O texto de Zacarias 10.1 convoca o povo a pedir a Deus, e não a ídolos, as "chuvas serôdias" (da primavera), simbolizando a provisão divina de bênçãos materiais e espirituais. A passagem incentiva a dependência total de Deus para sustento, contrastando a fidelidade divina com a falsidade dos ídolos do lar e as adivinhações.
O que nos surpreende no texto é que Deus recomenda que seu povo peça chuva no tempo em que a chuva cai. Não parece estranho esta exortação bíblica? Pedir chuva no tempo em que naturalmente a chuva cai, parece desproposital...
A chuva serôdia (Primavera) era essencial na agricultura de Israel para o amadurecimento das colheitas. Representava a graça de Deus na normalidade do dia a dia e a abundância. Estas chuvas serôdias, ou a últimas chuvas, se referem a chuvas no tempo certo: no final da estação chuvosa. São chuvas que fazem parte do ciclo comum da natureza.
A Bíblia faz questão de nos ensinar que é Deus quem controla as estações e dá a provisão.
“Darei as chuvas da vossa terra a seu tempo, as primeiras e as últimas, para que recolhais o vosso cereal, e o vosso vinho, e o vosso azeite. Darei erva no vosso campo aos vossos gados, e comereis e vos fartareis.” (Dt 11.14,15)
Deus promete dar as primeiras e as últimas chuvas. Ambas fazem parte do ciclo da natureza planejado por Deus.
O profeta Joel afirma: “Alegrai-vos, pois, filhos de Sião, regozijai-vos no Senhor, vosso Deus, porque ele vos dará em justa medida a chuva; fará descer, como outrora, a chuva temporã e a serôdia. As eiras se encherão de trigo, e os lagares transbordarão de vinho e de óleo.” (Joel 2.23,24)
Espiritualmente entendemos que Deus age no tempo certo, do começo ao fim. Este texto bíblico nos ensina algumas coisas:
1. Existe um tempo certo para a chuva cair – Muitas vezes nos sentimos angustiados, aguardando esta bendita chuva de Deus cair sobre nossa vida ou sobre nossa família, mas Deus parece demorado. É que Deus manda chuva no tempo certo.
A Bíblia diz: “Sede, pois, irmãos, pacientes, até à vinda do Senhor. Eis que o lavrador aguarda com paciência o precioso fruto da terra, até receber as primeiras e as últimas chuvas.” (Tg 5.7) O agricultor sabe que todos os anos, por causa da benção de Deus, a chuva chega na sua estação trazendo fartura e benção. Precisamos ter paciência até que caia chuva abundante. Deus preparou tempos específicos para abençoar. Por isto a Palavra de Deus afirma: “contudo, não se deixou ficar sem testemunho de si mesmo, fazendo o bem, dando-vos do céu chuvas e estações frutíferas, enchendo o vosso coração de fartura e de alegria.” (At 14.17)
Existe o tempo de Deus enviar chuvas temporãs, que são os primeiros frutos, e chuvas serôdias, as últimas chuvas. Existe o tempo certo de cada uma delas. Por isto não fique frustrado. O tempo da chuva de Deus vai chegar. Deus não manda chuva o tempo todo.
"In His Time" é um popular hino cristão de adoração composto por Diane Ball, em 1978. A música celebra a paciência e a confiança no plano divino, baseando-se na crença de que Deus faz todas as coisas bonitas no Seu devido tempo. O refrão da música diz o seguinte:
"In His time, in His time
He makes all things beautiful in His time
Lord, please show me everyday
As You're teaching me Your way
That You do just what You say in Your time
Este texto nos convida a confiar em Deus para o pão de cada dia, Fortalecimento diário e bênçãos nas pequenas coisas, enquanto se espera as grandes promessas.
2. Deus dá chuva abundantemente - “Dá aos homens aguaceiro e a cada um, erva no campo.” (Zc 10.1). Deus dá aos homens, não apenas o sereno do dia, nem chuvas pequenas, mas ele manda aguaceiro. Muita chuva. Abundante.
Assim tem sido a graça de Deus na história. São chuvas de bençãos, abundantes, para regar a terra e dar fartura.
3. Deus dá chuva a cada um, individualmente. Ninguém deixa de receber da bendita graça de Deus – “dá aos homens aguaceiro e a cada um, erva no campo.” (Zc 10.1)
Não existe uma casta privilegiada. Deus é bom para todos. Este é o princípio da Graça Comum, um conceito teológico fascinante (especialmente caro à tradição reformada) que afirma que o mundo ainda não se autodestruiu, apesar da inclinação humana para o mal, por causa desta graça.
Enquanto a Graça Salvadora é o favor de Deus que leva o indivíduo à redenção e à vida eterna, a graça comum é a bondade de Deus estendida a toda a humanidade, independentemente de fé ou mérito, para preservar a vida e a ordem no mundo. Pense nela como o "sistema de manutenção" que mantém a "máquina fantástica" da sociedade funcionando.
Existem três pilares da graça comum. Para entender como ela opera, podemos dividi-la em três funções principais:
A. O Freio do Mal (Refreamento do Pecado). Sem a graça comum, a humanidade seria tão má quanto é capaz de ser. Deus usa instituições como o governo, as leis, a polícia e a própria consciência moral (o senso de certo e errado) para impedir que o caos total domine. Quando um político honesto toma uma decisão justa ou quando o medo da punição impede um crime, a graça comum está agindo como um "freio".
B. A Provisão Universal de habilidades. Jesus resume isso de forma brilhante em Mateus 5.45: "Ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos". Isto atinge a beleza e a ciência. Pense na capacidade de um cientista ateu de descobrir a cura para uma doença, a habilidade de um músico não religioso de compor uma sinfonia que nos faz chorar, ou o prazer de uma boa refeição feita por um ímpio, tudo isto são expressões da graça de Deus. Na natureza, a mesma chuva que irriga a plantação do ímpio é a que irriga a do fiel.
C. O Senso Cívico e a Moralidade. A graça comum permite que pessoas que não conhecem a Deus ainda assim amem seus filhos, sejam bons vizinhos, pratiquem a caridade e sintam indignação diante da injustiça. É o que chamamos de "virtude civil".
Deus “dá aos homens aguaceiro e a cada um, erva no campo.” (Zc 10.1). Toda a raça humana é abençoada pela graça de um Deus amoroso.
Precisamos orar por coisas normais, cotidianas e comuns da vida. Ore por aquilo que já é previsível, e não apenas por coisas extraordinárias. Zacarias está orando por coisas comuns: Deus enviar chuva na época de chuva. Muitas pessoas abençoadas abundantemente por Deus, correm o risco de se esquecerem de orar, ou acharem que não precisam mais de orar.
Paulo afirma: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que nos tem abençoado com toda sorte de bençãos nas regiões celestiais.” (Ef 1.3) São bençãos espirituais e materiais. Precisamos pedir um pequeno milagre todo dia. Deus ouve as pequenas orações. Elas revelam dependência e confiança.
Precisamos aprender orar não apenas para conseguir coisas de Deus, mas para estar com Deus.
Três perigos
Mas este texto continua fazendo advertências e novas promessas:
“Porque os ídolos do lar falam coisas vãs, e os adivinhos veem mentiras, contam sonhos enganadores e oferecem consolações vazias; por isso, anda o povo como ovelhas, aflito, porque não há pastor. Contra os pastores se acendeu a minha ira, e castigarei os bodes-guias; mas o Senhor dos Exércitos tomará a seu cuidado o rebanho, a casa de Judá, e fará desta o seu cavalo de glória na batalha.” (Zc 10.2,3)
O contexto mostra o povo enfrentando dificuldades e sendo instado a não buscar soluções em fontes falsas, mas sim no Senhor. O único que pode enviar chuvas e trazer abundância é Deus.
A. Primeiro perigo: A tentação da idolatria - “Porque os ídolos do lar falam coisas vãs.” Ídolos são meras representações humanas, não tem poder em si mesmos. Atribuímos poder àquilo que não tem poder. Não adianta consultar os ídolos.
Este texto fala especificamente dos Ídolos do lar. Do hebraico, Terafim ou “deuses do lar”, que normalmente tinham a forma de pequenas estatuetas humanas
Famílias tendem a desenvolver seus ídolos, nos quais colocam sua confiança, e não em Deus, no Deus verdadeiro. Alguns deles são perceptíveis:
- ídolos de reputação, influência.
- Ídolos da beleza.
- Ídolos do poder e da riqueza.
É fácil colocar nossa confiança nestes ídolos, e não em Deus.
Raquel, esposa de Jacó, ao sair da casa do seu pai, Labão, roubou seus ídolos (Gn 31.19). apesar de Jacó ser um dos patriarcas, e servir ao Deus Altíssimo, isto não impediu que sua casa estivesse abrigando “os ídolos do lar”.
Quais são os ídolos que seu lar tem desenvolvido? Se você quiser reconhecer um ídolo pergunte a si mesmo: “O que temo, amo e desejo mais que a Deus?” Se alguma coisa se interpõe prioritariamente entre você e o Deus verdadeiro, este é um ídolo. Labão se desespera quando descobre que seu ídolo foi roubado. Raquel não quer sair de casa sem os ídolos de seu pai. Nossos filhos querem levar estes horrorosos ídolos que precisam ser rejeitados e quebrados.
Qual é o problema destes ídolos? “Eles falam coisas vãs.” Dão respostas fúteis, completamente sem valor.
A. Segundo perigo: Os adivinhos. “Porque (...) os adivinhos veem mentiras, contam sonhos enganadores e oferecem consolações vazias;
Este texto nos adverte contra os adivinhos. Aqueles que supostamente seriam capazes de revelar a vontade dos deuses. (Jr 29.8). Os adivinhos tentavam manipular o ambiente através de meios místicos e espirituais para preverem o futuro. São pessoas que geram falsa esperança dando a impressão de que podem prever o futuro. A ideia básica por trás é que estão no controle dos poderes divinos, e que tais poderes estão debaixo de seu controle. Eles desviavam o povo de Deus, reforçando a crença de que podiam manipular as forças divinas para fazer a vontade das pessoas.
A cultura brasileira é propensa a seguir pessoas místicas. Recentemente estive com o Pr. Genival Lopes, que tem se tornado uma pessoa muito especial para o meu coração. Ele veio de uma igreja de tradição carismática, e me disse: “O problema da minha denominação foi que, quando as pessoas se autodenominavam profetisas e falavam mentiras em nome de Deus, elas não foram disciplinadas, ninguém as exortou nem chamou sua atenção. Então, falar falsamente em nome de Deus, não se constituía em um grande problema.”
O resultado é desolador. Por contarem “sonhos enganadores e oferecerem consolações vazias; o povo anda como ovelhas, aflito, porque não há pastor.” (Zc 10.2)
Ovelhas sem pastor tem algumas características:
- A primeira, é desorientação. Elas não sabem em que direção devem seguir.
- A segunda, desproteção. Não há quem as defenda ou as proteja.
- Terceiro, vulnerabilidade. Ovelhas não sabem como se defender. No reino animal as ovelhas possuem muito pouca capacidade de se defender.
C. Terceiro perigo: Pastores infiéis – “Contra os pastores se acendeu a minha ira, e castigarei os bodes-guias; mas o Senhor dos Exércitos tomará a seu cuidado o rebanho, a casa de Judá, e fará desta o seu cavalo de glória na batalha.” (Zc 10.3)
Deus afirma que seria contra os bodes que iam adiante do rebanho. Ele compara pastores a bodes. É uma comparação dura e pesada. “Bodes-guias.” Fiquei me perguntando se os bodes faziam parte do rebanho ou se viam de fora e conviviam com o rebanho, mas a verdade é que “fazem parte do rebanho”. Os bodes não são de natureza distinta, caminham com o rebanho, e estavam agindo de forma abusiva, indevida, com arrogância, seguindo adiante do rebanho, sem se submeterem ao grande pastor. No dia do juízo, Jesus afirma que as ovelhas serão colocadas à sua direita, e os bodes de outro lado. Não são de espécies diferentes, mas o comportamento é diferente. O problema não é apenas estar fora, mas agir de forma errada estando dentro.
Conclusão
Para concluir, há duas promessas de Deus para o seu povo:
1. “O Senhor dos exércitos cuidará de seu rebanho.” (Zc 10.3). Zacarias usa sempre a ideia do “Senhor dos Exércitos”. É a figura de um Deus forte. Ele é poderoso nas batalhas. No meio de tantos desvios, do fascínio dos ídolos, dos adivinhos dos bodes, dos pastores infiéis, Deus promete que cuidará do seu rebanho. É bom saber que apesar de tantos desvios históricos da igreja, tantos falsos mestres e falsos pastores, Deus tem o compromisso de cuidar de sua igreja e de seu povo.
Quando Jesus envia seus discípulos para evangelizar, ele diz: “Ide, eis que vos envio como cordeiros para o meio de lobos.” (Lc 10.3) Particularmente não gosto desta imagem. Já pensaram nesta figura? Não é assustadora? Um cordeiro no meio de lobo é uma crueldade, um massacre. Se Deus nos enviasse como lobo para o meio de cordeiros, certamente nos sentiríamos seguro. A diferença aqui não é a força do frágil cordeiro, mas do Grande pastor. Apesar da grande discrepância, o que faz diferença é o fato de que temos um grande pastor. O que faz diferença não é a astúcia, nem a esperteza, nem a habilidade da ovelha, mas a autoridade do pastor.
2. A segunda promessa: “De Judá sairá a pedra angular, dele a estaca da tenda.” A história seria sacudida por um evento maravilhoso: A vinda do Messias. Este é um texto messiânico. A estaca dá firmeza à tenda e solidez contra os ventos e tempestades. A pedra angular é uma figura bem conhecida nas escrituras sagradas.
Ela é primeiramente citada no livro de Salmos: “A pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a principal pedra, angular; isto procede do Senhor e é maravilhoso aos nossos olhos.” (Sl 118.22,23). Jesus é a pedra angular. O próprio Senhor Jesus associa esta profecia a ele mesmo: (Mt 21.42; Mc 12.10-11; Lc 20.17) Depois, os discípulos de Jesus afirmam que Jesus é a pedra angular (At 4.11); Paulo ratifica esta ideia em Ef 2.20 e Pedro reafirma em 1 Pe 2.6-7.
Sabemos que Deus envia as chuvas de primavera, que ele guarda seu povo, que ele cumpre suas promessas. Mas a grande mensagem da Bíblia não está relacionada a bençãos espirituais que Deus possa nos dar. A grande benção da Bíblia encontra-se na manifestação de Jesus, a Pedra angular.
Nosso edifício, nossa vida, deve ser construída em cima desta promessa.
Existem duas advertências relacionadas àqueles que desprezam a pedra angular:
A. “Todo o que cair sobre esta pedra, ficará em pedaços, e aquele sobre quem ela cair, ficará reduzido a pó.” (Mt 21.44)
B. Na carta de Paulo aos Romanos lemos: "Aquele que nele crer nunca será confundido." (Rm 10.11) Outras versões afirmam: “Nunca serão envergonhados.” A fé em Jesus traz segurança, salvação e a certeza de não ser envergonhado ou decepcionado.
C. O profeta Isaias profetizou: “Portanto, assim diz o Senhor Deus: Eis que eu assentei em Sião uma pedra, pedra já provada, pedra preciosa, angular, solidamente assentada; aquele que crer não foge.” (ARA) A versão NVI afirma: “Nunca será abalado.”
Há um nítido contraste entre aqueles que colocam a sua confiança em Cristo e aqueles sobre quem esta pedra cair. Jesus diz que “ficará reduzido a pó”. Em contrapartida, aqueles que colocam a sua confiança e firmam sua vida nesta Rocha, nunca serão confundidos, jamais sofrerão vexame, nunca serão envergonhados.
Você tem firmado seus pés nesta Rocha?
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