quinta-feira, 24 de abril de 2014

Gn 38 A Estrada do Legalismo



 (Arrogância e Julgamento)
       
Introdução:
Obs. Esta mensagem pode ser ouvida em vídeo. Basta clicar 
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  Esta é uma estrada da qual pouco se fala. Talvez porque não estejamos tão conscientes de sua existência e dos seus riscos, no entanto, religiosos facilmente se perdem por esta via. Jesus foi mais crítico dos religiosos da sua época, que de pessoas de moral duvidosa. “A máquina religiosa é capaz de engolir as pessoas!”[1].

A religiosidade humana muitas vezes encontra-se na contramão do projeto de Deus para a vida. Jesus estava sempre advertindo sobre os riscos da religiosidade. Ela torna estéril a nossa alma e é capaz de secar nosso coração, além de nos tornar críticos, com grande tendência à superioridade moral e capacidade de julgar os outros. Temos que aprender como ser cristãos sem sermos religiosos, já que o religioso pode atravessar o mar para fazer um prosélito e colocá-lo no inferno duas vezes mais, como afirmou Jesus (Mt 23.15). Não é sem razão que a justiça própria é a inimiga número 1 do Evangelho. O Moralista, cioso de seus deveres, encontra muita dificuldade de se submeter a Deus, e depender de sua graça para salvação.

O texto de Gênesis 38, que servirá de ponto de partida para esta reflexão, nos mostra como o comportamento religioso pode enganar e trair.

Judá, um dos filhos de Jacó, foi a Adulã e casou-se com uma cananita. Ela lhe deu 3 filhos: Er, Onã e Selá. O primeiro casou-se com Tamar, mas a Bíblia afirma “Er, porém, o primogênito de Judá, era perverso perante o Senhor, pelo que o Senhor o fez morrer” (Gn 38.7). Sem entrar em detalhes sobre o tipo de perversidade que ele teria cometido e que o levou à morte.

Segundo a Lei do levirato, o irmão imediato deveria se casar com a mulher para suscitar descendência ao irmão que não teve filhos. “Sabia, porém, Onã que o filho não seria tido por seu; e todas as vezes que possuía a mulher de seu irmão, deixava o sêmen cair na terra, para não dar descendência à seu irmão. Isso, porém, que fazia, era mau perante o Senhor, pelo que também a este, fez morrer” (Gn 38.9-10). Daí surgiu o termo “onanismo”, que é a prática da masturbação. O filho mais novo, Selá, era ainda criança, e Judá disse a Tamar, sua nora, para aguardar até que este se tornasse um homem, e então o daria para suscitar descendência. O tempo passou e Judá não cumpriu sua promessa. Tamar voltou para casa de seus pais, que ficava na região onde se tosquiava o rebanho.

Depois de ter ficado viúvo, Judá sobe à região onde morava Tamar. Esta cobriu-se com um véu e se fez passar por uma prostituta. Ele se dirigiu a ela e a convidou para se deitar com ele. Ela lhe perguntou o que ele lhe daria para este encontro e ele prometeu que enviaria um cabrito do seu rebanho, e Tamar lhe pediu que lhe deixasse algum penhor como garantia de que o preço seria pago, e ele lhe deu o selo, o cordão e o cajado que tinha consigo. Judá a possuiu, voltou para sua casa e posteriormente procurou resgatar seus objetos e efetuar o pagamento, como havia combinado, mandando que lhe entregassem o cabrito, no entanto, ninguém conhecia qualquer prostituta na região e a pessoa responsável pelo dote, voltou para dizer-lhe que ela não havia sido encontrada. Judá se conformou, e a vida voltou ao normal.

Algum tempo depois Judá recebe a notícia de que sua nora estava grávida. Para uma cultura legalista, isto se constituía uma enorme afronta e vergonha. Quando Judá soube do acontecido, ordenou que ela fosse trazida à cidade e queimada. Quando vieram buscá-la, Tamar mostrou os penhores de Judá e desmascarou publicamente seu sogro que havia ordenada sua execução.

Assim age a lei. Ela é severa com os outros, mas não é capaz de tratar o coração daquele que se torna seu executor. Jesus afirmava que os fariseus “coavam mosquitos e engoliam camelos”. Haviam criado uma moral superficial, de pura representação diante de Deus. É fácil se tornar juiz dos outros sem considerar os riscos do próprio coração. Este é o fundamento do legalismo e da religiosidade e este é um caminho pelo qual facilmente enveredamos.

O Legalismo olha a letra da lei, mas não considera a essência da lei. Judá é um homem “honesto”, paga pela prostituta, mas é infiel. Judá fica preocupado com a reputação de sua família, afinal sua nora quebrara os códigos morais da sua sociedade (Gn38.22), mas não estava preocupado com sua atitude de procurar uma prostituta e ter um caso com ela, e nem como o significado de seu ato aos olhos de Deus.

O caminho da Lei é implacável. Paulo afirma que “a letra mata” (2 Co 3.6). A lei não considera “motivos” e “razões”. Ela apenas julga! Podemos facilmente transformar a lei num álibi e nos transfigurarmos num homem profundamente religioso e ainda assim virarmos um monstro e perdermos a nossa alma nos distanciando de Deus. O legalista sempre trata com severidade os outros, mesmo que seus pecados sejam iguais ou mesmo piores. Judá age de forma moralista: “Tirai-a fora para que seja queimada” (Gn 38.24), quando ele mesmo havia sido o homem que a engravidara. Ela não tivera relações sexuais sozinha. Judá nunca se preocupou com as necessidades pessoais da sua nora, mas agora a julga pelo pecado que ela comete.

Esta é a lógica da Lei: costumes e regras são mais importantes que a lei do amor. Judá deveria ser julgado pela lei, no entanto julga através da lei. A nora de Judá o apanha na sua própria acusação.  Esta é a lógica do legalismo. Toda moralidade esconde desejos, e a acusação é a neurose do próprio acusado.

Esta foi a atitude de Davi ao ouvir a parábola de um homem rico que havia tomado a única ovelha de seu vizinho para si. Davi age de forma legalista e faz severo julgamento, sem o saber, contra si mesmo. Seu veredicto foi: “Este homem deve morrer”. Ele, porém, não sabia que o profeta estava narrando a sua história.

A Lei é pomposa, bonita e perfeita, mas é impotente para mudar nossos impulsos. Dá aparência de santidade aos que dela se utilizam, mas não transforma o coração, levando-os a apegar-se aos seus aspectos e religiosidade externos: Rituais, programas, templos e coisas. A Nova Aliança focaliza o coração. Deus disse que tiraria de nós um coração de pedra e nos daria coração de carne (Ez 36.26). Que a lei passaria a ser escrita nos corações, não em tábuas de pedras (2 Co 3.3). É assim que o evangelho age na vida do homem, indo ao cerne da questão. Judá era legalista, mas tinha uma moral podre, era um “homem de bem”, mas que não tinha escrúpulos em possuir prostitutas de beira de estrada.

O legalista guarda a Lei, mas não o Espírito da Lei. Os Religiosos no tempo de Jesus guardavam o sábado, mas nenhum deles perguntou qual o objetivo de Deus ao criar o sábado. Jesus tenta mostrar que o sábado fora dado para a vida. Deus não precisava de descanso, no entanto o criou para o homem, a fim de que ele pudesse restaurar sua energia. Este é o conceito do shabath. O sábado seria uma oportunidade para que a alma pudesse ser restaurada e esta quebra de atividades seria positiva para o ser humano. Deus estava pensando no bem estar do homem ao criar o sábado, no entanto, os homens o transformaram num instrumento de opressão e na sua religiosidade perderam o propósito original de Deus.

Alguns estudiosos têm indagado se o sábado não seria o ápice da criação, já que no sexto dia Deus fez o homem e no sétimo dia teria criado o sábado. Não seria o sábado a última obra de sua criação, como um corolário de todo seu design original? Se tal idéia está certa eu não sei, mas certamente precisamos pensar sobre este assunto.

Qual é a função do sábado?

Dentre várias funções é um tempo para reorganizar mente e emoções, recarregar as baterias. Estudos demonstram quanto o descanso pode ser eficiente para o ser humano. O sábado também teria uma função social, já que considerava o escravo, que era alguém sem identidade e nenhum valor numa sociedade escravocrata; até o animal deveria ser poupado, e precisava descansar. Pessoas ambiciosas poderiam obrigar seus servos e animais a uma carga de trabalho exagerada, para tirar o máximo de lucro esquecendo-se de suas necessidades. O sábado teria implicações para a natureza, já que no sistema levítico era decretado que até mesmo a terra deveria passar por um ano sabático, no qual não se plantaria e assim daria descanso à terra. Os religiosos censuram Jesus porque comeu no sábado (Mc 2.23-24), e o censuram por fazer o bem, curando num sábado (Mc 3.5).

Estou citando o exemplo do sábado, porque é uma ótima alegoria de como podemos inverter o significado das coisas. A religiosidade facilmente se torna um fim em si mesma. Qual era o propósito da Lei? Trazer o homem para perto de Deus. Mas a Lei não tocava em aspectos internos, não lidava com a alma humana, mas apenas com aspectos exteriores. Ela não tem poder de ir ao coração e por isto cuidava apenas do exterior do homem (Mc 7.6-10). Esta é uma diferença crucial entre a lei e o Evangelho. Este toca o coração, a pessoa é transformada pelo poder que emana do Espírito de Deus. Poucas pessoas têm entendido isto.

O legalista sempre se torna antagônico ao Evangelho. Basta ler a Bíblia com cuidado para perceber como a moralidade religiosa é uma armadilha. Paulo afirma: “...tais coisas, com efeito, tem aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e de rigor ascético; todavia, não tem valor algum contra a sensualidade” (Col 2.23). Por que a fé cristã se diferencia da religião? A fé cristã mira no valor da vida humana e na sua relação com Deus,  e minimiza rituais religiosos. Se nossa religiosidade não coloca o homem como o valor principal e o centro de nossa teologia, estamos perdendo a referência de Deus. "A religião pura e sem mácula para com nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo" (Tg 2.27). Jesus chama a atenção dos religiosos tão preocupados com a lei do Antigo Testamento, mas que não consideravam o bem estar do outro.

O evangelho, contrário ao legalismo, está interessado nas motivações. Qual é o propósito de nossa religiosidade? Quais os motivos e intenções do coração ao fazer o que faço? Para Deus não conta apenas o que faço, mas porque e como faço o que faço. Quantas vezes a religião se afasta tanto de Deus que as pessoas, supostamente em nome de Deus, se tornam malignas nos atos religiosos e rituais?  Basta assistir um seriado como “Pilares da Terra[2], para não termos nenhuma ilusão em relação a comportamentos patológicos dos homens que controlam a religião , criam os rituais e falam em nome de Deus.

Conclusão:

Como cristãos somos conhecidos por regrinhas: "Não fume, não beba, não dance, não jogue". 
Paulo questiona profundamente tais atitudes na carta aos Colossenses, dizendo que tais coisas são costumes e preceitos humanos, portanto, meros rudimentos: 
Se morrestes com Cristo, para os rudimentos do mundo, por que, como se vivêsseis no mundo, 
vos sujeitais a ordenanças: não manuseies isto, não proves aquilo, não toques aquiloutro, 
segundo os preceitos e doutrinas dos homens? 
Pois que todas estas coisas, com o uso se destroem” (Col 2.2022). 

Creio, porém, que deveríamos ser conhecidos de outras maneiras: Pelo amor a Deus, pela forma como os maridos cristãos tratam suas esposas, pelo cuidado e solidariedade com as pessoas que sofrem, pela identificação com a dor humana, por uma ética de justiça, ação social e defesa da ecologia, e assim por diante. Tácito, historiador romano nos Século I, fez o seguinte comentário ao ver os cristãos cuidando de crianças abandonadas e dos idosos: “Vede como eles se amam!”.  Naturalmente não estou aqui fazendo nenhuma apologia de bebida, de cigarro, jogo e dança, mas o que gostaria é de que pudéssemos ter uma visão mais madura dos desafios éticos que nos cercam nestes dias maus.

Deus fez promessas de que o Evangelho seria escrito, não mais em tábuas de pedras e sim nos corações. Deus está interessado na profundidade de nossa vida interior. Portanto, tudo que fizermos para restaurar o homem à dignidade de Deus, por meio da pregação do Evangelho, é o que Deus espera de nós.

Somos desafiados a aprofundar nossa relação com Deus. O religioso, cuja alma não aprofunda as raízes, corre sério risco, por paradoxalmente excluir em nome de seus ritos e liturgias, o próprio Deus. “Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos dos homens” (Mc 7.6-7). Por meio dos seus códigos morais e da lei, das regrinhas e dos costumes, dos comportamentos meramente ritualistas e externos, se distancia de Deus.

Nossa podridão interior, ainda que não vista pelos outros, deveria ser suficiente para nos levar a uma humildade espiritual. Se Judá olhasse para o seu coração, não julgaria sua Nora... Se Davi olhasse o que fez, não julgaria tão severamente aquele homem da parábola que teria matado a única ovelha de seu vizinho pobre... Se aqueles homens olhassem seus comportamentos lascivos não teriam trazido a mulher adúltera diante de Jesus, para ser apedrejada  O legalismo tem um grave problema: Nos falar olhar para a Lei como algo fora de nós. Pensamos estar acima dela.

A Bíblia nos ensina que “o fim da Lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10.4). A cruz desmascara e denuncia nossa tentativa de fazer as coisas pelo esforço próprio. Se alguém pudesse guardar toda lei, não haveria necessidade da vinda de Jesus. Por que Jesus deveria morrer pela humanidade, se, através do cumprimento da lei, os homens podem ter méritos suficientes para sua salvação? A lei apenas mostra o caminho, mas não nos dá força para segui-lo. Apenas o poder de Jesus em nossa vida nos torna pessoas graciosas, acolhedoras e capazes de compreender o significado do amor de Deus por nossas vidas.





[1] Young, William P - A Cabana. Ed. Sextante, São Paulo, pg 165
[2] Os Pilares da Terra, 2010 - Minissérie de 8 episódios. Gira em torno da construção de uma igreja no século XII na Inglaterra. Protagonizada pelos atores Ian McShane, Rufus Sewell, Matthew Macfadyen e Donald Sutherland, e com Sergio Mimica-Gezzan, de Battlestar Galactica, como realizador.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Gn 40 Encontros Surpreendentes




Introdução:

Rick Warren afirma que a Bíblia é um “livro de relacionamentos”, portanto, não é surpresa que ela esteja repleta de encontros, alguns destes surpreendentes. Temos encontro de homens com homens, homens com Deus, homens com filhos. São fatos aparentemente desconexos, que posteriormente se tornam o evento maior da vida de uma pessoa.

Eis alguns destes encontros:

Noé é chamado por Deus para construir uma arca, gigantesca, um grande barco que seria montado numa terra seca. Certamente deve ter enfrentado muita zombaria e crítica, ter sido acusado de lunático e sonhador, mas perseverou em realizar aquilo que Deus o chamara para fazer.

Abraão foi chamado por Deus de uma terra pagã, politeísta. Fora criado vendo inúmeras imagens e arquiteturas representativas de Deuses. Nascera na babilônia (Atual Iraque), e Deus o chama para ir para uma terra estranha, sem lhe dar o endereço “vai para a terra que lhe mostrarei”, e Abraão sai para ser o pai de muitas nações, ser o povo escolhido, de onde surgiria o Messias.

Moisés é um príncipe renegado, que cresce no palácio ao lado dos grandes, mas era filho de uma escrava judia. Desentendeu-se muito cedo com o ministério de relações exteriores do Egito por causa da opressão que era infringida aos estrangeiros e escravos. Num acesso de ira tomou o partido do fraco, meteu-se numa briga e matou um soldado egípcio. Procurado pela justiça, refugiou-se no deserto onde ficou por 40 anos, no anonimato e no silêncio, até que um dia, aos 80 anos – Deus se apresenta numa sarça ardente. Encontro surpreendente.

Mas a Bíblia descreve também muitos encontros surpreendentes de homens com homens.
Foi assim com Filipe no encontro descrito em Atos 8, quando o Espírito o conduz a caminhar ao lado da carruagem de um homem importante, um Eunuco da Rainha de Candace (Etiópia), que era ministro das finanças. Ele está no deserto, voltando com sua comitiva de Jerusalém, e lia em voz alta um texto de Isaías que fala de Jesus como servo sofredor. Filipe se aproxima da carruagem, o ouve lendo e pergunta-lhe: “Entendes o que lês?” diante da negativa, apresenta-lhe Jesus como Messias e Salvador e ali mesmo é batizado. Historiadores cristãos afirmam que este foi o primeiro homem convertido da África.

Encontros surpreendentes!

O texto de Gn 40 nos descreve outro encontro, aparentemente desconexo. nos muitos eventos "estranhos", mas corriqueiros que lhe ocorreram. José encontra-se na cadeia, depois de ter sido acusado injustamente de traição sendo atirado a uma masmorra. Ali muitos sentimentos podem ter vindo à sua mente: “Deus me abandonou!”; “De que me valeu ser íntegro?“ ou, “Deus se esqueceu de mim”. Mas José é um homem em busca de excelência, e novamente começa a se destacar na prisão, e logo lhe foi atribuída uma profissão que exigia certo preparo anterior e que lhe trazia determinados confortos. Ali encontra-se com dois homens, encontros aparentemente “casuais”e “desconexos”: O padeiro chefe e o copeiro chefe. E a vida de José seria mudada depois deste encontro.

Este texto nos ensina algumas coisas fundamentais para nossas vidas:

1.   1. As coisas mais incríveis podem acontecer nos lugares mais inusitados – José encontra-se na prisão. Que surpresa poderia esperar? Todos os dias chegavam pessoas de diferentes lugares acusados de crimes hediondos, de sevícia, de traição. Agora chegam dois suspeitos da casa de faraó. Tentaram assassiná-lo com veneno. Estes dois homens responsáveis pelo almoxarifado e pela qualidade da comida e bebida, eram o padeiro e o copeiro. A comida de Faraó foi envenenada e a investigação foi feita para descobrir quem teria cometido o atentado. Por não se reconhecer imediatamente o culpado, os dois são lançados na prisão. Este evento ordinário mudaria a vida de José, por completo, dois anos depois.

Os assessores de Faraó vão se encontrar com um prisioneiro, vindo de uma cultura estrangeira. Muitas vezes não percebemos Deus nos eventos cotidianos. Mas é nestes eventos comuns onde Deus se revela aos seus. Elizabeth Barrett Bowning afirma: “A terra está impregnada com o céu. E cada arbusto inflamado de Deus, mas somente os que enxergam, descalçam as sandálias”.

Você já tentou vislumbrar Deus na sua história? O que está acontecendo hoje, o que aconteceu ontem? Você é capaz de perceber Deus? De distinguir seus movimentos? Muitos ficam esperando por uma visão, sonho ou profecia, quando Deus está constantemente instruindo e orientando. A maioria das vezes Deus se comunica conosco através dos eventos corriqueiros. As coisas mais incríveis podem acontecer nos lugares mais inusitados.

Deus pode se revelar de forma profunda no meio do luto, sofrimento, na alegria de um encontro, na forma como ele conduz a história de sua vida. Aprenda a discernir Deus nos eventos. Deus está sempre se comunicando.

quando cheguei em 1994 aos EUA, para plantar uma igreja entre povos de língua portuguesa, a convite da Presbyterian Church in America, encontrei enormes obstáculos na solidificação do trabalho. Para começar, metade do grupo nos abandonou antes de 3 meses. Durante quatro meses tentávamos atrair pessoas, evangelizar, mas o esforço era nulo. Até que, um determinado dia, recebemos um telefonema de alguém para que fôssemos realizar o funeral de um brasileiro que morrera num acidente. Ali, naquele ambiente de morte, Deus fez a vida da futura comunidade prosperar. Várias pessoas se converteram, e ali, a 70 kms de distância de onde, inicialmente pensamos em plantar uma igreja, agora surgia uma nova comunidade, que se encontra solidificada ali na cidade de South River, NJ. 

2.      2.  As pessoas mais comuns podem se transformar nas pessoas mais extraordinárias de sua vida

Eventualmente encontramos pessoas a quem não atribuímos muito valor, ou tendemos a ignorá-la, mas todas as portas que Deus abre, ele o faz por meio de relacionamentos.

Em 2006, minha filha veio dos Estados Unidos para trabalhar no Brasil. Havia se formado em Neurobiologia na Harvard, mas queria trabalhar numa área completamente diferente: Mercado ou comércio exterior, marketing, etc., depois de mais de um ano distribuindo currículos em todos os sites disponíveis, absolutamente nada surgiu. Um dia, na porta da igreja, encontro a Dayse Lima, que trabalha na Neo Química com quem compartilhei a situação de minha filha; ela encaminhou o seu currículo para seu chefe, conhecido pela sua competência e pela rejeição ao Evangelho, que resolveu contratá-la apenas pelo seu currículo, apesar de não ter nenhuma experiência na função. Estas pessoas foram usadas por Deus para nos abençoar.

A bíblia afirma: “Não negligencieis a hospitalidade, pois alguns, praticando-a, sem o saber acolheram anjos” (Hb 13.2). Precisamos estar atentos às pessoas que surgem nos nossos caminhos, elas podem nos ajudar a discernir a vontade de Deus para nossa história. Já pensaram nisto? Sem saber podemos acolher anjos? Um simples ato de abrir as portas de nossa casa pode se transformar numa realidade surpreendente?

Em 2002 decidi que estava na hora de retornar dos Estados Unidos para o Brasil, depois de quase 9 anos vividos ali. Estávamos sendo sondados por algumas igrejas quando o Nilton Barbosa (Niltinho) esteve em nossa casa, falando que estavam procurando um pastor para a Igreja Presbiteriana Central de Anápolis. Obviamente não me ofereci, mas logo após seu retorno ao Brasil, ele soube de meus planos e me chamou a atenção por não ter lhe contado e desta forma indicou-me à esta igreja na qual já estou no 12 anos de abençoado ministério. 

A verdade é que encontros casuais podem definir sua vida. O copeiro chefe se esqueceu de José, mas no primeiro incidente do qual precisou dele, sabia de alguém que tinha o currículo para as necessidades de Faraó (Gn 40.23). Deus usa os lugares mais comuns, as pessoas mais simples, as situações mais bizarras para realizar coisas extraordinárias.

Philipe Yancey escreveu um livro cujo titulo é Descobrindo Deus nos lugares mais improváveis, nele o autor procura demonstrar a presença de Deus em coisas tão bizarras como o comportamento de peixes, aves, animais e nos cosmo. Yancey afirma que “Deus sempre se dirige para os lugares onde ele é desejado”. (São Paulo, Ed. Mundo cristão, Pg 72). A história está cheia da presença invisível de Deus. Talvez seja esta uma alusão de Jesus ao afirmar que “o homem de bem, tira do velho baú, coisas novas e velhas”.

Recentemente adentrei um pouco o universo literário de Clarice Lispector. Sua originalidade encontra-se no fato de que, ela consegue transformar eventos comuns, como um encontro com uma pessoa no elevador, uma carta de criança, e a conversa com a doméstica, numa peça de arte e literatura.

3.    3. As piores coisas podem se transformar nos fatos mais extraordinários – 
Em 1977, estava chegando ao Seminário de Campinas, São Paulo, com apenas 17 anos, para cursar meu seminário. O Presbitério de Goiânia, ia da capital do Estado de Goiás, até o norte, na cidade Araguaína, hoje Tocantins. Éramos 17 seminaristas e não havia recursos para custear sequer meus estudos no Seminário, sem contar alimentação, vestuário, transportes. Minha igreja também não tinha recursos. O primeiro ano eu paguei adiantado, com a rescisão do contrato de trabalho da empresa na qual trabalhava. O dinheiro era curto, além dos livros que tinha que comprar. No primeiro feriado, carnaval, ficaria sozinho no seminário. Meus pais moravam em Gurupi-TO, a distância e o dinheiro não eram suficientes, então, meu cunhado, Samuel de Paula Jr., me convidou para ir à sua casa, recomendando-me apenas que não namorasse sua irmã de apenas 13 anos, e ainda me ajudou financeiramente a pagar parte da passagem. Como vocês devem saber, aquela menina já é minha esposa desde 29 de Janeiro de 1983. Portanto, saibam todos que não sou de confiança...

Algumas sementes levam anos para brotar...

José teve que esperar dois longos anos até ser lembrado (Gn 41.1). O que ele continua fazer neste período? Ele continua agindo com excelência, fazendo as coisas com diligência, semeando. Eventualmente diante da frustração, facilmente desanimamos e paramos de semear. A Bíblia diz: “E não nos cansemos de fazer o bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não desfalecermos” (Gl 6.9). É fácil desanimar, desencorajar, desiludir, deprimir.

Conclusão:

Aquele encontro fortuito, casual, circunstancial, era o evento de Deus para a vida de José. Ele não sabia para onde sua vida estava sendo conduzida, mas Deus sabia.

Muitas vezes nos assustamos com as privações, com a escassez, com as dificuldades. Não deveríamos. Os céus nunca se surpreendem. Não deveríamos, pelo contrário, saber que Deus está conduzindo a história para um final surpreendente e que você foi incluído neste projeto? Diante de situações difíceis e sem resposta, O Dr. Joe Wilding costuma afirmar: “Eu só quero saber como Deus vai sair desta”.


O encontro mais surpreendente de nossa vida, porém, é da nossa vida com Jesus. Nada é tão revolucionário, impactante e transformador que sua obra em nós. Muitas vezes Deus nos encontra no meio da nossa dor, como fez com Hagar; ou da nossa desesperança, como fez com o cego de Betesda, ou da nossa arrogância, como fez com Saulo; ou da nossa incredulidade, como fez ao pai do garoto possesso de um espírito maligno. Mas sua presença nos transforma, nos restaura e nos traz novamente para o centro de sua vontade. Este é o mais surpreendente dos encontros. O encontro com Jesus, o Filho de Deus.

Em Gn 28, vemos Jacó fugindo de sua casa com medo do irmão. No caminho de :Canaã para Padã-Arã, da atual Palestina para o Iraque, tem um sonho. A visão da escada, a confirmação de Iawé dada aos seus pais de que seria pai de uma grande nação. Depois do seu sonho ele afirma: "Na verdade, o Senhor está neste lugar, e eu não o sabia" (Gn 28.16).

Corremos o risco de vivermos a vida sem a percepção da presença de Deus, ignorando sua presença, sem consciência da sacralidade das coisas e das pessoas, sem a compreensão da soberania e providência divina. Se você ainda não teve um encontro transformador e impactante com Jesus, ore para que Deus lhe surpreenda. Abra seu coração para acolher a Cristo em seu coração, assim como fez Jacó, ao declarar Na verdade, o Senhor está neste lugar, e eu não o sabia".

domingo, 13 de abril de 2014

Sl 90.12 Envelhecendo com graça




Introdução:

Em 1997, recebi um tape (naquela época era o sistema usado para se gravar coisas), de John Maxwell, com o sugestivo titulo: “I´m 50, reflecting” (sou cinqüentão, refletindo...) Achei muito sugestivo o sermão deste conhecido preletor, no qual descrevia as mudanças que estavam acontecendo em seu coração, e como ele estava fazendo planos para os próximos anos de sua vida. Creio que toda vez que zeramos o velocímetro mudança de idade isto gera reflexão no nosso coração. A idade, geralmente tem o poder de nos transformar e nos incomodar.
Não é fácil envelhecer...
Jorge Amado, com sua forma amarga e crua, certa veza afirmou numa entrevista que “a velhice é uma porcaria!” Bem, o termo “porcaria” não foi exatamente o que ele usou, mas deixemos assim mesmo...
Existe um belíssimo filme estrelado por Jane Fonda e Henry Fonda, “num lago dourado”, no qual há um homem idoso, mau humorado e chato, que todos tentam tratar bem, mas que é intragável. No dia em que ele completa 80 anos, o genro, querendo ser simpático lhe perguntou como se sentia fazendo 80 anos, e ele respondeu: “Duas vezes pior que quarenta”. Tive uma ovelha muito especial, Sr. Jorge Sahium, que aos 96 anos afirmou em tom de brincadeira: “Morro de medo de ficar velho”.
Na verdade, só existe uma forma de não envelhecer – morrer cedo! O Salmista, percebendo as dificuldades naturais de sua idade ora ao Senhor: “Não me rejeites na minha velhice; quando me faltarem as forcas, não me desampares” (Sl 71.9) e no texto acima lemos: “Ensina-nos a contar os nossos dias de maneira que alcancemos corações sábios”.
Para envelhecer com graça e maturidade precisamos considerar cinco pilares significativos, que em inglês começa sempre com “F”: Friends, family, finances, fellowship e faith (o copyright é meu). É importante considerar cada um, embora seja possível envelhecer sem uma ou outra, mas sem qualquer um, estamos mancos.

  1. Família

Família ocupa um lugar essencial na vida do ser humano. Uma das coisas mais fortes na vida são laços familiares. Não consigo imaginar alguém que seja pleno na vida, sem a convivência da família. Se eu não estou errado na minha interpretação, creio que foi exatamente esta a idéia do escritor cristão no Salmo 128, quando afirma:

“Bem aventurado é o homem que teme ao Senhor e anda nos seus caminhos,
Do trabalho de suas mãos comerás, feliz serás, e tudo te irá bem.
Tua esposa, ao redor da tua mesa será como a videira frutífera,
Teus filhos, como rebentos da oliveira.
Eis como será abençoado o homem que teme ao Senhor”.

O que o texto sugere é que, o homem bem aventurado, termo este que sugere bem mais que ser feliz, que traz a ideia de plenitude, é o homem que tem o privilégio de assentar-se à mesa e compartilhar do que tem com seus filhos e netos, tendo sua prole ao redor da mesa. A Bíblia afirma, “eis como” será abençoado o homem que teme ao Senhor.
Por mais rico e independente que sejamos, não interessa quanto dinheiro ganhamos, nem a quantidade de bens que acumulamos, sem compartilhar a vida com a família, filhos e netos, somos pobres.
Todos sabemos das complexidades que uma família comum experimenta. Nelson Rodrigues, dramaturgo brasileiro afirmou que: “Família, na melhor das hipóteses, só serve para dar emprego aos psiquiatras e enriquecer a indústria farmacêutica”. Certamente há muitas dores na convivência familiar, mas é ali também o lugar onde a cura e a restauração acontece, e por mais complicada que sejam as relações, o lugar onde encontramos apoio e encorajamento nos dias maus. Laços consangüíneos tem um poder muito forte sobre nossas vidas. Envelhecer sem família é uma viagem ruim.
Certa vez fui visitar um homem rico que havia rompido com toda sua família e cujos herdeiros brigavam com ele pela herança. Quando tentei mediar o diálogo, disse-lhe que para mim, o dinheiro era coisa de somenos importância, mas a relação dele com a família importava muito. Ele retrucou dizendo que sempre esteve afastado da família e que a vida era assim mesmo. Ele não teve oportunidade de conhecer seus netos, de caminhar com seus filhos, de partilhar da história de seus descendentes. Ao me deparar com aquele quadro, considerei como era pobre existencialmente.
A Bíblia afirma que é feliz o homem que tem o privilégio de ter esposa, filhos e netos ao redor da sua mesa. De comer com seus filhos, de partilhar a mesa, de acompanhar o nascimento de um neto, de assentar à mesa com os filhos. Este é o processo natural e saudável do envelhecimento.
João Alexandre afirma na belíssima poesia da música Paz e comunhão:
Faz tua nova casa na varanda do velho chão,
Convida o teu irmão pra vir morar contigo,
Planta paredes novas, feitas para servir de lar e abrigo.
Faz um café gostoso, põe a mesa no teu jardim,
Deixa que assim as plantas tenham paz contigo,
Convida o universo, faz a vida ganhar maior sentido.
Cuida da tua morada, cuida do pequeno mundo,
Deixa teu irmão bem perto, livre, livre...
                                   
  1. Amizade – Este é o segundo pilar que aprofunda o significado da alma humana e do envelhecimento. Precisamos ter relacionamentos duradouros, longos e significativos.

O homem que não cultiva relacionamentos de amizade fica só na velhice. Quem é que anda contigo hoje que estará contigo na velhice? Você pode envelhecer com esta pessoa? Acha que esta amizade romperá a tendência da solidão e isolamento próprios da velhice?
Existem diferentes tipos de amigos, e precisamos aprender a cultivar cada um deles, para circunstâncias diferentes.
Existe o amigo festivo, que anda conosco na hora da farra, gosta de pescar, comer churrasco, almoçar, fazer jantares, repartir pratos, gente alegre e festeira, mas cuja amizade passa rapidamente. Não há problema nenhum em ter estes amigos, aliás, até precisamos deles. Muitas vezes somos assim para determinado grupo de pessoas. É uma amizade superficial, que tem o caráter transitório, do tipo “vale enquanto dura”.
Existem amigos sazonais, agem em nossas vidas por temporadas. De repente aparecem, como uma febre ou uma gripe, trazem muita alegria ao nosso coração, faz muitos anos que já os conhecemos, mas da mesma forma que aparecem, desaparecem. São amigos de temporadas, que eventualmente nos ligam e encontram um jeito de fazerem um programa juntos, sempre trazendo alegria e contentamento, mas somem como nuvem, passam os meses ou mesmo anos, e depois retornam em outras épocas mais festivas ou casuais. Eles se encontram no rol de nossas amizades.

Existem os amigos duradouros, vieram para ficar na sua vida. Estes estarão sempre por perto, seja qual for a situação. Alguns afirmam que estes são os verdadeiros amigos. Que sempre aparecem quando todos os demais somem. Você pode contar com eles no dia a dia e a longo prazo. Eventualmente falam de suas angústias e medos, não se sentem julgados, nem tem necessidade de justificar atitudes pessoais. Eles conhecem nossas variações de humor, altos e baixos e ainda assim gostam de andar conosco. São amizades cultivadas, regadas, aprofundadas.
No processo de envelhecimento, precisamos muito deste último grupo de amigos. Gente da mesma idade ou não, mas que insiste em permanecer ao nosso lado. Cada fase da vida apresenta dilemas diferentes e é bom ter gente que entende nossos conflitos porque também os experimenta em certo nível.
Ouvi a seguinte comparação: Quando estamos na fase dos 20 anos, nossas conversas são mais ou menos assim: “Rapaz, encontrei uma garota fascinante e gostaria de apresentá-la. Ela é sensacional, e estou amarrado”. Quando entramos na fase dos 40 anos, o discurso muda: “Fui nesta semana a um restaurante e comi uma comida deliciosa. Quero levá-lo comigo, o ambiente é delicioso e a comida é fantástico!” Quando chegamos aos 60, a temática é: ‘Estive num médico esta semana que é excelente, você também precisa ir lá para conversar com ele, vai lhe ajudar muito”.
Precisamos de amigos, que estarão conosco não por causa de títulos e cargos, nem que possuam conosco uma relação de poder, não pela posição que ocupamos ou o cargo para o qual fomos designados, mas que estarão conosco mesmo se não tivermos nada a oferecê-los, a não ser nós mesmos. Cultive estes amigos, como jóias raras, pois “há amigos que são mais chegados que irmãos”.

  1. Comunidade – Para envelhecer com graça, precisamos ainda de encontrar uma comunidade. Um grupo com quem partilhamos nossas experiências, hobbies, fé, objetivos.

Existem várias comunidades ou grupos, e são muito positivas para nossas vidas. Fico observando nas grandes cidades, velhos amigos assentados e jogando dominós em praças públicas. Na igreja que atualmente pastoreio temos grupos de jipeiros, ciclismo, motociclismo, pescaria, futebol e aeromodelismo. Todos estes grupos ajudam muito na caminhada.
Existem grupos de filantropia: Rotary Club, Lions Club e outras agremiações e associações, nos quais as pessoas desenvolvem relacionamentos por afinidades. Alguns destes grupos são filantrópicos, outros religiosos ou assistenciais. Um dos grupos mais significativos, sem dúvida, é a igreja. Independente de qual seja a sua comunidade, para envelhecer com graça é muito positivo para a saúde emocional, este senso de pertencimento.
Agradeço muito a Deus o cuidado que ele tem tido com meus pais, ao providenciar-lhes uma comunidade acolhedora como a que eles tem participado. Fica num bairro de periferia e meus pais, por terem uma situação financeira um pouco melhor, tornaram-se arrimos para aquele grupo. Levam presentes para as crianças, ajudam nas festas, se envolvem com as pessoas. A vida deles encontra sentido neste senso de pertencimento. Louvo a Deus pela vida do evangelista Jussiê em Gurupí-TO, que cuida de meus pais como se fossem os seus. A presença dele na vida dos meus pais, os telefonemas, tem sido uma fonte inesgotável de alegria para suas vidas. Eu nem sequer consigo imaginar suas vidas sem esta comunidade rica em amor, que os trata de forma tão carinhosa e amorosa. De vez em quando, meu pai os convida para irem à fazenda, ali eles pescam, brincam, compartilham alimentos, dão risadas, fazem culto e comilança, num clima de muita descontração e simplicidade. Meus pais, pessoas simples também, amam esta experiência e caminhada.
Na comunidade experimenta-se senso de pertencimento, tem-se possibilidade de servir com os dons e recursos. Esta troca, doação, aceitação e partilha, faz um bem imenso para a vida de um homem, principalmente quando se torna mais idoso. O Sl 133 afirma: “Oh, como é bom e agradável viverem unidos os irmãos”. Isto é uma verdade ainda mais percebida, na medida que envelhecemos.

  1. Finanças – Em quarto lugar, diria que para se envelhecer bem, precisamos de certa independência financeira. Não estou falando de ser rico, mas de não depender dos outros, nem de filhos – e principalmente de genro e nora.

Envelhecer com bens e poder abençoar filhos e netos, é uma experiência preciosa. Minha mãe sempre foi generosa com seus bens, mas na medida em que foi envelhecendo, eu particularmente tenho tomado cuidado com o que falo porque ela imediatamente quer ajudar. Quando fomos comprar o vestido de noiva da minha filha, ela insistiu em mandar uma oferta em torno de 500 dólares. Quando minha casa foi arrombada e os ladrões roubaram até panela de pressão de nossa casa, ela foi uma das poucas pessoas que voluntariamente se preocupou conosco e nos deu uma quantia em torno de 500 dólares também. Não estava em jogo a quantidade, mas sua disposição em nos abençoar nos fez muito bem. Achei muito bonito sua mobilização para nos ajudar e abençoar.
Não interessa o padrão, se alto ou baixo, mas a Bíblia faz uma afirmação curiosa: “Não são os filhos que entesouram para os pais, mas os pais que entesouram para os filhos”. Ter para dar na velhice é um grande privilégio. Deixar bens e herança para os filhos, outro grande privilégio. Provérbios afirma que “o homem de bem deixa herança aos filhos de seus filhos” (Pv 13.22). eu agradeço a Deus o sistema social que temos, apesar de eventuais injustiças, mas na realidade brasileira, este pouco se torna significativo. São muitos os avôs que hoje estão pagando escolas de netos, ajudando filhos a construir suas casas, com a aposentadoria que recebem do sistema social. Esta conquista tem livrado milhares de idosos do ostracismo e abandono. Portanto, tente organizar sua vida, de tal forma que você não dependa de filhos e netos.

  1. – O último aspecto a ser considerado como pilar do envelhecimento é a busca por significado e sentido. Convicções claras sobre as questões eternas é uma das grandes bênçãos na velhice.

Carl Gustav Jung afirma no livro “The man in search of a soul”, que não conhece ninguém, com mais de 40 anos, cujo problema essencial não seja a questão da espiritualidade. É a fase da busca do sentido, quando chegamos à conclusão de que coisas, cargos, posições, realmente não ocupam mais nossa alma e não nos alimentam mais. Buscamos sentido: “para onde vamos?”, ou, “O que é a vida?”, “qual o sentido em viver?”. “De onde viemos, o que estamos fazendo aqui e para onde vamos?”.
É muito triste envelhecer sem a idéia de sacralidade, sem um conceito apropriado de Deus, porque se a vida termina num túmulo vazio, com todas as contradições, ambiguidades e paradoxos,  estamos vivendo num cenário do absurdo, como pontuou Jean Paul Sartre. A vida sem Deus, sem um senso de justiça, destino ee harmonia é um grande problema filosófico.
Numa entrevista à Veja, um conhecido matemático declaradamente ateu, tentava de todas as formas justificar sua atitude de descrença e na medida em que lia o texto, fiquei triste por ele. Tentei imaginar o que seria daquele homem quando estivesse perto da morte. Que sentimentos e conceitos encontraria na sua alma? Pensei na sua surpresa diante do trono do juízo de Deus, deparando-se com a verdade da eternidade. Como tal homem pode viver, e como era a morte de um homem completamente destituído de esperança?
A vida exige uma espécie de coerência para explicar as contradições que ela traz em si mesma. Por que prosperam os ímpios? Por que acontecem coisas boas a pessoas ruins e o contrário? A percepção superficial nos aponta para um universo repleto de contradições. Sem Deus, esta vida é absolutamente sem sentido.
Albert Camus é um escritor existencialista Argelino que cresceu na França e durante muito tempo defendeu os conceitos do agnosticismo. Um de seus livros mais conhecidos é O Mito de Sísifo. Na mitologia grega, Zeus decide punir Sísifo, dando-lhe a incumbência de levar uma pedra para o pico de uma montanha, pelo resto da vida. Logo na introdução deste livro ele declara que diante de tanto sofrimento e dor, uma das hipóteses filosóficas mais razoáveis é a do suicídio. Se Deus não existe, e a vida consiste em levar uma pedra para o topo de uma montanha, como eterno castigo de Deus, não faz sentido viver.
Precisamos de algo que dê sentido, não apenas para envelhecer, mas para viver, caso contrário, a vida nada mais é que um amontoado de acontecimentos díspares, sem significado para o viver.
Por isto, envelhecer com fé em Deus e esperança, é uma das grandes, se não a mais profícua de todas as bênçãos. A Bíblia afirma que “Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo; também pôs a eternidade no coração do homem” (Ec 3.11). Nós temos necessidade de espiritualidade, de resolver o dilema da nossa existência e a razão para a qual somos e existimos. Envelhecer sem esperança é uma grande tragédia.
O processo de envelhecimento exige de nós um aprofundamento nas reflexões, somos convidados a adentrar espaços da alma que sempre negamos e a contemplar a vida na perspectiva do sagrado. Somos chamados para um encontro com o Eterno.

Conclusão:
Por esta razão o salmista está afirmando: “Ensina-nos a contar os nossos dias de maneira que alcancemos corações sábios” (Sl 90.12).

Precisamos aprender com Deus a importância de nossa vida, para que tenhamos sentido no viver e para envelhecer com graça diante de Deus.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Fp 4.10-20 Aprendi a viver contente



Introdução:

O maior desafio de nossa vida é vivê-la em plenitude. Este é o anseio mais profundo da alma, ou como afirmou T. S. Elliot: “Onde está a vida que perdi tentando encontrá-la?” No fundo de nossa existência, todos nós queremos encontrar alegria e sentido. Na maior parte do tempo, porém, o que encontramos é o vazio, o desencorajamento, as dúvidas, temores por dentro e por fora. Neste texto o apóstolo revela percepções estando preso e condenado, e que o livraram de pensar que estava num inferno, ajudando- a entender que a vida vale a pena ser vivida. Se você tem vivido uma vida sem sentido e sem razão, vivendo por viver, preste atenção neste texto da Palavra de Deus.
Psicólogos reunidos elegeram Paulo como o homem mais feliz da terra, por causa da declaração feita em Fp 4.11: “Aprendi a viver contente e em toda e qualquer situação”. Quais foram as experiências que ajudaram Paulo a encontrar alegria na vida?

1.       Paulo aprendeu que felicidade não é algo inato – É aprendizado! Paulo afirma: “Aprendi”. Ele não diz que a alegria era uma característica natural de sua personalidade, do seu temperamento e do seu humor, mas foi resultado de um aprendizado.
Vamos pensar nas implicações disto para nossas vidas:
Descontentamento é algo muito comum em nossos dias. Como temos vivido uma vida descontente... Apesar de termos muito mais que nossos pais e avós, termos conforto, roupas confortáveis, podermos viajar, estudar, comer em restaurante, mas continuamos vazios. Somos uma geração infeliz, mau agradecida, murmuradora e triste. Isto é questão de foco.
Um antigo provérbio diz que dois homens se encontravam da janela da casa vendo a chuva cair. Um olhou e viu lama, outro olhou e viu beleza. O que diferenciou? Os olhares estavam colocados em lugares diferentes. Paulo se encontrava numa prisão. O ambiente era hostil, foram espancados, estavam numa cela, e ali, seus olhos foram postos em Deus e tudo mudou. A perspectiva dos céus encheu seus corações de alegria. A diferença estava em seu coração. Questão de perspectiva.
Felicidade, apreciação, gratidão e contentamento são coisas que desenvolvemos. Aprendemos a viver assim. Paulo diz que, caminhando com Deus, aprendeu a viver contente.
Você tem aprendido a viver contente, ou encontra-se derrotado na sua amargura, culpando a vida e a Deus pelos fracassos? Quando entramos na estrada da ingratidão dificilmente somos capazes de celebrar a vida e encontrar satisfação.

2.       Paulo aprendeu que relacionamentos são mais importantes que coisas - Ao escrever este texto, estava agradecendo a igreja de Filipos pela oferta haviam enviado para seu sustento pessoal como missionário, mas deixa claro que o dinheiro só era importante porque revelava o outro lado da moeda: revelava amor e cuidado. “Não que eu procure donativos...” (Fp 4.17)
O problema é que vivemos conectados a coisas, e nos esquecemos das relações.
Patrick M. Morley no livro, The seven  reasons of a man’s life[1], afirma:
Muitas vezes sou bombardeado por pedidos urgentes, que exigem respostas urgentes, a problemas urgentes,com consequências urgentes. Tenho a impressão que o mundo deixará de girar em torno do seu eixo, a não ser que eu, pessoalmente o movimente.
Quando paro para analisar o significado destas coisas aparentemente urgentes, reconheço que há muita palha, pouco trigo e uma imensa corrida atrás do vento(Pg. 44).

Temos necessidade de construir um tempo extra para conversar, para estar lá. Paulo enfatiza de que possuía relações significativas com a Igreja de Filipos, e em tempos de hostilidade isto estava lhe fazendo enorme diferença na sua historia pessoal (Fp 4.15).
Nossa vida é transformada quando encontramos vínculos significativos nos relacionamentos, quando encontramos pessoas que se tornam referência e significado para nós. Paulo admite que dependia e precisava daqueles irmãos. A maioria de nós vive uma vida miserável porque virou gado, é gente só, isolada, meros agentes de produção, gerando riquezas, trabalhando incansavelmente, mas sem relacionamentos significativos.

3.       Paulo aprendeu a lidar com abundância e escassez – Sua vida não girava em torno de coisas ou situações favoráveis. Ele sabia que a vida muitas vezes é instável e por isto não podemos nos tornar reféns de coisas para encontrar alegria.
Paulo conseguiu ter abundância sem culpa, e escassez sem amargura.

2.1. Abundância sem culpa- “Sei estar honrado”

Paulo celebrava a vida quando Deus lhe permitia ser honrado, não se sentia culpado quando Deus lhe dava coisas boas e oportunidades agradáveis.
Precisamos aprender a viver de bem com a vida quando Deus nos dá honra. Descansar sem crise; ir à praia sem crise; dormir quando puder  até mais tarde, sem crise; comer, quando puder, sem crise.  Não assumir uma vida negativa, cheia de dor quando está diante de um prato de comida gostoso ou de um banquete. Esta não é a hora de dizer: “Ah, os pobres da Etiópia” ou “Ah! O meu regime!” ou “Estou gordo!”. Naturalmente precisamos viver estilo de vida simples e assumir compromisso com os necessitados, cuidar de nossa saúde, eventualmente fazer dieta, mas nada de deixar de celebrar honra e fartura. Muitas pessoas tem crise porque tem.
Alguns anos atrás, morando ainda nos Estados Unidos, fui convidado por um amigo que ocupava um cargo muito importante numa empresa paulista, para fazer uma escala na cidade de São Paulo e irmos almoçar juntos. Ele me falou que não deveria me preocupar, porque seu motorista me apanharia no aeroporto. E ao chegar, uma pessoa muito educada, me tratou como alguém importante e abriu a porta daquele carro para eu entrar. Na hora fiquei meio encabulado, mas daí a pouco eu já estava gostando de ser tratado assim e agradecendo a Deus, senti que aquele era um momento em que Deus estava cuidando de forma particular da minha vida. Era um presente de Deus para minha vida.

2.2.  Escassez sem murmuração - “Sei estar humilhado

Por outro lado, Paulo afirma que aprendeu também a andar com contentamento em seu coração, nos dias de aperto e dificuldade. Ele aprendeu a viver contente também nestes dias, aprendeu a não se desesperar com os dias maus. Conseguia passar por crise, reajustar as finanças, refazer o orçamento familiar, apertar o cinto, vender o carro bom para pagar despesas, sem se desesperar, sem ter um ataque de nervos, sem se afligir. Ele havia aprendido a lidar com escassez.
A Bíblia nos mostra como situações difíceis podem determinar o coração das pessoas. “As pessoas são como saquinhos de chá – nunca se sabe o que há dentro, enquanto não derramar água fervendo”. Jó e sua esposa passam juntos por uma situação desesperadora e a reação de cada um deles diante foi completamente diferente. Diante das tragédias, a mulher de Jó afirma: “Ainda conservas a tua integridade, amaldiçoa a Deus e morre”. Jó encontra-se na mesma circunstância adversa e pesada. Qual foi sua atitude: “Falas como doida; temos recebido o bem de Deus e não receberíamos também o mal?” A mesma situação provoca reações completamente diferentes.
Paulo “aprendeu” a estar humilhado, a viver em situações de escassez, a ter atitude de coragem e fé diante das provações. Precisamos aprender a lidar com a vida, quando coisas essenciais faltam. Não será por isto que nossos cartões de crédito estouram os limites facilmente, não conseguimos admitir que é preciso viver com limites. Não conseguirmos lidar com as vacas magras?

4.       Paulo aprendeu a não condicionar sua alegria aos elementos externos: Circunstâncias, situações e pessoas (Fp 4.12).

Uma das coisas que mais roubam a alegria de nossa vida são as circunstâncias adversas. O fato, porém, é que nenhum de nós tem controle sobre fatores externos. Você não pode controlar o trânsito, o tempo, a reação dos outros, a variação do dólar e da bolsa, ou a atitude dos filhos e cônjuge, mas pode lidar com estes fatores externos de forma mais positiva. No entanto, nosso humor tem dependido de situações, a alegria está condicionada aos fatores dos quais não temos controle.
Certa vez fui convidado para pregar na igreja de Vila Isabel, Rio de Janeiro, mas me esqueci que teria que passar próximo ao maracanã num dia de Fla-Flu. Parado no trânsito descobri que jamais chegaria a tempo de pregar. Então fiz o que era possível: Telefonei para a Igreja e justifiquei minha ausência. Eu não podia alterar a situação. Infelizmente não consigo lidar sempre com adversidades de forma tão positiva. Infelizmente “as pessoas são o passatempo predileto das circunstâncias”.

5.      Paulo conheceu a Deus e o potencial que nele existe
a.       Tudo é possível em Deus. “Tudo posso naquele que me fortalece” (Fp 4.13). O texto não diz que podemos tudo em nós mesmos. Precisamos discernir a fonte de nossa capacitação. O texto não está falando de confissão positiva, nem de auto ajuda, mas que tudo podemos em Deus.

b.       Deus supre toda  necessidade – “E o meu Deus, segundo a sua riqueza em glória, há de suprir em cristo Jesus, cada uma de vossas necessidades”(Fp 4.19). Deus é meticuloso - “cada uma”- Os recursos virão, na hora certa, suprindo “cada necessidade”. Nenhuma delas será omitida ou esquecida. Deus suprirá necessidades, não desejos. Confundimos o que queremos com o que é necessário; o que precisamos com o que desejamos. Querer um carro melhor é um desejo, mas é de fato uma necessidade? Deus às vezes nos dá um presente excepcional, mas isto não é necessidade, ele não tem compromissos com o nosso desejo. Você pode querer fazer uma viagem cara, comprar roupas melhores, equipamentos mais sofisticados, mas isto é uma necessidade. Deus pode dar, mas não é isto que ele promete.

Conclusão:

De todas as coisas, porém, a mais importante e que pode realmente trazer alegria para o nosso coração, é descrito neste texto. Paulo descobriu que a fonte de genuína da alegria, encontra-se na relação pessoal e instransferível com Deus, por meio de Jesus. Esta afirmação é feita por duas vezes:
ð      Fp 4.10: “Alegrei-me sobremaneira no Senhor”. Paulo afirma que sua fonte extraordinária de alegria estava em Deus.
ð      Fp 4.10: “E o meu Deus, há de suprir em cristo Jesus, cada uma de vossas necessidades”. Em Cristo. Quando estamos em Jesus, haverá suprimento.
ð       
Existem muitos querendo alegria fora de Jesus. Mas, “separado de Deus, quem pode comer, ou quem pode alegrar-se?”  (Ec 2.25). Mickey Mantle consagrou-se como o maior batedor de beisebol de seu tempo, e certa vez, numa entrevista à consagrada revista Sports illustrated afirmou: “As coisas vão melhorar, não bebo há oito meses, estou tentando reconstruir minha vida, mas acho que está faltando alguma coisa”.
As pessoas estão vazias, interiormente solitárias. Sentem-se culpadas pelo passado e ansiosas quanto ao futuro. Esgotaram seus recursos na busca por significado. Não estão entendendo que “Deus colocou a eternidade no coração dos homens”. A frustração resulta pelo fato de não terem sentido na vida. Você pode ter conquistado tudo, e mesmo assim ainda ser o mais miserável dos seres humanos.
A fonte de alegria de Paulo estava no Senhor (Fp 4.10).



[1] Patrick M. Morley - The seven  reasons of a man’s life, traduzido em português como  Desafios da vida de um homem.  São Paulo, Edit Mundo Cristão, 1997.