domingo, 26 de março de 2023

2 Co 6.11-13 O Poder da Afetividade

 


 

 

 

Introdução

 

O homem moderno pode ser descrito de forma caricatural como um cogumelo: “cabeça grande e peito pequeno”. Somos uma sociedade com profunda dificuldade de amar. Somos capazes de reter grande quantidade de conteúdo acadêmico, nos tornarmos bons alunos, excelentes profissionais e brilhantes intelectuais, mas o coração pequeno, os afetos encolhidos.

 

Alguns anos atrás li um livro com curioso título “AMOR”, escrito por Leo Buscaglia. Apesar de sua linha zen budista, ele escreve de forma interessante. Na verdade, ele foi convidado por uma grande universidade na California, para lecionar uma matéria com o mesmo título. Você pode imaginar isto? Uma faculdade com uma matéria sobre amor e afetividade?

 

Ele afirmou que escreveu este livro, depois que uma de suas alunas, uma brilhante e bonita estudante, com 20 anos de idade, se atirou do alto de uma montanha para as rochas, suicidando-se. Isto o levou a a questionar se ele realmente entendia de alma humana, e o que ele poderia fazer se soubesse de toda a dor que aquela jovem sensível e inteligente experimentava.

 

Suas perguntas foram as seguintes:

 

O que sabemos sobre o amor e amar?

O que sabemos sobre afeto e carinho?

Por que temos tanta dificuldade em sermos fraternos?

 

Um exemplo simples demonstra como nós invertemos os valores. Gasta-se, em média, 200 horas preparando a cerimônia do casamento, e apenas 3 horas preparando-se para o casamento em si. Muitos noivos e noivas fazem de tudo para não participarem de qualquer discussão sobre o assunto.

 

Afinal, o que está acontecendo com nossos afetos?

 

A Segunda carta de Paulo aos Coríntios é chamada por muitos de “A carta esquecida.” Isto porque ela não é conhecida como as demais, e normalmente os pregadores não pregam muito nesta carta. Contudo, ela é a carta mais pessoal de Paulo a uma igreja, e também a mais dolorida. Paulo se sente rejeitado ministerialmente, a igreja que ele havia fundado questiona sua autoridade ministerial e pede uma carta de apresentação do “presbitério” (2 Co 3.1), ele é injustamente acusado de ser “mundano em seu proceder” (2 Co 10.2) e ainda recebe críticas quanto ao seu estilo de pregação ((2 Co 10.12).

 

Neste texto Paulo fala de coração e afetividade. Da necessidade dos irmãos se “dilatarem afetivamente” ((2 Co 6.13) e de terem corações acolhedores (2 Co 7.2).

 

Este é um texto que nos ajuda a demonstrar que o evangelho precisa atingir o coração. Ao escrever sua carta aos Colossenses ele segue a mesma visão de como o evangelho precisa atingir os afetos, ao afirmar: “Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de ternos afetos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de longanimidade.” (Col 3.12). O evangelho precisa nos revestir de “ternos afetos de misericórdia”. Ternura faz parte do evangelho.

 

A Igreja de Corinto não sabia se dar. Paulo reclama isto. (2 Co 6.11)

 

Por que é tão difícil amar? Qual é a nossa dificuldade quando falamos de afetividade?

Penso que pelo menos algumas razões podem ser dadas:

 

A.    Nossos modelos relacionais – Nem sempre os modelos de afetos são muito positivos. Muitas vezes já são distorcidos dentro de nossa casa num ambiente patológico e disfuncional. Muitas famílias são marcadas pela competividade, inveja, disputa, feridas. Quanta doença um lar pode abrigar, quanta neurose…

 

Tenho ouvido muita gente ferida e machucada. Gente que não sabe lidar com amor, cujos relacionamentos são marcados por insegurança, suspeita, culpa, medo e ameaça. Famílias desestruturadas geram filhos que não sabem o que significa AMOR. Ternura e afetividade não conceituais, mas aprendidos na vivência, na dinâmica do dia a dia.

 

Uma das experiências mais pesadas que ouvi foi de uma pessoa que na morte de seu marido, vítima de um ataque cardíaco, me procurou após o funeral para desabafar e falar de sua crise: Ela se sentia culpada porque a morte de seu marido foi um grande alívio para ela. Seus sentimentos ficaram confusos diante do que ela estava experimentando. Eles estavam se separando e a morte dele trouxe uma série de “benefícios”.

 

Por que amar é tão complicado? Por que temos dificuldade com afetividade? Boa parte certamente pode ser explicada a partir dos modelos que conhecemos. Pessoas feridas, ferem. Pessoas que não experimentaram amor tendem a reagir de forma estranha em relação ao amor.

 

B.     Medo de entrega e doação - Por alguma razão inconsciente ou não, temos medo de amar, de nos darmos.

 

Existe algo que nos leva a ter medo de sermos vulneráveis. Uma espécie de sensação neurótica de proteção. Amar nos vulnerabiliza, sabemos disto. Quem ama se fragiliza. Queremos passar uma imagem de força, gente que não fraqueja. Muitos temem amar porque acham que isto é fraqueza.

 

Paulo afirma neste texto que os irmãos da Igreja de Corinto estavam limitados em seus afetos.” (2 Co 6.12) Eles construíram barreiras emocionais que bloqueavam a manifestação dos afetos e assim estavam encolhidos na capacidade de amar.

 

Muitas vezes esta dificuldade de amor surge no casamento. Casais que não querem se dar um ao outro. Certa mulher numa palestra de minha esposa sobre sexualidade disse que não gostava da ideia de ficar se oferecendo para seu marido, e minha esposa respondeu: “O seu marido é a única pessoa do mundo para a qual você pode se oferecer. Ele é o seu marido…”

 

Muitos temem a doação, a vulnerabilidade. Mas não existe amor verdadeiro sem vulnerabilidade. O nosso Senhor, se deu por inteiro, ele tornou-se frágil, foi ridicularizado e morreu numa cruz. Ele não teve dificuldades em se entregar, sem reservas, porque todo amor genuíno gera este tipo de atitude.

 

3)- Suspeitas – Muitos relacionamentos são marcados por desconfianças. “Esta pessoa vai me trair… Eu não quero sofrer...

 

Pessoas assim estarão o tempo todo questionando a realidade do amor. E sabe o que vai acontecer? Elas vão perceber que não são amadas. O que elas temem vai acontecer…Por que? Porque as pessoas eventualmente falharão, haverá momentos de afastamentos naturais, circunstanciais. Por isto a Bíblia afirma que “o amor, tudo sofre, tudo crê, tudo espera.” (1 Co 13.7) Se há suspeição o amor tenderá ao fracasso.

 

É mais ou menos como a história de um homem que teve seu pneu furado numa estrada deserta, à noite, sem o macaco para trocar o pneu. Ao longe, avistou uma casa e resolveu ir até lá pedir o macaco emprestado. Enquanto caminhava, ficou pensando que o dono da casa não atenderia a porta por ser tarde, poderia pensar que fosse um bandido. “Mas logo eu, que sou honesto e trabalhador, só estou precisando de um macaco. Claro que vai me emprestar”. Continuou caminhando e pensando: “o dono da casa, se abrir a porta, não vai querer emprestar o macaco pra um desconhecido, vai pensar que não vou devolver”. E pensando: “Mas quem ele pensa que é em não me emprestar? Logo eu, um homem honesto que não deve nada a ninguém”. E pensamentos negativos continuavam a tomar conta dele. Assim que finalmente chegou à porta da casa, tocou a campainha. O dono da casa apareceu e disse: “Pois não?” E o homem respondeu: “Sabe de uma coisa? Você pode ficar com este maldito macaco seu velho rabugento!”

 

Uma coisa que costumeiramente comentamos em casa é que um amigo não precisa ficar provando que é amigo. Não é possível ser amigo de quem você precisa estar provando o tempo todo sua amizade. Quando um velho amigo nos cobra respondemos: “Se depois de 5, 10 anos, andando juntos, não fomos capazes de demonstrar que somos amigos, então não será um sim ou não que demonstrará minha consideração”. Pessoas que estão sempre cobrando demonstração de afetos, normalmente vão se frustrar. Nem mesmo um amigo leal atenderá a todas as expectativas, todo tempo.

 

4)- Experiências negativas: Esta é outra razão que gera barreira à afetividade: são as experiências traumáticas, seja a falta de perdão, um abuso sofrido, a agressividade.

 

Quando passamos por experiências negativas, aprendemos a blindar os afetos, e usamos armas para defender e ferir, como o silêncio, a indiferença e o descaso. Pecados cometidos contra nós podem atrofiar os afetos. Lares marcados por raiva e amargura tornam-se inimigos mortais da carícia, aceitação, amor, sexualidade.

 

O diabo não gosta de carinho, por isto, a primeira coisa que acontece depois de uma briga não resolvida de um casal surge o distanciamento e a separação física. Eles não conseguem mais se abraçar, beijar, namorar. Satanás é o anticarinho, o antiabraco, ele é oposto a ternura. Ternura e afetividade não são geografias por onde Satanás transita.

 

Este texto nos ensina algumas verdades, e uma delas é que a mensagem do evangelho alarga os afetos. “Para vós outros, ó coríntios, abrem-se os nossos lábios, e alarga-se o nosso coração. Não tendes limites em nós; mas estais limitados em vossos próprios afetos. Ora, como justa retribuição (falo-vos como a filhos), dilatai-vos também vós.” (2 Co 6.11-13)

 

O Evangelho precisa dilatar nossos afetos. Ao escrever o livro “Teologia do Afeto”, defendi a tese de que não existe verdadeira espiritualidade cristã que não atinja os afetos. Quando Cristo chega ao nosso coração, nossos corações são dilatados, a fé precisa atingir sentimentos e emoções. Ou, como afirma o psiquiatra Scott Peck: “Maturidade espiritual é igual maturidade emocional.” Não podemos dizer que alguém é maduro espiritualmente se o evangelho não atingir o âmago de nosso ser.

 

William Barclay, conhecido comentarista ao analisar este texto, afirma que ele, intencionalmente iria omitir os versículos 6.14-7.1, colocando junto com 6.11-13 o texto de 2 Co 7.2-4: “Na versão King James em 2 Co 6.12, notamos uma tradução que é muito comum no Novo Testamento e não muito feliz: "Você está estreitado em suas próprias entranhas". A palavra traduzida por entranhas ou intestinos é a palavra grega splagchna, que significa literalmente as vísceras superiores, o coração, o fígado e os pulmões.”  Na visão hebraica nesses órgãos estaria a sede das emoções. Na verdade, a palavra melancolia significa literalmente que a pessoa tem um fígado preto, adoecido. Em português colocamos a sede do amor no coração e é mais natural usar a palavra coração do que intestinos, mas no hebraico a ideia é que os sentimentos estavam nas entranhas.

 

Crisóstomo afirmou que “assim como o calor expande as coisas, o calor do amor expande o coração humano.”

 

No capítulo 7 Paulo afirma: “Acolhei-nos em vosso coração.” (2 Co 7.2). Logo adiante ele faz menção de Tito, que era o pastor da comunidade, ao dizer: “O seu entranhável afeto cresce mais e mais para convosco.” (2 Co 7.15) Vejam mais uma vez a ideia da afetividade estar ligada às entranhas, ser algo visceral. Tito era capaz de amar uma igreja que agiu de forma tão dura com Paulo, seu mentor e amigo. O amor de Tito era capaz de transpor barreiras que tantas vezes dificultam a aceitação do outro.

 

A afetividade deve ser a marca de um cristão.

Segundo o educador Jean Piaget, o desenvolvimento intelectual do ser humano abrange dois lados: um afetivo e um cognitivo. É impossível desvincular a afetividade da cognição, ou o contrário. Isso justifica como é muito mais interessante aprender algo novo quando achamos a pessoa inspiradora. Geramos nessa situação uma relação de afeto e admiração que nos mantem mais atentos e envolvidos com o novo assunto, mesmo na vida adulta.

 

A mensagem do Evangelho gera satisfação interior. Deus usa agentes humanos para trazer conforto divino (2 Co 1.3-7). O consolo de Deus veio a Paulo por intermédio de Tito. Paulo recomenda a igreja para que alargue o coração. “Não tendes limites em nós, mas estais limitados em vossos próprios afetos.” (2 Co 6.12) O coração daqueles irmãos estava sofrendo de nanismo psicológico, com sentimentos atrofiados. Muitos podem viver assim, limitados nos afetos. Perdem-se por não se entregarem, nem se deixarem ser tocados. Muitas vezes parecemos o muro de Berlim: arames farpados, soldados vigiando, tensão, tiros ao tentar atravessar a cerca. Limitados nos afetos.

 

Precisamos cuidar para que nossos afetos não se encolham. Não devemos negar o desejo de fazer alguma coisa boa para alguém que nós amamos por causa de nosso medo. O evangelho nos ajuda a superar estes temores, de dar um presente, fazer uma surpresa para um amigo, amar sem reservas, criar alguma coisa romântica para o cônjuge. Há muitas formas de dilatarmos a alma, de sairmos do casulo, se rompermos com a atrofia emocional. Precisamos tomar cuidado com os afetos limitados do nosso coração.

 

O convite do texto é: “dilatai-vos também vós.” (2 Co 6.13)

 

Conclusão

 

Cristianismo é uma religião que tangencia o coração. Não basta ter convicções ortodoxas. Jesus confronta a igreja de Éfeso, que era fiel, laboriosa, perseverante, mas que havia abandonado o primeiro amor (Ef 2.4). A fé cristã é fundamentada na entrega e na doação. O evangelho nos mostra que Deus é um ser de afetos, diferente de todos os outros deuses, o Deus da Bíblia se doa, se entrega. Apesar de ter sido desprezado e incompreendido, Jesus na sua humanidade, serviu, cuidou, e na cruz, sua vida foi de total entrega e doação.

 

Em 2 Co 5.14-15 lemos: Pois o amor de Cristo nos constrange, julgando nós isto: um morreu por todos; logo, todos morreram. E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou.” O texto afirma que Ele morreu por todos…” Que amor poderia ser maior que este? Não é um Deus que pede, é um Deus que dá. Ele derramou seu sangue na cruz por todos, para que pudéssemos ser salvos.

 

Por isto, não é possível ser cristão sem entregar o coração, sem estar desarmado. Cristianismo por natureza implica em rendição. Braços levantados, sem defesas, mente aberta para acolher este amor e revelar este amor aos irmãos. Quem compreende o amor de Deus em sua vida, compreende a necessidade de estar vulnerável diante do outro.

 

Paulo se abre neste texto, justamente para uma igreja que fez duras críticas ao seu ministério, questionou seu apostolado e criticou seus sermões. Paulo ignora tudo isto e se fragiliza, abrindo sua alma. Ele sabia que não poderia ter o coração fechado.

 

Existe uma saudação quase universal hoje nos meios pentecostais: “Paz do Senhor!” Não há nada errado em nos saudarmos desta forma, Jesus várias vezes saudou assim seus discípulos, mas não existe nenhuma ordenança específica sobre este assunto nas Escrituras. Uma saudação que brota repetidas vezes na Bíblia, muito mais do que a afirmação de Cristo “Que a paz do Senhor esteja sobre vós”,  é a afirmação “Saudai-vos uns aos outros com ósculo santo.” (1 Co 16.20; 2 Co 13.13)

 

Esta saudação, embora recomendada nas Escrituras é completamente dissociada de nossa cultura. Muitos equivocadamente a levam ao pé da letra, mas a ênfase do texto é sobre algo bem maior, quer apontar para algo mais profundo. O significado maior dela é que, como povo de Deus, “É impossível ser frio!”. Não dá para ignorar o irmão, ser indiferente, passar perto dele sem percebê-lo, é preciso “beijá-lo”, (em nossa cultura, um gostoso abraço, na cultura americana, um caloroso aperto de mão já é bastante!)

 

Quem tem o coração dilatado pela graça de Deus e compreendeu quem é o Deus gracioso e amoroso, não consegue se limitar em seus afetos, mas rompe com a síndrome de caramujo e se abre ao irmão, à esposa, ao seu filho.

 

É impossível olhar para a cruz, entender o amor gracioso de Deus, e nos mantermos numa atitude de insensibilidade, fechamento, descaso e distanciamento. Por isto a Bíblia nos exorta neste texto: “Ora, como justa retribuição, dilatai-vos também vós.” (2 Co 6.13)

 

 

Rev/ Samuel Vieira

Encontro de Casais- Brasilia-DF

10.junho.1989

Refeito e pregado em Boston, 12.9.99

Anapolis, Março 23

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 17 de março de 2023

2 Co 6.4-10 Grandes paradoxos

 



 

 

 

Introdução

 

Existem alguns temas nas Escrituras que são difíceis de conciliar:

 

1. Como o Deus Pai, Filho, Espírito Santo podem ser três pessoas subsistindo em forma de uma só? Como explicar o mistério da Trindade?

 

2. Como a responsabilidade humana e a soberania de Deus podem andar juntas?

 

3. Se Deus sabe de todas as coisas antes que a peçamos, por que pedir, e ainda mais difícil: Se oração não muda o coração de Deus, por que orar?

 

4. Por que Deus permite o sofrimento, se ele tem todo poder para curar?

 

No Livro: Evangelização e soberania de Deus[1] Packer procura tratar destas questões. Ele indaga: Se Deus controla todas as coisas, por que evangelizar? A soberania de Deus enfraquece a evangelização?  Há contradição entre Predestinação e Evangelização? Para Packer, estas duas verdades bíblicas, aparentemente paradoxais, são, na verdade, antinômios da revelação de Deus contida na Bíblia. Um antinômio não é um paradoxo, mas “uma contradição entre conclusões que parecem igualmente lógicas, razoáveis ou necessárias”. Naturalmente trata-se de uma contradição aparente, e há razões para se crer tanto numa quanto na outra. No paradoxo, não são os fatos que dão ideia de contradição, mas as palavras.

 

Eis alguns exemplos de paradoxos:

“Sou livre, quando sou escravo”;

“Entristecidos, mas sempre alegres”;

“Nada tendo, mas possuindo tudo”.

Nestes casos, diz Packer, a contradição é verbal, não real. Isto é paradoxo. A Bíblia afirmas duas coisas de forma simultânea, sem nenhuma crise.

 

O que é um paradoxo? Um paradoxo é uma declaração aparentemente verdadeira que leva a uma contradição lógica, ou a uma situação que contradiz a intuição comum. Em termos simples, um paradoxo é "o oposto do que alguém pensa ser a verdade".

 

Uma das melhores explicações que ouvi sobre paradoxos foi dada por um guia turístico que, falando do Parthenon Center, em Atenas. Ele explicou que estudiosos ainda estão admirados com a capacidade dos engenheiros que o construíram, porque, as colunas são simétricas, exatas, numa harmonia plena. Então ele disse que, por definição as retas paralelas são linhas que nunca se cruzam, são equidistantes em cada ponto correspondente, andam sempre juntas, mas não se tocam. Na matemática, as retas são linhas infinitas formadas por pontos e representadas por letras minúsculas indicando que não possuem fim. Isto é importante porque, as paralelas, que por definição não se tocam, contudo se tangenciam no infinito.

 

Esta é uma boa forma de entender os mistérios de Deus: duas coisas aparentemente irreconciliáveis, colocados na perspectiva infinita e eterna, fazem todo sentido. Embora não sejamos capazes de ver onde elas se tocam, por causa de nossa finitude.

 

Neste texto encontramos alguns paradoxos.

 

1.     Como estar contente em tempos de descontentamento? Paulo afirma: “Entristecidos, mas sempre alegres.” (2 Co 6.1. )

 

Esta é uma ideia presente nas Escrituras. Debaixo de grande sofrimento é possível ver pessoas experimentando a graça incomensurável de Deus e uma alegria indizível. Paulo se refere à "paz que excede todo entendimento." Existe uma presença surpreendente de Deus em tempos de grandes lutas, que apesar de não transformar a situação em si, transforma o coração de forma profunda e maravilhosa.

 

Considere Paulo e Silas presos em Filipos. Apesar de torturados, ainda encontraram força interior  para louvar a Deus. “Por volta da meia noite, Paulo e Silas oravam e cantavam louvores a Deus, e os demais companheiros da prisão escutavam.” (At 16.25) Eles não estavam cantando porque tudo estava bem. Todo o contexto era de dor, apesar disto eles estavam experimentando grande alegria celestial. A perseguição, pressão, o sofrimento, e a oposição, não roubam deles a alegria do céu.

 

Esta é uma contradição, um paradoxo. Assim como é muito comum encontrarmos pessoas, que vivem um paradoxo diferente: “são alegres, mas entristecidas.” Quando James Houston esteve no Brasil, com quase 90 anos e uma vitalidade surpreendente, ele foi hospedado na casa de um amigo meu, em Brasília, e havia algumas pessoas conversando com ele. Um dos visitantes fazia piada de tudo, e ria alto, espalhafatosamente. De repente, de forma surpreendente, Houston lhe perguntou: “O que você está escondendo detrás de toda esta aparente alegria?” E aquela pessoa, literalmente desmontou.

 

Há muitos avatares da alegria hoje em dia, vivendo sob falsa alegria. Aparentemente alegres, mas o coração triste. Fotos alegres no Instagram, mensagens positivas no facebook, mas por dentro uma alma triste, mal resolvida, vivendo o seu pavor silencioso, sem alegria, sem paz, sem benção. Mas o texto aqui está falando de pessoas fustigadas, privadas de seus direitos, espoliadas de seus bens, mas que ainda assim conheciam uma alegria celestial. Este é o primeiro paradoxo que encontramos no texto.

 

O segundo paradoxo é:

 

2.     Como viver em escassez, e ainda ser rico?Pobres, mas enriquecendo a muitos.” (2 Co 6.10).

 

Este texto nos ensina que existem pessoas ricas que são pobres, e outras pessoas que são pobres, mas com grande riqueza.

 

Por exemplo: considere a declaração de Jesus acerca das igrejas de Esmirna e Laodicéia. Sobre a primeira diz: “Conheço a tua pobreza, mas tu és rica.” (Ap 2.9), e sobre Laodiceia diz: “Vocês afirmam: estou rico e abastado, e não preciso de coisa alguma, e nem sabes que és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu.” (Ap 3.17)  Viram só? É uma questão de perspectiva. Há muitos que se acham pobres e Deus os acha ricos; e muitos que se acham ricos, mas aos olhos de Deus são pobres.

 

Sobre a Igreja de Esmirna, Deus diz: “Conheço a tua pobreza, mas tu és rica.” (Ap 2.9) Ninguém é pobre, quando Deus declara que é rico. Esta igreja, atribulada, perseguida pelo Estado, é declarada rica diante de Deus, ainda que ignorada pelos homens. Curiosamente Jesus afirma no presente e não no futuro: “tú és rica”, e não “tu serás rica!” Deus tem uma forma diferente de avaliar a situação. Laodicéia achava que era rica, mas era pobre. Esmirna era pobre, mas Jesus a declara rica. A igreja de Filadélfia tinha pouca força, mas Jesus colocou diante dela uma porta aberta.

 

Como estamos nós, ricos, mas pobres; ou a despeito da pobreza, ricos?  Esmirna aparentemente era pobre, mas na verdade era rica. Embora fosse pobre financeiramente, era rica de recursos espirituais. Não tinha tesouros na terra, mas tinha tesouros celestiais. Era pobre diante dos homens, mas rica diante de Deus. A riqueza de uma igreja não está na beleza do seu templo e no mobiliário, nem na grandeza a do seu orçamento, mas na benção e aprovação divina. 

 

Outro episódio a ser considerado encontra-se em 2 Crônicas 25. O rei Amazias contrata um exército, cujo rei era infiel a Deus, para lutar com ele numa batalha, pagando uma grande quantia. Eram 100 talentos de prata, algo não desprezível. Cada talento pesa 15 Kgs. Um profeta enviado por Deus disse ao rei para desconsiderar a ajuda daquelas pessoas e não deixasse que elas fossem à guerra. Ele tinha feito um contrato e havia pago. Ele precisava decidir se levava o rei infiel como aliado dele, ou perdia o dinheiro que pagou. Ele decidiu obedecer, porque entendeu que a perda destes bens implicava na benção de Deus. “Disse Amazias ao homem de Deus: Que se fará, pois, dos em talentos de prata que dei às tropas de Israel? Respondeu-lhe o homem de Deus: Muito mais do que isso pode dar-te o Senhor” (2 Cr 25.9). E o profeta respondeu: Mais do que isto pode dar-te o Senhor.” 


Existem perdas que são verdadeiros ganhos. O tempo vai mostrando isto. Quantas perdas abençoadas que trouxeram bençãos e ganhos reais, profundos e duradouros.

 

Nem toda vitória traz ganhos reais. Amazias vai para a guerra, perdendo 100 talentos de prata, confiado na palavra do Senhor, e o resultado é a vitória do povo de Deus. Dinheiro não pode ser critério absoluto de decisões. O único ponto que interessa é se Deus está ao nosso lado.

 

As maiores perdas e os maiores ganhos não são temporais, mas eternos. Tem a ver com a eternidade. Jesus relatou certa vez a parábola de um homem que se julgava próspero, autossuficiente e abastado. E no final da estória Deus lhe perguntou: "Que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?" Aquele homem, depois de agir com arrogância dizendo: “Tens em deposito muitos bens, come, bebe, regala-te!” Ouviu o seguinte: "louco, esta noite te pedirão tua alma, e o que tens preparado para quem será?"

 

Paulo entendeu muito bem este paradoxo de perder e ganhar:

"Mas o que, para mim, era lucro, isto considerei perda por causa de Cristo. Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade de Cristo Jesus, meu Senhor, por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo." (Fp 3.7-8).

 

Em Cristo, Paulo encontrou seu maior bem. O grande ganho de sua vida não consistia em bens materiais, prosperidade, status, posição social, bom salário. Seu maior ganho era Jesus. Quando ele o descobriu, perdeu tudo por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo. Novas prioridades foram estabelecidos em sua vida, e um novo critério de valor foi estabelecido.

 

Nem todo lucro é ganho, e nem todo fracasso é perda!

 

3.     Estar contente em tempos de desapontamento – “Nada tendo, mas possuindo tudo.” (2 Co 6.10) Este é o terceiro paradoxo.

 

Paulo fala de um terceiro paradoxo que muda nossa vida: Estar contente quando tudo poderia nos tornar tristes. “Nada tendo, mas possuindo tudo.” Precisamos de algo que se constitua nosso tesouro maior, e isto não pode ser encontrado em bens que possuímos. Precisamos de algo maior que os bens materiais.

 

Somos uma geração marcada pelo descontentamento. Nada é suficiente! Temos cada vez mais, mas infelizmente continuamos vazios e tristes. Fazemos viagens caras, compramos carros bons, temos casas bonitas, algumas verdadeiras mansões, mas nem sempre estas coisas maravilhosas fazem qualquer sentido. Continuamos vazios e descontentes. Somos uma geração descontente. Crianças e jovens descontentes com seu corpo, com a vida e com Deus. Vivem na rua da amargura lamentando, lamuriando. Tornam-se autocentrados, obcecados consigo mesmos e descontentes.

 

Um dos grandes problemas da humanidade é o descontentamento. Este sentimento é quase universal. Não há limites para a cobiça e para a insatisfação. Em Provérbios 1.19 lemos: “Tal é o espírito de todo ganancioso, e o espírito de ganância tira a vida de quem o possui.”

 

Psicólogos reunidos alegaram que o apóstolo Paulo foi o homem mais feliz da vida, pela seguinte declaração: “Aprendi a viver contente em toda e qualquer situação”.

 

Os mais pobres acham que ganhando dinheiro, resolveriam o problema da felicidade, os mais ricos percebem que o dinheiro não trouxe o sentimento de plenificação que queriam, e muitas vezes continuam com a alma ainda vazia. Os altos, se sentem complexados em relação à altura, os baixinhos gostariam de serem mais altos. Reclamamos do calor quando vem, do frio quando chega, da neve quando cai, da chuva e do sol. Parece que não há limite para nossa insatisfação, e isto tem a ver com algo mais profundo: Nossa alma está insatisfeita, nosso coração está inquieto. Falta alguma coisa...

 

A questão essencial, não é o que você tem, nem o que você faz, nem como você é visto pelos outros. O problema essencial não é a tempestade do mar, mas a tempestade do coração. O nosso eu mais profundo é o que dá sustentação à nossa alma. Paulo quando disse: “Aprendi a viver contente”, não estava em viagens de férias no Caribe, mas estava preso pela sua fé.

 

Falta alegria simples, genuína e profunda! Parece que Jesus detectou este mesmo sentimento nos seus discípulos ao lhes perguntar: ‘‘Qual de vós, por ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado ao curso de sua vida?’’ Côvado é uma medida. Estaria Jesus se referindo a alguns discípulos que tinham problema com alto imagem e incomodados com sua estatura?

 

Neemias afirma: ‘‘A alegria do Senhor é a vossa força.’’ (Ne 8.10) O que isto quer dizer? Aplique isto à primeira pessoa do singular: “A alegria do Senhor é a minha força”. Será que tenho experimentado esta preciosa dádiva em minha vida? Precisamos ser ‘‘contaminados’’ com este poder sobrenatural que dá alegria em tempos normais e nos dias calamitosos e de perplexidade.

 

A palavra de Deus afirma:

‘‘Grande fonte de lucro é a piedade com o contentamento.’’ (1 Tm 6.10) Talvez Paulo estivesse tentando corrigir o mau humor e a melancolia de pessoas com as quais Timóteo trabalhava, mas que apresentavam sempre um quadro de desânimo e desencanto. É possível piedade (vida com Deus) e ainda assim sermos descontentes? Infelizmente muitas pessoas já receberam o amor de Deus, mas ainda vivem descontentes, sem gratidão pelo que tem recebido.

 

Neste texto que estamos analisando, da 2 Carta de Paulo aos Coríntios, o apóstolo descreve a dura realidade que estava enfrentando:

 

Pelo contrário, em tudo recomendando-nos a nós mesmos como ministros de Deus: na muita paciência, nas aflições, nas privações, nas angústias, nos açoites, nas prisões, nos tumultos, nos trabalhos, nas vigílias, nos jejuns, na pureza, no saber, na longanimidade, na bondade, no Espírito Santo, no amor não fingido, na palavra da verdade, no poder de Deus, pelas armas da justiça, quer ofensivas, quer defensivas; por honra e por desonra, por infâmia e por boa fama, como enganadores e sendo verdadeiros; como desconhecidos e, entretanto, bem-conhecidos; como se estivéssemos morrendo e, contudo, eis que vivemos; como castigados, porém não mortos.” (2 Co 6.4-9).

 

Apesar de todo cenário, tão negativo, a alegria de Paulo é contagiante, mesmo vivendo momentos de  desapontamento e angústia. Este paradoxo só pode ser experimentado por quem paira acima das circunstâncias, não está restrito nem limitado às forças da história nem da pressão de homem ou situações favoráveis, mas se percebe amado de Deus e tem experimentado o consolo do Espírito Santo.

 

Conclusão: O maior dos paradoxos

 

Neste texto consideramos alguns paradoxos:

 

1.     Como estar contente em tempos de descontentamento?Entristecidos, mas sempre alegres.” (2 Co 6.10)

 

2.     Como viver em escassez, e ainda ser rico? “Pobres, mas enriquecendo a muitos.” (2 Co 6.10).

 

3.     Como estar contente em tempos de desapontamento – “Nada tendo, mas possuindo tudo.” (2 Co 6.10).

 

Mas nas Escrituras Sagradas, o maior dos paradoxos é encontrado na cruz.

 

Há dois mil anos atrás Deus permitiu que seu Filho fosse submetido à morte mais cruel e dolorosa já criada pelo homem — a crucificação em uma cruz romana — para que Ele pudesse redimir todos aqueles que Ele escolheu. Esse ato apresenta um paradoxo final: Deus morrendo de modo sacrificial para que os homens possam obter a vida eterna. A cruz está repleta de contradições:

 

A.    Maldição x benção – Aquele lugar maldito torna-se o lugar da redenção e da graça mais profunda.

B.     Injúria e impropérios x perdão e amor. Os soldados e até mesmo um dos ladroes lançam impropérios, mas o que sai da boca de Jesus é o perdão transformador: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.” (Lc 23.34)

C.    Derrota x maior vitória. Aparentemente é a derrota do bem. Um sistema perverso de julgamento, juízes que dão sentenças iníquas. Aparentemente o mal e o diabo venceram. Entretanto, a cruz é o lugar da vitória da luz contra as trevas; do bem contra o mal; de Deus contra o diabo. A maior vitória de Cristo na cruz não foi contra o sistema perverso e as enfermidades, mas  contra as forças do mal.

D.    Morte x Vida. O autor da vida é crucificado. Deus morre... que contradição... Deus, autor da vida, morre numa cruz. Aparentemente a morte venceu prevaleceu. Entretanto, o inimigo foi ali derrotado . Jesus morreu, mas ele ressuscitou ao terceiro dia. Na cruz, a maldição virou bênção; a derrota se transformou em vitória; a morte se fez vida; e a tristeza se tornou em alegria.

 

Quando você enfrentar seus paradoxos, quando a vida não fizer sentido, olhe para a cruz. Quando a derrota e a tristeza parecerem dominar sobre sua vida e sua realidade for de trevas e medo, contemple a Cristo crucificado e ressurreto, olhe para o Cordeiro de Deus que foi morto, mas está à direita de Deus Pai e vive pelos séculos dos séculos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


sábado, 11 de março de 2023

2 Co 6.1-3 O Perigo da Graça Barata

 


 

 

 

Introdução

 

A Nova Era é um conhecido movimento anticristão, cujo propósito é basicamente promover uma filosofia transcendental, que tente satisfazer o anelo religioso do homem, descartando ou combatendo abertamente a obra de Cristo e a fé cristã. Eles afirmam que com a chegada do ano 2000, iniciou-se a “Era do aquário” e encerrou-se a “Era de peixes” (símbolo do cristianismo) e desta forma, o mundo sofreria uma grande transformação religiosa, pondo fim ao cristianismo.

 

A Igreja de Cristo não precisa ficar assustada com estas teorias conspiratórias. Em todas as épocas surgem novas teorias com roupagens diferentes. É fundamental que nos apeguemos a Palavra de Deus e fiquemos seguros sobre suas declarações.  Jesus afirmou de forma segura e clara ele que edificará sua igreja. Portanto, precisamos relembrar que Jesus tem um compromisso pessoal com seu projeto, em edificar sua igreja e “as portas do inferno não prevalecerão contra ela.” (Mt 16.18) Portanto, não devemos temer o que o diabo pode fazer contra a igreja. A vitória do povo de Deus é certa. A Igreja redimida prevalecerá, porque pertence a Cristo, e ele mesmo declarou: “Eu edificarei a minha igreja.”

 

Lutero, anos depois, reiterou isto no seu famoso hino, Castelo Forte:

“Se nos quisessem derrotar, demônios não contados,

não poderiam dominar, nem ver-nos assustados.

O príncipe do mal, com seu plano inferno.

Já condenado está. vencido cairá, por uma só palavra”.

 

A grande ameaça à fé cristã não vem de fora, mas de dentro. O diabo não pode derrotar a igreja, mas a infidelidade sim. Jesus não tem compromisso com igreja infiel, mas com seu povo, obediente e fiel. É esta igreja que Jesus está edificando, e esta igreja, prevalecerá.

 

Contexto

Nesta passagem, o apóstolo lembra três grandes perigos que cercam o povo de Deus, e adverte a igreja de Corinto contra estes inimigos:

 

1.     A graça barata - “E nós, na qualidade de cooperadores com ele, vos exortamos a que não recebais em vão a graça de Deus” (2 Co 6.1)

 

Tudo o que temos e o que somos é fruto da graça de Deus. Jesus é o autor e consumador de nossa fé. (Hb 12.2) Ele mesmo toma a iniciativa da nossa salvação, e nos preserva para a salvação. “Tudo provém de Deus” (2 Co 5.18). A graça é a doutrina distintiva da fé cristã. Num debate interreligioso em Londres, com a presença de representantes de várias religiões, indagaram a cada um dos debatedores, qual era o diferencial de sua religião. C. S. Lewis respondeu sem pestanejar: “No cristianismo é a graça!” Todas as religiões do mundo advogam que salvação é resultado do esforço humano, é uma conquista, um mérito. No cristianismo, entretanto, a salvação não é meritória, é dom de Deus, um presente gratuito que é dado, por meio de Cristo.

 

Na medida em que vamos estudando a graça, e nos aprofundando neste conceito tão genuinamente bíblico, corremos o risco de numa determinada hora, vermos pessoas confusas. Elas afirmam: “Se é tudo pela graça, então não precisamos fazer nada?” Desta forma surge uma tendência para o antinomianismo, que é o desprezo por toda lei e toda obediência e se manifesta uma grave distorção da graça de Deus. Se sou salvo pela graça, então posso pecar com liberdade, já que não depende de mim?

 

Se você pensa assim, ou se já ouviu raciocínio semelhante, é bom saber que não será a primeira vez na história. Os cristãos de Roma, ficaram confusos em relação graça de Deus e afirmaram: “Que diremos, pois? Permaneceremos no peado, para que a graça seja mais abundante?” (Rm 6.1). O raciocínio é o seguinte: “Se tudo vem de Deus, então não precisamos nos esforçar, e podemos continuar vivendo na prática do pecado. Afinal, o próprio Paulo não afirmou que “onde abundou o pecado superabundou a graça?” (Rm 5.20). Então, vamos pecar mais para que a graça seja maior”

 

Paulo afirma que isto é impossível, porque a conversão genuína tem o poder de mudar a natureza humana. Transformar um velho homem, segundo suas concupiscências em um novo homem, criado em Cristo Jesus em justiça e retidão procedentes da verdade. O Espírito Santo o regenera, transformar a natureza do ser humano. Quando os irmãos de Roma fazem esta pergunta sobre pecar mais para que a graça pudesse ser mais abundante, Paulo os leva a refletir sobre a nova natureza que eles receberam em Cristo. Quem despreza a graça não entendeu ainda o significado de novo nascimento e regeneracao, e ao tratar a graça de forma vazia, sem dar o devido peso e reconhecimento a esta graça estará crucificando o mestre duas vezes, desvalorizando aquilo que é valorizado por Deus.

 

Dietrich Bonhoeffer no livro “Discipulado” afirma:

“A graça barata é inimiga mortal da Igreja, a nossa luta trava-se hoje em torno da graça preciosa”. A graça barata é a pregação do perdão sem arrependimento, do batismo sem disciplina. A Igreja cristã tem batizado, confirmado, absolvido toda uma geração sem fazer perguntas, sem condições, deram coisas santas aos zombadores... é a graça do discipulado sem a cruz, é a aceitação da salvação sem a aceitação do senhorio.”

 

Continua ainda:

“Como corvos, reunimo-nos em torno da carcaça da graça barata. Dela, absorvemos o veneno que matou os seguidores de Jesus. É também a graça que concedemos a nós mesmos. Funciona como um passe que permite ao cristão viver da mesma maneira que antes. A vida sob a graça barata, de fato, não difere da vida sob o pecado; a pessoa não segue a Cristo, porque a graça barata justifica o pecador sem transformar o pecador.”

 

“Essa graça é preciosa porque chama ao discipulado, por custar a vida ao homem, e é graça sim, por dar-lhe a vida. Não pode ser barato aquilo que custou caro a Deus, e sobretudo por Deus não ter achado que seu filho fosse preço demasiado caro a pagar pela nossa vida. Com a secularização crescente da Igreja, a graça passa a ser propriedade comum de um mundo cristão, tornou-se graça barata. A graça não dispensa a obediência, antes a compromete mais seriamente. Engana-se quem julga que por causa da graça somos dispensados do zelo cristão e do discipulado.”

 

Bonhoeffer diz ainda:

“Haverá afronta mais diabólica para a graça que pecar confiado nessa mesma graça que Deus nos concede?”

 

Isto na verdade é cinismo.

 

“A graça que custa muito é um tesouro escondido no campo pelo qual as pessoas vão e vendem tudo o que têm com alegria […] A graça que custa muito é o evangelho que deve ser buscado repetidas vezes, o dom que deve ser pedido, a porta na qual se deve bater. Ela custa muito porque nos chama ao discipulado; é graça, porque nos chama a seguir a Jesus Cristo. Custa muito, porque condena o pecado; é graça, porque justifica o pecador. Sobretudo, a graça custa muito, porque custou muito para Deus, porque custa para Deus a vida de seu Filho […] e porque nada que custe muito para Deus pode custar pouco para nós.”

 

Para Bonhoeffer, a distinção essencial entre “graça barata” e “graça que custa muito” está no fato de que a segunda reconhece a correlação entre graça e discipulado, enquanto a primeira ignora completamente essa correlação. É “pregação do perdão sem arrependimento […] [é] a Ceia do Senhor sem confissão de pecado; é absolvição sem confissão pessoal. Graça barata é graça sem discipulado, graça sem a cruz, graça sem Jesus Cristo vivo e encarnado”.

 

A justificação é um dom da graça, mas não é um dom que isenta os cristãos da responsabilidade. Pelo contrário, a libertação do pecado por meio da graça (que custa muito) possibilita a capacidade de seguir a Cristo.

 

O apóstolo Judas, que escreveu uma pequena epístola desconhecida da maioria dos crentes, adverte contra aqueles que “transformam a graça de Deus em libertinagem.”  (vs. 3)  Perverter o conceito da graça é sempre um grande risco para a alma humana. Não são poucos os que se perdem por desprezarem a maravilhosa graça de Cristo.

 

O texto de nossa reflexão afirma:

E nós, na qualidade de cooperadores com ele, também vos exortamos a que não recebais em vão a graça de Deus.” (2 Co 6.1) Precisamos estar atentos a esta advertência. Podemos estar barateando a graça de Deus. Isto é um grande risco para nossa alma.

 

2.     O perigo da procrastinação - “Porque ele diz: Eu te ouvi no tempo da oportunidade e te socorri no dia da salvação; eis, agora, o tempo sobremodo oportuno, eis, agora, o dia da salvação.” (2 Co 6.2)

 

O Deus das Escrituras Sagradas, que é Eterno, vive o paradoxo de um senso de urgência por causa da condição humana: somos temporais e passamos. Por isto a advertência bíblica é que “agora, o tempo sobremodo oportuno, eis, agora, o dia da salvação.“ Agora, não depois; hoje, não amanhã.

 

Na noite do dia 8 de outubro de 1871, um domingo, Dwight L. Moody pregou a um grande auditório em Chicago, EUA. Em linguagem vívida ele descrevia o julgamento de Cristo perante as autoridades. Em sua conclusão ele deu ênfase às palavras de Pilatos: "Que farei então com Jesus chamado Cristo?" Enquanto Moody pregava, um grande incêndio teve início em um estábulo e Chicago foi consumida em chamas. Os 185.bombeiros da cidade com 17 carros puxados a cavalo, 23 carros só com mangueiras, e 4 com escadas, foram incapazes de deter o avanço do fogo. Na manhã de terça-feira, 17.500 edifícios tinham sido destruídos, com um prejuízo calculado em torno de 400 milhões de dólares. Trezentas pessoas tinham morrido e cerca de 100 mil tinham ficado desabrigadas. Sensibilizado, Moody entrou em crise ao considerar a possibilidade de que pessoas que o ouviram no domingo à noite poderiam ter morrido e foram condenadas espiritualmente porque não entregaram o coração a Jesus naquela mesma noite! Mais tarde, ele declarou: "De agora em diante prefiro ter cortada uma de minhas mãos a dar a qualquer auditório uma semana para decidir entregar-se a Cristo!"

 

A Palavra de Deus exorta:

Hoje, se ouvirdes sua voz, não endureçais vosso coração.”

 

O amanhã é uma possibilidade, não uma certeza. O amanhã pode nunca chegar. Agora é o tempo em que podemos responder ao convite de Jesus, hoje é o tempo da aceitação, o tempo aceitável da parte do Senhor.

 

Procrastinar é adiar, transferir, deixar para depois aquilo que deve ser feito hoje. Milhares de pessoas se perdem na vida porque estão sempre deixando para depois decisões que precisam ser tomadas agora. É o obeso, que precisa reorientar seus hábitos, mas que está sempre deixando para amanhã. A pessoa que precisa começar a estudar, mas está sempre postergando para o ano que vem. A pessoa consumidora que precisa parar de gastar para equilibrar as finanças, mas compulsivamente continua comprando e assumindo dívidas. Da mesma forma, muitos precisam abandonar o pecado mas estão sempre deixando para outra hora, que precisam se render a Cristo mas não o fazem de imediato, deixando sempre para depois.

 

Martinho Lutero conta uma elucidativa história a este respeito:

 

Certo dia, nas profundezas dos infernos, houve uma grande reunião para a qual, satanás convocou todos os seus diabos. E, reunidos, ele mostrou sua preocupação com o progresso da fé entre os homens e pediu sugestões aos chefes de suas hostes.

Um deu a opinião de que era preciso desencadear o ateísmo e desmoralizar a

crença em Deus.

 

O príncipe das trevas trovejou furioso: “Não vês que não dá resultado? A crença em Deus já é por demais arraigada na mente do homem, não serve”

 

O Outro sugeriu:

“O melhor é desmoralizar o pecado e insinuar que não existe essa coisa chamada pecado, tudo é lícito, assim o homem se perderá mais cedo do que se espera”.

 

Satanás replicou furioso:

“Também não serve, os homens tem experimentado os efeitos da bebida, da luxúria, do crime e tem se dado muito mal e estão ficando escaldados, enquanto isso, espalha-se pelo mundo a legião de pregadores da salvação, isto também não serve.”

 

Levantou-se um diabo novo, tecnocrata, estrategista, midiático, e conhecido planejador que deu a seguinte sugestão:

“O melhor que faríamos não é nada disso. Deixe-se a crença em Deus e os percalços que os pregadores levantam contra o pecado. Vamos dizer ao homem que tudo isto é muito certo, mas que não se apressem, não precisam correr para a salvação. Que sempre adiem a decisão de irem para Deus, que terão muito tempo para fazer isto depois. A demora é uma arma. Vamos encorajá-los a fazerem tudo a longo prazo! “

 

E nas profundezas infernais Satanás aprovou imediatamente a proposta e houve um estrondo de aplausos pela genial ideia sugerida pelos estrategistas do inferno

 

O que o diabo sugere é que as pessoas adiem seu retorno a Deus. Aí está o perigo: O estágio, a demora, a tardança em buscar a Deus. O profeta insiste: “Buscai o Senhor enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto. Deixe o perverso o seu caminho, o iniquo, os seus pensamentos; converta-se ao Senhor que se compadecerá dele, e volte-se para o nosso Deus, porque é rico em perdoar”. (Is 55.6-7). Não se pode adiar aquilo que é urgente. Os gregos diziam que a oportunidade é um cara cabeludo na frente e careca atrás.

 

Por esta razão este texto ensina: “Eis, agora, o tempo sobremodo oportuno, eis, agora, o dia da salvação.” Hoje é o tempo da oportunidade. Esta é a hora de nos voltarmos urgentemente a Deus.

 

Quando éramos criança no interior do Tocantins, havia um pássaro noturno, que alguns chamam de curiango outros de caboré. Ele tem um cântico engraçado e meu pai quando ouvia brincava conosco perguntando. Sabe o que ele está falando? “Amanhã eu vou!” creio que até hoje o curiango continua dizendo a mesma coisa. Ele nunca irá, porque sua atitude é de ir amanhã, como as antigas plaquinhas que eram encontradas em mercadinhos de ponta de rua, cujo dono escrevia nelas: Fiado só amanhã! O freguês chegava no mercadinho e o recado estava dado. Mas se ele chegasse no outro dia, o que acontecia? A placa continuava dizendo: “só amanhã!”

 

Assim tem sido a vida de tantas pessoas que estão postergando, adiando, deixando para amanhã a necessidade de assumir sua fé com Jesus, se comprometerem pra valer com Cristo, tomarem a atitude de se batizarem. Ficam indefinidamente adiando o compromisso inadiável de se renderem a Cristo.

 

3.     O perigo das brechas - “Não dando nós nenhum motivo de escândalo em coisa alguma, para que o ministério não seja censurado.” (2 Co 6.3)

 

Satanás age nas brechas. Ele não quer o confronto, e nem deseja ser percebido porque quando ele se revela é facilmente denunciado. Por isto age com sutileza. O mal é como o fungo e o mofo, age melhor e mais eficaz na penumbra. Satanás é sutil e ardiloso, tem a arma da sutileza. Pelas brechas é que ele pode adentrar as igrejas, os lares e fazer um estrago em nossas vidas.

 

Por exemplo.

 

Se você deixa a brecha da amargura, de relacionamentos mau curados, é a partir daí que ele vai trabalhar.

 

Se você deixa a brecha do ódio, ele vai te controlar por meio dele. Assim como acontece na melancolia e na tristeza. Ele sempre age a partir da forma como você permite e baixa a guarda. Nossas tendências são conhecidas por ele, ele sabe quais são nossas fraquezas, a obsessão pela luxúria e o domínio da avareza sobre nós. Ele sabe a hora e o lugar de nos tentar porque conhece nossa mente e emoções, e ocupa os espaços vazios. Ele joga no contra-ataque.

 

Rev. Júlio A. Ferrreira: “Não temo a perseguição, nem o sofrimento da Igreja, temo apenas a infidelidade.”

 

Podemos dizer que não precisamos temer nem o inferno, nem as potestades, antes a forma como temos conduzido nossas vidas. Nossa ética, mau humorado, indiscrição.

 

Uma brecha pode destruir toda uma estrutura, veja o caso de uma represa. Se uma abertura é feita em um dique, torna-se impossível deter a pressão da água pois ela rapidamente pressiona aquela pequena abertura e com violência se transforma em uma enxurrada e destrói toda a estrutura. Da mesma maneira o desentendimento se desenvolve rapidamente, a partir de uma pequena brecha. Uma pequena confrontação pode rapidamente se escalonar numa verdadeira briga. 

 

Certa vez ouvi uma pessoa afirmando que o ministério pastoral normalmente perde sua autoridade, não por grandes erros que um pastor comete, mas pelos pequenos deslizes que vão se amontoando. Da mesma forma, um casamento não é destruído geralmente por grandes pecados, mas por pequenas falhas acumuladas, que rapidamente se tornam fonte de grande amargura e dor.

 

Precisamos nos proteger contra as brechas espirituais.

Paulo afirma neste texto que não devemos dar nenhum motivo de escândalo, para que o ministério não seja censurado. Quando damos motivos de escândalo, o que fazemos se torna censurado, o testemunho é enfraquecido, e a glória de Deus é vilipendiada. Isto é o que tem acontecido tantas vezes na vida da igreja. Os pequenos espaços abertos dão grandes motivos de escárnio e enfraquece a verdade da Palavra de Deus.

 

A palavra “brecha” aparece algumas vezes na Bíblia, em três delas de forma bem significativa:

 

Em Jr. 39:2 lemos: “Era o undécimo ano de Zedequias, no quarto mês, aos nove do mês, quando se fez a brecha na cidade. Então, entraram todos os principies da Babilônia e se assentaram na porta...” O profeta registra pormenorizadamente o ano, o mês e o dia em que a brecha foi aberta. Jerusalém caiu quando os inimigos encontraram brecha. A partir deste momento, a invasão não havia mais retorno, e a cidade foi destruída. É isto que acontece conosco. Brechas abrem caminhos, criam avenidas, pelas quais o inimigo pode penetrar e nos destruir. Portanto, esteja atento às brechas emocionais, mentais e espirituais que você está permitindo que sejam abertas. É por estas vias que o inimigo nos destrói.

 

Um outro texto mencionado na Bíblia encontra-se em Neemias: “Tendo ouvido Sambalate, Tobias, Gesém, o arábio, e o resto dos nossos inimigos que eu tinha edificado o muro e que nele já não havia brecha nenhuma, ainda que até este tempo não tinha posto as portas nos portais...” (Ne 6.1) Este texto nos fala do trabalho e da luta de Neemias, para que todos as brechas do muro de Jerusalém fossem corrigidas. Até que finalmente ele fechou todos aqueles espaços pelos quais inimigos poderiam atacar a cidade. Quando os inimigos ouviram que já não existia qualquer brecha, eles ficaram atônitos. Eles sabiam que sem as brechas, seria impossível qualquer ação efetiva contra a cidade, e por isto se mobilizaram para desestabilizar Neemias.

 

Paulo afirma que não devemos dar nenhum motivo de escândalo, para que o ministério não seja censurado. Não deixar espaços, não deixar brechas. Precisamos proteger nossa mente e coração, nossos lares, nossa igreja, nosso trabalho, com uma cuidadosa e zelosa atitude de não deixar nada que nos comprometa, que sacrifique nossa consciência e que possa desonrar a Deus.

 

O terceiro texto encontra-se em Isaias:

 

Os teus filhos edificarão as antigas ruínas; levantarás os fundamentos de muitas gerações e serás chamado reparador de brechas e restaurador de veredas para que o país se torne habitável.” (Is 58.12).

 

Gosto muito desta ideia bíblica. O chamado do povo de Deus é para edificar antigas ruinas, tirar entulhos, pavimentar caminhos. Somos chamados para reparar brechas. Quantas vezes olhamos para a vida de tantas pessoas deixando marcas destrutivas na sua história, que as enlaçarão e se tornarão um enorme peso para suas vidas. O texto bíblico afirma que o povo de Deus é chamado para reparar brechas. Há muitas brechas que precisam ser imediatamente reparadas, porque são espaços que o diabo usará para nos destruir.


O chamado de Deus é para que possamos tapar os buracos, impedir o avanço das brechas.

 

As brechas tornam a vida cristã censurável, a mensagem desacreditada, e deixa o cristianismo com o flanco aberto para o inimigo. Temos sido derrotados mais pelos escândalos da Igreja que por qualquer obra de Satanás. A obra do inimigo é enfraquecida quando a Igreja possui autoridade, vive uma vida de santidade no poder do Espírito. Que é que o diabo quando a igreja é totalmente comprometida com Jesus?

 

Nas brechas o inimigo faz estrago. Sem brechas, sua eficácia é enfraquecida. Nas brechas rompem-se as represas d’água e grandes prejuízos e destruição são gerados.

 

No dia 25 de janeiro de 2019, a barragem da Mina Córrego do Feijão, da mineradora Vale, em Brumadinho, se rompeu, liberando uma onda de rejeitos de minério de ferro, atingindo matas, rios e comunidades. Entre os locais atingidos pela lama, estavam uma parte da área administrativa onde havia funcionários, hotéis, sítios, fazendas e casas de moradores locais causando a morte de 272 pessoas e espalhando resíduos de minério pela bacia do Rio Paraopeba. O rompimento desta barragem foi uma das maiores tragédias ambientais do Brasil e seu dano destruiu muitas vidas e causou muito sofrimento em muitos familiares pelas preciosas vidas que se perderam.

 

Quais são nossas brechas mais comuns?

 

Dúvidas - Quando deixamos de crer na obra de Deus, no seu amor e na sua graça, quando questionamos sua palavra e a possibilidade de sua ação na nossa vida. Satanás é mestre em gerar dúvidas e questionamentos. Quantas pessoas estão fracas na fé porque são assoladas por inquietações de ordem intelectual e não conseguem se render às verdades do Evangelho porque estão sendo consumidas pela dúvida.

 

Incredulidade - Como Deus pode operar em nossa vida se não temos capacidade de crer nas verdades bíblicas e nas promessas do Evangelho? Jesus afirmou ao pai que trouxe seu filho endemoninhado para que ele o curasse: “Tudo é possível ao que crê.” E aquele homem respondeu pusilanimemente: “Eu creio, Senhor. Ajuda-me na minha falta de fé.” (Mc 9.24). Talvez sua fé esteja como a deste homem. Crendo sem crer. Quantas vezes não estamos vivendo exatamente assim, tendo uma fé dialética, que diz crer, mas que ao mesmo tempo esbarra nas suas dificuldades pessoais e precisa orar a Deus para que o ajude na sua falta de fé.

 

Pecados pessoais ou coletivos – Este é outra poderosa brecha espiritual. Quando estamos vivendo em pecado, tentando conciliar nosso culto com um estilo de vida ambíguo, e somos devorados pelo inimigo. O diabo desautoriza e humilha pessoas assim, que tentam levar a vida com um pé na igreja e outro no mundo. Com uma vida dupla, como médico e o monstro. As brechas fragilizam nosso testemunho.

 

Conclusão

Existe uma conhecida fábula sobre um camelo que diz o seguinte:

 

Certa vez, um homem amarrou o seu camelo do lado de fora de sua tenda em uma noite fria no deserto. Mais tarde, deparou-se com o camelo esfregando o focinho no tecido da tenda. O homem deu uma paulada no focinho do animal, e este rapidamente se retirou.


Logo depois o camelo enfiou o focinho na tenda e disse ao seu dono “Está tão frio aqui e você tem essa tenda grande e quente. Não faz mal se eu deixar apenas o focinho aqui dentro, faz?”. O homem pensou e concordou com o pedido do camelo.


Uma hora mais tarde, o homem foi surpreendido com a cabeça do camelo inteira dentro da tenda, e o camelo fez mais um pedido: “Tomei um pouquinho mais de espaço e assim fico mais confortável. Acho que não há nenhum problema, não é ?”. Mais uma vez o homem concordou com o pedido do animal.

 

Durante a madrugada, o homem acordou diversas vezes, e percebeu que o corpo do camelo estava cada vez mais dentro da tenda, e a cada investida, o animal sempre era atendido pelo dono. Horas depois, o homem acordou e percebeu que ele estava deitado fora da tenda e o seu camelo estava confortavelmente dormindo no interior da mesma.

Que Deus nos dê a graça de recebermos a fé salvadora, com muita alegria, temor e reverencia, não com desprezo, barateando a obra maravilhosa de Cristo.

Que Deus nos ajude a tomarmos as posições e atitudes que precisam ser tomadas no dia de hoje. Não deixando para amanhã aquilo que não deve ser adiado, principalmente nosso compromisso com Jesus

Que Deus nos dê a graça de vivermos uma fé vigorosa, sólida, sem darmos motivos de escândalo, para que a Palavra de Deus não seja ridicularizada.

 

Que Deus nos ajude!