segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Sl 142 Tira a minha alma do cárcere

Introdução:
Já estive em cadeias para visitar presos. Vi e conversei com pessoas subjugadas, profundamente angustiadas com sua situação e com os medos e culpas decorrentes de atos deliquentes praticados. Mas neste ambiente de trevas e abandono, desolação e limitação, encontrei gente livre, cujo coração estava encontrando Deus e sendo tratado pela misericórdia celestial.

Por outro lado, tenho encontrado diariamente pessoas vivendo em liberdade, mas acorrentadas na alma. Jean Jacques Rousseau, no seu famoso livro, O Contrato Social, afirma que “o homem é um ser livre, mas por toda parte encontra-se a ferros”.

Neste texto, o salmista faz uma oração pesada: “Senhor, tira a minha alma do cárcere”. Ele se sentia aprisionado e profundamente angustiado. A alma queria voar mas não podia, os sentimentos estavam aprisionados e a vida estava presa a cadeias que impossibilitavam qualquer caminhada rumo à liberdade.

Clarice Lispector parecia estar vivendo esta realidade quando escreveu o seguinte soneto:

Não sei perder minha vida
Não sei qual a minha culpa mas, peço perdão.
A luz do farol revelou-os tão rapidamente que não puderam ver.
Peço perdão por não ser uma "estrela" ou o "mar"ou por não ser alegre
mas coisa que se dá.
Peço perdão por não saber me dá nem a mim mesma,
para me dar desse modo a minha vida se fosse preciso
mas, peço de novo perdão
não sei perder minha vida.

Ter a alma no cárcere é uma experiência de muito sofrimento. “O homem pode suportar as desgraças, elas são acidentais e vêm de fora: o que realmente dói, na vida, é sofrer pelas próprias culpas” (Oscar Wilde)

O que encarcera a alma?

1. Conceitos e ideologias – Pressupostos filosóficos podem transformar a vida das pessoas num verdadeiro inferno, porque elas realmente crêem em seus valores e vivem em função deles. Uma pessoa de “extrema direita” ou “esquerda” pode matar alguém pelo mero fato de pensar diferente. Não são capazes de discutir a idéia, porque estão sobremaneira encharcados de uma cosmovisão que não admite que o outro pense de forma diferente. A história está farta de exemplos como este. Seja por uma concepção política, moral ou religiosa.

2. Sistemas políticos – Pessoas aprisionadas por poderes tirânicos, onde não há liberdade de expressão, são dominadas por sistemas ditatoriais vivendo em tormento porque estão sob constante ameaça. Imagine morar próximo ao grupo radical Estado Islâmico, que atualmente age no Iraque, Síria e Turquia. Ou nas proximidades do Boko Haram, na Nigéria. Ou sob ditaduras como a de Idi Amim Dada, na Uganda; ou recentemente na Coréia do Norte, onde todos os passos dos cidadãos são controlados por militares e pelos aliados ao Estado. Um simples comentário seu pode se tornar sua sentença de morte. Líderes mundiais quando estão aprisionados por sistemas, também estão aprisionados pela hermenêutica que fazem da vida, sejam qual for sua posição, passam a enxergar na oposição inimigos que precisam ser destruídos. Sua ideologia torna-se maior que qualquer princípio moral, inclusive o da vida. Pense nos radicais nazistas... Ou nas ditaduras de esquerda... Ou na direita... Quantos estragos trouxeram à humanidade. Pessoas assim estão aprisionadas.

3. Medo – Muitos estão aprisionados por paranóias, sendo dirigidos por sensações de ameaças, da morte, do futuro, do inferno, ou medos imaginários. Viver debaixo do estigma do medo é pavoroso, quem já passou por “síndrome de pânico”, sabe muito bem do que estou falando. O medo é o sentimento mais citado na Bíblia a expressão “Não temas!” ou correlata, surge 365 vezes: Uma para cada dia do ano. Deus sabe como o medo aprisiona. Hb 2.14 afirma que Cristo veio livrar aqueles que viviam sob o pavor da morte.

4. Religiosidade Falsa – Este grupo é formado por pessoas que colocam sua confiança em deuses falsos, mentiras religiosas e pressupostos espirituais equivocados. Provavelmente a afirmação de Jesus sobre a verdade, fizesse uma referência a isto: “conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8.32). Em 1993, 39 pessoas se suicidaram coletivamente, porque acreditavam que a morte as liberaria para penetrarem numa grande cauda de uma nave espacial que tinha o formato de um cometa.

5. Doenças e enfermidades – Existe muitas doenças como depressão, síndrome de pânico, ansiedade fóbica e paranóia, que geram desequilíbrio nas emoções. Dentro destes quadros, a realidade dos fatos é facilmente distorcida, surgem muitos sentimentos persecutórios, culpa, dificuldade de movimento e ação. Eventualmente tudo passa a ser visto sob o prisma do medo, e um desejo inconsciente de morte. É muito dolorido viver com tais enfermidades na alma. Grandes homens cristãos, como Charles Spurgeon e Martinho Lutero, lutaram muito contra tais sentimentos.

6. Incapacidade de perdão – Em Mt 18.34, Jesus fala que pessoas incapazes de perdoar, tornam-se vitimas dos torturadores (outra tradução fala de atormentadores). O ódio é mau conselheiro, destrói aquele que o possui e mantém a pessoa incapaz de avançar na vida. Lair Ribeiro, que deve ser lido com muito cuidado, afirma que “perdão, antes de ser um ato de amor, é um ato de inteligência”. Optar pela amargura é optar pela prisão existencial e auto-destruição.

7. Ação demoníaca – Em Mc 5, vemos a libertação do endemoninhado gadareno. Este homem vivia atormentado, andando no meio dos sepulcros, nu, ferindo-se, e nem mesmo cordas conseguiam prendê-lo. Jesus atravessou o Mar da Galiléia, no meio de um temporal, para libertar a vida deste homem que se encontrava cativo de uma legião de demônios. A graça de Deus o alcançou e ele ficou completamente livre do seu mal. Satanás consegue manter pessoas aprisionadas por opressão, obsessão e possessão – mecanismos complexos porque eventualmente são interpretados por distorções psiquiátricas, mas cuja etiologia é espiritual. Na verdade, em nenhum dos outros pontos citados anteriormente, podemos ignorar o poder do diabo. Nem tudo é obra do diabo, mas não podemos ignorar seus desígnios. Ele opera nas mentes e emoções das pessoas para privá-las de alegria e aprisioná-las.

Quando estamos encarcerados...

A alma encarcerada emite alguns sinais.

A. Dificuldade em agradecer - O salmista que pede a Deus que “liberte sua alma do cárcere”, justifica seu pedido: “Para que eu dê graças ao teu nome” (Sl 142.7). Gratidão surge do reconhecimento de que algo bom recebido. Pessoas aprisionadas, não conseguem agradecer. Gratidão é o amor contemplando o passado, como bem definiu Moacir Bastos, mas pessoas aguilhoadas tendem mais a entrar numa espiral de murmuração, ressentimento, raiva e ira que de celebração e gratidão. O Salmista Davi quer sair deste movimento auto-destrutivo, para “dar graças ao nome de Deus”.
Neste sentido, reconhecer o amor e a soberania de Deus, mesmo nos momentos mais doloridos, traz enorme liberdade de alma. S. João crisóstomo declarou: “Para o enfermo e de espírito quebrado, mesmo a mais saborosa comida é sem gosto, amigos e relacionamentos se tornam um peso”[1]

B. Tribulação – O Salmista afirma que orava ao Senhor com súplicas, por causa da sua “tribulação” (Sl 142.2). Pessoas atribuladas vivem sob o espectro dos fantasmas e dores. O problema de nossa dor pessoal é que geralmente focamos nos inimigos errados. A tribulação gera obnubilação do entendimento e da percepção. “Escolha o inimigo certo. Todos esses anos venho combatendo o inimigo errado”[2]

C. Espírito esmorecido – “Dentro de mim me esmorece o espírito”(Sl 142.3). O salmista com sua alma no cárcere, sente dificuldade em viver. Esmorecido é a pessoa que perdeu o brilho, cujo ânimo, palavra sugestiva, que vem de anima, (vida), se perdeu. Davi percebe que o prazer de viver, de ser gente, de amar, comer, celebrar, se perdera em algum momento de sua história. Seu espírito se esmoreceu.

D. Solidão – O salmista percebia que o seu estado emocional afastava as pessoas, por isto afirma: “os justos me rodearão, quando me fizeres este bem” (Sl 142.7). Não é fácil viver com pessoas deprimidas, angustiadas, tristes. Ele deseja sua cura, para que voltasse a alegria, os amigos, a celebração. Para que pessoas amadas sentissem prazer em estar ao seu lado, rodeando-o.

E. Sentimento de impotência – “Atende o meu clamor, pois me vejo muito fraco” (Sl 142.6). Falta força para lutar, para sonhar, trabalhar, amar, adorar. O problema é maior que nós. Faltava entusiasmo. Esta palavra vem do grego e significa ter um DEUS dentro de si. (En+ theos). Só pessoas entusiasmadas são capazes de vencer desafios do dia a dia. Ela acredita na capacidade de transformar a própria realidade. Alguém afirmou que “não é o sucesso que traz o entusiasmo, é o entusiasmo que traz o sucesso”.

Buscando libertação...

Este texto nos fala de alguns caminhos que podem nos ajudar rumo à cura.

i. Antes de mais nada, precisamos entender que pessoas que amam a Deus, também passam por períodos de angústia.

Quem está passando por toda esta angústia é Davi, o homem segundo o coração de Deus. Ele é um uma pessoa temente a Deus, um homem que ora. Apesar de buscar a Deus, sua tendência à melancolia estava sempre presente nos seus escritos e salmos de lamento. Davi é um ser humano, com potencialidades e sombras, e que possui predisposição para esta doença que era antigamente diagnosticada como melancolia. Grandes homens de Deus também experimentaram estes períodos de melancolia.

ii. Aprender a maravilhosa, sobrenatural e abençoada arte de falar com Deus.

Esta foi a experiência de Ana. “Venho derramando minha alma perante o Senhor, porque sou mulher atribulada de espírito” (1 Sm 1.15). Que benção poder falar com Deus, levar nossas dores e lamentos àquele que nos ama. Davi sabia das lutas que enfrentava, era realista com sua história, mas também sabia para onde correr. Foi ele quem afirmou: “Deus é nosso refugio e fortaleza, socorro bem presente nas tribulações”. Muitas vezes já me perguntei o que faz o homem ímpio quando o dinheiro dele não resolve? Quando os médicos dão um diagnostico irreversível? Quando as tragédias lhe abatem? O homem de Deus tem “refúgio”, lugar onde se abrigar das tempestades. O homem de Deus encontra em Deus sua fortaleza, para se esconder durante a guerra, das setas e ameaças do inimigo, mas para onde vai o homem sem Deus?

iii. Saber que Deus conhece todas as nossas veredas – (Sl 142.3). Um antigo negro espiritual diz o seguinte: “Ninguém conhece os problemas que eu tenho visto, ninguém, exceto Cristo”. Quem conhece nossa dor? Quem distingue o sofrimento interno que tantas vezes nos confronta?


É muito curiosa a descrição de João, quando Jesus chega ao Tanque de Betesda. “Vendo-o Jesus, deitado e sabendo que estava assim há muito tempo, perguntou-lhe: Queres ser curado?”(Jo 5.6). Jesus nunca havia falado com aquele homem, mas conhece sua realidade, sua angústia. Deus conhece nossas aflições. Quando Agar estava fugindo de Sara, com a anuência de Abraão, viu-se no deserto, sem direção, sem socorro. Mas Deus lhe providencia água, e Agar se espanta com a presença de Deus: “Na verdade tu és Deus que vê”. Deus estava com ela naquele tórrido e solitário deserto.

iv. Saber que há refúgio em Deus – “O Senhor é minha rocha e meu alto refúgio” (Sl 142.5).

Em 1 Sm 30, Davi enfrenta uma situação de grande calamidade.
Enquanto foram para a guerra, os inimigos invadiram Ziclague, a cidade onde ele morava, levando todos os bens, esposas e filhos. A angústia foi tão grande que até os seus amigos o acusaram de ser o culpado por tão grande tragédia. Davi sentiu-se só, e desolado foi buscar o Senhor. A Bíblia diz que depois de ter buscado a presença de Deus, ter sossegado sua alma diante do Eterno, Ele “se reanimou no Senhor”. Seu entusiasmo vinha de Deus. A situação não havia mudado, mas seu sentimento sim.
Com Deus há solução. Davi não se reanimou de forma carnal, nem procurou entretenimento, mas buscou seu refugio em Deus, foi derramar sua alma perante o Senhor, buscou abrigo na oração. Ele se dirigiu a Deus e “se prostrou” diante dele, e se fortaleceu no Senhor (1 Sm 30.6) Este é o oásis! Com Deus há solução.

Conclusão:

Qual é o estado de ânimo de sua alma? Sentindo-se encarcerado, vendo as coisas de dentro de um cubículo fechado, sem poder contemplar o dia ensolarado, mofando numa cela da solidão, da culpa, da raiva, do ódio?
Não sabemos qual era a situação de Davi, mas ele sabia que não era boa. Ele se sentia encarcerado. Ele clama a Deus para que tire sua alma do cárcere. Seja qual for a realidade, estar com a alma aprisionada não é algo bom.
Davi busca o Senhor. Ele se prostra diante de Deus. Ele lhe dirige suas súplicas.
Talvez por que já tivera outras experiências anteriores que demonstraram como Deus era bom, como buscar a Deus era uma experiência de libertação.
Que Deus o ajude a sair deste encarceramento e prisão que hoje o atormenta.
Que sua alma possa experimentar libertação naquele que pode nos libertar.
“Se o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (Jo 8.31). Existe uma liberdade que o Filho de Deus pode dar. O Filho tem poder de tirar nossa alma do cárcere.




[1] S. João Crisóstomo (347-407 a.D) do sermão: A loucura da conquista da cruz. Livro: “Great sermons from master preachers of all ages”.

[2] Irvin , Yalom D., Quando Nietzsche chorou, Ediouro, Rio de Janeiro, 1992, pg 368


domingo, 15 de fevereiro de 2015

Sl 23.1 Nada me faltará


Introdução:

Este Salmo é talvez o mais conhecido texto de toda bíblia sagrada, e sem duvida, o centro de seu ensinamento é a figura do pastor, por isto é chamado de “O Salmo do bom pastor”.

Davi conhecia muito bem a realidade das ovelhas nos pastos da Judéia. Ele sabia de suas necessidades básicas porque foram pastor durante muitos anos. Todo expertise dele surgiu da experiência do trabalho transmitida pelo seu pai, Jessé, e da vivencia com o rebanho. Ele não falava de algo distante e teórico como falamos.
Ovelha tem algumas características conhecidas:

ð      Ovelha é um animal frágil por natureza - Sua defesa e muito pequena, por isto não pode ser criada sem pastor. Pastor fora do aprisco, perde-se facilmente, é presa fácil de lobos e outros animais. Ovelha não vive sem a presença do pastor;

ð      Ovelha tem muito pouco senso de direção – Desorienta-se facilmente nos montes. Por isto segue o pastor, e não estabelece sua própria jornada

ð      Ovelha cria relação profunda com seu pastor – Jesus fala que suas ovelhas ouviam a sua voz e o seguiam. Ovelhas são orientadas pelo timbre de voz, assovio, e chamada do pastor. Se estão juntas com outro rebanho, quando o pastor se levanta, elas seguem atrás. Não seguirão a voz de outros estranhos.

ð      O lado negativo é que ovelhas são teimosas. Quando querem ir numa outra direção, o pastor usa a vara para puni-las e trazê-las para perto. O castigo é a forma de orientar a caminhar com o restante do grupo.

Este texto nos fala que o pastor não nos deixa faltar nada. Absolutamente nada. O que vem a seguir, é a descrição de todas as coisas que, como ovelhas, podemos encontrar em Deus:

A.       Não nos faltará relacionamento – “O Senhor é meu Pastor” – Davi vai demonstrar o que o pastor providenciará na narrativa do texto, mas a primeira coisa que ele afirma é que o “O Senhor é meu pastor”. Ele é meu. Eu sou dele. Existe relacionamento de afeto, de identidade. Não somos coisas, abandonadas à própria sorte.

B.       Não nos faltará Isso é provisão – “Nada me faltará”. Agora ele fala do que temos em Deus. A segurança de que, com sua presença, nada vai nos faltar. Vivemos muitos ansiosos, com muito medo de que o que precisamos venha a faltar. Mas Davi afirma seguro: Porque ele é meu pastor, nada me faltará. Ele me fará andar em pastos verdejantes, com saciedade, sem passar fome.

C.       Não faltará paz – “Leva-me para junto das águas tranquilas”. Não são águas tumultuadas e turbulentas, mas ele me faz caminhar em segurança. “Não sei o que me aguarda no futuro, mas sei quem me aguarda no futuro”.

D.      Não faltará serenidade – “Refrigera-me a alma”. Isso é saúde e cura. Apesar do turbulento mundo, com suas violentas explosões de ódio, não me faltará serenidade, porque minha alma será refrigerada, no meio do calor da provação e dor.

E.       Não me faltará orientação – “Guia-me pelas veredas de justiça”. O bom pastor não nos deixará enveredar pelas rotas amargas da injustiça. Ele vai me guiar por estas “veredas”, que são caminhos estreitos, ser justo é caminhar por veredas, e ali, neste caminho, ele vai me orientar.

F.       Não me faltará consolo – “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte”. A presença do pastor não impedirá que atravessemos este duro vale, mas ele garante que estará conosco nesta travessia. Neste lugar de sombras escuras, pouca luminosidade, seremos capazes de distinguir sua presença.

G.      Não faltará segurança – “Não temerei mal nenhum”. A emoção mais descrita na Bíblia é o medo, e segunda é ira, que aparece 515 vezes. Como somos propensos ao medo... é fácil nos sentirmos ameaçados ao passarmos pelas sombrias e escuras rotas da vida. O Salmista diz que não terá medo, não porque as circunstâncias estão tranquilas, mas porque ele sabe que seu pastor está ali ao seu lado. Sua presença traz segurança e proteção.

H.      Não nos faltará companhiaPorque tu estás comigo”. Nestes lugares e cenários mais tenebrosos. Deus está conosco.  Este pastor não sai correndo deixando para trás sua ovelha. Onde você pensa que Deus está quando você está passando pelas suas noites mais sombrias e diante das noticias mais doloridas?

I.        Não nos faltará disciplina e consolo – “a tua vara e o teu cajado me consolam”. Dois instrumentos inseparáveis do pastor são citados aqui. Vara era um pedaço de madeira, que servia para orientar ovelhas fujonas, e bater nelas, se necessário, para voltar a caminhar com o grupo. O cajado tinha outra função. Era uma madeira, que tinha uma volta no final, e servia para trazer ovelhas que tinham caído no despenhadeiro. A vara  disciplinava, o cajado amparava.

J.        Não faltará honra e dignidade – “Preparas-me uma mesa, na presença dos meus adversários”. Esta é uma figura estranha, não é? Normalmente gostamos de preparar uma mesa com nossos amigos, e não com nossos opositores. Esta afirmação, porém, revela que Deus vai nos exaltar diante da injustiça e perseguição. Vai permitir que mesmos os inimigos vejam sua graça, diante de uma mesa farta.

K.       Não faltará unção – “Unges-me a minha cabeça com óleo, e meu cálice transborda”. Unção tem a ver com consagração. Deus vai fazer meu coração e mente transbordarem da sua benção e de sua unção e graça maravilhosa. Esta unção também se refere a algo que transborda, aponta para a abundância de sua benção e de seu espírito, na minha vida.

L.        Não faltará benção – “Bondade e misericórdia me seguirei, todos os dias da minha vida”. Não se trata de uma experiência isolada, esta é a realidade das ovelhas do Senhor. Deus é bom, sua bondade se revelará sempre em minha vida. Deus é misericordioso, e esta maravilhosa benção será sua marca em meu coração.

M.     Não faltará segurança eterna – “E habitarei na casa do Senhor para todo sempre”. Não estamos caminhando para a desesperança, mas para habitarmos com nosso pastor, “para todo o sempre”. Sua benção não se limita a esta vida, mas segue por toda eternidade

Conclusão:

A grande questão é saber se somos ovelhas. 

O problema é que temos uma tendência leonina ao invés de ovinos.  Deixe-me considerar como uma ovelha rebelde vai viver, apesar de todas as promessas deste amado pastor.

Ela vai viver ansiosa – não sabe o que lhe acontecerá. Ela é insegura. Apesar de todas as promessas. Ela acha que tem que controlar tudo, não confia na proteção do pastor.

Ela vai viver com medo – Não consegue controlar os eventos, e não confia no seu pastor. O desespero será seu conselheiro. Medo de ficar pobre, de ficar só, da morte, medo do medo, do imprevisto.

Ela vai viver insegura...

Ela vai seguir outras vozes. Além do pastor, existe outros sons que a atraem, ela vive dividida. Ela não tem uma visão certa de Deus. “O Senhor é meu pastor”. Não apenas Senhor, nem apenas pastor. É “Senhor” por que relativiza o poder dos fortes, põe a mesa na presença dos inimigos, faz-nos atravessar vales sombrios, manifesta seu poder. É “pastor”, refrigera as maiores aflições, ilumina os caminhos mais escuros, segue conosco nas crises e leva-nos a pastos verdes.


Com este pastor, nada nos faltará

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Jó 42.7-17 Sua história pode mudar


Introdução:

A pior coisa que pode acontecer para um ser humano é a perda da esperança. Quando ele entrega os pontos, quando desiste de si mesmo, de lutar pela sua vida, saúde e projetos.

Jó era um forte candidato à desistência.

Afinal de contas, ele perdeu todas as coisas: família, bens, amigos, respeito e saúde. Sua vida virou cinzas. Até mesmo Deus parecia ser adversário e opositor, várias vezes ele questiona a indiferença de Deus (Jó 30.20); a crueldade de Deus (Jó 30.21; 34.12); a injustiça de Deus (Jó 30.26) e a oposição de Deus (Jó 30.19; 33.10). O salmista diz: “Deus é meu refugio e fortaleza, socorro bem presente nas tribulações”, mas para Jó, Deus não se parecia com refúgio (não tinha confiança em correr para ele e se esconder nele); e nem fortaleza (se sentia fragilizado diante do Eterno).
Apesar de todo quadro de extrema desolação e fracasso, a bíblia afirma: “Mudou o Senhor a sorte de Jó” (Jó 42.10). Esta é uma afirmação maravilhosa. Não importa qual seja o meu estágio, nem a precariedade da minha situação – Deus pode mudar minha história. Jó, a despeito de todo questionamento, parecia abrigar isto no coração. No meio do livro, quando as dúvidas estavam vindo à tona, ele faz uma declaração de esperança: “Porque eu sei que o meu redentor vive, e por fim se levantará sobre a terra” (Jó 19.25). No fundo ele sabia que sua história não deveria acabar assim – não poderia acabar assim.
E você, em qual momento da vida você está passando agora?
Tem pensado em desistir?
Anda desanimado e achando que é o fim?
Vamos ver como mudanças podem ocorrer, como a história pode ser radicalmente mudada.

1. Mudanças ocorrem fora, quando mudam dentro – É exatamente isto que vemos no texto. Desde o início do capítulo 42, há uma mudança radical na perspectiva de Jó, em relação a Deus, e as coisas que lhe estavam acontecendo. Houve uma mudança teológica em Jó.

Ele começa a fazer uma nova leitura de Deus.
Os fatos, as condições humanas, sua situação, nada havia mudado. Ele ainda continuava no mesmo estado de saúde, a perda dos filhos era irreversível, ele continuava falido. Tudo estava igual, mas algo estava diferente.


Jó inicia este capitulo quebrantado e com uma nova compreensão de Deus. Antes ele estava questionando, brigando, argumentando, mas agora ele começa com um reconhecimento: “Eu sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado (ou impedido)”. No capítulo 23, Jó fala sobre a soberania de Deus, e este texto é um dos mais claros sobre seu poder e domínio em toda Bíblia. Mas Jó está irritado e zangado por saber que Deus tem todo poder, e ele é impotente, nas mãos deste Deus. A soberania de Deus, ao invés de ser consolo, é uma ameaça. No capítulo 42, ele fala novamente da soberania de Deus. "Eu sei que tudo podes". No entanto, Jó deixa de se sentir ameaçado por esta verdade e torna-se um adorador.Ele começa a louvar a Deus por ver a sua glória e majestade.


Não é assim conosco?


Muitos vêem na Soberania e controle de Deus, ameaça...


Outros vêem na sua onipotência, razões para louvar.


Jó vive as duas dimensões. No final ele está glorificando a Deus por isto. Sua mente mudou. sua cosmovisão e sua teologia mudaram - Deus é o mesmo! Mas esta mudança de mente foi determinante para a mudança "dos fatos".


Vejo muitas pessoas com coração amargurado. Já viram que "ser agradecido faz todas as coisas melhores?" Gente mau humorada, vive em torno do seu umbigo, e de suas preocupações e não avança na vida. Assim ocorre com aqueles que se sentem vitimizados, que acham que o mundo-igreja-Deus-amigos-vida, todos lhe devem algum e que ele não é feliz porque "nunca lhe deram oportunidade?". Auto-piedade é uma desgraça!


Mudanças ocorrem quando a minha hermenêutica da vida muda.


Muitas vezes queremos que os outros mudem. Deixe-me dar uma má notícia para você: Seu amigo não vai mudar, seu filho não vai mudar, seu marido não vai mudar. Isto é ruim, não é? Mas algo acontece quando você muda sua postura, seu tratamento. Um princípio clássico do aconselhamento cristão é: "Sentimento nem sempre gera fato, fato sempre gera sentimento". Mudanças na nossa forma de agir,determinam mudanças nos outros. Quando deixamos de tratar o marido de uma forma, nós quebramos este vício de comportamento que ele espera de nós. Criamos um novo princípio na relação ação/reação. Se você espera alguma mudança na sua esposa - comece a agir de outra forma. Você muda!. Muitos comportamentos inadequados de nossos filhos tem a ver com a forma equivocada com que os tratamos. Novas atitudes-maiores altitudes.


A mudança de seu coração ocorre em três níveis:



a)- Ele admite sua estupidez e arrogância – “Quem é aquele, como disseste, que sem conhecimento encobre o conselho?” (Jó 42.3). Jó percebe como tinha sido tolo, ao achar que sabia mais que Deus, que Deus não era justo. Sua ignorância é admitida quando ele vê sua limitação diante da glória de Deus. Ele tem uma compreensão da grandeza e da majestade de Deus. Quando entende quão grande Deus é, e quão pequeno ele é, ele percebe que foi tolo demais e falou demais.

b)- Ele admite que sua compreensão de Deus era apenas de terceira mão, ele na verdade não conhecia Deus – “Eu te conhecia só de ouvir, mas agora meus olhos te vêem” (Jó 42.5). Ele tinha pressupostos sobre Deus, mas não tinha conhecimento empírico de Deus. Deus era um conceito, não uma realidade.

c)- Jó admite o fracasso de sua justiça própria – “Por isso, me abomino, e me arrependo no pó e na cinza” (Jó 42.6).


Certo homem ignorante e distante de Deus se converteu a Cristo. Um amigo lhe perguntou como tinha sido esta experiência com Deus, e ele respondeu:
-Eu fiz a minha parte, e Deus fez a dele.
E o homem retrucou: O que você fez, e o que Deus fez?
Ele disse:
-Eu corri e me escondi o máximo que pude de Deus. E Deus me caçou implacavelmente  até me alcançar.

Mudanças geralmente se dão quando a forma de ler a vida, e a leitura que fazemos de Deus, são modificadas em nós. Os fatos não mudaram, mas o foco da atenção mudou. A situação não mudou, mas mudou o coração. É sempre assim que acontece quando oramos: Os fatos podem não mudar, mas muda o nosso coração. Na maioria das vezes o que importa não é o que nos acontece, mas como interpretamos aquilo que acontece.

2. A história muda quando oramos – O texto mostra que Deus ficou furioso com a leitura equivocada dos amigos de Jó, e disse que eles não deveriam orar porque não aceitaria a intercessão deles. Deus pediu para que eles fizessem um sacrifício com sete novilhos e sete carneiros, mas Jó seria aquele que intercederia por eles.
Estes amigos de Jó, contudo, acreditavam que Jó estava naquela condição de miséria porque havia pecado contra Deus. Deus inverte a lógica.
Jó poderia dizer: “Eu estou fraco Senhor, que outro ore por mim”. Na verdade Jó tinha poucas forças físicas e espirituais para orar. No entanto, começou a orar. Veja como a Palavra de Deus nos ensina: “Mudou o Senhor a sorte de Jó, quando este orava pelos seus amigos” (Jó 42.10). Quem precisava de oração? Não parecia ser Jó? Doente, fraco, cansado, prostrado? No entanto, sua vida começou a mudar enquanto ele orava pelos outros.
Já perceberam como nossas orações são tão auto centradas?
Em geral oramos pouco pelos outros. Na maioria das vezes, oramos apenas por nós.
Deixe-me arriscar uma análise?
Acho que estamos adoecidos demais, e a vida ainda encontra-se no mesmo patamar, porque estamos com os olhos voltados demais para nós mesmos. Nossas orações revelam esta tendência mórbida para a introspecção. Estamos adoecidos do narcisismo que é a errônea base de nossa espiritualidade. O louvor é auto centrado, as orações são egóicas e personalistas. Se orássemos mais pelos outros, esqueceríamos um pouco desta vida introvertida e seríamos curados. Não somos curados porque não temos capacidade de olhar para os outros, de orar pelos outros, de servir os outros. Gente deprimida vive uma relação de auto enamoramento, torna-se importante demais para sair de si mesma, e adoece.
A história de Jó mudou “quando este orava pelos seus amigos”.
Jó era o doente, o frágil, e Deus pede para ele orar. Quando ora, o milagre acontece não apenas a favor dos outros, mas também a favor de si mesmo.
Um dos grandes males desta geração é a oração introvertida. Pare de orar por você que sua sorte vai mudar.

3. A história de Jó muda quando Deus quer, como ele quer, e no que Deus quer – O livro de Jó é um dos livros que mais nos ensina sobre a soberania de Deus. Deus tinha um plano para Jó, e cumpriu cabalmente este projeto em sua vida.


Muito de nosso sofrimento ocorre por permissão de Deus. Ele nos permite passar por situações de tragédias e de perdas, para que aprendamos verdades que só serão apreendidas nesta trajetória dolorosa da vida.
Certamente isto é misterioso demais para seres humanos.
Muitas pessoas perguntam: “Deus é o autor do mal?”. A resposta pode ser sim e não! Ele não é autor do mal moral, mas muitas vezes permite o mal natural. São mortes, perdas, dores.
Em Isaías 45.7 existe uma afirmação que desafia os intérpretes da bíblia: “Eu formo a luz e crio as trevas, faço a paz e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas estas coisas”. Em que contexto ele está dizendo isto? Isaías estava profetizando que o povo de Deus seria levado cativo para a Babilônia, e que era Deus quem estava fazendo isto. É neste sentido que o texto está falando. Aquele mal tinha um propósito, era didático, era Deus quem o fazia, permitindo que seu povo fosse levado cativo.
O Deus que permite algo ruim, para realizar seus propósitos, é o Deus que nos levanta, para cumprir seu propósito em nós.
Deus permitiu que Jó passasse por aflições, e agora revela sua graça restaurando repleta e abundantemente a vida de seu servo.
A vida de Jó parecia ter chegado ao fim, mas para o Senhor, a vida de Jó estava cheia de possibilidades, fatos novos e profundos estavam ainda para acontecer. Quando todos achavam que era o fim, o ponto final, Deus via como reticência. “Depois disto, viveu Jó cento e quarenta anos; e viu a seus filhos e aos filhos de seus filhos, até a quarta geração. Então, morreu Jó, velho e farto de dias” (Jó 42.16-17).

Conclusão

Alguns anos atrás, minha esposa estava cansada de trabalhar com pessoas porque não via resultados de mudanças em seus corações, e elas repetiam sempre os mesmos erros e viviam no mesmo patamar espiritual, parecia não haver crescimento espiritual nem maturidade emocional. Não via mudanças significativas nas vidas, apesar delas virem para a igreja, fazerem discipulado. Um dia, desabafou: “As pessoas não mudam!”
De início achei que ela estava certa, afinal de contas, muitas vezes tenho a mesma percepção. No entanto, uma palavra de Deus veio ao meu coração: “Se as pessoas não mudam, não adianta pregar o evangelho, porque o evangelho fala essencialmente do poder de Deus em transformar vidas. “O Evangelho é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê” (Rm 1.16).
Sendo o evangelho poder, podemos esperar operações grandiosas de Deus sobre a nossa história.
Deus pode mudar qualquer pessoa, em qualquer circunstância. Ele tem todo poder de mudar a sua história, a sua família, a vida de seus filhos, sua saúde e sua desesperança.  
Talvez sua realidade hoje seja de fracasso, tristeza e derrota. Você encontra-se no fundo do poço, tentando encontrar uma luz no final do túnel, e quando vê a luz percebe que é um trem vindo na direção oposta. A vida de Jó nos mostra como as coisas podem dar reviravoltas.
Muitos ficam admitindo a possibilidade de suicídio, porque não vêem esperança na sua trajetória. Deus tem o poder de tirar gente do monturo, do fracasso, e trazê-los para sua graça. É uma Noemi que chegou a se auto intitular de Mara, que volta de Moabe para Israel , sentindo-se fracassada e achando que Deus a estava punindo: “Chamem-me Mara, porque o Senhor me fez amargar” – que triste veredito! Cerca de dois anos depois, entretanto, ela vai pegar no colo um conhecido personagem bíblico, Obedes, que viria a ser o avó do rei mais amado de Israel , Davi, um homem segundo o coração de Deus.  A história de Rute nos fala de um Deus trabalhando, que há um Deus detrás dos bastidores. Há um Deus em ação.
A história do ponto de vista bíblico é muito mais que uma tragédia. Há um Deus controlando os acontecimentos, agindo na história e Senhor da história. Ele não se deixa surpreender por uma tragédia. Podemos ter certeza que há um Deus por trás de tudo, levando a história a um fim que ele já determinou.


Deus pode mudar sua história!

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Jo 1.1-5 Proteja sua Família

Introdução:

Vivemos uma realidade paradoxal na eclesiologia atual:

De um lado, centenas de jovens descobrindo o Evangelho e seu poder, experimentando a alegria de uma conversão, buscando uma vida de santidade e temor, sendo atraídos pela personalidade impactante de Cristo e seu plano de salvação, sendo batizados, integrando e servindo às suas igrejas locais, trazendo seus dízimos, envolvidos em discipulados, programas missionárias e buscando a Deus, desejosos de investir sua vida na dimensão do reino de Deus.
De outro, uma debandada dos filhos dos crentes. Jovens que se perderam pelo caminho, que não mais encontram sentido na vida cristã, críticos de igrejas, e se ainda vem à igreja é apenas por uma formalidade religiosa, mas falta-lhes alegria no serviço, engajamento na obra. Muitos vivem levianamente, vidas espirituais sem prazer – cristãos nominais que se assentam semanalmente nos duros bancos das igrejas, nunca contribuem com seus dons, não investem do seu tempo na obra, e raramente contribuem financeiramente para o esforço minissionário e para a manutenção de sua própria igreja. Se dependessem dos seus recursos, as igrejas hoje estariam fechando suas portas – e não sei se isto realmente faria diferença para suas vidas.

Um caso de Estudo
A família de minha esposa é do interior de Minas Gerais. Seu avó, Francino José de Paulo, era um homem integro, austero e firme na fé. Criou todos os dez filhos na disciplina e admoestação do Senhor, como recomenda a Palavra. Três mulheres e sete homens. Destes, todos se tornaram lideres em suas igrejas locais. 2 foram pastores e cinco presbíteros. Apenas um está vivo, mas todos morreram firmes no Evangelho, em comunhão com uma comunidade  e servindo às suas igrejas locais.
Dos netos, não se pode dizer o mesmo.
Sendo otimista, diria que 50% deles estão servindo ao Senhor, e boa parte deste grupo é apenas religiosa, não sei se entende o significado de uma fé bíblica, se são nascidos de novo e se estão em comunhão com alguma igreja.
O que aconteceu?
Por que o evangelho se perdeu tão rápido?
Esta família representa a realidade das igrejas locais?
Podemos explicar isto atribuindo poder à mídia, à cultura, à secularização. Certamente todas estas coisas têm parcela de contribuição, mas lamentavelmente teremos que admitir que, em algum momento, de alguma forma, em algum ponto, falhamos em transmitir o Evangelho à nova geração.  Não conseguimos ser efetivos como nos exorta o Salmo 78: “O que ouvimos e aprendemos, o que nos contaram nossos pais, não encobriremos aos nossos filhos. Contaremos à vindoura geração, os louvores do Senhor, o seu poder, e as maravilhas que fez”.

Por esta razão, quando vejo o modelo de homem de Deus em Jó, e a condução espiritual de sua família, reflito em alguns pontos de seu cuidado com a família, que precisam ser resgatados em nossa história.

1. Jó ensinou seus filhos o significado de viver em família - "Seus filhos iam às casas uns dos outros e faziam banquetes, cada um por sua vez, e mandavam convidar as três irmãs a comerem com eles" (Jó 1.4). Eles aprenderam a viver em família. 
2. Jó assumiu a função de liderar espiritualmente sua casa - "...Chamava Jó a seus filhos e os santificava; levantava-se de madrugada e oferecia holocaustos segundo o número de todos eles" (Jó 1.5).


Nem sempre isto é fácil.
Muitas famílias não encontraram prazer em caminhar junta e hoje se encontram absolutamente dispersa. O vinculo de consangüinidade diz pouca coisa ou nada.
Os filhos de Jó aprenderam a abrir suas casas para a experiência de compartilhar um jantar, comerem juntos, celebrarem, tomarem um vinho.
Na medida em que envelheço, esta ideia vai se tornando cada vez mais importante para mim. O Salmo 128 afirma:
“Bem aventurado é o homem que teme ao Senhor e anda nos seus caminhos,
do trabalho de suas mãos comerás, feliz serás, e tudo te irá bem.
Tua esposa no interior de sua casa será como a videira frutífera, seus filhos como rebentos da oliveira.
Do trabalho de suas mãos comerás, feliz serás, e tudo te irá bem.
“Eis como será abençoado o homem que teme ao Senhor”.

Dei ênfase à frase: “Eis como”, porque, para Deus, o homem abençoado é aquele que tem a alegria de ver seus filhos reunidos ao redor da sua mesa. É desta forma que será abençoado o homem que teme ao Senhor.
Nenhum sucesso profissional, dinheiro, fama, riqueza, valem a pena e é sucesso real se o homem não consegue assentar-se ao redor da mesa com seus filhos e alegrar-se com seus netos. Se a vida compartilhada em família não estiver valendo.
Os filhos de Jó eram festeiros. O texto dá ideia de que comer para eles e assentar-se à mesa não era um evento isolado, porque o texto fala “decorrido o turno de seus banquetes”. Talvez uma referência de que tivessem numa determinada época do ano, um rodízio de jantares na casa da cada um deles.

Em teologia afirmaríamos que Jó assumiu o papel de sacerdote em sua casa. Ele era o sacerdote. O homem que tinha a responsabilidade no Antigo Testamento, de apresentar e representar o povo diante de Deus. O sacerdote era uma espécie de intermediário entre Deus e os homens.
Naturalmente entendemos que “somos um reino de sacerdotes”, de acordo com o Evangelho, já que não precisamos de intermediários entre Deus e os homens (2 Pe 1.9), mas a visão bíblica da intercessão, traduz um pouco a compreensão que devemos ter em orar a favor uns dos outros (Ez 22.30). Jó orava, clamava, sacrificava e intercedia pelos filhos.
Temos estudado superficialmente o conceito de liderança familiar. A Bíblia afirma que “o homem é o cabeça da casa” (Ef 5.25), e geralmente a cultura moderna reage muito negativamente a este ensinamento. Entretanto, quando estudamos este assunto, percebemos que não é a mulher que deve reagir com medo deste princípio, porém os homens. Liderança bíblica dada por Deus aos homens não é para mandar e ser autoritário, mas para ser modelo  espiritual e moral da sua casa, coisas estas que o macho geralmente finge que não é com ele. O chamado de liderança do homem não é para ser autocrático, mas para ser exemplo. Liderança espiritual é a atitude de quem traça o caminho para aqueles que estão dependendo de sua orientação.
Jó assume tal função. Ele “santifica seus filhos”.
Como ele fazia isto?

Primeiramente, Investimento de tempo – Jó paga preço espiritual com seu tempo. “Levantava-se de madrugada e fazia holocaustos” (Jó 1.5). Está implícito aqui o investimento que ele faz em sua agenda. Ele priorizava seu tempo para proteger seus filhos.
Levantar de madrugada nem sempre é fácil. Demonstra como isto tinha importância para sua vida e como ele levava a sério esta verdade para com sua família. Ele assumir o preço do tempo.
Geralmente pais são indolentes e relaxados quando se trata da vida espiritual. Não demonstram nenhum interesse em gastar tempo com seus filhos para demonstrar o valor que Deus tem para sua vida.
Não é muito raro vermos pais deixando os filhos na porta igreja e indo jogar tênis na hora da Escola Dominical. Não tenho nada contra o tênis e atividades esportivas, mas esta atitude parece dizer para o filho: “Isto é importante para você – embora não seja para mim”. Agindo assim estamos estabelecendo prioridades. A vida espiritual torna-se para muitos, mais uma alternativa, caso não exista um programa “mais legal” para fazer. Se tiver uma chácara, um churrasco, uma viagem, ou mesmo aquela preguiça dominical comum, já é suficiente para  substituir a espiritualidade. Existem pais que se mostram indolentes até para trazer seus filhos para o programa da igreja. Os conselheiros do Departamento Infantil, pré-adolescentes e adolescentes que o digam! Pais não querem ter o trabalho de trazer os filhos para as reuniões e programas. Muitas vezes sacrificando os líderes porque não querem pegar seus carros e os levarem e buscarem nos encontros.
Tempo tem se tornado uma moeda cada vez mais rara. Cada segundo é valioso. Se você não se dedicar, entender que precisa tirar do seu tempo precioso, do seu sono, da sua agenda, espaço para liderar espiritualmente a sua casa, certamente vai enfrentar sérios problemas espirituais na criação de seus filhos. Tempo revela importância, dá conceitos de valor e prioridades.

Em segundo lugar, Investimento Financeiro - Vemos na adoração de Jó a disposição de investir com seus recursos, tem a ver com dinheiro. Ele investe espiritualmente na vida de seus filhos colocando seus bens.
Jó “oferecia holocaustos segundo o numero de todos eles” (Jó 1.5).
Holocaustos eram ofertas trazidas perante o altar de Deus. No sacrifício levítico, as pessoas precisavam escolher do melhor do seu rebanho, animais sem defeito, para serem queimados como sacrifício agradável a Deus. Isto envolve dinheiro, bens. Cada sacrifício individual representava um animal do rebanho que deveria ser oferecido, isto envolve uma boa quantidade de recursos financeiros.
Quanta disponibilidade você tem em investir financeiramente na fé que você professa?
Certa criança de seis anos de idade observou seus pais entregando uma oferta mixuruca na igreja. Quando saíram do culto, os pais estavam reclamando do fraco sermão do pastor, das músicas mal apresentadas, dos duros bancos da igreja, do desconforto e do calor, quando o filho se interpôs e disse: “Também, com a oferta que vocês dão, vocês queriam o que???
Jó trazia holocaustos, para cada um dos filhos. Eram dez. Isto envolve recursos. Nos dias de Jesus, os pais deviam trazer ofertas para seus filhos, quando eram consagrados e circuncidados. As ofertas eram proporcionais aos recursos. Se tinham muito, davam muito; se eram de famílias pobres, traziam pequenas ofertas. Existem pais que nunca ensinaram seus filhos a adorar a Deus com seus recursos, porque eles mesmo nunca entenderam isto.
O principio é simples: “Fé que não custa nada, não vale nada!”
Você pode avaliar a importância e lugar da fé no seu coração, a partir da sua disposição em investir na obra de Deus. Jesus afirmou: “Onde estiver seu tesouro, ai estará seu coração”. Por entender este princípio, Jó apresenta holocaustos para todos os seus filhos. Ele tirava do seu lucro, da primícia dos rebanhos, dos bens que possuía, para fazer ofertas ao Deus que ele amava.

Em terceiro lugar, Investimento individual. “Oferecia segundo o numero de todos eles” (Jó 1.5). Ele apresentava seus filhos, um a um, diante do Senhor. Não era um sacrifício genérico, para todos. Ele ofertava a Deus pelos filhos, um a um. Ele queria ter certeza de que cada um deles estava perante o altar do Senhor.
Jó chamava a todos, mas ele pessoalmente oferecia os sacrifícios. Isto certamente tinha um efeito psicológico muito forte. Provavelmente os outros iam observando o ritual. Chamava um, ofertava; depois o outro, fazia as preces e ofertava.
Precisamos entender que nem sempre os filhos querem vir à presença de Deus, muitos estão desanimados e afastados, alguns incrédulos e céticos. Mas seus nomes precisam vir para o altar. Se eles não quiserem vir, nós devemos vir em seus nomes, e apresentá-los  a Deus.
Gosto de pensar que filhos de pais compromissados com o reino e que querem viver longe de Deus estão enrolados. Eles tentarão escapulir, evadir, fugir da presença de Deus, mas seus pais os apresentam sempre, ao Pai celestial. O que eles podem fazer? O nome deles estará como um memorial diante de Deus.
Tenho visto pais sofrendo espiritualmente pelos filhos, pagando preço de orarem pelos filhos, clamando ao Senhor, intercedendo. Isto é sacerdócio. Quando um pai se apresenta diante de Deus, na qualidade de líder espiritual da sua casa, representando-os perante Deus, esta atitude tem um enorme efeito e impacto espiritual.
Jó confessa os pecados dos filhos, sem saber como estava a situação espiritual deles. “Talvez tenham pecado os meus filhos e blasfemado contra Deus em seu coração” (Jó 1.5). Ele reconhece que seus filhos enfrentavam lutas espirituais, e podiam até mesmo “blasfemarem em seus corações”, por isto se apresenta diante de Deus, por seus filhos. Até mesmo por pecados dos quais ele não tinha conhecimento. A expressão “ talvez tenham pecado”, revela que Jó não tinha certeza do que estava acontecendo na alma deles, mas entrava na brecha a favor de suas vidas.
Será que, como pais, entendemos esta dimensão e nosso papel espiritual diante de Deus?
Tenho visto pais resignados, entristecidos, cansados, por não verem reação espiritual de seus filhos, por perceberem seus corações distantes. É assim que vamos fazer? Deprimir, enterrar nossa cabeça na areia e chorar? Ou vamos para a presença de Deus oferecer sacrifícios por eles? Apresentá-los, individualmente diante de Deus?

Em quarto lugar, Investimento contínuo – O que o texto descreve não era um ato isolado.  “Assim fazia Jó continuamente”  (Jó 1.5). Orar pelos filhos, interceder a seu favor, oferecer sacrifícios por eles não era um evento, nem um programa da igreja, nem uma resposta isolada e emocional depois de um culto de consagração dos filhos a Deus, ou de um retiro espiritual no qual era emocionalmente tocado. Pelo contrário, este era um estilo de vida de Jó.
Nossa vida deve ser de total e constante alerta. Não dá para baixar a guarda. Não dá para parar de orar por eles.
Ouvi certa vez um comentário de uma pessoa sobre seu irmão, criado em um lar evangélico, mas cujas atitudes eram espiritualmente perigosas: “Meu irmão não se acabou ainda, por causa da oração de meus pais pela sua vida. Existem muitos anjos ao redor dele. Existe muita intercessão e súplica a seu favor”.  Que benção sermos cercados por pais que oram a nosso favor.
Muitos filhos entram num trágico processo de auto destruição e morte. Sofrendo tentações, desejo de morte, drogas, pressão por um estilo de vida pecaminoso, escolhas morais equivocadas, mas seus pais cristãos não desistirão, e nem esmorecerão. Eles continuariao, de forma constante e perseverante, orando pela vida de seus filhos.
Tal era o procedimento de Jó pelos seus filhos. Ele nem sabia se seus filhos estavam pecando ou não. Muitas da suas possíveis crises eram no coração, mas Jó ainda assim orava.

Conclusão

Você tem cuidado espiritualmente da vida espiritual de seus filhos?
Faz parte da sua agenda protegê-los espiritualmente.
Isto ocupa seu tempo e suas orações?
Você tem investido financeiramente na vida dos seus filhos?
Alguns anos atrás li o relato de um jovem que saiu com seu pai para a floresta amazônica e se perdeu nela. Os dois se distanciaram um do outro, o pai conseguiu voltar mas o jovem ficou para trás. O pai, desesperado, mobilizou amigos, animais, corpo de bombeiro, exército, na tentativa de encontrar seu filho. Depois de alguns dias de busca, a polícia desistiu, mas o pai continuou procurando. Reuniu um grupo de amigos e não desistiam de buscá-lo. Após 18 dias o encontraram, muito fragilizado e prostrado. O filho ao vê-lo, abraçou-o e disse: “Eu sabia que você viria!”.


Que nossos filhos, muitas vezes incoerentes e superficiais, inconseqüentes e rebeldes, saibam sempre, que apesar de perdidos, desorientados e confusos, seus pais não desistirão de clamar por eles, interceder e suplicar a benção do pai.