quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Ef 5.22-32 Da função ao mistério





Introdução:

Um dos grandes problemas no casamento é que normalmente nos atemos às funções: Qual é o papel do homem? Qual o papel da mulher? Aquilo que Lutero chamou de beruf. Quando isto acontece, o resultado é um desastre.

Quando um marido irritado diz à esposa: “Você deve se submeter porque a Bíblia diz que precisa ser assim”, ou a mulher ao seu marido: “você precisa me amar porque a Bíblia diz isto...” Quase sempre estou certo de que este relacionamento se desviou da rota, ambos estão lendo a Bíblia para cobrar do outro suas responsabilidades ao invés de lerem para serem transformadas por ela.
Funções não são pés-de-cabra para convencer o outro que deve agir de determinada forma, nem para forçar alguém a fazer o que não quer. Funções são rotas que ajudam o caminho, mas podem se tornar instrumentos de opressão.
Este texto nos fala da função das mulheres e dos homens, mas se pararmos nas tarefas em si mesmo, teremos grande dificuldade em entender a mensagem da Palavra de Deus. 
O texto fala da função do marido, e da função da mulher, mas sua conclusão se mostra de forma eficiente no vs. 32, quando ele sai da dimensão das tarefas, mas ser envolvido pela dimensão do segredo do casamento: “Grande é este mistério, mas eu me refiro à Cristo e à igreja” (Ef 5.32).
A palavra “mistério”, vem do grego misterium, que foi traduzido por Jerônimo, na vulgata latina como “sacramentum”. Por esta razão, o casamento é visto pela igreja católica como um dos sacramentos. Por definição, “sacramento” é um sinal visível de uma graça invisível, e eu sou muito tentado a admitir que o casamento é um sacramento, mas isto é mera especulação e não vem ao caso no estudo que ora fazemos.
Paulo, inspirado pelo Espírito Santo, deseja mostrar como o casamento precisa sair das funções: “Marido amai vossas esposas” e “esposas, sejam submissas aos seus maridos”, para a dimensão “sacramental”: “Grande é este mistério!
Ele estava falando do casamento e de forma surpreendente, vê no casamento uma dimensão mística como existe na união de Cristo e sua igreja. Há um mistério no casamento que transcende as funções, por isto, no casamento, “os dois se tornam uma só carne”, e este é um dos pressupostos de Jesus contra o divórcio em Mt 19.
Este texto está na lista daqueles que os pastores geralmente não gostam de pregar, por serem antipopulares. É mais fácil pregar termos amenos, ou o que Juan Carlos Ortiz chamou de “O Evangelho dos Santos Evangélicos” , ao invés de pregar “todo desígnio de Deus, isto por várias razões: primeiro, por ser controvertido, parece não caber dentro da mente do homem moderno a compreensão de que a mulher deve ser “submissa” ao seu marido; segundo, porque o termo “submissão”, em si mesmo, parece algo negativo. Não somos criados para nos submeter, e sim para nos afirmamos enquanto pessoa, nossa dignidade e valor. Submissão parece induzir as pessoas a um estilo de vida aquém do desejado e apreciado.
Certa jovem me pediu para não falar de submissão na mensagem que faria em seu casamento. Disse-lhe que embora não estivesse pensando em falar sobre o assunto, sentia-me constrangido e cerceado em ter que realizar um casamento no quase eu fosse impedido de dizer aquilo que Deus falou na sua palavra. Sugeri-lhe delicadamente, tanto quanto possível,  que procurasse outro pastor que pudesse atender à sua solicitação, o que ela, delicadamente o fez. Oito meses depois de casada, estava separada.

A razão de tanta reação negativa se deve a alguns fatos:
A. Nossa dificuldade em entender o significado e o propósito de Deus. Quando surge o termo submissão, ele causa reação alérgica em muitos por causa da distorção de sua compreensão.
B. A entrada do pensamento humanista na igreja – Somos muito influenciados pelo pensamento do “mundo”, a forma como o mundo secular define os fatos afeta nossa visão do mundo e da realidade, e assim nos aproximamos da Palavra de Deus com pressupostos secularizados. Tendemos a pensar mais com categorias filosóficas que bíblicas.
C. Nossa dificuldade em obedecer a Palavra – Temos a tendência carnal de agir em desobediência e por isto nos afastamos da recomendação das verdades do Evangelho.

Qual é o padrão de Deus para o relacionamento marido e mulher?
O texto é claro: “Mulheres sejam submissas aos seus maridos”, e “Maridos, amai vossas esposas”. Temos, portanto, a tarefa de desvendar o significado destes termos e sua relevância para nossos dias. Afinal,  o que é amor? O que é submissão? Como podemos traduzir estes termos?

Para entender estes princípios, uma das melhores abordagens é feita por Patrick Morley, no livro “O homem no espelho”.

Ele fala de quatro modelos de casamento.
Þ    Amor e submissão
Þ    Ódio e submissão
Þ    Amor e resistência
Þ    Ódio e resistência

Desta forma, aprendamos melhor o que os termos amor/submissão significam se consideramos o oposto de cada um deles. Se perguntamos qual é o oposto do amor, a resposta provavelmente será ódio. Mas se perguntarmos aos maridos se eles odeiam suas esposas, raramente encontraremos alguém que diga que sim. Quando aprofundamos a discussão e perguntamos qual é a expressão mais sutil do ódio, facilmente obteremos sua resposta: Indiferença. Numa rápida conversa com as mulheres descobriremos que a reclamação número um delas no seu casamento é quanto à indiferença dos maridos, que tendem a desconsiderar sua opinião e dar valor às suas necessidades.
A mesma dinâmica pode aplicada aos maridos. Qual é o oposto da submissão? Várias respostas podem ser dadas: Rebeldia, autoritarismo, oposição, etc. Morley, entretanto, sugere a palavra resistência. A reclamação número 1 dos homens quanto às suas esposas é que elas estão sempre querendo dominar e controlar.

Vamos ao primeiro modelo de casamento:

Amor e submissão
Este é o padrão de Deus para marido e mulher. Neste caso, ambos estão interessados em obedecer a Deus, e as funções são exercidas dentro de certa normalidade. Infelizmente  casais são feitos de pessoas pecadoras, narcisistas e auto-centradas e auto enamoradas, que estão sempre quebrando os padrões divinos, por esta razão eles não amam e nem se submetem adequadamente. Mesmo na Bíblia os modelos de casamento que vemos estão na sua maioria, muito fora desta recomendação.

Ódio e resistência
Este é o pior tipo de casamento possível, porque ambos resolvem desobedecer frontalmente a Deus na ordem que lhes é dada. É o que chamamos de modelo disfuncional, no qual ambos os parceiros são infelizes, e ambos no persistem no seu caminho egoísta. O marido odeia sua esposa e sua esposa resiste ao marido. Os dois se tratam com suspeita, agressão, acusação. Vivem como inimigos, reativos e eventualmente violentos na forma de ser e agir.
A ficção várias vezes nos mostra este modelo de casamento, no qual a disputa e a rixa são perceptíveis. Em alguns casos, o ódio e a resistência são tão absurdos que o casal se destrói.
No ódio e resistência, a esposa questiona o marido e contesta sua autoridade. O marido trata a sua esposa com desdém e desconsidera seus sentimentos ao tomar decisões. Animosidade e desrespeito caracterizam este tipo de casamento.

Ódio e submissão
Este é o típico casamento latino americano. De uma mulher submissa, compreensiva, tentando equilibrar as ações destemperadas de um marido bipolar e autoritário. Certamente este tipo de modelo de casamento, tão presente em nossos ancestrais, levou tantas mulheres a odiarem a ideia de submissão. Elas dizem para si mesmas: “Não vou virar capacho de meu marido como foi minha tia...” Nestes casamentos, as mulheres perdem seus desejos, veem seus sonhos destruídos, por causa da atitude de um homem autoritário. Ela se submete, fazendo o que Cristo pede, mas ele transgride, vivendo de forma oposta ao amor que Cristo ordena aos maridos.
André e Paula revelam este modelo neurótico. André tem fortes opiniões, e ditatorialmente dirige a sua casa, e Paula se submete às suas exigências. Algumas vezes este modelo tem uma fachada cristã, as pessoas se casam pensando que o outro é cristão, mas em poucas semanas torna-se claro que seus conceitos são  opostos à palavra de Deus. Embora se declarem cristãos, não há correlação entre vida cristã e  seus pensamentos, palavras e ações. O marido não nutre sua esposa em nenhuma situação. Algumas mulheres continuam com tais maridos, submissas, a despeito de suas atitudes. A Bíblia sugere que as mulheres podem ganhar seus maridos sem palavra alguma, pelo seu bom comportamento. Isto às vezes acontece. As mulheres continuam a respeitar, a cuidar da casa e a orar pelo seu esposo e em muitos casos o marido termina se render às evidências de tal amor.
Pode ser que este modelo de casamento esteja sendo o seu, você precisa submeter-se a Jesus, e internalizar seus mandamentos. (1 Pe 3.7; Col 3.19 e 1 Tm 5.8).
Transcreva estes versículos para um cartão e tente memorizá-los, internalize estas palavras e peça a Deus para aplicar isto no seu casamento.

Ódio e resistência
Aqui temos outro modelo possível. Ele também é neurótico e desequilibrado, porque o homem ama, considera, aprecia sua esposa, que ainda assim resiste e se opõe. Em geral, os homens reclamam da tentativa de controle e dominação de suas mulheres. Basta assentar-se numa roda masculina para ouvirmos suas reclamações.
Existem várias histórias sobre mulheres autoritárias.

Ilustração 1
Numa fila estava a seguinte placa: PARA HOMENS QUE OBEDECEM ÀS SUAS ESPOSAS. E lentamente, centenas de homens alinharam-se nela. Noutra dizia: PARA HOMENS QUE NÃO OBEDECEM ÀS SUAS ESPOSAS. Apenas um homem se encontrava nela. Então alguém achou curioso e veio indagar ao homem, porque só ele estava naquela fila, e ele respondeu: “Não sei, minha esposa me mandou ficar aqui”.

Ilustração 2
Certo homem se sentia péssimo por causa da atitude mandona de sua esposa e buscou o terapeuta. O conselheiro lhe disse que nenhuma mulher gostava de estar ao lado de um homem fraco, e que ele precisava se autenticar em casa, deixando as coisas claras e dizendo o que esperava de sua esposa. Naquele dia, ao retornar para casa disse:
            -Mulher, quero que você hoje faça uma comida diferente. Nada daquelas comidinhas diárias. Estou esperando...
A mulher o olhou de forma estranha e disse:
            -O que aconteceu???
E ele respondeu:
            -Ah! E algumas coisinhas mais: De sobremesa quero pudim de leite, e depois do almoço, ao invés de ir lavar as vasilhas, quero que você venha esfregar minhas costas porque vou tomar um banho.
A mulher o olhou de forma estranha como se tentasse descobrir onde ele queria chegar... E ele continuou.
-E depois do banho, sabe quem vai me vestir?
E a mulher respondeu:
            -Esta é fácil. É o coveiro!

O movimento feminista gerou uma síndrome de resistência na mulher, hoje, infelizmente, a mulher tem se sentido mau em seu papel de esposa e mãe, inadequadas por serem apenas dona de casa e mãe.
O marido que ama, deve perseverar a despeito da resistência e da resposta da esposa, uma vez que o amor é mais decisão que sentimento, através da auto disciplina deve continuar a cuidar e demonstrar respeito para sua esposa. Não é fácil, mas possível pela verdadeira submissão ao Espírito (1 Co 7.11;19-20).

Por que a submissão?

Dr. John Stott faz uma interessante análise sobre a importância da submissão da esposa ao comentar Ef  5.22. ele faz questão de ressaltar que Jesus sempre deu dignidade ã mulher, à criança e ao servo, e deu noção de igualdade diante de Deus de todos os seres humanos (Gl 3.28). entretanto, considera alguns princípios coerentes e lógicos quanto à submissão:

1.     A submissão está relacionada, não ao sexo, mas à função – Ele extrai este pensamento de Lutero. Deus não está falando de gênero, não se trata da submissão feminina ao masculino, mas da função da mulher em sua casa. Não há recomendação de que a mulher se submeta ao homem, e sim que seja submissa ao marido. Portanto, uma mulher que exerça um cargo de chefia na sua organização, não estará subordinada nem teológica nem institucionalmente aos homens daquela empresa.

2.     Submissão não pressupõe autoritarismo do marido - Embora Deus exija submissão da mulher, não recomenda que o homem exerça sua superioridade diante da esposa. O amor proíbe o homem de explorar sua esposa em prol de sua função. A liderança deve ser exercida em amor de tal forma que nunca cause mal estar por estar sendo executado. Jay Adams faz uma interessante analise sobre este assunto no seu livro A vida cristã no lar,  pg. 91-108. Se  alguém abusa da autoridade que Deus lhe deu, por exemplo, ordenando o que Deus proíbe, ou proibindo o que Deus ordena, estará desfazendo-se do princípio de autoridade existente, uma vez que nenhuma autoridade é autônoma (ou seja, a pessoa é possuidora dela em si mesma), antes delegada (alguém a concede).

3.     Antes de convir ao homem, convém a Deus“As mulheres sejam submissas aos seus maridos, como convém ao Senhor” (Col 3.18). A submissão das mulheres, curiosamente não interessa aos homens, mas à Deus. Se o marido teme ao Senhor e procura fazer a sua vontade, saberá, por experiencia, o quanto a liderança no lar é complexa. Antes de mais nada, Deus nos chama para liderarmos espiritual e moralmente a casa. Isto em si mesmo já traz enorme desafio. Muitas vezes na família achei muito pesada a tarefa de liderar. Minha esposa, eventualmente parece muito mais preparada do que eu para tomar decisões. Ela é muito mais resoluta em tantas áreas que eu. Então, liderança não me é conveniente, mas no planejamento e propósito de Deus para o casamento é essencial. Deus se agrada disto. Quando Deus fala, temos a certeza de que ele sabe o que é melhor para a nossa vida. Liderança é cuidado mais que controle, responsabilidade mais que domínio. O grande chamado de Deus não é para mandar, dominar, mas servir de exemplo moral e espiritual.


4.     A mulher não se sente realizada em assumir a liderança de sua família, embora muitas vezes a assuma, seja por seu temperamento forte, ou por passividade masculina, ou, quem sabe, na ausência física e emocional do marido, a esposa que lidera, sente-se extenuada e o homem liderado, se vê fraco e não plenificado. A mulher sente um peso enorme ao assumir tal condição e perde o respeito pelo seu esposo, enquanto ele se torna irritadiço e não plenificado, refugiando-se na indiferença, apatia ou alcoolismo;

5.     Filhos encontram dificuldade na correta identificação dos papéis e identidade sexual. Quando falamos de sexualidade, estamos nos referindo ao fato de alguém ser “macho ou fêmea”. Foi assim que Deus nos fez na criação, e nenhum obstetra ou parteira tem dificuldade de identificar o sexo da criança ao nascer. Entretanto, a formação da identidade sexual é algo muito mais complexo. Como um menino passa a se sentir menina? Por que uma menina começa a ser atraída por pessoas do mesmo sexo? Estas são perguntas que as pessoas estão sempre fazendo. Para resolver este dilema, varias teorias tem sido formuladas e questionadas, mas existem determinados fatores predisponentes que podem ser analisados. Um dos fatores universalmente reconhecidos como tal é o fato do que o homossexualismo está muito ligado à realidade de um pai fraco, passivo ou ausente e de uma mão dominadora e controladora. Portanto, a submissão ajuda os filhos, tanto garotos como garotas, na identificação da sua própria sexualidade.

6.     “Sociologicamente, em toda sociedade existente, encontramos o patriarcado e o domínio dos homens nos encontros e relacionamentos entre macho e fêmea” (Prof. Steven Goldemberg, “The inevitable of patryarchy”) e citado por John Stott em seu comentário. Os homens, nas culturas mais primitivas e que nunca pararam para refletir sobre papéis de homens e mulheres, lideram suas tribos e clãs, e não o contrário. Portanto, a liderança masculina parece refletir a própria natureza humana.

7.     A submissão encontra suporte fisiológico e não apenas psicológico. O testosterona, hormônio masculino é,  por sua própria genética,  mais agressivo que o da mulher e consequentemente mais dominador. Por isto é que o homem possui um instinto maior para a aventura, a conquista, porque possui um componente biológico que o leva a ir atrás de suas conquistas. A grande dor da mãe, geralmente, é deixar seu filho sair e ir atrás de suas aventuras e conquistas.

8.     Teologicamente, Paulo apresenta a ideia de que a submissão é deduzida da criação: “A mulher foi feita depois do homem e para o homem”(Stott, op.cit. pg. 171) “Não é casuísmo, é criacionismo”. A submissão dá a dimensão exata dos papéis. O marido é o capitão do time. Ele não joga sozinho e não obtém vitória sozinho, mas de certa forma orienta.

9.     Cumpre frisar que este texto não se inicia em Ef 5.22, mas em Ef 5.18. A submissão se dá num contexto de amor, e só pode acontecer verdadeiramente quando o lar está cheio da ação do Espírito Santo, quando somos capazes de entender, inclusive, a sujeição mútua que deve existir nas relações.

Conclusão:
Rumo ao mistério.
O vs. 31 afirma "Grande é este mistério".

Funções não são criativas, nem românticas, apenas funcionais. Existe um mistério, e quando surgem problemas no funcionamento, apenas o mistério pode dar solução. O funcionamento se desgasta, trava, torna-se irritadiço, nos transforma em objetos. Por isto somos convidados a adentrar na dimensão mística do mistério.  Paulo não define o mistério, apenas diz que ele existe. O pronome demonstrativo "este" se refere ao que ele falava,  ele compara o casamento misticamente ao envolvimento de Cristo e sua Igreja. Este mistério não é engrenagens, que facilmente se desgasta.

Casamento foi dado para que o homem contemple o segredo de Deus.

As regras estão repletas de ética, obrigações, problemas, exigências, direitos e deveres. É a realidade visível do dia: tarefas, obrigações, contas para pagar, linguagem objetiva e isto nos leva à distância, a olhar outro de fora, como um estranho. Você me deve! Isto é o equivalente bíblica a viver na lei. “A letra mata, mas o espirito vivifica!”. Assim funciona o casamento quando observado pelo prisma das funções.

No mistério, há uma outra forma de ver.

Surge a graça. presente, dom, glória, honra, desfrutar o outro com afeto e paixão, é a realidade invisível de Cristo, linguagem subjetiva, maravilha, o outro se deixa tocar, pode se aproximar e participar da minha história. Esta é a dimensão do mistério. Assim funciona Cristo e a igreja. Mais que funções há uma dimensão mística, um sacramentum presente.       

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Ed 1.1-3 Deus na história



Introdução:

É impressionante olhar a Bíblia na perspectiva de movimentos e da dinâmica de Deus no meio do seu povo. Como Frei Carlos Mesters afirmou, A Bíblia relata “A história de Deus na história dos homens”. Agostinho enfatiza esta ideia ao afirmar que “quando Deus se agita, o homem se levanta”.
O mover de Deus é muitas vezes sutil, outras vezes avassalador, na maioria das vezes surge como eventos políticos e naturais, daí a dificuldade de discernir onde estão os fenômenos “naturais” e humanos, dos eventos divinos. Esta divisão é complexa, porque nas Escrituras, Deus está sempre se movendo na história, quer tenhamos tal discernimento ou não. Naum chega a afirmar que “Deus caminha no meio da tempestade e da tormenta” (Naum 1.3), mas na sua crise, Elias o percebeu no meio de um cicio tranquilo, e não no meio de terremotos e rajadas de ventos (1 Rs 19).
Este texto de Esdras é surpreendente por nos revelar de forma tão clara a ação surpreendente de Deus, num contexto secular, no meio de uma cultura pagã, e no coração de um rei que sequer o conhecia. As verdades contidas nestes versículos são surpreendentes.

A Primeira verdade é que Deus é Senhor da história
O vs 1, faz questão de afirmar que os eventos de Deus se deram numa situação concreta da história, num lugar específico. “No primeiro ano de Ciro, rei da Pérsia, para que se cumprisse a palavra do Senhor, por boca de Jeremias, despertou o Senhor o espírito de Ciro, rei da Pérsia, o qual fez passar pregão por todo o seu reino, como também por escrito, dizendo:” (Ed 1.1). Temos aqui uma cronologia e uma geografia. Deus não se revela no vácuo histórico nem num vazio geográfico, pelo contrário, ele se manifesta num tempo específico. Os personagens são conhecidos, estão nos livros de história, podem ser aferidos pelas pesquisas históricas.
Assim a Bíblia faz questão de afirmar muitos outros eventos.

No nascimento de Jesus, por várias vezes vemos estes aspectos revelados:
...”Nos dias de Herodes, rei da Judéia” (Lc 1.5)
Naqueles dias, foi publicado um decreto de César augusto, convocando toda a população do império para recensear-se. Este, o primeiro recenseamento foi feito quando Quirino era governador da Síria” (Lc 2.1,2).

Nestes textos e tantos outros, há uma intenção clara da Bíblia em revelar Deus se movendo na história e agindo nela, num espaço e tempo delimitados. A ação de Deus não acontece  de forma vaga, mas perceptível e histórica. O Deus transcendental se torna imanente. O Deus a-temporal, se deixa condicionar a realidade humana e se envolve com seus dramas e teias políticos, agindo até mesmo em contextos pagãos onde a presença de Deus é ignorada.

Segunda, Deus zela pela sua palavra

Há outro aspecto muito interessante que este texto revela.  No primeiro ano de Ciro, rei da Pérsia, para que se cumprisse a palavra do Senhor, por boca de Jeremias”. Isto se deu setenta anos antes, quando o profeta anunciou que Israel seria levado cativo e ficaria exilado num tempo delimitado. É natural imaginar que as pessoas que ouviram tais palavras já haviam morrido, se o texto não estivesse escrito, ninguém sequer se lembraria da forma como a profecia fora dando e quanto era específica, mas agora, setenta anos depois, no meio do silêncio e do esquecimento, a Palavra de Deus, fiel e verdadeira se revela, e a promessa de Deus se cumpre pois “Deus não é um homem pra mentir, nem filho do homem para se arrepender”. Se ele prometeu ele há de cumprir.

O povo havia sido levado para a Babilônia por Nabucodonozor (587 a.C.), após sua morte, seu filho Belsazar assume o reinado. O capitulo 5 de Daniel revela a queda da Assíria. No ano 539 a.C., Dario, rei dos medos e dos persas, com a idade de 62 anos, conquista a região. Posteriormente Ciro assume seu lugar (520 a.C). O povo de Israel se dispersou, vivendo na Assíria enquanto outros foram deportados para a Pérsia, como se deu com Daniel. Portanto, 70 anos se passaram, e esta era a hora profética, e assim como Deus havia falado por seus profetas, sua mensagem agora se cumpre de forma inesperada. O Salmo 126 relata esta experiência como se tudo fosse um sonho. O povo retornará para a Judéia, e reconstruirá Jerusalém, reassumindo a terra que Deus havia dado aos seus pais.

Deus cumpre sua palavra:
Porque, em verdade vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passara da Lei, até que tudo se cumpra” (Mt 5.16)
Porque os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis” (Rm 11.29).

Terceira, Deus utiliza instrumentos incomuns

Basta olhar detalhadamente o texto para entender esta verdade: “No primeiro ano de Ciro, rei da Pérsia, para que se cumprisse a palavra do Senhor, por boca de Jeremias, despertou o Senhor o espírito de Ciro, rei da Pérsia, o qual fez passar pregão por todo o seu reino, como também por escrito, dizendo:” (Ed 1.1).

Quem é este Ciro que sai em defesa de Jerusalém e que faz um decreto para sua reconstrução?
Inicialmente podemos ter a impressão de que este rei era seguidor de Yahweh, o Deus de Israel, e até mesmo que fosse um homem íntimo de Deus e piedoso. Superficialmente podemos ter esta visão. Teria ele se convertido do paganismo? Deixado os deuses falsos para seguir o Deus verdadeiro?
O profeta Isaias, nos ajuda a entender como era a espiritualidade deste homem. Inicialmente chamando-o de “ungido”(Is 45.1), mas logo depois, afirmando que, apesar de Ciro cumprir a missão de Deus, ele é absolutamente distante de Deus. O texto mostra que Deus o usaria a despeito de sua relação com ele. “Eu sou o Senhor, e não há outro; além de mim não há Deus; eu te cingirei, ainda que não me conheces” (Is 45.5).

Deus usa um homem pagão para realizar seu plano.

Isto nos leva a entender que os homens cumprem o propósito de Deus, de forma consciente ou não. Deus vai usar os eventos mais improváveis e absurdos para levar a história para o alvo que ele deseja.  Mesmo um pagão como Ciro.

Ilustração:
Certa senhora crente estava vivendo dias de muita penúria financeira, e saiu para o quintal de sua casa a fim de orar e o fez de forma audível: “Senhor, tu sabes que eu tenho sido fiel, e que tenho dedicado a minha vida ao Senhor. O Senhor me deu promessas de que cuidaria de mim, e queria lhe pedir que me sustentasse nestes momentos tão difíceis, enviando recursos para a minha casa”. Seu vizinho não crente, ouvindo-a, resolveu pregar-lhe uma peça. Foi ao supermercado, comprou uma cesta básica colocando na porta de sua casa um recado: “Deus me mandou enviar isto para a senhora”. Então, apertou a campainha e saiu correndo.
Quando a mulher viu a cesta, voltou repleta de alegria e foi novamente ao quintal para agradecer. Quando o vizinho a ouviu agradecendo, não se conteve e gritou do outro lado do muro. “Sua tola, não foi Deus quem lhe deu esta cesta, fui eu. Ouvi você orando e resolvi comprar uma cesta para a senhora...” e a devota mulher, então agradeceu dizendo: “obrigado Senhor, porque usou até mesmo um ímpio para me abençoar”.

Instrumentos incomuns
Deus usa instrumentos comuns, ordinários ou não, e até mesmo surpreendentes para executar seu plano.

Desta forma é surpreendente o nascimento de Jesus. “Naqueles dias, foi publicado um decreto de César Augusto, convocando toda a população do império para recensear-se. Este o primeiro recenseamento, foi feito quando Quirino era governador da Síria” (Lc 2.1,2).
César era imperador de Roma. Seu decreto atingiria plenamente o plano da redenção. Maria estava grávida, próxima de dar a luz. José estava ao seu lado, apoiando-a. Tal decreto era oneroso e não inteligente: para se cadastrar a pessoa teria que retornar à sua terra natal. Pense na logística que isto envolveria se hoje tivéssemos semelhante decreto. Pessoas de Alagoas, Pernambuco, Minas Gerais, deveriam retornar às suas cidades e estados de origem. Enorme custo financeiro, grande movimentação nas estradas. No entanto, Deus usa este decreto para que José e Maria fossem a Belém, e assim se cumprisse a profecia dada cerca de 700 anos antes através do profeta Miquéias, que afirmava que na insignificante cidade de Belém, nasceria o Messias, redentor de Israel.

Quarta, Deus mobiliza pessoas para cumprir seus propósitos

Ed 1.5 “Então, se levantaram os cabeças de famílias de Judá e de Benjamin, e os sacerdotes, e os levitas, com todos aqueles cujo espirito Deus despertou, para subirem a edificar a casa do Senhor, a qual está em Jerusalém” (Ed 1.5).

Este é um dos mais importantes princípios em missiologia: “O Deus que vocaciona, dá os recursos”.  Deus despertou alguns, não todos. “aqueles cujo espírito Deus despertou”, e aqueles que se sentiram responsabilizados pela obra foram os que Deus mesmo quis despertar.

Quem vai fazer a obra?
Esta é a pergunta que todo líder busca quando está desenvolvendo algum projeto. Como as coisas vai se operacionalizar? Qual será a logística? Qual recurso humano teremos? Quem vai se comprometer e vestir a camisa?
Em geral usamos recursos e técnicas humanas de motivação, instigamos as pessoas a responderem e participarem, mas este texto nos revela aquilo que sempre soubemos e que nunca levamos a sério: a obra é do Senhor. Ele a fará. O movimento da história é provocado por ele mesmo.

Alguns anos atrás, estávamos passando por um tempo muito especial na igreja que estou pastoreando desde 2003. Grandes desafios estavam diante de nós, a igreja estava em franco crescimento. De repente, Deus agregou a nós, algumas pessoas que tinham grande intimidade e vida espiritual profunda. Tivemos algumas experiências muito positivas de oração. Era como se Deus estivesse arregimentando pessoas para orarem e protegerem meu ministério. Lembro-me disto com muito temor e gratidão.

Alguns dias atrás estava conversando com um líder muito especial de nossa igreja. Ele compartilhou uma experiência sua da provisão de Deus, que me tocou profundamente o coração. Ele estava falando de si, aparentemente não estava interessado em trazer nenhuma mensagem para mim, mas Deus o usou para me lembrar que quem faz a obra é ele. Ele é o dono da vinha. Quem tem o noivo é a noiva.
Como pastores facilmente esquecemos disto e queremos mobilizar outros por estratégias de marketing, bom planejamento, auto-ajuda e motivação. Não devemos nunca esquecer que Deus é quem mobiliza pessoas para cumprir seu propósito. “E, servindo ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo: Separai-me, agora, Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado” (At 13.2).

Quinta, Deus levanta os recursos para os seus propósitos
Ed 1.6 afirma: E todos os que habitavam nos arredores lhes firmaram as mãos com vasos de prata, com ouro, com bens e com gado, e com coisas preciosas; além de tudo o que voluntariamente se deu.
Também o rei Ciro tirou os utensílios da casa do Senhor, que Nabucodonosor tinha trazido de Jerusalém, e que tinha posto na casa de seus deuses.
Estes tirou Ciro, rei da Pérsia, pela mão de Mitredate, o tesoureiro, que os entregou contados a Sesbazar, príncipe de Judá.
E este é o número deles: trinta travessas de ouro, mil travessas de prata, vinte e nove facas,
Trinta bacias de ouro, mais outras quatrocentas e dez bacias de prata, e mil outros utensílios.
Todos os utensílios de ouro e de prata foram cinco mil e quatrocentos; todos estes levou Sesbazar, quando os do cativeiro subiram de babilônia para Jerusalém”.

Ao lermos este texto percebemos que Deus dá muitos recursos e riqueza a Esdras para financiar a obra de restauração do templo: Ciro autoriza o retorno de milhares de objetos sagrados: utensílios, bacias de ouro, facas, taças de ouro, ao todo, cinco mil e quatrocentos utensílios de ouro e prata. Trata-se de muita riqueza saindo do tesouro da Pérsia para reconstrução do templo.

Até mesmo muitos dos objetos sagrados que foram retirados do templo há 70 anos atrás agora estão retornando. Como foram preservados? Levados nos lombos de camelos por uma viagem de até quatro meses para a Babilônia (atual Iraque), de lá retirados novamente pelos Persas (atual Irã) e que foram preservados nos templos pagãos.
Como foi a liberação destes recursos, uma vez que muitos deles estavam dentro dos templos pagãos? Provavelmente os sacerdotes destes deuses devem ter protestado...
Acima de tudo, porém, percebemos como Deus levanta os recursos. Pessoas, reis, simpatizantes, muitas pessoas doaram bens para a restauração do templo.

Precisamos entender que “dinheiro é questão espiritual”.

Preguei este sermão no dia 31 de Julho de 2017, na minha igreja. Até este último dia do mês não tínhamos recursos para pagar a folha de pagamento da igreja. Eventualmente fico preocupado com isto. E se os recursos não vierem? Imediatamente, contudo, me lembro de duas verdades: primeira, raramente tivemos algum saldo em nossa conta bancária, durante os 15 anos de pastorado nesta igreja (2003-2017). Geralmente Deus levanta e mantém a obra, porque ele mesmo é responsável por ela. Segunda, Deus está pessoalmente envolvido na questão do sustento de seu projeto. Se Deus estiver naquilo que fazemos, ele mesmo vai levantar os doadores. Veja o que diz o Esd 1.7: “Todos os que habitavam nos arredores os ajudaram com objetos de prata, com ouro, bens, gado e coisas preciosas, afora tudo o que, voluntariamente, se deu”. Deus agiu no coração destas pessoas.

Há uma declaração surpreendente sobre este assunto em Êxodo, quando Moisés está levantando recursos para a edificação do tabernáculo, que foi erguido com ofertas voluntárias: “Disse o Senhor a Moisés: Fala aos filhos de Israel que me tragam oferta; de todo homem cujo coração o mover para isso, dele recebereis a minha oferta” (Ex 25.1,2). Quem iria ofertar? “todo homem cujo coração o mover para isso”... Este movimento de generosidade e doação, só Deus pode fazer.
Se você não contribui, é porque Deus não moveu seu coração... por isto você pode estar tranquilo, afinal de contas, a culpa é de Deus em não mover o seu coração. Correto?
Outro raciocínio, porém, grave e angustiante pode emanar disto. Se você não tem o seu coração movido por Deus, deveria perguntar ao Senhor: “Deus, por que meu coração não se move para tua obra? Há alguma coisa errada comigo a tal ponto que o Senhor não deseja que eu seja envolvido no seu projeto?”

Conclusão:
Este texto nos fala do mover de Deus na história.
Sempre me impressionou esta forma surpreendente e maravilhosa do Deus que soberanamente guia a história. E ele está fazendo isto constantemente.
Cinco lições extraímos deste texto:
A primeira é que Deus é Senhor da história
A segunda, Deus zela pela sua palavra
A terceira, Deus utiliza instrumentos incomuns
A quarta, Deus mobiliza pessoas para cumprir seus propósitos
A quinta, Deus levanta os recursos para os seus propósitos
Em At 14.17 lemos que “Deus não se deixou ficar sem testemunho de si mesmo, fazendo-nos o bem, dando-vos do chuva chuvas e estacoes frutíferas, enchendo o vosso coração de fartura e alegria”.
Que coisa maravilhosa!
Deus participando da história, movendo-se nela, cumprindo seus planos.
Você tem percebido isto?