domingo, 11 de junho de 2023

Jos 2 Raabe: O triunfo da graça


 

 

 

Introdução

 

Perguntaram uma vez a C. S. Lewis, qual era o diferencial do cristianismo diante de todas as demais religiões e ele respondeu sem titubear: A graça!

 

“O falso evangelho deixa as pessoas orgulhosas daquilo que elas fazem, já o Evangelho verdadeiro as deixa orgulhosas daquilo que Jesus fez.” (Tim Keller)

 

Raabe é uma das personagens onde a graça de Deus é visível. Quando lemos este texto percebemos como esta narrativa é excepcional.

 

Raabe é uma das personagens mais controvertidas da Bíblia. O seu nome em hebraico não tem um significado bonito: “insolente” ou “orgulhosa”. Prostituta de profissão, vivia na cidade de Jericó, casa aberta a qualquer um. No entanto, figura na genealogia de Davi e de Jesus (Mt 1.5). Ela se casou com Salmon, um príncipe em Israel, tornou-se a mãe de Boaz (que casou com Rute), avó de Obede, Bisavó de Jessé e trisavô do Rei mais querido de Israel: Davi.

 

Figura também na lista das pessoas de fé, sendo uma das poucas mulheres a serem citadas na lista dos heróis da fé.

 

Que lições podemos tirar desta história?

 

  1. O triunfo da fé"Pela fé, Raabe, a meretriz, não foi destruída com os desobedientes, porque acolheu em paz os espias” (Hb 11.3).

 

É impressionante observar que Raabe se encontra na lista dos heróis da fé, e que a Bíblia fala de seu curriculum e de sua profissão nada admirável: Prostituta!

 

Em Js 2 vemos sua declaração de fé:

E lhes disse: Bem sei que o Senhor vos deu esta terra, e que o pavor que infundis caiu sobre nós, e que todos os moradores da terra estão desmaiados. Porque temos ouvido que o Senhor secou as águas do mar Vermelho diante de vós, quando saíeis do Egito; e também o que fizestes aos dois reis dos amorreus, Seom e Ogue, que estavam além do Jordão, os quais destruístes. Ouvindo isto, desmaiou-nos o coração, e em ninguém mais h’a animo algum, por causa da vossa presença; porque o Senhor, vosso Deus, é Deus em cima dos céus e embaixo na terra” (Js 2.9-11).

 

Raabe era de um povo que adorava deuses falsos, astarotes e baalins, mas ao ouvir falar do Deus verdadeiro, ela abandona os deuses mentirosos e entidades malignas, e reconhece o poder do Deus em quem ela deposita sua confiança. Ela põe em risco sua vida, porque sabe que não existe outro Deus além deste verdadeiro Deus. Esta é a fase inicial de nossa conversão, quando abandonamos os deuses falsos, mentirosos, entidades, guias espirituais, gurus, ídolos, e passamos a confiar apenas no Deus que tem poder para abrir as águas do mar Vermelho. É isto que a fé gera em nós: dependência de Deus, reconhecimento de sua soberania e rejeição dos outros deuses que até então nos guiavam. É isto que Raabe fez.

 

Alguém é um verdadeiro cristão quando entende que não pode mais depender de seus próprios recursos para sua salvação, mas aprendeu a colocar toda a sua dependência na obra de Jesus e a se submeter apenas a este Deus. Quando deixam de lutar para sua salvação pessoal e aceitam e recebem a salvação pessoal que nos foi dada graciosamente por meio de Cristo. A salvação de Cristo destrói os falsos deuses e nos leva a confiar apenas na cruz. Por isto, já não confiamos em nenhum outro Deus, nem em nós mesmos, mas no Deus que ressuscita os mortos.

 

A fé bíblica é exatamente esta: o reconhecimento da obra suficiente de Jesus. Esta é a fé que vence o mundo. Quando aprendemos a colocar nossos olhos na cruz de Cristo e sabemos que nossa vitória é obra exclusiva de Jesus.

 

A vida de Raabe nos ensina que não importa o estilo de vida que tenhamos, o encontro com Deus tem o poder de transformar nossa história. Não existe possibilidade de ter um currículo pior do que o desta mulher, mas ela foi lavada pelo sangue do Cordeiro, prefigurado aqui neste texto pelo fio de escarlata (vermelho carmesim ou vermelho muito forte).

 

Quando Raabe creu em Deus, não o fez porque já tinha experiência pessoal com este Deus, assim como nós ao nos convertermos não o fazemos porque já o conhecemos pessoalmente, mas porque ouvimos falar deste Deus e reconhecemos que precisamos colocar nossa dependência e segurança inteiramente nele. É impressionante que quando os espias saem, ela imediatamente tomou posição (Js 2.21).

 

Dois textos bíblicos nos ajudam, entre outros, a entender o que estou falando:

 

(a)   - O chamado de Deus é para colocarmos nossa confiança nele, mas a gente faz o contrário ao colocar a confiança nos nossos dons, habilidades e talentos.

 

Porque assim diz o Senhor Deus, o Santo de Israel: Voltando e descansando sereis salvos; no sossego e na confiança estaria a vossa força, mas não quisestes. Mas dizeis: Não; antes sobre cavalos fugiremos; portanto fugireis; e, sobre cavalos ligeiros cavalgaremos; por isso os vossos perseguidores também serão ligeiros. Mil homens fugirão ao grito de um, e ao grito de cinco todos vós fugireis, até que sejais deixados como o mastro no cume do monte, e como a bandeira no outeiro” (Is 30.15-17).

 

Coloque sua confiança em Cristo, apenas em Cristo!

 

(b)  - A obra de Deus que Deus espera de cada um de nós

 

Disseram-lhe, pois: Que faremos para executarmos as obras de Deus? Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou.” (Jo 6.28-29)

 

É isto que percebemos em Raabe. Ela compreendeu que o Deus de Israel era inigualável e queria estar ao lado dele, não contra Deus. Ela se alia a Deus ao invés de combater a Deus.

 

Na conversão de Saulo Jesus lhe disse: “Saulo, Saulo, porque me persegues. Dura coisa é recalcitrares contra teus aguilhoes.” (At 26.14) Uma versão traduz da seguinte forma: “Saulo, Saulo, por que você me persegue? É duro para você ficar dando coices contra os aguilhões!"


Numa linguagem que conhecemos ainda melhor Deus lhe diz o seguinte: “Pare da dar murro em ponta de faca.” A fé triunfa porque a pessoa de fé deixa de lutar contra Deus e seus projetos. Torna-se parceira de Deus e da construção de seu reino. A vontade de Deus vai se cumprir na história e ela deseja ser uma parceira deste Deus, já que os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis. É isto que Raabe faz!

 

  1. O triunfo da Graça – Raabe é salva porque creu. O currículo de Raabe não era bom, pelo contrário, depunha contra ela: Prostituta! Mas apesar disto, foi salva.

 

 

O que trouxe salvação ao coração de Raabe? Ela depositou sua confiança em Deus. A salvação que Deus quer nos dar é gratuita. “Pela graça sois salvos mediante a fé, e isto não vem de vós, não de obras, para que ninguém se glorie.” (Ef 2.8-9) Graça não é mérito, nem salário.

 

Para entendermos melhor isto, precisamos olhar a genealogia de Jesus em Mt 1.16. Veja quantas mulheres aparecem nesta genealogia.

 

Tamar (Mt 1.3) – Escandaloso envolvimento com seu sogro (Gn 38);

Raabe (Mt 1.5). Prostituta de carteirinha e sindicato, profissional sexual de uma cidade pagã. Rute  (Mt 1.5) – Moabita, proveniente de um povo cuja marca principal era a prostituição. Nenhum judeu gostaria de incluir o nome de uma mulher como esta em sua genealogia; Batheseba: A Monica Lewinsky de Jerusalém. Seu adultério trouxe escândalo, morte, tragédia.

 

O evangelho, porém, considera o poder de Deus para transformar e não tem vergonha de seu currículo passado. É Deus quem os justifica, quem os condenará! Deus é especialista em gente que não tem jeito, em pessoas sem sonhos, em vidas fracassadas, em famílias quebradas, desajeitadas, pecadoras. Deus transformou a história destas pessoas, e pode transformar a sua.

 

A vida de Raabe nos mostra o triunfo da graça!

 

1 Co 1.26-29 nos diz:

Porque, vede, irmãos, reparai na vossa vocação, que não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados. Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes; E Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não são, para aniquilar as que são; Para que nenhuma carne se glorie perante ele. Mas vós sois dele, em Jesus Cristo, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção”.

 

Conclusão

 

Para concluir, e talvez minha conclusão seja maior que o corpo do sermão, gostaria de falar de três coisas preciosas que este texto ainda nos ensina.

 

1. Quem salvou quem?

Na vida de Raabe temos uma coisa intrigante: Quem salvou quem? Aparentemente os judeus salvaram Raabe quando entraram em Jericó e protegeram sua familia, mas na verdade os judeus a salvaram uma vez e ela os salvou duas vezes:

 

A.   Salva-os protegendo os soldados e a missão de espionagem

 

B.    Salva-os porque de seu ventre e da sua posteridade nasceria aquele que seria o rei dos reis e senhor dos senhores. Nosso mestre Jesus Cristo!

 

Este texto nos mostra que Deus não está interessado nos currículos que temos, sejam maus ou bons. Na verdade, os currículos bons são muitas vezes o maior empecilho para que entendamos o evangelho.  A justiça própria é a inimiga número um do evangelho. Deus é quem providencia salvação para nós. Salvação é obra gratuita de Deus. A salvação dos judeus é estranha: Um povo orgulhoso de sua tradição é salvo por uma prostituta. Deus tem um enorme senso de humor.

 

Raabe era prostituta. Deus a salvou. Nós também somos resgatados pela sua graça. Esqueça seu currículo, bom ou mal. Nada vale. A salvação é obra de Deus não o resultado de sua performance espiritual. Deus não nos chama baseados em nossa bondade. Ele deseja gerar vida em nós, zerando o nosso déficit por meio do sangue de seu filho. Deixe Deus fazer a obra em sua vida.

 

  1. A lição tipológica

 

Este texto nos fala da cruz de forma tipológica. Qual é a cor do fio que precisa ser amarrado na janela? Vermelho. É a representação do sangue. Aquele fio era a salvação de Raabe e toda sua família. Em êxodo vemos que o sangue também deveria ser marcado nas portas. Este era o sinal. A marca do sangue. Aqueles que se encontravam dentro daquela casa estavam marcados pelo sangue.

 

Aqueles que se apresentam diante de Deus no dia do juízo, também foram os que “lavaram as suas vestes e as branquearam no sangue do Cordeiro. Por isso estão diante do trono de Deus, e o servem de dia e de noite no seu templo.” (Ap 8.13-15) Encontravam-se diante do trono porque lavaram suas vestiduras e as alvejaram no sangue do Cordeiro, e isto os habilitou a estar de pé diante do trono de Deus.

 

O sangue é essencial nas Escrituras. Sem derramamento de sangue não há remissão de pecados, mas todos os sacrifícios que vemos no Antigo Testamento apontam para o Cordeiro de Deus, perfeito, sem manchas, que um dia derramaria seu pecado, de uma vez por todas, para salvação de todos aqueles que cressem

 

  1. A dimensão familiar da salvação

 

Não podemos concluir esta análise, sem considerar a dimensão da salvação da família. Raabe não estava preocupada apenas consigo própria, mas com sua familia (Js 2.12-13). Ela estava interessada em ver sua familia envolvida neste projeto de Deus, mas os espias afirmam que só havia uma chance disto acontecer: todos deveriam estar sob o signo daquele cordão de fio de escarlata. Não poderiam estar fora daquela casa que estava marcada pelo sangue.

 

Assim acontece com o povo de Deus. Deus não salva por procuração. Se nascemos numa familia cristã e queremos estar incluídos na salvação, devemos estar debaixo da marca do fio de escarlata. Fora da sombra do Cordeiro estamos perdidos.

 

Eis que, quando nós entrarmos na terra, atarás este cordão de fio de escarlata à janela por onde nos fizeste descer; e recolherás em casa contigo a teu pai, e a tua mãe, e a teus irmãos e a toda a família de teu pai. Será, pois, que qualquer que sair fora da porta da tua casa, o seu sangue será sobre a sua cabeça, e nós seremos inocentes; mas qualquer que estiver contigo, em casa, o seu sangue seja sobre a nossa cabeça, se alguém nele puser mão” (Js 2.18-19).

 

Fora da marca do sangue não há proteção. Fora da proteção e do revestimento deste sangue não há salvação. Os parentes de Raabe precisavam estar cobertos e se recolher nesta casa onde havia a marca do sangue. O distanciamento desta casa seria fatal para suas vidas.

 

A vida de Raabe nos fala sobre o triunfo da fé e da Graça. Raabe é salva porque creu, e não por causa de seu currículo. Ao depositar sua confiança em Deus encontrou a salvação.

 

 

 

Rev Samuel Vieira

Anápolis, Maio 2007

Março 2010

Junho 2023

quinta-feira, 1 de junho de 2023

2 Co 10.1-12 Batalha Espiritual

 



 

Introdução

 

Este é um dos textos mais dolorosos escritos por Paulo.

 

A.    Ele é acusado de ser um pastor mundano – “...nos julgam como se andássemos em disposições de mundano proceder. (2 Co 10.2). A pessoa mundana é aquela que trata a vida de forma irreverente, com intenções impuras e indecorosas. Não é fácil ouvir isto como pastor.

 

B.     Ele é criticado por suas mensagens – “As cartas, com efeito, dizem, são graves e fortes; mas a presença pessoal dele é fraca, e a palavra, desprezível.” (2 Co 10.10). Você pode não gostar de determinada mensagem, do estilo de pregação de um determinado pastor e nem mesmo de algum sermão pregado. Mas as pessoas em Corinto iam muito além disto. Elas zombavam da mensagem de Paulo. Diziam que sua pregação era “fraca e desprezível.”

 

Paulo lida nesta carta com um dos aspectos mais desafiadores: zombaria, críticas, e questionamentos.

 

Certamente teremos que lidar com relacionamentos quebrados em nossas vidas. Neste texto, quando observamos o que está acontecendo, aprendemos com Paulo como tratar de relacionamentos estremecidos, mas para enfrentar a oposição e desprezo das pessoas, Paulo vê tudo isto numa perspectiva espiritual. Como ele lida e reage às criticas que recebeu? Como devemos lidar quando estamos em situação análoga?

 

1.     Ele trata com firmeza aquilo que é essencial. Sim, eu vos rogo que não tenha de ser ousado, quando presente, servindo-me daquela firmeza com que penso devo tratar alguns que nos julgam como se andássemos em disposições de mundano proceder.” (2 Co 10.2)

 

Esta batalha que Paulo enfrenta na igreja de Corinto tem história por detrás, como geralmente tem todos os conflitos. As disputas e lutas não se dão no vácuo. Na primeira carta, Paulo disciplinou uma pessoa que estava vivendo em pecado e era muito respeitada na igreja, talvez porque fosse uma pessoa de influência financeira ou respeitada na cidade e ninguém tinha coragem de questioná-la apesar da gravidade de seu pecado. Paulo manda um duro recado à igreja e ordena que ele seja disciplinado (1 Co 5). Seu pecado era grave, agredia a santidade de Deus, afetava a saúde espiritual da comunidade e se tornou um escândalo na sociedade.

 

Nesta segunda carta, as coisas já haviam sido resolvidas, o irmão estava sendo restaurado espiritualmente (2 Co 2.5-7), era necessário perdoar-lhe e trazê-lo novamente para a comunidade. Perdão na igreja é algo importante, “para que Satanás não obtenha vitória sobre nós.” (2 Co 2.11) Sem perdão, Satanás pode atingir a igreja de forma violenta. Perdão é uma forma de não dar brechas ao maligno.

 

Parece-nos, contudo, que apesar de tudo estar “resolvido”, algumas pessoas se tornaram reativas contra Paulo, que era o fundador da igreja. Elas exigem que Paulo apresente suas "credenciais do apostolado" e diante disto Paulo afirma que se necessário ele seria ser ousado e trataria com firmeza, algumas pessoas que continuavam criando oposição e resistência ao seu pastorado.

 

Muitas vezes é difícil resolver conflitos, e eventualmente eles precisam ser resolvidos com firmeza. Não gostamos muito da confrontação, mas eventualmente ela é necessária para que haja cura nos relacionamentos fragmentados.

 

2.     Paulo não perde a perspectiva de que relacionamentos quebrados, não são uma questão meramente humana, mas possuem um componente espiritual – “Porque, embora andando na carne, não militamos segundo a carne.” (2 Co 10.3)

 

Muitas vezes assumimos que a quebra de um relacionamento é algo pessoal, mas não podemos esquecer que conflitos revelam uma obra maligna, que procura enfraquecer a unidade e harmonia da igreja.

 

Nos Estados Unidos acompanhei de perto uma luta destas numa igreja americana, ligada ao nosso ministério. Um pastor auxiliar entrou numa rota de colisão com o pastor efetivo. Eles começaram a se confrontar, uma atitude carnal, e as disputas chegaram ao conselho e posteriormente no presbitério. Denúncias, processos, acusações, defesas, precisaram ser feitas. E o conselho daquela igreja começou a viver em função deste conflito. Me lembro perfeitamente de um dia em que eu disse numa de nossas reuniões: “irmãos, estamos há quase dois anos, apenas apagando incêndios, perdemos a capacidade de sonhar a igreja, ter uma agenda positiva, estamos apenas lidando com processos. Quando vamos retornar a normalidade?”

 

A Igreja Presbiteriana de Anápolis, que pastoreio desde 2003, tem experimentado um crescimento regular e significativo. Deus tem nos abençoado de forma surpreendente. As pessoas perguntam qual o segredo? E uma das respostas é a benção de estarmos vivendo em harmonia. Conselho, Junta Diaconal, obreiros, ministérios. A igreja se reúne com uma agenda positiva, pensando como ser mais eficaz, fazer um ministério mais relevante para abençoar famílias, a cidade e acolher as pessoas. A unidade nos torna fortes. Felizmente não temos que gastar muito tempo em resolução de conflitos.

 

Precisamos entender que quebra de relacionamentos não é apenas uma questão pessoal, mas possui um aspecto espiritual. Não é sem razão que a palavra diabo vem do grego e se compõe do prefixo: diá “através de”; e do verbo ballein: “lançar”. “Dia-bolos”, aquele que divide desune, que inspira ódio, inveja, maledicência e calúnia; Diabo é aquele que procura com todos os meios separar o homem de Deus. Outro termo usado para o ser maligno é Satanás,  (do hebraico, caluniador, adversário e acusador.) O Espirito Santo traz harmonia e conciliação, mas o diabo traz divisão e separação.

 

Será que, ao lidarmos com conflitos interpessoais, familiares, eclesiásticos, não deveríamos criar uma suspeita sobre as fontes de tais conflitos? Paulo não perde a perspectiva de que relacionamentos quebrados, não são uma questão meramente humana, mas possuem um componente espiritual.

 

Batalha real

 

A batalha real é de natureza espiritual – “Porque as armas da nossa milícia não são carnais, e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas, anulando sofismas.” (2 Co 10.3) Por causa de sua natureza, devem ser combatidas espiritualmente. A carne não consegue vencer estas batalhas, porque as armas a serem usadas precisam ser diferentes.

 

Mísseis são constantemente lançados sobre o território de Israel vindo dos terroristas dos Palestinos. Para se defender, os judeus desenvolveram uma tecnologia chamada de “domo de ferro”, que é automaticamente acionado todas as vezes que a milícia palestina Hamas lança um dos mísseis. O objetivo deste sistema de defesa aérea é proteger o território destes mísseis balísticos, Em Maio de 2021, mais de 2 mil projéteis foram lançados de Gaza contra alvos israelenses, mas não houve qualquer dano material nem de vidas, por causa deste sistema. A tecnologia de radar diferencia entre mísseis que podem atingir áreas urbanas e aqueles que devem errar o alvo. O sistema então decide quais devem ser interceptados e são detonados ainda no ar.

 

Infelizmente nem sempre um sistema em nossa mente quando mísseis balísticos são enviados do inferno e atingem nossas emoções, mentes, relacionamentos e a igreja. Precisamos das armas espirituais que só o Espírito de Deus pode nos dar. Nossas almas não são carnais, mas poderosas em Deus. É exatamente destas armas que precisamos.

 

Qual é a eficácia destas armas espirituais que temos em Cristo? O que elas são capazes de fazer?

 

A eficácia das armas

 

1.     Destruir fortalezas – “Porque as armas da nossa milícia não são carnais, e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas.” (2 Co 10.4)

 

Existem barreiras que são verdadeiros bunkers, fortalezas de guerra. Como vencer tais fortalezas? Apenas com as armas de Deus isto é possível.

 

Pensamentos secretos de uma convertida improvável” é um livro surpreendente escrito por Rosaria Champagne Butterfield, uma ativista gay, e professora universitária, que relata seu processo de salvação em Cristo por meio de graça transformando-a numa cristã comprometida. Como isto foi possível? O amor, cuidado e a compreensão de um pastor e sua esposa, conseguiram impactar sua história transformando-a num vaso de graça. Seu livro não é sentimentalista ou legalista. Ela afirma que a salvação em Cristo abalou sua carreira e lhe rendeu o “caos completo”. No entanto, sua história é instrutiva e edificante, e seu significado impressiona. Trata-se de uma visão surpreendente da graça divina capaz de transformar uma pessoa hostil a Jesus, em um discípulo de Cristo, comprometido em amar pessoas que pensam de forma diferente.

 

Este é o poder das armas espirituais. São capazes de destruir fortalezas.

O evangelho precisa romper barreiras:

a.     Defensivas (apologéticas), que envolvem razão, lógica, mente

b.     Preconceituosas (que atingem culturas e cosmovisão)

c.     Espirituais (capaz de dar uma nova visão de fé e espiritualidade, rompendo com falsos deuses, religiões falsas e superstições.)

 

No caso dos relacionamentos, as barreiras são as feridas abertas, mágoas, ressentimentos, rejeição e oposição.

 

2.     Anular sofismas – Porque as armas da nossa milícia não são carnais, e sim poderosas em Deus, para (...) anular sofismas.” (2 Co 10.4)

O que é um sofisma? Trata-se de um pensamento ou retórica que procura induzir ao erro, apresentada com aparente lógica e sentido, mas com fundamentos contraditórios e com a intenção de enganar. Uma argumentação que supostamente apresenta a verdade, mas sua real intenção reside na ideia do erro. Seria, então, motivada por um comportamento capcioso, numa tentativa de enganar e ludibriar. O principal compromisso dos sofistas era fazer com que o público acreditasse naquilo que diziam, e não com a busca pela verdade ou em instigar este sentimento no interlocutor.

Sócrates foi um dos principais opositores ao sofisma

"Se o amor é cego, e Deus é amor, então Deus é cego."

"Se comer vegetais emagrecesse, elefantes e hipopótamos não seriam gordos."

O evangelho precisa ser capaz de desmascarar as narrativas e sofismas. Uma música do grupo Logos afirma:

O evangelho é que desvenda os nossos olhos
E desamarra todo nó que já se fez
Porém, ninguém será liberto, sem que clame
Arrependido aos pés de Cristo, o Rei dos reis.

O evangelho mostra o homem morto em seu pecar
Sem condições de levantar-se por si só ...
A menos que, Jesus que é justo, o arranque de onde está
E o justifique, e o apresente ao Pai.

 

Somente o evangelho pode desvendar nossos olhos, tirar a escuridão do coração e o obscurantismo da mente, abrir os olhos espirituais para enxergar a obra de Cristo.

 

Nos relacionamentos o evangelho é capaz de limpar nossas memórias, tirar as armadilhas e sutilezas da suspeita, inveja e ira, é capaz de nos libertar do sentimento persecutório, da culpa e da angústia.

 

3.     Derrotar toda altivez – “...e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus.” (2 Co 10.5)

 

Não é fácil se tornar servo de Cristo, nem assumir uma vida de discípulo de Cristo. Tornar-se um aprendiz, submisso e obediente é um grande desafio. É fácil se tornar membro de uma igreja, mas não é tão fácil se tornar um discípulo de Cristo.

 

Imagine um homem como Paulo. Arrogante por causa de sua moralidade e religião, fariseu de primeira linha, um mestre e advogado, formado da escola de Gamaliel, uma espécie de USP brasileira. E agora precisa trazer toda sua arrogância e se submeter a Cristo.

 

Fico olhando muitas pessoas que expressam desejo de seguir a Cristo em nossa igreja. Empresários bem-sucedidos, financeiramente estáveis e ricos, estudantes com uma carreira ascendente, com dinheiro para atender seus confortos. Juízes, promotores, delegados, médicos, funcionários públicos. O evangelho precisa destruir “toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus.” Todas estas coisas boas, o status social, o academicismo, precisam ser confrontado se se levantam contra o conhecimento de Deus.

 

Como destruir fortalezas mentais da arrogância educacional, do dinheiro, do status? De filhos de famílias ricas, que aprenderam sempre a ter pessoas à sua disposição? Como trazer toda soberba, inteligência e bens e colocar a serviço do mestre Jesus? O evangelho precisa destronar “toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus.”

 

O grande problema nos relacionamentos fragmentados é a altivez, a petulância, a arrogância. Nos casamentos é a luta pelo poder, não apenas para mandar, mas poder para “ter razão”, ser “dono da verdade.”

 

Certa vez me deram um tema para um acampamento de casais. “É melhor ser feliz que ter razão.” Quando minha esposa viu o tema ela brincou: “Que nada! É melhor ter razão que ser feliz!” não é assim que funciona nossa mente? Querendo sempre estar certos? Não ser contrariado nem questionados? Nossa altivez precisa ser levada a Cristo, porque ela está sempre se levantando contra o conhecimento de Deus.

 

Paulo está aqui, diante da igreja de Corinto sendo massacrado pela altivez. Não se tratava apenas de divergências de ideias, mas acusações sérias e doloridas, resultado de maldade e orgulho humano.

 

4.     O Evangelho precisa levar todo pensamento cativo à obediência de Cristo.levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo.” (2 Co 10.5)

 

O objetivo de Deus é levar você a pensar de acordo com seu pensamento. Ter a mesma forma de interpretar a vida que tinha Jesus. Ter os relacionamentos marcados pelos mesmos afetos de Cristo.

 

Quando levamos cativo nosso pensamento entendemos que nosso chamado é ser escravo de Cristo. Pensar como ele pensa. Viver como ele viveu. Fazer como ele fez. Seu pensamento é cativo de Cristo ou dos sistemas, da cultura, do establishment intelectual, da cultura presente neste século? Quem domina seus pensamentos? Sua cosmovisão?

 

Precisamos entender nosso chamado para ser “servo de Cristo.” O vs 6 ainda é mais enfático: “...e estando prontos para punir toda desobediência, uma vez completa a vossa submissão.” (2 Co 10.6)

 

Certa vez estava lendo sobre os votos monásticos que as pessoas faziam para serem aceitos nos mosteiros. Eram quatro os votos. Três bem conhecidos, o último mais esquecido: castidade, pobreza voluntária, obediência e estabilidade. Estudando estes votos, vi que os o voto mais difícil de manter não era de castidade, nem de pobreza, como podemos imaginar. Sabe qual era o mais difícil? Obediência! Obedecer aos seus superiores. Não discutir as ordens que eram dadas.

 

Paulo mesmo admite neste texto que enfrentava lutas para resolver esta questão em seu coração. “Porque, se eu me gloriar um pouco mais a respeito da nossa autoridade, a qual o Senhor nos conferiu para edificação e não para destruição vossa, não me envergonharei.” (2 Co 10.8). Ele tinha autoridade apostólica e poderia simplesmente lançar mão desta autoridade, deste poder. Ele teve que lutar entre a compreensão de sua autoridade e sua disposição carnal que poderia levá-lo a uma atitude de autoritarismo.

 

5.     Por último, o Evangelho precisa tirar nossa auto glorificação, o desejo de sermos louvados, apreciados, de receber aplausos.

 

O texto bíblico denuncia as duas direções equivocadas que a autoglorificação promove.


Primeira, nos leva a medir-nos conosco mesmos: “mas eles, medindo-se consigo mesmos e comparando-se consigo mesmos, revelam insensatez.” (2 Co 10.12). A base da nossa autoavaliação se perde em nós mesmos. Atitude ridícula. Olhamos no espelho e perguntamos: “existe alguém mais belo do que eu?” O auto enamoramento e o narcisismo, nos destroem. Estamos encantados com aquilo que somos ou pensamos ser, por isto achamos que somos merecedores de maior honra do que a que temos recebido. Queremos mais reconhecimento.

 

Paulo diz que isto revela a loucura de nosso coração. Não é sem razão que os relacionamentos são tão fragmentados. Tim Keller pergunta: Porque duas pessoas narcisistas, autocentradas, com desejo de auto realização e de serem felizes podem se dar bem no casamento? Ambas desejam atenção e não dar atenção. Querem ser o centro, não periféricos.

 

Noutro texto afirma:

“o ego também é frágil. Isto acontece porque qualquer coisa superinflada corre perigo iminente de estourar; é como uma bexiga que alguém soprou demais e a deixou muito cheia.” (O ego inflado. Pg. 22 ed. Vida nova).

 

Nossa natureza tem um narcisismo explicito. Desejo de olhar para o umbigo. Precisamos entender que não somos maior nem melhor do que pensamos sobre nós mesmos, mas do tamanho que Deus quis que nos tornássemos. Descanse nisto. Regozije na simplicidade.

 

Por causa da natureza narcisista, nossos relacionamentos são fragmentados. Sufocamos os outros, ávido por atenção, vorazes em sermos aceitos e apreciados, e continuamos vazios porque precisamos de mais e mais aplauso e reconhecimento.

 

Conclusão

 

O segredo é olharmos para Cristo. “Aquele, porém, que se gloria, glorie-se no Senhor.” (2 Co 10.17) Nossos relacionamentos são frágeis porque estamos olhando demasiadamente para nós mesmos.

 

O segredo é uma mente submissa. Mente de servo. Desejo de honrar a Deus. Precisamos aprender com Jesus.

 

“Não tenha cada um em vista o que é propriamente seu, senão também cada qual o que é dos outros. Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus,
pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus;
antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz
.” (Fp 2.4-8)

 

A cruz inverte a ordem das coisas. Deus servo. Cristo transformou o lugar da maldição em lugar de glória. A morte trouxe vida. Sua rendição, tornou-se o caminho da libertação. Todos nós precisamos nos aproximar da cruz de Cristo e entender o grande mistério, de um Deus, que se faz homem, que se esvazia, para que possamos nele encontrar vida. O problema de nosso eu inflado, só será corrigido quando entendermos que nossa glória tem que ser em Deus, não em nossas habilidades, competência, habilidade, mas na rendição e entrega.

 

Que Deus nos abençoe!