quarta-feira, 27 de junho de 2012

Deus domesticado Mc 12.1-12 Esta parábola de Jesus é dita logo após a inquirição que herodianos e fariseus lhe fazem sobre a fonte de sua autoridade. Ao terminar sua narrativa, os judeus entenderam claramente o que ele lhes falara. “E procuravam prendê-lo, mas temiam o povo; porque compreenderam que contra eles proferira esta parábola. Então, desistindo, retiraram-se” (Mc 12.12). A vinha era uma referência clara a Israel: “Porque a vinha do Senhor dos exércitos é a casa de Israel” (Is 5.1-7). Na narrativa de Lucas, ao entenderem o que Jesus lhes expunha, teriam dito o seguinte: “Tal não aconteça!” (Lc 20.16). Este texto é uma alerta extremamente atual na história da igreja: Há sempre um grande perigo da religião acreditar que tem a posse do sagrado, que pode domesticar a Deus. A trilogia de Ken Follet, “Os pilares da terra”, é um exemplo muito claro de como isto pode se dar. Muitos religiosos acreditam inconscientemente que possuem o controle da divindade. Muitas denominações agem desta forma, como Deus fosse posse deles. Uma das características das seitas evangélicas é que a salvação depende do vinculo estabelecido com aquela comunidade, porque no intimo acreditam que Deus age somente naquele grupo. Historicamente muitos líderes, pastores, padres e bispos, acreditam que podem deter ou controlar o Espírito que é livre como um vento, e sopra onde quer (Jo 3.8). Crêem que o poder está nas suas mãos e o sagrado é controlado por eles. Isto acontece nas religiões animistas de forma muito constante, mas também em grupos restritos. Quais os perigos mais comuns entre estes grupos que tentam domesticar o Sagrado? 1. Se sentem ameaçados com os mensageiros divinos – Esta foi uma constante do povo de Israel: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes quis eu reunir teus filhos como a galinha ajunta os do seu próprio ninho debaixo das asas, e vós não o quisestes!” (Lc 13.34). Israel acreditava num deus tribal, que não se importava com os demais povos do mundo, afinal, eles eram a nação eleita, o povo especial de Deus. Por isto desenvolveram um etnocentrismo que os impediu de fazerem missões para o mundo. Quando isto acontece, passam a não mais aceitar a chamada de Deus para o arrependimento e para a santidade. Quando João Batista começou seu ministério, disse aos seus compatriotas cheios de uma segurança falsa: “Produzi, pois, frutos dignos do arrependimento e não comeceis a dizer entre vós temos por pai a Abraão; porque eu vos afirmou que destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão” (Lc 3.8). A igreja de Laodicéia se sentia segura. Não havia nela traços de perseguição, nem de pobreza, nem de escândalos morais ou heresias, no entanto Jesus a chamou ao arrependimento, porque lhe faltava fervor. Era uma igreja morna. Jesus então lhe recomenda que se arrependa e volte. O excesso de confiança em determinadas doutrinas bíblicas como predestinação, certeza da salvação, eleição, podem desvirtuar em uma moral decadente, porque as pessoas não se sentem desafiadas a ouvir os mensageiros divinos. Jesus afirma que os filhos da luz produzem frutos da luz. A igreja de Cristo tem a grande tentação de se achar detentora do Sagrado, e não ouvir a exortação de Deus à piedade, arrependimento e santidade. Jesus afirma que o povo de Israel , o povo eleito, se especializou em rejeitar os mensageiros divinos, os profetas, que lhe exortavam a dar frutos dignos de arrependimento e que demonstrassem sua relação com o Pai das luzes, mas ao invés de ouvi-los, ficaram irados e os matavam. Assim a igreja de Cristo pode fazer, e muitas vezes tem feito na história. 2. Aqueles que acham que podem “domesticar a Deus”, facilmente rejeitam seu Filho – Jesus lhes pergunta: “Que fará, pois, o dono da vinha?” (Mc 12.9). Sua pergunta é diretamente apontada aos líderes. Quem pensa em ter o controle da divindade, exclui facilmente a mensagem do evangelho, e nega-se a pregar Cristo, ainda que aparentemente o faça. É fácil pregar um sermão não cristocêntrico, ter um discurso moralista, uma liturgia humanista e antropocêntrica, mas não anunciar a mensagem central do evangelho que é Jesus. Os domesticadores de Deus, não apenas rejeitam os profetas que os chamam ao arrependimento, mas matam o Filho de Deus. ““Jerusalém, Jerusalém... Quantas vezes quis eu reunir teus filhos como a galinha ajunta os do seu próprio ninho debaixo das asas, e vós não o quisestes!”(Lc 13.34).. Jesus afirma que a cidade santa não reconheceu a oportunidade de sua visitação. É costumeiro que religiosos se esqueçam de Cristo e que igrejas de Cristo conspirem contra ele. Recentemente o Rev. Ricardo Barbosa esteve num encontro em Edimburgh, Escócia, para discutir a famosa Conferência Mundial que se deu em 1910 naquela cidade e que agora estava celebrando 100 anos. No encontro, um dos pastores disse que seria melhor não colocar o nome de Jesus no evento, para que isto não distanciasse as demais religiões e não fosse impedimento para o diálogo interreligioso. Esta é uma tendência moderna. Pastores evangélicos são capazes de pregar tudo, de moral a política, de cura a exorcismo, mas não falar da centralidade da cruz e da obra de Cristo. Rejeitam o filho porque querem ser donos da vinha. “Este é o herdeiro, matemo-lo, e a herança será nossa” (Mc 12.7). Laodicéia é uma das igrejas de Apocalipse a quem Jesus enviou uma de suas cartas. Jesus diz algo estranho àquela igreja: “Eis que estou à porta e bato, se alguém abrir, entrarei em sua casa, cearei com ele e ele comigo” (Ap 3.20). É interessante que o dono da igreja esteja do lado de fora, tentando entrar, mas que sua igreja não permita que ele possa entrar. Jesus tem estado historicamente, muitas vezes, fora da igreja que se supunha ser sua. 3. Domesticadores de Deus, se esquecem que o legitimo dono julgará a infidelidade de seus mordomos “Virá, exterminará aqueles lavradores, e passará a vinha a outros” (Mc 12.9). Jesus afirma que “no tempo da colheita” (Mc 12.2), ele enviou um servo aos lavradores. Hora de prestação de contas! Quem lida com os dons e a vocação de Deus para a história, terá um dia que prestar contas. A coisa mais temida pelos judeus aconteceu. Deus passou sua vinha a outros. Sua vocação missionária, sua tarefa de proclamar ao mundo as virtudes do Deus criador e salvador, foi dado à igreja de Cristo, aos gentios. Os judeus, que se achavam donos da vinha, perderam sua relevância espiritual para o mundo, porque achavam que dava para continuar administrando a vinha, sem o Filho. Por causa deste fechamento missiológico, Jesus veio para os que eram seus, e os seus não o receberam, mas a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem em seu nome (Jo 1.12). A Igreja de Cristo deve lembrar-se sempre que o dono da vinha é o Senhor. A igreja não tem dono, porque seu dono é Cristo. Somos apenas trabalhadores na vinha, mas que grande privilégio temos! A igreja não pode ter donos, porque o dono é Jesus. Nós somos trabalhadores da vinha, e queremos servir o dono. Quando o senhor voltar, ele vai querer ver os frutos desta vinha, e o que temos a apresentar são as almas daqueles que reconheceram sua autoridade e se tornaram seus servos. Conclusão: Os judeus quiseram construir o grande edifício divino, sem a pedra angular. Os construtores rejeitaram a pedra de esquina. Esta é a atitude dos “domesticadores de Deus”. Jesus lhes lembra ainda a profecia do Sl 118.22,23, passagem também conhecida dos judeus. A pedra de esquina o pilar principal de todo antigo prédio. Ao remover a pedra, destruíram toda a obra de Deus. Por isto Jesus diz que o reino lhes seria tirado e dado a outro povo e que o juízo de Deus viria sobre Israel : “Aquele sobre quem esta pedra cair, será esmagado” (Mt 21.43,44). O dono da vinha é o Senhor. Sempre existe o perigo de nos julgarmos donos da obra. Para evitar este desvio, nosso louvor, liturgia, mensagem, culto e programas precisam estar alicerçados na pessoa de Cristo. Cristo está sendo glorificado naquilo que fazemos, ou agimos assim para nos mantermos como donos da obra que pertence a Jesus?

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Gn 2.1-3 O sábado no projeto da criação

Introdução: No design da criação do universo, o shabath possui um aspecto único na narrativa do livro de Gênesis, a tal ponto que um teólogo cristão, chegou a afirmar que o ápice da criação não é o ser humano, mas o sábado, porque Deus não concluiu sua criação formando o homem, mas instituindo o sábado. Na história do povo judaico e ainda hoje, o sábado tem se tornado ponto de controvérsia e contradição. A forma como o religioso tem usado não só é um flagrante desrespeito ao sábado, como se tornou uma conspiração contra o propósito de Deus para o sábado porque os homens inverteram o sentido original do sábado. Quarto Mandamento: “Lembra-te do dia de sábado, para o santificar”. Qual o significado do Sábado? 1. O sábado tinha um propósito Social - O povo de Israel foi escravizado por 430 anos, sem direito a lazer, realizava trabalho forçado e sofreu violenta humilhação. Não é sem razão que este mandamento possua uma forte recomendação social: “Não farás obra alguma nesse dia, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o peregrino que viver das tuas portas para dentro, porque o senhor fez em seis dias o céu, a terra e o mar, e tudo o que neles há, e descansou ao sétimo dia; por isso o senhor abençoou o sétimo dia e o santificou” (Ex 20.10-11). Deus estava preocupado com o ser humano e com a própria natureza que se tornara vítima da ganância e da exploração do excesso de trabalho, e o povo sofreu tais consequências na ganância opressiva de Faraó. Jesus teve profundos conflitos com religiosos de seu tempo por causa da questão do sábado. Qual era o problema? Os homens transformaram o sábado num instrumento de opressão religiosa, ao invés de reconhecerem sua dimensão libertadora e humanitária. Jesus sintetiza isto numa discussão com os fariseus, que eram os xiitas de seu tempo afirmando: “O sábado foi estabelecido por causa do homem, e não o homem por causa do sábado” (Mc 2.27). Esta inversão na interpretação tem sido fatal na história do cristianismo. 2. O sábado possuía uma Dimensão Pessoal - Qual é o objetivo então do sábado? Este termo vem do hebraico “shabath” que significa “descanso”. Deus deseja que os homens entendam a importância de parar suas atividades, e para fazer isto, ele mesmo deu o exemplo. Será que Deus estava preocupado consigo mesmo? Estava com excesso de horas extras? Naturalmente não. Seu objetivo era dar exemplo para que entendêssemos que precisamos aprender a descansar, a tirar tempo para repor nossas forças físicas, para repensar nossas atividades. Quando não descansamos é porque intimamente sofremos um complexo de onipotência e achamos que somos mais imprescindíveis que Deus. No entanto, é bom lembrar que o cemitério está cheio de gente insubstituível. Guardar o dia de sábado é reconhecer que temos direito ao descanso e perceber-se como um ser livre para viver. O que trabalha sem descanso é escravo! Além do mais, deve manifestar esta preocupação com seus funcionários, empregados, parentes e até mesmo animais. Todos devem e tem o direito ao descanso. Quando ainda plantava igreja no sul de New Jersey, tinha uma rotina de muita atividade. Um dia, três casais de liderança da igreja me procuraram e perguntaram qual era o dia de meu descanso. Respondi evasivamente e eles foram enfáticos comigo: “O Senhor precisa tirar um dia de folga, não pretenda ser mais importante que Deus”. É isto que a palavra quer nos mostrar. Deus não parou suas atividades por causa dele, mas por causa de nós. Ele nos convida ao descanso e nos desafia a confiarmos na sua provisão, e sabermos o que ele vai fazer quando nada estivermos fazendo. Tirar um dia de descanso semanal é uma forma de demonstrar confiança em Deus e no seu cuidado por nós. Nós somos apenas instrumentos, Ele é que faz. 3. O sábado possuía uma Dimensão cúltica - Além de refazer nossas forças e encontrar descanso, este tempo também é um convite para olharmos para o céu, e este é um objetivo muito claro para o shabath: Tirar um dia de adoração, agradecer a Deus a libertação e lembrar que Deus também tem ouvido nosso clamor. Este é o dia que separamos para prestar culto a Deus, ler mais profundamente sua palavra, orar, refletir sobre seus valores, colocar nossa vida a seu serviço para libertar outros que ainda vivem na opressão e na escravidão. No Novo Testamento não existe mais a idéia de um “um dia de adoração”, mas todos os dias são feitos para adoração a Deus, mas neste dia nos lembrarmos de seu cuidado e o adoramos. Ao nos dar um dia como tal, Deus destaca a nossa humanidade, nos lembra que devemos ser tratados como pessoas e que não fomos feitos para o trabalho, mas para Ele. Os juDeus não conseguiram apreender o significado mais profundo da lei. Apegaram-se ao aspecto exterior da lei, sem nunca refletirem sobre sua validade mais profunda. O sábado se tornou uma forma de controle e manipulação religiosa – sua espiritualidade passou a ser avaliada pela guarda do sábado. Um aspecto exterior, que não descia para o coração daquelas pessoas. Jesus é acusado por não guardar o sábado. O que ele queria, na verdade, é demonstrar que o foco estava errado. Este conceito também permeia a mente dos cristãos convertidos ao cristianismo e que foram chamados de judaizantes no Novo Testamento. “Guardais dias e meses, e tempos, e anos. Receio de vós tenha eu trabalhado em vão para convosco” (Gl 4.10-11). Idéia semelhante ainda acontece em nossos dias, com a ênfase legalística que os judaizantes modernos, chamados sabatistas, tem dado a este ponto. Aplicações: A. O sábado confronta o nosso agitado tempo. Sábado nos convida a colocarmos nossa vida em ordem, e encontrarmos tempo de descanso para refazer nossa energia. Não somos máquinas. Ilustração Gordon MacDonald: Nas profundezas da África, um vendedor estava fazendo uma viagem e contratou uma tribo para carregar seus materiais. No primeiro dia eles marcharam rapidamente e chegaram a uma distancia significativa. O viajante tinha o desejo de fazer esta viagem o mais rápido possível, mas no segundo dia pela manha aqueles carregadores recusavam-se a se mover. Por alguma estranha razão eles ficaram assentados, descansando. Ao perguntar qual a razão deste estranho comportamento, o vendedor foi informado de que eles haviam andado muito no primeiro dia, e agora estavam esperando suas almas para acompanhar seus corpos. A nossa agitada vida leva-nos a esquecer de nossas almas. A diferença entre nós e aquele povo é que eles sabiam que precisavam reabastecer sua vida, e nós, freqüentemente, não vemos isto. B. O Sábado confronta nossa ambição em possuir e ter cada vez mais não nos deixa parar. Nos Estados Unidos, atualmente, não existe mais dia de descanso, afinal "time is money" e a vida não pode parar. C. O sábado confronta a síndrome de super-homens. Lee Yacocca, conhecido Executivo e conhecido pela sua capacidade de tirar a Chrysler de uma falência, no seu livro auto biográfico fala do seu estilo de vida. Ele encerrava o expediente toda sexta feira à noite e só retornava ás atividades no domingo a noite para programar a semana. Para ele, “o homem que não consegue tirar tempo para lazer, é um homem tolo”. Sábado foi dado para nós, para que a gente refaça o organismo, reconheça nossos limites. Nenhum de nós é super homem. Tempo para reorganizar as idéias, valorizar aquilo que é prioritário e essencial. Você tem tido oportunidade, ultimamente, de tirar um tempo maior para sua família, para Deus no seu shabath? D. O sábado e a improdutividade: o ócio produtivo. O shabath nos foi dado para ser uma experiência de quebrar o frenesi por ganhar mais e ter mais. Sábado é tempo para priorizar coisas que normalmente a nossa vida agitada não nos permite fazer: Adorar a Deus, aprender mais das Escrituras Sagradas, valorizar mais a família, quebrar a rotina, jogar futebol, curtir os amigos. O judeu usava o sábado para ir à sinagoga, estudar a Torah. E. O sábado nos dá a correta perspectiva do valor do ser humano. Dia de dar folga aos escravos. Apesar de viverem num sistema de escravidão, Deus determina que nem o jumento, nem o boi, nem o escravo, ninguém poderiam trabalhar neste dia. Era uma forma de proteger o direito à vida daquelas pessoas. Era um dia em que era proibido exigir dos escravos qualquer coisa que precisasse. Dia de adoração e culto. Dia de lazer e refazer as forças. Como este conceito do shabath precisa ser resgatado atualmente. Sábado é o momento de fazer o bem, dia de comida festiva, estudo da Torah e adoração a Deus. Os religiosos o engessaram, e não queriam sequer que fosse usado para fazer o bem. O dia do sábado é encontra sua plenitude quando nele se celebra a vida com gratidão, boas obras, adoração e serviço. O dia de sábado era o dia da adoração e gratidão a Deus, nele se deve celebrar a vida. Jesus ia ao templo para adorar e abençoar, os fariseus possuíam outra motivação, terrena e demoníaca. A lei tende a substituir a misericórdia de Deus por rituais. Jesus estabelece um novo principio e confronta, de forma intencional e deliberada, esta atitude religiosa mesquinha e contrária a Deus. “O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado”. Sábado é um projeto do plano de Deus para nós. Deus não precisa de descanso, e descansou. Nós precisamos de descanso e queremos fazer de conta que somos Deuses. Deus queria nos mostrar a importância de deixar que a vida faca o seu ciclo, que não devemos apressar o rio, que as coisas fluem pela criação que ele mesmo estabeleceu. Portanto, não descansar se constitui a quebra dos mandamentos essenciais de Deus para nossa vida. O Quarto Mandamento nos diz: “Lembra-te do dia de sábado, para o santificar”. Precisamos ser lembrados desta ordem dada por Deus.

Lm 3.21-24 O que pode me dar esperança

“Quero trazer à memória, o que me pode dar esperança. As misericórdias do Senhor não tem fim, renovam-se a cada manhã. Grande é a sua fidelidade”. Lm 3.21-24 Introdução: Nesta semana (14.06.2012), perdi de forma trágica uma linda sobrinha, cheia de vida e planos, de apenas 22 anos, na cidade de Palmas-TO. Um motorista jovem, dirigindo um carro em alta velocidade nas ruas da cidade a atingiu frontalmente provocando morte instantânea. Minha dor é mínima diante da dor de meu irmão e cunhada, ela também não é maior nem menor do que a de muitas outras pessoas que também já perderam seus filhos e familiares de forma assim tão trágica, nem acho que sou especial a ponto de não passar por dor semelhante, mas estou bem certo de que tais pessoas conseguem se solidarizar melhor com minha dor nesta situação. No Brasil, anualmente, 38 mil pessoas morrem em acidente de carro, e minha sobrinha, assim como outras pessoas, não é apenas um numero. São pessoas com relacionamentos. Possuem irmãos, pais, mães e amigos que sofrem juntos nestas situações trágicas. Contexto: Jeremias, o profeta, ao escrever este texto fala de uma situação similar. O livro quase todo se ocupa em narrar as conseqüências da guerra. O lamento se manifesta em quase todo texto. A cidade de Jerusalém fora completamente destruída com a invasão dos assírios. Só restaram escombros (4.5; 5.18). Os cânticos de alegria foram transformados em prantos (1.:2), todos os seus bens foram confiscados (1.:7, 10; 5.2). O templo foi saqueado vergonhosamente e o local que para eles era sagrado foi invadido (1.10). Chacais e feras do campo passaram a viver ali, junto ao cheiro de morte que a cidade exalava. Palácios e fortalezas foram destruídos (2.5) e o templo foi demolido (2.6), para o profeta isto era algo muito forte, pois significava que Deus rejeitara o seu próprio altar (2.7). Todos foram levados cativos: Crianças (1.5); jovens (1.18) e os príncipes na frente do povo (1.6), e um regime de escassez de alimentos leva o povo a ter que sobreviver com o mínimo de pão (1.11), Os jovens morreram na guerra (1.15). A fome é tão grande que os meninos e mesmo crianças de peito desfalecem nas ruas (2.11) assim como moços e velhos jazem por terra (2.21). Não há glória e nem mesmo esperança (3.18). Nada mais a fazer além de chorar (3.49). De tal forma é a angústia que humanamente falando, não há alternativa: se ficar em casa morre de fome, se sair a rua, vem a espada(1.20). Nesta hora o profeta faz a declaração: “Quero trazer à memória, o que me pode dar esperança. As misericórdias do Senhor não tem fim, renovam-se a cada manhã. Grande é a sua fidelidade” ( Lm 3.21-24). Nesta declaração aprendemos algumas verdades: 1. Em tempos de angústia e perplexidade, é fundamental colocar nosso foco num ponto que vá além da situação percebida – Vemos esta mesma atitude em Habacuque, outro profeta da Bíblia, que ao saber da invasão inevitável da Assíria, colocou seus olhos não nos eventos que tinha diante de si, mas em Deus. Para sobreviver, ele viu 5 características em Deus que lhe seria indispensável: A. A Eternidade de Deus – “Não és tu desde a eternidade?” (Hab 1.12). Isto nos ajuda a perceber que Deus vê o fim a partir do começo. A história, tal qual a vemos, é a história de Deus. Nós vemos os fragmentos da história, Deus vê todo o quadro B. A Santidade de Deus – “Ó meu Deus, ó meu Santo” (Hab 1.12) Todos os motivos de Deus são dirigidos pelos seus santos, ainda que inexplicáveis motivos. Não existe nele propósito suspeito. Ele é santo! Deus está acima de qualquer suspeita. Suas intenções são claramente de amor, ainda que nos pareça tão difícil entender. “Eu é que sei que pensamentos tenho a vosso respeito”. C. A pessoalidade de Deus – “Ó Senhor”- ele usa o termo Yahweh, que em hebraico trata-se do Deus pessoal, Deus dos pactos e das alianças. Ele sabe de nosso nome, identidade, RG e CPF. Não é um Deus distante. Ele caminha “no meio da tempestade e da tormenta” (Naum 1.3) com aquele que sofre. D. A pureza de Deus – “Tu és tão puro de olhos que não podes ver o mal” (Hab 1.14). Seus motivos não são impuros. Sua pureza impede mácula e pecado. E. A Justiça de Deus – “Para executar juízo, puseste aquele povo”- (Hab 1.12). Deus não é injusto, nem age por motivos espúrios. Sua justiça está presente sobre todos nós. Habacuque e Jeremias, diante do evento trágico, põem os olhos em Deus. “Quero trazer à memória, o que me pode dar esperança”. Eles sabem que o foco precisa ser ajustado em Deus, como uma lente de alta precisão, para fazer leituras corretas sobre os eventos que estão diante deles. Assim como eles, não entendemos e nem conseguimos interpretar todo o significado da dor, da enfermidade, da tragédia, mas sabemos que acima dos eventos temporais existe um Deus, por isto, tiro meus olhos do evento e os coloco em Deus. 2. Em tempos de angústia e perplexidade, é necessário exercitar a memória – “Quero trazer à memória, o que me pode dar esperança”. O exercício mnemônico me ajuda a enfrentar os dias maus e a caminhar com fé. Veja o caso de Davi ao resolver enfrentar Golias. O desafio que tinha diante de si era muito maior que ele, então, o que faz? Recorda-se das manifestações da graça de Deus na sua vida. Deus já lhe havia dado vitoria em duas condições difíceis: Num embate com um leão e com um urso. Saul achava impossível sua luta com Golias, mas ao se lembrar de como Deus havia agido na sua vida em situações anteriores, Davi se sentia confiante. “O Senhor me livrou das garras do leão e das do urso; ele me livrará ds mãos deste filisteu”(1 Sm 17.34,36-37). No meio das dificuldades, preciso exercitar a memória. Olhar no passado e ver como Deus agiu. Nossas lembranças tornam-se poderosas aliadas, na luta contra o desespero e a dor. Cada nova experiência nos capacita a enxergar a obra de Deus com clareza. “Nunca duvide na escuridão , o que Deus lhe disse na luz” (Raymond Eedman). 3. Em tempos de angústia e perplexidade, precisamos focar em verdades eternas - “As misericórdias do Senhor, são a causa de não sermos consumidos”. O profeta coloca toda sua história, nas misericórdias divinas. Misericórdia é um termo interessante, pois vem do latim “cordia”, cuja raiz é “cardio”. Isto é, tem a ver com o coração. Gente misericordiosa se sente chamada por Deus para ajudar pessoas quebradas e sem esperança. É disto que o texto está nos falando. De como Deus trata gente totalmente fragmentada. Deus não nos trata consoante nossa justiça, mas pela justiça de Cristo. Suas misericórdias impedem que eu seja devorado e consumido. Seu eu fosse tratado com justiça eu já teria sido consumido pela santidade de Deus (Sl 103.10,14). Outro aspecto é que ela não se esgota, elas “não tem fim”, senão a minha cota já teria acabado. Ainda aprendemos que são renováveis, pois “a cada manhã se renovam”. Deus atualiza sua graça em minha vida diariamente. Ele é fiel. “grande é a sua fidelidade”. O texto não diz “grande é a minha fidelidade”. Não é minha a prerrogativa da fidelidade, mas de Deus. Conclusão: Diante do trágico e do inexplicável, o profeta olha para Deus. “A minha porção é o Senhor, diz a minha alma; portanto, esperarei nele” (Lm 3.24). Ele admite que todas as coisas parecem conspirar (Lm 3.1-8), esta é sua percepção histórica que lhe mostra o dado da realidade. Mas agora, diante do mistério da dor e do sofrimento, ele decide correr para Deus e encontrar nele o sentido que precisa ter. No vs. 26 ele fala em “aguardar a salvação do Senhor em silêncio”. É o momento em que nos deparamos com algo muito maior do que nossos corações podem explicar e nossa razão possa conceber. Ele fala ainda em colocar a “boca no pó” (vs. 29), situação de humildade e adoração. Ajoelhar quebrantado, porque “o senhor não rejeita para sempre”(vs. 31), e nem “aflige entristece de bom grado”(vs. 33). O sofrimento e a dor nos devem levar a um momento de silêncio, para se encontrar com algo muito alem de nós mesmos, da auto suficiência e independência. Assim devemos agir diante do mistério da dor e do sofrimento, quando temos que enfrentar a dor e a tragédia. É isto que preciso trazer à minha memória... é isto que quero trazer à minha memória.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Gn 1.26 A Dignidade Humana

Introdução: A leitura de Gn 1,2 é fundamental para a teologia cristã, e um dos aspectos que mais se sobressai nestas paginas iniciais é o valor intrínseco do ser humano pode ser percebido a partir da criação. Nossa teologia precisa ser lida, não a partir da queda, mas a partir da criação. o Salmista levanta a questão do valor humano no livro de Salmos: "Que é o homem?" (Sl 8.2). Algumas definições curiosas foram feitas sobre o homem, dadas por filósofos e pensadores:  Aristóteles – animal político  Thomas Willis – animal que ri  Benjamin Franklin – animal que faz ferramentas  Edmund Burke – animal religioso  James Boswell – animal que cozinha. A questão "O que é o homem?" Ou, "O que significa ser homem?" é levantada e respondida pelo menos duas vezes no AT, e nas duas vezes revela surpresa diante da grandeza do universo e das limitações do homem (Jó 7.17; 25.4-6; Sl 8.34). "Que é o homem?" ou "quem é o homem?" constitui-se na "máxima interrogativa, a interrogativa das interrogativas". Esta pergunta aponta para a realidade filosófica central da compreensão do propósito da raça humana. Para responder esta questão a teologia cristã começa não da queda, nem da redenção, mas da criação,. A Bíblia afirma que homem e mulher são projetos especiais de Deus. O texto não diz “haja”, mas façamos… O homem é apresentado como imagem de Deus (imago Dei). Ele se distingue de todo o resto do mundo pela sua relação com o Criador. As indagações dos filósofos são respondidas pelo teólogo. O propósito de Deus em criar o homem foi para se relacionar com ele, por isto o homem possui uma identificação com o Sagrado, já que Deus pôs a eternidade no coração do homem (Ec 3.8). Deus o criou para ser sua "imagem e semelhança". Ao estudarmos antropologia, torna-se imperativo que estudemos a natureza humana do ponto de partida da criação. A antropologia cristã pode ser desvirtuada se nossa leitura começa apenas a partir da queda. Isto tem efeito profundo na nossa prática teológica e na pastoral. R. C. Sproul afirma propõe o estudo sobre o pecado humano, não usando o termo depravação total, mas depravação radical, já que a idéia da depravação total aponta para uma visão depreciativa da raça humana, e que depravação radical indica que o problema humano encontra-se na sua raiz. Tudo que ele faz é para promoção do EU. O homem tem se desviado de Deus e mantém-se rebelde, com uma tendência inerente ao mal, a escolhas erradas e a tudo que leva para perto de Deus. Apesar de João Calvino ter insistido na realidade da queda e da corrupção da natureza humana, reconhecia que mesmo o homem caído, tinha manifestações da presença divina. Estes lampejos são chamados de “graça comum” dada por Deus aos homens, capacitando-o a produzir obras no mundo da arte, literatura, poesia e música. Stott afirma que existem três razões para respondermos corretamente sobre a natureza humana: 1. Pessoal – Perguntar o que é o homem é outra forma de dizer "quem sou eu?" isto tem a ver com a antiga preocupação oriental de "conheça a ti mesmo", e a necessidade ocidental de descobrir nosso verdadeiro eu. A pergunta crucial "quem sou eu", desemboca em outra questão igualmente significativa, "possuo algum significado?". Artur Schopenhauer, conhecido filósofo, encontrava-se perdido na sua angústia, andando às margens do Rio Teingarten em Frankfurt quando foi indagado por um limpador de rua: "Quem é você?", e ele responde: "Deus sabe que isto é o que eu mais gostaria de saber". 2. Profissional – É importante entender esta identidade humana, porque a forma como vejo o homem vai se refletir na maneira como eu trato as pessoas. Minha abordagem com o ser humano será ampliada na medida em que eu enxergo a dignidade presente no meu semelhante. O Manual do Culto da Igreja Presbiteriana recomenda aos pastores que respeitem o corpo da pessoa morta, porque esta criatura foi criada à imagem e semelhança de Deus. Quatro adolescentes brasilienses colocaram "por brincadeira", fogo no corpo de um índio. Como o crime foi hediondo e teve repercussão internacional, ao serem presos, admitiram o crime, mas um deles tentou se justificar dizendo: "Eu não sabia que era um índio, eu pensei que fosse um mendigo". Em outras palavras, índio não podia, mas mendigo sim. Quando você considera o ser humano como criatura de Deus, criado à sua imagem e semelhança, mesmo o ser mais vil, degradante e depravado receberá de sua parte a consideração e respeito. 3. Político – Tem sido afirmado que a natureza humana é um dos pontos centrais da visão rival entre Marx e Jesus, porque "ideologias são, na verdade, antropologias". Como Jesus via as pessoas? Sua compaixão e sensibilidade são comuns nos evangelhos. Jesus se aproxima do pobre, do possesso, da viúva e do leproso e as toca. Mesmo pessoas com moral duvidosa como Zaqueu e Maria Madalena, receberam de Jesus considerou e atenção. A visão humanista tende a ser ingênua eu seu otimismo, ou pessimista na sua análise. Humanistas seculares são normalmente otimistas, acreditam que o homo sapiens está se evoluindo e que um dia terá controle total de sua caótica situação. Especialistas tendem a ser pessimistas, vêem a decadência moral e se tornam cínicos como o personagem Justo Veríssimo, criado pelo humorista Chico Anísio. A visão utilitarista leva líderes políticos a manipularem as massas para beneficio pessoal, e isto fere a compreensão da imago Dei.. Este texto também aponta para a responsabilidade moral do homem: 1.1 Responsabilidade quanto a Deus – Deus criou o homem para ter relacionamento com ele. “imagem e semelhança” nos fala desta relação. Salomão afirmou que “Deus pôs a eternidade no coração do homem”. Em Gênesis 1.26 o peso do texto recai sobre a imagem (eikon, septuaginta), e semelhança (omioma). Seriam duas idéias sobre Deus? Na verdade estes termos se parecem não com duas idéias, como uma idéia sendo explicativa da outra. Alguns usam o termo imagem para expressar a natureza de Deus, e semelhança para indicar perfeição moral. Assim seria a imagem em dois sentidos: Os seres humanos são criaturas especiais de Deus (Gn 2.7), e foram criados à sua imagem, dotados de características que lhes permitem entrar em uma relação pessoal com Deus e exercer, como seus representantes, o governo do mundo (G 1.28; 5.1; 9.6). Em Gênesis 2.7 nos é dito que "formou o Senhor Deus ao homem do pó da terra, e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente". A menção de ter dado vida, revela atos especiais de Deus. Estes atos distinguem o homem de outros seres criados. Existe uma diferença substancial entre animal e homem desde a criação. Existe aqui um processo de continuidade e descontinuidade. Animais possuem fôlego de vida (Gn 2.7; 7.22), mas não nos é dito que sejam imago Dei. John Piper, no seu conhecido livro “desiring God” se reporta à primeira pergunta formulada pelo Catecismo Maior. “Qual o fim principal do homem?”.A resposta é: “O fim principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre”. Estas são as duas dimensões da razão da existência humana: Louvor e alegria em Deus. Para Piper, porém, declara que a única forma que temos de glorificar a Deus, é desfrutando dele. Se não encontramos prazer em Deus, então não o glorificamos. Por que Deus criou o homem? Deus é um ser que basta a si mesmo. Nada do que possamos fazer, vai acrescentar glória, poder e santidade a Deus, mais do que Ele já possui. Então, a única resposta que posso encontrar é a de que Deus criou o homem para um relacionamento de amor. o fez à sua imagem e semelhança, ser moral, ser inteligente, ser de decisão, correndo o risco de que, por sua liberdade, viesse até mesmo a rejeitá-lo, como de fato fez. Deus criou o homem para um relacionamento de liberdade e afeto. 1.2 Responsabilidade com a natureza – “Colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar…”.(Gn 2.15 ). Ao homem foi dada a responsabilidade de exercer, com prudência e zelo, o cultivo e a guarda da terra. Cultivo tem a ver com a relação de produção. Terra é fonte de riqueza, alimentação e extrativismo. Mas, mais do que isto, Deus nos colocou para guardá-la. A terra precisa ser protegida, amparada. O homem é mordomo da criação. Tem a responsabilidade de cuidar, administrar e proteger. Este é o mandato cultural, dado por Deus. Homem e mulher estão profundamente conectados com a terra. O homem, Adam, é formado da Adamã (palavra hebraica para terra). “Formou Deus o homem (Adam: ser humano) do pó da terra (adamã, ou terra cultivável) (Gn 2.7). O hebraico faz aqui um jogo de palavras, o mesmo processo ocorre em Gn 3.19, destacando o estreito vínculo entre o homem e a terra. Não considerar a natureza é desconsiderar nossa raiz. Agressão à natureza é agressão contra nós mesmos “Enchei a terra e sujeitai-a” (1.28). A má interpretação deste texto pode gerar abusos e prejudicar o equilíbrio da natureza. Existe, portanto, um mandato cultural e não apenas um mandato missionário (Gn 1.28). “Enchei a terra e dominai-a”. O mandato de missionar é dirigido aos perdidos e o mandato cultural, tem a ver com a graça comum, ciência e tecnologia, graça na família dos ímpios, sol sobre justos e injustos. Deus nos chamou para administrar com prudência e sabedoria, toda sua criação. O mau uso dos recursos naturais desembocam em auto destruição: Armas químicas, bombas atômicas, destruição dos rios e florestas, contaminação das fontes de água, agressão ao ecossistema. Tudo isto traz futilidade e escravidão à terra, conforme nos descreve Rm 8.22 Existe um mandato de Deus para que o homem cuide da natureza. Para John Stott afirma: “o mandato missionário deve surfar na onda do mandato cultural”. (ouça o mundo, ouça o Espírito). 3. Responsabilidade quanto ao outro - Como seres de relação, somos convocados por Deus para nos relacionarmos com o outro, afinal "nao é bom que o homem esteja só". Esta dimensão gregária faz parte da humanidade, e ao contrário do argumento de Caim, que nâo se vê responsável por seu irmão, o cuidado para com os seres humanos, deve fazer parte integrante de nossa missâo. O ser humano deve ser objeto de nossa consideração e cuidado. Por isto a fraternidade, a alteridade, a mutualidade, a idéia de comunidade, deve estar na nossa agenda. Sem esta dimensão da alteridade, perdemos o significado de nossa humanidade. Sem considerar o outro, nos tornamos bárbaros, conquistadores frios e desumanos. Uma das coisas maravilhosas que o derramamento do Espirito trouxe para a comunidade cristã primitiva, era este senso de ter tudo em comum, de partilhar, dividir. Conclusão: Alguns problemas teológicos precisam ser corrigidos: 1. Precisamos fazer teologia a partir da queda, não da criação. Não podemos começar a estudar o homem a partir de sua degradação e vileza, e sim a partir do seu valor intrínseco e da dignidade que lhe foi dada por Deus, quando o criou à sua imagem. Aqui começa a hermenêutica cristã e nossa antropologia. 2. Precisamos resgatar o conceito da graça comum. Deus deu ao homem a sua graça especial, que tem a ver com salvação. Nem todos homens conseguem crer e compreender o maravilhoso significado da redenção de Cristo na cruz. Esta é a graça especial concedida a alguns. Mas Deus deu a todos os homens a graça comum: A criatividade, inteligência, arte, talentos, ciência. Jesus afirma que Deus manda sol sobre justos e injustos. Tratamento igual até mesmo àqueles que o rejeitam e o desconsideram, sendo rebeldes e desobedientes. 3. Precisamos resgatar o conceito de vocação, que Lutero chamou de beruf. Tem a ver com as condições cotidianas da vida. Resgatar toda vocação como forma de cultuar a Deus é um grande desafio da igreja. Todas habilidades que possuímos devem ser usadas para minimizar a dor do homem e dar sinais do reino de Deus. Vocação é muito mais do que o serviço que você presta à sua comunidade local. Tem a ver com a compreensão de que nossos talentos e dons glorificam a Deus. Seja qual for a área que você trabalha, use o que você sabe fazer para promover a glória de Deus e minimizar o sofrimento humano, restaurando esta imagem destruída que a degradação moral e a rebelião contra Deus trouxeram à humanidade criada por ele.

Mc 11.27-33 A Autoridade de Jesus

Introdução: Nosso moderno mundo sofre crise de autoridade. A autoridade precisa de uma força por detrás de si, para que possa exercer seu ofício. Respeitamos os policiais, porque suas fardas os identificam como tal. Sua autoridade imposta pelo governo exige nossa submissão; há um pressuposto por detrás da autoridade. O Estado, fonte de autoridade, nomeia pessoas para exercerem ofícios sobre os cidadãos pela autoridade que lhes foi outorgada. Relendo o Evangelho de Marcos, fiquei deslumbrado com o número de vezes que este Evangelista tenta demonstrar a exousia (autoridade) de Cristo. Este tema de sua autoridade é muito comum nas cartas paulinas, mas assume uma nota marcante nos escritos de Marcos. Existe uma discussão muito clara em Marcos sobre a fonte da autoridade de Jesus, no cap. 11.27-33 Jesus não tenta responder a pergunta que os sacerdotes, escribas e anciãos lhe fizeram. Pelo contrário, força-os a refletir sobre a autoridade de João Batista, colocando-os numa situação de neutralidade condenatória. Jesus responde da mesma forma que eles, sem demonstrar interesse em discursar sobre a fonte de sua autoridade. Um dos temas recorrentes no Evangelho de Marcos é a autoridade espiritual de Jesus. Desde o inicio deste Evangelho vemos esta discussão em torno de sua pessoa. A primeira que surge este tema encontra-se em Mc 1.21-28, quando Jesus está ensinando as pessoas na sinagoga de Cafarnaum e os presentes percebem a diferença: “Maravilhavam-se de sua doutrina, porque os ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas” (Mc 1.22). Em seguida, um homem possesso de um espírito imundo aparece na sinagoga e Jesus repreende Satanás e a pessoa fica livre do demônio. “Todos se admiraram, a ponto de perguntarem entre si: Que vem a ser isto? Uma nova doutrina! Com autoridade ele ordena aos espíritos imundos, e eles lhe obedecem!” (Mc 1.27). A autoridade de Jesus se revela de diversas formas: 1. Sua autoridade se evidencia pela forma de ensino – Mc 1,22; 6.2-3 2. Sua autoridade se evidencia pela comunhão com Deus- Mc 1.35 3. Sua autoridade se evidencia pela sua ressurreição - Mc 16.5-6 4. Sua autoridade se confirma pelo confronto de poderes Mc 1.23; 1,39; 3.11-12; 4.6-10; 5. Sua autoridade se confirma pelos milagres – Mc 1.32-34 (curas); Mc 7.37; Mc 4.39-41 (intervenção na natureza); Neste texto, os sacerdotes (pastores e padres), escribas (teólogos e professores da bíblia) e os anciãos (presbíteros e lideranças da igreja), estão questionando-o com duas perguntas: (a)- Com que autoridade fazes estas coisas? (b) Quem te deu tal autoridade? Eles desejam saber sua fonte de autoridade e Jesus recusa-se a respondê-los, embaraçando-os com outras questões teológicas complexas. Por que Jesus não respondeu? 1. Jesus sabe que debates teológicos, na sua maioria, são tolas discussões – Ao descer do monte da transfiguração, depois de ter estado com Deuse experimentar o gozo da comunhão celestial, ele encontra um cenário propicio para o debate, e fugiu dele: a. A família fragmentada – o diabo estava destruindo a vida de uma criança e de sua casa; b. Os discípulos estavam desorientados e sem poder espiritual – (Mc 9.18-19). c. O diabo tinha controle da situação. A criança continuava oprimida e possessa da mesma forma; d. E os discípulos estavam debatendo e discutindo teologia com os escribas (Mc 9.14); Jesus sabe que, muitas vezes, discussões são meras distrações. Por isto não respondeu às perguntas que lhe foram feitas. Não tinha tempo a perder. Deus não quer responder questões filosóficas, como queriam Pilatos (Mc 15.5) e Herodes (Lc. 23.8-11). Para ambos ele não disse coisa alguma ao ser indagado. Reggie Joiner, em seu provocador livro: “Pense laranja” (São Paulo, Ed. Univ. da família, 2012, pg 38 afirma: “Quanto mais absurdo for o tópico discutido, maior será o número de presentes”. Francis Schaeffer afirma que “devemos dar respostas honestas a perguntas honestas”. O apóstolo Pedro instrui a igreja: “antes, santificai a Cristo em vossos corações, estando preparados para responder a todo aquele que pedir razão da esperança que há em vós”(1 Pe 3.15). Esta deve ser a atitude da igreja com pessoas honestas, no entanto, ao depararmos com pessoas que tratam com desprezo a Jesus, como fez Herodes, nossa atitude deve ser a mesma de Cristo. 2. Porque a autoridade de Jesus era espiritualmente conhecida pelos homens e pelos espíritos malignos - Sua vida era uma demonstração de autoridade. a. Sobre o corpo humano – através das curas que realizava; b. Sobre a natureza – através das intervenções e milagres; c. Sobre espíritos malignos. Que corriam para adorá-lo e que obedeciam às suas ordens Rev Antonio Elias, ao ser indagado o significado da palavra unção, respondeu: “uns são, outros não são!”. Jesus tinha acabado de enfrentar os vendilhões do templo, numa cena incomum, e só alguém que possuía grande autoridade moral poderia ter feito o que ele fez. Todos nós devemos nos recordar de cenas em filmes, quando uma pessoa de forte autoridade moral, desafia tanques e impérios, e ninguém consegue fazer nada contra ele. Isto é autoridade. É um Lutero, que na Dieta de Worms, desafia todo o opressivo sistema religioso de então, expondo sua vida, e sai ileso pela autoridade moral que possui. Quando os soldados vieram a Jesus para prendê-lo, ele se adiantou e se apresentou e os soldados “caíram por terra”(Jo 18.5-6), por causa de sua presença repleta de autoridade. Implicações da autoridade? 1. A autoridade de Jesus é a certeza que temos de estar protegidos espiritualmente de toda obra maligna. Um dos antigos pregadores da Igreja Presbiteriana do Brasil, presidindo seu Supremo Concílio entre os anos 1918-1920 (na época Assembléia Geral) foi Constâncio Homero Omegna. Certa vez, como pregador e missionário, chegou a uma pequena cidade do sul de Minas para distribuir bíblias e pregar. O padre da cidade e um fazendeiro, não gostaram daquela presenca, e o fazendeiro contratou um pistoleiro para matar o pastor. Como ele andava sempre numa mula branca, era alvo fácil. Naquele dia, porém, por uma intervenção divina, seu animal desembestou e fugiu pelo pasto. A pessoa que o hospedera, resolveu emprestar-lhe outro animal. Quando o pastor se aproximou da tocaia onde se encontrava o pistoleiro, este saiu de detrás do mato, e, sem saber que era o pastor, foi conversando com ele e lhe revelou que estava ali a mando de um fazendeiro para matar o pastor. O Rev. Homero, entao, lhe perguntou se ele sabia o que fazia o pastor, e a resposta foi negativa, então ele lhe apresentou o plano da salvação e o convidou para entregar sua vida a Jesus. É muito comum que espíritos malignos ameacem a vida do crente em jesus. Tais ameaças não se cumprem, porque sobre o povo de Deuspaira a autoridade de Jesus. Ele mesmo confortou seus discipulos dizendo: “Eis, aí vos dei autoridade para pisardes serpentes e escorpioes, e nada, absolutamente nada, vos causará dano”(Lc 10.19). Satanás nada pode fazer com o crente, a não ser que Deus lhe dê autorização explícita, como fez com Jó. A bíblia nos ensina que aquele que é nascido de Deus, é guardado e o maligno não lhe toca (1 Jo 5.18). A autoridade de Jesus é a certeza que temos de estar protegidos espiritualmente de toda obra maligna. 2. A autoridade de Jesus está sobre a igreja, não apenas para protegê-la, mas para a igreja exerça tal autoridade. Não se trata apenas de ser protegido, mas proteger outros, confrontar o inferno. Em Mc 3.14-15 lemos: “Designou doze para estarem com ele, os enviou a pregar, a exercer autoridade de expelir demônios” (Mc 3.14-15). Este é o ministério de confrontação que foi dado à igreja. Certo crente se viu na casa de uma família que invocava espíritos malignos e espíritos supostamente mediúnicos, por causa de suas convicções, se retirou, foi para o seu quarto, e começou a orar. O resultado foi que, naquele dia, nada aconteceu ali. O guia espiritual disse que alguma coisa saiu errada porque haviam forças de oposição no mundo espiritual. Oração, submissão a Deus, quebrantamento, confissão e perdão, são caminhos seguros para confrontarmos as trevas. O crente mais simples, estando submisso aos pés de Jesus, é capaz de confrontar os demônios mais renhidos. 3. Precisamos entender que esta autoridade de Cristo, foi conquistada na cruz, e é nossa garantia sobre eventos futuros – Jesus derrotou a Satanás, ele derrotou a morte. A narrativa bíblica sobre a batalha final, descreve Jesus tendo absoluto controle sobre as forças do falso profeta e do anticristo. Não há poder, na terra ou no céu, capaz de impedir o governo de Cristo e sua vitória. A batalha já está ganha, Jesus a garantiu ao triunfar sobre principados e potestades, na cruz (Cl 2.14-15). Em Mc 5 temos a narrativa do livramento de um endemoninhado em Gadara. O texto de Mateus afirma que os demônios disseram a Jesus: “Vieste atormentar-nos antes do tempo?”. Os demônios sabem que seus dias estão contados, e que o destino final das trevas é o lago de fogo e enxofre, onde se encontram a besta, o falso profeta e o anticristo (Ap 20). Todas as coisas estão debaixo dos pés de Cristo (1 Co 15.27), embora ainda não vejamos todas as coisas a ele sujeitas (Hb 2.8), mas sua autoridade demonstrada na sua vida, na realização dos milagres, nas intervenções sobrenaturais e nas curas; e na sua morte, pela sua vitória na cruz, são a garantia de que tais promessas e autoridades serão para sempre, afinal “Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e será para sempre”(Hb 13.8).

Mc 11.12-14; 20-24 O Poder da Fé

Introdução: Este texto causa estranheza. Jesus amaldiçoa a figueira por não ter frutos, mas não era tempo de frutos. Eu não posso cortar o pé de mangas em minha casa, se procuro frutos no mês de Maio e não encontro, afinal, na nossa região, as mangas produzem na época das chuvas, entre Novembro- Março. A figueira não tinha frutos, porque não era tempo de frutas, portanto, não havia nada de errado com a figueira. No entanto, Jesus a amaldiçoa e ela seca. Ao lermos o texto nesta perspectiva, perdemos a essência da lição que Jesus queria deixar aos seus discípulos. A ênfase de Jesus não se encontra na figueira, e sim no poder da fé. Pedro comete o mesmo erro, porque no outro dia, ao ver a figueira seca, ele cita o incidente do dia anterior (vs 20,21), mas Jesus não dá ênfase nisto, antes volta para o cerne da lição que queria deixar: O Poder da Fé. (vs 22,23). A figueira, portanto, é apenas uma lição de objeto que Jesus utiliza para ensinar alguma coisa muito mais profunda. Jesus procura ensinar aos seus discípulos alguns princípios maravilhosos sobre a Fé: 1. Jesus ensina que a fé (algo imaterial) age sobre os elementos físicos (material) – Jesus aponta para o fato de que a fé tem o poder de materializar-se. “Fé é a certeza de coisas que se esperam e a convicção de fatos que se não vêem” (Hb 11.1). Uma tradução mais contemporânea afirma que “fé é a substância das coisas que se esperam”. Por esta razão, a fé age em realidades secundárias, gerando transformações. Jesus afirma: “Porque em verdade vos afirmo que, se alguém disser a este monte: Ergue-te e lança-te no mar, e não duvidar no seu coração, mas crer que se fará o que diz, assim será com ele”(Mc 11.23). É a fé se tornando concreta e agindo nos elementos físicos, gerando transformações e mudando realidades. Não se trata do poder da fé na fé, mas a fé colocada em Deus. Não é fé sem objeto. Jesus afirma ainda: “Tudo quanto em oração pedirdes, crede que recebestes, e assim será convosco”. A fé se apossa de algo não existente, e isto se realiza. “Por isso, vos digo que tudo quanto em oração pedirdes, crede que recebestes, e será assim convosco” (Mc 11.24) Jesus não disse: “crendo, recebereis”, antes, “crede que recebestes”. A fé toma posse por antecipação de algo que ela espera. O que distingue homens de fé é esta capacidade de materializar as coisas que ainda se encontram apenas no mundo das idéias. Veja o exemplo de Abraão. Por que ele foi chamado Pai da Fé? Porque ao ouvir a palavra de Deus, ele se apossou desta verdade, e agiu baseado nesta promessa. “Abraão, esperando contra a esperança, creu, para vir a ser pai de muitas nações, segundo lhe fora dito: Assim será a sua descendência” (Rm 4.18). Não havia nenhuma razão concreta para ele crer. Os fatos não estavam a seu favor. “E, sem enfraquecer na fé, embora levasse em conta o seu próprio corpo amortecido, sendo já de cem anos, e a idade avançada de Sara, não duvidou, por incredulidade, da promessa de Deus; mas pela fé, se fortaleceu, dando gloria a Deus” (Rm 4.19-20). Ele sabia da dura realidade de seu corpo, já amortecido, no entanto, se assenhoreou do que Deus havia dito, e pela fé viu a promessa se concretizando em sua vida. Existem duas variáveis perigosas todas as vezes que falamos sobre este assunto, e elas se refletem de forma direta nos púlpitos de nossas igrejas. Por um lado, vemos um grupo que acha que as coisas dependem apenas delas, independentemente da vontade de Deus. E que elas decretam a Deus, e as coisas vão acontecer porque eles usaram a palavra de autoridade e porque crêem, as coisas se concretizam e milagres acontecem. O ministério Palavra da Fé, que teve em Valnice Milhomens, um de seus grandes ícones no Brasil, usou e abusou deste conceito. No entanto, estas teorias não foram formuladas por pessoas cristãs, mas pela seita Ciência Cristã, nos Estados Unidos, fundada por Mary Bakker Eddy. Muitos líderes pentecostais enveredaram e propagam estes princípios, incluindo ai o conhecido pregador coreano, David Yong Cho, no seu livro “A Quarta Dimensão”. Deus é Soberano, e as coisas não acontecem porque eu decreto ou ordeno a Deus, mas porque curas e milagres fazem parte do reino de Deus e Deus nos abençoa com tais experiências. Não depende apenas do que ora, mas do plano de Deus em agir assim. Muitas pessoas não foram curadas em Israel nos dias de Jesus. Paulo não foi curado de uma enfermidade, embora tivesse pedido a Deus que removesse seu espinho na carne. Neste caso Deus apenas lhe disse: “A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza”, e Paulo continuou doente, apesar de ter sido usado por Deus em tantas curas de outras pessoas. Por outro lado, pessoas que tem dificuldades de ousar na fé e exercitá-la. Esta atitude é muito comum entre os mais tradicionais. Tais pessoas temem orar por algo grande, colocam limitação ao poder de Deus e recuam quando existem grandes desafios, sem ousar em relação às dificuldades que surgem. Torna-se uma comunidade tímida, que poderia estar experimentando muito mais das bênçãos de Deus, pelo exercício e prática da fé simples encorajada por Jesus a todos que se aproximavam dele, e especialmente neste texto, quando procura ensinar aos seus discípulos tais verdades. Dois exemplos bíblicos me desafiam quanto a isto: Primeiro, a experiência de Jacó relatada em Gn 32, que ao “lutar com Deus”, tem a ousadia de dizer: “Eu não te deixarei se não me abençoares”. Parece-me uma atitude extremamente ousada para quem encontra-se numa relação com Deus, no entanto, sua persistência e perseverança parecem ser a causa de sua vitória espiritual contra seu caráter dúbio e desonesto. Outro exemplo é a parábola contada por Jesus, sobre a viúva pobre, que recebe o que busca, por causa de sua insistência incômoda de não desistir de lutar por sua causa. Jesus conta esta parábola, no contexto de nossas orações. Será que realmente ele estava nos encorajando a orar e a buscar de Deus aquilo que é “justo” para nossa vida. Se assim não é, o que ele estaria sugerindo? Ao estudar este texto, fiquei sobressaltado com meu coração, e orei a Deus: “Senhor, provavelmente nunca encontraremos o equilíbrio entre estas duas polaridades, mas não me deixe viver aquém de suas promessas, sem exercitar a minha fé”. Rev Antonio Elias foi um avivalista da Igreja Presbiteriana do Brasil, abençoando por anos muitos pregadores e toda uma geração. Certa vez, um jovem pastor de Uberlândia o procurou, lamentando que estava orando por sua mãe há muitos anos, mas ela nunca se rendera a Jesus. Então, com sua costumeira atitude, ele perguntou ao jovem: “Você realmente crê que Deus pode mudá-la?”. E ele respondeu: “Às vezes sim, às vezes não!”. Então o Rev. Antonio Elias pediu que ele parasse de orar e pedisse a sua igreja para orar por ele. No mês seguinte, sua mãe se decidiu por Jesus. 2. Jesus ensina que a fé potencializa os recursos – Muitas vezes temos poucas vitorias porque não exercemos esta potencialidade presente na fé. Vivemos uma fé pobre, sem ousadia, intrepidez e sem vermos manifestações de Deus em nossa vida, porque não cremos que Deus possa intervir na história. George Muller foi um dos homens mais fascinantes na vida de oração. Ele tinha um grande orfanato em Bristol, Inglaterra, e conta-se que certa vez, ele não tinha o café da manhã para dar às crianças, mesmo assim, as colocou assentadas, e agradeceram o alimento. Poucos minutos depois, alguém bateu na porta, era o leiteiro dizendo que não teria tempo hábil de entregar o leite na cidade e resolveu entregar no orfanato. Em seguida, o dono de uma padaria local, trouxe muitos pães, que segundo ele, haviam torrado um pouco e não serviam para serem comercializados, e ele resolveu trazê-los para o orfanato. Meu sogro, Rev. Samuel José de Paula, estava construindo o templo em Registro-SP. Até que o prédio chegou num ponto em que precisava colocar as portas, porque senão, vândalos entrariam e danificariam a construção. Procurou um comerciante amigo dele, e comprou as portas, comprometendo-se a pagar numa data especifica. O dinheiro esperado, porém, não apareceu, e meu sogro, no dia marcado para o pagamento, foi até a loja e brincou com o dono dizendo que ainda não tinha o dinheiro, mas que o dia só acabava a meia noite. Uma mulher, amiga da família, resolveu fazer a Registro, tomaram café, conversaram, mas meu sogro nada falou de sua dificuldade, apenas compartilhou o projeto do templo. Na saída, aquela senhora resolveu deixar uma oferta, e preencheu um cheque com o valor exato da dívida que ele tinha com o japonês, Sr. Toyo Kenchi, dono daquela loja de construção. 3. Fé exercitada gera temor e adoração – Em Mt 21.18-22 encontramos o texto correlato ao de Mc 11.12-14. em Mt lemos: “Vendo isto, os discípulos admiravam-se”(Mt 21.20). Experiência de fé gera espanto, admiração e louvor a Deus. Estas experiências de fé geram profundo impacto em nosso coração. Minha mãe estava ainda no inicio de sua vida crista, em Conceição do Ipanema-MG, pequena cidade interiorana quando uma conhecida veio aos prantos trazendo seu filho de 3 anos, com tétano, numa cidade que não tinha hospitais ou médicos, e a criança já apresentando espasmos. A única alternativa era a oração, e foi o que fizeram. Aos poucos a criança foi sendo restaurada e sai daquele quadro angustiante e foi curada. Os discípulos estão espantados com a figueira, mas Jesus apenas utiliza a figueira para ensinar princípios muito mais profundos e duradouros: “Em verdade vos digo que, se tiverdes fé e não duvidardes, não somente fareis o que foi feito à figueira, mas até mesmo, se a este monte disseres: Ergue-te e lança-te ao mar, tal sucederá”(Mt 21.21). Jesus ensina aos discípulos o poder da fé. Quando eles compreendem o que está acontecendo são tomados de adoração e admiração. O que está acontecendo na sua vida que precisa de um milagre? Não estou falando de causas possíveis através da medicina e de seus recursos, mas realmente algo que, se Deus não intervir, você não obterá vitória? “...tudo quanto em oração pedirdes, crede que recebestes, e será assim convosco” (Mc 11.24). Pelo menos por 3 vezes na Bíblia, Deus fala com seus servos para não esbarraram nas coisas impossíveis, mas os desafia a crer a despeito de qualquer evidencia, mesmo contra a esperança. Numa destas ocasiões foi com Abraão. Sara já tinha 90 anos, e quando ouviu a noticia de que engravidaria, naturalmente riu, não de alegria, mas de incredulidade. O próprio Abraão riu tanto a ponto de colocar seu rosto em terra (Gn 17.17). o que Deus lhes disse? “Acaso, para o Senhor há cousa demasiadamente difícil?”(Gn 18.14). Após a murmuração do povo no deserto, Deus prometeu que daria carne para 2 milhões de pessoas, não apenas um dia, mas um mês inteiro. Moisés esbarra na sua lógica administrativa. “Matar-se-ão para eles rebanhos de ovelhas e gados que lhe bastam ou se ajuntarão para eles todos os peixes do mar que lhe bastem?” (Nm 11.23). o que Deus responde: “Porém o Senhor respondeu a Moisés: Ter-se-ia encurtado a mão do Senhor?”(Nm 11.23). Maria enfrenta a mesma situação, adolescente ainda, se preparando para o casamento, ouve a afirmacao do anjo de que ela estava grávida. Sua lógica se antecipa: “como será isto, pois não tenho relação com homem algum?” (Mt 1.34) e Deus lhe responde: “Porque para Deus não haverá impossíveis em todas as suas promessas”. Conclusão: A falta de fé impede milagres. A Bíblia afirma que em certas cidades Jesus não pode operar milagres por causa da incredulidade dos seus moradores. Boa parte dos milagres que aconteciam às pessoas, Jesus os associava ao poder da fé. Mulher hemorrágica – “E ele lhe disse: Filha, a tua fé te salvou; vai-te em paz e fica livre do teu mal”(Mc 5.34). Mulher Siro-fenícia – “Por causa desta palavra, podes ir; o demônio já saiu de tua filha” (Mc 7.29). Pai do menino possesso – “Se podes! Tudo é possível ao que crê!” (Mc 9.23). O cego Bartimeu – “Então Jesus lhe disse: Que queres que eu te faça? Respondeu o cego: Mestre, que eu torne a ver. Então Jesus lhe disse: Vai, a tua fé te salvou. E imediatamente tornou a ver e seguia Jesus estrada fora” (Mc 10.51,52). Você tem exercitado sua fé? “Não duvidar em seu coração, mas crer que se fará o que diz, será com ele” (Mc 11.23). você lê estas promessas racionalizando e se justificando, ou crendo? Eu não tenho nenhuma dificuldade em entender o que este texto está nos ensinando, mas admito uma enorme dificuldade em colocar em prática tal verdade. Nosso pecado número 1 é a incredulidade. Os discípulos foram mais censurados pela falta de fé do que por qualquer outro pecado. Por isto Jesus estava sempre insistindo: “Não temas! Crê somente”.