sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Jz 2.6-15 Comunicando Deus à próxima Geração

 


Introdução

 

Este texto nos é perturbador.

 

Ele descreve a dramática situação dos filhos de Israel logo após a morte de seu grande líder Josué (Jz 2.10-11). Logo após sua morte, os filhos que nasceram, perderam completamente a compreensão de quem era o Deus de seus pais, não eram capazes de amar Deus e se envolveram com outros deuses da terra como Astarote e Baal.

 

Sempre que falamos da nova geração duas perguntas são necessárias:

 

A. O Evangelho vai chegar aos teus filhos e netos ou vai morrer em você?

 

B. Se chegar à próxima geração, que tipo de Evangelho será: autêntico ou diluído?

 

A verdade é que temos o grande desafio de fazer o Evangelho chegar às próximas gerações:

 

Fui pastor por muitos anos numa das regiões mais secularizadas dos Estados Unidos: chamada de New England, no Nordeste daquele país. Nesta região, dois grandes avivamentos se deram 200 anos atrás. O primeiro com Jonathan Edwards, cujo fogo varreu as maiores cidades da região. Se uniu a Edwards, vindo da Inglaterra o avivalista Charles Whitefield, que chegou a pregar a 7 mil pessoas, no pátio central da Universidade de Harvard, sem nenhum recurso de som, apenas na potência de sua voz.

 

O segundo grande avivamento, se deu tempos depois, com o ministério de Charles Finney, que alastrou como fogo, começando em New York Upstate, atingindo New York e Boston.

 

Duzentos anos depois, entretanto, a realidade desta região é lamentável do ponto de vista espiritual. As igrejas estão vazias, prédios históricos deixaram de funcionar como igreja, o Evangelho perdeu completamente sua influência. Os historiadores chamam este período atual de “Pós-cristianismo”. Os templos foram se esvaziando e transformando em museus, bares e boates ou transformadas em sofisticados condomínios. Na região central de Boston estima-se que os que se consideram “nascidos de novo”, são apenas 0.5% da população.

 

Perguntas têm sido levantadas sobre as razões desta apostasia? Pelo menos três elementos podem ser apontados:

 

            a)- Liberalismo teológico – A Palavra de Deus deixou de ser considerado o último critério de validação da fé. Deixou de ser inspirada, inerrante e suficiente e se tornou relativa. Dos sete seminários evangélicos da região, apenas um pode ser considerado bíblico: O Gordon Conwell, no qual tive oportunidade de estudar, e também de ser professor. A neo-ortodoxia invadiu a teologia evangélica e o dano até hoje é irreparável.

 

            b)- Incapacidade de entender o contexto - Compramos um templo em Cambridge, cuja comunidade tinha apenas 12  membros, e negociamos o imóvel com o líder que era o caçula do grupo e estava com 82 anos. O que aconteceu com aquela comunidade? A cidade mudou a sua configuração e a igreja não percebeu.  Aquela que outrora fora uma cidade do subúrbio de Boston, agora se tornara uma metrópole. Cresceu grandemente em número de habitantes, mas a igreja não soube entender o que estava acontecendo e nem tirar proveito daquele momento para anunciar o evangelho aos imigrantes, latinos e asiáticos, e aos negros que passaram a residir na vizinhança. O evangelho deixou de ser comunicado de forma relevante e a próxima geração se distanciou.

 

            c)- Os pais não souberam transmitir o Evangelho aos seus filhos – Os jovens daquela igreja, simplesmente se dispersaram. O cristianismo deixou de ser importante para suas vidas e as verdades do Evangelho não foram traduzidas para suas vidas nem comunicada de forma eficiente. Os filhos se tornaram críticos da igreja e deixaram de amar a Deus. Com isto a igreja se esvaziou ficando apenas um pequeno grupo remanescente fiel.

 

Contexto

 

Ao lermos o livro de Juízes, observamos que o povo de Deus havia enfrentado as piores batalhas. A conquista não foi algo fácil. Guerras, mortes, enfrentamento. Com a graça de Deus, contudo, a terra foi conquistada e isto trouxe estabilidade, conforto e segurança. A velha liderança morreu, já fazia 70 anos. Na hora de desfrutar as conquistas, algo trágico porém acontece. A nova geração não conheceu Yawé (Jz  2.11). Veja o contraste com o vs. 7, que fala de uma geração fiel. O que aconteceu entre uma geração e outra? Qual é a diferença Entre uma e outra? Por que a fidelidade a Deus evaporou?

 

O que gerou esta situação?

 

1.  Não houve transição entre uma geração e outra – “...e outra geração após eles se levantou, que não conhecia o Senhor, nem tampouco as obras que fizera a Israel.”(Jz 2.10).

 

Este texto é inquietante. A velha geração não transmitiu à nova geração o conhecimento de Deus. Eles não apenas não conheciam a Deus, mas não sabiam nada dos feitos grandiosos de Deus. O pacto, alianças e chamados dados por Deus, não foram transmitidas à nova geração, que não soube das obras que o Senhor efetuara em Israel. Os pais não contaram a história do livramento que Deus fizera a Israel e como Deus os havia trazido com mão forte àquele lugar. Os filhos não conheciam a história do povo de Deus, os pais não lhes relataram.

 

Nossos filhos precisam ouvir as verdades eternas.

O povo de Deus era instruído sobre isto:

Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tuca casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te.” (Dt 6.4-6)

 

Precisamos discernir esta nova geração para saber como deveremos comunicar de forma eficiente, as boas novas do Evangelho. Lewis Rath, educador, define algumas características das crianças do Século XXI:

 

i.               High-tech: Geração virtual - Crianças que já nascem com uma enorme facilidade para lidar com computadores e tecnologias modernas. A sensação que temos é que já nasceram com chip de computador na cabeça.

 

ii.              Excessivamente exposta a informações – É impressionante a quantidade de imagens, sons, idéias que recebem, ouvem e vêem, antes de chegarem à idade escolar;

 

iii.            Não relacional – Se comunicam melhor através do mundo virtual, mas não se tocam facilmente. São isoladas em seus mundos de “second life” e “avatares”.

 

iv.             Estressada – Excesso de atividades. Os pais realmente acreditam que se seus filhos receberem uma grande quantidade de informações terão mais sucesso. Não é raro encontra uma criança de 10 anos ter uma agenda tão complicada quanto a de um adulto.

 

v.              Insegura - Por estarem cada vez mais distanciadas dos pais, sentem-se muito inseguras emocionalmente e com muita dificuldade em tomar decisões e assumir compromissos mais sérios.

 

vi.             Iracunda - É uma geração nervosinha, cheia de tiques nervosos e de exigências e direitos, e se irrita com facilidade.

 

vii.           Deprimida: Consultórios cheios de crianças com dilemas profundos: fobias, pesadelos e  luto existencial.

 

Mas acima de tudo precisamos lembrar que outra característica desta geração é que ela precisa de Deus, e que Jesus a ama. O Evangelho precisa tocar seus corações. As verdades de Deus precisam alcançá-la.

 

2.  Falta de conhecimento pessoal de Deus: “não conhecia o Senhor, nem tampouco as obras que fizera a Israel.”(Jz 2.10).

 

Duas coisas nos são relatadas no texto: não conhecia a Deus e nem sabiam dos seus poderosos feitos.

 

São duas coisas diferentes e complementares:

 

A primeira, a falta de conversão. Eles não conheciam o Senhor. Tem a ver com a experiência própria, conhecer Deus não de segunda mão, mas ter uma conversão real. Nossos filhos precisam conhecer a Deus de forma pessoal ou eles não continuarão no caminho do Senhor. Apenas uma conversão profunda, legitima, real, transformadora, será capaz de sustenta-los na fé. Deus não tem netos, só filhos. Sem conversão, sem conhecimento de Deus, os filhos de crentes abandonarão o Senhor, e se tornarão macumbeiros, espíritas, espiritualistas, esotéricos, mas não crente em Cristo, cheios do Espírito Santo, que amam a Palavra de Deus e servem o Senhor.

 

A segunda, não conheciam as obras que o Senhor fizera a Israel. Eles não conheciam a Deus (não eram convertidos), mas também nada sabiam de Deus. Os pais sequer se preocuparam em relatar o que Deus tinha feito no meio deles. Os pais não souberam comunicar aos filhos a realidade de um Deus que havia visitado seu povo, tirado do Egito, feito milagres sobrenaturais entre eles, e os sustentará com maná por quarenta anos no deserto. Os pais não ensinaram.

 

Não pode haver conversão sem comunicação do Evangelho. A fé vem pelo ouvir, e ouvir a Palavra de Deus. Nossos filhos precisam saber sobre Deus, ouvir sobre Deus e aprender sobre Deus. Muitos pais estão transferindo esta responsabilidade para a igreja, mas considere quanto tempo seu filho convive com a igreja. A igreja é parceira, mas não pode assumir esta gigantesca tarefa de ensinar espiritualmente seus filhos e moldá-los no caminho do Senhor. O texto de Deuteronômio afirma que deve ser um processo diligente e constante, não podemos baixar a guarda.

“...tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tuca casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te.”

 

Invista no seu filho, leve-o a ter gosto pelas coisas do Senhor…Leia a Bíblia com ele, ore com ele, fale de Deus para ele, ensine corinhos, ensine a contribuir financeiramente com a igreja, ensine-o a amar a igreja. Seu filho vê como você coloca o dinheiro e o amor que você tem pelo reino de Deus, e também vai imitá-lo nas suas atitudes.

 

Leve seu filho ao conhecimento do Senhor. Ore pelo seu filho, invista na sua alma. As igrejas de New England se fecharam porque a nova geração não conheceu o Senhor. O dinheiro para construir aquelas catedrais, enviar dinheiro para missões, transmitir o evangelho ao mundo, veio de gente convertida realmente ao Senhor. Mas os filhos não aprenderam de Deus, não conheceram a Deus. Os pais não transmitiram aos seus filhos. A fé que eles tinham morreu neles mesmos.

 

Na oração sacerdotal, Jesus ora pelos seus discípulos: “Quando eu estava com eles, guardava-os no teu nome, que me deste, e protegi-os, e nenhum se perdeu, exceto o filho da perdição, para que se cumprisse as Escrituras” (Jo 17.12). Ao ler este texto, tive a sensação de que esta deve ser a oração de pais piedosos: Guardá-los, protegê-los, para que nenhum deles se perca!

 

Quais as conseqüências deste descaso espiritual?

 

1.  Fizeram o mau perante o Senhor – (Jz 2.11) Filhos que não conhecem a Deus, não se preocupam com sua glória. A visão distorcida na teologia, vai desembocar numa espiritualidade vazia e numa ética vazia. Por não conhecerem a Deus, não fazem o bem.  Eles começaram a servir os Baalins  e Astarotes. Ora, isto é o mesmo que dizer que nossos filhos vão começar a se render aos orixás.

 

A questão é que somos espirituais. Se não aprendermos a servir o Deus vivo, vamos começar a buscar substitutos. Vamos construir ídolos. Deuses falsos ocuparão o lugar do Deus verdadeiro como aconteceu em Israel , que passa a servir a deuses falsos (Jz 3.5). Se não ensinarmos os filhos a amar o Senhor, vão se tornar críticos, cínicos e zombadores. Vão buscar respostas em gurússhamans e profetisas. Este é o quadro que surge da apostasia.

 

2.  Provocaram o Senhor à ira – “Deixaram o Senhor , Deus de seus pais, que os tirara da terra do Egito, e foram-se após outros deuses, dentre os deuses das gentes que havia ao redor deles, e os adoraram, e provocaram o Senhor à ira.”(Jz 2.12).

 

Estas coisas trouxeram juízo de Deus. O texto afirma que Deus os abandona. Na visão do apóstolo Paulo, este é o grande juízo de Deus sobre a humanidade. Em Rm 1.24,26,28 lemos que Deus “os entregou”. Este é o juízo mais severo de Deus. Ele deixa o povo à deriva, se cansa de nos orientar, e por causa da rebeldia e nos entrega às nossas próprias paixões. O castigo de não conhecer a Deus é a desestrutura familiar, as patologias da alma: Solidão, angústia, vazio. Pessoas se entregando a paixões: homossexualismo, prostituição, drogas.

 

Neste texto de Juízes, lemos ainda que a ira do Senhor se revela também na perda da liberdade dos filhos de Israel . Foram entregues à mão dos espoliadores.  “Pelo que a ira do Senhor se acendeu contra Israel e os deu na mão dos espoliadores, que os pilharam; e os entregou na mão dos seus inimigos ao redor; e não mais puderam resistir a eles. (Jz 2.14) Deus se torna seus opositores. São entregues e não conseguem mais se libertar do diabo nem resisti-lo. São espoliados.  “Por onde quer que saíam, a mão do Senhor era contra eles para seu mal, como o Senhor lhes dissera e jurara; e estavam em grande aperto.” (Jz 2.15). é duro quando o Deus se torna o adversário, quando o inimigo já não está do lado de lá, mas somos confrontados diretamente por Deus. Ele mesmo coloca o povo “em grande aperto”.

 

3.  Decadência espiritual progressiva – Sucedia, porém, que, falecendo o juiz, reincidiam e se tornavam piores do que seus pais, seguindo após outros deuses, servindo-os e adorando-os eles; nada deixavam das suas obras, nem da obstinação dos seus caminhos.” (Jz 2.19). Ocorre um acentuado estado de decadência espiritual, por isto “tornaram-se piores que seus pais”. O Afastamento de Deus vai trazendo conseqüências cada vez mais graves. Os filhos de Israel tornaram-se mais obstinados.

 

Conclusão:

Como comunicar o Evangelho positivamente à nova geração?

 

Gostaria de considerar algumas alternativas que tem se demonstrado eficiente:

 

  1. Crie uma atmosfera de vida cristã em sua casa - Encha o seu lar com a idéia, com o conceito, com valores de Deus. Tome decisões com base naquilo que Deus é, e diga aos seus filhos.  Ore com eles, deixe que eles percebam que você teme a Deus, que você ora, que você lê a Bíblia.

 

Reggie Joiner, da Universidade da Família afirma que igreja e família precisam estabelecer uma parceria, e que para produzir frutos mais eficientes, é necessário uma estratégia mais efetiva. O titulo de seu livro é “Pense Laranja”, que para ele é uma cor secundária, uma combinação entre o vermelho e o amarelo, e representam o que o esforço destas duas comunidades, aliadas entre si, poderão realizar.

 

  1. Preste atenção se os seus filhos estão conhecendo o Senhor - Tenho visto muitas pessoas realmente plugadas, mas por outro lado vejo tantas preguiçosas quanto a este tema.

 

Certa mulher afirmou que sempre trazia seus filhos à Escola Dominical, porque não queria perder oportunidade de transmitir Jesus para suas vidas. Se interessava pelo conteúdo da Educação cristã da igreja, os versículos que os filhos haviam aprendido na escola dominical, e perguntava o que estavam aprendendo. Se interesse. Compre boa literatura cristã e coloque em suas mãos. Existem bons materiais didáticos que ajudam mães e pais interessados em comunicar o Evangelho a seus filhos.

 

  1. Crie espaços (momentos)  para que seus filhos tenham oportunidade de conhecer a Deus-  Leitura da Palavra em casa, culto doméstico, oração ao redor da mesa, oração antes de dormirem. Crie espaços: Invista em acampamentos e retiros. Compra livros com mensagens cristãs e Bíblias didáticas apropriados à sua idade. Crie momentos para falar do que Deus já fez por vocês, compartilhe as bençãos espirituais, crie temor nos seus corações, para que tratem as coisas de Deus com reverência e temor. Leve um missionário para sua casa para contar as experiências do que estão fazendo.

 

Tenho aprendido que lares que gostam dos pastores e missionários, normalmente formam filhos interessados nas coisas de Deus.

 

  1. Ore para que seu filho tenha um encontro pessoal com Deus - Peça a Deus para tornar seu filho um servo dele, para que Deus se compadeça de sua alma. Esta deve ser uma agenda permanente, se realmente estivermos interessados pela sua alma.

 

  1. Ore para que Deus faça de você um homem (mulher) temente, para que através de sua vida, seu filho sinta fome e sede de Deus – Quando os pais demonstram interesse pela vida espiritual, os filhos se sentem mais motivados a seguir a Deus. Lembre-se: Nada gera mais incredulidade no coração de nossos filhos que a hipocrisia ou atitude de pessoas que querem que seus filhos conheçam a Deus, mas eles mesmos não estão interessados pela vida espiritual.

 

 

sábado, 12 de fevereiro de 2022

Fp 1.3-10 Estou Plenamente certo

 



 

 

 

Introdução

 

Vivemos uma era de incertezas.

 

Os valores morais estão todos sendo questionados. Algumas vezes você tem a sensação de que, fazer a coisa certa é a coisa errada. Uma ovelha minha me procurou perguntando, e ela estava sendo sincera, se havia alguma coisa errada em namorar sem ter sexo antes do casamento. Rapazes e moças da igreja, parecem estar errados por terem convicções morais certas, e manterem a pureza moral.

 

A incerteza e dúvida, trazem vários problemas. O que devemos crer? Será possível ter convicções num mundo onde faltam convicções? É possível estar certo de alguma coisa? Poder afirmar que é verdadeiro isto ou aquilo? No campo da politica e mesmo da ciência, cada um diz o que quer. A verdade é verdade se você acha que é verdade (relativismo), e a verdade está dentro de você (subjetivismo), e cada um tem a sua verdade (pluralismo).

 

Mas este texto chama a atenção por algo claro na concepção bíblica. No vs 6, a Bíblia afirma: “Estou plenamente certo!”  Em outras palavras, precisamos ter algumas certezas na vida espiritual que sejam inalienáveis. Convicções que nos sustentem. Paulo afirma que estava “plenamente certo”.

 

Um dos grandes problemas dos seguidores de Cristo é a dificuldade em ter valores claros em suas mentes. As pessoas não sabem mais em que creem. Na primeira crise que enfrentam, porque as convicções não estão claramente estabelecidas, facilmente entram em desespero e crise. Parecem órfãos, não filhos amados.

 

Será que podemos ter certeza? “Se Deus não disse o que teria dito, porque não disse o que teria de dizer?”  Se a Palavra de Deus não é suficiente, inspirada, inerrante, onde poderemos colocar nossa confiança? Se não podemos confiar no que Deus diz, vamos confiar em quê?

 

 

O autor da carta aos hebreus fala da importância dos princípios básicos estarem claros em nossas mentes: “A esse respeito temos muitas coisas que dizer e difíceis de explicar, porquanto vos tendes tornado tardios em ouvir. Pois, com efeito, quando devíeis ser mestres, atendendo ao tempo decorrido, tendes, novamente, necessidade de alguém que vos ensine, de novo, quais são os princípios elementares dos oráculos de Deus; assim, vos tornastes como necessitados de leite e não de alimento sólido. Ora, todo aquele que se alimenta de leite é inexperiente na palavra da justiça, porque é criança. Mas o alimento sólido é para os adultos, para aqueles que, pela prática, têm as suas faculdades exercitadas para discernir não somente o bem, mas também o mal.” (Hb 5.11-14).

Ficamos no ABC da fé cristã. Não assimilamos nem os “princípios elementares dos oráculos de Deus.” Gostamos de eventos na igreja, mas “eventos apenas provocam crescimento. O que gera transformação é o discipulado.” Isto acontece quando nossa forma de pensar e agir, estão sendo moldados pela Palavra de Deus. Estes fundamentos são essenciais. Precisamos ter algumas certezas em nossas mentes para que a obediência a Cristo nos leve à maturidade emocional e espiritual.

 

Certa vez estava observando a mocidade da nossa igreja jogando voleibol. Como nunca fui bom jogador deste esporte, fiquei admirado com a capacidade deles em levantar a bola. Eu quase quebro meus dedos todas as vezes que jogo... e eles possuem leveza, tocam gentilmente na bola. Então comentei com um presbítero que estava ao meu lado sobre isto. Ele me respondeu tranquilamente: “O que faz diferença são os fundamentos”.

 

Paulo afirma neste texto: ‘Estou plenamente certo!”

De que ele estava certo?

 

1.     Estou plenamente certo de que Deus completará sua obra em mim –“Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus.” (Fp 1.6)

 

Deus não é um Deus de obra incompleta. Sua estratégia não é de políticos corruptos que nunca completam os projetos e desperdiçam recursos e dinheiro da sociedade. Deus completa o que ele começou.

 

Quando recebemos a Cristo pela fé em nosso coração, o Espírito Santo passa a habitar em nós. É um longo processo de santificação. O Espírito vai nos despojando do velho homem, velhas manias, velhos valores. Ele deseja realizar uma obra nova. Criar um novo homem “em justiça e retidão procedentes da verdade.” O velho homem resiste. A carne é forte! Ela tem desejos, quer ser alimentada na sua lascívia, luxúria e corrupção. Mas o processo de Deus em nós tem objetivos claros e tem o prazo certo para completar.

 

Deus está fazendo sua obra e “há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus.” Antes de nossa morte, esta obra completa será concluída.

 

A obra de salvação é completa porque:

A.   Quem nos salva é Cristo – Salvação não está baseada em nossa moral, ou na justiça própria, nem no que fazemos, mas no que Cristo fez.


O autor da carta aos hebreus afirma que Jesus é o "autor e consumador" da nossa fé. Sendo o autor, ele inicia o processo da salvação. Como consumador, ele é que leva a nossa salvação a bom termo. Esta doutrina é chamada de "perseverança dos santos". É uma das cinco doutrinas da TULIP, que são os pontos essenciais do Calvinismo. Na verdade podemos chamar esta doutrina de "perseverança de Deus", porque é ele quem persevera em nós seu cuidado e nos mantém no caminho dos céus. 

 

B.    A garantia da salvação é o Espírito

 

A Bíblia afirma que “fomos selados com o Santo Espírito da promessa; o qual é o penhor da nossa herança, até ao resgate da sua propriedade, em louvor da sua glória.” (Ef 1.13,14).

 

Há duas figuras neste texto: O selo e penhor.

Primeiro: Nós fomos “selados”. O que é este selo?

 

Antigamente os reis enviavam cartas para as províncias, assinando com um anel e selavam assim a correspondência. As cartas eram invioláveis, ninguém podia romper o selo porque nela havia a marca do rei. Quanto mais poderosa não é a marca que o Espírito Santo de Deus fez em nós, quando fomos regenerados.

 

Segundo, o texto de Efésios ainda nos ensina que o Espírito Santo é o penhor.

 

Ainda hoje, alguns bancos recebem joias e bens como “garantia” de que o dinheiro que emprestaram será pago. Tais bens, se forem joias, ficam guardadas pelo banco, e se forem outros bens estarão penhorados. É como se fosse um bem alienado, ele não pode passar para a mão de terceiros, porque está preso judicialmente. Nós estamos penhorados diante de Deus. Há uma garantia para nossa salvação. Quem é esta garantia? “O Espírito Santo é o penhor da nossa herança, até o dia do resgate de sua propriedade.”

 

Precisamos estar certos disto...

A obra que Jesus começou estará completa até o dia de Cristo Jesus, até o nosso encontro com ele e Deus está trabalhando em nós pelo Espírito Santo. Nós fomos selados pelo Espírito Santo, e a garantia nossa não é paraguaia: ”La garantia soy yo.” Quem nos garante é o Espírito Santo.

 

Quando alguém me pergunta se podemos perder a salvação, tenho duas respostas:

 

Primeiro: você ganhou a salvação? Tanto perder como ganhar tem a ver com nossas capacidades pessoais. Se a salvação é conquistada pelo homem e não uma dádiva de Deus, você poder perder e ganhar.

 

Segundo: depende! Se a salvação está centrada em você, claro que sim. Na verdae, neste caso, você nunca teve salvação. Nenhum homem é suficientemente capaz de ser salvo por si próprio. “Todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus.” (Rm 6.23). Por isto salvação é obra de Deus. Jesus teve que morrer em seu lugar na cruz, para lhe dar salvação. Salvação não é conquista, é dádiva. Não é mérito, é graça!

 

Deus está fazendo uma obra em nós. Seu processo de santificação diário. Por isto todo cristão deveria colocar na sua testa a seguinte frase: “Seja paciente para comigo, Deus ainda não me completou”.

 

Quando nos convertemos ocorre uma santificação inicial: somos regenerados e convertidos a Deus. Primeiro, dos deuses falsos para o Deus verdadeiro, depois do nosso ego independente para um ego rendido e submisso a Deus, depois, dos nossos valores, prioridades e projetos pessoais para valores do reino de Deus e da sua justiça. Deus está trabalhando em nós. Ele faz isto gerando arrependimento e tristeza em relação aos nossos pecados. A características de alguém convertido não é que tal pessoa não peca, mas porque ela não mais tem alegria em viver em pecado. Pecado traz tristeza.

 

Neste processo de conversão, eventualmente percebemos que damos “três passos para a frente e dois para trás.” Mas ainda assim, estamos avançando. Muitas vezes ainda tropeçamos em velhos hábitos da carne e da mente. Mas voltamos para a cruz, pedimos a graça de Deus, e Deus vai renovando continuamente nosso ser em relação a ele.

 

Por esta razão lemos na Palavra de Deus:

Quando, porém, algum deles se converte ao Senhor, o véu lhe é retirado. Ora, o Senhor é o Espírito; e, onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade. E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito.” (2 Co 3.16-18)

 

A obra de Deus começa quando cai o véu da incredulidade, da justiça própria, e começamos a colocar nossa confiança na obra de Cristo para salvação. Assim o Espírito de Deus iniciou sua obra em nós. Aos poucos ele traz liberdade da culpa, do pecado e do diabo, e com o rosto desvendado, “somos transformados de glória em glória.” Deus vai nos transformando. Podemos afirmar como Martin King Jr.: “Eu não sou quem eu gostaria de ser;  não sou quem eu poderia ser, e ainda não sou quem eu deveria ser. Mas graças a Deus eu não sou mais quem eu era!”

 

Precisamos estar certos disto...

 

2.     Somos participantes da graça de Deus – Esta é a segunda coisa da qual precisamos estar “plenamente certos.” “Aliás, é justo que eu assim pense de todos vós, porque vos trago no coração, seja nas minhas algemas, seja na defesa e confirmação do evangelho, pois todos sois participantes da graça comigo.” (Fp 1.7)

 

Quero enfatizar aqui a expressão: “Pois todos sois participantes da graça comigo.” A graça de Deus nos alcançou individual e comunitariamente. Deus nos fez participantes da sua graça.

 

Preste atenção. É a graça de Deus operando em nossas vidas. Não é algo que fazemos para Deus, mas é algo que Deus fez por nós. Não é esforço, nem mérito, é graça. “Pela graça sois salvos mediante a fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não de obras para que ninguém se glorie.” (Ef 2.8,9).

 

Deus fez algo absolutamente gratuito em minha vida. Esteja certo disto! Quando não entendemos a doutrina da graça começamos a acreditar que quem faz somos nós. Ora, se somos nós que fazemos, não há razão de glorificar a Deus: o mérito é nossa, trata-se de uma conquista pessoal. Mas se é Deus quem faz, então, toda glória é dele.

 

Paulo reconhecia tão bem isto: “Fiel é a palavra e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal.”(1 Tm 1.15). É o triunfo da graça em nós. Ele nos atraiu a ele, o Espírito Santo nos convenceu de nossa condição miserável, e da necessidade de um salvador. Quem nunca se percebeu um pecador, nunca sentirá necessidade de um salvador. Para que preciso de um salvador se eu mesmo posso me salvar?

 

Quando reconheço que é Deus quem faz, isto gera louvor e adoração em minha vida. Ele fez! Glórias seja dada ao seu nome! Mas se fui eu quem fez, porque deveria ter gratidão a Deus? Quanto mais entendo a graça, mais adoração tenho no meu coração. Quanto mais justo me sinto por meu esforço e mérito, menos louvor darei a Deus.

 

Richard Lovelace afirma:

“Em nossos dias, apenas uma fração de cristãos professos está se apropriando substancialmente da obra justificadora de Cristo na vida deles. Muitos (...) tem um compromisso teórico com essa doutrina, mas no dia a dia se apoiam na santificação para receber a justificação.” O que acontece então? Não nos apropriamos do que Cristo fez. Ainda estamos firmados em nós mesmos. Isto é o anti-evangelho.

 

“O Evangelho não diz respeito ao que fazemos, mas ao que foi feito por nós” (Tim Keller, Igreja centrada, pg 37).

 

A graça de Deus nos alcançou, ela nos inseriu no seu projeto. Nós somos participantes da graça de Deus. E se é graça não é mérito; se é mérito, não é graça. Esteja certo de que você é participante da graça de Deus. Esta graça perdoadora, justificadora, restauradora. Você é bem pior do que você imagina, mas a graça de Deus é muito maior do que você imagina que ela seja.

 

Esteja certo disto...

E a terceira verdade da qual precisamos estar certos é a seguinte:

 

3.     O evangelho sempre impacta nossos afetos. Pois minha testemunha é Deus, da saudade que tenho de todos vós, na terna misericórdia de Cristo Jesus. E também faço esta oração: que o vosso amor aumente mais e mais em pleno conhecimento e toda a percepção.” (Fp 1.8,9)

 

Uma das coisas mais impressionantes do evangelho é como ele tem poder para impactar nossa forma de se relacionar com as outras pessoas.  Neste texto Paulo está falando da “saudade” que sentia dos irmãos e ora para que o “amor aumente mais e mais.” São palavras relacionadas aos afetos.

 

Noutro lugar ele afirma: “Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de ternos afetos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de longanimidade.” (Co 3.12). Esta linguagem bíblica é muito marcante. “ternos afetos de misericórdia”. O coração de alguém que é tocado pela graça de Deus é impulsionado a uma vida de ternura e afetividade.

 

Culturalmente temos muito problema com a linguagem de Paulo aos Coríntios: “Saudai-vos uns aos outros com ósculo santo.” (2 Co 13.12). Paulo recomenda que os irmãos beijem os outros irmãos. Esta era uma forma cultural entendida pelos seus leitores, eles se cumprimentavam com beijo. Em essência, o que a Bíblia está afirmando é que, no corpo de Cristo, não há lugar para frieza e indiferença.” É proibido ser frio! O coração de alguém que é tocado pelo evangelho é marcado pela disposição em acolher o outro, reconhecer o irmão.

 

Em tempos de isolamento social e de uma sociedade que busca cada vez mais o seu direito à privacidade e à individualidade e o distanciamento nos é imposto por razão sanitária, corremos o risco de nos tornarmos frios, distantes e indiferentes.

 

Esteja plenamente certo de que Deus tem chamado você para uma experiência comunitária, que deve ser compartilhada, vivida e experimentada.

 

Certa vez, num encontro de liderança em Vitória, estava falando de espiritualidade e afetividade e provoquei uma discussão sobre o seguinte aspecto. Eu indaguei na palestra, e depois dei a tarefa para discussão em grupo, sobre o que aconteceria se nossos líderes fossem escolhidos não pelo critério da ortodoxia (doutrina correta), mas para ortodopraxia (atitude correta), e se os pastores e lideres não fossem escolhidos não só por serem teologicamente ortodoxos, mas pela afetividade. A forma como tratam as pessoas, a família e os colegas (funcionários) do trabalho. Preciso admitir que a discussão se tornou bem mais acalorada que eu esperava.

 

Esteja plenamente certo de que o evangelho tem o poder de mudar sua forma de ser e agir, de tratar as outras pessoas.

 

Conclusão

Em Malaquias 4.5-6, os últimos versículos do antigo Testamento, Deus afirma o seguinte: ““Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível Dia do Senhor. Ele converterá o coração dos pais aos filhos e o coração dos filhos a seus pais, para que eu não venha e fira a terra com maldição.” (Ml 4.5-6). É interessante refletir nesta grande verdade de que o ministério de Cristo tangencia os afetos. A promessa de Deus para seu povo é que Cristo faria “conversões horizontais”, e não apenas verticais. Convertendo o coração dos pais aos filhos e filhos aos pais.

 

Esta é uma obra maravilhosa de Cristo. Nos converter uns aos outros. Nem sempre isto é fácil. Muitas vezes esta questão é tensa e difícil. Mas preste atenção. O texto não diz que você se converterá, mas afirma: “Ele converterá!” Trata-se portanto de algo que Deus faz em nós por meio do seu Espírito. Tudo vem de Deus. Você não é regenerado por si mesmo, não se converte por si mesmo, não é santificado sem a obra do Espírito, e não será glorificado sem a completa ação de Deus.

 

Esteja pois certo das seguintes verdades:

A.   Deus completará sua obra em nós.

B.    Somos participantes da graça de Deus

C.    O evangelho sempre impactará nossos afetos