segunda-feira, 1 de junho de 2026

Mc 11.15-19 Perigos da religião acomodada

 



 

Introdução

 

Este relato bíblico não descreve apenas uma cena de desordem religiosa, mas descreve o pico de uma operação logística monumental. Para entender o "caos" que Jesus enfrentou, precisamos olhar para Jerusalém durante a Páscoa (Pessach) como se fosse uma metrópole moderna recebendo uma Olimpíada ou uma Copa do Mundo, mas com infraestrutura da Idade do Ferro.

Aqui está o cenário que compunha esse pano de fundo:

Jerusalém, em tempos normais, tinha uma população estimada entre 40 mil e 60 mil habitantes. Durante a Páscoa, estima-se que esse número saltasse para mais de 200 mil a 300 mil pessoas. A cidade era fisicamente pequena, cercada por muralhas. A maior parte dessa multidão não cabia dentro da cidade e se acomodava em acampamentos improvisados nos arredores, nas encostas do Monte das Oliveiras e no Vale do Cedrom. Imagine o nível de poeira, barulho, calor e disputa por recursos básicos como água e sombra.

A Páscoa era uma peregrinação obrigatória para todo judeu adulto que vivesse a uma distância acessível. Vinham judeus da Diáspora (Egito, Roma, Síria, Mesopotâmia). Falava-se aramaico, grego, latim e diversos dialetos locais. O Templo não aceitava moedas estrangeiras (com imagens de imperadores ou deuses pagãos) para o pagamento do imposto e ofertas. Milhares de pessoas chegavam com moedas de Tiro, dracmas gregas ou denários romanos e precisavam convertê-las para o siclo do santuário. O Templo tornava-se a maior casa de câmbio do Oriente Médio.

O incidente em Mc 11.15 ocorre no Pátio dos Gentios. Este era o único local onde os não-judeus podiam orar. Com a Páscoa, a administração do Templo transformou esse espaço sagrado em um terminal de logística e comércio. Pense no barulho ensurdecedor de milhares de bois, ovelhas e pombas sendo negociados, misturado com o grito dos cambistas, o barulho das moedas caindo nas mesas e o cheiro insuportável de esterco animal num ambiente de oração.

Havia um sistema de "inspeção" de animais. Para que um animal fosse aceito como sacrifício, ele não podia ter defeitos. Era comum que os animais trazidos pelos peregrinos de longe fossem "rejeitados" pelos inspetores do Templo, forçando o peregrino a comprar um animal ali mesmo, a preços inflacionados. O comércio era uma exploração institucionalizada.

Jesus não estava apenas irritado com o barulho. Ele estava denunciando a mercantilização da fé. Ao transformar o Pátio dos Gentios em um mercado, as autoridades religiosas estavam impedindo que os estrangeiros (os gentios) tivessem acesso a Deus. O Templo deveria ser uma "Casa de oração para todas as nações" (Isaías 56:7).

Enquanto para nós o "caos" é um trânsito congestionado ou uma rotina cheia, em Jerusalém o caos era existencial: era a sobrevivência da fé de um povo que, para adorar a Deus, tinha que passar por um sistema que os explorava financeiramente. A cena de Jesus derrubando as mesas é o ato final de quem não aguenta mais ver a "simplicidade" da adoração ser destruída pela "complexidade" do lucro. Ele corta o excesso de burocracia e comércio para que a essência (o encontro com Deus) possa acontecer.

 

Este texto nos ensina várias lições:

(a)- É possível ser profundamente religioso e mesmo assim ofender a Deus no exercício da religiosidade;

(b)- Grandes desvios espirituais surgem com fachadas de atitudes de bom senso;

(c)- Pequenas permissões trazem grande permissividade, por isto os alcoólatras anônimos têm um princípio de que uma pessoa viciada não pode fazer concessões, ainda que seja mínima: "nem um gole";

(d) Determinados costumes são trazidos para dentro da igreja e nem sequer sabemos quem e onde começou, e de repente se torna um sistema;

(e) O diabo sempre vai achar meios de penetrar na Igreja através das brechas e concessões que são feitas;

(f) Gente bem-intencionada pode se envolver em práticas que trazem a ira de Deus sobre suas vidas.

 

Por que Jesus se mostrou tão duro ao lidar com os vendilhões do templo? Literalmente falando, Ele “virou as mesas”.

 

Duas práticas simples estavam ali presentes, mas que apontaram para problemas internos muito sérios:

 

  1. Venda de animais para o sacrifício;
  2. Troca de moedas para estrangeiros. Havia um sistema de câmbios no templo.

 

Os dois problemas estavam relacionados ao culto, tinham uma relação com o adorador. O que isto tem a ver conosco? Quais são os pecados implícitos neste texto que levaram Jesus a ter uma reação tão inusitada e agressiva?

 

1.   O sistema religioso possui uma enorme capacidade de se tornar meio de opressão e exploração

 

Estes homens estavam explorando os fiéis. Os judeus criaram um sistema de câmbios no qual trocavam as moedas e vendiam os animais para o sacrifício. As pessoas que vinham de fora de Jerusalém traziam as moedas de seus países, e precisam trocá-las para fazerem suas oferendas. Não era difícil ter cerca de 2 milhões de pessoas na época das páscoa, e todo judeu, ou prosélito (convertido ao judaísmo) com mais de 19 anos deveria pagar ao templo a taxa de quase dois dias de trabalho de um operário. As taxas tinham que ser pagas em Shekels da Galileia ou do templo, pois as demais moedas eram consideradas impuras. Contudo, ao fazer o câmbio, taxavam profundamente os adoradores simples e fiéis que se aproximavam sinceramente diante de Deus.

Sistemas religiosos facilmente exploram os adoradores, e passam a negociar para ter lucros em nome de Deus e criar estruturas que exploram o fiel.

Durante a Reforma, vimos a igreja vendendo pequenas imagens e até perdão de pecados através das indulgências, as religiões facilmente se transformam em negócios. Atualmente vemos a manipulação da fé de pessoas desesperadas, nos programas que atraem milhares de pessoas atrás de uma cura ou de uma resposta imediata ou das estruturas comerciais que giram em torno de santinhos e objetos sagrados nos centros de romaria e peregrinação do Brasil. Cultos podem perder sua reverência e se tornar um business. Os líderes religiosos aliados aos comerciantes instrumentalizaram a fé dos peregrinos nos dias de Jesus, assim como hoje as religiões sabem fazer. Mesmo quando um culto tem verdadeiros fundamentos, voltados ao Deus verdadeiro, pode se tornar algo fortemente corruptível, nas mãos de líderes carismáticos e corruptos.

 

2.   Adoração facilitada

 

O que estavam fazendo? Facilitando a adoração. Parece que existe tanto bom senso no que estão fazendo. Trocavam moedas para adorar a Deus, vendia manimais para sacrificá-los. Os gestos parecem inofensivos, afinal, as pessoas vinham de longe. Já imaginou trazer um cordeirinho de sua casa, que ficava numa região do deserto da Judéia? Atravessar montanhas em procissão, quando podiam comprar na porta do templo e oferecer o sacrifício?

 

Este texto parece nos ensinar que existe um grave perigo neste negócio de tornar fácil a vida do adorador. Nossos cultos têm se tornado quase sempre assim. O alvo não é glorificar Jesus, mas manter o adorador entretido. Todo nosso culto é uma tentativa de fazer as pessoas se sentirem bem. Pregamos coisas politicamente corretas porque não queremos ofender, temos um agradável pastor, falando de um agradável Jesus, numa linguagem agradável, mas será que as pessoas estão entendendo a necessidade de arrependimento e mudança de vida, ou temos feito de tudo para que se sintam bem? Culto tem que ser curto, a música tem que ser de qualidade, grupos musicais têm que cantar bonito e agradar os ouvintes. As pessoas não mais participam do culto, mas elas assistem o culto. Não vem para adorar a Deus, mas para um encontro social agradável. As pessoas se sentem como senhores assentados nos bancos, aguardando o momento de serem servidas, quando deveriam estar aprendendo em como servir a Deus e ao próximo.

 

Os cultos estão centrados nos homens.

Ficamos pensando em estruturas, imagens, som, mas onde fica Deus nisto tudo?

 

Jesus percebe que os líderes do templo colocaram tantas coisas dentro dele, que Deus, o principal personagem, já não cabia e estava do lado de fora, e quando Jesus resolveu entrar, já não havia lugar para ele dentro desta estrutura humana e maligna.

 

Tenho visto pessoas confortáveis nas igrejas. Não querem pagar preço algum, nem de tempo, nem de vida, nem de compromisso, nem de dinheiro. Stanley Jones afirmou que "Fé que não custa nada, não vale nada". Se seu compromisso com Deus não está lhe custando nada, nenhum sacrifício, fique atento a possíveis riscos. Se você é do tipo que quer uma igreja que tenha dízimo de 8% e bebedouro de coca-cola, você ainda não se comprometeu com o reino de Deus.

 

3.   Jesus denuncia como o pecado paulatinamente pode entrar na igreja

 

Satanás tem a capacidade de lenta e progressivamente nos acostumar ao pecado, de tal forma que mesmo quando ele se torna tão expandido, não mais nos assustamos com ele. Assim foi sua estratégia na tentação diante de Adão e Eva. Primeiramente ele dá a impressão de que sabe realmente da recomendação dada por Deus, pois afirma: “É assim que Deus disse”. Em seguida, coloca um ponto de interrogação naquilo que era uma afirmação. Coloca dúvidas naquilo que era certo: “Não comereis de toda árvore do jardim?”, e por último, nega o que Deus afirmou: “É certo que não morrereis”, e para fazer isto, lança dúvidas sobre a intenção de Deus, afirma que quando Deus estabeleceu esta lei, ele estava mentindo, e não queria correr risco na sua soberania, o que ele havia dito, nunca aconteceria.

 

Certo beduíno possuía um camelo e numa noite muito fria se surpreendeu ao ver o seu animal colocando uma pata dentro da tenda. Compadecido não o expulsou da tenda. Em seguida o camelo colocou outra pata e finalmente colocou o pescoço, e a tenda desabou, porque não comportava o animal dentro dela.

 

Assim fazemos com nossas atitudes pecaminosas. Assumimos uma atitude de complacência, barganhamos, não queremos tomar posições, ficamos flertando com o perigo, com as tentações e com o diabo, e quando vemos, nossa casa inteira desaba.

 

Como Jesus age diante desta situação?  

Jesus se torna radical: “Entrando ele no templo, passou a expulsar os que ali vendiam e compravam; derribou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas. Não permitia que alguém conduzisse qualquer utensílio pelo templo.” (Mc 11.15-16)

 

Fico sempre pensando na sua autoridade moral e espiritual para fazer isto. Esta é a única vez que vemos Jesus irado na Bíblia. Sua ira é direcionada contra o pecado. Pecado para Deus é coisa séria. Hebreus fala do pecado como algo que "calca aos pés o Filho de Deus e profana a aliança com a qual fomos santificados, e ultrajamos o espírito da graça." (Hb 10.29)

 

Quais o problema revelado no texto? Os meios tornaram-se mais importantes que os fins - Todas as vezes que o meio e fim se confundem, tornamo-nos desagradáveis a Deus. Os judeus não sabiam mais a razão de estarem ali: comércio ou culto? Se o que estamos fazendo é mais importante que o porque, somos vendilhões do templo.  Se cantar é mais importante que a razão de estarmos cantando, algo está errado! Para Deus não conta apenas o que fazemos, mas porque fazemos o que fazemos.

 

Como escapar desta armadilha?

 

1.     Nenhum método é sagrado, sim os princípios- Devemos agir com rigor quanto aos princípios, não quanto aos métodos. Por que estou fazendo? Onde estou querendo chegar? Como estou fazendo? Deus não vê apenas o que fazemos, mas sim o porque fazemos. Podemos ter ações corretas, mas motivações erradas. Autopromoção?  Lucro? Vaidade? Soberba? Deus enxerga as motivações. Não podemos negociar princípios.

 

2.     Nunca devemos pensar que os fins corretos justificam os meios errados- Os meios têm que ser legítimos assim como os fins, não vale gol de mão. Não podemos embarcar em algo novo em nome do novo, nem no velho apenas porque é velho. O novo nem sempre é legítimo, e o velho muitas vezes é repetido sem que se saiba porque tem sido feito, apenas pela tradição. A verdade nunca é absolutamente nova, e nem é verdade apenas por ser velha. A verdade não está no novo nem no velho, mas no eterno. Deus está interessado nas razões de nossos atos, não apenas nos atos em si.

 

3.     Nunca devemos achar que as estruturas em si dão favor diante de Deus: O Nome de Igreja, nome de pastor, construções sofisticadas, ar-condicionado no templo, bancos macios. Antes de estruturas, precisamos de Deus e de sua graça, pois se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela.

 

4.     Não devemos invejar o aparente sucesso de quem usou métodos escusos para chegar onde chegou. Jamais confunda sucesso, riqueza e prosperidade com aprovação de Deus. Grandes heróis da fé foram homens e mulheres dos quais nunca ouvimos falar. Caráter não pode ser substituído por carisma, nem integridade por aclamação pública.

 

Conclusão:

O texto nos mostra:

 

  1. Aqueles homens não entenderam a mensagem de Jesus. Ele estava querendo mostrar o coração missionário de Deus. Esta casa tem que estar aberta “para todas as nações.” (Mc 11.17) Não apenas para uma etnia arrogante que se firmava na sua história, se autodeclarando filhos de Abraão, únicos herdeiros das promessas e detentores de toda benção divina. Jesus estava anunciando que a casa de Deus não podia ser fechada, porque seu propósito era permitir que todas as nações conhecessem o Deus verdadeiro. Entretanto, aquelas pessoas ao invés de serem impactados e se convencerem do erro que praticavam, conspiravam contra Jesus;

 

B.    O texto revela também que a obra de Cristo, que deveria transformar interiormente suas vidas, não lhes causa impacto. Apesar de sua religiosidade e talvez por causa dela, não conseguiam aprofundar sua fé. A obra de Cristo não os regenera. Tiveram a oportunidade de mudarem suas vidas, e de serem transformados por Jesus, contudo, o hostilizaram e planejavam matá-lo (Mc 11.18). Enquanto o povo se maravilha da doutrina de Cristo, eles rejeitavam a obra de revitalização que cristo anunciava.  

 

É fácil ser muito religioso e ainda assim ofender a Deus. Uma religião acomodada e manipulativa, que não exige sacrifício e comprometimento pode se tornar algo hostil a Deus e provocar sua ira. Que Deus na sua misericórdia não permita que isto aconteça conosco!

 

Samuel Vieira

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