não temos a tendência de suspeitar do seu amor.  Não ficamos nos perguntando porque Deus não atende às necessidades e não nos dá o que julgamos ser necessário se ele conhece nossa dor?
Satanás lança dúvidas sobre a relação do Deus Pai com o Deus Filho, usando a teologia da retribuição: Transforme pedras em pão e sacie sua necessidade. Use o poder a seu favor, não dependa de Deus. Transformar pedras seria expressão de dúvida e insegurança. A Palavra de Deus não seria a coisa mais importante. Por isto Jesus afirma: “Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus”. O plano de Deus e seu propósito para sua vida importavam mais que a necessidade pessoal atendida.

Hoje somos tentados da mesma forma:
Provar que Deus é mais  poderoso  que  Satanás  é  reflexo  de insegurança. Acreditar que só somos amados se as coisas estão resolvidas, sem aflições ou necessidades, é uma proposta perigosa. A voz do céu é que dá segurança para Jesus subir no  calvário. Nossa teologia moderna repudia o Calvário. Às vezes a busca de poder em nossa espiritualidade é reflexo da insegurança da relação a Deus. Como filhos que só sentem amados quando recebem dinheiro dos pais para comprarem um brinquedo ou ganhar um presente. Eternamente dependentes de manifestações externas para se sentirem amados.  Tais filhos não se sentem amados e precisam constantemente de afirmações externas porque o coração é inseguro.
O afeto é que nos aproxima e estabelece o vínculo de nossa relação. A experiência do amor e do afeto está no centro da espiritualidade cristã.  Não nos relacionamos com papai Noel ou com um poder neutro ou energia cega. Nos relacionamos com uma pessoa.
Jonathan Edwards escreveu um clássico chamado de "afetos religiosos" (Séc. XVIII). A espiritualidade cristã penetra os afetos. Deus não está interessado em se relacionar com seres de produção, mas com pessoas amadas. “Alegrai-vos não porque os demônios se vos submetem, mas porque o vosso nome está escrito no livro da vida” (Lc 10.20). A fonte de nossa alegria não é a capacidade de controle ou de fazer qualquer coisa sobrenatural, mas de sermos filhos amados do Pai. O poder não descreve o sentido da espiritualidade cristã, só o afeto.
Como a afetividade equivocada afeta a prática. Que relação temos em casa? Como os filhos, cônjuges? Certamente somos capazes de dar-lhes o que precisam quanto se trata de necessidades físicas, mas estamos construindo neles a compreensão de relações amorosas, afetivas? Somos capazes de dar-lhes dinheiro, mas temos sido capazes de construir neles uma imagem e uma identidade de filhos amados?

Conclusão:

É possível amar a Deus por nada?
Não devemos buscar encontro com sensações religiosas,  mas encontros de amor com o Pai. Deus habita no teu próprio coração. O coração de Jó não habitava nos seus bens gados mas na sua  própria alma.

Onde nasce o motivo de nossa devoção?
Ed René Kivitz conta que num sermão de prova de um aluno no Seminário Batista do Sul em São Paulo o aluno começou a prédica definindo Deus a partir de uma perspectiva filosófica grega. O professor o interrompeu não deixando que ele continuasse sua mensagem, pois sabia quão danoso isto seria para sua vida e quão longe da verdade estava seu conceito de Deus.

Quem é Deus para nossa vida?
Jó tinha um conhecimento teológico de Deus. Nos assustamos ao lermos este livro e refletir sobre os sermões dos seus amigos, Elifaz, Bildade, Zofar e Abiú, porque todos eles foram censurados por Deus, no entanto não teríamos dificuldade alguma em ler liturgicamente qualquer dos seus textos. Eles tinham um discurso politicamente correto, mas não conheciam a Deus. Jó também admite que antes de passar por sua dolorida trajetória de perdas, conhecia Deus só de ouvir falar, mas agora tinha uma percepção diferente da divindade (Jó 42.5).

Jó conhecia Deus de uma forma equivocada.
Toda teologia só será válida, se for feita a partir do Calvário. Quando entendermos o que Jesus fez ao morrer na cruz. Quando entendermos a gravidade de nosso pecado e a maravilhosa e gratuita redenção operada na cruz, nossa espiritualidade deixará definitivamente de ser meritória e retributiva, para ser uma teologia da graça e da gratidão.
Martinho Lutero pregou como ninguém a doutrina da justificação pela graça. Ele afirmava que nada do que fizermos vai fazer Deus nos amar mais do que já nos amou. No entanto, depois de vinte anos pregando sobre o mesmo tema, afirmou que ainda se pegava tentando fazer alguma coisa para convencer a Deus de que ele era digno  de ser amado.
Num determinado momento de meu ministério na Igreja presbiteriana de Anápolis, preguei por mais de dois anos sobre a teologia da graça. Um dia, D. Jalma Wilding, me disse que nunca havia ouvido tanto sobre a graça, e eu lhe respondi que, na verdade, eu estava pregando sobre este tema, porque precisava aprender sobre o caráter de Deus e que já era totalmente amado pelo Pai, e que, no fundo, não estava pregando para ninguém, a não ser para mim mesmo.
No natal é comum ouvirmos: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra ____________________, deixei este pedaço em branco para você preencher. O que veio à sua cabeça? “Aos homens de boa vontade”?  Se isto aconteceu, você errou. O texto afirma: “aos homens a quem ele quer bem”. Não existem homens de “boa vontade” (Ez 22.30; Rm 3.9-18). Todos se extraviaram, não há justo, nem um sequer. Por isto Deus mandou, gratuitamente seu filho, para que fossemos redimidos pela sua graça (Rm 3.24).
Os homens ainda hoje estão focados na teologia retributiva: “Façam a sua parte que eu te ajudarei”. Isto é barganha! Isto não é graça! Isto não está na Bíblia! Deu não nos aceita com base na nossa performance e retidão, mas mediante o seu filho amado.
Será que nosso coração é capaz de amar a Deus por aquilo que ele é, e não por aquilo que ele faz?

Infelizmente o fundamento de nossa teologia tem sido retributivo, meritório e luciférico, e não bíblico, gracioso e espontâneo. Nossas orações, adoração, ofertas e dízimos, não devem ser usadas para convencer a Deus de nos dar alguma coisa, mas para expressar a Deus o quanto o amamos e somos gratos por tudo que ele fez por nossa vida.

sábado, 1 de novembro de 2014

Sl 55 As diferentes faces da traição

As diferentes faces da traição


Introdução:

O livro de Salmos é o mais lido de toda a bíblia. Sua forma literária é atraente, atualizada, contemporânea e fácil de compreensão, mas acima de tudo, possui um fator de muita atração: em todos os demais livros temos a sensação de que Deus está falando conosco, mas neste, somos nós falando com Deus. Por isto alguns definem este livro como psicoteológico, isto é, a teologia dele se imiscui com as dores e angustias de nossa alma. Não é em vão que, dos 150 Salmos, 64 deles são considerados salmos de lamentos: pessoas com dores na alma estão desabafando diante de Deus.
Este salmo pertence a classe dos salmos de lamento, contendo passagens de belezas líricas e piedosa devoção, e de uma angústia avassaladora e desesperadora. Salmo didático que tem como finalidade precípua o ensino, e é uma oração, como podemos ver nos versículos iniciais. Ele foi escrito por Davi, num dos momentos mais angustiantes de sua vida.
Absalão, seu filho, nunca teve uma relação muito bonita com ele. Além de ser um príncipe de uma beleza surreal, era também de uma ambição sem limites. Não sendo o primogênito, restava-lhe pouca chance de assumir o trono, que era o seu desejo claro. Acima de tudo isto, envolveu-se numa trama familiar profunda. Para proteger sua irmã Tamar, ele matou o outro irmão, Amnon, sucessor imediato ao trono.
Seu carisma, beleza e ambição se tornaram uma obsessão para este jovem. Num golpe de estado, conseguiu destronar seu próprio pai, expulsá-lo do trono e assumir a direção de Israel, ainda que de forma muito passageira, já que logo em seguida, numa batalha entre os insurgentes e o rei, ele foi executado de forma patética, pendurado pelo cabelo nos ramos de um carvalho, enquanto fugia no meio da guerra e foi executado pelos soldados de Davi.
Davi escreveu este salmo justamente no meio de todo este tsunami. Era seu filho, amado, quem o ameaçava de morte. Como lidar com a realidade quando somos desapontados pelas pessoas mais inesperadas e apunhalados pelas costas por pessoas de nossa confiança? O que fazer quando somos traídos?

O salmo pode ser dividido em algumas partes:
  1. Sua oração e lamento
  2. O levantamento do problema
  3. Sua resposta emocional
  4. Sua resposta final e a busca de soluções.

Orando...

Este salmo é uma oração, não apenas o tipo de oração que normalmente fazemos. Sua oração se transforma em súplica, que é um tipo de oração acompanhado de muita emoção e angustia. Súplica é uma oração feita com lágrimas. Quando nossa dor torna-se visceral.
Tenho percebido que nem sempre nossa oração é assim... na maioria das vezes ela é superficial e nunca assume uma dimensão de quebrantamento e dor. Muitos homens na bíblia oraram desta forma. A oração de Jesus foi tão intensa que se tornou em sangue.
Davi está perplexo e perturbado, e por isto clama a Deus para que não se esconda de sua face. Já teve o sentimento de que Deus “se escondeu” e não pode ser encontrado?

O problema...

Basta uma leitura mais atenta do texto para vermos qual é o quadro emocional de Davi. Cada uma das frases dele revela um pouco de sua angústia e condição emocional.

¨      Perplexidade – (Vs. 2) Aquela atitude de quem põe a mão à boca de espanto. A perplexidade brota quando os fatos se sucedem de uma forma e com uma rapidez jamais esperados.
¨      Perturbação (Vs. 2) A visão e a leitura da realidade tornam-se difíceis de serem analisadas, por causa da falta de sossego de alma. Isto revela uma completa desestrutura emocional.
¨      Acusações constantes (Vs. 3) Davi sente debaixo de enormes pressões e calúnias. Já esteve em ambientes de trabalho ou familiares onde este titpo de atitude está presente?
¨      Hostilidade profunda (Vs. 3) Davi afirma que estava sendo furiosamente hostilizado. Isto revela o nível de rejeição, desprezo e críticas que estava recebendo.
¨      Taquicardia – (Vs. 4) O seu coração parece bater de forma descoordenada. Ele se sente oprimido e angustiado. O corpo todo responde a esta descarga de adrenalina e o coração está batendo aceleradamente.
¨      Temor, tremor e horror – Parecem ser a mesma coisa, o que muda é a intensidade. Já foi tomado por uma sensação de horror? Um sequestro, um tiro, um acidente, sob a ameaça de alguém? Estes terrores de morte de morte tomam conta de Davi, ele se sente ameaçado.

O que está causando esta perplexidade? No vs. 3 ele inicia a descrição do problema que o angustiava, mas vai descrevê-lo de forma mais clara no vs. 12. Ele estava sendo traído por alguém de sua confiança.
Psicólogos estudaram o que causa mais stress nas pessoas, e chegaram a conclusão de que a traição tem um poder mais destrutivo do que qualquer outra experiência, até mesmo da morte de um ente querido. Quando o luto acontece, as pessoas são capazes de explicar e aceitar com menos dor, justificando isto na perspectiva da realidade da vida, fatalidade, ou vontade de Deus. A traição, contudo, traz muita ira e ódio, por isto o stress se torna mais acentuado.
O que aconteceu com Davi? De onde vinha a traição? Ele afirma que era de alguém intimo:

¨      Companheiro de jornada (Vs. 13). Por isto dói tanto. Não era alguém anônimo e desconhecido, mas alguém do seu circulo de confiança.
¨      Íntimo amigo (vs. 13) Quantos amigos íntimos você possui? Homens tem muita dificuldade em encontrar amigos, e quando são ricos ou poderosos, aumenta ainda mais a dificuldade de estabelecer intimidade.
·       Companheiro de recreação (Vs 14) “Juntos andávamos, juntos nos entretínhamos”. Com quem você gosta de brincar? Quando você quer fazer um programa alternativo, que não seja nada sério, apenas para se divertir, quem você chama? Em geral, pessoas que alegram o nosso coração. Com quem você joga tênis, vídeo game, sequence, dominó ou peteleco? Pessoas que você aprecia. Você pode andar e fazer projetos com muitas pessoas que você não possui nenhuma identificação, mas para entretenimento você quer alguém de sua intimidade.
·       Companheiro de fé (Vs. 14) “juntos íamos à casa de Deus”. Era uma pessoa religiosa, irmão na fé, que ia junto com Davi para fazer orações, levar suas ofertas e adorar a Deus.

Reagindo...

Diante desta realidade, Davi busca respostas. O que fazer? Ele encontrou três respostas:

Fugir...

Esta é a primeira e imediata resposta que ele emite, e é desta forma que normalmente reagimos. Quando somos traídos, massacrados, queremos imediatamente desaparecer da situação e ambiente que nos oprime e sufoca. “Então, disse eu: quem me dera asas como de pomba! Voaria e fugiria para longe e ficaria no deserto. Dar-me-ia pressa em abrigar-me do vendaval e da procela” (Vs. 6-8).   É a alternativa do escapismo, mudar de lugar, sair da cidade, desaparecer, fugir para não sei onde, tomar as asas de uma pomba. Quantas vezes não pensamos desta forma?
Alguns anos atrás, uma pessoa conhecida desapareceu. Quando estas coisas acontecem sempre pensamos o pior: Um sequestro, um latrocínio, uma ocultação de cadáver. Amigos se mobilizaram nas redes sociais, comunidades inteiras se mobilizaram para orar por sua vida e pela família que se encontrava desesperada. Depois de alguns dias, com a policia fazendo investigações o descobriram escondido no interior de um estado do Nordeste. Ele havia “surtado”, pegou um ônibus interestadual e só depois de algum tempo a policia descobriu sua pista. Quando ouvi sua história, no meio de toda perplexidade comentei com algumas pessoas mais intimas que entendia perfeitamente a tresloucada atitude deste jovem embora não o justificasse. Quantas vezes pensamos em desaparecer?
Davi fala em ir para o deserto, virar um passarinho, desaparecer. Ele diz que queria se abrigar das fortes tempestades, do vendaval e da procela, das condições tão doloridas que ele agora enfrenta. Diante de grande pressão, muitos entram num estado catatônico (fuga da realidade). A dor torna-se tão traumática que não conseguem enfrentá-la de forma madura.

Matar...

Parece muito estranho encontrar esta alternativa na bíblia, mas curiosamente os salmos estão repletos de sentimentos de raiva. São os chamados “salmos imprecatórios”, isto é, com imprecações e desejos de que o inimigo morra, que sejam destruídos. Alguns destes salmos chegam a nos espantar. Davi fala aqui do seu desejo de que os inimigos morressem, e que “vivos desçam à cova” (Vs 15). Não apenas que morressem, mas que fossem sepultados vivos, com requintes de crueldade. Algumas pessoas que apoiaram Absalão no seu complô eram seus conselheiros que mudaram politicamente de lado e que agora conspiravam contra ele.
Davi revela este lado humano, a ira tantas vezes presente diante da agressão sofrida. Ele gostaria de ver estes homens mortos. Muitas vezes pensamos em matar, destruir. São pessoas que quebram os pactos, gente de língua mentirosa, com “boca mais macia que a manteiga, mas com o coração cheio de guerra“ (Vs 21).
Já vi muita gente boa, integra e justa, à beira de um desatino por causa do sofrimento e traicao. No meu primeiro ano de ministério, tive que intervir num caso de um rapaz que engravidou uma adolescente na cidade de Formoso-GO, e cujo pai, que eu conhecia superficialmente, planejava matar aquele rapaz. Ele era um homem justo e bom, mas vendo a situação de sua filha e sentindo-se desonrado, decidiu que iria matar o rapaz. Felizmente pudemos conversar, ele admitiu seu ódio e sua ira, mas decidiu mudar de cidade e não cometer o crime.
Até a oração de Davi se torna agressiva. (Vs 9). Vemos o mesmo sentimento no coração do povo de Deus, escravizado na Babilônia e engolindo seco, a agressão sofrida. “Feliz aquele que pegar teus filhos e esmagá-los contra a pedra” (Sl 137.9). Sem dúvida alguma, não é o tipo de oração a se fazer em um culto público. Não é interessante pensar porque Deus permitiu que este texto tão agressivo se encontre inserida nas “sagradas escrituras?”. Embora tão forte, não é assim que muitos já se sentiram? Com vontade de matar e destruir àqueles que lhe fizeram mal?

Orar...

Esta é a última alternativa do Salmista. Ele sente que precisa orar e derramar sua alma diante de Deus. A situação é tão pesada e angustiante que o único lugar onde ele pode ir com segurança é na presença de Deus. Fugir parece ser uma alternativa muito propicia, mas mesmo mudando de ar, não mudamos de mente. Os problemas sempre nos acompanham... matar e destruir, pode parecer uma saída honrosa, mas “a ira do homem não produz justiça divina”. Pessoas que optam pelo ódio não resolvem a dor do seu coração.
O Salmista agora decide invocar o Senhor. “Eu, porém, invocarei a Deus, e o Senhor me salvará. À tarde, pela manhã e ao meio dia, farei as minhas queixas e lamentarei; e ele ouvirá a minha voz” (Vs. 16). Existe um antigo cântico americano que diz: “Where should I GO but to the Lord?” (Para onde devo ir, a não ser para o Senhor?)
Davi decide orar de forma intensa: De manhã, à tarde, ao meio dia. Ele sabe da natureza do seu problema e da intensidade de sua dor. Então decide ir para a presença de Deus, colocar o joelho em terra, clamar ao Senhor.

Sua oração tem alguns pressupostos:
            (a)- Deus ouve... - Diz isto em dois versículos: (Vs 17,19). Ninguém pode orar sem esta consciência. A Bíblia diz que “é necessário que aqueles que invocam a Deus creia que Ele existe e é galardoador daqueles que o buscam”. Davi tem a convicção de que Deus o ouvirá. Como é importante e maravilhoso orar com esta certeza no coração.

            (b)- Deus é Justo...  “Os homens fraudulentos e sanguinários não ficarão sem julgamento” (Vs 23). Ele não precisa fazer justiça com suas mãos nem derramar sangue de outra pessoa, pois Deus fará vingança, ele julgará com equidade.

            (c)- Existem muitas pessoas precisando dar respostas adequadas...  Por isto, fala aos seus amigos: “Confia os teus cuidados ao Senhor, e ele te susterá; jamais permitiria que o justo seja abalado”(Vs 22). É interessante notar que neste versículo ele não fala mais na primeira pessoa do singular, mas usa uma forma imperativa, aconselhando àqueles que viram a sua dor, a responderem corretamente a traição. Isto revela que Davi já descobriu o segredo para este enfrentamento: “Confia os teus cuidados ao Senhor”. Só pode aconselhar quem já experimentou o amor e cuidado de Deus diante das ameaças e dos homens maus..

Conclusão

Este texto é autobiográfico. Davi, inspirado pelo Espírito de Deus, narra toda sua luta diante da traição e da maldade de pessoas falsas e perversas. Ele descreve como se sentiu. Não é assim também conosco? Vontade de sumir, desaparecer, matar, cometer uma sandice? No entanto, o caminho melhor, e o único caminho, é a presença de Deus. “Deus é nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente nas tribulações”.