terça-feira, 24 de novembro de 2015

2 Co 3.13-18 Vencendo as máscaras





No estudo anterior, vimos o que aconteceu a Moisés, como ele se envolveu numa situação espiritual complicada e complexa. Depois de descer do Monte Sinai e do seu maravilhoso encontro com Deus, seu rosto brilhava, e para poder conversar com o povo de Israel, precisou usar véu. Com o passar do tempo, seu rosto perdeu o brilho, mas ele achou interessante continuar dando a aparência de que o brilho ainda estava lá. Isto ele fez para impressionar o povo que olhava para ele e comentava sobre a razão dele usar aquele pano sobre o rosto.

Moisés passou a viver de aparências, de hipocrisia, dando a impressão de ser um homem espiritual, quando na verdade, tornara-se uma pessoa normal, só que vivendo com máscaras e duplicidade.

Os efeitos colaterais de sua atitude foram muito graves:

a. Os filhos de Israel tiveram, por séculos, seus sentidos embotados, por causa de sua atitude. O que ele fez trouxe implicações espirituais sobre o povo de Deus. O povo de Israel teve dificuldade de compreender o Evangelho, e Paulo afirma que isto tinha a ver com a atitude pecaminosa deste grande líder, lá no passado. Sua forma de viver dificultou a percepcap das verdades do Evangelho.

b. A vida de aparência tornou-se a realidade do povo de Israel: “O véu está posto”. Esta afirmação dá ideia de algo quase impossível de mudar. Revela uma condição definitiva de um estilo de vida que não consegue mais desvendar e perceber a realidade, porque o rosto está encoberto. Paulo afirma que isto aconteceu por causa da atitude de Moisés;

c. Outro aspecto é que sua atitude gerou prisão interior. Eles não conseguiam encontrar ou experimentar a liberdade. Estavam presos! O Espírito Santo gera esta liberdade interior, mas isto não é possível sem desmascaramento.

Como vencer as aparências esta tentação?

Como sair da condição espiritual e mortal de embotamento, acobertamento e prisão, para uma vida de liberdade?

Alguns aspectos foram considerados:

i. Rejeitar o fascínio dos véus – O véu atrai, dá uma fachada de coisa importante, seduz, traz certa glória humana exterior, mas também traz morte. O veu é fundamentado na reputação, no aplauso humano, nas aparências. E isto nos atrai profundamente. Não é fácil rejeitar a eficiência deste poder.

ii. Admitir vulnerabilidades – O que Moisés deveria ter feito? Admitido que o brilho passou. Mas ele temia perder prestígio, e não sabia como as pessoas veriam isto, caso confessasse que o brilho acabou. Então, fez o que era mais fácil: manteve as aparências.

Como podemos remover estes véus que nos dá tanto reconhecimento?

O apóstolo Paulo responde duas vezes que esta remoção se dá apenas em Cristo: “Não lhes sendo revelado que em Cristo é removido” (2 Co 3.14); e, “quando algum deles se converte, o véu é retirado” (2 Co 3.16).

Só ocorre desvendamento em Cristo!

Fora de Jesus, há uma cegueira espiritual que não nos deixa perceber realidades. “O deus deste século, cegou o entendimento dos incrédulos, para que não lhes resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo” (2 Co 4.4).

Preste atenção que o “deus" que aparece neste texto está em minúsculo. A Bíblia está falando de potestades espirituais, deuses que não são deuses, forças espirituais poderosas que agem sobre o entendimento do incrédulo para que ele não entenda, e não creia. O véu lida com a área mais complexa do homem, o seu entendimento. Apenas Cristo pode destruir esta deficiência espiritual.

Quando Saulo viajava pelo estrada de Damasco e foi achado por Jesus, ele caiu no chão e ficou cego. Foi conduzido para Damasco, e ali teve um encontro com Ananias, que obedecendo a uma revelação, foi se encontrar com ele na rua Direita. Quando este homem orou por Saulo, “imediatamente lhe caíram dos olhos como que umas escamas, e tornou a ver” (At 9.18). As escamas caíram. É isto que Deus faz conosco na conversão. As escamas são removidas e a visão espiritual é restaurada. Por isto Jesus afirma que “se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” (Jo 3.3). Trata-se de percepção espiritual, visão.

Uma segunda verdade que precisamos assimilar é que, o ato do desvendamento e das rupturas com as aparências, é realizado pelo Espirito Santo. Como é algo espiritual, as coisas só se resolvem espiritualmente.

O Espirito faz cessar o domínio da antiga vida, feita de aparências e véus, rompe com o estilo de duplicidade e nos faz viver em liberdade interior, não mais condicionado a aprovação dos homens, nem aos véus e mentiras, mas absolutamente livre. Sem culpa ou acusação, sem medo de ser desmascarado.

Somos transformados”. Não diz “fomos”, ato passado, mas “somos” ato que se atualiza em nós diariamente pela obra do Espirito. Não afirma que fazemos, mas dá ideia de algo que Deus faz. Não é o homem quem inicia este processo, é Deus. Tudo provém de Deus, não é o homem quem realiza este crescimento – é Deus!

Em 2 Co 3.18 lemos: “Todos, com o rosto desvendado”. Nada de véu, o progresso espiritual acontece no clima de transparência. A vida cristã não pode ser construída sobre a falsidade nem a mentira, não se constrói com sombras nem na penumbra. Onde há o Espírito do Senhor, a verdade se revela libertadora. Em 2 Co 2.17 lemos: “Porque não estamos, como tantos outros, mercadejando a palavra da verdade, mas falamos, com sinceridade, da parte do próprio Deus”. O estilo de vida é da sinceridade, abertura e transparência. É desta forma que a Palavra de Deus progride em nossa vida, e se torna poderosa no testemunho aos outros.

Por isto “rejeitamos as coisas que por vergonhosas se ocultam” (2 Co 4.2). “Onde está o Espirito do Senhor há liberdade, até mesmo para errar e voltar. Deus não está com raiva” (Ray Stedman, A dinâmica da vida autêntica).

Uma outra observação do texto é que o crescimento só se dá com os olhos fitos na obra de Cristo – Moisés não serve. A lei não dá sustentação suficiente para esta transparência. Somos transformados pelo olhar, estamos mirando em Cristo. Se olharmos para nossa justiça própria seremos destruídos, seja pelo orgulho e auto suficiência, ou pelo inverso: depressão e fracasso. Somente a cruz pode nos livrar destas duas armadilhas.

O texto ainda nos ensina que este crescimento e a ruptura com a aparência é processual. Isto é, a obra de Deus continuada em nós. Nada está definitivamente pronto. Na conversão, o véu é retirado, ato único e completo e passamos a enxergar as verdades espirituais; mas no processo de crescimento espiritual, temos um longo caminho a percorrer. Hb 5.14 afirma que isto acontece quando nossas faculdades são exercitadas pela prática. Em algumas áreas de nossa vida, a obra de Deus já obteve vitória plena; em outras, ainda enfrentamos tentações, provações e grandes lutas.

Mas o alvo final disto tudo é sermos identificados com Cristo. Buscamos uma identidade de desejos, emoções, vontade e a mente do Filho de Deus. O alvo final é obedecer a ordem dada por Jesus: “Sede santos, porque eu sou santo” (Mt 5.48), mas não podemos depender de nós mesmos. “A nossa suficiência vem de Deus” (2 Co 3.5).

Conclusão:
Para romper com o modelo Moisés, o estilo da lei, das aparências e máscaras, é necessário conversão genuína a Deus, obra está efetuada pelo Espírito Santo.

Por isto vida cristã não está centrada no homem, mas na obra de Deus em nossa vida. Toda glória é dele mesmo.




segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Mc 5.15-20 Volta para tua casa!!



A história de libertação espiritual deste rapaz é de tirar o fôlego. Ele era considerado um louco, só que não destes tipos de loucos engraçados, ele era pavoroso. O Pastor José Nobre afirma que conheceu uma pessoa desajustada no Mato Grosso que gostava de repetir: “todo maluco tem razão!”.

Este personagem bíblico era muito mais que um louco.

Ele era dominado por forças espirituais, possuído por espíritos malignos. Vivia entre os sepulcros, afligido por intensa dor, controlado por demônios, alijado da sociedade e afastado da família. Sua história é permeada de dor e angústia. Quando foi libertado por Jesus, depois de anos de esmagadora angústia, sua primeira reação foi de nunca mais sair de perto daquele homem, e ele pede suplicando a Jesus que o deixe acompanhar, mas Jesus não o permitiu, antes deu-lhe uma ordem: “vai para a tua casa, para os teus” (Mc 5.19).

Por que Jesus não o deixa ir consigo?

Por que Jesus o envia para sua casa, lugar de antagonismos e reações, e não o leva para Israel?

A verdade é que Jesus o libertou para transformá-lo num missionário. Que transformação. De possesso à pregador. Pode existir alguma coisa mais transformadora e revolucionária que esta?

Certamente existe nesta atitude de Jesus alguns valores inegociavelmente presentes:


1. Jesus entende que o lar é o campo missionário mais urgente e desafiador por isto diz: “Volta pra tua casa e para os teus!”(Mc 5.19).


A mensagem do Evangelho não se propõe a apenas redimir uma vida, mas restaurar um sistema.

Por isto lemos em Malaquias 4.5-6


“Eis que vos enviarei o grande profeta Elias, antes que venha o grande temível dia do Senhor, e ele converterá o coração dos pais aos filhos e dos filhos aos seus pais, para que eu não venha e fira a terra com maldição”. Deus precisa agir nos lares, trazendo saúde e relacionamentos curados, para que a sociedade não seja ferida. O grande desafio social com as drogas, assassinato de jovens, criminalidade, tem a ver com sistemas. Ficamos tentando recuperar jovens, mas o grande desafio é restaurar famílias, trazer conversão de pais a filhos. A sociedade está ferida porque falta cura de afetos e emoções. A psique da juventude está perigosamente ferida por falta de conversões entre pais e filhos.


Quando Jesus age em uma família, ele quer fazer uma mudança não apenas de um individuo, mas de famílias. Existem doenças sistêmicas que só o Evangelho pode tangenciar, lares desestruturados que apenas a graça de Jesus pode resgatar, existem forças malignas agindo nos filhos, e lares que só poderão ser transformados quando o valente, que domina estruturas familiares, forem expulsos.

A mulher siro fenícia, que procura desesperada e incansavelmente a Jesus, embora não tivesse um background judaico, foi capaz de perceber que algo de espiritual e maligno pairava sobre sua casa, de forma direta em sua filha, que precisava de urgente libertação. “Senhor, socorre-me, minha filha está horrivelmente endemoninhada”. Esta expressão é interessante, porque Satanás, literalmente, tinha feito um ninho dentro de sua casa.

Nossos lares precisam ser evangelizados, redimidos, resgatados. “Volta pra tua casa e para os teus!” (Mc 5.19).


2. Jesus enxerga a família, como estruturas que precisam ser transformadas.


Existem culturas, modelos e ambientes familiares que são propícios ao florescimento do mal, são campos férteis para proliferação de gestos malignos. Por isto o irreverente dramaturgo Nelson Rodrigues afirmou que, “família, na melhor das hipóteses, só serve para enriquecer a indústria farmacêutica e dar emprego para psiquiatras”. São estruturas profundamente danificados no seu núcleo básico.

Jesus recupera o rapaz para transformá-lo em agente de resgate. Não apenas para auto satisfação e paz interior, mas para transformá-lo em um missionário.

Estudos demonstram que quando uma criança é resgatada de um ambiente hostil, tem oportunidade de estudar, de quebrar o ciclo negativo de heranças e comportamentos destrutivos de uma família, não apenas ele é resgatado, mas ele tem o poder de impactar sua família, e toda a posteridade sua será impactada. Por ter acesso a novos modelos familiares, novas realidades, consegue fazer leituras mais amplas e restauradoras, por isto melhora a renda familiar, encoraja novas atitudes, e cria um novo paradigma na família.

Foi exatamente isto que Jesus fez.

A volta deste rapaz antes endemoninhado, cujos sintomas eram similares ao de um esquizofrênico ou bipolar, mas que agora está refeito e em perfeito juízo, vai impactar toda família, e a sociedade onde ele vive. O grande chamado de Cristo não é para segui-lo a despeito da família, mas segui-lo, reintegrando-se à família e trazendo redenção à família.

Por muitos anos, ele estava distanciado da família e retornar à casa não parecia muito interessante. Na condição de possesso já era conhecido de muitos, e causara certamente muito constrangimento à família. No entanto, Jesus recomenda que ele volte e seja reintegrado à família. O encontro com Cristo move o convertido à restauração do seu ambiente e de relacionamentos quebrados.


3. Jesus sabe que sua volta vai impactar a sociedade.


O que ele faz quando retorna?

“Então, ele foi e começou a proclamar em Decápolis, tudo o que Jesus lhe fizera; e todos se admiravam” (Mc 5.20).


Isto aponta para algo subversivo. Quem foi o primeiro missionário cristão entre os gentios? Não foi Filipe que em Atos 8 sai anunciando o evangelho por toda Samaria, nem Pedro com toda sua resistência inicial conforme Atos 10, nem mesmo Paulo que se auto intitula apóstolo dos gentios. O primeiro missionário foi este Gadareno. Ele vai para aquela região gentílica, conhecida como Decápolis, isto significa, um complexo de dez cidades, e vai a todas elas proclamando o poder de Jesus.

Enquanto a igreja institucionalmente iria lutar em concílio (Atos 15), em grandes debates para saber se os gentios seriam incorporados à mensagem cristã, este simples homem, com sua experiência grandiosa de libertação, já estava anunciando Jesus entre os pagãos. Não precisava da aprovação de um concilio, apenas o forte testemunho de alguém transformado pela maravilhosa graça de Jesus.

O conteúdo de sua mensagem é bem simples, mas profundamente eficaz:

i. Anunciava a compaixão de Cristo – (Mc 5.19)
ii. “Começou a proclamar tudo o que Jesus fizera” (Mc 5.20)


O resultado?


“Todos se admiravam” (Mc 5.20).


Disto podemos tirar algumas conclusões:


A. Família e missões são temas profundamente interligados. Quando era seminarista, ficava hospedado na casa de Eleny Vassão, por dois anos, todos os finais de semana, compartilhei da vida desta família, ao lado de seus admiráveis filhos. Eram quatro. Se o pai resolvesse ir para o gol, tinham um time de futebol de salão. Eles irradiavam saúde e alegria, e eram sempre uma fonte de contentamento para o meu coração. Um dia, ela expressou a dificuldade de conciliar seu grande desejo de ser capelã, com as exigências domésticas, naquela ocasião afirmei que se ela transformasse seus quatro inteligentes e vibrantes filhos, em missionários, São Paulo seria pequeno para o impacto que eles causariam naquela metrópole. Não é exatamente assim?


A verdade é que nenhum esforço vale, em termos de vida espiritual, se meus filhos e netos não forem atingidos.


B. O maior e mais desafiador campo missionário é a família. Nenhum é tão urgente e necessário. Famílias redimidas geram benção, graça e alegria. Famílias disfuncionais, danificam a psique e atiram os filhos nas drogas, criminalidade, mas sutilmente gera outros desequilíbrios que nem sempre são mensuráveis como depressão, falta de sentido, melancolia, e se forem famílias cristãs desequilibradas, geram incredulidade e apostasia.



C. Lares precisam ser alcançados – A Bíblia afirma que quando Davi pediu ajuda a Nabal, recebeu uma resposta que o enfureceu. O relatório que o empregado dá a Abigail sobre a atitude de seu marido revela como lares podem estar fortemente contaminados e afetados pelo mal. “Agora, pois, considera e vê o que hás de fazer, porque já o mal está, de fato, determinado contra o nosso senhor e contra toda sua casa, e ele é filho de Belial, e não há quem lhe possa falar” (1 Sm 25.17). Observe a linguagem: “O mal está, de fato, determinado”. Muitos lares estão sob este pesado veredito. É só uma questão de tempo até que as tinhosas manifestações do mal se revelem.


Fundamentos precisam ser restaurados. As bases precisam ser reconstruídas. Jesus quer tratar disto, caso contrario, não faria qualquer sentido remetê-lo novamente às suas origens.

Um exemplo impressionante de como um homem cuida de sua casa encontramos em Jó. “Decorrido o turno de seus banquetes, chamava Jó a seus filhos e os santificava; levantava-se de madrugada e oferecia holocaustos segundo o numero de todos eles, pois dizia: Talvez tenham pecado os meus filhos e blasfemado contra Deus em seu coração. Assim o fazia Jó continuamente” (Jó 1.5).

Veja a dinâmica de Jó para santificar seus filhos:

a. Era intencional – “Chamava Jó a seus filhos”.
b. Investia tempo – “Levantava-se de madrugada”
c. Investia dinheiro – “oferecia holocaustos segundo o número de todos eles”
d. Tratava a alma de cada um, individualmente – “segundo o número de todos eles”
e. Era perseverante – “Assim o fazia Jó, continuamente”.


D. O Evangelho se relaciona com famílias, pressupõe um ato missionário intencional e consciente em relação os filhos .

Desde o chamado de Abraaão, Deus reiteradamente está reforçando a ideia de que salvação não é para um individuo, mas para a família. Isto é chamado em teologia de “Pacto geracional”(Susan Hunt), Groniken fala da “família do pacto”. Uma doutrina bíblica esquecida e sublimada nos púlpitos evangélicos. O pacto Abrâmico afirma exatamente isto: “Abençoarei a ti a teus descendentes. Em ti serão benditos todas as famílias da terra”, e para demonstrar a seriedade deste pacto, exigia que o seu povo circuncidasse todo macho, ao oitavo dia. Um sinal simbólico, que deveria estar presente no órgão reprodutor dos homens, porque neste pacto, “os filhos pertencem a Deus”.

Parece que esta mesma ideia é também presente no Novo Testamento. Quando o carcereiro de Filipos faz a pergunta mais relevante que um ser humano pode fazer: “Que devo fazer para ser salvo?” Apesar de sua pergunta ser formulado no singular, Paulo e Silas respondem no plural: “Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e tua casa”(At 16.31). Deus está fazendo promessas não apenas para os pais, mas para os filhos, Deus não quer apenas indivíduos, mas famílias. Este era o seu projeto em Abraão e continua sendo seu projeto para os lares.

“Voltar para casa” é uma ordem de Deus a todos àqueles que se desencontraram na vida, mas que foram impactados por Deus e transformados pelo seu poder.

Famílias ainda se constituem num enorme campo missionário. Lares precisam de Deus, porque na sua maioria ainda são controlados por forcas satânicas e espíritos de demônios.

“Vai para tua casa”, para abençoar, testemunhar, para que o testemunho do amor de Deus em sua vida, cause admiração e gere transformação em muitos que ainda se encontram oprimidos pelo diabo. Precisamos ir para casa.

“Vai para tua casa e para os teus e anuncia-lhes tudo o que o
Senhor te fez, e como teve compaixão de ti”.

Pv 30.1-6 Exaustão e stress




Pouco sabemos do autor deste capítulo do livro de Provérbios. Apesar de todo seu conteúdo ser considerado como um livro de Salomão, a verdade é que em muitos pontos, ele apenas o compilou, provavelmente com um grupo de sábios, escribas e eruditos, que o ajudavam na composição dos textos. Este texto, por exemplo, foi escrito por Agur, filho de Jaque, de Massá. Portanto sabemos quem era o seu pai, e sua procedência, não há, além destas informações, outros aspectos mencionados sobre a vida do autor.
O mais importante, contudo, é o desabafo que ele faz sobre sua própria realidade espiritual. Agur tem um problema típico do homem de ação do Seculo XXI, que precisa atender às múltiplas demandas do trabalho, estudo, família, contas a pagar, exigências sociais, e que desemboca quase que invariavelmente num quadro de ansiedade, angústia e fobia. Agur sentia-se exausto, e ele afirma isto com veemência: “Fatiguei-me, ó Deus; fatiguei-me, ó Deus, e estou exausto” (Pv 30.1). Não é esta uma descrição de um homem agitado dos nossos dias?  Parece a descrição de um homem que trabalha no mercado de ações na Avenida Paulista num final de tarde da sexta feira. Exausto!
O que o leva ao cansaço?
Da mesma forma que ele fez, precisamos considerar aquilo que drena a energia, e rouba a vitalidade da nossa vida. Aprender a se proteger destes elementos que espoliam o entusiasmo e a alegria da vida, é um grande desafio, mas se soubermos detectá-los e nos prevenir contra eles, teremos dado um grande passo em relação a uma vida mais saudável e plena.

Agur identifica dois destes elementos:

1.      A estupidez de seu próprio coração – “porque sou demasiado estúpido para ser homem; não tenho inteligência de homem, não aprendi a sabedoria “(Pv 30.2-3). Ele percebe que boa parte de sua exaustão decorre de atitudes erradas, decisões erradas, negócios errados.

A grande verdade da vida é esta: “Eis o que tão somente achei, Deus fez o homem reto, mas ele se meteu em muitas astúcias”  (Pv 7.29). Sofremos em demasia e nos cansamos, porque nossas escolhas morais e espirituais, o pecado, traz graves consequências e cansaço sobre a vida.
Veja o próprio exemplo de Salomão. Ele vai ignorando o bom senso e princípios espirituais. Sua vaidade vai assumindo seu coração. Na tentativa de ser popular, um politico reconhecido e aclamado, decidi ignorar a Palavra de Deus e fazer do seu jeito. Salomão se considerava esperto demais, e sua vaidade não o deixava perceber a armadilha em que ele estava se enfiando. Para ampliar seu domínio, já não bastava o reconhecimento do seu povo, precisava mais, e o caminho que lhe parecia mais fácil era fazer alianças, casar-se com mulheres pagãs. Isto lhe cobra um alto dividendo. As mulheres vem para Israel e trazem os seus deuses consigo, e para lhes ser agradável, resolveu fazer templos pagãos para que suas mulheres gentias pudessem oferecer sacrifícios aos deuses e ídolos.
Eventualmente a vaidade de Salomão retorna como um efeito bumerangue sobre sua vida. Para satisfazer seus caprichos e exigências, passou a cobrar impostos cada vez maiores sobre o seu povo, e isto posteriormente será a causa da divisão de Israel entre Reino do norte (Samaria) e Reino do sul (Jerusalém).
Não sabemos o que fez Agur, mas o seu desabafo expressa o sentimento de alguém que se percebe tolo, estúpido, estulto. Ele se vê agora como uma pessoa tão tola, que não se parecia com um ser humano, ele afirma que tinha perdido sua capacidade de raciocínio e lógica, “não tenho inteligência para ser homem”,  e havia “ignorado a sabedoria”. Estas coisas estavam pesando e trazendo aborrecimento para sua vida. Ele estava exausto e fatigado, por causa da tolice de seu coração.
Não é assim com nossa vida?
Algumas vezes a Bíblia usa expressões interessantes para revelar as consequências do pecado. Em Lv 18.23, ao falar do pecado, a Bíblia é bem prática ao afirmar que isto geraria “confusão”. Em Dt 28.20, ao se referir às consequências do pecado, vemos que haveria “loucura, cegueira e perturbação de espírito”. É Isto que faz o pecado. Ele nos perturba, nos deixa cansados, irritados e gera confusão e stress. 
Quantas vezes sofremos em demasia por causa de tolas decisões. Na sua infinita graça Deus usa até mesmo as contradições e ambiguidades para nos abençoar, mas antes disto pagamos um preço muito caro para tolice. Sua exaustão estava associada à estutície do coração.

2.      Falta de conhecimento de Deus – Ele reconhece que outra coisa que lhe causara este profundo stress fora a falta de conhecimento de Deus. Sua pouca intimidade com Deus lhe causava sofrimento. “...nem tenho o conhecimento do Santo” (Pv 30.3b)

Nos estressamos demais em não conhecer o caráter de Deus. Quem não tem conhecimento de Deus torna-se passatempo das circunstâncias, e isto significa uma vida cheia de altos e baixos, ninguém tem controle sobre os acontecimentos, nem pode controlar a história, o clima das estações, a variação da bolsa, a variação do mercado. Se sua confiança e segurança encontram-se em coisas, pessoas ou circunstâncias, e não em Deus, você vai sofrer muito stress e facilmente vai fatigar-se.
Quando confiamos em Deus, podemos andar seguro. “Deus é nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente nas tribulações”. (Sl 46.1). É isto que Deus tenta comunicar ao seu povo, em vão, porque o povo não entende:  “Porque assim diz o Senhor Deus, o Santo de Israel: Em vos converterdes e em sossegardes, está a vossa salvação; na tranquilidade e na confiança, a vossa forca, mas não o quisestes, antes, dizeis: Não, sobre cavalo fugiremos; portanto, fugireis; e: Sobre cavalos ligeiros cavalgaremos; sim, ligeiros serão os vossos perseguidores”  (Is 30.15-16).
A verdade é que não confiar em Deus causa fadiga e stress. Confiamos na força das nossas mãos, nos recursos da inteligência, nas pessoas, no dinheiro, não buscamos a tranquilidade, serenidade e paz que procedem do Senhor. O caminho para uma vida sem ansiedade e fadiga, é o caminho da confiança e do sossego em Deus.
Agur percebe isto de forma bem dolorida em sua vida.
Desconhecer a Deus de forma prática e efetiva, se torna uma grande fonte de angústia e stress. Ele deixa de colocar sua confiança em Deus, e  o resultado é a fadiga. Por não conhecer a Deus, o Deus Santo, ele se encontra agora fatigado.
Na tentativa de trazer à sua mente, a realidade deste Deus, ele faz cinco perguntas, todas sobre Deus, e sempre de forma veemente:
Quem subiu ao ceu e desceu?
Quem encerrou os ventos nos seus punhos?
Quem amarrou as águas na sua roupa?
Quem estabeleceu todas as extremidades da terra?
Qual é o seu nome? E qual é o nome de seu filho,
Se é que o sabes?”
(Pv 30.4)

é interessante que esta foi a didática de Deus com Jó. Enquanto ele insistia nos “porquês”, Deus respondia com “quem”. O importante, para nos dar descanso, é entender, não as causas dos fatos e acontecimentos, mas confiar na soberana direção daquele que faz todas as coisas, e dirige a história humana com santidade e providência.

Conclusão:
Stress, fadiga, exaustão, estão muito mais relacionados ao estado interior que fatores externos. Normalmente afirmamos que estamos exaustos pelo excesso de trabalho, pela agenda lotada, pelas exigências sociais e trabalho, mas a verdade é que, geralmente, nosso esgotamento se dá por fatores internos. Descuidamos do coração, de coisas essenciais para a vida, e somos consumidos pela agitação.
Agur se sentia exatamente assim:
Fatiguei-me, ó Deus; fatiguei-me, ó Deus, e estou exausto” (Pv 30.1).
Agur viveu numa cultura muito diferente da atual, com exigências e pressões diferentes, com realidades distintas, mas estava igualmente cansado. Sua afirmacao é de alguém que se encontra no fim da linha.
Na sua reflexão ele percebeu: desprezei a sabedoria. Ele percebe que não seguiu princípios e valores básicos que dariam estabilidade e serenidade ao seu coração, abandonou coisas fundamentais, confundiu urgente com prioritário, correu até a exaustão, e sente-se agora estressado e estúpido.
Ele percebe, acima de tudo, que desprezou valores eternos. Desprezou a Deus, minimizou a importância de considerar Deus, ouvir a Deus, ter conhecimento do Eterno. Ele esqueceu “Quem”, em última instância, poderia dar sentido ao seu coração. Esqueceu que “em converter e em sossegar, estava sua salvação”. Deus, este sim, seria o único que poderia dar descanso à sua alma cansada.
Talvez fosse isto que estivesse na mente de Cristo quando convidou os seus discípulos: “Vinde a mim, todos os cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei; tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e achareis descanso para as vossas almas “. (Mt 11.28)


Dt 6.4-8 Balanceando influências



Se pensarmos em termos da quantidade de tempo disponível para cuidar espiritualmente da alma dos filhos, certamente ficaremos assustados ao perceber quão pouco tempo temos para equilibrar este grande descompasso entre a educação secular e a cristã. Enquanto uma criança gasta cerca de 3000 horas por ano em escolas, terá apenas 50 horas na igreja.
Contudo, nenhuma instituição tem mais tempo e possibilidades de exercer influência sobre os filhos que a família. Igreja e família, portanto, precisam se aliar para balancear esta influência, diante da esmagadora força do secularismo. Certa mulher disse ao seu pastor que não sabia porque o seu filho havia se afastado da igreja, afinal, ele fora criado na igreja. E o pastor respondeu: “Este foi o seu problema. Filhos devem ser criados em casa, não na igreja”.

A igreja consegue:
a.       Criar vínculos históricos, formando uma identidade, dando senso de pertencimento. Esta é, a base de sustentação do judaísmo. Por onde iam, levavam consigo símbolos, afirmações de fé, e principalmente, a Torah, que era lida nas sinagogas, além do fato de que tradições religiosas eram rigorosamente preservadas como o sábado e o Bar Mitzvah, por exemplo;

b.      A igreja pode encorajar os pais, fornecendo conteúdos apropriados, encorajando-lhes a fé, ajudando-os a preservar convicções através de liturgias e símbolos;

c.       O grande desafio da igreja, no entanto, encontra-se em atualizar os métodos, criando linguagem propícia para transferir informações e conteúdos que possam apoiar a espiritualidade e caminhada de fé da família.

Em contrapartida, a família deve:
a.       Encorajar seus filhos a criar relacionamentos, a desenvolver práticas religiosas.

b.      Criar modelos de vida cristã, que possam sustentar os filhos em relação às próximas gerações.

c.       Quando Deus resolveu se encarnar, não foi sem motivo que ele escolheu uma família. As primeiras experiências de afeto e acolhimento foram por meio de uma família. 

Por isto precisamos, buscar o equilíbrio de forças. Igreja e família somando para encorajar a fé, afinal:
A.      Quem vai controlar o coração e a mente dos filhos?
B.      Basta pensar de forma estatística:
i.                     Quanto tempo a criança gasta na escola?
ii.                   Quanto tempo a criança fica na igreja?
iii.                 Quanto tempo significativo ele desfruta com os pais?
iv.                 Quanto tempo na internet e nas redes sociais?

O texto de Deuteronômio 6.4-12 nos fornece elementos  estratégias importantes para esta caminhada com os filhos.
Moisés havia sido líder do povo de Deus por quase 40 anos e agora percebia que sua partida estava chegando, então, solenemente, transmitiu estas palavras, como que para assegurar que a nova geração estaria protegida das influências pagãs e idolátricas do povo de Canaã. Ele sabia que não seria fácil, e dá algumas direções para o povo de Deus. Estas palavras foram proferidas cerca de 3500 anos atrás.

Eis alguns princípios:

1.      Mantenha o eixo central bem firmado – Moisés profere em Dt 6.4, aquilo que ficou conhecido como o Shemah hebraico: “Ouve, ó Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor” . Esta afirmação ficou tão clara na comunidade hebraica, que ainda hoje os judeus mais religiosos ainda a proferem pelo menos duas vezes com seus filhos: “O Senhor nosso Deus, é o único Senhor”.
Este é o eixo central, em torno do qual deve girar todas as demais coisas.
O Salmo 78 afirma: “O que ouvimos e aprendemos, o que nos contaram nossos pais, não encobriremos aos nossos filhos; contaremos às vindouras gerações, os louvores do Senhor, e o seu poder, e as maravilhas que fez”  (Sl 78.1-2). Este legado não poderia ficar encoberto pelos pais. Os filhos deveriam ouvir de onde vinham, ter identidade e conhecer o Deus de seu povo.
A preocupação de Moisés era mais que justificada, porque logo depois da morte de Josué, a geração seguinte se perdeu completamente. “Depois da morte de Josué, levantou-se uma geração que não conhecera o Senhor, nem ouvira falar dos feitos de Deus”(Jz 2.10), e por não terem atentado para este principio, os filhos se apostataram seguindo Baal e Astarote, deuses cananitas.
Tenho dito aos pais descuidados com questões espirituais, que se eles se afastarem da igreja, a próxima geração ainda se lembrará um pouco de sua origem religiosa, mas a outra geração, sem conexão alguma com Cristo, vai descambar para o misticismo e teremos netos de crentes seguindo seitas exóticas, praticando macumba e rituais animistas. Eu particularmente já tenho visto estas trágicas situações em nosso meio.
Para Reggie Joiner (Pense laranja), manter este eixo central é forma de “imaginar o final”. Em épocas de crise, em dias sem esperança, quando não ha soluções simples, nem revelação específica de Deus, o povo de Israel deveria confiar no princípio, mantendo o fim em mente: “Minha família faz parte de algo maior, e Deus deseja mostrar seu poder redentor em nossa vida”.

2.      Use uma abordagem pessoal – Estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração” (Dt 6.6).

Antes de ser transmitida, precisa ser recebida e adotada em nós. Antes de ensinarmos, precisamos aprender. As verdades espirituais devem passar primeiramente pelos nossos corações.
Antes de falar o que fazer com os filhos, Moisés orienta sobre o que a atitude dos pais. Certas coisas não podem ser ensinadas se não forem previamente adotadas por nós, princípios espirituais cabem nesta lista. Antes de pensarmos no que os os filhos estão se tornando, precisamos pensar em que estamos nos tornando.
Isto implica não apenas em ensinar, mas demonstrar.
Certo pai doou 5 reais na hora do ofertório na igreja, e ao sair do culto, passou a reclamar das músicas, do sermão do pastor, do banco duro, do calor, e o filho de 6 anos que observava tudo comentou: “Também... com a oferta que o senhor dá...”
Não tenho nenhuma dificuldade em batizar crianças, encontro bases suficientes na Bíblia para realizar este ato sacramental, mas tenho grandes crises quando pais, que não tem nenhum compromisso com o reino de Deus, nem com a igreja local, decidem fazer votos que não são podem cumprir. Por isto, diante de pais que não tem claros compromissos espirituais, costumo perguntar: “Vocês  tem condições, em boa consciência, diante da igreja e principalmente de Deus, de responder estas questões?” E leio as perguntas que deverão responder.
Alguns afirmam que sim, assumem compromisso, mas o fazem de forma leviana.
Outros, ao serem indagados, admitem que não podem, mas querem mudar.
Outros, não tem nenhum problema com tais afirmações, porque isto faz parte de sua vivencia espiritual.

Os filhos precisam ver os pais:
i.                     Assimilando o Evangelho nas suas vidas;
ii.                   Confessando pecado e demonstrando arrependimento;
iii.                 Se alegrando em fazer parte da família de Deus;
iv.                 Lutando pelo casamento com temor e tremor;
v.                   Orando, agradecendo a Deus pelas bençãos, e buscando a graça de Deus para serem espiritualmente vitoriosos.

Pais precisam ser modelos.
A vida com Deus, precisa ser uma realidade em nossas vidas, para que os filhos assimilem as verdades das Escrituras Sagradas.

3.      Lute pelo coração – Moisés tinha clareza de que o grande alvo dos pais seria lutar pelo ponto central da existência humana: o coração.

Ele fala de que a relação com Deus deveria ser sustentada à base dos afetos: “Amarás, pois, o Senhor teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento”. O coração dos filhos deveria ser o objetivo da pedagogia do povo de Deus. Eles deveriam aprender amar a Deus.
O que distingue uma fé ritualista e institucional de uma fé viva, é a força impulsionadora do amor. A fé precisa passar pelo coração.
Ted Tripp escreveu um dos mais importantes textos sobre educação cristã, no seu livro Pastoreando o coração das crianças. Ele conseguiu fugir dos conceitos comportamentais e dos jargões psicológicos, e abordar a disciplina dos filhos na perspectiva do Evangelho. Na educação cristã, o alvo não é apenas corrigir comportamentos na base do reforço positivo e negativo, nem para que os filhos nos dêem sossego e não causem problemas por falta de educação, o grande alvo deve estar ainda acima destas coisas: As verdades da Palavra de Deus precisam penetrar a alma dos filhos.
Reggie Joiner faz a seguinte afirmação: “Há pais melhores em lutar para vencer uma discussão do que em brigar para ganhar o coração de seus filhos”(Pense laranja, pg 58).
Moisés instrui os pais. “Quando teu filho, no futuro, te perguntar, dizendo: Que significam os testemunhos, e estatutos, e juízos que o Senhor Deus vos ordenou? Então dirás a teu filho: Éramos servos de faraó, no Egito; porém, o senhor de lá nos tirou com poderosa mão”(Dt 6.20-21).
Como ganhar o coração dos filhos?
Isto só é possível mediante um relacionamento de confiança. Moisés não apresenta muitas razões práticas, além do fato de que Deus é digno de confiança. Deus tem um envolvimento afetivo com o seu povo. Ele nos ama.
O principal alvo não é levar os filhos a seguir regras (behaviorismo), mas demonstrar que podem confiar  em nós e saber que os amamos.
A quebra de confiança afeta a segurança que eles poderiam ter nós.

Alguns exemplos práticos:
i.                     Certa mulher saiu de casa dizendo para a filha de 4 anos, que iria apenas na mercearia comprar balinhas, e voltaria logo. No entanto, mudou-se para os EUA, e só reencontrou sua filha, 12 anos depois;
ii.                   Não é muito raro encontrar pais que tem facilidade em aplicar disciplina quando estão irados. Ao fazer isto, demonstram que não estão realmente preocupados em educar, e sim, resolver a ira que os dirige. Por isto a Bíblia afirma que a vara da indignação falhará.
iii.                 Pais facilmente esquecem a necessidade dos filhos. A Bíblia ensina a não irritar os filhos (Col 3.21)
iv.                 Pais descuidadamente podem quebrar promessas, agirem de forma incoerente, fazendo com que os filhos não estabeleçam relacionamentos de confiança;

As feridas mais profundas no coração dos jovens estão relacionadas à questão da confiança. Filhos são capazes de lidar relativamente bem com a pobreza, e até mesmo com a escassez, mas certamente não sabem lidar com a falta de coerência dos pais, isto traz muita insegurança, dúvida, dor e ira.

4.      Estabeleça uma dinâmica – (Dt 6.7-8)
Moisés ainda fala da importância de estabelecer determinados ritos e criar certas dinâmicas para tornar o aprendizado mais efetivo, Isto implica numa atitude cotidiana e intencional e demonstra a necessidade de não compartimentalizar a fé , tornando-a apenas uma pequena parte de nossa história.
Inculcar demonstra persistência. O conceito hebraico de ensinar consistia em “provocar o aprendizado”.
Moisés fala de uma pedagogia sistemática e estratégica.
Crianças aprendem melhor quando rotinas são estabelecidas.

i.                     No horário das refeições – Estatísticas demonstram que quanto mais os membros de uma família comem juntos, menos chances terão os filhos se envolverem em drogas, caírem em depressão, ou irem para a cadeia.
ii.                   Fazendo caminhadas – Andar com os filhos, pelo caminho, levando-os à escola, andando de bicicleta, estimula o diálogo informal.
iii.                 Hora de dormir – gastar um tempo com os filhos, especialmente quando ainda sao menores, antes de dormir, certamente criam momentos estratégicos para se conversar sobre o dia que passou. Falar sobre tristezas e alegrias, conversar acerca dos ups and downs.
iv.                 Hora de acordar – tomar café de manhã juntos é também uma boa oportunidade  para orar pelo dia, falar um pouco do que vai acontecer no dia, criar expectativas.

A cultura hebraica reconhecia a dinâmica dos dias, bem como da semana, e mesmo do ano, já que preservava festas fixas como páscoa, tabernáculo, purim, etc.
Quando se fala de tempo com os filhos, sempre surge a tensão: quantidade ou qualidade?
A resposta melhor, certamente é: ambos.
Famílias que passam mais tempo, juntos tem mais eficácia em causar impacto nos filhos.
Para desmascarar a ideia de que quantidade de tempo pode substituir a qualidade, existe uma boa ilustração: morar perto de uma academia (ou ter aparelho em casa), não lhe transforma em um atleta.
Para desmascarar o mito de que qualidade pode substituir quantidade, o exemplo é: Se você vai para a academia e exagera a dose nos exercícios, depois de muito tempo sem praticar, pode ter entorses e traumatismos.
Por isto, certo autor fez as seguintes observações:

Momento                               Comunicação                                    Alvo
Refeição                                               Conversa informal                             Estabelecer valores
Tempo no carro                                 Diálogo informal                                               Interpretar a vida
Hora de dormir                                  Conversa intima, oração                  Cultivar intimidades
Café da manhã                                    Palavras de incentivo                       Instilar propósito

Aplicações:

a.       A comunicação se torna mais eficiente quando as duas forças trabalham em parceria;

b.      Duas forças unidas causam impacto maior que separadas;

c.       “Não é a informação nova que cativa a imaginação. É sua apresentação. O mundo cultural reinventa, a todo momento, a forma de falar “. (Reggie Joiner, pg 150).







Mc 8.18 Não vos lembrais?





Introdução:

É muito fácil esquecer milagres e contabilizar dores.

A memória de gratidão e reconhecimento parece funcionar de forma diferente da amargura e ressentimento.

Um antigo hino afirma: “Conta as bençãos, dize-as de uma vez; e verás surpreso quanto Deus já fez”. Lamentavelmente o que geralmente contamos são as mágoas, lembramos com detalhe situações em que fomos feridos e de quem nos magoou. Somos capazes de contar mágoas, “todas de uma vez”, numa avalanche de dor e lágrimas, mas temos dificuldade de recordar os feitos poderosos de Deus na vida. Isto é muito grave. Facilmente esquecemos as manifestações de cuidado de Deus.

É isto que vemos no texto lido.

Os discípulos estão enfrentando uma necessidade. Coisa de homem. Saem de barco, mas ninguém se lembrou de levar o lanche, e a fome chega quando se encontram em alto mar. Jesus está ministrando, e faz uma menção sobre o fermento dos fariseus e de Herodes. Ele está falando sobre a capacidade de homens do mundo religioso e político (os fariseus representam os primeiros, e Herodes o segundo), de gerarem intrigas, causarem oposição, lutarem por poder, e exercitarem a maledicência. Mas os discípulos fazem outra leitura: Ele está com fome e indiretamente nos censura por não termos trazido o lanche.

Nesta hora Jesus resolve ministrar ao coração dos discípulos:
Por que discorreis sobre o não terdes pão? Ainda não considerastes, nem compreendestes? Tendes o coração endurecido? Tendo olhos, não vedes? E, tendo ouvidos, não ouvis? Não vos lembrais?” (Mc 8.18-18).

Jesus afirma que o problema deles era de memória, eles não se lembravam de algo recente que haviam presenciado. Eles tinham acabado de ver o milagre de Jesus na segunda multiplicação dos pães, quando cerca de quatro mil homens foram alimentados com sete pães e alguns peixinhos, mas cinco horas depois, encontram-se novamente com crise sobre a questão de comida (Mc 8.1-10).

A pergunta de Jesus: “Não vos lembrais?”, é fundamental para esta reflexão.

O problema dos discípulos era a incapacidade de recordar os feitos de Deus em suas vidas, e trazê-los novamente para o coração para enfrentar os desafios presentes. A memória dos feitos de Deus realizados ontem deveriam ser instrumentos para enfrentar os problemas de hoje.

Quatro lições devemos aprender a partir deste texto:


1. Quando nos esquecemos dos feitos de Deus, facilmente nos assustamos com os desafios de hoje. A memória evocando o passado, torna-se aliada para enfrentarmos os dilemas de hoje.

Max Lucado conta o seguinte episódio, que serve para ilustrar.



“Há alguns anos atrás quando eu estava levando a minha filhinha Andrea para a escola, ela notou que eu estava nervoso.
-“Por que você está tão calado, pai?”
Eu disse a ela que estava preocupado com o prazo de entrega de um livro.
Ela me perguntou -“Você não já escreveu outros livros?“ 
- “Sim” eu respondi. 
-“Quantos?” 
Naquele momento a resposta era quinze. 
Ela respondeu: 
-“Já perdeu algum prazo antes?” 
-“Não” eu disse. 
-“Então Deus já te ajudou quinze vezes?” 
-“Sim” eu estremeci. 
Ela estava soando como a mãe. Ela continuou o raciocínio 
-“Se Ele te ajudou nas outras quinzes vezes, não acha que ele vai te ajudar nessa vez?”


Não deixe que a experiência se perca no arquivo da memória. A Bíblia, didaticamente, sempre usa o recurso de evocar as intervenções do passado, para superar as lutas do presente. Você se lembra de como Deus agiu na sua vida? Como interviu de forma soberana e especial? Lembre-se disto para fortalecer o seu coração no presente. Foi isto que Jesus falou quando entrou no barco com para estar com os discípulos: “Porventura não vos lembrais”? (Mc 8.18)

Como diz Lucado: 

“Sua melhor ferramenta contra os ataques do diabo é uma boa memória. Não se esqueça de uma bênção sequer”.

Quando o profeta Jeremias se vê diante da caótica e destruída cidade de Jerusalém, o que ele faz? Usa sua memória para enfrentar o pesado momento de sua história.

Quero trazer a memória, o que me pode dar esperança” (Lam 3.21).

A sua história estava completamente sem chão, o caos estava diante de seus olhos, mas ele podia usar sua memória para evocar princípios e verdades que poderiam sustentá-lo, no seu caso, o que o manteve em pé foi a lembrança do caráter misericordioso e a fidelidade do Senhor: “As misericórdias do Senhor, são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não tem fim, renovam-se cada manhã. Grande é a tua fidelidade” (Lm 3.22-23). Lembrar de Deus, e de quem ele era, de sua misericórdia e fidelidade, fazia toda diferença para sua vida.

O que você faz quando as coisas saem do seu controle?

Quando falta lanche na viagem?

Eu sei que para alguns casais, faltar lanche é razão de briga. Um jovem casal descobriu que não podia discutir antes do almoço, porque isto, invariavelmente, gerava graves conflitos. Decidiram que só discutiriam quando estivessem de barriga cheia. 70% das grandes discussões acabaram.

Mas e você? O que faz quando há risco da falta de pão?

Quando você esqueceu o lanche em casa?

Quando as coisas fogem do seu controle, por desatenção, descuido ou casualidade? O que você faz para enfrentar os desafios de hoje?

Use sua memória!

Jesus censura seus discípulos: “Porventura não vos lembrais?” Use a memória a seu favor.


2. Não usar a memória dificulta a compreensão do Evangelho

Jesus faz duas afirmações graves sobre isto:

i. “Ainda não considerastes, nem compreendestes?” (Mc 8.17).
ii. “Ao que lhes disse Jesus: Não compreendestes ainda?”(Lc 8.21).

Observaram a ênfase de Jesus?

Ele quer deixar claro que sem memória torna-se difícil compreender quem ele é, o seu poder e sua glória. Os discípulos tinham acabado de ver um grande milagre, mas ainda não compreendiam. Sem memória, não se cria links.

Quando usamos a memória e lembramos dos feitos de Deus, passamos a fazer associações importantes que nos capacitam a compreender.

Um feito do passado, associado a outro, vai dando a segurança e a compreensão de quem é Deus. O Evangelho vai se tornando significativo e claro. Somos capazes de compreender.

Talvez seja esta a razão pela qual as pessoas não experimentam a benção do evangelho. Falta “memoriol”, precisa de remédio para aguçar as lembranças, são pessoas esquecidas e desatentas, e encontrarão, certamente, grande dificuldade em compreender o evangelho.

Jesus afirma que seus discípulos, por não serem capazes de associar, de lembrar, não estavam compreendendo a beleza de tudo o que lhes estava acontecendo.


3. Não usar a memória endurece o coração

O Evangelho de Marcos registra dois incidentes que demonstram isto:

i. Quando os discípulos tiveram que enfrentar a tempestade, eles ficaram aterrados e fragilizados. Jesus sobe no barco, acalma o mar e lhes censura. Marcos diz que o medo deles tinha uma causa direta com a incapacidade de se lembrar da cena anterior. A primeira multiplicação de pães: “porque não haviam compreendido o milagre dos pães, antes o seu coração estava endurecido” (Mc 6.52). O que lhes causou o medo? A falta de memória! as coronárias estavam endurecidas, porque faltou memória. Falta de memória nos torna embrutecidos, ingratos. Afinal, gratidão, é a memória do coração, como afirma um proverbio francês. Moacir Bastos, poeta presbiteriano afirma que “gratidão é o amor contemplando o passado”. Sem memória não há gratidão, e o coração endurece!

ii. Em Mc 8.17-18 Jesus afirma que a dureza do coração dos discípulos os impedia de lidar com fé e vitória nos embates do presente. A falta de lembrança dos feitos de Deus nos torna embrutecidos e ignorantes. Nosso coração torna-se empedernido. A Bíblia afirma nestes dois textos, que o endurecimento do coração tinha relação direta com a memória.


4. Usar a memória nos torna ousados e seguros no presente. Já deu para perceber, até aqui, que memória tem a fé com a fé e com o evangelho. A mensagem de Jesus não é um amontoado de conceitos para serem colocados na prateleira, mas são princípios aplicáveis à vida. Evocar o evangelho e usar a fé é um instrumento poderosíssimo para obter vitória no presente.

Vamos evocar uma história do Antigo Testamento para entender isto.

Quando Davi vai lutar contra Golias, ele estava em grande desvantagem. Golias era muito mais forte, mais treinado, mais aparelhado que ele. Estas coisas estão claras aos olhos de todos. As pessoas tentam desestimular Davi, mas ele está decidido de que esta batalha vai ser ganha. Aparentemente tratava-se apenas de um empavonado adolescente querendo se aparecer diante dos outros homens, para mostrar que ele era macho.

Mas os fundamentos de Davi sao claros: Ele usa suas lembranças e experiências com Deus para obter vitória. Sua fé o torna ousado, e sua fé está se sustentando no caráter cuidadoso de Deus no passado. Sua experiência não ficou perdida no tempo, ele a traz consigo para vencer a dura batalha que tem pela frente.

“Disse mais Davi: O Senhor me livrou das garras do leão e das do urso; ele me livrará das mãos destes filisteus” (1 Sm 17.37). Sua memória da caminhada com Deus é o que o torna seguro no presente. Ele está tao seguro disto que mesmo o claudicante e inseguro Saul, o encoraja a lutar, baseado no fundamento de seus valores e convicções. “Vai-te, o Senhor seja contigo” (1 Sm 17.37). Se Davi fosse derrotado, isto enfraqueceria ainda mais o acuado exército de Israel, seria mais uma derrota. Mas o rei se sente seguro, quando percebe a segurança de Davi.

Assim deve ser a nossa caminhada com Deus.

A vitória do passado deve nos impulsionar a obter novas vitórias no presente. Como ja vimos Deus agindo, e vimos suas miraculosas intervenções, nossa fé se fortalece. Ao evocar tais lembranças, nos tornamos ousados, afinal, “O Senhor me livrou das garras do leão e das do urso; ele me livrará das mãos destes filisteus”. Isto não é novidade para Deus, ele ja agiu antes, não é um fato novo.


Conclusão:

Pense como isto é importante para nossa vida.

Quando eu era apenas uma criança, de sete anos de idade, Deus me curou surpreendendo os médicos e familiares. Se ele fez antes, porque não faria hoje, se isto faz parte dos seus propósitos?

Dois anos atrás, Alice, filha do Douglas e Christiane, morreu afogada numa piscina. Com a graça de Deus, seus pais que não sabem quanto tempo ela ficou afogada, fizeram ressurreição Alice está viva e serelepe no nosso meio. Se Deus fez antes, ele pode fazer hoje, de acordo com seus planos.

Deus certamente já se manifestou na sua história, já lhe deu experiências e vitórias, ja surpreendeu você. Use isto para continuar crendo no presente e obter novas vitórias.

Ou “porventura não vos lembrais?”




sábado, 7 de novembro de 2015

A terapia da Palavra


O Salmo 119 é o maior capítulo da Bíblia, com 176 versículos. Em apenas dois deles não faz menção à palavra de Deus, e em todos os demais coloca a lei de Deus no centro, referindo-se a ela como “mandamento”, “palavra”, ”juízos”, “testemunhos”, “promessas”, “prescrições” e “decretos”.

Um dos elementos presentes no coração do salmista é a alegria e contentamento que ele encontra ao entrar em contato com a Lei de Deus. “Admiráveis são os teus testemunhos” (Sl 119.129); “Eu amo os teus testemunhos ardentemente” (Sl 119,167)”, “Amo a tua lei” (Sl 119.113). Ele se refere maravilhado à Lei de Deus (Sl 119.18) e afirma que nela encontra prazer (Sl 119.24).

Outro aspecto marcante neste capitulo é sua ênfase e oração para que Deus o vivifique.

O termo vivificar, tem na sua raiz, a ideia de vida. Vida é o oposto, não da morte, como afirma Molttmann, mas da apatia. A vida possui sinais característicos, e quando ocorre um acidente, os paramédicos ao socorrer as pessoas, buscam imediatamente os sinais de vida: pulsação, respiração, batimentos cardíacos, e ainda, o brilho nos olhos. Os olhos de uma pessoa morta tornam-se opacos. A ausência de sinais vitais revela que a vida se esvaiu. Não é a morte que emite sinais, é a vida. Sabemos que alguém morreu quando os sinais vitais não mais existem.

Por isto é curioso e interessante a insistência do salmista pedindo a Deus que o vivifique. Esta oração é feita pelo menos 11 vezes (Sl 119.25, 37, 40, 50, 88, 93, 107, 149, 154, 156, 159). Ele anseia por vitalidade, deseja que a vida volte a pulsar. Sente como se estivesse andando, porém sem vida. Já se sentiu assim? Cadáver ambulante? Walking dead? Pois era exatamente este o sentimento do salmista. Por isto clama insistentemente para que Deus o vivifique.

O curioso, porem, é que toda a esperança de sua restauração está relacionada à Palavra de Deus. Ele vê na lei de Deus, o meio de restauração do seu espirito abatido, do seu devorador desânimo e busca as verdades e testemunhos de Deus para encontrar vida.

O salmista ora para que Deus o vivifique. Assim como ele, também precisamos de vida, sonhos, sorrisos, amor, desejo, celebração. Por isto afirma reiteradamente:

...”vivifica-me, segundo os teus juízos”...
...”vivifica-me, segundo a tua bondade”...
...”vivifica-me, segundo a tua promessa”...
...”vivifica-me, segundo a tua palavra”...
...”Os teus preceitos me tem dado vida”

Esta é uma proposta muito interessante. Reencontrar a vida, a alegria e o entusiasmo, na Lei de Deus. Uma proposta pouco considerada.

Opções contemporâneas de terapia

Hoje em dia, quando nos sentimos desnorteados e aflitos, e perdemos a referência da história, quais são as alternativas que mais comumente buscamos?

Uma delas é o entretenimento. Tentamos encher a vida de atividades prazerosas, nos refugiamos nos vídeo games, viagens, diversões, pescarias. Buscamos um shangrilá, uma Disneyworld para reparar o sentimento de vacuidade, nulidade e nonsense que tantas vezes nos consome. Não é isto que as pessoas dizem: “Vai descansar, vai viajar, vai pescar? Não que qualquer destas atividades sejam, em si mesmas, destrutivas ou perniciosas, pelo contrário, são até mesmo interessantes. Mas na maioria das vezes, pessoas fazem viagens cada vez mais exóticas, consomem doses cada vez maiores de adrenalina, que redundam em completo fracasso. Percorrem o mundo para descobrir que ainda continuam vazias e angustiadas.

Outra opção são os remédios largamente encontrados nas prateleiras dos supermercados e farmácias, oferecendo alivio rápido para problemas profundos. Procuramos médicos renomados, alívio psiquiátrico, consumimos doses fenomenais de frontal, Prozac, energéticos, multivitamínicos, Rivrotil (de tarja preta, é o segundo remédio mais consumido no Brasil). Imaginamos que a solução para a ausência de vida, alegria e entusiasmo encontra-se em fórmulas mágicas como sugere o provocante filme “Sem limites”.

Ainda buscamos alternativas e alivio para a vida de alegria e ausência de sinais de vitalidade em psicoterapia ou terapias alternativas. Precisamos e pagamos pessoas que nos entendam, e eventualmente se transformem numa espécie de amuleto (ou muleta). Ou buscamos fórmulas mágicas e místicas para socorro imediato. Pagamos alguém para nos energizar. A onda mais recente é o “coaching”, alguém que nos entenda, traga estabilidade, vitalidade e energia para o nosso interior caótico.

Certamente, nenhuma destas alternativas acima é ruim em si mesma, nem são pecaminosas e inadequadas, pelo contrário, podem trazer cura momentânea e eventualmente transformações efetivas e duradouras, mas o salmista propõe uma alternativa surpreendente.

A terapia da Palavra

O Salmista vê, na Palavra de Deus, o conforto, consolo e a solução para vitalizar sua alma. Por isto esta sempre afirmando: “vivifica-me, segundo... a tua Palavra”.

“A minha alma está apegada ao pó, vivifica-me segundo a tua palavra” (Sl 119.25);
”Desvia os meus olhos, para que não vejam a vaidade, e vivifica-me no teu caminho” (Sl 119.37);
”Eis que tenho suspirado pelos teus preceitos; vivifica-me por tua justiça” (Sl 119.40).
“O que me consola na angustia é isto: que a tua palavra me vivifica” (Sl 119.50);
“Vivifica-me, segundo a tua misericórdia e guardarei os testemunhos oriundos da tua boca” (Sl 119.88);
“Nunca me esquecerei dos teus preceitos, visto que por eles, me tens dado vida” (Sl 119.93)
“Estou aflitíssimo. Vivifica-me Senhor, segundo a tua palavra” (Sl 119.107);
“Vivifica-me, segundo os teus juízos” (Sl 119.140)
“Defende a minha causa e liberta-me; vivifica-me segundo a tua promessa” (Sl 119.154);
“Muitas são as tuas misericórdias, vivifica-me segundos teus juízos” (Sl 119.156).
“Vivifica-me, ó Senhor, segundo a tua bondade” (Sl 119.159)

A característica comum nestes textos é que o autor encontra, na Palavra de Deus, o recurso para restaurar sua capacidade de viver. A Palavra se torna sua fonte terapêutica. Isto tem implicações relevantes e práticas.

Onde buscamos alternativas para o desânimo, frustração, cansaço, desencorajamento, falta de propósito, tristeza de alma que retiram de nós a vitalidade? Sejamos honestos: A palavra de Deus quase nunca tem sido considerada, mesmo para os cristãos, como fonte de vida e alegria.

Talvez seja exatamente isto que precisamos discernir, e certamente muita cura interior aconteceria, se, pelo menos, buscássemos na Palavra de Deus, o antidoto para nossa solidão e caos, através das palavras de esperança e promessas ali contidas.

Por esta razão o salmista ora: “vivifica-me, Senhor”, sempre associando sua restauração ao poder redentor da palavra.

Ele não pede cura por meio das alternativas de entretenimento, poderosos e eficientes remédios da indústria farmacêutica, ou terapias alternativas, mas nas verdades eternas contidas nas Sagradas Escrituras. “Porque a palavra de Deus que é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espirito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração. E não há criatura que não seja manifesta em sua presença, pelo contrário, todas as coisas estão descobertas e patentes aos olhos daquele a quem temos de prestar contas” (Hb 4.12,13).

Certa vez, tive oportunidade de ouvir uma palestra do Dr Carlos Bosma, missionário holandês que se radicou no Brasil, trabalhando em Santa Catarina. Grande biblista e Dr. em Antigo Testamento e hebraico, posteriormente tornou-se professor no Calvin Theological Seminary em Michigan. Sua palestra foi sobre o livro dos Salmos.

Depois de discorrer profundamente sobre este livro poético, ele contou que seu pai sofreu severas perseguições e opressão na época do nazismo, por defender os judeus. Sua dor e silêncio eram brutais, e viveu assim por alguns anos. Durante este período de dor, ele abria quieta e silenciosamente o livro de Salmos e ficava horas lendo e meditando. O livro de Salmos possui 64 cânticos de lamento. Muita dor, questionamento e desabafo surgem nestes salmos, quando os escritores discorrem sobre suas dores, perplexidades e questões teológicas. O Dr. Bosma concluiu este testemunho, visivelmente emocionado, dizendo que o livro de Salmos havia libertado o seu pai, da dor e tristeza que o consumia.

Por isso, quando enfrentar momentos de angústia e tédio, busque o alívio primeiramente na Palavra de Deus, pois ela sempre será uma inesgotável fonte de sabedoria, graça e vida:

“Nunca me esquecerei dos teus preceitos, 
visto que por eles me tens dado vida”