segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Gn 26.12-25 Tirando entulhos da alma





Introdução:

O homem de Deus tem a lente de sua vida voltada para duas direções: A primeira, para a Eternidade, para o Sagrado, para a relação sua com Deus, determinante, em última instância, de todas as demais; A segunda, voltada para a melhoria social, tem a ver com o mandato cultura, o mesmo que foi dado a Adão ainda no Éden quando Deus lhe colocou no jardim para cuidar e guardar. Tem a ver com o bem comum. Com a humanidade em si. A teologia cristã afeta de forma direta a forma como interpretamos e agimos no mundo que nos rodeia.
Isaque era um homem assim, com os dois focos claramente presentes em sua vida. Era alguém de oração e profunda vida com Deus. Em Gn 25.21-26 lemos que sua esposa tinha um grave problema que afetava toda a estrutura familiar, e Isaque orou por 20 anos para que Deus concedesse à sua esposa, o privilégio e a benção de ser mãe. “O Senhor lhe ouviu as orações, e Rebeca, sua mulher, concebeu” (Gn 25.21). Aqui em Gn 26.12-25, o vemos empenhado num bem comum e coletivo, que abençoaria todas as pessoas de seu tempo e futuras gerações. Percebendo que água era um bem valioso, ele decidiu e se empenhou em cavar poços e desentulhar aqueles que, por razões destrutivas e competidoras (se você acha o mercado de hoje competitivo, veja quão voraz foi a atitude destes homens nos dias de Isaque), resolviam jogar lixo impedindo que a água, um bem comum e humanitário, pudesse jorrar.
Este texto é uma boa metáfora da vida: Vemos aqui poços sendo abertos e poços sendo entulhados. O texto nos fala que Isaque abria os poços e os filisteus vinham para entulhá-los.

Algumas questões surgem em nossa mente:

Primeiro, Por que entulhavam os poços? O texto diz claramente: Por causa da inveja, ao ver a prosperidade e o sucesso de Isaque. Inveja era a causa: Ninguém lucrava com aquela situação. Este é o poder destrutivo da inveja, que leva o homem a lutar contra uma causa benéfica, apenas para predudicar outros. Normalmente inveja tem um pano de fundo na raiva, na ira e no ódio.
Em 1999, acompanhei o caso de um colega de ministério em Boston, de uma outra denominação, que teve que sair da igreja por causa de desentendimentos internos. Enquanto um grupo o apoiava, outro exigia sua renúncia imediata. Então, uma ou um grupo anônima, começou a espalhar panfletos na cidade contra ele: gastaram dinheiro, imprimiram panfletos e os publicavam nas lojas brasileiras, nos para brisas dos carros, entregavam no meio de aglomerações publicas. Elaborar tal campanha difamatória, certamente dava trabalho, custava dinheiro, e prejudicava o evangelho, mas sem considerar as conseqüências disto para a família do pastor, aquelas pessoas iam semeando a discórdia e a maldade, trazendo dores e sofrimentos a muitos. A não ser o diabo, ninguém ganhava com aquelas atitudes.
Na vida vamos encontrar muitas pessoas com prazer em entulhar poços. Gente assim infringe muito sofrimento aos outros, destroem reputações, trazendo eventualmente danos para sempre, como depressão, angústia, tristeza. Existe uma sugestiva lenda grega que fala disto: Certa pessoa tem o seu olho furado por outra e pede para Zeus fazer a reparação. Zeus então lhe diz que havia duas opções: A primeira era curar  seus olhos e dar o assunto por encerrado; a segunda, aplicar a lei do Talião, furando um dos olhos da pessoa que havia causado o dano. Diante das opções, ela decidiu pela segunda, alegando que queria que ele soubesse quão dolorida era sua experiência.  

Segunda, o que fazer quando entulhar seu poço?
Isaque toma algumas decisões extremamente curiosas diante daquelas atitudes mesquinhas:

  1. Ele se afastou daquelas pessoas que agiam desta forma - O texto diz: “Isaque saiu dali” (Gn 26.17). Ele decidiu mudar de ambiente, arejar a mente, conhecer gente nova. Existe muito lugar bom para se viver e muito ambiente arejado onde podemos estar.  Uma das motivações de meu pai ao se mudar de sua cidade natal no interior de Minas foi esta: “Quero que meus filhos cresçam num lugar onde a violência e a mesquinharia não seja tão visível”.
Esta é uma nobre atitude. Afastar-se, descobrir as novas oportunidades que a vida oferece. Mudanças nem sempre são fáceis, e exigem certa coragem, mas é melhor que ficarmos retroalimentando a miséria de pessoas invejosas. Isaque tinha boas razões econômicas e pessoais para não sair de onde estava. Seu negócio prosperava, estava ambientado à região, sua família ia bem, tinha poços para seus gados, mas ele sabiamente percebeu que não dava para continuar mais por ali.

  1. Ele desentulhava os poços entupidos. Não os deixava cheios de lixo. “Isaque tornou a abrir os poços” (Gn 26.18).  Poços entulhados não favorecem ninguém. Não podemos simplesmente mudar de ambiente mas deixar o coração entulhado. Nem podemos ficar no lugar, sem água, sem vida, vivendo de forma árida e estéril.
Quando pastoreei igrejas nos Estados Unidos, percebi que muitas pessoas mudavam para aquele país por causa de crises pessoais e familiares, mas ao chegarem ali, mesmo estando num ambiente diferente, não conseguiam desentulhar-se do lixo que havia dentro de suas almas. Estes lixos impedem que nascentes e águas cristalinas fluam dentro de nossa existência.
Ausência de perdão é uma destes lixos que mais roubam de nós a alegria interior. Da mesma forma ressentimentos, ira não tratada, vitimismo. O texto diz “Isaque tornou a abrir os poços” (Gn 26.18). A idéia é que Isaque, mesmo diante de tantas atitudes pobres, continuou fazendo o que era certo fazer. Ouvir certa vez um ditado atribuído a Elie Wiesel, que foi prisioneiro judeu nos campos de concentração nazistas. Ele disse que a gente não pode impedir que as pessoas nos façam o mal, mas podemos decidir o que faremos com o mal que nos fazem.

  1. Isaque não apenas desentulhava, mas abria novos poços – “Cavaram os servos de Isaque no vale e acharam um poço de água nascente” (Gn 26.19). Abrir poço naquele ambiente era uma aventura difícil: Eles não tinham instrumentos científicos, tudo era feito com base nas probabilidades e experiência dos antepassados, mas ainda assim Isaque encoraja seus servos a esta tarefa gigantesca.
A verdade é que muitas oportunidades na vida são repletas de riscos. Isaque abriu novos poços porque sabia que coisas boas podiam surgir quando há trabalho e perseverança. O texto diz que não apenas desentulharam, mas descobriram águas que eram verdadeiras fontes.

  1. Isaque nunca desistia de abrir poços, mesmo quando os filisteus lhe tomavam aqueles que ele abrira - (Gn 26.20,21) Quando somos colocados diante de pessoas que vivem do nosso trabalho, ou usufruem de nossas idéias e criatividade, temos a tendência de nos sentirmos injustiçados, defensivos e eventualmente recuarmos. A verdade, porém, é que quem é competente, cedo ou tarde vê sua eficiência sendo reconhecida.

Na vida só existem duas qualidades de pessoas:
i.      As que vivem entulhando e roubando os poços dos outros - Os filisteus faziam parte do primeiro grupo (Gn 26.18).  Entulhar significa: “Não vou deixar a água sair”. Pessoas assim condenam-se a si mesmas e a outros a uma vida de esterilidade e secura. Os filisteus gostavam de entulhar. Como a vida é repleta de pessoas que com palavras, gestos e atitudes, represam toda água e vida que brotava do outro. Elas não apenas são incapazes de gerar vida, mas vivem tentando levar outros à inutilidade. Gente com síndrome dos filisteus, possuem vocação para retirar do outro a sua beleza, espontaneidade e vida.

ii.     Aqueles que vivem desentulhando e descobrindo novos poços. Isaque faz parte deste grupo que abre poços. O seu papel era fazer surgir água, mesmo que estas águas acabassem não sendo dele. São pessoas que com palavras, gestos e atitudes, tem a capacidade de arrancar água do outro, ainda que o outro pareça uma terra seca.

Abra mais poços, porque água é boa para todos! Que diferença da inveja! Em Gn 26.25, depois de ter achado um poço em que não encontrou contendas, Isaque pode, afinal viver em paz e diante dos resultados positivos, resolveu abrir ainda mais dois poços (Gn 26.25,32)

  1. Isaque fazia o bem, por saber que quem tem atitude pacífica, será reconhecido no futuro – É muito interessante a narrativa que lemos a partir do vs 26.
“Por aquele tempo, veio a ele Abimeleque, de Gerar, com Auzate, seu conselheiro pessoal, e Ficol, o comandante dos seus exércitos. Isaque lhes perguntou: "Por que me vieram ver, uma vez que foram hostis e me mandaram embora?" Eles responderam: "Vimos claramente que o Senhor está contigo; por isso dissemos: Façamos um juramento entre nós. Queremos firmar um acordo contigo: Tu não nos farás mal, assim como nada te fizemos, mas sempre te tratamos bem e te despedimos em paz. Agora sabemos que o SENHOR te tem abençoado. Então Isaque ofereceu-lhes um banquete, e eles comeram e beberam. Na manhã seguinte os dois fizeram juramento. Depois Isaque os despediu e partiram em paz” (Gn 26.26-31).

Depois de todas querelas e confusões que fizeram, Abimeleque, resolve ir a Isaque para fazer pacto com ele. Por que ? Porque percebeu que Deus estava com Isaque, e resolveu ter paz com ele. Isaque ainda diz: “Depois de tudo que fizeram…” Com atitude pacífica no coração resolve fazer pactos e dar festa. Faz um banquete na presença dos seus adversários. Já leram alguma coisa sobre isto na Bíblia?

  1. Isaque teve todas estas atitudes por causa do seu temor a Deus – O temor do Senhor o capacita a entender que existe um Deus que julga por ele, que defende a sua causa. Quem teme a Deus o considera realmente em seus atos. Você é uma pessoa temente a Deus?
Este temor de Deus é percebido de forma clara no coração de seu filho Jacó. Anos depois, sentindo-se também injustiçado, ele cita que seu pai se orientava pelo temor a Deus: “Se o Deus de meu pai, o Deus de Abraão, o Temor de Isaque, não estivesse comigo, certamente você me despediria de mãos vazias. Mas Deus viu o meu sofrimento e o trabalho das minhas mãos e, na noite passada, ele manifestou a sua decisão" (Gn 31.42).
Apesar de Jacó ter sido frágil de caráter, ele sabia que Deus julgava atitudes, e quando se vê oprimido por seu sogro, Labao, é exatamente esta compreensão que o faz ficar firme: “Se não fora o deus de meu Pai, o Temor de Isaque”. Isaque sabia que suas ações deveriam ser motivadas pelo temor a Deus, e seu filho, Jacó, anos depois, age também de forma conciliadora por saber que Deus era o seu juiz.

Conclusão:

ó     Você tem sido “facilitador”, um pacificador?
ó     Quais os obstáculos que você enfrenta quando é desafiado a ser um agente de cura para os outros?
ó     Você tem considerado no poder do sangue de Cristo para sua vida. Como ele pode nos libertar das amarras do pensamento, da culpa, da condenação e nos traz para um lugar de vitória e redenção?

ó     Quais entulhos você tem tido na alma? O que você tem colocado no seu coração? Seu coração está entulhado ou limpo? 

domingo, 3 de novembro de 2013

Ap 14 Cenas do céu






Introdução:

Mais uma vez a cena se dá no céu…João tem uma visão do Cordeiro em pé. (14.1) e 144 mil estão presentes com ele. Saímos agora do exame das forças políticas e religiosas/filosóficas representados pelas duas bestas do cap. 13, e temos novamente uma visão da glória celestial. A figura se move novamente, saindo do campo da ação do diabo, para os céus. O cenário agora já não é da descrição da besta, mas da presença gloriosa dos remidos diante de Deus. João vê cenas do monte Sião. Na última descrição que tivemos do Cordeiro, ele nos foi mostrado diante do trono, no céu (7.9). Devemos entender o Monte Sião simbolicamente, como lugar de vitória. O Sl. 2 promete que o ungido de Deus será colocado “no meu monte Sião”. (Sl 2.). Sião é frequentemente referido como o lugar da vitória escatológica. A Sião antiga  é definida no AT como sede do governo de Deus e centro de sua vitória final. “E acontecerá que todo o que invocar o nome do Senhor será salvo; porque no Monte Sião e em Jerusalém estarão os que forem salvos”. (Joel 2.32) No Novo Testamento Sião se torna a “cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial” (Hb.12.22).
Os 144 mil são o mesmo grupo que foi selado em 7.9-17. Representam a totalidade dos remidos. Alguns comentaristas crêem que se trata de um grupo especial de crentes – mártires ou celibatários.
Por isto, este capítulo nos fala do céu. João mais uma vez se depara com a descrição dos acontecimentos celestiais.
Normalmente não falamos do céu. Os pregadores antigos, contudo, davam muita ênfase às coisas celestiais. Grandes poetas e hinólogos descreveram as beatitudes celestiais, com muita poesia e paixão. Gosto muito de ouvir velhos hinos que nos falam dos céus, normalmente eles me emocionam muito. Hinos como:

Da linda pátria estou, mui longe…”

Eu venho encontrar-me a fonte, da Jerusalém do céu”.

“Oh, pensai neste lar lá do céu…”

Por que não temos falado dos céus?
Existe uma resposta clássica para isto: Conta-se que quando Dante Alighieri estava escrevendo A divina Comédia, ele foi indagado porque falava tanto do inferno e tão pouco do céu, e ele teria respondido: “Porque existem abundantes referências sobre o inferno na terra, mas muito pouco referêncai sobre o céu”.

As imagens de João sobre o céu são reveladoras. Vejamos o que João avista lá:

1.      O céu é lugar onde a autoridade do Cordeiro é absoluta e inquestionável -  14.1 João vê o Cordeiro de Deus em pé.  Esta é uma postura de autoridade. Estevão, o primeiro mártir do cristianismo, vê na hora de sua morte “A glória de Deus e Jesus, que estava à sua direita”.  (At 7.56) Para Estevão esta é uma visão de consolo, mas também é uma visão de autoridade. Para João esta visão reafirma o lugar de Jesus no céu, reafirma sua majestade.

2.      Céu é o ponto de encontro dos remidos de Deus -  14.1  Os remidos possuem algumas marcas:

2.1.Marca do Cordeiro escrito na testa  – 14.1 Se é correto pensar que a marca da besta é uma forma filosófica na mente, é bom lembrar que aqui existe a marca do Cordeiro. Ap 7.3 fala que os servos de Deus seriam selados na fronte. Existe uma marca na mente dos remidos do Senhor. Um selo, e este selo é o sangue do Cordeiro;

2.2.Marca de santidade -   O povo de Deus é aqui descrito como um povo purificado pelo sangue do Cordeiro. Pecadores redimidos, gente que aprendeu a cantar um cântico que ninguém mais pode cantar. Seria uma referência a uma harmonia complicada? A um texto complexo?  Provavelmente isto se refere ao fato de que o povo redimido por Deus, que conheceu a maravilhosa graça de Jesus é capaz de celebrar de uma forma que ninguém mais sabe e outros não são capazes de fazê-lo.

3.      João ouve muito louvor nos céus – O Livro de Apocalipse é essencialmente um livro de adoração e louvor. Os céus se enchem dos louvores dos anciãos, e aqui vemos os 144 mil louvando a Deus, com som poderoso, como o “muitas águas” Eu não sei quantos aqui já tiveram o privilégio de visitar Foz do Iguaçu ou Niagara Falls, mas o som daquelas águas é algo estrondoso. Ou parar, em silêncio diante do poder das ondas do mar. Ainda hoje o mirante do Leblon no Rio de Janeiro, é um dos meus locais prediletos. Quando pastoreava a Igreja da Gávea, no Rio, gostava de ver as ondas violentas e agitadas do mar a demonstrar sua fúria, demonostrando sua fúria num balé agitado. Ver a ressaca do mar daquele lugar é um cena inesquecível. Nada parece ser mais poderoso que as ondas do mar chocando-se com as rochas. É isto que João vê, um louvor que enche tudo, como so som de muitas águas. Cântico em grande sonido e com grande celebração, grande voz
.
Como temos afirmado, Apocalipse é um livro essencialmene de louvor. Ele é cheio de adoração e celebração da majestade do Senhor e de seus maravilhosos feitos, especialmente sua redenção realizada na cruz. Ellul afirma que “as cinco seções do Apocalipse são enquadradas e especificadas por passagens que podem ser qualificadas de litúrgicas, onde vemos um certo cerimonial de adoração a Deus e em que nos são transmitidos cantos de glória ou orações”. [1]

4.      O céu é lugar que atesta a validade do Evangelho -  (v. 6,7)  O Evangelho é aqui confirmado pela visão dos anjos pregando o Evangelho. O anjo voava no céu e tinha uma mensagem para aqueles que se assentam sobre a terra. Este anjo não fala a crentes, mas a incrédulos. Sua mensagem é a do Evangelho eterno.
A pregação do Evangelho, feita pelo anjo, confirma a grande necessidade de atentarmos para a obra de Jesus na cruz e como esta mensagem que pregamos é a mesma mensagem que se encontra de posse dos seres angelicais pois encontra-se nos céus. A pregação do evangelho é aqui ratificada pelo ministério dos anjos. Sabemos que a pregação do Evangelho não é tarefa para anjos e poderes espirituais, mas é responsabilidade do povo de Deus. Deus não tem uma segunda estratégia e nem possui outro plano para tornar conhecido sua mensagem. Jesus nos deu a ordem, a nós humanos, à sua igreja, de irmos e pregarmos as Boas Novas do Evangelho a todos os povos. A pregação do anjo aqui é algo inusitado, é um evento especial, que pode trazer dois sentidos:

4.1.O anúncio dos anjos apenas ratifica o Evangelho – Os anjos anunciam o Evangelho, porque esta mensagem vem de Deus, não é uma invenção humana. É obra de Deus.

4.2. Joachim Jeremias, conhecido teólogo, acredita que isto seja referência a uma mensagem especial que resultará em um grande movimento de salvação entre os gentios.[2]

5.      O céu é o lugar donde procede o juízo de Deus sobre as nações – 14.8-12  Esta é a voz do segundo e do terceiro anjo. Duas palavras são usadas para descrever o julgamento de Deus: cólera (thumos) e ira (orge). Orge é um tipo de ira que parte de uma disposição já tomada, enquanto thumos é uma ira mais passional. Normalmente a ira divina é descrita como orge. A ira de Deus não é uma emoção humana, antes uma reação da sua santidade ao pecado e rebelião humana. O Livro de Apocalipse revela mais que qualquer outro o tema da ira divina. (14.8, 10, 19; 15.1, 19; 19.5) A ira divina é a forma que Deus usa para estabelecer sua justiça. A ausência da ira e do juízo daria a impressão de que este universo não tem força moral. “A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detém a verdade pela injustiça”. (Rm 1.18)  Qualquer mensagem do Evangelho sem anúncio do julgamento é uma mensagem parcial e adulterada. Ao contrário do que possamos pensar, o julgamento da terra e dos ímpios procede do trono de Deus, é dali que fluem as decisões sobre o destino do universo e é ali que se estabelece a justiça final de Deus contra os adoradores da imagem da besta. Na presença do Cordeiro beberão o cálice da ira do Senhor e serão atormentados na presença do Cordeiro.

A quem está reservado a ira de Deus?

Se o julgamento vem, e a Bíblia afirma que ele inexoravelmente virá, a Bíblia também nos relata quem estará sujeita à sua averiguação, quem sofrerá as sanções de tal juízo. O julgamento é indiscriminado, todos nós teremos que comparecer diante do tribunal de Deus para sermos julgados. Mas a condenação é discriminada, isto é, não virá a todos, pois nem todos estão sujeitos às penalidades do julgamento. Paulo afirma: “Agora pois, nenhuma condenação há para os que estão em  Cristo Jesus”. (Rm 8.1) Mas também afirma que a “Ira de Deus se revela dos céus, contra toda impiedade e perversão daqueles que detém a verdade pela injustiça”. Rm 1.18
O Julgamento é o fim da história, da inserção de tempo na eternidade, da destruição da morte para que haja vida. Momento da verdade desmascarar a mentira, e o engano dar lugar ao que é verdadeiro. Juízo é tempo de dor, mas juízo também é tempo de cura, porque é tempo de Deus.
Dois grupos são relatados aqui neste texto:

i.                                             A grande Babilônia“Caiu a grande Babilônia”. 14.8  Babilani é uma palavra antiga que significa “A porta dos deuses”. Revela de forma figurativa o lugar onde os deuses que não o são, assumem aparência de que são. Lugar onde outros deuses fictícios assumem a preponderância e exigem adoração.
Babilônia era o grande inimigo de Israel no VT e aqui representa a capital da civilização apóstata dos últimos dias, símbolo da sociedade humana organizada, política, econômica e religiosamente em oposição e desafio a Deus. Babilônia foi personificada por Roma nos tempos apostólicos. (I Pe 5.:13) A Bíblia é enfática ao afirmar o julgamento de Deus sobre as nações, desde o VT a Bíblia profetiza o juízo da nações no VT e no NT. O livro de Apocalipse traz os ecos dos antigos profetas. “Babilônia caiu, e as imagens de seus deuses foram atiradas ao chão” Iis. (21.9) Babilônia foi subitamente derribada e destruída” Jr 51.8  Para os cristãos Roma era o equivalente da luxúria e lasciva da antiga Babilônia. Babilônia, símbolo da sedutora e corruptora força que tinha conduzido as nações a uma insana imoralidade estava agora sendo julgada.
Babilônia é também o lugar onde a diversão é usada para distrair e afastar-nos da adoração ao verdadeiro Deus. É o lugar do cativeiro histórico de Israel, o povo de Deus. Lugar que rouba a dignidade do povo de Deus, perverte o direito dos fracos e oprimidos. Lugar caracterizado pelo poder político, atividade comercial, mundo das artes, da literatura. Lugar onde se concentram os filósofos, a cultura e a civilização, enfim, toda atividade humana. Mas também é lugar onde se concentram as forças do mal, do orgulho, da vaidade, da glória humana. A cidade é na Bíblia o lugar de oposição a Deus, mas também é o objeto do amor de Deus.
A cidade será julgada, a glória humana desfeita, os poderes políticos serão destruídos…Chegou o tempo do julgamento. Hora do acerto de contas!

ii.                                           Aos que se curvam diante da besta e da sua imagem – (14.10)  Quem se identifica com este sistema oposto a Deus. O texto lido nos afirma que a ira de Deus é sem mistura, forte, será ministrado sem atenuantes, sem misericórdia. (14.9) Outra descrição nos mostra que o tormento será executado com fogo e enxofre. (Ambos símbolos perenes da dor e sofrimento). O texto ainda revela, de forma estranha que o julgamento será ministrado diante dos anjos e na presença do Cordeiro. A ira é um atributo de Deus e será ministrado na presença do Cordeiro. Esta imagem é agressiva à nossa concepção de um Deus amoroso. Imaginar Deus acompanhado de perto o julgamento é algo incomum. No entanto, a literatura apocalíptica judaica, composta muitas vezes de textos não canônicos, descreve esta idéia.
No livro apócrifo de Enoque existe a mesma afirmação de que os maus serão castigados na presença dos santos (48.9). Beckwith[3] sugere que o maior sofrimento dos ímpios seria estar na presença do Cordeiro triunfante e vitorioso, tendo que reconhecer a majestade daquele que sempre se recusaram a seguir. O grande tormento descrito no vs. 10, que acontecerá na presença do Cordeiro é uma referência ao fato de que eternamente se lembrarão das oportunidades de entregarem suas vidas de forma incondicional a Jesus, mas encontraram muitas desculpas e adiaram indefinidamente tal encontro. O grande tormento será o fato de estarem diante do Filho de Deus, e saberem que não vão poder compartilhar de sua doce eterna comunhão, porque o inferno lhes foi uma opção deliberada, posto que rejeitaram reiteradas vezes a oferta de amor e da graça de Deus para suas vidas.
O fato é que o tempo da ceifa chegou: “Toma a tua foice e ceifa, pois chegou a hora de ceifar, visto que a seara da terra já amadureceu”. Ap 14.15

O Julgamento é apresentado aqui com duas metáforas:

  1. Metáfora da colheita – (14.14-16) Tanto o VT quanto os escritores neo-testamentários empregam esta figura. (Joel 3.14; Mc 4.29)  O tempo da colheita é chegado! Jesus também usa esta figura de linguagem. (Mt 13.24-30; 37-43)  Época de separar joio do trigo, restolho daquilo que é aproveitável. A colheita revela o joio, porque os frutos não chegaram apesar da semelhança externa. A colheita torna evidente a diferença entre a palha e o grão, mostra os solos úteis e os solos pedregosos, mostra se a semente conseguiu superar os espinhos ou se se secou no meio deles. Colheita é tempo de juízo…Colheita é tempo de saber o que se pode aproveitar e o que precisa ser jogado no fogo, se o que temos são grãos maduros, ou apenas palha seca, pronta para ser queimada e jogada fora…

  1. Metáfora do lagar – (14.17-20) Onde as uvas eram espremidas após a colheita para a produção do suco e do vinho. (Lm 1.15; Is 63.3) As uvas eram esmagadas com os pés e o suco era recolhido num recipiente e levado para a fase da fermentação e então transformados em vinho. Naquele lagar será esmagada a soberba, todo orgulho e prepotência humana e dos poderes políticos. Aquele será o lagar onde a auto-suficiência e a glória humana serão destruídos e toda altivez será desmascarada. Este lagar é o lugar onde cessam as tentativas da auto-confiança e é revelado o perigo da indiferença a Deus e aos seus valores.
O último versículo deste capítulo descreve que o sangue do lagar correu numa extensão de “1260 estádios”. (14.20). Que significa isto? Ladd afirma que 1260 estádios é o comprimento da Palestina, de Norte a Sul, cerca de 300 Km e que o sangue inundaria a terra de Israel até uma altura de 1 ½ m, sendo a figura de um julgamento radical, que destruiria qualquer vestígio de maldade e hostilidade contra o reinado de Deus.[4]
6.   Por último, o céu é lugar de bem aventurança para os fiéis – 14.13  Logo após as terríveis profecias falando do julgamento das nações e dos ímpios, existe uma promessa graciosa para o seu povo. Promessa de esperança e conforto. Para pessoas que passam por grande perseguição e grande tribulação e angústia, esta mensagem é de profundo consolo.
Existe uma história clássica de martírio na Igreja Evangélica da Coréia. Uma família foi condenada à morte, por ser cristã. Como martírio, resolveram sepultar os pais com os filhos, enterrando-os vivos. Na hora do martírio, o filho insistia com a mãe para que negassem a Jesus e não fôssem executados. A mãe, consolando seu filho disse: “Não se preocupe filho, dentro de alguns minutos estaremos ceando com Jesus, nos céus”.
Este texto fala da morte de uma forma extremamente diferente de tudo o que lemos na literatura, nos cinemas e na nossa experiência humana. Para nós, morrer é uma experiência dramática, sofrimento indescritível. Na Bíblia, morte de pessoas é uma experiência de encontro com Deus. “Preciosa é, aos olhos do Senhor, a morte de seus santos”. (Sl. 116:15)  Neste texto lido vemos a expressão: “Bem aventurados os mortos, que desde agora, morrem no Senhor”.  O Problema não é morrer, mas morrer no Senhor. Morrer no Senhor é descansar das nossa fadigas e entrar no gozo celestial. Paulo afirma,  “Morrer e estar com Cristo é incomparavelmente melhor”. (Fp 1.23)

Conclusão

Boff afirma: “Quando o mundo tiver atingido sua meta, quando a história tiver passado, e o ponto alfa coincidir com o ponto ômega, então dar-se-á a grande revelação do desígnio de Deus e de toda a criação. Agora se faz ouvir o verdadeiro juízo de Deus, isto é: Deus fará compreender o seu pensamento (juízo) sobre todo o decurso da criação. É o momento culminante. É hora da verdade. O que estava latente se torna patente. O que era abscôndito, fica revelado”. [5]
Então diante de Deus estarão todas as nações. Tudo estará aberto, como um livro onde tudo pode ser lido: Os pensamentos mais ocultos, as omissões mais inconscientes, as motivações mais sutis. Cada palavra, gesto e ato serão descortinados diante dos olhos daquele que a tudo vê em todas as coisas. As intenções do coração serão percebidos, o oculto revelado, tudo aparecerá no seu sentido mais profundo. Hora da verdade, de acerto de contas, da separação das ovelhas dos cabritos, do joio e trigo, dos bons e maus. Todos hão de ver, todo o seu poder. Deus fará compreender  que a história tem sentido e que caminha na direção de um encontro com o seu criador e autor. “Agora, no juízo universal, se dá a manifestação universal daquilo que ocorreu no juízo particular…a revelação cabal do juízo universal de Deus…É o dia do Senhor! Então tudo fica claro. Deus deixa sua latência bilenar e des-vela seu desígnio. Então a luz divina ilumina todas as obscuridades e decifra todos os enigmas…então a anti-fonia é integrada na sin-fonia para compor o hino da glória de Deus…Isso nos bastará, porque teremos lido o pensamento e ouvido o juízo de Deus sobre toda coisa. Amém!’ [6]



[1]   Ellul, Jacques – 1980, pg. 262
[2]   Jeremias, Joachim – Jesus, Promisse to the nations -  Londres, CSM, 1958, pg. 22
[3]   Beckwith, I. T – The Apocalipse of John – Grand Rapids, Baker House, 1967, pg. 659
[4]   Ladd, George – 1980, pg. 150
[5]   Boff, Leonardo – Vida para além da morte – Petrópolis, Vozes, 1980, pg. 132
[6]   Idem, op. Cit. Pg. 134, 136

Gn 25.19-34 O fascínio do caminho mais curto


Introdução


A Bíblia é paradigmática, mesmo quando os personagens não são “heróicos”. Neste caso, aprendemos por contraste. Por exemplo, Jonas é um modelo de profeta e pregador às avessas. Na verdade ele representa toda a nação judaica que se recusa a ser missionária e insiste na desobediência. O mesmo se dá com Esaú. Através da sua vida aprendemos como não devemos ser. Pela sua vida vemos como o homem, mesmo criado num ambiente onde as promessas de Deus estão presentes, pode perder completamente seus valores e viver uma vida contrária ao propósito de Deus.
“Tudo que na Bíblia outrora foi escrito serve para nos ensinar”. A Bíblia é como espelho. Nela vemos nossa face, quem eu sou e não deveria ser. Ela denuncia e confronta meu pecado, e mostra o caminho por onde transita a graça e a benção de Deus.
O que vemos em Esaú é profundamente pós-moderno. Aliás, como os pecados costumam ser “pós-modernos...” Chego à conclusão de que o problema não é de geração, mas da natureza humana.

Narração:

Esaú é uma personalidade conturbada: profano, irreverente, inconseqüente, leviano, impuro, birrento, contudo, a sua pior atitude tem a ver com uma decisão que vai marcar o resto de sua vida, e queremos considerá-la hoje porque ela está fundamentada em dois fatos que marcam o caráter de Esaú e se constituem grande tentação para nós nos tempos modernos.

1. A tentação do imediato: Ter satisfação imediata dos desejos

Esaú está com fome, possui necessidades não satisfeitas, tem necessidades físicas. Jacó está com o prato pronto, um cozinhado de lentilha. Isto é sopa no mel. Jacó consegue fazê-lo jurar: Uma decisão que vai durar a vida inteira e Esaú, levianamente, não titubeia, esquece-se que opções erradas trazem implicações para toda vida.
Somos uma geração ansiosa por resultados imediatos. No ápice da geração “fast-food”, geração micro-wave. Não sabe esperar e nem tem paciência com processos. Quando desafiado a situações perniciosas encontra enorme dificuldade para resistir, porque foi ensinada a atender os desejos imediatos.
Somos a geração dos desejos imediatos, até nas igrejas se vê a pressa: Queremos a benção sem pagar o preço. Vive-se a atração irresistível em busca de homens e mulheres ungidos, que possam de uma forma imediata resolver problemas que foram construídos ao longo dos anos de resistência e rebeldia, querendo unção por osmose sem passar pela cruz. Considere as lutas de pessoas realmente santas: Horas de devoção, clamor, jejuns, noites passadas em claro em busca de graça, verdadeiras batalhas de intercessão. Somos uma geração de pessoas buscando experiências novas e imediatas: Reuniões e pregadores que prometem alívio imediato, respostas pré-preparadas e pré-fabricadas exercem enorme fascínio sobre nossas vidas. Muitos participam destas reuniões, “caem no espírito” e acham que agora estão ungidas, voltam para casa descobrindo que as coisas não são fáceis e as lutas continuam. Unção tem a ver com tempo para o Senhor, busca secreta de Deus, experiência do privado com o Pai.
Satanás sempre usou a estratégia do imediatismo e da satisfação imediata dos desejos. Ele usa conosco a mesma abordagem que usou com Jesus: “Se tem fome, coma! Manda que estas pedras se transformem em pães, absolutize seus desejos!
Foi exatamente nesta armadilha que caiu Esaú. Ele tem fome. Eu quero comer, e agora! Se ele fosse em direção à tenda de sua mãe, encontraria comida, mas não é esta a sua atitude. Ele diz: “Eu quero, e quero agora…” Pouco me importa o depois. É inconseqüente e leviano. “Tô com fome, me dá!”. Faz compromissos com implicações eternas, e votos espirituais são sacrificados pelos simples desejo de satisfação imediata.
Na Palavra de Deus encontramos homens com atitudes inteiramente diferentes:
José é enviado para o Egito numa condição sub-humana, e ali experimenta as agruras da escravidão, sem nome, direitos, família e identidade. Nesta situação de carência e agrura, a mulher de seu patrão se engraça com ele. Aparentemente esta poderia ser uma saída fácil da sua condição de penúria, mas José não se encanta com as fáceis propostas do diabo. Imigrante, não falava bem a língua daquele povo, encontra uma mulher rica que lhe podia dar muita comodidade. Aceitar a oferta era uma questão de opção. Negar princípios sociais, Ignorar Deus, desprezar valores, afinal, poderia pensar, que Deus é esse que me deixa passar pelas experiências dos últimos tempos, a ponto de ser vendido como escravo pelos próprios irmãos?…
Encontramos exemplo positivo também na vida de Davi com Saul. Ele era um rei paranóico e doente, que vivia atormentado por sentimentos persecutórios e por opressão maligna, obcecado pela idéia de que Davi era contra ele. Por duas vezes Davi teve oportunidades de tirar a vida de seu perseguidor: Em En-Gedi e Haquilá.  No entanto, apesar das provocantes tentações do diabo, resolve esperar os processos de Deus, não tem desejos de atropelar as oportunidades tomando atalhos que contrariavam sua consciência cristã. Aguardou a hora, sabia que era melhor ser justo, correr riscos com Deus que pegar atalhos.
Saul, por sua vez, assume atitudes completamente opostas, e justifica seu fracasso dizendo que fora "forçado pelas circunstâncias" (1 Sm 13.12). Por causa de sua atitude imediatista, pela pressão do urgente, perdeu o seu trono para sempre e se afasta de Deus.
No caso de Esaú, o prato de Jacó devia ser cheiroso, atraente, ter forma bonita. Ou quem sabe não tinha nada disto, já que para quem tem fome, qualquer prato de comida é saboroso. Existe até uma interessante ilustração que fala de um príncipe que foi perseguido com seu pai durante um golpe de Estado, e se refugia na cabana de um camponês, num lugar deserto e a única coisa que o camponês podia oferecer-lhes era uma omelete. E o príncipe afirmou que aquela fora a mais saborosa comida de sua vida. Anos depois, com as coisas normalizadas no palácio, torna-se o rei e sente saudade daquela omelete. Pede ao cozinheiro que lhe prepare algo tão saboroso quanto aquela comida. E o cozinheiro sabiamente respondeu: “É impossível preparar uma comida assim tão boa, porque não tenho alguns ingredientes que só aqueles momentos poderia propiciar: a fome e a circunstância”. Em outras palavras, uma comida simples, quando surge na hora de nossa fome, tem enormes resultados para nossa vida.
Muitos decidem sem avaliar as implicações. Faz pela “urgência”, ou porque era a opção mais fácil e adiante paga um preço muito caro. São pessoas que não conseguem resistir às compras, entulhar sua casa de um novo sapato ou roupa no guarda roupa lotado, apesar do cartão de crédito estar estourado… Gente que não consegue resistir ao charme da mulher bonita, ainda que tenha que sacrificar sua fé, suas convicções morais e sua família. Gente que se entrega ao imediatismo de suas paixões carnais sem avaliar as conseqüências que tais atitudes podem gerar na sua vida familiar, moral e espiritual. Gente que vende sua consciência por propostas de suborno e ganhos ilícitos...
São pessoas que não conseguem esperar o tempo de Deus e assumem posições comprometedoras no plano de Deus para sua vida. Vão para a cama com seus namorados sem considerar a Palavra de Deus, ferem o coração do Pai celeste, ficam espiritualmente desautorizados e depois percebem que não é o tempo certo para se casar, ou que aquela pessoa era a pessoa certa, ou precisam assumir uma gravidez não esperada, isto quando não consideram a possibilidade de um aborto. Esta é uma mentalidade epicurista: "comamos e bebamos que amanhã morreremos".
É o imediatismo destruidor, que espera resultados rápidos. Que se esquece que a vida tem processos e é bom aguardá-los com santidade e fidelidade. Esquecem-se que a nós cumpre dar profundidade, e a Deus, largueza.
Esaú abriu mão de sua primogenitura por um mero prato de sopas de lentilhas. Se ao menos pensasse um pouco, se suportasse um pouco. As grandes colheitas são feitas com preparos e labutas. Moisés no palácio preferiu servir ao Senhor que ser chamado filho da filha de Faraó. A Bíblia afirma peremptoriamente: "Peca quem é precipitado”, e ainda: “fazer sem refletir é loucura”.

2. A tentação do menosprezo pelas coisas de Deus (Gn 25.34)

Jacó agiu com malícia, desprezou, depreciou. Esaú agiu com leviandade e simplismo: Aceitou a indecorosa proposta. Para que a transação fosse concluída, Esaú banaliza, minimiza e vulgariza o sagrado. O direito de primogenitura tinha referência a certos privilégios atribuídos ao filho mais velho:

1.     Porção dobrada dos haveres paternos, depois da morte dele. Isto implicava em uma herança maior.

2.     Direito de exercer o sacerdócio sobre a família. O filho mais velho representava a família na ausência do pai.

3.     Em relação à família de Abraão, a primogenitura incluía um direito ainda mais significativo: fazer parte da linha genealógica direta do Messias que seria enviado.

Infelizmente estas coisas pareciam não fazer muito sentido para a alma leviana de Esaú. Muitos jovens, criados na igreja, também parecem desconsiderar estas verdades: Fé cristã? Compromisso com Cristo? Vida com Deus? Facilmente desvalorizam seus valores trocando-os por bagatelas e quinquilharias.
O famoso violinista Petropovich, numa entrevista dada à Veja afirmou que "o hábito pode tirar a inspiração". Muitas vezes, pelo fato de estarmos tão acostumados as coisas divinas, e em ouvir a Palavra de Deus, não somos impactados pelas verdades do evangelho. Precisamos aprender a valorizar as coisas eternas, porque elas têm implicações eternas. As realidades do evangelho têm implicações muito sérias e por esta razão devem ser tratadas com santa reverência. Nossa geração está perdendo a sensibilidade com as coisas de caráter e com absolutos.
Jesus fala de pessoas inconstantes que afirmavam que queriam segui-lo, e curiosamente, Jesus rejeitou a oferta de tais seguidores.  Esta história está narrada no Evangelho de Lc 14.15-22. O ponto central da parábola proferida por Jesus era: O que é melhor: Seguir o reino ou, experimentar as novas juntas de bois, ou apreciar um campo recém adquirido? E Jesus conclui que, se o seu reino não for prioridade em nossas vidas, jamais conseguiremos nos tornar seus discípulos.
Esaú faz uma leitura completamente diferente. Na sua mente encontram-se sérias tentações que o distanciam de Deus. “De que me vale o sagrado, se eu estou com fome?” A palavra de Deus diz que ele “desprezou” sua primogenitura (Gn 25.34). Eventualmente somos colocados em situações nas quais princípios e valores serão questionados, noutras em que, abrir mão de valores pode nos dar privilégios imediatos. Que proposta vamos aceitar?
Não venda seus direitos espirituais. O desprezo das coisas sagradas traz danos espirituais (perda das bençãos e privilégios); e emocionais (recalque, depressão, amargura Gn 27.41). Esaú, depois desta experiência enche seu coração de raiva, decide matar seu irmão. Por desprezar as coisas de Deus, torna-se revoltoso e birrento. Soube que seus pais tinham problemas com a família de Ismael, então decidiu se casar com uma de suas filhas (Gn 28.8).

Conclusão

Para encerrar nossa reflexão, gostaria de fazer algumas aplicações:

1.     Leviandade e precipitação tem a ver com caráter- (Aquilo que tem a ver com nossa interioridade e profundidade de alma). Esaú faz tudo isto e sua atitude não o perturba, sua reação é de completa displicência: “comeu, bebeu, levantou-se e saiu…” (Gn 25.34). Não refletiu sobre sua precipitada atitude, não demonstra que aquilo o incomodou. Não lamentou o seu passo errado.

2.     Não negocie seus direitos espirituais – sempre que o fazemos sofremos graves conseqüências:

  1. Perda da autoridade – acusação e condenação, culpa e sofrimento. A vida de Davi é um bom exemplo disto;

  1. Perda da Alegria – Davi declara que seu pecado lhe roubara a alegria (Sl 32 e 51)

  1. Acusação do diabo – Nossas decisões erradas enfraquecem nossa vida espiritual e nos tornamos presas das acusações do inimigo.

3.     Apelos imediatos para satisfação de nossa carne são sempre colocados em momentos de profundas necessidades pessoais - Saul está chegando do campo, com fome e as coisas se encaixam. Jacó está fazendo uma comida, testando suas habilidades culinárias. As grandes tentações para desvio moral se dão exatamente na hora em que alguns anseios não estão plenamente atendidos: adultérios acontecem em tempos de fragilidade pessoal e nas relações estremecidas dentro de casa. Pessoas se envolvem em negócios escusos em momentos cuja oportunidade parece “surgir de Deus”, afinal: “Um negócio deste atende minhas necessidades perfeitamente, portanto, Deus deve ser uma direção de Deus”. Este texto nos adverte que nossa carne é matreira, tem necessidades imediatas, desejos à flor da pele, e que quando associada a uma estratégia de satanás, parece se tornar imbatível. Temos a necessidade de submeter a carne ao espírito, as coisas temporais, às eternas. Saídas fáceis nunca foram “respostas de Deus”.

4.     Podemos fazer nossas escolhas, mas não podemos nos livrar das conseqüências que tais escolhas nos trazem  - Em Hebreus 12.16,17 a Palavra de Deus nos revela o  resultado da atitude Esaú. Sua atitude pecaminosa lhe tira a benção. Existem muitos que vivem fora da benção de Deus, por leviandade, impureza e profanação. Sua atitude tem conseqüências eternas. Saul, posteriormente busca com lágrimas a benção que já não pode ser alcançada por ele; posteriormente tenta refazer suas atitudes, mas não existiam mais conexões entre elas. Existe um ditado grego que diz que: “Oportunidade é uma pessoa cabeluda na frente e careca atrás…” Quando passa por você e você não a segura, não conseguirá segurar posteriormente. Aquilo que você planta hoje vai determinar o que você vai colher amanhã. Esaú: "Chorou amargamente" e  “busca com lágrimas” o tempo de arrependimento (Hb 12.17), mas não consegue mais. Passou o tempo…


5.     Não existem atalhos para vida – Existem apenas os caminhos de Deus. A Bíblia afirma que “há caminhos que aos homens parece ser bom, mas seu fim não é o melhor”. A vida cristã é marcada por experiências diárias, e nossa benção é determinada pela aprovação de Deus sobre nossas vidas. Portanto, “nunca  viole os princípios de Deus para obter ou manter as bençãos de Deus” (Andy Stanley).