Introdução
“Mulher, por que choras?” Essa pergunta é feita 2 vezes neste texto. Primeiramente pelos dois anjos e depois pelo próprio Senhor Jesus. Essa repetição no capítulo 20 de João não é mera coincidência literária; é um recurso dramático e teológico profundo. A "duplicidade" da pergunta oferece uma reflexão poderosa sobre a transição do luto para a esperança e sobre como a nossa percepção pode nos trair em momentos de crise.
A vida dá muitos motivos para chorar:
· Choramos por sofrimentos pessoais. Dores físicas. Conheci uma senhora muito querida, D. Julinda, que sofreu durante trinta e dois anos por uma enxaqueca interminável.
· Sofremos pela perda de entes queridos, lutos abruptos.
· Sofremos por ver o sofrimento de outros, dor causada pela empatia, quando nos entristecemos por ver a tristeza dos outros.
· Sofremos por escassez. Falta de recursos, desemprego, contas chegando pra pagar.
· Sofremos angústia, ansiedade, medo, depressão. Sofrimentos psiquiátricos e emocionais.
· Sofrimentos espirituais. Culpa, opressão satânica, pecados que cometemos.
· A Bíblia não é romântica, mas trata a vida com realismo. Jesus afirmou: “No mundo passais por aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo.” (Jo 16.33). Na carta aos Efésios, Paulo pede para que nos fortaleçamos para enfrentar “os dias maus”, que são inevitáveis.
O cenário deste texto lido é o jardim do sepulcro vazio. Maria está mergulhada em um luto que a impede de ver o que está diante de seus olhos. A pergunta repetida do texto neste texto: “Por que choras?” é extremamente relevante. As mulheres foram ao túmulo e não viram o Cristo ressurreto, apenas observaram que o corpo não estava ali. Por isso, correram para informar aos discípulos que algo estranho havia acontecido. (Jo 20.2) Enquanto algumas voltaram, Maria ficou sozinha chorando e teve uma visão de dois anjos dentro do túmulo, um na cabeceira e outro onde ficavam os pés de Jesus, que lhe perguntam: “Mulher por que choras?”
Maria não estava chorando por "falta de fé", mas por excesso de amor. Suas lágrimas tinham causa. Uma delas é a perda do objeto de amor: A morte levou seu Mestre. Assim fazemos: choramos porque as coisas que amamos são temporais. Talvez houvesse no seu coração a sensação de injustiça: "Levaram o meu Senhor". Até o direito de velar o corpo lhe fora roubado. É a dor da impotência diante do mal. Havia ainda o vazio do futuro: O sepulcro vazio para ela não era esperança, era o fim da última conexão que ela tinha. É o choro do "e agora?".
A vida nos ensina a "engolir o choro" ou a anestesiá-lo com distrações. Jesus faz o oposto: Ele para diante de Maria e pergunta o motivo. Ele dá dignidade às nossas lágrimas.
A pergunta é feita em dois níveis:
Primeiro, a pergunta dos anjos (Jo 20.13). No versículo 12, ela vê dois anjos sentados onde o corpo de Jesus estivera. Eles perguntam: "Mulher, por que choras?". Aqui, a pergunta funciona como um despertador para a realidade. Os anjos sabem algo que ela ainda não compreendeu: o motivo do choro (a morte) deixou de existir. É um convite para que ela olhe para além do túmulo vazio. Ela responde focada no que havia perdido: "Levaram o meu Senhor".
Segundo, a pergunta de Jesus (Jo 20.15). Maria se volta, vê Jesus, mas não o reconhece, confundindo-o com o jardineiro. Ele repete a mesma pergunta: "Mulher, por que choras?" mas acrescenta uma segunda: "A quem buscas?" Jesus não está apenas perguntando a causa da dor, mas o objeto do desejo. Ele a conduz de uma busca por um "corpo morto" (o quê) para o encontro com uma "pessoa viva" (Quem). Maria não reconheceu Jesus e pensou que fosse o jardineiro: “Senhor, se o tirou, diga-me onde você o colocou?”
A pergunta de Jesus ajuda a diagnosticar a dor, quer nos ajudar a entender o “porquê". Jesus pergunta: "Mulher, por que choras?". Note que Ele não diz "Pare de chorar". O choro se transforma em uma bússola: Jesus quer que Maria identifique a origem da dor para que possa encontrar a origem da cura. No nosso mundo, muitas vezes choramos pelas consequências, mas não olhamos para a causa. O choro de Maria era tão intenso que ela não reconheceu a vida à sua frente. A dor tem esse poder: ela cria uma parede de vidro entre nós e a solução. Jesus a confronta para que ela olhe além da lente embaçada.
Irmãos, imagine que você está saindo de um ambiente muito frio, com ar-condicionado forte, e caminha diretamente para o calor úmido de uma manhã de sol. Se você usa óculos, sabe exatamente o que acontece no segundo seguinte: a visão desaparece.
Suas lentes ficam instantaneamente foscas, tomadas por uma névoa branca. Você está diante de uma paisagem linda, o sol está brilhando, as flores estão coloridas, mas tudo o que você enxerga é um borrão cinzento. A realidade não mudou — o jardim continua lá, vibrante e vivo — mas a sua capacidade de percebê-lo foi sequestrada pela temperatura do ambiente de onde você veio.
Muitas vezes, a nossa alma funciona como essas lentes. Nós saímos de 'ambientes frios' — o ambiente do luto, da perda de um emprego, de uma traição ou de um diagnóstico difícil — e, quando a luz da providência de Deus brilha à nossa frente, nós não conseguimos reconhecê-la. O nosso choro embaça a nossa visão.
É exatamente isso que encontramos em João 20. Maria Madalena está no jardim mais importante da história da humanidade. O evento que mudaria o destino do universo acabou de acontecer diante dela. Mas ela está chorando. Seus olhos estão embaçados pelo 'frio' do sepulcro. Por duas vezes, uma pergunta ecoa naquele jardim: 'Mulher, por que choras?'
Isto tudo comprova que a vida dá muitos motivos para chorar. Mas o que pode trazer consolo? Alguns motivos podem ser levantados nesse texto.
1. Somos consolados quando Jesus se manifesta no meio da nossa dor. Jesus interage com nossa dor.
Tive uma querida ovelha, a Ana, esposa do Jorge Vieira. Ana morreu muito jovem por causa de um câncer que gerava muita dor. Ela dizia que quando as dores se intensificavam, ela ia para a sala e começava a cantar louvores a Deus, e era assim visitada por uma graça poderosa que tirava aquela dor excruciante que ela enfrentava.
No meio da dor e da tristeza de Maria, Jesus se revela. Se dá a conhecer, restaura sua esperança. Seus olhos estavam voltados para o túmulo, mas Jesus faz Maria olhar para a ressurreição.
A resolução da dor é possível quando mudamos do "Que" para "Quem". Maria buscava um "O Que" (um corpo morto). Jesus se apresenta como um "Quem" (uma Pessoa Viva). A autoridade de Cristo, ele é soberano até mesmo sobre a morte. O Hades não pode retê-lo.
A dor também se resolve no relacionamento, não na explicação: Jesus não deu a Maria uma palestra sobre teologia da ressurreição. Ele simplesmente disse o nome dela: "Maria!". A maior dor do choro é sentir-se sozinho nele. Sentimento de orfandade e abandono. Quando Jesus chama pelo nome, Ele diz: "Eu estou no jardim com você. O túmulo está vazio porque Eu venci o que te faz chorar".
Não tenha pressa de secar as lágrimas, mas mude o foco: A dor não desaparece instantaneamente, mas ela perde o seu poder quando percebemos que o Cristo ressurreto está presente no nosso jardim do luto. Identifique o Jardineiro. A solução para a dor do mundo vem quando ouvimos a voz do Bom Pastor.
2. Somos consolados quando um fato novo nos surpreende.
Selma, minha cunhada, perdeu sua filha num acidente trágico aos 22 anos de idade, e, em meio a sua profunda dor, ela ia diariamente ao local onde sua filha havia morrido para colocar flores. Um dia uma mulher importante da cidade e muito crente, a viu de longe e retornou seu carro para conversar com ela. Ela sabia que Selma estava num luto profundo, tinha ouvido falar do acidente e embora não a conhecesse pessoalmente, já orava por ela pedindo o consolo de Deus para sua vida. Esse evento foi transformador na história de minha cunhada, porque ela percebeu quanto Deus estava cuidando dela.
Nesse texto, o novo e surpreendente evento da ressurreição, alcança diretamente o coração de Maria. Não deveria, igualmente, nos impactar saber que a morte não tem a palavra final? A Bíblia afirma que “todos seremos ressuscitados”, por isso, “Não devemos nos entristecer como os demais, que não tem esperança.” (1 Ts 4.13) Há um fato novo, a ressurreição de Cristo. Esta verdade é tão profunda que os cristãos primitivos costumavam se cumprimentar dizendo: “Cristo vive!”, e o outro respondia: “Da fato Cristo vive!” Em 1 Co 15, Paulo enumera a tragédia que seria “se” a ressurreição não existisse. Por sete vezes ele considera o que poderia acontecer “se” Cristo não houvesse ressuscitado. (1 Co 15.13-19), e ele conclui estas considerações dizendo enfaticamente: “Mas, de fato, Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo ele as primícias dos que dormem”. Saber que nossa vida não termina no túmulo é uma grande bênção, sempre seremos consolados por esse fato maravilhoso.
3. Somos também consolados quando ouvimos a doce voz de Cristo.
Maria não percebe que era Jesus quando olha para ele porque sua visão estava embaçada, mas ela percebe Jesus pela voz, quando ele a chama pelo seu nome: “Maria” (Jo 20.18) Não é o que ela vê que a muda, mas a voz do Mestre. E ela responde: “Raboni”, que quer dizer “mestre”. Raboni é uma forma afetiva do termo “rabino”, é como alguém que nos chama de “Révi), ao invés de “reverendo”. O texto é dramático e intenso. Ouvir a voz suave do bom pastor Jesus no meio da dor e das perdas é transformador. Esse rabino muda a história de Maria e muda nossa história.
Maria não reconheceu Jesus pela visão, mas pela audição. No auge da dor, nossos olhos são os primeiros a falhar. O choro incha as pálpebras, o luto distorce as cores, a depressão embaça o horizonte. Mas o ouvido permanece aberto. Jesus enxuga as lágrimas de Maria sussurrando seu nome. O texto sugere que a cura para a dor profunda não vem do que conseguimos "enxergar" como solução, mas de quem ouvimos nos chamar no meio do caos.
Gosto muito da ideia desenvolvida por Bill Hybels, sobre a necessidade de estarmos atentos aos sussurros divinos. Deus tem muitas formas de comunicar verdades a nós, e sussurra aos nossos ouvidos. São sons e vozes que nos chegam através de pessoas, o vento na natureza, a chuva que cai, uma música que ouvimos. Sons do silêncio. São sons que nos falam e muitas vezes se transformam dentro de nós como a voz do Espírito Santo. Jesus disse que “o vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai, assim, é todo o que é nascido (gerado) do Espírito.” (Jo 3.8) Este “ruach” divino, a forma como Deus se comunica conosco. Esta voz surge na madrugada triste, no meio da nossa insônia, no meio da perplexidade e dor. É a voz do pastor, se revelando a nós de forma indelével e surpreendente. É a voz do Salvador, é a voz do Raboni.
Conclusão
Em Apocalipse 21.4 há uma linda promessa: "E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas já passaram.” O mesmo Jesus que perguntou “por que choras?” um dia enxugará permanentemente o nosso rosto. Mas, enquanto esse dia não chega, Ele nos chama pelo nome e nos lembra que a morte e a dor não têm a última palavra.
Logo após Maria o reconhecer, Jesus diz: "Não me detenhas..." e lhe diz: "vai para meus irmãos e dize-lhes..." (v. 17).
Jesus enxuga as lágrimas de Maria dando-lhe uma missão. O luto tende a nos paralisar; a dor quer nos "segurar" no passado. Jesus cura a dor de Maria transformando-a de uma "espectadora do túmulo" em uma "mensageira e testemunha da vida". Maria Madalena é quem tem a primeira visão do Cristo ressurreto e se transforma na primeira testemunha ocular deste fato. Ele enxuga suas lágrimas colocando os seus pés no caminho da proclamação. Ela se torna a primeira testemunha da ressurreição e precisa anunciar isto. A dor muitas vezes só é vencida quando paramos de olhar para a nossa própria ferida e começamos a anunciar a cura para os outros. O serviço é o melhor lenço para as lágrimas da alma. O problema do mundo não é o choro em si, mas o choro sem esperança e missão. Transforme sua dor e suas lágrimas em ministério de consolo e esperança.
“Por que choras?