Introdução
Este texto causa estranheza. Jesus amaldiçoa a figueira por não ter frutos, mas não era tempo de frutos. Eu não posso cortar o pé de mangas em minha casa, se procuro frutos no mês de Maio e não encontro, afinal, na nossa região, as mangas produzem na época das chuvas, entre Novembro- Março. A figueira não tinha frutos, porque não era tempo de frutas, portanto, não havia nada de errado com a figueira. No entanto, Jesus a amaldiçoa e ela seca.
Ao lermos o texto nesta perspectiva, perdemos a essência da lição que Jesus queria deixar aos seus discípulos. A ênfase de Jesus não se encontra na figueira, e sim no poder da fé. Pedro comete o mesmo erro, porque no outro dia, ao ver a figueira seca, ele cita o incidente do dia anterior (vs 20,21), mas Jesus não dá ênfase nisto, antes volta para o cerne da lição que queria deixar: O Poder da Fé. (vs 22,23). A figueira, portanto, é apenas uma lição de objeto que Jesus utiliza para ensinar alguma coisa muito mais profunda.
Jesus procura ensinar aos seus discípulos alguns princípios maravilhosos sobre a Fé:
- Jesus ensina que a fé (algo imaterial) age sobre os elementos físicos (material) – Jesus aponta para o fato de que a fé tem o poder de materializar-se. “Fé é a certeza de coisas que se esperam e a convicção de fatos que se não vêem” (Hb 11.1). Uma tradução mais contemporânea afirma que “fé é a substância das coisas que se esperam”.
Por esta razão, a fé age em realidades secundárias, gerando transformações. Jesus afirma: “Porque em verdade vos afirmo que, se alguém disser a este monte: Ergue-te e lança-te no mar, e não duvidar no seu coração, mas crer que se fará o que diz, assim será com ele.” (Mc 11.23) É a fé se tornando concreta e agindo nos elementos físicos, gerando transformações e mudando realidades. Não se trata do poder da fé na fé, mas a fé colocada em Deus. Não é fé sem objeto.
Jesus afirma ainda: “Tudo quanto em oração pedirdes, crede que recebestes, e assim será convosco”. A fé se apossa de algo não existente, e isto se realiza. “Por isso, vos digo que tudo quanto em oração pedirdes, crede que recebestes, e será assim convosco” (Mc 11.24) Jesus não disse: “crendo, recebereis”, antes, “crede que recebestes”. A fé toma posse por antecipação de algo que ela espera.
O que distingue homens de fé é esta capacidade de materializar as coisas que ainda se encontram apenas no mundo das idéias.
Veja o exemplo de Abraão. Por que ele foi chamado Pai da Fé? Porque ao ouvir a palavra de Deus, ele se apossou desta verdade, e agiu baseado nesta promessa. “Abraão, esperando contra a esperança, creu, para vir a ser pai de muitas nações, segundo lhe fora dito: Assim será a sua descendência.” (Rm 4.18) Não havia nenhuma razão concreta para ele crer. Os fatos não estavam a seu favor. “E, sem enfraquecer na fé, embora levasse em conta o seu próprio corpo amortecido, sendo já de cem anos, e a idade avançada de Sara, não duvidou, por incredulidade, da promessa de Deus; mas pela fé, se fortaleceu, dando gloria a Deus.” (Rm 4.19-20) Ele sabia da realidade de seu corpo, já amortecido, entretanto, se assenhoreou do que Deus havia dito, e pela fé viu a promessa se concretizando em sua vida.
Existem duas variáveis perigosas todas as vezes que falamos sobre este assunto, e elas se refletem de forma direta nos púlpitos de nossas igrejas.
Por um lado, vemos um grupo que acha que as coisas dependem apenas delas, independentemente da vontade de Deus. E que elas decretam a Deus, e as coisas vão acontecer porque eles usaram a palavra de autoridade e porque crêem, as coisas se concretizam e milagres acontecem. O ministério Palavra da Fé, que teve em Bene Himm (americano) e Valnice Milhomens, (Brasil), usou e abusou deste conceito. Historicamente estas teorias não foram formuladas por pessoas cristãs, mas pela seita Ciência Cristã, fundada por Mary Bakker Eddy. Muitos líderes pentecostais enveredaram e propagaram estes princípios, incluindo ai o conhecido pregador coreano, David Yong Cho, no seu livro “A Quarta Dimensão”.
Deus é Soberano, e as coisas não acontecem porque eu decreto ou ordeno a Deus, mas porque curas e milagres fazem parte do proposito de Deus que nos abençoa com tais experiências. Não depende apenas do que ora, mas do plano de Deus em agir assim. Muitas pessoas não foram curadas em Israel nos dias de Jesus. Paulo não foi curado de uma enfermidade, embora tivesse pedido a Deus que removesse seu espinho na carne. (2 Co 12.1-6) Deus apenas lhe disse: “A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza”, e Paulo continuou doente, apesar de ter sido usado por Deus na cura de outras pessoas.
Por outro lado, pessoas que tem dificuldades de ousar na fé e exercitá-la. Esta atitude é muito comum entre os mais tradicionais. Tais pessoas temem orar por algo grande, colocam limitação ao poder de Deus e recuam quando existem grandes desafios, sem ousar em relação às dificuldades que surgem. Torna-se uma comunidade tímida, que poderia estar experimentando muito mais das bênçãos de Deus, pelo exercício e prática da fé simples (Hb 5.14) encorajada por Jesus a todos que se aproximavam dele, e especialmente neste texto, quando procura ensinar aos seus discípulos estas verdades.
Dois exemplos bíblicos me desafiam quanto a isto:
Primeiro, a experiência de Jacó relatada em Gn 32, que ao “lutar com Deus”, que teve a ousadia de dizer: “Eu não te deixarei se não me abençoares”. Parece-me uma atitude extremamente ousada para quem encontra-se numa relação com Deus, entretanto, a persistência e perseverança parecem ser a causa de sua vitória espiritual contra.
Outro exemplo é a parábola da viúva pobre, que recebe o que busca, por causa de sua insistência incômoda de não desistir de lutar por sua causa, mesmo tendo que lidar com um sistema injusto e com um juiz arrogante (Lc 18.1-8) Jesus conta esta parábola, no contexto de nossas orações. Será que realmente ele estava nos encorajando a orar e a buscar de Deus aquilo que é “justo” para nossa vida. Se assim não é, o que ele estaria sugerindo?
Ao estudar este texto, fiquei sobressaltado com meu coração, e orei a Deus: “Senhor, provavelmente nunca encontraremos o equilíbrio entre estas duas polaridades, mas não me deixe viver aquém de suas promessas, sem exercitar a minha fé”.
Rev Antonio Elias foi um avivalista da Igreja Presbiteriana do Brasil, abençoando por anos a igreja de Cristo e encorajando toda uma geração. Certa vez, um jovem pastor de Uberlândia o procurou, lamentando que estava orando por sua mãe há muitos anos, mas ela nunca se convertia. Então ele perguntou ao jovem: “Você realmente crê que Deus pode mudá-la?”. E ele respondeu de forma ambígua: “Às vezes sim, às vezes não!”. Então o Rev. Antonio Elias pediu que ele parasse de orar e pedisse a sua igreja para orar por ele. No mês seguinte, sua mãe se decidiu por Jesus.
2. Jesus ensina que a fé potencializa os recursos –
Muitas vezes temos poucas vitorias porque não exercemos esta potencialidade presente na fé. Vivemos uma fé pobre, sem ousadia, intrepidez e sem vermos manifestações de Deus em nossa vida, porque não cremos que Deus possa intervir na história.
George Muller foi um dos homens mais fascinantes na vida de oração. Ele tinha um grande orfanato em Bristol, Inglaterra, e conta-se que certa vez, ele não tinha o café da manhã para dar às crianças, mesmo assim, as colocou assentadas e agradeceram o alimento. Poucos minutos depois, alguém bateu na porta, era o leiteiro dizendo que não teria tempo hábil de entregar o leite na cidade e resolveu entregar no orfanato. Em seguida, o dono de uma padaria local, trouxe muitos pães, que segundo ele, haviam torrado um pouco e não serviam para serem comercializados, e ele resolveu trazê-los para o orfanato.
Meu sogro, Rev. Samuel José de Paula, estava construindo o templo em Registro-SP. Até que o prédio chegou num ponto em que precisava colocar as portas, porque senão, vândalos entrariam e danificariam a construção. Procurou um comerciante e comprou as portas, comprometendo-se a pagar numa data específica. O dinheiro esperado, porém, não aparecia e meu sogro, no dia marcado para o pagamento, foi até a loja e brincou com o dono dizendo que ainda não tinha o dinheiro, mas que o dia só acabava a meia noite. Uma mulher, amiga da família, estava viajando de carro de São Paulo para Curitiba e parou na cidade para visitarem meu sogro e sua esposa. Tomaram café, conversaram, e meu sogro nada falou de sua dificuldade, apenas compartilhou o projeto do templo. Na saída, aquela senhora resolveu deixar uma oferta, e preencheu um cheque com o valor exato da dívida que ele tinha com o japonês, Sr. Toyo Kenchi, dono daquela loja de construção.
- Fé exercitada gera temor e adoração – Em Mt 21.18-22 encontramos o texto correlato ao de Mc 11.12-14. em Mateus lemos: “Vendo isto, os discípulos admiravam-se.” (Mt 21.20). Experiência de fé gera espanto, admiração e louvor a Deus e geram profundo impacto em nosso coração.
Minha mãe estava ainda no início de sua vida crista, em Conceição do Ipanema-MG, pequena cidade interiorana quando uma conhecida veio aos prantos trazendo seu filho de 3 anos, com tétano, numa cidade que não tinha hospitais ou médicos, e a criança já apresentando espasmos. A única alternativa era a oração, e foi o que fizeram. Aos poucos a criança foi sendo restaurada saiu daquele quadro angustiante e foi curada.
Os discípulos estão espantados com a figueira, mas Jesus apenas utiliza a figueira para ensinar princípios muito mais profundos e duradouros: “Em verdade vos digo que, se tiverdes fé e não duvidardes, não somente fareis o que foi feito à figueira, mas até mesmo, se a este monte disseres: Ergue-te e lança-te ao mar, tal sucederá.” (Mt 21.21). Jesus ensina aos discípulos o poder da fé. Quando eles compreendem o que está acontecendo são tomados de adoração e admiração.
O que está acontecendo na sua vida que precisa de um milagre? Não estou falando de causas possíveis através da medicina e de seus recursos, mas realmente algo que, se Deus não intervir, você não obterá vitória? “...tudo quanto em oração pedirdes, crede que recebestes, e será assim convosco.” (Mc 11.24).
Pelo menos por 3 vezes na Bíblia, Deus fala com seus servos para não deixarem de crer e os desafia a crerem a despeito de qualquer evidência ou circunstância positiva, mesmo contra a esperança. (Rm 4.18)
Abraão
Numa destas ocasiões foi com Abraão. Sara já tinha 90 anos, e quando ouviu a notícia de que engravidaria, naturalmente riu, não de alegria, mas de incredulidade. O próprio Abraão riu tanto a ponto de colocar seu rosto em terra (Gn 17.17). o que Deus lhes disse? “Acaso, para o Senhor há cousa demasiadamente difícil para mim?” (Gn 18.14).
Moisés
Após a murmuração do povo no deserto, Deus prometeu que daria carne para 2 milhões de pessoas, não apenas um dia, mas um mês inteiro. Moisés esbarra na sua lógica administrativa. “Matar-se-ão para eles rebanhos de ovelhas e gados que lhe bastam ou se ajuntarão para eles todos os peixes do mar que lhe bastem?” (Nm 11.23) O que Deus responde: “Ter-se-ia encurtado a mão do Senhor?”(Nm 11.23).
Maria
Maria enfrenta a mesma situação, adolescente ainda, se preparando para o casamento, ouve a afirmação do anjo de que ela engravidaria. Sua lógica se antecipa: “como será isto, pois não tenho relação com homem algum?” (Mt 1.34) e Deus lhe responde: “Porque para Deus não haverá impossíveis em todas as suas promessas”.
Conclusão
A falta de fé impede milagres. A Bíblia afirma que em certas cidades Jesus não pode operar milagres por causa da sua incredulidade. Boa parte dos milagres que aconteciam às pessoas, Jesus os associava ao poder da fé.
==>Mulher hemorrágica – “E ele lhe disse: Filha, a tua fé te salvou; vai-te em paz e fica livre do teu mal.” (Mc 5.34).
==>Mulher Siro-fenícia – “Por causa desta palavra, podes ir; o demônio já saiu de tua filha.” (Mc 7.29)
==>Pai do menino possesso – “Se podes! Tudo é possível ao que crê!” (Mc 9.23)
==>O cego Bartimeu – “Então Jesus lhe disse: Que queres que eu te faça? Respondeu o cego: Mestre, que eu torne a ver. Então Jesus lhe disse: Vai, a tua fé te salvou. E imediatamente tornou a ver e seguia Jesus estrada fora” (Mc 10.51,52).
Você tem exercitado sua fé? Você crê que se fará o que diz, conforme afirma o texto de Mc 11.23:
“Porque em verdade vos afirmo que, se alguém disser a este monte: Ergue-te e lança-te no mar, e não duvidar no seu coração, mas crer que se fará o que diz, assim será com ele.” Você lê estas promessas racionalizando e se justificando, ou crendo?
Eu não tenho nenhuma dificuldade em entender o que este texto está nos ensinando, mas admito com grande tristeza a enorme dificuldade em colocar em prática tal verdade. Lembre-se que nosso pecado número 1 é a incredulidade. Os discípulos foram mais censurados pela falta de fé do que por qualquer outro pecado. Por isto Jesus estava sempre insistindo: “Não temas! Crê somente”.