quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Ez 37 Esperança no caos




Introdução:

Muitas vezes as circunstâncias que atravessamos são muito pesadas, como esta descrita neste texto de Ezequiel 37. O clima era desesperador. O povo de Israel  tinha perdido sua perspectiva histórica, e a esperança se dissolvera. Havia um clima de negativismo e violência na sociedade, a economia do país não ia bem. A descrição de Ezequiel demonstra claramente o ambiente no qual ele está inserido.
Seu quadro não é muito diferente do nosso. O clima de insegurança, as crises de sentido e valor, famílias fragmentadas, doenças emocionais, e crises espirituais. Em Cambridge, Ma, localidade que pastoreei nos Estados Unidos, havia 1% de evangélico, e no centro de Boston a taxa ainda era ainda menor – Apenas 0.5% de pessoas se considerava nascida de novo.

Uma parábola de crise

Ezequiel 37 é uma parábola das crises: o povo judeu estava sob ameaça, perdendo seus símbolos, uma profunda crise de valor sobre o país. A cultura e a religião se desfazendo, a imagem de Deus se perdendo nas novas gerações, decadência moral, liderança politica e religiosa inescrupulosa, um povo vivendo sem alegria, sem voz profética.
Os capítulos 16 e 23 são tão pesados que encontro dificuldade em fazer uma leitura litúrgica dos mesmos. Nos capítulo 1-23 o profeta está alertando o povo sobre o risco iminente do castigo de Deus por causa da sua rebeldia. O próprio Ezequiel é levado para o cativeiro e experimenta a humilhação e a dor de uma guerra do forte contra o fraco. Do capítulo 33 em diante, o profeta fala da esperança na futura restauração que Deus traria ao seu povo. 
Neste contexto, Ezequiel tem uma terrível visão: “Veio sobre  mim a mão do Senhor; ele me levou pelo Espírito do Senhor e me deixou no meio de um vale que estava cheio de ossos” (Ez 37.1).
Deus o levou e o deixou no meio deste vale de ossos secos. Não gosto de pensar nesta ideia de Deus me conduzindo para um lugar tão desolado. Ezequiel não se dirigiu a este lugar por opção, sua experiência não foi circunstancial, e também não foi um contacto superficial, o “Senhor o fez andar ao redor deles” (Ez 37.2), teve com conviver com a morte, sentiu o drama daquela visão esquelética, viu o cenário tétrico, fez parte daquele ambiente de horror. Deus o força a andar em volta, pelo ar putrefato, assumindo e respirando a tragédia. É uma descrição tensa, onde o silêncio do deserto e a solidão são tangíveis, ambiente de morte, sinistro.
Ezequiel não fez opção por esta caminhada, ele foi empurrado para dentro dela, assim como os discípulos não fizeram opção para a travessia do Mar da Galiléia naquela fatídica noite em que sentiram a morte muito de perto. Em Mt 14.23 vemos que Jesus “compeliu os discípulos a atravessarem”. Não foi uma escolha, eles foram levados a entrar no barco.
Ninguém faz opção pela dor e pelos vales cheios de ossos secos, ninguém deseja passar por aflições, crises e cenários de morte. No entanto, o Senhor leva o profeta, o deixa naquele ambiente e o faz andar por ele. O Senhor conduz o profeta a sentir o cheiro da desolação, a assimilar a morte, a se assustar com ossos espalhados, e o profeta é deixado naquele ambiente vazio, com cheiro de morte, andando um tanto quanto catatônico por aquele ambiente.

O que fazer na crise?

No meio deste ambiente de morte, Deus pergunta a Ezequiel: “Filho do homem, acaso, poderão reviver estes ossos?”  (Ez 37.3). A pergunta exige uma reflexão e uma resposta muito difícil de ser dada. Como responderíamos a esta pergunta?

Alguns dizem: Não!
O cenário é tão macabro, as perspectivas são tão sombrias, que nem sempre é possível dizer sim. Não é muito raro encontrarmos pessoas de fé, que diante de uma situação difícil não conseguem dizer sim. Quando isto acontece, há um fechamento à intervenção divina e à possibilidade de Deus agir. Quando isto acontece, passamos a orar sem esperar, sem realmente crer. A Bíblia afirma que “Sem fé, é impossível agradar a Deus, porque é necessário que pois é necessário que aqueles que dele se aproximam, creiam que ele existe, e é galardoador daqueles que o buscam” (Hb 11.6). Ao nos aproximarmos de Deus, precisamos crer que ele existe e que ele pode responder. E quando não mais conseguimos crer? Como disse o poeta: “O que fazer, se o coração não consegue mais crer, o que sabe ser verdade?”
Marta tipifica bem pessoas assim.
Quando Jesus afirma “Teu irmão há de ressurgir” Marta responde: “Eu sei, replicou Marta, que ele há de ressurgir na ressurreição, no último dia” (Mt 11.23,24). Ela cria na ressurreição do último dia, mas Jesus estava falando de uma intervenção sobrenatural naquela hora. Marta demonstra como é possível ter bons conceitos sobre teologia e ainda assim viver na incredulidade, ou com dificuldade de entender que Deus pode intervir na história presente.

Alguns dizem: “Sim!”
São aqueles que se sentem confiantes em fazerem afirmações sobre sua fé, e crerem, a despeito de todos os fatos contrários. Este tipo de fé é capaz de abrir-se para as possibilidades da ação do Deus que opera milagres.  Alimentam um tipo de fé bíblico que “move montanhas”.  A Bíblia afirma que “Abraão, esperando contra a esperança, creu, para vir a ser pai de muitas nações, segundo lhe fora dito: Assim será a tua descendência” (Rm 4.18). São pessoas que “por meio da fé, subjugaram reinos, praticaram a justiça, obtiveram promessas, fecharam a boca de leões, extinguiram a violência do fogo, escaparam ao fio da espada, da fraqueza tiraram força, fizeram-se poderosos em guerra, puseram em fuga exércitos de estrangeiros” (Hb 11.33-34).
São homens e mulheres de fé, que fundamentam sua vida na compreensão real de que Deus “é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos conforme o seu poder que opera em nós.” (Ef 3.20). São estes os que dizem sim diante das perguntas inusitadas e confusas que Deus faz. Louvado seja Deus por este tipo de fé maravilhosa que impulsiona o reino de Deus e tem grandes sonhos e expectativas de Deus.

Outros dizem: “Tu o sabes”.
Foi isto o que aconteceu com Ezequiel. Quando Deus lhe perguntou: “Filho do homem, acaso, poderão reviver estes ossos? Respondi: Senhor, tu o sabes” (Ez 37.3).
Esta é a pergunta que Deus muitas vezes faz diante das realidades “impossíveis” que temos de enfrentar. Você crê que algo pode acontecer? Você acredita em intervenções sobrenaturais? E na maioria das vezes nossa resposta é dúbia quanto a do profeta: “Senhor, tu o sabes!”
Esta resposta é muito comum no coração, quando estamos no meio de uma forte crise pessoal, e quando isto se dá, sofremos uma distensão entre a possibilidade de Deus e a dura e brutal realidade que nos cerca. Por isto, não raras vezes nossa resposta é dialética. Não é totalmente aberta, nem é fechada. É a resposta da limitação, do homem que não vê nenhuma possibilidade histórica, mas ainda assim consegue vislumbrar, ainda que de forma opaca, o poder de Deus.
É a afirmação do cego que diz: “Se quiseres, tu podes”. Ou do homem que vai ao encontro de Cristo, por causa da possessão de seu filho e indagou se seria possível a libertação, e ouviu de Jesus: “Tudo é possível ao que crê”. Quando Jesus lhe pergunta se ele crê, responde de forma ambígua: “Eu creio, Senhor, ajuda-me na minha falta de fé”. Você entende o significado de crer, mas ainda faltar a fé? Já passou por esta dura experiência?
Muitas vezes respondemos como Ezequiel, cheios de dúvida, com incredulidade no coração, reticência na alma, porque os fatos são duros demais, ou estamos tão frágeis, vivendo numa ambivalência espiritual que temos dificuldade de admitir que nada é impossível para Deus, embora creiamos, em algum nível subjetivo, que isto é verdade.
É assim que Jeremias responde a Deus, diante da cidade destruída: “Quero trazer à memória o que me pode dar esperança”. Os fatos conspiram, apontam para impossibilidades, mas a fé consegue discernir no meio do caos o ilimitado poder de Deus. Jeremias precisa lembrar o que lhe pode dar esperança. Assim fez também Ezequiel. “Senhor, tu o sabes!”

Ao responder com esta ambigüidade, Deus faz alguns desafios ao profeta:

Primeiro, não aceitar ossos secos como condição definitiva.
Muitas vezes ao olharmos o contexto e as dificuldades, achamos que nada pode mudar. O definitivo é imutável. As palavras “nunca” e “impossível” não fazem sentido diante do seu poder . Afinal, “existe coisa demasiadamente difícil para Deus?”.

Segundo, Deus desafia o profeta a confrontar o caos histórico.
Deus poderia dar dado uma ordem direta ao caos, mas ordena a Ezequiel que ele o faça: “Profetiza a estes ossos e dize-lhes: Ossos secos, ouvi a palavra do Senhor” (Ez 37.4). Ao profeta frágil e dúbio, Deus dá ordem de enfrentamento e o profeta obedece. não seria melhor que Deus fizesse sem ter que colocar o frágil profeta nesta condição de autoridade sobre os ossos secos? Se estivéssemos lá, talvez tivéssemos argumentado com Deus e tentado convencê-lo de que o fizesse sem nos envolver, afinal, o profeta não tinha uma clara convicção de que as condições seriam alteradas. No entanto, o profeta obedece: “Então profetizei segundo me fora ordenado” (Ez 37.7). O profeta proclama a transformação sobre o caos diante de si.

Como se processa o milagre?

Deus desafia o profeta a fazer declarações contrárias à tudo quanto o bom senso parecia indicar. Deus dá ordem ao desorganizado, usando a  sua boca e “enquanto eu profetizava, houve um ruído, um barulho de ossos que batiam contra ossos e se ajuntavam, cada osso ao seu osso” (Ez 37.7). Quando o profeta declara as palavras de Deus, a realidade começa a sofrer transformação. A realidade muda, antes mesmo dele terminar de falar. “Enquanto eu profetizava”... O caos se organiza enquanto a palavra de fé é proclamada.
Não sei exatamente como esta realidade se aplica ao nosso dia, mas uma coisa é certa, quando nos firmamos em Deus, novas realidades começam a surgir. São vidas destroçadas que se erguem em nome de Jesus, casamentos que são restaurados pela obra de Cristo, doenças e enfermidades que são curadas em nome de Jesus, igrejas divididas começam a experimentar novo poder. Deus transforma o caos.
Inicialmente Deus trabalha mudando a estrutura, porque os ossos são os primeiros a se juntar, cada osso ao seu osso. Isto tem a ver com um mínimo de organização. Osso é a estrutura que sustenta o corpo, e ao redor do qual tudo o mais se firma, é a estrutura esquelética do organismo. São as formas que se estruturam.
Muitas vidas, lares e igrejas precisam, antes de mais nada do mínimo de ordem na estrutura óssea. São pessoas desintegradas, com fraturas expostas; são famílias que não sabem mais o papel de cada um, a vida está bagunçada, as finanças desorganizadas, o lar desestruturado. Da mesma forma isto se dá nas igrejas que estão confusas na sua missão, onde ninguém sabe o que fazer nem para onde ir. Os ossos precisam se juntar.
Em segundo lugar, Deus dá a estrutura emocional.
Deus coloca carne, tendões e pele. É o sistema nervoso que precisa surgir. Deus dá nova sensibilidade àqueles  que se encontram amortecidos, que não sentem mais prazer nem alegria. Deus põe tendões, é o corpo amortecido que reage e se estrutura. Carne é hedonismo, prazer, gosto, poesia, música, vida, relacionamentos.  Nervos são sentimentos, emulações de amor, afetos, carinho, carícia, sexualidade, abraços e beijos.
Muitas pessoas perderam a capacidade afetiva e precisam ser restauradas. Falta tendão, nervo, pele. Todas estas coisas são sensórias e apontam para nossa humanidade. No entanto, muitos não conseguem mais abraçar, beijar, receber e dar carinho, não sabem mais como fazer. Não sabem abraçar, amar, sentir... precisam de restauração.
Muitos lares esqueceram a capacidade da afetividade. Pais que não sabem mais abraçar, cônjuges que não sabem mais namorar, perderam a capacidade de enternuramento. Se perderam entre tapas e beijos. Viraram porco espinho, não tem lado mais linguage de afeto, sensualidade e sexualidade.
Igrejas também podem perder a capacidade de amar. São líderes eternamente em conflito, pastores neurotizados e adoecidos, liderança doente e patologizada, família pastoral adoecida, filhos de presbíteros e diáconos vivendo vida dissoluta, luta por poder, estilo novelesco de ser, conflitos históricos intermináveis e mal resolvidos. Precisamos nos apoderar da palavra que dá vida aos ossos secos para se juntarem, aos tendões, carnes e peles para sentirem, tocarem e amarem. Se há alguma coisa errada com nossa afetividade, certamente nossa espiritualidade não é bíblica.
Por último, Deus dá vida.
Profetizei como ele me ordenara, e o espírito entrou neles, e viveram e se puseram em pé, um exercito sobremodo numeroso” (Ez 37.8). Não adianta ter ordem e sensibilidade, se não existe vida. Corpo sem alma é cadáver. Nosso Deus é o Deus de vivos e não de mortos. Stanley Jones afirma que a palavra mais presente na bíblia é Vida. Não adiante termos igrejas organizadas, mas sem vida; lares socialmente ajustados, mas sem vida; pessoas politicamente corretas, mas sem vida.

A didática divina

Este texto é pedagógico, Deus quer nos ensina através da experiência do profeta. E isto é necessário antes de tudo, para entendermos que a desesperança não pode ser ponto final. “Então, me disse: Filho do homem, estes ossos são toda a casa de Israel, eis que dizem: os nossos ossos se secaram, e pereceu a nossa esperança; estamos de todo exterminados” (Ez 37.11). O ponto de Israel havia desistido de crer e sonhar que algo novo e surpreendente pudesse acontecer na sua história. Não é assim que tantas vezes encaramos nossa própria vida?
Deus deseja que seu povo tenha esperança, que as pessoas alimentem consigo a esperança das coisas mudarem, que nossos lares creiam que uma nova perspectiva pode surgir; faz parte do plano de Deus que as igrejas construam sonhos, e que parem de olhar para o fracasso e para a morte, e se desanimar porque os ossos estão secos. Precisamos olhar a  história com sonhos, visões e projetos, tirar nossos olhos dos ossos secos. A desesperança é a pior arma contra nós mesmos. “Eis que dizem” (Ez 37.11). Estes são os piores sentimentos e comentários que facilmente destroem nossas vidas.

Finalmente, Deus deseja restaurar o caos, para que isto sirva de testemunho.
“Sabereis que eu sou o Senhor, quando eu abrir a vossa sepultura e vos
fizera sair dela, ó povo meu” (Ez 37.11).

A obra que Deus faz em nossa vida deve servir de testemunho e encorajamento para outros. É desta forma que saberemos quem é o Senhor. Só quando somos surpreendidos pela obra de Deus em nossa vida é que entendemos quem está no controle de todas as situações mais absurdas e caóticas. Deus é Deus. Ele nunca perdeu sua capacidade de agir. Seu braço nunca se encurtou. “Acaso existe coisa demasiadamente difícil?”

É impossível continuar o mesmo diante dos milagres que Deus faz, e as pessoas vão saber quem é Deus quando o vale de ossos secos se transformar num cenário de vida, de sentimentos, de ternura, de pele e tendões. O livramento traz reconhecimento, glória e louvor para o nome do Senhor.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

1 Tm 4.16 Cuida de ti mesmo e da doutrina















Uma das cartas mais pessoais que temos na Bíblia é esta. Timóteo era filho na fé de Paulo, e se tornou discípulo dele, seguindo-o onde quer que fosse, vendo como Paulo pregava, ensinava e vivia, até ser designado para pastorear a igreja de Éfeso.  Antigamente não existiam seminários para preparação de pastores, e a transmissão do conhecimento e da vida se dava na medida em que mestre/aluno andavam juntos. Estes mestres eram chamados demistagogos e tiveram uma função fundamental na história da igreja para preparar seus alunos.
A exortação que ele dá neste texto era fundamental para Timóteo naqueles dias, e ainda o é para os dias de hoje. “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina”. Na nossa caminha espiritual, precisamos estar atentos a duas coisas:
a.     O estilo de vida
b.     As convicções teológicas

Vamos analisar a primeira parte. “Cuida de ti mesmo”, que tem a ver com o nosso estilo de vida. A Bíblia diz que, em cristo, surgiu um novo homem, segundo a justiça e justiça procedentes da verdade. Este novo homem surge a partir do momento que a pessoa tem um encontro pessoal com Jesus Cristo e sua vida passa a ser dirigida pelo Espírito Santo. Por receber uma nova natureza, passa a ter um estilo de vida e comportamentos, um modo de andar, segundo Cristo.   Como deve viver este homem que agora precisa andar segundo Deus?
Quatro áreas são essenciais para que o que é nascido de novo, tenha um novo estilo de vida:

1.     Corpo – Recentemente estive com o pr. Erasmo Carlos, da Igreja Presbiteriana Renovada em São Luís do maranhão (Agosto/2014), e ele nos contou que aos 42 anos, com 1.72, estava pesando 88 kg, quando leu este texto. Na hora entendeu o recado de Deus: ele estava cuidando da doutrina, da igreja, mas não estava cuidando de si mesmo. Então, reorganizou sua vida e começou a caminhar, depois a praticar jogging, atualmente corre 10 km 3 x por semana, já participou de uma maratona e está se preparando agora para a maratona de Curitiba em Novembro.
Precisamos cuidar de nosso corpo. Eventualmente abusamos dele. Dormimos mal, comemos mal (em demasia ou muito pouco) vivemos desregradamente, somos sedentários, não tiramos um dia de folga, trabalhamos exageradamente e não descansamos. Se nosso carro começa apresentar algum barulho estranho, imediatamente corremos para o mecânico, mas eventualmente nosso corpo está dando todos os sinais de que alguma coisa não vai bem, mas não paramos para cuidar dele.
Mas não é apenas com o sedentarismo que precisamos ter cuidado. Precisamos cuidar também da pureza moral, não vivendo uma vida de pecado, de luxúria. A Bíblia afirma que todo pecado que praticamos é fora do corpo, mas a impureza sexual acontece no corpo (1 Co 6.18), e como somos templos do Espírito Santo, devemos viver vida de santidade. Por isto a bíblia nos exorta: “Apresenteis os vossos corpos por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus”(Rm 12.2). 

2.     Mente – Outra área da qual precisamos cuidar é o pensamento. Precisamos dar “razão da esperança que temos” (1 Pe 3.15). Discípulos de Cristo precisam ter uma mente preparada. A Bíblia nos fala disto: “...E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12.2).
Vivemos numa cultura contrária ao pensamento de Deus. Precisamos lembrar que “o mundo jaz no maligno”. Às vezes nos assustamos com tanta bobagem que é dita nos canais de televisão e nas músicas, e o mais estranho ainda é o fato de tais descalabros, absurdos e imoralidades atraiam milhares de seguidores. Nossa mente é bombardeada por uma sociedade secularizada, oposta a Deus e precisamos aprender a julgar as coisas com discernimento. Ter a mente de cristo. Estudar, preparar, saber julgar valores, discernir pensamentos pagãos. Cuida de ti mesmo!
Muitos cristãos nunca leram um livro para aprofundar seus valores cristãos, nunca se interessaram numa escola dominical para saber mais da palavra de Deus, nunca foram a um seminário ouvir uma palavra adequada sobre um determinado assunto. Por isto, são atraídos a “todo vento de doutrina” e não são capazes de julgar as besteiras que ouvem. Tornam-se raquíticos na fé e sem raízes nas suas convicções. Mentes despreparadas e preguiçosas. 

3.     Emoções – Esta é a terceira área que precisamos cuidar. Muitas vezes somos vítimas de condicionamentos familiares ou de nossas próprias descontroladas emoções, cheias de paixão, que facilmente perdem a serenidade, se entregam a ira, à depressão, ao mau humor, a irritabilidade.
Existem homens que desestabilizam suas famílias por causa do gênio explosivo e dureza nas reações; muitas mulheres causam grandes danos aos seus lares pela sua instabilidade emocional. Nossas emoções volúveis e paixões podem nos dominar transformando-nos em seres paranóicos, adoecidos, vivendo uma espécie de “autismo extrovertido”.

4.     Espiritualidade – Poderia ter colocado a alma, mas preferi um termo mais abrangente e que exigisse menos definição. No entanto, realmente precisamos cuidar da alma, se assim preferirem, deste aspecto espiritual da existência. Alimentar a fé, com uma vida de oração, na presença de Deus, vir ao culto para adorar, não se transformar num religioso distante e insensível da vida de Deus. Aprender a orar, ler a bíblia devocionalmente, cuidar da comunidade da qual faz parte, aprender a trazer seus dízimos em adoração e louvor, servir e amar as pessoas por causa de nossa espiritualidade.
Precisamos cuidar de nós mesmos. Nosso coração pode facilmente se tornar frio e distante, sem amor, sem paixão, sem prazer em Deus. Precisamos renovar nossos votos, voltar ao primeiro amor.

O segundo ponto a ser considerado é o cuidado com a doutrina

É muito curiosa esta exortação. Não apenas devemos cuidar da vida: corpo, mente, emoções e alma, mas devemos cuidar também da doutrina que professamos.
Já encontrei muitas pessoas dentro da igreja que afirmam não gostar de doutrinas, porque elas trazem a ideia de dogmas, algo inflexível, inegociável. Se você pensa desta forma sugiro que você anote na sua Bíblia quantas vezes aparece a expressão doutrina, apenas nas cartas de Paulo a Timóteo e Tito. 
Paulo fala, por exemplo de “boa doutrina” (1 Tm 4.6) de “outras doutrinas”(1 Tm 1.3) e da “sã doutrina” (1 Tm 1.10). Vamos pensar um pouco sobre cada uma destas afirmações.

Primeiro, temos que entender que existe “boa doutrina”, o que inexoravelmente nos leva a considerar que existe seu oposto, ou seja, “a má doutrina”.

Boa parte dos livros do Novo Testamento é apologética, por sua natureza. O propósito dos autores era de “defender a fé, uma vez dada aos santos” (Judas vs 3). Por que? Já nos dias apostólicos, “certos indivíduos se introduziram com dissimulação” na igreja (Judas vs. 4). Era muito comum surgirem pregadores afirmando coisas que eram contrárias à fé cristã, o conjunto de crenças aceito pelas igrejas Cristãs. Paulo cita nominalmente Himeneu e Fileto, pregadores desviados da verdade (2 Tm 2.17,18). O perigo da má doutrina é sempre constante. Muitos se apostaram da fé e passaram a obedecer a ensinos de demônios, cauterizando a consciência e que ensinavam coisas absurdas no meio das igrejas (1 Tm 4.1-3).
A grande luta dos reformadores do Século XVI foi contra as distorções da palavra de Deus. Era necessário retornar as escrituras e considerar atentamente o que Jesus e os apóstolos ensinaram à igreja. Eles desenvolveram o princípio da Sola Scriptura, isto é, apenas as Escrituras Sagradas poderiam ser o fundamento daquilo que deveriam crer e dar as normas de como deveriam viver. Nem tradição, nem novas revelações ou novos ensinamentos, poderiam substituir ou serem acrescentados à Palavra de Deus, Antigo e Novo Testamentos.
Não é muito diferente em nossos dias.
Recentemente uma irmã que se converteu nesta igreja resolveu voltar e se filiar novamente à nossa comunidade depois de vários anos afastada. Ela participou de várias igrejas e ouviu muitas opiniões de pastores e ouviu várias doutrinas e linhas teológicas. Ela me disse que nós não fazemos a mínima ideia das loucuras e desvarios que tem sido ensinado em muitas comunidades nestes dias. Ela estava certa!
A exortação paulina parece cada vez mais atual: Cuida da boa doutrina. Cuidado com a má doutrina.
A má doutrina pode destruir a simplicidade de sua fé e tornar a vida um inferno de acusação, medo e culpa. Paulo diz a Timóteo que, cuidando dele e da doutrina salvaria tanto a si mesmo como a outros. A má doutrina pode levar–nos ao inferno, ainda que dê a impressão de que ela está caminhando em direção ao céu.

Em segundo lugar, Paulo fala ainda da sã doutrina, o que nos leva a considerar que existe seu oposto, a doutrina doente.

A doutrina bíblica é saudável, traz vida aos ouvintes e praticantes. A doutrina doente, neurotiza, sataniza e enlouquece seus seguidores. Não é por acaso que hospitais psiquiátricos estão repletos de pessoas seguidoras de religiões.  Princípios distorcidos podem enlouquecer as pessoas.

Em terceiro lugar, Paulo fala ainda de “outras doutrinas”(1 Tm 1.3). Paulo afirma que deixou Timóteo em Éfeso para que admoestasse certas pessoas a não ensinarem “outra doutrina”, isto é, havia naquela igreja, pessoas que estavam ensinando o que Deus nunca havia dito.
Na carta aos Gálatas, que foi escrita cerca de 30 anos depois da morte de Cristo, Paulo afirma que as pessoas da igreja da Galácia, estavam pervertendo o evangelho, passando da graça de Cristo para “outro evangelho” (Gl 1.6-9). O problema crucial é que não existe outro evangelho. Nada pode substituir o evangelho, ser colocado no seu lugar ou adicionado a ele. O evangelho ou é puro ou não é evangelho. Paulo afirma que ainda que um anjo vindo do céu, pregasse outro evangelho, deveria ser considerado maldito (Gl 1.8). Ainda que um pregador eloquente, uma profetisa ou profeta místico fizesse afirmações contrárias, deveriam ser considerados como enviados pelo diabo e rejeitados. 
Existe um “outro evangelho”, uma “outra doutrina”, sendo ensinado por aí, e não deveremos nunca aceitá-la. Rejeitar a verdadeira doutrina pode nos destruir espiritualmente, como afirma as Escrituras (1 Tm 4.16).

Conclusão:

Cuida de ti mesmo e da doutrina
Não apenas da doutrina, mas de si mesmo.
Não apenas de si mesmo, mas da doutrina.
Podemos estar cuidando muito bem de nós mesmos, mas desprezando o verdadeiro conhecimento de Deus.
Podemos nos tornar guardiões da doutrina e da fé cristã, como um grupo de templários modernos, de fariseus judaizantes, de puritanos calvinistas ou devotos arminianos ou ainda de pentecostais dos últimos dias, mas não estarmos cuidando da simplicidade da fé e da pureza que precisamos ter no nosso estilo de vida.
As duas situações são perigosas. Ambas podem nos destruir.
A sabedoria ensina que ao entrarmos num barco, precisamos remar não apenas de um lado, porque isto leva o barco a andar em circulo ao invés de seguir uma direção. Desenvolver espiritualidade distorcida traz desequilíbrio. O cuidado pessoal com o corpo, emoções, mente e alma precisa estar junto, andando com a defesa das verdades e doutrinas reveladas por Deus na sua palavra.



Anápolis 20.08.2014

domingo, 10 de agosto de 2014

Ap 17 e 18 A Grande Meretriz

Este sermão foi gravado e publicado. Ele pode ser ouvido por você:
Digite. www.vimeo.com e escreva o nome Samuel Vieira, e você encontrará este e vários outros sermões 







Introdução:

Os capítulos 17 e 18 de apocalipse precisam ser lidos em bloco, isto porque no capítulo 17 é feita a descrição da natureza e relata a história desta grande meretriz, ao passo que no capítulo 18 nos é mostrado seu caráter e sua queda.

Do ponto de vista literário, Apocalipse está dividido em quatro visões.

A primeira fala do Cristo glorificado e as cartas às sete igrejas;

A segunda fala da abertura dos selos e do rolo, as sete trombetas e os sete flagelos.

A terceira contém a revelação da consumação do plano de redenção divino

E a quarta fala da Jerusalém celestial.

Este conjunto faz parte da terceira visão que ora estudamos, faz parte da terceira visão.

Quem é esta meretriz?

Não é tão simples como parece entender o que significa esta cidade. João a descreve “assentada sobre muitas águas”. (18:1) Ladd declara: “Esta afirmação é muito importante, fornecendo-nos uma das chaves para identificar a meretriz, Esta descrição não cabe à Roma histórica, pois esta não estava assentada sobe muitas águas, apesar de o Rio Tibre atravessá-la”[1]. Para Ladd, esta era uma referência clara a Babilônia, conforme descreve o Profeta Jeremias: “Oh!  tu que habitas sobre muitas águas” (Jer.51:13).
Em contrapartida, veja o que afirma outro conhecido comentarista: “O dado histórico aqui é particularmente claro. Não há necessidade de nos alongarmos. Babilônia, a grande prostituta: é Roma"[2]
Percebe-se, pela flagrante diferença nos pontos de vista, como é difícil lidar com símbolos. Contudo, é importante lembrar que João, o apóstolo, faz questão de explicar o que significam estas águas, decifrando assim o seu simbolismo: “As águas que viste…são povos, multidões, nações e línguas” – (17:15).  Creio que esta resposta hermenêutica de João é mais coerente por ter sido dada pelo próprio autor, e porque nos traz novamente a idéia de que apocalipse é uma “arquitetura em movimento”.
Na sua fronte está escrito um nome, um mistério: Babilônia, a grande, a mãe das meretrizes e das abominações da terra”. (17:5) Esta prostituta obviamente é Babilônia, não necessariamente a Babilônia histórica, mas a figura que ela representa. Talvez a análise de Ellul possa ser elucidativa aqui: “Babilônia não é símbolo de Roma; é Roma, realidade histórica, que é transformada em símbolo de uma realidade mais profunda e polimorfa, de que Babilônia foi tradicionalmente expressão…Roma é o símbolo atualizado, presença histórica de um fenômeno permanente, complexo e múltiplo. Que as sete cabeças sejam as sete montanhas onde reside a mulher é o código: a mulher é Roma.” (17:5; 18:2). [3].
Temos que relembrar que João era um prisioneiro político, e precisava usar uma linguagem simbólica e de certa forma obscura, para que seus algozes não conseguissem entender a mensagem que seria decifrada pelas igrejas que a receberiam. Daí o caráter profundamente simbólico que o texto possui.

Que são as sete cabeças, os sete montes e os sete reis?

Toda tentativa de explicar o significado das sete cabeças é superficial. Se tentarmos entender a alusão aos sete reis do ponto de vista histórico teremos muitas dificuldades. (17:9).[4] O próprio autor, João, embrulha a situação dizendo que as cabeças são sete montes, mas são também sete reis (17:9). A interpretação se torna mais fácil se admitirmos que as sete cabeças são as montanhas onde a cidade está fundada, mas que a referência aos sete reis seja simbólica. O rei é uma figura de poder e autoridade, e sete é a perfeição. Estamos ainda no sexto (imperfeição) – (17:10), O sétimo rei, uma figura mais completa vai surgir, mas também durará pouco. (17:10).
Roma simboliza todo o poder político que domina o mundo,  no momento em que o apocalipse foi escrito. Roma simboliza todas as potências mundiais, de todo o tempo, com sua prostituição, seus pactos com a besta, e sua oposição ao Cordeiro.
Curiosamente ela nunca é descrita como adúltera (grego: moichalis), mas sempre como prostituta (grego: porne). Portanto ela não é uma esposa falsa, infiel, mas alguém que vende seu corpo em troca de benefícios. A prostituição é a imitação barata e diabólica do amor. É o inverso da relação de intimidade e de doação, é o oposto de Deus. Ao estudarmos as mercadorias que se encontram na Babilônia, vemos que trata-se de uma metrópole de grande poder industrial e comercial. (18:12-13,16) Um centro de bens de consumo que procura atrair as pessoas ao seu fascínio e à sua riqueza. “Simboliza a concentração do luxo, do vício e do encanto deste mundo”. [5]
Outra descrição que é feita é de que ela “os reis da terra se prostituíram com ela e com o vinho da sua devassidão”. (18:2) Babilônia é na Bíblia, a figura da mãe das fornicações e da devassidão moral. Todos se embriagam com sua luxúria, mas o que a leva a embriaguez, com aqueles que se curvam diante dela, é o “sangue dos santos”. (17:6). João afirma que quando a viu, admirou-se com grande espanto. (17:6).
O significado completo desta cidade é escatológico, Babilônia personificava a maldade humana. Trata-se portanto, de uma figura muito mais ampla que a mera descrição de uma cidade particular, seja ela Roma ou Babilônia.

Isto, contudo, não faz com que a mensagem do texto seja menos importante, pelo contrário, torna-a mais fascinannte e desafiadora. O texto deixa transparecer sua mensagem, no meio destes códigos aparentemente indecifráveis. Eis algumas lições extremamente significativos que nos são apontadas neste texto:

1.      A transitoriedade da besta  “A besta era, e  não é” -  Esta é uma expressão que aparece 3 vezes neste texto. 17:8 (2 x); 17:11. A grande, imbatível e segura Babilônia é transitória e passageira. “Não é mais”. Seus alicerces e seus fundamento ruiram. “era e não é”. Isto contrasta com a figura do Cordeiro, que “é, era e que há de vir”. (1:4) e que foi morto “desde a fundação da mundo” (13:8). O domínio da besta é transitório, circunstancial, é uma potência econômica e militar, mas seu brilho vai passar. Sua glória é temporal. A prostituta e seus seguidores empregam toda sua energia e se consomem por algo que é passageiro e ilusório.

2.      Os poderes políticos e terrenos estão profundamente mesclados com a filosofia da besta e do anticristo – (17:13,17) Por seguirem a besta e concentrarem todas as suas energias na promoção deste poder maligno, oferecem-lhe o poder e a autoridade (17:13) e doam-lhe o reino que possuem (17:17), são por sua natureza intrínseca, comprometidas com a besta e opostas ao Cordeiro. Por isto “pelejarão contra o Cordeiro”. (17:14). Os Poderes políticos não são descritos em apocalipse como poderes “neutros”, mas estruturas sistêmicas que promovem a besta. Babilônia está muito associada com a besta, na realidade o texto descreve a cidade  como que ‘montada numa besta”. 17:3 Isto é, sua estrutura está fundada na filosofia e no projeto da besta. Roma, com seus poderes constituídos, com os dez chifres, representa o movimento perseguidor da igreja de Cristo durante a história, personificada em sucessivos impérios mundiais.

3.      Outro aspecto relevante aqui revelado é que toda relação com o diabo é profundamente perigosa e destrutiva. Em 17:16 vemos que os dez chifres, pactuados com a besta, mesmo sendo aliados da meretriz e sendo a base de seu sustento, já que a grande meretriz está sentada sobre as sete cabeças (17:9), tornam-se na verdade oponentes e destruidores da meretriz, “esses odiarão a meretriz, e a farão devastada e despojada, e lhe comerão as carnes, e a consumirão no fogo”. 17:16

A grande lição que extraímos deste texto é que, aqueles que se apoiam em tais fundamentos, ainda que sejam glorificados por um breve tempo, serão destruídos e massacrados pelos seus próprios aliados. Isto é, o diabo não respeita pactos, e não tem parceiros, antes massacra aqueles que a ele se alia. Satanás é alguém que destrói quem nele se firma, é como uma cana de ponta aguda na qual colocamos nossa mão para encontrar apoio. Por esta razão, pessoas que são fascinadas por feitiçaria e obras de religiões animistas, envolvimento com espiritismo e religiões que pactuam com entidades sofrerão graves consequências de se envolverem nestes pactos sinistros. Aquilo que os atrai e fascina, é o que os arruinará, assim como a luz do lampião com o colorido de sua chama fascina e exerce forte poder de atração sobre os pirilampos, mas os queima assim que eles se aproximam do fogo.

Ellul chama a atenção para o fato de que Babilônia vem da palavra babilani: (a porta dos deuses), isto é, o lugar onde os “deuses que não são deuses”, os fictícios, os opostos, os sedutores, penetram no mundo humano e procuram perverter o homem, desviá-lo do Deus verdadeiro.[6] Por esta razão, ela simboliza a concentração do luxo, da vaidade, do prazer, entendendo prostituição também, não apenas como algo de ordem sexual, mas também do envolvimento com os amantes que podem ser os poderes políticos e a glória sobre os quais ela se fundamenta (17:9).
Este é o outro aspecto que desta prostituição que o texto aponta, o desvio espiritual.  Babilônia “se tornou morada de demônios, covil de toda espécie de espírito imundo e esconderijo de todo gênero de ave imunda e detestável”. (18:2) Por esta razão ela se “embriaga com o sangue das testemunhas de Jesus” (17:6), ela se banqueteia com suas feitiçarias “todas as nações da terra foram seduzidas pela sua feitiçaria”. (18:23). Era uma cidade mesclada com bruxarias e envolvimentos demoníacos. Não era uma cidade secularizada, antes com uma forte presença de elementos espirituais. Só que esta espiritualidade era esotérica, mágica, satânica, ao mesmo tempo que se opunha fortemente à verdade do evangelho e eliminava à força, todos os genuínos profetas e santos que proclamavam a verdade. (18:24)
A besta detesta a mulher e isto significa que a Babilônia será destruída por aquilo mesmo que a fizera vitoriosa: ela se fundamenta sobre o poder político, mas é o poder político que a destruirá.

4.      A ordem ao povo de Deus é clara: “Retirai-vos dela, povo meu, para não serdes cúmplices em seus pecados e para não participardes dos seus flagelos”. 18:4 A igreja de Cristo precisa recuperar sua capacidade de ser diferente. Tem que aprender que é “sal e luz da terra”, e por isto não pode se confundir com a devassidão espiritual e moral que assola esta geração. Qualquer cumplicidade com seu domínio e fascínio pode ser um cálice atordoador que embriaga e tira o senso crítico daquele que bebe dele. Jeffrey afirma que “a chave da adoração do culto Babilônico é a exaltação do indivíduo para que se torne como Deus pelos meios de iniciação, rituais secretos e conhecimento gnóstico dos deuses. Este sistema demoníaco tem sido o fator motivador de toda antiga falsa religião e do moderno culto da Nova Era que se opõe ao verdadeiro culto a Deus”[7].

Primasius, um velho comentarista Latino afirmava que “Roma deixara o criador e se prostituíra com os demônios”.
Deus está sempre chamando seu povo para romper os vínculos com estruturas pecaminosas, pecados, feitiçarias e cultos que são contrários a sua forma de adoração. Uma das palavras mais usadas para expressar a santidade do povo de Deus no NT é a palavra hagios, que significa literalmente,  “Cortar fora”, isto é, separar, ser diferente do mundo. O cristão não se conforma com o mundo, mas transforma-se saindo do mundo. Rm. 12:2.

Conclusão:

“Caiu! Caiu a grande Babilônia!” (18:2)  A afirmação desta potente voz, vem carregada de um grande surpresa. A grande Babilônia, carregada de luxúria, que se considerava indestrutível, que dizia consigo mesma “Estou sentada como rainha. Viúva não sou. Pranto nunca hei de ver!” (18:7) atônita, vê chegar o seu fim.
Da mesma forma, cairão ainda grandes impérios construídos em cima da arrogância, e que igualmente imaginam serem indestrutíveis. São “cidades”que se jactam de que nada pode ameaçá-las, pensam que são imbatíveis, e que nunca enfrentarão reveses.
Titanic, símbolo da opulência e orgulho de uma nação, talvez revele de forma profunda como os fundamentos econômicos e políticos são frágeis. Quando colocaram este navio no mar, ele era tão bem construído, o material e tecnologia que usaram eram tão reconhecidamente importantes que sua maior propaganda foi: “Este é um navio que nem mesmo Deus pode afundar!”. Durante o seu trajeto, o capitão ainda foi informado pelo rádio que era melhor mudar a rota, porque havia muito perigo de geleira por onde ele passava. O capitão ignorou todas as advertências, afinal, este navio era o navio mais seguro do mundo.Na sua viagem inaugural, um iceberg bate no seu casco, e mais de mil pessoas morreram no mar gelado do Atlântico.
Todos nós sabemos do resultado desta arrogância. Assim também cairão todos os poderosos, todos as grandes nações e cidades, cheias de luxúria e que tem se tornado “morada de demônios, covil de toda espécie de espírito imundo e esconderijo de todo gênero de ave imunda e detestável”. (18:2). O dia chegará em que a voz potente de outro anjo vai exclamar: “Caiu! Caiu a grande Babilônia”.

Samuel Vieira

Boston, Outono 2000




[1] . Ladd, 163, 164
[2] . Ellul, 209
[3]   Ellul, 211
[4] . Dado ao propósito prático e pastoral que damos ao texto, teríamos que nos alongar quase indefinidamente nesta análise, por isto sugerimos que façam a leitura de alguns textos que poderiam ajudá-los, ao invés de expormos aqui as possíveis variáveis. Ellul, (1980), pgs. 209-211; Hendriksen, (1965), pgs. 205-206; Ladd, (1980), pgs. 166-171
[5] . Hendriksen, pg. 202
[6] . Ellul, 215
[7] Jeffrey, Grant R., -  The coming judgment of the nations – New York, Bantam Books, 1992.  Pg. 202.