O texto de Marcos 6, versículo 31, narrado depois da morte de João Batista, nos mostra como Jesus sabiamente lida com a dor, o cansaço e a tristeza. Certamente havia um clima de muita tensão no coração de Jesus, porque seu precursor e primo, João Batista, havia sido assassinado de forma violenta e estúpida por uma liderança inescrupulosa numa festa de aniversário de mau gosto. Jesus deveria estar arrasado com as notícias que ele havia acabado de receber.
Joao Batista foi um homem admirável. Jesus afirma que “dentre os nascidos de mulher, ninguém foi como João Batista.” (Mt 11.11) Certamente esta é uma afirmação que demonstra quão especial ele era, fala um pouco de sua espiritualidade, caráter e alma. Aquela vida preciosa, havia sido eliminada num gesto de arrogância e estupidez.
Os discípulos também estavam tristes com toda essa situação e talvez temendo até pelas suas próprias vidas. Viver nos dias de Herodes era muito arriscado. A vida dos seres humanos e das crianças não valia quase nada, esta dura realidade estava presente em Herodes, o Grande, responsável pela chacina das crianças em Belém e Herodes Antipas, que governa nos dias do ministério de Cristo.
Quando lemos o versículo 30, temos a impressão de que está tudo bem. Os discípulos voltaram trazendo relatório de suas atividades e relatando tudo que tinham feito e ensinado, ainda que houvesse um ambiente fúnebre ao seu redor. Jesus aparentemente não valoriza e nem se impressiona com as estatísticas e nem com o relatório que trazem, mas os convida para um tempo de reflexão, de silêncio. No versículo 31 ele diz: “Venham repousar um pouco a parte, num lugar deserto.” Enquanto os discípulos viam as oportunidades do ministério, Jesus via a necessidade de descanso, de dar uma parada, de refletir. Era necessário ter um tempo para o luto e para a dor.
Este texto parece demonstrar que a atitude dos discípulos é a mesma nossa. Diante da dor e do stress, para encobrir a tristeza, falamos das nossas atividades, performance, resultados. É uma cortina de fumaça: tentamos disfarçar. Jesus, entretanto, com profunda sensibilidade, via a dor e o sofrimento mesmo diante dos bons relatórios, e com sensibilidade os convida, não a dar mais velocidade, nem a fazer mais, mas a descansar, os desafia a desacelerar.
O que Jesus fez com seus discípulos é muito importante para nossos dias. Somos uma sociedade da ação, que vê as oportunidades e não quer perder nenhuma delas, somos encorajados a olhar para os relatórios e resultados, mas Jesus os convida a parar, refletir, colocar as emoções em ordem. Não dar mais velocidade, mas a aprender novamente o valor da quietude. No meio de todo sucesso dos relatórios, Jesus os convida a uma pausa, a repousar, num lugar deserto, dar tempo ao coração para se organizar. Eles estavam estressados.
Este texto se tornou muito importante para mim nestes últimos dias. Tenho vivido de forma nunca antes percebida, e tive um cansaço extremo nestes últimos dias. Um dia destes liguei para um colega de equipe e pedi para que ele me substituísse de última hora na escala de pregação, e noutra ocasião cheguei até mesmo a me dar ao luxo de não ir ao culto vespertino, já havia participado de dois, mas sentia-me esgotado e decidi ficar em casa...precisava parar. Minha esposa percebeu que algo não estava correto, afinal, este não é um procedimento normal para alguém tão rigoroso. Meu corpo, começou a dar sinais. O corpo funciona como uma espécie de termômetro, e em 2 meses tive quatro gripes. O sistema imunológico não estava bem.
Outros sintomas que percebi estavam relacionados a questão da produção intelectual, dificuldade em ser criativo, em escrever um artigo ou organizar um texto, e até mesmo preparar um sermão. Estou com muita coisa boa pronta, precisando organizar, mas simplesmente não estou conseguindo gastar minha energia com qualquer coisa relacionada à produção.
Outro aspecto é a irritação. Na última reunião do conselho, temas simples de discussão me irritaram. Com anos de liderança, aprendi a controlar a irritabilidade e a administrar a ira, mas ao voltar sozinho para casa eu estava zangado com alguns temas suscitados e me perguntei: Esta irritação é proporcional ou estou overreacting?
"Overreacting" significa reagir exageradamente a uma situação, com uma resposta emocional ou de comportamento muito mais intensa do que o necessário, causando problemas, estresse desnecessário e ansiedade; pode ser uma resposta interna (revisitar situações) ou externa (explosões de raiva), e frequentemente está ligada a ansiedade ou outras questões internas.
Decidi também que era hora de deixar de dar aulas no seminário. Depois de 23 anos como professor, entendi que era hora de dizer adeus. Nunca tive tanta dificuldade em entregar as notas dos alunos como antes, e só corrigi os trabalhos, tarefas e provas, quando meu prazo limite chegou. Me sentia cansado ao corrigir o conteúdo e uma tarefa relativamente simples agora se tornava estressante e nauseante. Dar aulas, algo que era prazeroso, se tornou arrastado e cansativo. Nunca conversa com meu irmão mais velho ele me perguntou: “você não está cansado de dar aulas?” Minha resposta foi imediata, quase automática: “Estou!”
Neste final de ano decidi desacelerar depois de uma verdadeira maratona de palestras. Só nos EUA estive duas vezes ministrando em conferências, uma em setembro outra em outubro. Sinto que preciso “repousar um pouco a parte, num lugar deserto.” Tenho percebido este cansaço e estou tentando desacelerar e encontrar o equilíbrio, minha homeostase.
A música “Sê valente” de Marcos Almeida, fez muito sentido para mim:
“Desaprendi a ouvir o som da voz do Eterno,
quis segurar no que eu fiz, me revirei no passado.
Não sei cantar, vem ensinar agora; não sei calar, deixa eu te ouvir agora.
Desaprendi a encarar a solitude da alma,
no abandono, o pavor, a insustentável fraqueza.
Não sei ficar, ficar sozinho agora.
Eu tenho Você, mas o meu medo estraga.”
A palestra de Wayne Cordeiro, “Líderes correndo, porém mortos”, está sempre me fazendo lembrar da necessidade de “abastecer meu tanque emocional”, e com a ajuda da Inteligência Artificial, elaborei algumas perguntas de reflexão, que tem me ajudado a pensar sobre minha condição:
1. Diagnóstico Pessoal
· Onde você sente que seu “tanque emocional” está mais vazio hoje?
· Quais situações recentes drenaram mais energia e prazer da sua rotina?
· Que sinais seu corpo e sua mente dão quando o tanque está chegando ao limite?
· O que você tem feito repetidamente que não te devolve alegria, só consome?
2. Prazer e Renovação
· O que você fazia e amava, mas abandonou?
· Quais atividades simples te devolvem prazer em pouco tempo?
· Quando foi a última vez que você riu de verdade, descansou de verdade, celebrou de verdade?
· Quais relações enchem sua alma? Quais drenam?
3. Vulnerabilidade e Realidade
· Se alguém olhasse para sua agenda, ela revelaria a sua identidade… ou apenas sua pressão?
· Em que momento você percebeu que estava operando “no vermelho”?
· O que você mais tem medo de admitir sobre sua exaustão?
4. Propósito e Sentido
· O que você faz hoje que tem muito peso e pouco sentido?
· Se você pudesse escolher uma mudança de hábito, qual devolveria prazer imediato?
· Você ainda sente paixão pelo chamado, ou só obrigação?
5. Prática para o grupo
· Qual é uma decisão simples que você pode tomar esta semana para reabastecer?
· Quem na sua vida pode ajudar a cuidar do seu tanque?
· Quais limites você precisa estabelecer?
Não sei se você está interessado neste assunto e gostaria de aprofundar o seu coração nestes tópicos, mas acredito piamente naquilo que Soren Kierkegaard afirmou: “Uma vida não analisada, não é uma vida digna de ser vivida.” Muitas vezes o que nos paralisa é o medo de abandonar a versão fraca de nós mesmos que protegemos. Nem sempre é fácil se olhar no espelho, e ver nossas fraquezas e vulnerabilidades, mas só cresceremos se conseguirmos lançar luz nas sombras e porões escuros que obscurecem nossa compreensão de nós mesmos, da vida e de Deus.

Todos nós temos o direito de cansar e descansar.
ResponderExcluirLouvado seja Deus pela sua vida. Há mais de 25 anos tive o privilégio de conhecê-lo pessoalmente, e você sempre foi esse pastor comprometido com Deus, com a Igreja local e com o reino de Deus. Você sempre foi e ainda é um exemplo de pastor fiel a Jesus e as Escrituras Sagradas.
ResponderExcluirQue Deus possa te abençoar com o descanso necessário, restaurar completamente sua saúde e orientá-lo com sabedoria diante das limitações.
Que Deus continue sendo louvado por sua Vida e ministério. Gratidão a Deus por sua Vida.