domingo, 11 de maio de 2014

Gn 42.18-24 Os fantasmas da Culpa




Introdução:

A Revista Veja fez uma retrospectiva sobre a vida dos oficiais e policiais que lideraram o massacre do Carandiru no dia 2 de outubro de 1992, quando 111 detentos foram mortos (oficialmente, muitos queimados vivos), e 87 ficaram feridos sem possibilidade de defesa, num dos maiores atentados contra o direito civil em nosso país. A revista mostra que todos os responsáveis pelos massacres tiveram mortes estranhas e trágicas ou viviam acossados pela consciência, pesadelos e culpa.
Um dos maiores problemas da alma humana é estar encarcerado pela culpa, nos fazer prisioneiros da culpa, atormentando-nos pelos demônios e verdugos do inconsciente.
Chico Buarque de Holanda fez uma música grave pouco conhecida, cujo título é Hino da Repressão, que diz o seguinte:
Se atiras mendigos
No imundo xadrez
Com teus inimigos
E amigos, talvez
A lei tem motivos
Pra te confinar
Nas grades do teu próprio lar
Se no teu distrito
Tem farta sessão
De afogamento, chicote
Garrote e punção
A lei tem caprichos
O que hoje é banal
Um dia vai dar no jornal
Se manchas as praças
Com teus esquadrões
Sangrando ativistas
Cambistas, turistas, peões
A lei abre os olhos
A lei tem pudor
E espeta o seu próprio inspetor
E se definitivamente a sociedade só te tem desprezo e horror
E mesmo nas galeras és nocivo, és um estorvo, és um tumor
Que Deus te proteja
És preso comum
Na cela faltava esse um!

A culpa é uma das mais pesadas experiências humanas.
Neste texto vemos o drama na alma dos irmãos de José. Mais de 15 anos já se haviam passado desde que José fora vendido como escravo aos amalequitas, e os filhos de Jacó levaram a informação ao pai de que ele provavelmente fora despedaçado por um animal, quando na verdade o haviam vendido. Este segredo foi mantido pelos irmãos, num pacto sinistro, e aparentemente esta questão do irmão já era página virada. Agora, porém, diante de uma crise são obrigados a descer ao Egito, onde poderiam adquirir alimentos. Chegando ali, são acusados de serem espiões, atirados a uma cela por três dias, e sob forte acusação, a consciência culpada emerge de forma clara.

Então, disseram uns aos outros: Na verdade, somos culpados,
no tocante a nosso irmão, pois lhe vimos a angústia da alma, quando nos rogava e não lhe acudimos; por isso, nos vem esta ansiedade. Respondeu-lhes Rúben:
Não vos disse eu: Não pequeis contra o jovem? E não me quisestes ouvir.
Pois vedes aí que se requer de nós o seu sangue” (Gn 42.21-22).

Pela análise que fazem da situação observamos que eles encontram-se debaixo de grande culpa, o coração desassossegado brota do seu interior. O mal que lhes acontece, dizem eles, tem relação com aquilo que fizemos. Uma alma culpada é uma alma atormentada.
A culpa retira a paz, traz tormento e angústia, e pode fazer nossa vida inteira se relacionar a um evento do qual não fomos perdoados. Diante da provação e sofrimento, a consciência dos irmãos de José faz uma associação imediata. “Somos culpados”(Gn 42.21). O evento de 15 anos atrás retorna de forma viva na memória. Eles entendiam que se encontravam assim por causa da maldade praticada. A culpa dirige a vida destes homens. Durante todos estes anos, sempre que algo dava errado na vida, ou uma coisa negativa lhes acontecia, a explicação imediata se relacionava àquele trágico e cruel evento do passado, a este segredo que mantinham e que os tornou prisioneiros da culpa. O que fizeram fora de uma crueldade tão grande que agora dizem: “nós vimos a angústia da alma, quando nos rogava e não lhe acudimos”.
Jay Adams afirma que 50% dos pacientes que lotam as clínicas psiquiátricas ficariam livres para sempre de toda sua angústia e enfermidade, se conseguissem experimentar perdão num nível profundo, no entanto, vivem atormentados pelos fantasmas, pela acusação e culpa, real ou imaginária, que paira sobre suas vidas.
Em 1994, conhecemos uma pessoa atormentada pelas suas lembranças e que eventualmente se tornou um amigo, ainda que de forma distante, arredio e estranho. Na sua casa havia centenas de latas e garrafas de bebidas destiladas, sempre bebia muito, apesar de trabalhador era visivelmente confuso e atormentado. Por chamar a todos de serrote, ele mesmo acabou recebendo este apelido.
Na história nebulosa e nunca bem relatada de sua biografia que se escondia numa cortina de fumaça, havia uma participação de um crime brutal na sua terra natal, que envolvia uma chacina com requintes de maldade. Ele vivia atormentado pelo seu passado, pela sua sombra, atormentado pelos demônios, reais e imaginários do seu inconsciente. Insistíamos em que ele viesse para nossa casa e passasse um tempo conosco, mas sua desorientação, ansiedade e insegurança, não permitia que ele ficasse muito tempo. Tentamos transmitir a graça de Deus, falar do perdão por meio da cruz, eventualmente ele chorava, mas nunca realmente conseguiu experimentar num nível profundo, a graça libertadora que vem por meio de Jesus ou encontrar libertação para sua vida.
A culpa é algoz. Por isto Jesus falou na parábola do credor incompassivo que se não perdoarmos do íntimo, seriamos entregues aos algozes e tiranos, até que pagássemos o último centavo. O problema da culpa é que ela é um poço sem fundo, não há como ser pago – a menos que a graça maravilhosa de Deus quebre o ciclo da dívida que não pode ser paga por atitudes humanas de compensação. A culpa é atroz, assume o controle da mente e emoções e o único antídoto eficaz é o perdão.
Quando os irmãos de José estão retornando para casa e encontram o dinheiro que lhes havia sido devolvido e que se encontrava no saco de comida, a pergunta imediata deles é: “Que é isto que Deus nos fez?” (Gn 42.28). A culpa os faz pensar que Deus é alguém que está sempre lhes  caçando. Quando Benjamin é apanhado com o copo de prata que José havia pedido aos seus servos que colocassem no saco de cereal que ele havia comprado, a resposta também a esta situação é uma resposta de culpa: “Achou Deus a iniqüidade de teus servos” (Gn 44.16). Não é esta uma situação complexa da alma? Talvez seja por esta razão que a Palavra de Deus afirme que  “O teu pecado te achará” (Nm 32.23)
Rick Warren, no livro “A vida com propósitos”, afirma que a vida pode ser conduzida por várias tendências do coração: Ansiedade, medo, desejos, cobiça e culpa. O que dirige nossa vida? Os irmãos de José eram dirigidos pela lembrança dura da memória de um ato perverso e cruel praticado no passado. Quantas pessoas são dirigidas da mesma forma em nossos dias? Quantas almas atormentadas pela acusação, medo, culpa. Acossados por pecados não perdoados.

Como vencer a culpa?

Vivemos numa sociedade que encontra enorme dificuldade para resolver o problema da culpa, por uma razão muito estranha: Ela não tem conceito de pecado. Se o que faço não é pecado, nem transgressão, nem ofensa, então eu não posso me sentir culpado, afinal, trata-se de uma decisão pessoal de fazer aquilo que optei por fazer. Portanto, se faço algo, não há nada de errado no que fiz? É uma questão de opção individual, não de valores ou absolutos. No entanto, a bíblia afirma, que mesmo os gentios, que não tem a lei de Deus como norma e preceito, não tendo um código de leis, ainda assim possuem a norma da lei escrita em seus corações, mutuamente acusando-se ou defendendo-se (Rm 2.14-16). Então, existe uma norma ou arquétipo do certo e errado na consciência humana, e o fato de negar o pecado, não quer dizer que ele não é real, nem os isenta da culpa. E aí reside o grande problema: Como encontrar perdão real, se não há culpa real. Só é possível ser perdoado, aquele que se sabe culpado.
Então, o primeiro passo para o perdão é a consciência do pecado. Quando afirmamos o pecado, ficamos sem defesa e corremos para o tribunal de Deus para sermos libertos. Se não sou pecador, porque preciso de libertação? Davi experimentou isto num nível interessante: “Enquanto calei os meus pecados, envelheceram meus ossos, porque a sua mãe pesava noite e dia sobre mim, e meu vigor se tornou em sequidão de estio” (Sl 32.3-5). Parece que ele tentou resolver esta questão da culpa deixando o tempo passar, ou ignorando sua situação, mas sua condição só se agravou, inclusive fisicamente. Em seguida, porém, declara: “Confessei-te o meu pecado, e a minha iniquidade não mais ocultei”(Sl 32.6). E só então, confrontado com sua vergonha e culpa, admitindo e reconhecendo o seu mal, experimentou o perdão. Na verdade, ele começa este Salmo fazendo uma afirmação de alegria: “Bem aventurado aquele cuja iniquidade é perdoado, cujo pecado é coberto”(Sl 32.1). Ele está celebrando a leveza e a liberdade que encontrou, quando entrou em contacto com o seu mal, reconheceu-o, e o apresentou a Deus.
Em Mc 6 vemos o rei Herodes consumido pela culpa. Ele havia mandado decapitar João Batista, num ato insano, irrefletido e no meio de uma festa. A Bíblia demonstra como este episódio da sua vida o aprisionou para sempre. Logo que Jesus começou seu ministério vierem relatar a Herodes sobre este homem com poderes especiais, e a reação dele demonstra a agonia e a presença dos seus fantasmas internos, a assombração estava ali presente: “É João, a quem eu mandei decapitar” (Mc 6.16).
A culpa é um poço sem fundo, tem o poder de causar um enorme buraco e não permite que a vítima faça qualquer coisa prazerosa. Ela é punitiva e impiedosa, por isto as neuroses e distúrbios psiquiátricos estão sempre associadas a culpa e auto punição. A Bíblia afirma: “O homem carregado do sangue de outro, fugirá até a cova. Ninguém o detenha” (Pv 28.17). Uma pessoa carregada de culpa é irrefreável, e seu ímpeto autodestrutivo vai se revelando na sua saúde, emoções e vida espiritual.
Pv 28.13 nos ensina: “O que encobre as suas transgressões jamais prosperará, mas o que as confessa e deixa, alcançará misericórdia”.
Culpa não se aplaca com paliativos de bondade e justiça própria. Não existem subterfúgios e esconderijos para aquele que não foi perdoado do seu pecado. Não se pode acobertar o mal. Culpa se resolve com desmascaramento, arrependimento e confissão. Tudo isto pode ser resumido numa palavra: Enfrentamento. Pecado não confessado destrói vidas, retira a alegria e a autoridade moral e espiritual. Pecado não confessado é a melhor arma de Satanás para retirar a alegria do coração. Culpa é o ingrediente que ele precisa para nos deprimir, gerar doenças emocionais e desequilibrar-nos.
Tenho um amigo muito especial, cujo pai, embora tivesse até assumido cargos na igreja, tinha sempre sobre sua vida uma sombra nebulosa de coisas mal explicadas. Muitas dúvidas e suspeitas pairavam sobre seu caráter e sua confusão tornou-se explícita embora nada de concreto tenha sido revelado e, talvez por isto, eventualmente se separou da esposa. Quando morreu, o seu filho parou em frente do caixão, contemplando a figura misteriosa do pai e começou a pensar consigo mesmo sobre quantos segredos ele estava levando para o túmulo, e quantas angústias e culpas corroeram sua alma, pelo fato de nunca ter lidado diretamente com sua dor e pecado.

O segundo passo, depois do enfrentamento, é a aceitação do perdão. Por isto Davi afirma: “Bem aventurado é o homem cujo pecado é perdoado”. Esta declaração é sobre a  sua própria situacao. Ele sabia o que estava falando, ele sabia quantas sombras pairavam sobre sua vida, até entrar em contacto com a maravilhosa libertação que o perdão de Deus traz à vida de um homem. Davi pode dizer: Estou livre! Ele não vê qualquer sentença condenatória contra sua vida, nem pecado ou crime a pagar. Isto envolve a compreensão do Evangelho e da graça de Deus.
Existem pessoas que tem culpa, mas não sentimento de culpa; existem outras com sentimento de culpa sem culpa. O evangelho nos fala de um Deus que é gracioso, misericordioso e perdoador. A carta de Paulo aos Romanos usa muitas vezes a expressão justificação. Poucos crentes entendem o significado desta frase. Justificação é uma declaração forense, termo jurídico, linguagem de tribunal, declaração de um juiz. Paulo afirma que “Justificados, pois, pela fé, temos paz com Deus” (Rm 5.1). A pessoa justificada é aquela que é declarada justa, diante de um tribunal, numa sentença dada por um juiz. Isto significa absolvição.
Paulo entende isto de forma muito profunda: “Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica”(Rm 8.33).
Quem foi perdoado por Deus está livre de qualquer condenação, porque o tribunal supremo e a declaração máxima de absolvição foi dada por Deus. Quem é assim justificado está livre da condenação do diabo, da consciência pesada de acusação dos outros, ou da própria consciência, já que o próprio Deus os justificou. Portanto, Quem os condenará? (Rm 8.34).
Para que o perdão fosse legitimo, um preço foi pago. Jesus assumiu o meu lugar no tribunal. Ele assume o meu lugar e toda a justiça que Deus precisava para punir meu estado deplorável de condenação, foi assumido por Jesus. “O castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras, fomos sarados”(Is 535).

Conclusão:

Deus providenciou o remédio para a culpa, não precisamos ser prisioneiros de nossos pecados e história de erros e graves falhas. Deus, o ofendido, resolveu nos absolver por meio de seu Filho que voluntariamente se entregou por nós. Nós, os ofensores, fomos perdoados. Deus providenciou o remédio: a cruz!
O homem não é capaz de purificar-se de sua culpa por si mesmo, nem aliviar a sua consciência. Ele precisa de Deus. Não existe outro caminho, a não ser enfrentamento, arrependimento e confissão.

Por que você precisa desta doença? O que está corroendo sua alma? Devorando-o por dentro? Que segredos e fantasmas você tem abrigado e que estão destruindo sua paz e alegria? Quanta ansiedade, medo de Deus, condenação da consciência culpada. Cristo Jesus veio para nos resgatar de nossas próprias trevas e nos dar vida em abundância. Se o Filho vos libertar, verdadeiramente seremos livres!

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Gn 41 Grandes homens não surgem por Acaso


Introdução:





Neste texto, Gn 41, depois de 13 anos de grandes lutas desde que havia sido vendido de forma desumana, injusta e cruel pelos seus proprios irmaos, vemos josé saindo do anonimato para se tornar um dos lideres mais marcantes que este mundo já conheceu. Ele é levado à presença de Faraó, o homem mais influente e poderoso de seu tempo, para interpretar o sonho que tivera. Era apenas um sonho, mas que o deixaram perturbado. Nenhum de seus magos e adivinhos puderam decifrá-lo, foi aí que, o copeiro chefe, que havia convivido com José na prisao, lembrou-se dele e passou seu curriculo para Faraó.
No sonho, Faraó via sete vacas gordas saindo do Nilo, e em seguinda, surgiam outras sete vacas magras que devoravam as primeiras. Depois, outro sonho: via sete espigas cheias e boas, que eram devoradas por outras sete espigas mirradas e crestadas pelo vento oriental. José é introduzido à presenca de Faraó, para tentar interpretar seu sonho. Tudo nos leva a crer que sua situação na prisão era de abandono e pobreza, pois teve que ter suas roupas trocadas e barbas feitas para se apresentar diante daquele poderoso homem.
Muitas vezes já participei de discussões sobre liderança, cuja questão é se um líder nasce ou um líder se faz. Acho esta pergunta tão inócua quanto à questão se o ovo nasce da galinha ou a galinha do ovo. No entanto, precisamos perceber que liderança não é algo que surge no vácuo.  Nenhum líder apenas “acontece”. Na vida de José, existem alguns aspectos que precisam ser analisados. Aqui aprendemos alguns princípios fundamentais sobre liderança e a vida:
1.     Grandes líderes possuem caráter aprovado: O tempo e o sofrimento não o destroem– Poucas pessoas foram tão massacradas na sua auto-estima quanto José. Ele sofreu a rejeição dos irmaos, a humilhação da escravatura, a injustiça ao ser levado para a prisão; o esquecimento e abandono de pessoas como o copeiro chefe de faraó. Mas toda esta oposição e crueldade sofridas, não destruiram seu caráter. O sofrimento, quando tratado apropriadamente, pode mudar a vida e dar grandeza. Não percebemos em José, a mínima variação de seu caráter.
Não é muito difícil nos tornarmos cínicos em relação à vida. José tinha todos os motivos para se justificar, afinal a vida não lhe fora nada generosa. No entanto, diante da oposição, ele aprofundava o seu caráter. Quando a bíblia fala de fé “provada”, está se referindo às vidas que passaram pelo triturador, mas continuaram firmes. Fé provada traz aprovação de Deus. A provação demonstra qual era a natureza do caráter de José, que viveu como exilado e escravo dos 17-30 anos, sem nenhum direito a defesa.
Tanto em Gn 51.1, quanto em Gn 51.46, vemos a questao do tempo. Blaise Pascal ao enfrentar sua própria enfermidade orou: “Senhor, eu sei que o Senhor pode me curar, mas se não for da tua vontade, me ensine a sofrer como um bom cristão”.
2.     Grandes homens fazem as coisas com excelência– Tudo que passa pelas mãos de José, melhora de qualidade e prospera. Aconteceu isto na casa de Potifar. A bíblia afirma que Deus abençoou aquela casa por causa da José. Quando ele vai para a cadeia, torna-se administrador dela. Ainda é um preso, sem direito à liberdade, mas seu valor é reconhecido pelo carcereiro. Existe um ditado que diz: “melhores atitudes, maiores altitudes”. O que vemos em José? A capacidade de fazer sempre as coisas com excelência.
Excelência é o contrário de mediocridade. O medíocre faz as coisas “para o gasto”, para cumprir tabela. O mediocre opta por fazer as coisas “mais ou menos”; ele não quer aprimorar, nem melhorar o que faz. Ele se contenta com pouco e por baixo. Quem busca excelência vai além, procura fazer as coisas com qualidade, sair de uma condição para outra.
Uma ilustração exemplifica bem isto.
Certa mae, com seu filho de 9 anos, sofrendo com uma grave doença e com longos periodos de internação, percebeu que ele estava deprimido e resolveu conversar com um bombeiro, pedindo que fosse visitá-lo no hospital, pois o seu sonho sempre fora se tornar bombeiro. Aquele homem, sensibilizado, resolveu fazer alguma coisa melhor. Como o quarto do hospital ficava no segundo andar, usou uma escada magirus e entrou pela janela, condecorando aquele menino de “bombeiro mirim”e levando-lhe de presente um uniforme mirim. Isto é excelência. O que lhe é pedido é pouco, mas ele quer fazer mais. Pessoas excelentes não se contentam com o comum –querem fazer o melhor.
Toda estrutura organizacional abriga espaço para a excelência e para a mediocridade. Funcionários podem mostrar muita competência em estruturas ruins, elevando a qualidade de uma empresa ou de determinado ambiente. É assim com José. Ao chegar na casa de potifar e logo se torna mordomo. Quando vai para a cadeia, a humanizando e organiza as coisas. É gente com excelência na alma. Indo sempre além, fazendo as coisas com profundidade e competência. Pessoas assim se sobressaem em quaisquer ambientes, por mais hostis que sejam.
John maxwell fala no seu livro, O lider 360 graus, sobre alguns mitos que impedem nosso crescimento profissional. Ele encoraja as pessoas: 
a)- Desenvolver sua liderança a partir de qualquer ponto da estrutura corporativa;
b)- Afirma que 99% de toda liderança não acontece no topo, mas no escalão médio: colegas, gerentes, chefe, subordinados.
c)- Demonstra que os líderes do escalão médio podem ter um profundo impacto sobre uma organização. Ele afirma que muitos pensam: “Quando chegar ao topo, ai aprenderei a liderar”, mas segundo Maxwell, o ponto não é “quando for líder estudarei o assunto”, mas... “estudarei o assunto para ser um líder”, pois a boa liderança é aprendida nas bases. Quando a oportunidade chega, é tarde demais para se preparar para ela.
Jose fazia as coisas com excelência e isto abria portas para grandes oportunidades. Um líder não se faz por acaso, e nem se consegue vitórias sem esforço, dedicação, diligência e busca de excelência. Considere sempre que você pode fazer melhor!
3.    Grandes líderes são capazes de virar as páginas da injustiça que poderiam  mantê-los aprisionados à amargura e ao vitimismo. Isto é muito evidente neste texto quando lhe nascem os filhos. Veja o que ele diz ao nascer o primeiro, a quem ele chama de Manassés, e o segundo, cujo nome é Efraim. Vejamos o sentido destes nomes.
“Manassés” significa “esquecimento” ou, “Deus me fez esquecer todo o meu sofrimento e a casa de meus pais”. Não é significativo que ele tenha colocado este nome no seu primeiro filho? Ele está dizendo para si mesmo que precisa colocar um ponto final nas experiências negativas, que não deveria ficar chorando e se lamentando a vida inteira.
Esquecimento não é sinônimo de Amnésia. “Esquecer não significa perder a consciência do acontecimento. Isto é amnésia. Significa libertar a dor da memória” (Bob Gass). Quando perdoa não apago o mal que me fizeram, mas o mal perde o seu poder sobre mim. Ao agir desta forma José declara que as experiências do passado não exerciam força limitadora na sua vida. Ele não era mais preso do medo, dos ressentimentos, das injustiças e complexos. Todas estas coisas tentavam fazer José voltar e viver amarrado ao seu passado.
Paulo afirma: “Irmãos, quanto a mim, não julgo havê-lo alcançado; mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para o alvo, para o premio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” (Fp 3.13-14). Esta capacidade de virar as páginas das ofensas e amarguras, das raivas inconscientes e das iras sepultadas dentro de nós, são essenciais para avançarmos na vida.
Se o primeiro filho aponta para a resolução do passado, o segundo lhe dá o vislumbre de novas perspectivas: “Efraim: Deus me fez prosperar”. Esta tradução pode significar “prosperidade em dobro”. O primeiro filho tem a ver com o segundo, porque o perdão e a cura são a plataforma para gerar prosperidade.
A afirmação que ele faz, torna-se ainda mais significativa ao dizer: “Deus me fez próspero na terra da minha aflição” (Gn 41.52). Faraó é lugar de más lembranças. É lugar da rejeição, do abandono, da crueldade, da injustiça, mas ele afirma que apesar da hostilidade enfrentada, Deus lhe fez próspero. A bíblia afirma “Bem aventurado é o homem que, passando pelo vale árido, faz dele um manancial. De bençãos o cobre a primeira chuva” (Sl 84.6). Ser próspero numa terra fértil é fácil, mas é duro ser próspero na terra da aflição. Ele reconhece a ação de Deus em sua vida. Isto é gratidão: “Deus me fez prosperar” (Gn 51.52). Apesar dos homens, da situação, da oposição, Deus o tornou próspero.
Crescer na terra da aflição é ação de Deus e uma opção pessoal: “Deus me fez prosperar” (Gn 51.52), e uma ação de Deus. “Deus me fez prosperar”. Ele age em mim, fazendo em mim.
É interessante verificar como Raquel, sua mãe teve atitude diferente quando José nasceu. Ela demonstra toda sua amargura e descontentamento com toda sua situação e com as experiências negativas: “Que o Senhor me acrescente outro filho”. Ela está dizendo que ainda quer mais um. “Dê-me ainda outro filho”. José vê no filho a chance de reescrever sua história, um marco e plataforma para outra fase mais produtiva e abençoadora de sua vida.


4. Grandes homens tem clara percepção de Deus  na sua vida – José tem perspectiva de Deus na história. Ao chegar diante de Faraó com status de infalível intérprete de sonhos, ele afirma: “Não está isso em mim, mas Deus dará resposta favorável a Faraó” (Gn 41.16). Um dos textos que demonstra isto de forma mais clara é sua conhecida declaração aos irmãos em Gn 50.20: “Vós intentastes o mal, mas Deus transformou o mal em bem como hoje vedes”.
Um grande líder percebe os atos de Deus na história. Isto amplia sua leitura da vida e das oportunidades. A bíblia afirma que “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus”. A melhor tradução deste texto é: “Todas as coisas, juntamente, cooperam para...” Um homem de Deus aprende que sua vida não é feita de eventos desconectados e isolados, antes aprende a conectar os fatos e percebe o Senhor conectando todos os eventos de sua história.
Pensar na soberania de Deus traz descanso para a alma e nos livra do desespero. Viver nesta vida debaixo da sombra do acaso, da coincidência, do fatalismo cego, das circunstâncias trágicas e imprevisíveis ou das pessoas com suas variações de humor, predileções e injustiças, torna-se grande estorvo. José fazia a leitura dos fatos e das situações na perspectiva de um Deus que conduz a história segundo o seu propósito, isto nos faz ficar numa santa expectativa da direção e cuidados de Deus. Pierre Teilhard de Chardin afirmou: Não somos seres humanos vivendo uma experiência espiritual, somos seres espirituais vivendo uma experiência humana." A história de José nos surpreende pelas manifestacoes das coisas sobrenaturais nos eventos comuns e ordinários. Em josé não existem aparições de anjos, visões, profecias. Deus não vem conversar com ele, como fez com Abraão e Jacó. Todos os eventos de sua vida são corriqueiros, fazem parte do dia a dia, no mercado de trabalho, nas injustiças da vida. É assim que acontece em todas as culturas: lidamos com pessoas corruptas, com provocacoes, lascívia, injustiça, crueldade – e José se encontra neste redemoinho de fatos desconexos e cruéis, sem nunca ignorar que Deus está acima de tudo.
Faraó decide contratar José, pela percepção de sua espiritualidade e sua capacidade administrativa ao lhe dar os rumos que a economia de um país deveria seguir. Faraó fica surpreso: “Acharíamos, porventura, homem como este, em quem há o Espírito de Deus?” (Gn 41.38). É maravilhoso ver a espiritualidade se aliando à competência e à capacidade administrativa. Que benção para uma nação e para uma instituição, quando surgem homens lúcidos, empresários, fazendeiros, profissioonais liberais, que tem capacidade de administrar, e em quem há o Espírito de Deus. A excelência de José se revela na capacidade de resolver os problemas e desafios de um dado novo que surge na conjuntura política daquele povo. José é proativo. É muito fácil encontrar pessoas que trazem problemas e dificuldades, mas muito difícil encontrar pessoas que trazem soluções.
José reconhece a soberania de Deus em sua história e reafirma sua visão diante de Faraó e de seus irmãos. Deus está no controle. Ele sempre conduziu a história para o objetivo que ele tinha em mente. Ele se percebe como instrumento de Deus. “Vós intentastes o mal, mas Deus transformou o mal em bem” (Gn 50.20).

Conclusão:
Deus precisa levantar homens no meio do caos. Temos orado por uma nação mais justa, mais lúcida, e eventualmente chegamos a nos desesperar com o descaso, o mau uso dos recursos públicos, a inabilidade e incompetência e a mediocridade. Arnaldo Jabor, num artigo publicado pelo Jornal o Globo, no dia 06 de Maio de 2014, afirmou: “O Brasil está com ódio de si mesmo”. Seu tom ácido e pessimista torna-se desesperador. Ele cita a metáfora de Oswald de Andrade de que “as locomotivas estavam prontas para partir, mas alguém torceu uma alavanca e elas partiram na direção oposta”. Afirma ainda que há uma grande neurose no ar, e cita a frase de Lévi-Strauss de que o Brasil “chegaria à barbárie sem conhecer a civilização”, criando assim um desespero de autodestruição, quando o país começa a se atacar, criando um pensamento fatalista: “É assim mesmo, não tem jeito, não.” Para Jabor, “o fatalismo é a aceitação da desgraça. O Brasil está triste e envergonhado.


Nestas horas, ficamos ansiosos em ver uma geração se levantando com o coração encharcado de uma percepção de Deus, de jovens dispostos a pagarem o preço da excelência, da competência, da capacidade administrativa, mas que não tirem os olhos de Deus. Que Deus nos ajude!