sábado, 16 de janeiro de 2021

2 Tm 4.9-18 Cuidar de si para cuidar de outros



 

Introdução:

 

Podemos nos concentrar tanto nos outros que nos esquecemos de nós mesmos. É comum vermos pessoas altruístas, vivendo esgotadas. Olharam tanto para fora de si mesmas que não conseguiram perceber as condições perigosas de vida que estavam criando para si mesmas. Pessoas co-dependentes tem uma tendência muito forte a este comportamento,  assim como perfeccionistas, legalistas ou movidas por culpa. Muitos são dirigidos por medo, desejo de popularidade, ansiedade, imagem, dinheiro, mas muitos são dirigidos por culpa.

 

Pessoas culpadas são facilmente tendentes à depressão e à desatenção para consigo mesmos. 

 

Dois textos bíblicos podem nos ajudar a este respeito:

 

A. “Médico cura-te a ti mesmo” (Lc 4.23)

 

Existem muitos médicos doentes. Tratam da enfermidade de todos mas não se cuidam. Existem professores ensinando, sem aprender; pastores falando de Deus sem experimentar Deus; gente que dá receitas de vitória, mas vivem em fracasso. Temos milhares de coachings, sem entender seus próprios motivos; celebridades fracassadas na internet, criando avatares perfeitos, mas vivendo em pandemônia e sendo um verdadeiro fracasso. Quando fazia faculdade de Psicologia na PUC-GO, nossa ala era conhecida como "gaiola das loucas", tamanho era o desatino entre os estudantes daquela faculdade. 

 

B. “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22.39)

 

Jesus afirma que exorta os amor próprio, é o referencial para amarmos os outros. David Seamands afirma que "a mais selvagem de todas as nossas enfermidades é desprezar o nosso ser". Quando não conseguimos nos amar, o resultado é a depressão, e a dificuldade de interação. Só a pessoa madura, integrada é capaz de amar o outro e se doar sem culpa, tratada emocionalmente. A palavra de Deus nos diz: “"Agrada-te do Senhor e ele satisfará os desejos do seu coração." (Sl 37.5).

 

Precisamos de cuidar de nós mesmos para cuidar de outros.

Quando você está no avião, eles dão uma série de instruções preliminares, que são fundamentais e básicas. Uma delas diz: “em caso de despressurização, coloque a máscara em você primeiro, e depois socorra as crianças”. Se você tentar colocar a máscara na criança, talvez não dê tempo de colocar em você e ai morrerão os dois por falta de ar.

Creio que este é um bom exemplo. Cuide de você, para cuidar dos outros. 

 

Recentemente li um excelente livro de Victor Frankl, sobrevivente do campo de concentração. Num dos seus, relatando ao brutal e desumano tratamento que recebem na prisão, indaga: “Será que a pessoa nada mais é que um resultado de múltiplos determinantes e condicionamentos? (...) Será que ela não pode reagir de outro modo às condições de vida reinantes no campo de concentração?”[1]

 

Sua resposta vem a seguir:

“No campo de concentração se pode privar a pessoa de tudo, menos da liberdade última de assumir uma atitude alternativa frente às condições dadas. (...) A pessoa interiormente pode ser mais forte que seu destino exterior”[2]

 

Frankl desenvolveu  uma corrente psicoterapêutica conhecida como Logoterapia, cujo pensamento central é: “A questão central da vida não é o que fazem contigo, mas o que você faz a respeito daquilo que te fazem”. 

 

Aprendendo com Paulo

Quando Paulo escreveu a Segunda carta a Timóteo, ele estava fazendo um testamento de vida e se despedindo de seu discípulo. A linguagem é de alguém que está percebendo que sua vida terrena estava se esvaindo, e chegava a hora partir. Por isto esta carta se reveste, ainda mais, de um significado maior. Ninguém perde tempo em trivialidades quando vê a hora de sua partida. Nestas horas, cada segundo conta. Paulo deseja deixar bem claro a Timóteo, o que realmente era importante para sua vida e ministério, e quais os cuidados que eram essenciais para sua vida.

 

Podemos afirmar que Paulo se concentra em quatro áreas: relacionamentos, saúde física, mente e a alma (espiritualidade e fé).

 

1.     Cuide de seu corpo 

 

É nítido o esforço de Paulo no seu cuidado pessoal. Dois textos podem ser citados:

 

A.   Quando vieres, traze a capa que deixei em Trôade” (2 Tm 4.13). Por que ele precisava da capa? 

O inverno estava chegando e ele precisava estar se protegendo de uma enfermidade por causa da friagem. 

 

Preso na cadeia, em dias de inverno com casas sem sistema de calefação, ele precisava de alguns cuidados materiais. Sua capa era essencial. Paulo estava cuidando de sua saúde e bem estar. 

 

B. “Não continues a beber somente água; usa um pouco de vinho, por causa do teu estômago e das tuas frequentes enfermidades.” (1 Tm 5.23).

 

Por que ele recomenda o vinho? O vinho era considerado medicinal, e ainda hoje tem sido recomendado para pacientes com problemas intestinais. A recomendação dele é profilática, tem a ver com a saúde. Precisamos cuidar da nossa saúde.

 

Muito sofrimento é causado por causa de descuido pessoal. Nos alimentamos mal, temos vida sedentária, nos empanturramos de fritura e refrigerantes, comemos de forma irregular, sem disciplina, abusamos do corpo. O problema é que o corpo tem prazo de validade e precisa de manutenção. 

 

O corpo é uma belíssima máquina, com um funcionamento perfeito e harmônico. Quando somos mais jovens, acreditamos que nada vai nos deter, mas na medida em que caminhamos, começamos a perceber que manutenções mais periódicas e regulares precisam acontecer para que o corpo funcione bem. 

 

Não podemos fazer de conta que não precisamos de cuidados. Tive um tio que sofreu um AVC quando estava com seus 60 anos de idade, porque sua pressão era alta e ele se recusava, obstinada e tolamente, a tomar seu remédio diário, afirmando que não queria viver a vida inteira dependente de remédio. Resultado? Morreu aos 63 anos. 

 

Um tempo de lazer, uma caminhada com amigos, repouso e alimentação balanceada ainda são algumas das melhores receitas para uma boa saúde. Outro detalhe: “Não se esqueça da capa do inverno”. Roupas confortáveis, uma cama limpinha e quentinha, ajudam bastando a homeostase do corpo, esta máquina maravilhosa que Deus criou. É preciso se proteger do frio, ter o mínimo de conforto para não contrair uma pneumonia. Cuide bem de sua saúde. 

 

2.     Cuide de sua mente.

 

Traze a capa...bem como os livros, especialmente os pergaminhos” (2 Tm 4.13). Não há dúvida alguma que ele está se referindo aos livros sagrados, os textos do Antigo Testamento que compunham o cânon judaico. Livros eram coisas muito caras, escritas em pergaminhos e papiros. Como Paulo era um rabino, e certamente tinha algum poder aquisitivo, ele adquiriu estes preciosos textos e tinha o luxo de ter alguns manuscritos em sua casa.

 

A referência aos pergaminhos, poderia ser também uma referência ao material que ele usaria para escrever suas cartas. Era um processo longo e demorado, escrever os textos, cuidadosamente, com uma espécie de estilete, no couro dos animais. 

 

Podemos inferir que Paulo queria os livros sagrados para refletir sobre eles, como bom judeu. E queria os pergaminhos para escrever suas reflexões e cartas e enviar às igrejas e aos irmãos. 

 

Com isto ele mantinha sua cabeça ocupada.

Um dos problemas mais sérios é a mente desocupada. Além dela ser “oficina do diabo”, ela nos deixa entediado e vazios. Procure ocupar sua mente com coisas boas: Boa literatura, bons filmes, ouvindo boas mensagens.

 

3.     Cuide de seus relacionamentos

 

Boa parte do nosso sofrimento vem de pessoas. São relacionamentos quebrados, traições, injustiça, desprezo, abandono. Precisamos nos reestruturar emocionalmente. A vida segue em frente, não podemos ficar toda vida em torno de pessoas toxicas, relacionamentos disfuncionais, amarguras. 

 

Paulo tem que lidar com as pessoas que caminharam com ele. Ele fala de quatro aspectos interessantes:

 

A.    Precisamos lidar com as perdas significativas. “Demas me abandonou”. Vs 10.

 

Paulo fala de várias situações doloridas, mas de forma pessoal, ele fala de Demas, um de seus discípulos, que aparentemente abandonou a fé, depois de ter caminhado com a comunidade. “Procura vir ter comigo depressa. Porque Demas, tendo amado o presente século, me abandonou e foi para a Galácia” (2 Tm 4.9,10). 

 

Uma das maiores dores que nós sentimos é da perda espiritual de pessoas nas quais investimos tempo e caminhamos juntos, em quem investimos tempo, afeto, cuidado e que de repente nos abandonam. Muitas vezes um divórcio, o desprezo, a morte de uma pessoa querida. Paulo se sentiu assim em relação a Demas.


São perdas significativas. Algumas vezes perdemos amigos, uma desavença, uma discordância pode nos distanciar de um amigo fiel. Decepções, enganos, traições, podem ser profundamente danosos para nossa vida. Cuide bem do seu coração quando passar por perdas significativas. 

 

Certo oncologista afirmou que “câncer é mágoa”, e que ele perguntava aos seus pacientes quando vinham consultá-lo: “Por que você precisa deste câncer?”. Pois bem, o câncer deste pastor se deu logo após a saída de um grupo de sua igreja para apoiar outro ministério. É preciso elaborar a perda e o luto. 

 

B.    Precisamos lidar com a solidão – “Somente Lucas está comigo” Vs. 10 “Todos me abandonaram”. Vs 16.

 

Paulo faz uma lista de perdas que teve. Alguns saíram por razões compreensíveis e justificáveis, outras por razões pouco recomendáveis. 

 

i.               Demas apostatou e foi embora

ii.              Crescente e Tito se mudaram: razões pessoais, familiares ou econômicas.

iii.            Outros o abandonaram “na minha primeira defesa, ninguém foi a meu favor; antes todos me abandonaram”. 

 

Quanto mais idosos ficamos, maior é a possibilidade de isolamento. Depois da aposentadoria, então, as coisas ainda ficam mais complexas, porque muitos dos relacionamentos que possuímos são funcionais, isto é, tem a ver com o papel social que desempenhamos e com o trabalho e produtividade. Não se trata de algo, necessariamente errado, mas estas coisas emprestam muito sentido à nossa vida, e precisamos tomar cuidado porque são relacionamentos superficiais na sua própria essencial. 

 

Paulo estava idoso e preso. Isto, de certa forma, já o isolava. 

Muitos se tornam isolados em seus minúsculos apertados apartamentos. As pessoas estão produzindo, trabalhando, com pouco tempo para assentar e conversar. Isto pode gerar profunda solidão. 

 

A solidão é considerada como um flagelo oculto da vida moderna. O conhecido professor da Universidade Harvard, Robert Waldinger afirma que “A solidão mata. É tão forte quanto o vício em cigarros ou álcool”, outros estudos afirmam que o grande problema do ser humano não é o colesterol aos 50, mas a ausência de relacionamentos significativos aos 50. 

 

Pesquisadores avaliaram que a força dos relacionamentos reduz a necessidade de vícios e freiam a degeneração mental durante a velhice. A chave para a velhice saudável são os relacionamentos.

 

Entre muitos fatores dois cooperam tremendamente para a solidão. Primeiro, a condição financeira. Pessoas ricas embora sejam cortejadas e admiradas, vivem vida mais solitária, pois se relacionam geralmente com as pessoas de forma burocrática e funcional. 

 

Outro fator, é o distanciamento comunitário. A Inglaterra sempre foi um país com forte experiência religiosa. Cultos, missas, encontros de igreja e associações, tendem a unir pessoas e quebrar a solidão. Centros comunitários, atividades em comum, solidariedade e envolvimento em projetos sociais nos livram da armadilha de uma vida ensimesmada e solitária. Ultimamente, porém, a igreja perdeu seu lugar central e as pessoas estão vivendo cada vez mais isoladas e deprimidas. Sabe o que o governo inglês decidiu fazer? Criar o "Ministério da Solidão". Isto mesmo... um ministério público voltado para cuidar dos idosos que vivem sozinhos em grandes casas ou pequenos apartamentos... 

 

C.    Precisamos restaurar relacionamentos quebrados – “Toma contigo Marcos, e traze-o, pois me é útil para o ministério” (2 Tm 4.11). 

 

A relação de Paulo com João Marcos é conhecida na Bíblia. Na primeira viagem missionária, em Atos 13, Barnabé e Saulo levaram João Marcos, que por alguma razão não declarada na Bíblia, abandonou o grupo quando estavam em Perge da Panfília. Comentaristas acreditam que eles estavam lidando com ministério de misericórdia e lidando com muitos problemas de saúde e por ser ainda jovem, Marcos ficou com medo dos desafios e decidiu voltar para casa. (At 13.13). 

 

Paulo visivelmente não gostou da atitude de João Marcos, e na segunda viagem, quando Barnabé quis novamente levá-lo, Paulo não concordou e o texto nos dá a entender que as discussões entre os dois sobre este assunto não foram muito fraternas: “houve entre eles tal desavença, que vieram a separar-se” (At 15.39). A situação se tornou irreconciliável a ponto de se separarem, criando assim duas frentes missionarias (At 15.39,40). 

 

Paulo entendia que se alguém falhou uma vez, não dava para fazer mais concessões. Eles se distanciaram. Mas agora, o tempo passou, e a frase de Paulo, “traze-o, pois me é útil para o ministério”revela que os relacionamentos não ficaram quebrados. Era necessário tratar o assunto. 

 

Isto nos leva a considerar que, se estamos preocupados com nosso cuidado pessoal, precisamos aprender a restaurar relacionamentos quebrados. 

 

D.   Precisamos lidar com feridas – “Alexandre, o latoeiro, causou-me muitos males; o Senhor lhe dará a paga segundo as suas obras” (2 Tm 4.14).

 

Não sabemos o que aconteceu. Provavelmente maledicência. Existem pessoas que são ferinas na sua língua, deixam feridas e causam dores. 

 

O que fazer nestas situações?

A única saída é deixar de fato tal situação nas mãos de Deus. Ele é quem vai resolver. “O Senhor lhe dará a paga”. Isto tem a ver com o princípio bíblico: “Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira de Deus, porque assim está escrito: eu retribuirei, diz o Senhor” (Rm 12.19).

 

Sempre temos a grande tentação de nos explicarmos ou de contra-atacarmos. Mas a orientação bíblica é a de deixarmos tal situação nas mãos do Senhor. Ele é a nossa defesa. Ele vai fazer o que precisa fazer. “A ira do homem não produz  a justiça divina” (Tg 1.20). Todas as vezes que queremos resolver as coisas “do nosso jeito”, o resultado é sempre catastrófico. 

 

Paulo sofreu muitos danos pelas atitudes de Alexandre, entretanto entendeu que isto não era para ele pessoalmente resolver. Deus é quem deveria cuidar disto. Não era sua responsabilidade. Sua tarefa era deixar Deus ser Deus. Apenas isto. Descansar na justiça de Deus. 

 

4.     Cuide da alma: Não perca a compreensão de quem é Deus.

 

Paulo estava vivendo dias difíceis: solidão, abandono, frio chegando, amigos partindo, acusações, apostasia de amigos, mas no meio de todas estas coisas, vemos que ele nunca perdeu a compreensão de seu chamado e ministério. “Mas o Senhor me assistiu e me revestiu de forças, para que, por meu intermédio, a pregação fosse plenamente cumprida, e todos os gentios a ouvissem, e fui libertado da boca do leão” (2 Tm 4.17). 

 

Sublinhe a expressão ‘’ para que”, que surge no texto. No meio de toda a turbulência, Paulo entende que todas as coisas que lhe acontecem, cumprem o propósito de Deus em permitir que, desta forma, a pregação fosse plenamente cumprida e os gentios, ou descrentes e pagãos, pudessem ouvir a mensagem. Paulo nunca se sentiu vítima da situação, nem teve pasmos de auto comiseração. A situação era aparentemente caótica, mas Deus estava revestindo sua vida de força, para que a palavra de Deus chegasse aos ouvidos daqueles que precisavam da salvação. 

 

O foco da sua história não tinha a ver com ele, mas com a obra de Deus. Deus estava entrelaçando a história, da forma como ela se desenhava, para cumprir seus santos propósitos. 

 

Paulo não perdeu o foco de Deus, que tinha o controle de todas as coisas. Nem da razão de sua existência: ser instrumento de Deus. Muitas vezes ficamos perturbados com os eventos que nos acontecem, esta é uma forma equivocada de vermos a situação. Não deveríamos olhar nossa vida numa perspectiva natural dos fatos, mas numa dimensão sobrenatural dos eventos. 

 

Paulo não perdeu o foco. Não deixou que a pesada situação se transformasse na essência de sua vida. A essência de sua vida estava em Deus, os fatos eram eventos secundários.

 

Paulo enumera seis aspectos do cuidado de Deus. 

Paulo vê em todos os eventos naturais, a presença sobrenatural de um Deus providente, amoroso e santo. “Mas o Senhor me assistiu e me revestiu de forças, para que, por meu intermédio, a pregação fosse plenamente cumprida, e todos os gentios a ouvissem; e fui libertado da boca do leão. O Senhor me livrará também de toda obra maligna e me levará salvo para seu reino celestial. A ele, glória pelos séculos dos séculos. Amém!” (2 Tm 4.18). 

 

i.               Deus nos assiste - “Mas o Senhor me assistiu”. Embora os homens nos abandonem, Deus sempre estará ao nosso lado.

ii.              Deus nos fortalece: “Mas o Senhor ... me revestiu de forças”. Muitas vezes nos sentimos desencorajados e desanimados com a situação, mas o Senhor nos renova.

iii.            Deus usa as situações catastróficas para cumprir seu propósito: “para que, por meu intermédio, a pregação fosse plenamente cumprida”. Paulo estava preso, mas a palavra de Deus não estava algemada. Na prisão Deus estava usando Paulo como seu precioso instrumento. É bom perceber isto nos dias maus. 

iv.            Deus nos protege de forças políticas e históricas: “fui libertado da boca do leão”. Provavelmente Paulo está se referindo ao fato de que, apesar de toda oposição judaica, e toda fraqueza do sistema romano de leis, Deus lhe deu vitória. Não foram os poderes e sistemas os vitoriosos, mas Deus. 

v.             Deus o protege do diabo: “O Senhor me livrará também de toda obra maligna”. A ação de Satanás não pode nos atingir. O diabo não tem poder sobre nossa vida. Não estamos nas mãos das entidades e poderes malignos, mas nas mãos de Deus. 

vi.            Deus garante vida eterna: “O Senhor ... me levará salvo para seu reino celestial” . Satanás ou poderes humanos, jamais poderão impedir que a obra maravilhosa da cruz, seja ineficaz sobre nossas vidas. Deus tem um projeto para nossa vida, e esta obra só se consumará na eternidade. 

 

 

Conclusão: 

 

Precisamos cuidar sabiamente da nossa vida: 

cuide dos seus relacionamentos, 

cuide de seu corpo, 

cuide de sua mente, 

cuide da alma. 

 

Mas Paulo vai falar ainda de outra coisa muito mais importante que se encontra neste texto, e que vale a pena refletir, porque ele é central na nossa teologia cristã. “A ele, glória pelos séculos dos séculos. Amém!”  

 

Este deve ser o foco central daqueles que amam a Deus. Glorificá-lo sempre.

O fim principal do homem redimido e regenerado pela graça de Cristo é dar glória a Deus. Deus precisa ser o centro de nossa existência. 

 

Muito do nosso sofrimento tem a ver com a incapacidade nossa de entender que a glória deve ser sempre dada a Deus. Paulo estava preso, mas sua alma estava livre. Seu coração tinha uma santa obsessão: Deus precisa ser glorificado em minha vida. E ele conclui esta perícope falando exatamente disto. A ele seja a glória pelos séculos dos séculos. 

 

Aqui se encontra a centralidade do nosso culto, a razão do nosso viver. 

Somos chamados para dar glória a Deus.

 

Soli Deo Glori

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Js 3.1-7 Como a igreja deve caminhar?




 

 

Introdução:

 

Um dos grandes desafios para a eclesiologia é entender exatamente a natureza e a missão da igreja. Quando falamos da natureza, estamos pensando na sua essência, o que ela é. Quando falamos de missão, o seu chamado: o que ela faz.

 

Natureza da igreja

A igreja muitas vezes é equivocadamente definida de forma institucional. Uma definição falha e equivocada. Neste sentido podemos afirmar que ela é pentecostal, reformada, tradicional ou sacramental. Entretanto, por ser institucional, refere-se apenas às dinâmicas sociais e humanas. É uma definição pobre.

 

A igreja pode ser definida de forma denominacional. Uma definição relativa porque se refere a um aspecto distintivo dela como a forma de governo: episcopal, congregacional, presbiteriana (conciliar) etc., ou a uma doutrina, como no caso do batismo. 

 

A igreja precisa de uma definição que seja sobrenatural ou “mística”. Apesar deste termo abrigar algumas errôneas interpretações, gosto desta ideia. Uma igreja que vai além da sua estrutura temporal e humana. Traz uma ideia de sagrado, de eterno. 

 

Na Bíblia, existem algumas definições  de igreja, como lavoura e edifício de Deus, mas nenhuma é tão completa quanto a ideia de “Corpo de Cristo”. Corpo fala de algo orgânico, que é bem mais que uma mera organização. E aponta para o fato de que existe um cérebro, uma cabeça, que é Cristo. o corpo obedece às ordens dadas pelo sistema nervoso central. Ela é a extensão de Cristo, e age na história procurando ser seus braços, suas mãos, suas pernas. Seu chamado é para fazer a liturgia de Deus no meio dos homens, revelar um Deus acima de tudo.

 

Missão da igreja

Quando pensamos na missão, estamos nos referindo àquilo que a igreja deve fazer na história. Para que existe a igreja? Qual é o seu papel? 

 

Quando a liderança da igreja discutia a missão da igreja, chegamos à seguinte frase: “Nossa igreja existe para glorificar a Deus através da pregação da palavra e do ensino, cuidando das famílias, criando relacionamentos, sendo parceira da evangelização no mundo”. Observe que a primeira frase nossa afirma que “Nossa igreja existe para glorificar a Deus!”

 

Este é o propósito central da igreja.

O propósito central da igreja não é fazer missão, nem evangelizar, nem cuidar das famílias, pregar o evangelho e criar relacionamentos saudáveis. Todas estas coisas são desejáveis e boas, mas não é o centro. O alvo é glorificar a Deus. Se fizermos muito, mas não trouxermos glória a Deus, fracassamos na razão central de sua existência. Todos estes aspectos citados são meios, mas não o fim. Meios são métodos e caminhos pelos quais alcançamos nosso fim, que é trazer glória para o nome de Deus. 

 

Um olhar em Josué 3

 

O povo de Deus tinha saído de Sitim, onde esteve acampado por um longo tempo. Agora este povo chegou ao rio Jordão. Era a hora da travessia. Eles iriam finalmente entrar na terra santa. Mas curiosamente param ali por três dias. Parar uma caravana como esta não era tarefa fácil: os acampamentos tinham que ser montados, as barracas estendidas, e as barracas daquele tempo não eram simples e práticas como as atuais. 

 

Por que então pararam?

Por que não foram direto para Canaã?

Certamente era tempo de reflexão e planejamento...

 

Eles precisavam estabelecer como seria a caminhada deles dali para a frente.

Três dias depois, os líderes, sob a orientação de Josué, começam a dar as coordenadas. Davam as diretrizes de como deveriam caminhar. 

 

Podemos observar neste texto várias orientações de como o povo de Deus deve caminhar, e todas elas são aplicáveis ainda hoje, à nossa vida.

 

Primeiro, o povo de Deus não deve se mover, enquanto Deus não iniciar o processo.

 

“...e ordenaram ao povo, dizendo: Quando virdes a arca da Aliança do Senhor, vosso Deus, e que os levitas sacerdotes a levam, partireis vós também do vosso lugar e a seguireis.” (Js 3.3)

A arca da aliança era sagrada. . A arca simbolizava a presença de Deus no meio do povo de Israel. O povo só deveria se mover, quando a arca do Senhor se movesse. Só deveria sair quando o Senhor dissesse que era a hora de sair. 

 

Não sabemos o que foi feito desta arca na história, e ainda hoje arqueólogos procuram pistas para descobrir onde ela se encontra. Existem comunidades místicas ao redor do mundo que se consideram guardiões da arca, e até “Indiana Jones” saiu à sua procura. Felizmente ela nunca foi encontrada. Não sabemos o que aconteceu, mas é bom assim, porque do contrário ela se transformaria em objeto de idolatria. Dentro da arca se encontrava as tábuas da Lei que Deus deu a Moisés, a vara de Arão, e porções do Maná. 

 

Movimento implica em desestabilização. O povo vivia em tendas. Teria que montar e desmontar. A própria natureza da arca era móvel. Feita com argolas e tinha varas compridas que eram usadas para carregar a arca (Ex 25.10-16). 

 

Quando a arca saísse, deveriam sair. Todo movimento dependia não de si mesmos, mas no movimento que Deus ordenasse. Este é o conceito da igreja missional de Leslie Newbigin. Ele afirma que Deus nunca deixou de se mover na história e a função da igreja é identificar este movimento de Deus e estar disponível para participar com ele. Devemos estar à disposição de estar onde Deus está. Rick Warren afirma que a função da igreja não é fazer ondas, mas aprender a surfar nas ondas de Deus. 

 

Assim se deu cerca de 10 anos atrás em nossa comunidade. A liderança da igreja entendeu que por causa do crescimento da igreja era necessário dar um passo a mais e adquirir uma área maior para construir um templo maior. Assim compramos 20 lotes próximos à Avenida Brasil Sul, com ótima acessibilidade e visibilidade. Estávamos pensando no projeto quando um dos presbíteros me procurei e disse que achava que esta área era tímida demais, e que precisávamos de um sonhar numa área maior. Eu lhe disse que na igreja presbiteriana os processos são sempre lentos, que se isto acontecesse, deveríamos submeter ao conselho, e posteriormente à aprovação da assembleia. Ele procurou algumas pessoas até que um empresário da cidade, que não é crente, soube do projeto da igreja e resolveu doar um Clube desativado com 111 milM2, e decidiu doar à igreja. 

 

Estamos como quem sonha. Quando ele nos disse que sua família queria deixar um legado à cidade, eu afirmei que entendia o coração deles e que era grato por isto, mas que agora, o grande desafio nosso era, com reverência, entender o que Deus queria que fizéssemos. Afinal, “A quem muito é dado, muito é exigido”. Desde então, mudamos nosso itinerário e propósito anterior.

 

Estamos agora na fase do projeto do novo templo para 2000 pessoas. Mas ainda continuamos entendendo que se o Senhor não estiver conosco, todo nosso esforço será desperdício de tempo, foco e energia. Mas se este movimento é de Deus, precisamos ser cooperadores com ele.

 

A igreja deve se mover quando Deus se move.

 

Segundo, a igreja deve se mover com reverência 

 

“Contudo, haja a distância de cerca de dois mil côvados entre vós e ela. Não vos chegueis a ela.” (Js 3.4). 

 

As pessoas deveriam seguir, mas não poderia se aproximar demais da arca. A distância deveria ser de, no mínimo, 900 metros. Precisavam estar visualizando a arca, mas não poderiam estar perto demais.

 

Isto é algo desafiador para a forma como a igreja deve caminhar. É fácil perdermos a reverência necessária quando lidamos com coisas sagradas e banalizar as coisas de Deus. Dessacralizar o Sagrado.

 

Cerca de 300 anos depois, isto aconteceria. A arca de Deus foi parar em um lugar na Samaria chamada Siló (em Hebraico Shiloh). Quando Davi se tornou rei, conquistou Sião e resolveu transformar Jerusalém na sede do governo, trazendo consigo a Arca. Um dos responsáveis por trazer a arca era Uzá, mas ele tocou na arca e morreu instantaneamente. Davi ficou assustado com isto, mas entendeu a lição. Lidar com coisas sagradas exige reverência. Não podemos brincar com isto. 

 

Se os líderes atuais entendessem isto, a igreja de Cristo seria outra. Pastores, músicos, sacerdotes, levitas, todos precisamos entender que estamos lidando com coisa séria, não estamos brincando de Deus, precisamos nos aproximar das coisas de Deus de forma reverencial. “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria”, quando nos esquecemos quão Santo é o nosso Deus, podemos fazer as coisas de forma leviana.

 

A igreja deve se orientar pela presença de Deus (o movimento da arca), mas não pode banalizar, nem perder o temor. 

 

Terceiro, a igreja deve se mover sob a orientação de Deus

 

Não vos chegueis a ela, para que conheçais o caminho pelo qual haveis de ir, visto que, por tal caminho, nunca passastes antes.” (Js 3.4)

 

Quem deve mostrar o caminho é Deus. Josué disse ao povo: vocês nunca passaram por este caminho antes, então, deixe que Deus os oriente.

 

O Salmo 127 afirma: 

“Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam; se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela. Inútil vos será levantar de madrugada, repousar tarde, comer o pão que penosamente granjeastes; aos seus amados ele o dá enquanto dormem.” (Sl 127.1,2).

Não podemos fazer nada sem a orientação de Deus. E às vezes isto implica em drástica mudança de rumos.

 

Veja a experiência do povo de Deus em Atos 16. Paulo estava fazendo uma viagem missionária, e eles fizeram um projeto. Contudo, este projeto não foi aprovado por Deus. 

 

“E, percorrendo a região frígio-gálata, tendo sido impedidos pelo Espírito Santo de pregar a palavra na Ásia, defrontando Mísia, tentavam ir para Bitínia, mas o Espírito de Jesus não o permitiu.” (At 16.6,7).

 

Dois projetos foram elaborados, mas Deus não permitiu. Foram impedidos de pregar na Ásia, que era o caminho que haviam traçado; tentaram ir para Bitinia, e Deus também disse não. Então se dirigiram para Trôade. O que fizeram ali? O texto não fala de nenhuma ação missionária naquela cidade. Se observarmos bem, veremos que, esta cidade foi essencial para que recebessem a visão de Deus. Era um tempo de espera, oração, reflexão. O que o Senhor está querendo nos mostrar? Então, Deus lhes falou: “passa a Macedônia e ajuda-nos”. Eles deveriam ir numa direção diametralmente oposta à que haviam traçado anteriormente. 

 

Duas coisas me chamam atenção neste relato bíblico: primeiro, que o Espírito não permitisse que a ação missionária se desenvolvesse na direção que queriam. Justamente o Espírito Santo que é o energizador das missões na Bíblia. Segundo, a capacidade deles em ouvirem o que Deus estava falando. Nem sempre estamos ouvindo o que Deus está nos dizendo e fazemos as coisas da nossa maneira. Ao ouvirem a voz, se dispuseram imediatamente a obedecer à orientação de Deus. 

 

Assim deve caminhar a igreja. A arca precisa ir adiante. A presença de Deus deve orientar. Não projetos particulares ou desenhos humanos, mas o próprio Deus. 

 

Quarto, a igreja deve caminhar em santidade

 

“Disse Josué ao povo: Santificai-vos, porque amanhã o Senhor fará maravilhas no meio de vós.”(Js 3.5). 

 

Não podemos caminhar sem vida de santidade. Os puritanos falavam de “culto puro, teologia pura, ética pura, igreja pura”. Não podemos abrir mão de santidade se queremos as bençãos de Deus. A igreja de Cristo deve caminhar em justiça, irrepreensibilidade. Os escândalos trazem muito dano à igreja. 

 

Santidade é o oposto de leviandade.

 

Quando recebemos a doação do terreno onde construiremos nosso futuro templo, fizemos a solicitação da isenção da taxa de doação. Toda doação incide um imposto sobre o valor do imóvel que vai de 2%-8%, mas a igreja é isenta. Mas é necessário um protocolo na Secretaria da Fazenda. Quando levamos nosso pedido, a delegada, mau humorada, de certa forma deu a entender que a doação era muito grande e que haveria certa suspeita sobre o caso (embora ela não tivesse dito isto diretamente). Então eu lhe disse que nossa igreja já existia há 65 anos, que durante todo este tempo não havia nenhuma acusação sobre nós, ou processos na justiça, causas trabalhistas e cheques sem fundo. Nós estávamos sustentando duas escolas na periferia da cidade, e tivemos por 50 anos o único albergue da cidade. Ela ficou meio desconcertada, e ainda assim enviou o processo para Goiânia, que foi aprovado sem maiores problemas. 

 

A igreja de Cristo precisa caminhar em santidade. 

O texto nos ensina uma verdade preciosa: “Santificai-vos, porque amanhã o Senhor fará maravilhas no meio de vós.” Se queremos ser abençoados por Deus, e experimentar maravilhas, precisamos de santidade. Muitas vezes queremos benção sem santidade, mas Deus não pode abençoar a infidelidade e o pecado.

 

O compositor Nani Azevedo fez uma música que diz: “eu não correrei atrás de bençãos, sei que elas vão me alcançar”. Benção é resultado de uma vida piedosa. Benção não é alvo, é consequência. Muitos querem as bençãos de Deus mas não o Deus das bençãos. 

 

Se a igreja deseja benção, precisa caminhar em santidade. Santidade abre o caminho para que a graça seja abundantemente derramada sobre nossas vidas. 

 

Quinto, caminhe com a compreensão de que “o Deus vivo está no meio de vós”.

“Disse mais Josué: Nisto conhecereis que o Deus vivo está no meio de vós.” (Js 3.10). 

Será que entendemos realmente esta grande verdade? Que o Deus vivo está no nosso meio?

 

Nesta semana estivemos durante toda uma semana orando pelo ano e pela vida da igreja. Por que oramos? Se não entendermos que o Deus vivo está no nosso meio, certamente orar é um ato tolo e vazio. Sem a compreensão de que este Deus vivo se move no nosso meio, a igreja pode deixar de ser um movimento para se tornar um monumento. Ela pode perder a sua percepção sobrenatural para se tornar uma instituição meramente humana.

 

Deus anda no meio do seu povo.

Quando estudamos as cartas de Jesus enviada às sete igrejas no livro de Apocalipse, veremos que Jesus afirma a todas que andava no meio delas. “Ao anjo da igreja em Éfeso escreve: Estas coisas diz aquele que conserva na mão direita as sete estrelas e que anda no meio dos sete candeeiros de ouro.”(Ap 2.1)



Além desta afirmação ele sempre diz: 

“Conheço as tuas obras” (Ap 2.2) – Éfeso

“Conheço a tua tribulação” (Ap 2.9) – Esmirna

“Conheço o lugar em que habitas” (Ap 2.13) – Pérgamo

“Conheço as tuas obras” (Ap 2.2) – Tiatira

“Conheço as tuas obras” (Ap 3.1) – Sardes

“Conheço as tuas obras” (Ap 3.8) – Filadélfia

“Conheço as tuas obras” (Ap 3.15) – Laodicéia

 

Por andar no meio do seu povo, ele conhece a realidade de cada uma de suas igrejas. Afinal, “o Deus vivo está no meio de vós” 

Nunca podemos nos esquecer desta verdade maravilhosa da presença de Deus no meio de sua igreja, caminhando com o seu povo.

 

Conclusão 

 

Como este texto nos faz entender o evangelho?

Jesus formou sua igreja. A igreja foi comprada com o seu sangue. O seu projeto era construir um povo para louvor da glória de Deus e para proclamar a redenção que existe por meio do seu sangue. Ele morreu para criar uma comunidade e formar esta nova sociedade de Deus. Ele comprou esta igreja com seu sangue, a igreja de Cristo existe na história para ser o corpo de Cristo, agente de Jesus na sociedade em que se encontra.

 

Jesus é quem criou, sustenta e edifica sua igreja. Este é o povo de Deus pelo qual Cristo morreu.

 

Esta igreja deve caminhar sob alguns pressupostos:

1.     Não deve se mover, enquanto Deus não iniciar o processo.

2.     Segundo, a igreja deve se mover com reverência 

3.     Terceiro, a igreja deve se mover sob a orientação de Deus

4.     Quarto, a igreja deve caminhar em santidade

5.      Quinto, deve caminhar com a compreensão de que o Deus vivo está no meio dela.