domingo, 11 de maio de 2014

Gn 42.18-24 Os fantasmas da Culpa




Introdução:

A Revista Veja fez uma retrospectiva sobre a vida dos oficiais e policiais que lideraram o massacre do Carandiru no dia 2 de outubro de 1992, quando 111 detentos foram mortos (oficialmente, muitos queimados vivos), e 87 ficaram feridos sem possibilidade de defesa, num dos maiores atentados contra o direito civil em nosso país. A revista mostra que todos os responsáveis pelos massacres tiveram mortes estranhas e trágicas ou viviam acossados pela consciência, pesadelos e culpa.
Um dos maiores problemas da alma humana é estar encarcerado pela culpa, nos fazer prisioneiros da culpa, atormentando-nos pelos demônios e verdugos do inconsciente.
Chico Buarque de Holanda fez uma música grave pouco conhecida, cujo título é Hino da Repressão, que diz o seguinte:
Se atiras mendigos
No imundo xadrez
Com teus inimigos
E amigos, talvez
A lei tem motivos
Pra te confinar
Nas grades do teu próprio lar
Se no teu distrito
Tem farta sessão
De afogamento, chicote
Garrote e punção
A lei tem caprichos
O que hoje é banal
Um dia vai dar no jornal
Se manchas as praças
Com teus esquadrões
Sangrando ativistas
Cambistas, turistas, peões
A lei abre os olhos
A lei tem pudor
E espeta o seu próprio inspetor
E se definitivamente a sociedade só te tem desprezo e horror
E mesmo nas galeras és nocivo, és um estorvo, és um tumor
Que Deus te proteja
És preso comum
Na cela faltava esse um!

A culpa é uma das mais pesadas experiências humanas.
Neste texto vemos o drama na alma dos irmãos de José. Mais de 15 anos já se haviam passado desde que José fora vendido como escravo aos amalequitas, e os filhos de Jacó levaram a informação ao pai de que ele provavelmente fora despedaçado por um animal, quando na verdade o haviam vendido. Este segredo foi mantido pelos irmãos, num pacto sinistro, e aparentemente esta questão do irmão já era página virada. Agora, porém, diante de uma crise são obrigados a descer ao Egito, onde poderiam adquirir alimentos. Chegando ali, são acusados de serem espiões, atirados a uma cela por três dias, e sob forte acusação, a consciência culpada emerge de forma clara.

Então, disseram uns aos outros: Na verdade, somos culpados,
no tocante a nosso irmão, pois lhe vimos a angústia da alma, quando nos rogava e não lhe acudimos; por isso, nos vem esta ansiedade. Respondeu-lhes Rúben:
Não vos disse eu: Não pequeis contra o jovem? E não me quisestes ouvir.
Pois vedes aí que se requer de nós o seu sangue” (Gn 42.21-22).

Pela análise que fazem da situação observamos que eles encontram-se debaixo de grande culpa, o coração desassossegado brota do seu interior. O mal que lhes acontece, dizem eles, tem relação com aquilo que fizemos. Uma alma culpada é uma alma atormentada.
A culpa retira a paz, traz tormento e angústia, e pode fazer nossa vida inteira se relacionar a um evento do qual não fomos perdoados. Diante da provação e sofrimento, a consciência dos irmãos de José faz uma associação imediata. “Somos culpados”(Gn 42.21). O evento de 15 anos atrás retorna de forma viva na memória. Eles entendiam que se encontravam assim por causa da maldade praticada. A culpa dirige a vida destes homens. Durante todos estes anos, sempre que algo dava errado na vida, ou uma coisa negativa lhes acontecia, a explicação imediata se relacionava àquele trágico e cruel evento do passado, a este segredo que mantinham e que os tornou prisioneiros da culpa. O que fizeram fora de uma crueldade tão grande que agora dizem: “nós vimos a angústia da alma, quando nos rogava e não lhe acudimos”.
Jay Adams afirma que 50% dos pacientes que lotam as clínicas psiquiátricas ficariam livres para sempre de toda sua angústia e enfermidade, se conseguissem experimentar perdão num nível profundo, no entanto, vivem atormentados pelos fantasmas, pela acusação e culpa, real ou imaginária, que paira sobre suas vidas.
Em 1994, conhecemos uma pessoa atormentada pelas suas lembranças e que eventualmente se tornou um amigo, ainda que de forma distante, arredio e estranho. Na sua casa havia centenas de latas e garrafas de bebidas destiladas, sempre bebia muito, apesar de trabalhador era visivelmente confuso e atormentado. Por chamar a todos de serrote, ele mesmo acabou recebendo este apelido.
Na história nebulosa e nunca bem relatada de sua biografia que se escondia numa cortina de fumaça, havia uma participação de um crime brutal na sua terra natal, que envolvia uma chacina com requintes de maldade. Ele vivia atormentado pelo seu passado, pela sua sombra, atormentado pelos demônios, reais e imaginários do seu inconsciente. Insistíamos em que ele viesse para nossa casa e passasse um tempo conosco, mas sua desorientação, ansiedade e insegurança, não permitia que ele ficasse muito tempo. Tentamos transmitir a graça de Deus, falar do perdão por meio da cruz, eventualmente ele chorava, mas nunca realmente conseguiu experimentar num nível profundo, a graça libertadora que vem por meio de Jesus ou encontrar libertação para sua vida.
A culpa é algoz. Por isto Jesus falou na parábola do credor incompassivo que se não perdoarmos do íntimo, seriamos entregues aos algozes e tiranos, até que pagássemos o último centavo. O problema da culpa é que ela é um poço sem fundo, não há como ser pago – a menos que a graça maravilhosa de Deus quebre o ciclo da dívida que não pode ser paga por atitudes humanas de compensação. A culpa é atroz, assume o controle da mente e emoções e o único antídoto eficaz é o perdão.
Quando os irmãos de José estão retornando para casa e encontram o dinheiro que lhes havia sido devolvido e que se encontrava no saco de comida, a pergunta imediata deles é: “Que é isto que Deus nos fez?” (Gn 42.28). A culpa os faz pensar que Deus é alguém que está sempre lhes  caçando. Quando Benjamin é apanhado com o copo de prata que José havia pedido aos seus servos que colocassem no saco de cereal que ele havia comprado, a resposta também a esta situação é uma resposta de culpa: “Achou Deus a iniqüidade de teus servos” (Gn 44.16). Não é esta uma situação complexa da alma? Talvez seja por esta razão que a Palavra de Deus afirme que  “O teu pecado te achará” (Nm 32.23)
Rick Warren, no livro “A vida com propósitos”, afirma que a vida pode ser conduzida por várias tendências do coração: Ansiedade, medo, desejos, cobiça e culpa. O que dirige nossa vida? Os irmãos de José eram dirigidos pela lembrança dura da memória de um ato perverso e cruel praticado no passado. Quantas pessoas são dirigidas da mesma forma em nossos dias? Quantas almas atormentadas pela acusação, medo, culpa. Acossados por pecados não perdoados.

Como vencer a culpa?

Vivemos numa sociedade que encontra enorme dificuldade para resolver o problema da culpa, por uma razão muito estranha: Ela não tem conceito de pecado. Se o que faço não é pecado, nem transgressão, nem ofensa, então eu não posso me sentir culpado, afinal, trata-se de uma decisão pessoal de fazer aquilo que optei por fazer. Portanto, se faço algo, não há nada de errado no que fiz? É uma questão de opção individual, não de valores ou absolutos. No entanto, a bíblia afirma, que mesmo os gentios, que não tem a lei de Deus como norma e preceito, não tendo um código de leis, ainda assim possuem a norma da lei escrita em seus corações, mutuamente acusando-se ou defendendo-se (Rm 2.14-16). Então, existe uma norma ou arquétipo do certo e errado na consciência humana, e o fato de negar o pecado, não quer dizer que ele não é real, nem os isenta da culpa. E aí reside o grande problema: Como encontrar perdão real, se não há culpa real. Só é possível ser perdoado, aquele que se sabe culpado.
Então, o primeiro passo para o perdão é a consciência do pecado. Quando afirmamos o pecado, ficamos sem defesa e corremos para o tribunal de Deus para sermos libertos. Se não sou pecador, porque preciso de libertação? Davi experimentou isto num nível interessante: “Enquanto calei os meus pecados, envelheceram meus ossos, porque a sua mãe pesava noite e dia sobre mim, e meu vigor se tornou em sequidão de estio” (Sl 32.3-5). Parece que ele tentou resolver esta questão da culpa deixando o tempo passar, ou ignorando sua situação, mas sua condição só se agravou, inclusive fisicamente. Em seguida, porém, declara: “Confessei-te o meu pecado, e a minha iniquidade não mais ocultei”(Sl 32.6). E só então, confrontado com sua vergonha e culpa, admitindo e reconhecendo o seu mal, experimentou o perdão. Na verdade, ele começa este Salmo fazendo uma afirmação de alegria: “Bem aventurado aquele cuja iniquidade é perdoado, cujo pecado é coberto”(Sl 32.1). Ele está celebrando a leveza e a liberdade que encontrou, quando entrou em contacto com o seu mal, reconheceu-o, e o apresentou a Deus.
Em Mc 6 vemos o rei Herodes consumido pela culpa. Ele havia mandado decapitar João Batista, num ato insano, irrefletido e no meio de uma festa. A Bíblia demonstra como este episódio da sua vida o aprisionou para sempre. Logo que Jesus começou seu ministério vierem relatar a Herodes sobre este homem com poderes especiais, e a reação dele demonstra a agonia e a presença dos seus fantasmas internos, a assombração estava ali presente: “É João, a quem eu mandei decapitar” (Mc 6.16).
A culpa é um poço sem fundo, tem o poder de causar um enorme buraco e não permite que a vítima faça qualquer coisa prazerosa. Ela é punitiva e impiedosa, por isto as neuroses e distúrbios psiquiátricos estão sempre associadas a culpa e auto punição. A Bíblia afirma: “O homem carregado do sangue de outro, fugirá até a cova. Ninguém o detenha” (Pv 28.17). Uma pessoa carregada de culpa é irrefreável, e seu ímpeto autodestrutivo vai se revelando na sua saúde, emoções e vida espiritual.
Pv 28.13 nos ensina: “O que encobre as suas transgressões jamais prosperará, mas o que as confessa e deixa, alcançará misericórdia”.
Culpa não se aplaca com paliativos de bondade e justiça própria. Não existem subterfúgios e esconderijos para aquele que não foi perdoado do seu pecado. Não se pode acobertar o mal. Culpa se resolve com desmascaramento, arrependimento e confissão. Tudo isto pode ser resumido numa palavra: Enfrentamento. Pecado não confessado destrói vidas, retira a alegria e a autoridade moral e espiritual. Pecado não confessado é a melhor arma de Satanás para retirar a alegria do coração. Culpa é o ingrediente que ele precisa para nos deprimir, gerar doenças emocionais e desequilibrar-nos.
Tenho um amigo muito especial, cujo pai, embora tivesse até assumido cargos na igreja, tinha sempre sobre sua vida uma sombra nebulosa de coisas mal explicadas. Muitas dúvidas e suspeitas pairavam sobre seu caráter e sua confusão tornou-se explícita embora nada de concreto tenha sido revelado e, talvez por isto, eventualmente se separou da esposa. Quando morreu, o seu filho parou em frente do caixão, contemplando a figura misteriosa do pai e começou a pensar consigo mesmo sobre quantos segredos ele estava levando para o túmulo, e quantas angústias e culpas corroeram sua alma, pelo fato de nunca ter lidado diretamente com sua dor e pecado.

O segundo passo, depois do enfrentamento, é a aceitação do perdão. Por isto Davi afirma: “Bem aventurado é o homem cujo pecado é perdoado”. Esta declaração é sobre a  sua própria situacao. Ele sabia o que estava falando, ele sabia quantas sombras pairavam sobre sua vida, até entrar em contacto com a maravilhosa libertação que o perdão de Deus traz à vida de um homem. Davi pode dizer: Estou livre! Ele não vê qualquer sentença condenatória contra sua vida, nem pecado ou crime a pagar. Isto envolve a compreensão do Evangelho e da graça de Deus.
Existem pessoas que tem culpa, mas não sentimento de culpa; existem outras com sentimento de culpa sem culpa. O evangelho nos fala de um Deus que é gracioso, misericordioso e perdoador. A carta de Paulo aos Romanos usa muitas vezes a expressão justificação. Poucos crentes entendem o significado desta frase. Justificação é uma declaração forense, termo jurídico, linguagem de tribunal, declaração de um juiz. Paulo afirma que “Justificados, pois, pela fé, temos paz com Deus” (Rm 5.1). A pessoa justificada é aquela que é declarada justa, diante de um tribunal, numa sentença dada por um juiz. Isto significa absolvição.
Paulo entende isto de forma muito profunda: “Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica”(Rm 8.33).
Quem foi perdoado por Deus está livre de qualquer condenação, porque o tribunal supremo e a declaração máxima de absolvição foi dada por Deus. Quem é assim justificado está livre da condenação do diabo, da consciência pesada de acusação dos outros, ou da própria consciência, já que o próprio Deus os justificou. Portanto, Quem os condenará? (Rm 8.34).
Para que o perdão fosse legitimo, um preço foi pago. Jesus assumiu o meu lugar no tribunal. Ele assume o meu lugar e toda a justiça que Deus precisava para punir meu estado deplorável de condenação, foi assumido por Jesus. “O castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras, fomos sarados”(Is 535).

Conclusão:

Deus providenciou o remédio para a culpa, não precisamos ser prisioneiros de nossos pecados e história de erros e graves falhas. Deus, o ofendido, resolveu nos absolver por meio de seu Filho que voluntariamente se entregou por nós. Nós, os ofensores, fomos perdoados. Deus providenciou o remédio: a cruz!
O homem não é capaz de purificar-se de sua culpa por si mesmo, nem aliviar a sua consciência. Ele precisa de Deus. Não existe outro caminho, a não ser enfrentamento, arrependimento e confissão.

Por que você precisa desta doença? O que está corroendo sua alma? Devorando-o por dentro? Que segredos e fantasmas você tem abrigado e que estão destruindo sua paz e alegria? Quanta ansiedade, medo de Deus, condenação da consciência culpada. Cristo Jesus veio para nos resgatar de nossas próprias trevas e nos dar vida em abundância. Se o Filho vos libertar, verdadeiramente seremos livres!

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