sábado, 15 de julho de 2023

Jz 5.1-12 Desperta Débora, Desperta!




 

 

Introdução

 

Este texto é inspirador para o momento particular que temos vivido na história.

 

Algumas estatísticas são alarmantes:

 

A taxa de divórcio entre membros de igreja é a mesma de pessoas descrentes; a vida sexual dos jovens crentes pouco difere dos jovens descrentes.

 

Nos EUA, 80% dos filhos saem da igreja na época da universidade, e eventualmente 20% destes retornam para os caminhos do Senhor. 60% se distanciam do Senhor.


Desde o ano 2000, temos a chamada Geração Z, que para muito é uma geração de zumbis. São menos educados, mais deprimidos e sem valores, perderam seus valores e a esperança que, tradicionalmente, formaram a base ética da sociedade. É a geração que adotou um estilo de vida solitário, hiper conectado tecnologicamente, mas distanciado de seus familiares, igrejas e comunidades.

 

As estatísticas são alarmantes: a depressão aumentou 63% nos adolescentes e o suicídio 56% entre 2007 e 2017. Tragicamente, neste período, o suicídio tornou-se a segunda causa de morte entre os jovens. Para Jeremy Adams, a dissolução familiar e o grande aumento do divórcio foram os responsáveis.

 

Famílias que fazem pelo menos uma refeição com todos juntos têm número menor de jovens fumantes, de jovens que usam álcool e drogas. O mesmo vale para as desordens alimentares e atividade sexual precoce. Para ele, os adolescentes que jantam sozinhos, colocam seu foco não na família, mas no celular. “A negligência da vida familiar é a maior responsável por trazer a sensação de vazio não somente aos estudantes, mas também à vida do povo americano em geral.”

 

Adams ainda analisa que um dos grandes problemas também tem sido a falta de vida espiritual. Em 1984, apenas 2% dos americanos se identificavam como ateus, mas em 2020, o número saltou para 22%. A religião foi substituída por uma “massiva cultura de banalidade, conformidade e autoindulgência.”

 

Outro fator presente é a obsessão tecnológica. Em 1970, mais de 50% dos estudantes do ensino médio tinham relacionamento diário com seus amigos, mas, em 2020, este número caiu para 33%. Atividades sociais como um jogo de futebol e demais esportes coletivos foram substituídos pelos “streamings”.

 

Este texto nos descreve o olhar de uma mãe. Temos aqui um cântico de louvor de Débora, profetisa e juíza sobre Israel. Ela julgava a nação no dia dos juízes, era uma mulher de personalidade carismática, e todos os filhos de Israel iam até o lugar que ela atendia, debaixo de uma palmeira, e subiam a ela para que ela julgasse as questões.

 

Débora entoa este cântico, logo após a vitória que o povo de Deus teve sobre um adversário impiedoso que oprimia Israel já por vinte anos. É o brado de uma mulher corajosa, de uma guerreira, mas acima de tudo, de uma mãe, que não se conforma em ver os filhos da sua nação sendo destruídos pelo inimigo e se apostatando da fé.

 

Três percepções dirigem Débora.

 

A primeira, que há um Deus que se move na história – Jz 5.4-5

 

Saindo tu, ó Senhor, de Seir, marchando desde o campo de Edom, a terra estremeceu; os céus gotejaram, sim, até as nuvens gotejaram águas. Os montes vacilaram diante do Senhor, e até o Sinai, diante do Senhor, Deus de Israel.” (Jz 5.4-5)

 

Na primeira parte de seu cântico, ela evoca os atos de Deus no meio do seu povo.

 

Este exercício é fundamental para a fé. Se quisermos aquecer nossa fé, precisamos, antes de mais nada, lembrar os feitos de Deus. Jeremias faz isto diante do caos a que foi submetido Jerusalém depois da invasão da Babilônia: “Quero trazer à memória, o que me pode dar esperança”. Precisamos resgatar a memória e considerar os atos poderosos de Deus em nossas vidas. Quando esquecemos do que Deus já fez, temos dificuldade de manter a esperança no que Deus fará.

 

Francis Schaeffer escreveu um livro combatendo o secularismo, cujo interessante titulo é: “God is there and He is not silent” (Ele existe e não está calado), que foi traduzido para o português como “O Deus que se revela”. Schaeffer afirma que está mais certo da existência de Deus que de sua própria existência, e que só existe uma forma de termos esperança: “Contra o silêncio e o desespero do homem moderno, podemos conhecer o Deus que intervém porque ele se revela”.

 

No livro de Salmos, encontramos algumas vezes, os salmistas perplexos, porque perderam a capacidade de discernir Deus nos confusos eventos da história, ou mesmo nas suas crises pessoais. Quando isto acontece, a voz do diabo ecoa em nossos corações, fazendo enorme sentido e causando grande angústia. O que os inimigos diziam: “O teu Deus, onde está?” (Sl 42.3; 10).

No texto seguinte de Juízes, quando Deus diz a Gideão “O Senhor é contigo, homem valente.” (Jz 6.12). Gideão questiona a Deus dizendo que ele não está com eles. “é obvio que ele não está conosco, porque ele nos entregou aos midianitas em vez de nos livrar como fez aos nossos pais. ”Se o Senhor é conosco, por que nos sobreveio tudo isto?” (Jz 6.13). Gideão não está enxergando o mover de Deus na história do povo de Israel.

 

Algumas vezes, o clamor do salmista era quase de desespero, procurando enxergar Deus nos eventos da vida e não conseguindo: “Desperta! Por que dormes, Senhor? Desperta! Não nos rejeites para sempre! Porque escondes as face e te esqueces da nossa miséria e da nossa opressão?” (Sl 44.23-24). Nem sempre é fácil perceber Deus, mas é fundamental que nos lembremos quem Deus é e o que ele fez. Olhando o passado somos capazes de termos mais fé no futuro. Se Deus fez, ele pode fazer novamente.

 

Débora relembra que o Deus de Israel sempre esteve presente na história do seu povo. Que ele age na história, intervém na história, se move na história e acima de tudo, é Senhor da história. Isto gera ousadia na sua fé. Nossa esperança é encorajada pela lembrança dos atos de Deus.

 

Segunda percepção: Uma grave distorção histórica está acontecendo.

 

Débora afirma: “Escolheram deuses novos” (Jz 5.8). Algo grande está acontecendo porque a correta percepção de Deus se perdeu. A nova geração estava firmando sua vida em um novo conceito de divindade, e as distorções estavam destruindo a fé verdadeira.

 

Esfriamento da fé, heresias e apostasia são construídas numa grave distorção da divindade. Martinho Lutero afirma que se quebrarmos o primeiro mandamento, “não terás outros deuses diante de mim”, certamente será muito mais fácil quebrar os demais mandamentos. Quando perdemos a compreensão de quem Deus é, graves distorções se imiscuem na nossa espiritualidade.

 

O ateísmo nem sempre se constitui no maior problema, e sim a falsa compreensão de quem Deus é. Quem é o Deus das Escrituras Sagradas? Quem é o Deus bíblico? Quem é o Deus de Abraão, Isaque e Jacó, quem é o Deus de Jesus? A geração de Débora não deixou de crer em Deus, mas “escolheu deuses novos”. Criaram uma nova modalidade de divindade. Continuavam crendo mas em falsos deuses.

 

E a geração atual? Em quem temos colocado nossa confiança? Quais são os deuses do secularismo? Muitos anos atrás Caio Fábio escreveu um artigo afirmando que somos uma geração que desaprendeu a orar. Nossa confiança encontra-se nos recursos médicos, na nossa competência individual, no dinheiro e relacionamentos que construímos, mas pouco confiamos e dependemos de Deus.

 

A verdade é que, também escolhemos novos deuses.

 

Débora fez a leitura correta, porque quando lemos em Jz 2.10-12, encontramos o seguinte:

 

Depois que toda aquela geração foi reunida a seus antepassados, surgiu uma nova geração que não conhecia o Senhor e o que ele havia feito por Israel. Então os israelitas fizeram o que o Senhor reprova e prestaram culto aos baalins. Abandonaram o Senhor, o Deus dos seus antepassados, que os havia tirado do Egito, e seguiram e adoraram vários deuses dos povos ao seu redor, provocando a ira do Senhor.”

 

Mais adiante lemos:

“Os israelitas fizeram o que o Senhor reprova, pois esqueceram-se do Senhor seu Deus e prestaram culto aos baalins e aos postes sagrados” (Jz 3.7).

 

Ao mudar a percepção de quem Deus era, Israel mudou também seu estilo de vida. Teologia determina ética. Se em Jz 5.1-4 ela enfatiza o poderoso mover de Deus sobre a terra, causando impacto no seu movimento, no verso seguinte, ela percebe uma ruptura:

 

Nos dias de Sangar, filho de Anate, nos dias de Jael, cessaram as caravanas” (Jz 5.6).

 

Alguma coisa mudou, houve uma quebra. As caravanas cessaram. Todo o movimento, o comércio, a economia, a agricultura, as pessoas indo e vindo, tudo isto cessou. As pessoas agora estão ressabiadas, encolhidas, escondidas.

 

A seguir ela faz outra declaração:

Ficaram desertas as aldeias em Israel, repousaram” (Jz 5.7).

 

É fácil perceber nestas palavras, um tom de perplexidade e insegurança. Sob ameaça, as pessoas tentavam encontrar refúgios em lugares mais seguros. As aldeias são as partes mais frágeis, não tinham exércitos, nem muralhas, e eram alvos fáceis dos inimigos, e eles agora buscavam um lugar onde pudessem proteger suas famílias, indo para zonas inóspitas, cavernas, ou tentando se proteger onde havia muralhas.

 

Olhando para a geração atual, não nos atinge certo sentimento de que falta vitalidade espiritual na juventude? Tantos jovens apáticos espiritualmente, casais fragilizados, vida sem compromisso com o Senhor, novos deuses substituindo o Deus verdadeiro. Começamos a ficar saudosista, lembrando como os jovens tinham sede por santidade, vida de oração, estudo da palavra...

 

Será que a nova geração está escolhendo novos deuses?

 

Terceira percepção: Algo deve ser feito, e eu assumo a responsabilidade.

 

Até que eu, Débora, me levantei.

Levantei-me por mãe em Israel” (Jz 5.7)

 

Alguns princípios podem ser extraídos desta atitude de Débora:

 

A.    Ela deixou de olhar resignadamente a situação. Saiu de uma situação de passividade para a posição de reação. “Levanta-te Débora, levanta!”

 

Resignação é a atitude de quem olha e diz: “Não tem jeito mesmo, né?”, ou “os tempos mudaram, nada pode ser feito”.

 

Para Débora, não tem que ser assim. A situação caótica não a imobiliza, mas gera reação e ímpeto para a luta. No versículo 16 vemos sua provocativa indagação:

 

Por que ficaste entre os currais para ouvires a flauta?” (Jz 5.16)

 

Débora não consegue entender a passividade de gente que fica tocando flauta, quando a ameaça está presente. De gente apática quando a vida exige postura. Recordo-me de uma música de Chico Buarque que diz: “Eu bem que mostrei a ela. O tempo passou na janela. Só Carolina não viu”.

 

Tenho a impressão de que muitos estão resignados, sem esperança. Por isto estão impotentes para orar e clamar. Temos sido neutralizados na oração, não temos disposição para pagar o preço. As coisas vão de mal a pior, mas não reagimos. Nossos filhos se afastam do temor do Senhor, mas não intercedemos por eles.

 

Ela olha para a situação e se vê responsável. Algo pode e deve ser feito. É fácil se justificar e buscar bodes expiatórios para a calamidade, quando as coisas vão mal. É fácil culpar a modernidade, a mídia, a cultura atual, o sistema.

 

Débora não coloca a culpa em ninguém. Ela simplesmente diz: Algo precisa ser feito, então decidiu: “Levantei-me por mãe em Israel” (Jz 5.7).

 

B.    Débora assume posição – “Até que me levantei como mãe!” (Jz 5.7).

 

É como se ele dissesse: “Este negócio tem a ver comigo!”

Por isto diz:

 

Desperta, Débora, desperta.

Desperta, acorda, entoa um cântico” (Jz 5.12).

 

Ela está tentando sacudir a si mesma. Sua dormência pode ser fatal.

Quando minha filha era pequena, fomos fazer uma viagem de ônibus. Além dela tínhamos o Matheus que era um bebê e as malas. Na rodoviária a situação era complicada. Não dava para carregá-la, ela precisava andar com suas perninhas. Então, sendo cobrada para que cooperasse, sonolenta ela disse: “Estou acordada, meus olhos é que não conseguem abrir”.

 

Em Ezequiel 22, temos um dos textos mais pesados das Escrituras Sagradas, quando Deus compara o seu povo a uma prostituta. Os termos são graves, até que Deus, no final, depois de descrever a confusa e caótica condição do seu povo, afirma:

 

Busquei entre eles um homem que tapasse o muro e se colocasse na brecha perante mim, a favor desta terra, para que eu não a destruísse, mas a ninguém achei” (Ez 22.30).

 

Deus espera que nos coloquemos na brecha.

Precisamos acordar. Despertar do sono e da indolência moral e espiritual.

 

No meio deste cântico, Débora ainda faz outra afirmação desafiadora:

 

Avante, ó minha alma, firme!” (Jz 5.21)

 

É como se Débora quisesse dizer a si mesma que ela precisava manter a alma alerta, que não poderia afrouxar, nem perder a esperança. Sua alma precisava estava firme.

 

C.     Débora não assume responsabilidade apenas por sua casa, mas assume uma função comunitária.

 

Ela diz:

Levantei-me por mãe em Israel.” (Jz 5.7)

 

Não era uma questão de interceder apenas pela sua casa, mas de ter um olhar mais abrangente em suas orações. Infelizmente nossas orações são muito autocentradas, focadas apenas na nossa dor, pensando apenas no problema de nossa família, nas necessidades pessoais que temos. São orações intimistas, personalizadas, mas que não conseguem ver o cenário completo, e lutar em oração por temas mais amplos.

 

Precisamos de orações mais abrangentes, que tangenciem situações que vão além das necessidades imediatas que temos. Precisamos de orações pela comunidade, escolas, governo, famílias, lares. Lamentavelmente oramos pouco e oramos mal. Narcisisticamente.

 

Débora se vê numa função de mãe para Israel, para sua nação, para sua igreja, para o povo de Deus.

 

Conclusão

 

Tentando trazer algumas aplicações para o que lemos:

 

1.     Apesar deste cântico ser de uma mulher, é importante lembrar que a situação de Israel tinha chegado onde chegou, porque os homens não tinham coragem de assumir posição.

 

Leia o contexto deste cântico para entender o que estava acontecendo...

No capitulo 4 de Juízes, Israel está sendo sistematicamente assolado por invasões dos canaanitas. O povo de Deus estava vivendo uma situação miserável. Aparentemente era impossível lutar contra um exército que tinha um grande poder bélico, com 900 carros de ferro, armamento pesado (Jz 4.3).

 

Em Israel ninguém ousava assumir uma frente de oposição. Então Deus levanta Débora. Ela chama Baraque e lhe dá uma palavra profética. Ele deveria enfrentar o exército inimigo porque Deus lhe daria vitória. Apesar de uma profecia direta, Baraque é um líder inseguro e diz que só iria, se Débora fosse com ele. Débora disse que iria, mas ele precisava saber que a glória da vitória não seria dele, mas sim, de uma mulher. E foi o que aconteceu.

 

Este é um grande desafio para os homens de hoje.

Precisamos de homens de coragem para liderar, aceitar a incumbência de confiar em Deus e se levantar. Por ausência de homens de coragem, Deus levanta uma mulher de fibra para enfrentar o caos.

 

2.     O texto fala-nos de três mulheres que se tornam centrais nesta narrativa: Débora, Jael e a mãe de Sísera. Por falta de tempo, não falaremos de Jael.

 

Mas quem é esta outra mulher?

Ela é mãe de Sísera, o comandante do exército inimigo que é derrotado.

 

O que esta mulher fez?

A descrição do texto é patética sobre ela:

 

"Pela janela olhava a mãe de Sísera; atrás da grade ela exclamava: ‘Por que o seu carro se demora tanto? Por que custa a chegar o ruído de seus carros? (Jz 5.28).

 

Ela assume um papel coadjuvante. Está por detrás, passiva, resignada, enquanto seu filho está sendo derrotado. A notícia trágica da morte de seu filho chegará em breve. Seria morto, de forma humilhante, por uma mulher. Juízes 9.54 mostra Abimeleque pedindo ao seu escudeiro para que lhe matasse para que as pessoas não dissessem depois que uma mulher o havia matado.

 

Por outro lado, vemos Débora, se levantando como guerreira, clamando e agindo. Assumindo posição de coragem e enfrentamento.

 

O resultado da atitude de Débora?

 

...E a terra ficou em paz quarenta anos” (Jz 5.31)

 

3.     A atitude de Débora traz graça não apenas para sua geração, mas atinge a próxima geração e a sociedade como um todo.

 

O último versículo do capítulo 5 encerra da seguinte forma:

 

...E a terra ficou em paz quarenta anos” (Jz 5.31)

 

Débora impactou não apenas a condição imediata do povo, mas impactou gerações. Sua atitude gerou quarenta anos de paz para Israel. O que fazemos hoje pode trazer resultados duradouros para as novas gerações. Nossa coragem e atitude determina como nossos filhos viverão, por longos anos. O evangelho de Cristo tem promessas não apenas para a minha geração, mas para outras gerações. Quando afirmo: “Eu e minha casa serviremos ao Senhor”, estou dizendo que minha família estará aos pés do Senhor, meus filhos não serão escravizados pelo pecado e pelo diabo. Somos libertos dos poderes dos outros deuses falsos.

 

Débora impactou não apenas sua família, mas atingiu outras famílias. Todas as vezes que decidimos orar e agir, precisamos lembrar que os nossos atos possuem um efeito maior. Nossas ações tem implicações maiores. Podem influenciar uma sociedade como todo.

 

4.     Não podemos nunca, entender a relação de todas estas verdades sem olharmos para a natureza do evangelho.

 

Uma das coisas maravilhosas que aprendemos na Bíblia é que a glória pertence ao Senhor.

 

Quando lemos as narrativas de grandes heróis bíblicos, podemos equivocadamente acreditar que tudo é questão de auto estima pessoal, afinal, Débora era uma mulher resolvida e forte, por isto as coisas aconteceram assim. Quando fazemos isto, onde colocamos a ênfase? No poder do homem, e não de Deus. Esta é uma ênfase antropocêntrica.

 

O povo de Deus não poderia vencer os canaanitas. Eles eram impotentes diante de tão grande exército. Débora sabe disto: “Porventura, o Senhor, Deus de Israel, não deu ordem?” (Jz 5.6) ...”E o darei nas tuas mãos...” (Jz 4.7). Esta guerra não é conquista de homens, mas obra de Deus.

 

Podemos ainda acreditar, que este texto é de auto ajuda. Do tipo que diz: “Se você fizer como Débora fez, você conseguirá qualquer coisa”. Mais uma vez, esta leitura está centrada na capacidade do homem, e não no poder de Deus. Podemos ainda acreditar que basta erguer a voz, fazer algumas declarações de guerra:” Desperta Débora, Desperta!” e tudo que quisermos será nosso. Esta é a hermenêutica equivocada que a teologia da prosperidade tem feito, trazendo grandes frustrações.

 

Precisamos lembrar que “A glória pertence ao Senhor!”. É ele que faz. Somos frágeis instrumentos. Quando olhamos atentamente o Evangelho lemos o seguinte: “A nossa suficiência vem de Deus!” (2 Co 3.5)

 

Como podemos obter vitória contra o secularismo, o mundanismo, contra os poderosos sistemas que oprimem o povo de Deus, contra os bem armados exércitos que subjugam a igreja? Vamos lutar baseados em nossa competência e poder, ou lutaremos em nome do Senhor dos Exércitos?

 

Olhe para seu coração: pessimista, cético, carregado de dúvidas, frio. Sua vida marcada pela acomodação, prazer, entretenimento. Como você vai vencer a futilidade do seu próprio coração pecaminoso, vaidoso, orgulhoso, ensimesmado?

 

Precisamos crer, não em nós, mas em Deus. Não nos nossos esforços, mas no poder do Espírito Santo. Precisamos crer no poder do Evangelho, no sangue de Cristo que nos liberta da condenação e nos capacita a lutar contra nossa natureza deprimida e desanimada.

 

Não podemos colocar nossos olhos em Débora, nem em Jael.

Nossos olhos devem ser colocados no Deus que dirige a vida de Jael e Débora.

 

Este Deus é quem nos capacita a grandes vitórias.

A grande vitória do povo de Deus não se dá por causa da competência que temos em nós, pelo contrário, “não que, por nós mesmos, sejamos capazes de pensar alguma coisa, como se partisse de nós; pelo contrário, a nossa suficiência vem de Deus.” (2 Co 3.5) A Bíblia nunca coloca a salvação no homem, porque é Deus quem faz. O Antigo Testamento, da mesma forma tenta demonstrar que Deus, e apenas ele, pode nos conceder a vitória.

 

A vitória que temos é a vitória de Cristo. “Graças porém a Deus, que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo.”(1 Co 15.57) O Evangelho nos convida a desistirmos de nós mesmos e colocarmos confiança em Deus. Temos enfatizado demais nossa moral, nossa justiça própria, nosso caráter. Pessoas assim terão muita dificuldade em entender o que Deus fez por nós através de Jesus. A cruz é o veredito de Deus sobre o nosso fracasso. Ele colocou Jesus em nosso lugar porque nossos méritos são insuficientes. A salvação pertence a Deus, e unicamente a Deus.

 

 


Jz 6.1-24 Quebrando o ciclo da Desesperança

 






 

 

 

Introdução

 

O Livro de Juízes narra um dos períodos mais tristes da história do povo de Deus. Moisés conseguiu fazer seu substituto, mas depois de Josué, a situação em Israel ficou sem diretriz. A frase que percorre o livro de Juízes é: “Naqueles tempos não havia rei em Israel. Cada um fazia o que queria.”

 

O povo de Deus perdeu a referência do sagrado. A influência dos deuses canaanitas pagãos, foi se tornando cada vez mais complicada. Sem uma referência correta de divindade, a ética se torna frouxa. O livro de Juízes termina com uma guerra civil, depois de uma das tragédias mais brutais em toda a Bíblia Sagrada, que começa com um estupro coletivo e a morte da mulher do levita à morte, a reação enfurecida do marido esquartejando sua mulher, uma guerra civil que praticamente acaba com a tribo de Benjamin, e moças sendo sequestradas para servirem de esposas a esta tribo fragmentada. Todo o horror de uma nação sem Deus, sem direção e sem rumo se revelando na desordem deste patético quadro espiritual e social.

 

Nos dias de Gideão, o povo de Israel vive uma situação de completa desesperança histórica. Uma nação sob o signo da opressão. Entre os povos vizinhos de Israel estavam os midianitas. Se você acha que no Rio de Janeiro é que brotou o fenômeno do arrastão, quando assaltantes chegam em grande número saqueando todas as pessoas, é porque você ainda não leu o livro de Juízes. Os midianitas faziam as mesmas coisas.

 

Eles não trabalhavam. Ficavam o ano inteiro aguardando a época da colheita. E quando os judeus armazenavam a comida, eles vinham em bandos e roubavam tudo que podia. Os judeus então desenvolveram técnicas: colocavam os sacos de trigo, o vinho, a cevada, e o azeite, nas cavernas das montanhas, para que os bandidos não roubassem. Um episódio que mostra a sensação de insegurança, encontra-se em Jz 6.11 quando vemos Gideão malhando trigo no lagar. Lagar é um tanque de espremer uvas mas ele está neste lugar para se esconder e não chamar a atenção dos midianitas. Lagar é o lugar para pisar a uva, não malhar o trigo. Era uma forma de proteger sua colheita que era sistematicamente saqueada. E mais um detalhe: Eles não tinham a quem recorrer.

 

Neste cenário de depressão e insegurança política e histórica, Deus chama Gideão para libertar o seu povo. Se você acha que Gideão é um herói, repense. Na verdade, ele é inseguro emocionalmente, sua fé era frágil, pedindo a Deus provas o tempo inteiro, autoestima beirando a zero. Este texto nos mostra que quando Deus quer fazer algo, ele vai usar os instrumentos mais inesperados para realizar sua obra.

 

O que aprendemos neste texto:

 

1.     Primeiro, como nossas percepções podem ser erradas sobre o que acontece com nossa vida.

 

Então, o Anjo do Senhor lhe apareceu e lhe disse: O Senhor é contigo, homem valente.” (Jz 6.12).

 

Deus faz duas afirmações, e Gideão não concorda com nenhuma delas: primeiro, que ele era homem valente. Ele tenta provar sua total impotência e falta de fé. Segundo, que Deus estava com ele. “Respondeu-lhe Gideão: Ai, senhor meu! Se o Senhor é conosco, por que nos sobreveio tudo isto? E que é feito de todas as suas maravilhas que nossos pais nos contaram, dizendo: Não nos fez o Senhor subir do Egito? Porém, agora, o Senhor nos desamparou e nos entregou nas mãos dos midianitas.” (Jz 6.13).

 

Gideão afirma que Deus não está com eles. “é obvio que ele não está conosco, porque ele nos entregou aos midianitas em vez de nos livrar como fez aos nossos pais.”

 

Nossas percepções sobre nós mesmos, sobre Deus a realidade nem sempre são muito claras e corretas. Deus o chama de valente. Ele não vê nada disto nele. Deus revela que não havia abandonado o povo, mas o povo havia abandonado o Senhor. As circunstâncias revelavam que a miséria do povo era provocada pela idolatria. Deus queria levar seu povo ao arrependimento. Não era Deus quem os havia abandonado, mas o povo que havia abandonado a Deus. Percebem como nossas percepções sobre Deus podem facilmente se distorcer?

 

Este é um erro muito comum em nossas vidas. Em geral vemos nossos problemas como evidência de que Deus não se importa conosco, em vez de indagar se havemos pecado contra ele ou como ele está trabalhando em tais situações para o nosso bem, para nos restaurar espiritualmente.

 

2.     Deus vê potencialidades onde Gideão não vê

 

Veja o relato:

Então, veio o Anjo do Senhor, e assentou-se debaixo do carvalho que está em Ofra, que pertencia a Joás, abiezrita; e Gideão, seu filho, estava malhando o trigo no lagar, para o pôr a salvo dos midianitas. Então, o Anjo do Senhor lhe apareceu e lhe disse: O Senhor é contigo, homem valente. Respondeu-lhe Gideão: Ai, senhor meu! Se o Senhor é conosco, por que nos sobreveio tudo isto? E que é feito de todas as suas maravilhas que nossos pais nos contaram, dizendo: Não nos fez o Senhor subir do Egito? Porém, agora, o Senhor nos desamparou e nos entregou nas mãos dos midianitas. Então, se virou o Senhor para ele e disse: Vai nessa tua força e livra Israel da mão dos midianitas; porventura, não te enviei eu? E ele lhe disse: Ai, Senhor meu! Com que livrarei Israel? Eis que a minha família é a mais pobre em Manassés, e eu, o menor na casa de meu pai. (Jz 6.14-15).

 

Podemos perceber claramente que Gideão não é exatamente um homem sólido emocionalmente, um líder nato. Isto é importante. A Bíblia não tem heróis, o herói é Jesus. Este texto nos demonstra com a graça de Deus pode pegar pessoas inseguras como Gideão, e usá-lo com poder e graça. “Temos este tesouro em vaso de barro para que a excelência seja de Deus e não de nós.” (1 Co 4.7) Deus dá tarefas a pessoas como nós e quer fazer sua obra em nós, através de nós, e a despeito de nós.

 

Gideão tem alguns problemas

 

  1. Sua baixa autoestima. Quando o anjo de Deus se manifesta, ele diz o seguinte: “Então, o Anjo do Senhor lhe apareceu e lhe disse: O Senhor é contigo, homem valente.” (Jz 6.12).

 

Provavelmente Gideão deve ter olhado para o lado e pensado: “Ele está falando comigo?” Mesmo estando sozinho no lagar.

 

Sua resposta é toda defensiva: “Respondeu-lhe Gideão: Ai, senhor meu! Se o Senhor é conosco, por que nos sobreveio tudo isto? E que é feito de todas as suas maravilhas que nossos pais nos contaram.” (Jz 6.13) Não é uma resposta de fé. É uma resposta de abandono e insegurança. Nossas experiências, eventualmente de fracassos, nos fazem pensar aquém de nós mesmos. Não conseguimos ver nosso valor e a graça de Deus sobre nossas vidas.

 

  1. Ele vem de uma família sem expressão social: “E ele lhe disse: Ai, Senhor meu! Com que livrarei Israel? Eis que a minha família é a mais pobre em Manassés, e eu, o menor na casa de meu pai.” (Jz 6.15) Provavelmente o que ele estava dizendo fosse perto da verdade, mas seu pai tinha posses. Não era um homem tão pobre assim. Isto mostra que, a forma como nos vemos, nem sempre é aquilo que realmente somos. Podemos pensar mais ou menos do que realmente somos.

 

  1. Gideão tem uma fé insegura. “Ele respondeu: Se, agora, achei mercê diante dos teus olhos...” (Jz 6.17).

 

Gideão está sempre querendo sinais para crer. Este não é o tipo de fé bíblica. A Bíblia afirma que “Abraão, esperando contra a esperança, creu, para vir a ser pai de muitas nações, segundo lhe fora dito: Assim será a tua descendência.” (Rm 4.18) A fé bíblica muitas vezes nos desafia a crer contra a esperança e continuar crendo, mesmo quando tudo for contra. Gideão crer provas, sinais. Assim se deu com Dídimo: “Se eu não vir as suas mãos e não tocar do seu lado.” O que Jesus lhe disse? “Por que viste, crestes? Bem-aventurado os que não viram e creram.” A fé bíblica não é uma fé que vê para crer, mas uma fé que mesmo não vendo, continua crendo.

 

Você pode até questionar a Deus, mas renda-se as evidências de sua revelação. Gideão vai seguir neste ciclo de querer sinais. Quando Deus lhe diz: “O Senhor é contigo homem valente” (Jz 6.13), ele responde: “Ah, Senhor!!!” quando Deus lhe ordena: “Vai nesta tua força” ele novamente dirá “Ai meu Senhor...” (Jz 6.14).

 

Para que saibamos o tamanho da fé de Gideão, ele pede três sinais:

 

·       Espere até que eu volte. “Ele respondeu: Se, agora, achei mercê diante dos teus olhos, dá-me um sinal de que és tu, Senhor, que me falas. Rogo-te que daqui não te apartes até que eu volte, e traga a minha oferta, e a deponha perante ti.” (Jz 6.17,18)

 

·       Terra seca, lã molhada. “Disse Gideão a Deus: Se hás de livrar a Israel por meu intermédio, como disseste, eis que eu porei uma porção de lã na eira; se o orvalho estiver somente nela, e seca a terra ao redor, então, conhecerei que hás de livrar Israel por meu intermédio, como disseste.” (Jz 6.36-37)

 

·       Lã seca, terra molhada. “Disse mais Gideão: Não se acenda contra mim a tua ira, se ainda falar só esta vez; rogo-te que mais esta vez me faça a prova com a lã; que só a lã esteja seca, e na terra ao redor haja orvalho. E Deus assim o fez naquela noite, pois só a lã estava seca, e sobre a terra ao redor havia orvalho.” (Jz 6.39,40)

 

O problema de Gideão é que ele não consegue romper o ciclo repetitivo de questionar a Deus, argumentar com ele. Há muitas pessoas que vivem assim. Este tipo de fé é frágil. Deus não tem que dar sinal para confirmar que ele é Deus. A ordem da Palavra é para que creiamos. Caso contrário, vai acontecer conosco o mesmo que aconteceu com Balaão, o feiticeiro. Até a mula percebe as coisas espirituais, mas ele vai tropeçando sobre as evidências e sofrendo as consequências. Só Deus para suportar nossa vida de incredulidade constante.

 

A história de Gideão nos mostra que Deus pode usar pessoas com fé frágil, para seu propósito.  Deus vê potencialidade em pessoas, como nós. Não é surpreendente? Esta é a evidência da graça. Ela triunfa sobre nossas limitações.

 

3.     Antes de dar liberdade sobre os midianitas, Deus pede a Gideão para quebrar os ídolos da sua casa.

 

Este relato se encontra em Jz 6.25-40: “Naquela mesma noite, lhe disse o Senhor: Toma um boi que pertence a teu pai, a saber, o segundo boi de sete anos, e derriba o altar de Baal que é de teu pai, e corta o poste-ídolo que está junto ao altar.” (Jz 6.25)

 

A primeira tarefa de Gideão foi destruir o altar de Baal e derrubar o poste-ídolo de Aserá que pertencia a seu pai, e construir um altar ao Senhor no lugar onde ficavam os ídolos.

 

Logo de manhã, os homens da cidade viram que o altar de Baal estava destruído e descobriram que o responsável era Gideão, e o procuraram para matá-lo. Deus, porém já havia levado seu pai a entender que os ídolos, de fato, nada mais são que obra dos homens, e ele disse que se Baal fosse realmente deus, ele mesmo teria se defendido quando o altar foi destruído. Muitas vezes temos dificuldade de destruir nossos ídolos porque achamos que eles nos protegem, mas quando os destruímos verificamos que eles nada mais são que ídolos, apenas isto.

 

Destruir os ídolos não é uma tarefa fácil. Destruir os ídolos familiares é um desafio ainda maior. Muitas vezes queremos vitória, mas alimentando os ídolos do coração. Tim Keller observa que “os israelitas não trocaram o culto a Deus pelo culto aos ídolos. Eles combinaram o culto a Deus com o culto aos ídolos. Cultuavam a Deus formalmente, porém a vida deles girava em torno dos deuses da agricultura (para os lavradores) ou do comércio (para os negociantes) ou do sexo e beleza, e assim por diante.” (Juízes para hoje, pg 81)

 

Michael Wilcock escreveu:

“os deuses não mudaram, pois, a natureza humana não mudou, e esses são os deuses que a humanidade sempre recria para si mesma. O que as pessoas desejam? As mais modestas buscam segurança, conforto e diversão módica; as mais ambiciosas procuram poder, riqueza e autoindulgência desenfreada. Em qualquer época existem forças que prometem satisfazer nossos desejos – sejam elas programas políticos, teorias econômicas, opções profissionais, filosofias, opções de estilo de vida, programas de entretenimento - e todas tem uma característica comum. Prometem melhorar a nossa vida além do que conseguiríamos por nós mesmos, contudo, ao mesmo tempo, parecem abertas à nossa manipulação, de modo que alcancemos nossos desejos sem perder a independência (...) este é o inimigo entre nós, afirmamos adorar a Deus (...) porém o mundo se insinuou em nosso coração e o controla.”

 

4.     Deus vê possibilidades nas circunstâncias adversas.

Tornou-lhe o Senhor: Já que eu estou contigo, ferirás os midianitas como se fossem um só homem.” (Jz 6.16)

 

Deus diz: você em gente demais! Os dois exércitos estavam acampados um perto do outro. A batalha se aproxima e é de imaginar que Israel precise de todo seu poderio militar para vencer o inimigo, mas Deus dá ordens para que de 32 mil homens, fique apenas 300. Não encontraremos situação semelhante em nenhum manual de guerra.

 

Mais uma vez precisamos entender de quem é a força.

Para que Israel não se orgulhe contra mim, dizendo que sua força o libertou.” (Jz 7.2)

 

O que Deus quer que entendamos é “porque estou contigo, ferirás.” Ou o povo exaltaria a si mesmo ou a Deus. A glória, o poder, a força e a vitória vem de Deus. Em nenhum momento a Bíblia coloca a ênfase em Gideão. Ele é apenas instrumento. É Deus quem faz. Não há neste homem qualquer condições de obter vitória, mas Deus afirma que ele feriria os midianitas como se fossem um só homem. Naquela guerra o frágil e incrédulo Gideão, com apenas 300 homens, teria vitória tremenda e caíram 120 mil homens à espada. (Jz 8.10) E o detalhe mais importante: Eles não lutaram, eles só obedeceram. A luta foi de Deus. Quando lutamos, nós lutamos; mas quando é Deus quem luta, a vitória é certa. Precisamos lutar menos e deixar Deus lutar mais as nossas causas.

 

Este texto nos ajuda a entender que precisamos desenvolver dependência de Deus. É ele quem faz. Ele luta nossas lutas. Gideão não é suficientemente forte em si mesmo, ele está certo ao afirmar que não conseguiria libertar Israel com sua força. Não há perigo maior do que acharmos que podemos nos salvar, ou fazer as coisas por nós mesmos. A salvação é ato exclusivo de Deus, não somos salvos por causa de nossas condições morais, financeiras, sociais ou espirituais.

 

Dois usa dois métodos para diminuir o exército. Primeiro, aqueles que forem medrosos deveriam voltar para casa (Jz 7.3). De 32 mil, 22 mil voltaram neste primeiro critério. Gente medrosa desanima outros e fragiliza a fé dos outros. O medo é contagioso. Esta foi uma triagem psicológica. O segundo grupo voltou por razões mais obscuras. Aquele que levasse a boca a água ao invés de pegar a água com a mão não poderia seguir. Nenhum comentarista já explicou de forma lúcida se este critério de Deus possui alguma razão lógica. O fato é que apenas 1% do grupo original ficou.

 

Gideão demorou a entender a mensagem: Deus queria que ele colocasse nele a sua confiança.   Ele recebe de Deus uma direção para crer que algo poderia ser realizado apenas se Deus estivesse no controle. Lutar com apenas 300 homens contra uma multidão como a areia do mar é uma luta desigual.

 

A estratégia de Deus é improvável. Cada um dos trezentos homens ficaria com uma trombeta e um jarro de barro e com uma tocha. Vencer aquele enorme exército dos midianitas seria um completo exercício de fé em Deus. Todos tocariam as trombetas e quebrariam os jarros ao redor do arraial gerando um barulho imenso. Foi assim que fizeram. Os midianitas se assustaram e fugiram, e na escuridão não foram capazes de entender a confusão e mataram uns aos outros por acharem que eram seus inimigos.

 

Gideão demonstra fé profunda ao confiar em Deus e não em números. Essa é a fé que o levará a ser exaltado na galeria dos heróis da fé (Hb 11.32-34). Quando Gideão venceu, ele sabia que a glória era de Deus, não dele. Sua função foi apenas confiar em Deus. É exatamente isto que acontece no evangelho. “A obra de Deus é esta, que creiais naquele que por ele foi enviado.”(Jo 6.29) Afinal, “é meu, somente meu, todo o trabalho. E o seu trabalho é confiar em mim.” Israel sabia que seu exército seria incapaz de vencer, e a vitória teria de vir do Senhor. A obra é de Deus. É nosso privilégio participar da obra que Deus está fazendo, sendo instrumentos nas suas mãos.

 

Somos fracos, Deus é poderoso. Quando somos fracos é que somos fortes. “Deus não trabalha apesar da nossa fraqueza, mas por causa dela.” (Keller) Este é o princípio e a base do Evangelho. Não somos salvos se acharmos que somos bons ou aptos, mas quando admitimos a falta de méritos e colocamos nossa confiança no que Deus pode fazer. Por isto a Bíblia afirma várias vezes que “a salvação vem de Deus.” Nossa segurança, valor e vitória encontra-se em Deus.

 

Conclusão

 

Tim Keller, no seu livro “Juízes para você” analisa a narrativa de Gideão em dois capítulos. No capítulo 5 ele intitula: “Gideão, o poderoso guerreiro fraco.” No capítulo 6 “Gideão: Triunfo na fraqueza.”

 

Gideão não figura na galeria dos heróis da Bíblia por acaso. Os heróis da Bíblia são frágeis, inseguros, impotentes, mas o que marca cada um deles é sua fé. Gideão aprende a confiar. Na medida em que ele anda com Deus ele aprende a ousar e avançar. Ele depende cada vez menos dele e mais de Deus.

 

Este texto fala do triunfo da graça de Deus. Deus é quem faz todas as coisas, desafiando, encorajando e enviando alguém com um percepção tão frágil de si mesmo e tão equivocada sobre Deus a obter tão maravilhosa vitória.

 

 

 

 

 

 

Samuel Vieira

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