sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Ec 2.1-10 Do nada para lugar algum





Introdução:

Eclesiastes é um livro intrigante e contraditório. O autor atravessa um período de grande crise existencial e enfrenta profundos problemas com o sentido da existência humana. O próprio tema central do livro nos aponta para isto: “Vaidade de vaidades, tudo é vaidade”. Um dos poetas modernos que melhor retratou isto foi Cazuza, quando desesperançado e não vendo alternativa para sair de sua enfermidade afirmou: “ideologia, eu quero uma pra viver”. 

O texto nos mostra um homem vivendo um grande vazio na alma, conforme pudemos observar no capítulo 1, e depois de refletir sobre sua condição sai em busca de resposta à sua crise. É neste contexto de vazio, que ele escreve o capítulo 2, afinal “o vazio, o poder de ser atraído para o nada nos distende e nos faz nulos” (Otto Lara Rezende).

O pregador sai em busca da alegria. 
Ele inicia o capítulo 2 dizendo a si mesmo: “Vamos, eu te provarei com a alegria, mas também isto era vaidade”. É exatamente esta utopia que ele chama de vaidade, que o autor se propõe a buscar. O resultado é um fracasso, porque ele resolveu buscar a felicidade como um fim em si mesmo, sem entender que felicidade é conseqüência, não a causa; ou seja, se buscarmos a felicidade como um fim em si mesma, teremos tantos problemas quanto aquele que, ao dormir, fica insistentemente dizendo para si mesmo: “Preciso dormir, preciso dormir...” O homem que deita dizendo que precisa dormir, não vai conseguir dormir. Para dormir, ele precisa esquecer que precisa dormir, e relaxar.

Ouvi a história de um homem de barbas compridas, que certo dia teve que responder a uma brincadeira que lhe fizeram perguntando-lhe se, ao dormir, ele colocava sua barba para cima ou para baixo da coberta. Naquela noite ele teve insônia, porque nunca se preocupava com esta questão, mas ao tentar descobrir o que fazia, teve dificuldade para adormecer.

A verdade é que as pessoas só dormem quando se esquecem de dormir, assim como a felicidade só virá, se houver condições propícias para sua manifestação. Este é o problema de pessoas obcecadas pela felicidade. Ela não será encontrada desta forma. A felicidade só virá, se as condições estiverem propícias, e quando deixamos de buscá-la. Crie as condições e ela acontecerá, como corretamente afirmou Mário Quintana: “O segredo não é correr atrás das borboletas. É cuidar do jardim para elas venham até você”.  


Quais as alternativas que o pregador tenta buscar para encontrar a felicidade?

1.       Auto-reflexão

“Disse comigo: vamos! Eu te provarei com a alegria; goza, pois, a felicidade; mas também isso era vaidade”. (Ec 2.1). “Vamos!” este é o tolo convite do desespero.

Para a psicanálise, uma das maiores complexidades da depressão é que ela faz um movimento egóico, isto é, uma volta para si mesmo, um olhar obsessivo e introjetado. Em geral, quando o homem se sente desesperado, ele fica longos períodos refletindo sobre sua dor, e retroalimentando a sua miséria. Martin Lloyd Jones afirma que “A reflexão é boa, mas a introspecção facilmente se torna morbidez”.

Neste texto, o autor olhar para dentro de si, a fim de encontrar solução, quando exatamente o vazio de sua alma que o levou a este ponto. Por isto precisamos de ajuda do alto, e não de auto-ajuda. O caos é interior.
A vida traz muitos paradoxos: Por que tantos sofrem? Por que a justiça não se manifesta de forma tão visível? Por que existe pobreza e riqueza? Por que injustos prosperam? Por que existem homens bons sofrendo e pessoas ruins aparentemente vivendo seus dias em paz?

Quando voltamos para dentro de nossa alma, seja através da auto-sugestão, hipnose, auto- descoberta, auto ajuda, aventuras em busca do ser, viagens astrais, estamos buscando soluções que esperamos virem de dentro de nós, o resultado é um aumento considerável de angústia e depressão.

Salomão chegou à conclusão, que mesmo o riso era desproposital, e de que a alegria era impossível (2.2). Afinal, não é tudo vaidade? Qual o sentido destes comportamentos, que para uma alma angustiada parecem até mesmo bizarras.
               
2.       Entrega ao imaginário

“Resolvi no meu coração dar-me ao vinho, regendo-me, contudo, pela sabedoria, e entregar-me à loucura, até ver o que melhor seria que fizessem os filhos dos homens debaixo do céu, durante os poucos dias da sua vida” (Ec 2.3).

Salomão deixa claro sua alternativa para resolver seu vazio: “Entregar-me à loucura”. Existem várias formas de se fazer isto, e ele resolve se entregar ao vinho. Sua proposta cria vertentes para o alcoolismo, as drogas, e até mesmo movimentos psicológicos como a fantasia. Uma entrega ao imaginário.

O autor imagina que, invertendo sua vida, saindo da realidade para a utopia, vivendo-a “às avessas”, vendo-a num prisma não natural, talvez pudesse descobrir o que a vida no seu trajeto natural não pode dar. Opta desta forma pela fuga da realidade. O texto mostra sua confusão: “entregar-me-ei ao vinho, regendo-me, contudo, pela sabedoria”. Ora, quem se entrega ao vinho não pode ser regido pela sabedoria. Para fugir do vazio, diante do desespero, algumas alternativas são buscadas. Três opções são muito comuns:


Fantasia - Na psicanálise, fantasia é um “roteiro imaginário, em que o sujeito quase sempre está presente, representando, de modo mais ou menos deformado pelos processos defensivos, a realização substituta de um desejo e, em última análise, de um desejo inconsciente, que não pode se realizar com tranquilidade, pelos impedimentos momentâneos quer físicos, de oportunidades ou morais (ideal de ego)”.
http://pt.shvoong.com/social-sciences/psychology/2191408-fantasia-psican%C3%A1lise/

A fantasia não pode deixar de evocar a oposição entre imaginação e realidade. Por isto torna-se uma alternativa comum para se fugir da concretude e dureza da vida. Fábio Damasceno, conhecido psiquiatra evangélico no Brasil, afirma que esta foi uma das grandes tentações de sua vida. Para ele, a fantasia na criança é normal, mas quando se prolonga na fase adulta, faz a pessoa perder relação com a realidade (mentira), assim a pessoa investe no lugar errado.

Dr. Fábio Damasceno é um psiquiatra que mora em Niterói. Para ele, A fantasia é uma obra de Satanás que incentiva o ser humano a esta viagem, dando-lhe um "porre"de mentiras. O grande sucesso da fantasia reside no fato de que, com ela, nos tornamos o produtor, roteirista, diretor e artista principal. Pode-se assim falar porque a loucura exerce um profundo fascínio sobre a humanidade, que deseja resolver suas tensões de forma esquiva.

A Bíblia diz: “Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento” (Fp 4.8). A verdade deve ocupar nossa mente. Na fantasia, ocupamo-nos e ficamos presos na mentira.

Para que a fantasia tenha gosto, é necessário acreditar nela, colocar nela sua fé. Gastar sua fé na mentira é ficar sem cacife para a realidade, levando-nos à intolerância à verdade e gerando frustração, por isto, pessoas que vivem na fantasia nunca transformam sonhos em projetos, muito menos em realizações.

Dois filmes retratam bem este mecanismo de fuga da realidade: Rosa Púrpura de Cairo, dirigido por Woody Allen, e que trata de uma mulher que vive uma vida miserável e resolve seu dilema, criando uma fantasia para si e vivendo em torno dela. Com esta fantasia, consegue sair da vida normal e viver como estrela de Hollywood, mas o final é dolorido, já ela tem que voltar a viver na mesma vida que ela tinha anteriormente, pois o mundo da fantasia é inconsistente.

O outro tem o titulo de Pescadores de ilusões, Comédia dramática de 1991, estrelada por Robin Willians e Amanda Plummer, no qual Jack Lucas (Jeff Bridges) é um locutor de rádio egocêntrico, que fala o quer em seu programa sem pensar nas possíveis consequências. Um dia um ouvinte conversa com ele ao vivo, dizendo que conheceu uma mulher por quem se apaixonou em um bar yuppie. Jack de imediato descarta que ela tenha se interessado por ele, dizendo que todos os yuppies deveriam morrer. O ouvinte não pensa duas vezes: pega o rifle, vai até o bar e mata seis pessoas, antes de se suicidar. A tese central deste filme é que “a loucura é mais sã”, mas a fantasia é ainda uma mentira e cria um mundo de faz de contas.

b. Drogas - A pessoa faz opções pelos barbitúricos e pela viagens alucinógenas. Como a vida está uma droga, que tal injetar nela uma substância que possa energizá-la, pouco importa que esta substância venha a destruí-lo dentro de pouco tempo, desde que, no agora, resolva o conflito mais angustiante da vida que é o não-ser, expresso aqui pelo termo, “vaidade” (literalmente, bolha de sabão- algo que brilha, pode até exercer fascínio, mas no final é algo que se desmancha no ar). As drogas tem sido uma opção sempre presente na nossa cultura, milhares de pessoas vivem dependendo de comprimidos, embora inconscientemente saibam que “a paz não vem em comprimidos”.
c. Álcool - Segue a mesma trajetória das drogas, promove um certo grau de excitação naquele que o ingere e as doses precisam aumentar para que novas reações possam surgir.   Busca assim, desesperadamente, resolver o buraco da alma, deixado pelas incoerências, ingratidão e injustiças sofridas. A pessoa vai lentamente se entregando à sua dependência. Toda vez que virmos uma pessoa entregue ao álcool podemos concluir que ali se encontra alguém que não resolveu de forma satisfatória suas tensões e se deixou vencer, entregou-se, desistiu de lutar. O caminho do álcool é sempre atraente. Não é sem razão que milhões de pessoas ao redor do mundo dependam e consumam álcool de forma diária.

3.       Riqueza - Desejo de ter, possuir

“Empreendi grandes obras; edifiquei para mim casas; plantei para mim vinhas. Fiz jardins e pomares para mim e nestes plantei árvores frutíferas de toda espécie. Fiz para mim açudes, para regar com eles o bosque em que reverdeciam as árvores Comprei servos e servas e tive servos nascidos em casa; também possuí bois e ovelhas, mais do que possuíram todos os que antes de mim viveram em Jerusalém. Amontoei também para mim prata e ouro e tesouros de reis e de províncias; provi-me de cantores e cantoras e das delícias dos filhos dos homens: mulheres e mulheres” (Ec 2.5-8).

A terceira opção para o pregador é acumular bens, ganhar dinheiro, ser bem sucedido nos negócios.

Ele investe em plantações, palácios, escravos (que o poderiam servir da forma como desejasse). Não é interessante poder mandar? Ter pessoas à nossa disposição? Salomão comprou fazendas, bois e ovelhas, tinha grandes fazendas, se vivesse hoje seria do tipo de pessoas que teria investimentos em mercado de ação, uma carteira de imóveis.

Quem sabe um carro melhor, um emprego melhor, casa mais bonita, viagens? Milhares de pessoas hoje se afadigam para ter mais, amontoar mais. Chanfort afirmou que “a sociedade é composta de duas classes: dos que tem mais jantares do que apetites, e dos que tem mais apetites que jantares”.

Salomão afirma ter experimentado todas estas coisas no superlativo. “Mais do que todos quantos viveram em Jerusalém antes de mim”, mas isto não lhe trouxe realização, porque a riqueza é como água do mar. Quanto mais se bebe, mais sede se tem. Ele chega a conclusão de que: “Tudo quanto desejaram os meus olhos não lhes neguei, nem privei o coração de alegria alguma, pois eu me alegrava com todas as minhas fadigas, e isso era a recompensa de todas elas” (Ec 2.10), afinal, “os que acreditam que o dinheiro faz tudo, costumam estar sujeitos a fazer qualquer coisa por dinheiro” (Voltaire).

Afinal, dinheiro traz ou não felicidade?
Gosto muito da posição de Foster[1] quando afirma que precisamos parar de defender a idéia de que dinheiro não traz felicidade. O problema está quando achamos que o dinheiro é a fonte da felicidade e colocamos nosso coração nos bens que possuímos. Nestes casos, ao invés de possuirmos o dinheiro, ele passa a nos possuir.

4.       Sexo ­ - Desejo de conquistar –

“Provi-me de cantores e cantoras e das delícias dos filhos dos homens: mulheres e mulheres” (Ec 2.8).

Salomão parece indicar que, não encontrando a alegria na reflexão, nem fuga da realidade, nem nos bens, que outra opção razoável seria viver de forma dissoluta. Salomão investiu pesado no seu harém. Ele chegou a ter 700 princesas e 300 concubinas, todas elas viviam à sua disposição sexual.

Afirma-se que o sonho de toda mulher é o príncipe encantado, e de todo homem é um harém. Salomão então resolveu satisfazer todo seu libido e extravasá-lo da forma como pudesse. Ele então passou a colecionar mulheres, de todas as regiões, princesas de outros países, casamentos arranjados para fins políticos, e assim foi construindo uma história distanciado de Deus.

O resultado para Salomão, e para todos quantos se entregam à vida promiscua é desastroso. Ele declara que surgiu no seu coração um enorme desprezo pela figura feminina: “Juízo que ainda procuro e não achei, entre mim homens encontrei um como esperava, mas entre tantas mulheres não achei nem sequer uma” (Ec 7.28). O problema está nas mulheres? Não! Antes na atitude dele próprio em usá-las como objeto. O resultado é desprezo.

Prostitutas desenvolvem este mesmo sentimento em relação aos homens. De tanto se entregar a tipos cada vez mais estranhos e patéticos, passa a desenvolver uma visão de desprezo da figura masculina.

O psicanalista francês Charles Melman, discípulo de Jacques Lacan, aos 76 anos, deu uma entrevista à Revista veja em sua visita ao Brasil, usando os conceitos da psicanálise para interpretar as mudanças na sociedade atual. Quanto ao fato desta geração ser liberal quanto à questão da sexualidade, afirmou: “Os jovens de hoje, dos 18 aos 30 anos, não procuram o psicanalista pelo fato de reprimirem seus desejos, mas porque não sabem o que desejam... isso acontece porque nossos jovens foram criados em condições que promovem a busca rápida do prazer e sem obrigações... A idéia é aproveitar sem se engajar, mas isso impõe uma questão: Eles aproveitam plenamente? Momentos de prazer que proporcionam uma satisfação profunda são vividos, mas não organizam a existência, nem o futuro”.  (Veja, 2007).

Foi exatamente isto que aconteceu a Salomão. Ele se perdeu neste emaranhado de promiscuidade e perdeu a capacidade de desenvolver intimidade e se relacionar num nível profundo com uma mulher. “a libertação sexual não decresceu a necessidade amorosa, mas revelou um decréscimo na capacidade de amar”[2]

5.       Fama - Desejo de ser percebido - 2:9a

“Engrandeci-me e sobrepujei a todos os que viveram antes de mim em Jerusalém; perseverou também comigo a minha sabedoria” (Ec 2.9).
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No seu vazio, ele desenvolveu uma verdadeira obsessão por reconhecimento e aclamação pública. Seu nome ultrapassou as fronteiras e Israel, indo ao Egito. Um dos relatos mais interessantes sobre sua fama se dá no encontra com a deslumbrada Rainha de Sabá, atual Iêmen, que resolveu fazer uma viagem para conhecer este aclamado rei. O resultado foi que ela se impressionou ainda mais ao chegar a Israel e ver a opulência palaciana, seus palácios construídos para alimentar sua vaidade, e a riqueza de conhecimento que ele demonstrava.

Por causa de sua obsessão por reconhecimento, começou a se unir a outros reinos, fazendo conchavos políticos e acordos, envolvendo-se com mulheres que adoravam deuses pagãos e para ser aclamado, construiu palácios para estas mulheres, sufocou seu país com taxas e impostos, construiu templos para Camos, Carquemis e Moloque, deuses dos amonitas e dos moabitas e se distanciou de Deus.

Um dos grandes medos humanos é o anonimato. Ter reconhecimento, ser popular. Muitos jovens entregam sua honra pela desejo de ser popular. Um das maiores aspirações de adolescentes em colégios e jovens em universidade é de serem populares. Alguns se envolvem em situações bizarras e cometem atrocidades para impressionar colegas.

No entanto, a fama tem o poder de matar as pessoas. 
Não é sem razão que grandes nomes da música, como Kurt Combain, Elves Presley, Michael Jackson, Amy Winehouse, perderam cedo sua vida, porque a fama tem o poder de isolar as pessoas. Em geral estas pessoas morrem solitárias. Por isto a Palavra de Deus nos exorta: Assim diz o SENHOR: “Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem o forte, na sua força, nem o rico, nas suas riquezas; mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me conhecer e saber que eu sou o SENHOR e faço misericórdia, juízo e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o SENHOR” (Jr 9.23).

Certa vez Michael Jackson afirmou numa entrevista que era o homem mais solitário do mundo. 
Pessoas que cedo alcançam a fama, precisam de suporte psicológico para poder lidar com a popularidade. Grandes astros no esporte e no mundo midiático precisam de mentores para poder lidar com a facilidade de acesso e privilégios que a fama pode trazer, caso contrário, se tornam completamente desorientados quanto ao poder e glória que alcançam. Salomão sucumbiu ao seu poder e fama. Não soube lidar com isto, embora reconhecesse que tudo isto se tornou “canseira e enfado”.


6.       Sabedoria – anseio pelo ser. Desejo de admiração

“Engrandeci-me e sobrepujei a todos os que viveram antes de mim em Jerusalém; perseverou também comigo a minha sabedoria” (Ec 2.9).
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Muitas pessoas enveredam por outras vias para resolver o vazio. Elas não são atraídas nem pelo dinheiro, fama e sexo, mas se refugia pelo campo da filosofia e do conhecimento. Esta é a vida dos os nerds e intelectuais.

O saber é fascinante, um mundo de mistério, e não ocupa espaço. Milhares de pessoas optaram e se apaixonaram pelos livros, pela pesquisa e academicismo, conquistando respeito público, medalhas de honra e reconhecimento. Mas o saber pode ser uma armadilha. O próprio Salomão, que se tornou tão respeitado pela sua mente privilegiada, comenta no final deste livro que “não há limite para fazer livros, e o muito estudar é enfado da carne” (Ec 12.12). 

O saber também não resolve a angústia da alma. Alguns intelectuais mais respeitados foram os que mais experimentaram densas angústias.  O existencialismo carregado de cinismo e desesperança não surgiu entre os pobres de Ruanda e das favelas brasileiras, nem do pobre do Nordeste do Brasil, mas nos sofisticados cafés parisienses.

O intelectualismo provoca outra reação danosa. A Bíblia diz que “O saber ensoberbece, mas o amor edifica” (Rm 8.1).  Outra tradução afirma que “o saber incha”. A consequência imediata é o narcisismo e o elitismo. Quem estuda demais e se torna perito em áreas do conhecimento, facilmente sofrem deste mal, e passam a se julgar superior aos outros, tratando com desprezo aqueles a quem consideram inferiores.

Quão importante é o conhecimento e quanto mau uso se faz dele. Conhecimento pode ser uma benção, trazer cura, novas descobertas, ciência, mas pode ser uma desgraça. Conhecimento aliado à compaixão é uma benção, mas o conhecimento iníquo, uma desgraça, uma tragédia.

S. João Crisóstomo (347-407 a.d) no seu sermão: A loucura da conquista da cruz afirma: “Vemos então que precisamos de fé e simplicidade, e isto deve ser buscado em toda ocasião. Devemos preferir estas coisas à sabedoria, pois Deus afirmar ser esta a sabedoria verdadeira”[3].

O homem que tem o conhecimento, procura conquistar o outro, tê-lo cativo pelas suas idéias, fazê-lo escravo num nível mais profundo. Esquecendo-se que vaidade é o pecado predileto de Satanás. Samuel Morse, o inventor do telégrafo, recebeu muitas honras por causa da sua invenção, entretanto, deixou claro que Deus havia dado a ele aquela capacidade somente porque Ele queria dar o Telégrafo à humanidade. Pessoas que temem ao Senhor costumam atribuir a Ele os méritos pelas coisas boas que fazem.


7.       Poder - O desejo de dominar
“Engrandeci-me e sobrepujei a todos os que viveram antes de mim em Jerusalém” (Ec 2.9).
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Muitas pessoas se enveredam deslumbrados pela via do poder.
Sendo ainda um jovem pastor em Brasília, fui procurado pelo querido Juiz de Direito, Dr. Darci Alvim Pereira, que se tornou uma espécie de amigo e conselheiro na minha vida pessoal. Sua preocupação era me ver, ainda jovem, transitando por pessoas tão influentes e correndo o risco de perder minha alma por vaidade ou soberba. Um dia, cuidadosamente se aproximou de mim e advertiu-me nestes termos. Nunca me esqueço de uma frase citada por ele: “Poder é mais perigoso que dinheiro. Poder perverte, corrompe, seduz as pessoas. E o poder, em última instância, também atrai dinheiro”.

Não precisamos ir muito longe para perceber a verdade disto. Veja como os políticos se tornam obcecados na sua luta infindável pelo poder. Principalmente para aqueles que se projetam rapidamente, e passam a ser percebidos pela mídia e atraído pelos holofotes da imprensa. Tais pessoas são facilmente engolidas pela máquina do poder e não raramente vendem sua alma para o diabo. O poder é forte sedutor. Atrai com seus tentáculos e nos suga para o epicentro de sua estrutura.

Para manter-se no poder, homens tem sacrificado honra, saúde, fé, Deus, valores, família. O poder pode e deve ser usado para promover o bem, mas ele é altamente corruptível e faz enlouquecer até o sábio. Todos aqueles que se aproximarem para o centro desta estrutura, devem ficar alertas para que não sejam pervertidos e subornados, não pelo dinheiro em si, mas pelo poder.
               

A tragédia: Avaliando a busca

Depois de uma cansativa busca, para encontrar sentido, valor e significado, para superar a enorme força gravitacional do vazio, Salomão percebe que nada disto havia funcionado: “Tudo quanto desejaram os meus olhos não lhes neguei, nem privei o coração de alegria alguma, pois eu me alegrava com todas as minhas fadigas, e isso era a recompensa de todas elas. Considerei todas as obras que fizeram as minhas mãos, como também o trabalho que eu, com fadigas, havia feito; e eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento, e nenhum proveito havia debaixo do sol” (Ec 2.10-11).
Três palavras parecem refletir o resultado desta tola busca:

a.       “Fadigas” – Trata-se de um cansaço interior profundo, de um sentimento de que nada traz refrigério ou descanso. Nada pode trazer refrigério: Sono, férias prolongadas, viagens. Este é o encontro com o nada, que é traduzido na filosofia existencialista como “a experiência da angústia”. É uma dor na alma, um buraco no peito, um senso difuso de que nada encontra sentido. Vacuidade. Nihilismo. Canseira.

b.       “Vaidade” - Como temos estudado, vazio é a falta de coerência, proposito, valor nas coisas. Tudo é nulo, nada, bolha de sabão, vapor. Não há solidez, nem algo que você possa apalpar e dizer: Isto é concreto! “O que se foi é o que há de ser; e o que se fez, isto se tornará a fazer; nada há, pois, novo debaixo do sol” (Ec 1.9).

c.        Corrida atrás do vento – Atualmente existem pessoas que se especializaram em caçar furacões e pesquisar tornados. Eles se interessam cientificamente pelos movimentos da natureza e pela intensidade e força do vento. Não era exatamente isto que Salomão queria fazer, mas foi assim que ele se sentiu: correndo atrás de um redemoinho.

Na minha infância de menino pobre, morando na cidade de Gurupi-TO, jogávamos futebol em terrenos baldios, e os redemoinhos eram comuns, especialmente no mês de Agosto, quando havia uma força maior dos ventos. Não sei exatamente o que acontecia no imaginário infantil, mas se dizia que dentro do redemoinho estava o pé do “capeta”. Então, quando um redemoinho vinha em nossa direção, largávamos a bola e corríamos na sua direção para ver o que aconteceria. O resultado era sempre catastrófico, mas mesmo assim o repetíamos: Poeira no cabelo, na boca, nos ouvidos, e saiamos dali, do meio do vento, com cabelo arrepiado e com um tolo senso de conquista.

Salomão afirma que “tudo era vaidade e correr atrás do vento”. Acho que tenho uma leve ideia do que isto significa.

Onde está a vida que perdi, tentando encontrá-la.
Quando Salomão refletiu sobre todas estas coisas ele encontrava-se distanciado de Deus. Seu coração fora atraído pela glória, fama, poder, riqueza, e ele levou isto a sério. Até mesmo construiu templos para deuses pagãos para se tornar uma pessoa mais global e inclusivista. Salomão se perdeu na sua vaidade e o reflexo foi um profundo vazio na alma. Viu que nenhum proveito havia debaixo do sol.

Só o temor de Deus, e o encontro com sua realidade sobrenatural pode trazer sentido a alma vazia. Apesar da divagação de sua alma, Salomão sabia que “fora de Deus, ninguém pode comer, beber e alegrar-se” (Ec 2.25). Apesar desta consciência intelectual do fato, ele não conseguia romper com este tolo fascínio de ser mais, ter mais, dominar mais, conquistar mais.

Salomão se perdeu na sua trajetória.
Ele saiu do nada para lugar algum.
Certo poeta assim afirmou: “Onde está a vida que perdi, tentando encontrá-la?”.

Tim Elliot perdeu sua vida ainda jovem, quando procurava levar o evangelho a uma inóspita tribo no interior do Equador. Antes de morrer, ele escreveu numa das suas cartas a seguinte frase: “Não é tolo aquele que dá o que não pode reter, para ganhar aquilo que não pode perder”.

Por isto Jesus afirma: “Quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas quem perder a sua vida por minha causa, achá-la-á”. O segredo não é ficarmos desesperados em buscar a felicidade, mas encontrar o eixo da história em Deus, e todos os demais significados farão sentido. Jesus é a hermenêutica da história. Só ele pode fechar e abrir o livro, como simbolicamente o livro de Apocalipse nos ensina. O segredo da vida só pode ser encontrado em Deus mesmo.     



[1] Foster, Richard – Dinheiro, Sexo e Poder – São Paulo, Edit. Mundo cristão, 1986.
[2] Wolfgang Sweitzer, Liberdade para viver , pg.87
[3] Great sermons from master preachers of all ages. Compilado por Theodore W. Engstrom, Grand Rapids, MI – Zondervan Publishing House, 1951, pg 11

Ec 1.1-12 A Ausência de sentido na vida




Introdução:

Eclesiastes é um livro de crise, e por isto destoa de boa parte da Bíblia. Alguém afirmou que “São vozes de combinação de uma decadente religião com uma decadente filosofia”.

O nome Eclesiastes é extraído da septuaginta da palavra “koheleth”, dando a entender que o autor é professor ou pregador. O ofício do que fala na Assembléia. Em grande parte autobiográfico. Ele se chama de “o filho de Davi”, embora o pregador não afirme que ele seja Salomão, mas todas as evidencias parecem demonstrar que ele de fato foi seu autor. Eclesiastes afirma que “tudo é vaidade”. Que não é possível encontrar nenhum referencial que possa trazer esperança. Por isto, Heine o chama de “Cântico dos cânticos de pessimismo”.
A palavra “vaidade” evoca a ideia de algo fútil, ou de uma pessoa que gosta de coisas sofisticadas, relógios caros, adereços atraentes, e é por isto chamada de vaidosa, mas a palavra no hebraico, Hebhel), deve ser traduzida por “vapor”, “brisa”;  indica a esterilidade, a ausência de objetivos, o vazio, a transitoriedade. A NVI em inglês preferiu traduzir por “meaningless”. Literalmente significa “bolha de sabão”. Esta palavra é o centro deste livro, sendo usada nada menos que 31 vezes. Ele conclui que todas as coisas, alegres ou sombrias, são somente vapor, pairando no corredor do tempo. O livro é uma rede de meditações acerca da vida, seus significados, valores e destinos.

A natureza é um sistema fechado, volvendo e revolvendo-se em torno de si mesma, sem uma penetração do sagrado, de algo de fora que lhe rompa o vazio. Hebhel “bolha de sabão” aponta para o fato de que a vida brilha, seu brilho traz fascínio por breve tempo, e logo desaparece. Heine classifica este livro como “a canção do ceticismo”- Das hohelied der skepsis.

Este livro possui uma profunda similaridade com um livro traduzido como “a insustentável leveza do Ser” de Milan Kundera, onde o autor inicia sua reflexão dizendo: “sempre me fascinou o conceito de eterno retorno do qual Nietzsche afirma”.

Esta vaidade (vazio) existencial nos coloca numa linha de desespero: Este vazio é desgastante e aflitivo, gera profundo desespero e desilusão. Entramos na área em que não há esperança. Albert Camus, filósofo existencialista no seu clássico “O Mito de sísifo” afirma: “Se há um problema filosófico verdadeiramente sério é o suicídio”.
Eclesiastes nos apresenta o vazio de todas as coisas:
1.       O vazio de todo esforço após a sabedoria – 1.12-18
2.       O vazio da alegria – 2.1-12
3.       O vazio do conhecimento – 2.12-17
4.       O vazio do trabalho – 2.18-23

Esta leitura desemboca em três visões:

1.       O vazio da vida – O mito de sísifo na mitologia grega fala de um homem, condenado por Zeus, que é eternamente condenado a carregar uma pedra para o alto de uma montanha, e quando ele está quase alcançando, Zeus com um dedo a faz desmoronar, obrigando o homem a recomeçar esta árdua tarefa, renovando indefinidamente seu ato sem sentido.

Kundera diz: “O mito do eterno retorno, nos diz, por negação, que a vida é sem peso e que está morta desde hoje, e que por mais atroz, mais bela, mais esplêndida que seja, essa beleza, esse horror, este esplendor - não tem o menor sentido”.

Do ponto de vista da história, esta é a visão cíclica da velha disputa entre a teoria platônica x cristã. Esta é a visão que Platão preconiza. A história não tem continuidade, ela anda em círculos - não tem objetivos. O autor de Eclesiastes enxerga a vida neste prisma: “O que foi é o que há de ser, e o que se fez, isto se tornará a fazer, nada há pois, novo, debaixo do sol” (Ec 1.9), ou como diz a Bíblia Viva: “A história sempre se repete”.
Os dois livros mais negados das Escrituras são o livro de Gênesis e Apocalipse, porque revelam a consistência da história na perspectiva de um Deus que se revela. A história humanista perdeu a referência do Sagrado, e a interpreta como algo cíclico, num interminável ir-e-vir, sem conexão alguma com algo que seja concreto. Tudo é vazio. Tudo é vaidade.

Veja como este relato de Bernardo Élis[1] reflete este dilema do vazio.
Quando percebeu que a morte o espreitava mais de perto do que nunca, se tornou contundente: “Eu sempre pensei em suicídio. E acho que a vida é uma besteira”. Ao fato de não ser possível compreender como alguém tão produtivo como ele podia ter a idéia de morte tão constante em sua vida, Bernardo se tornava mais frio ainda na resposta: “É porque você é colocado contra a parede: ou você morre ou você vive. Há muito preconceito contra a morte, sendo que a morte para mim não é nada. São os minerais que estão organizados em forma orgânica e vital que voltam à natureza. Mas é difícil acabar com a vida. O ser humano é muito duro, é difícil de morrer”. Fonte, O popular, dia 01/12/97, por ocasião de sua morte. Escritor Goiano, autor de “Ermos e Gerais” década de 70, “Veranico de Janeiro”,” a enxada”e  “O Tronco”.
Um dia, Élis confessou a vontade de morrer. Revelou que o pensamento suicida o acompanhou ao longo da vida ao ponto de fazê-lo manter, quando jovem, um frasco de veneno no criado-mudo, ao lado da cama. Não queria se enforcar e ficar com aspecto feio depois de morto. A cena da confissão não era tenebrosa, nem o momento era de dor. Parecia mais obra ficcional surgida na mente fértil de um homem cujo ofício era criar imagens e histórias com as palavras. A confissão se deu durante uma entrevista descontraída à jornalista Britz Lopes, na biblioteca da casa de Bernardo, no Jardim América, em 1992. Ele confessou seu desejo de morte enquanto mostrava livros, correspondências e escritos inéditos à repórter. A revelação, provavelmente, foi a mais impressionante do escrito. “A velhice é um palavrão. Você fica impossibilitado de tudo. É uma coisa idiota, sobretudo esperar sentado que a morte chegue, é muito difícil...

2.       Monotonia – O autor de Eclesiastes narra a vida como uma grande chatice. Nada é novo!  Todo esforço da natureza ou do homem é realizar algo do que já havia sido realizado.

A vida é uma eterna mesmice: “ Geração vai, geração vem, mas a terra permanece para sempre” (Ec 1.4). Do vs. 5 em diante, a história é revelada com algo caótica e sem propósito: “Geração vai e geração vem; mas a terra permanece para sempre. Levanta-se o sol, e põe-se o sol, e volta ao seu lugar, onde nasce de novo. O vento vai para o sul e faz o seu giro para o norte; volve-se, e revolve-se, na sua carreira, e retorna aos seus circuitos. Todos os rios correm para o mar, e o mar não se enche; ao lugar para onde correm os rios, para lá tornam eles a correr. Todas as coisas são canseiras tais, que ninguém as pode exprimir; os olhos não se fartam de ver, nem se enchem os ouvidos de ouvir. O que foi é o que há de ser; e o que se fez, isso se tornará a fazer; nada há, pois, novo debaixo do sol. Há alguma coisa de que se possa dizer: Vê, isto é novo? Não! Já foi nos séculos que foram antes de nós” (Ec 1.5-10).

Existe um interminável movimento de repetição que inclui:
Sol:  nascendo e se pondo todos os dias.
Vento, que gira e se movimenta sem direção e propósito.
A natureza no seu movimento cíclico e interminável: Rios - mar - rio

Ocorre aqui uma simetria hebraica. Há uma nota de desencanto nestes eventos naturais. O que poderia se tornar fascinante, agora se tornam uma chatice, porque não há um sentido mais profundo em tudo que acontece. O pregador não consegue perceber a mão de Deus nestes movimentos, nem é capaz de perceber algo que dê sentido a tudo o que acontece.

3.       Canseira – O resultado disto é canseira: “Todas as coisas são canseiras tais, que ninguém as pode exprimir; os olhos não se fartam de ver, nem se enchem os ouvidos de ouvir” (Ec 1.8).

Nietzsche afirma: “A ideia do eterno retorno é o mais pesados dos fardos”. A questão filosófica se resume à seguinte síntese: “Se a vida é uma droga, tudo que advém dela é angustiante: “O que é já foi, e o que há de ser também já foi” (Ec 3.15). O trabalho é fadiga e canseira (Ec 3.9 e 2.20). Muito estudar é enfado da carne (Ec 12.12). A vida é náusea (Sartre) e a pergunta mais relevante é a seguinte: “Que proveito tem?... (Ec 2.22), afinal, tudo é “correr atrás do vento” (Ec 2.11).

O que levou Salomão a perceber a vida de forma tão pessimista?

1.       O afastamento de Deus: Salomão conhecia profundamente a Deus, e desfrutou da rica companhia de Deus no início do seu reinado, mas posteriormente veio a apartar-se dele. Conheceu muitas mulheres estrangeiras, das quais o Senhor havia dito para o povo de Deus não se envolver com elas, e começou a seguir outros deuses e o seu coração deixou ser de todo fiel a Deus. Não perseverou em seguir ao Senhor e seguiu a Astarote, deusa dos sidônios, e a Milcom, abominação dos amonitas (1 Rs 11.5), chegando ao cúmulo de edificar santuário a Camos (deus dos moabitas) e a Moloque (Deus dos amonitas), que exigia sacrifícios de crianças (1 Rs 11.8).

Sem o Deus verdadeiro, o mundo se torna lúgubre e vazio. Salomão começou a experimentar este vazio na alma, e este texto relato a dura experiência de viver longe do Senhor. A verdade é que só existe uma alternativa fora da esperança: O desespero.

Jean Paul Sartre, filósofo existencialista, entendeu corretamente esta questão ao dizer: “A vida é um absurdo, Deus dá ordem ao absurdo, mas Deus não existe”, noutro lugar diz: “Nenhum ponto finito pode ter significado, se não tiver relação com um ponto infinito”. Através do profeta Jeremias, Deus mostra ao seu povo as conseqüências do afastamento: “Porque dois males cometeu o meu povo: a mim me deixaram, o manancial de águas vivas, e cavaram cisternas, cisternas rotas, que não retêm as águas” (Jr 2.13). O homem sem Deus procura sentido em coisas que são incapazes de saciar sua sede. Assim aconteceu com Salomão.

2. Uma equivocada visão da história – Salomão encontra dificuldade em ver que a história tem uma perspectiva ascensional, não cíclica, por isto afirma: “O que foi é o que há de ser; e o que se fez, isso se tornará a fazer; nada há, pois, novo debaixo do sol “ (Ec 1.9).

Salomão, longe de Deus, perde a visão do propósito de todas as coisas é vazio, e vê que o esforço humano é inútil. Gerações humanas vão e vem; os dias e as noites se sucedem, num ciclo interminável de rotina; os fatos da natureza são repetitivos e as estradas são as mesmas. Esta também é a base de toda leitura secularista da vida, tudo é mera repetição. O pregador demonstra familiaridade com as leis da natureza, mas as vê como limitadores da experiência humana.

Quando se é incapaz de enxergar o dedo de Deus para dar sentido a este absurdo histórico, a vida passa a ser canseira “tais que ninguém as pode exprimir” (Ec 1.8).

O uso freqüente da frase “debaixo do sol”, demonstra que o pregador está olhando a vida numa perspectiva existencial. O resultado é um só: canseira e enfado. O trabalho torna-se angustiante, a sabedoria é um peso, a vida um absoluto vazio, um angustiante “já te vi”. Tudo é monotonia, mesmice e rotina. A história está em movimento, saindo do nada para lugar algum. “O que foi é o que há de ser, e o que se fez, isto se tornará a fazer”.

A visão de Eclesiastes possui o mesmo fundamento platônico. Tudo na história é cíclico! A visão da história nas Escrituras Sagradas possui uma perspectiva ascensional. A história cristã não vê a vida em departamentos estanques, mas a percebe no seu todo. Por isto ela possui princípio, meio e fim.

Para os existencialistas a visão é fragmentada. Percebe o aqui e agora, mas não identifica o sentido da vida (origem), não vê Deus, nem razão em nascer, e não vislumbra esperança (escatologia), a vida está sendo conduzida num arrastão existencial e somos levados como folhas. Deus não é perceptível na história e nem mesmo age nela. Os fatos são desordenados e mera sucessão de acasos. Afinal, “tudo depende do tempo e do acaso”. (Ec 9.11).

A vida é “mesmice” vs. 4. Esta simetria hebraica pode ser considerada com uma poesia de Chico Buarque que diz:
“Roda moinho, roda gigante,
roda moinho, roda pilão,
o tempo rodou num instante, nas rodas do meu coração”
Onde está o dedo de Deus?

Vinicius assim se expressa na sua belíssima música “Aquarela”:
“O futuro é uma astronave, que devemos pilotar
não tem tempo, nem piedade, nem tem hora de chegar,
sem pedir licença,muda nossa vida e depois convida a rir ou chorar,
e no fim de tudo, descolorirá”.

3.  A incapacidade de perceber um Deus pessoal regendo a vida. “Pois que tem o homem de todo o seu trabalho e da fadiga do seu coração, em que ele anda trabalhando debaixo do sol? Porque todos os seus dias são dores, e o seu trabalho, desgosto; até de noite não descansa o seu coração; também isto é vaidade” (Ec 2.22,23). Esta é uma das grandes questões humanas: Que proveito tem o homem de todo o seu trabalho?  Você faz, produz, realiza, se torna respeitado para descobrir no final que tudo isto é “ouro de tolo” (Raul Seixas).
No hebraico, existem vários nomes para Deus, cada um deles expressa atributos e o caráter de Deus. Por exemplo ”El Shaddai significa “Deus Poderoso”. Três termos são comuns para considerarmos os nomes de Deus: “El”; “Elohim” e “Yahweh”.
·         “El” significa Deus num sentido mais lato, verdadeiro ou falso, ou mesmo uma imagem que é tratada como Deus, como no caso de Gênesis 35.2;
·         “Elohim”, embora seja o plural da palavra “elohá”, pode ser tratado como singular, e significa a grande e suprema divindade que nossa visão traduz por “Deus”. Transmite a noção de tudo quanto pertence o conceito de “deidade”.
·         “Yahweh”, no hebraico, estritamente falando é único nome de Deus, era o Deus pessoal, o Deus dos patriarcas: Abraão, Isaque e Jacó. Ao contrário de Elohim, que apresenta uma dimensão cósmica, mas nunca o Deus dos patriarcas. O livro de

Eclesiastes é um livro que não emprega a palavra “Jeová”, apenas o termo “Elohim”, que é um Deus criador (deísmo). O nome “Jeová”, Deus do Pacto, não é aqui empregado. O Deus que é apresentado “impõe” tarefas e atividades à humanidade (Ec 1.13); exige prestação de contas (Ec 11.9), e você deve temê-lo porque é “dever” de todo homem (Ec 12.13). O trabalho é o instrumento mais comum de Deus para os afligir (Ec 1.13, 3.10). Em contrapartida é também um Deus que dá condições ao homem para sua alegria (Ec 2.24): comer, beber, e desfrutar o bem de todo o seu trabalho é um dom de Deus (Ec 3.13); estar atento às obras de Deus é importante porque ninguém pode “endireitar” o que ele torceu” (Ec 7.13). Apesar desta afirmação, Deus não é visto como a causa do desatino da humanidade, pois Deus fez o homem reto e ele se meteu em muitas astúcias (Ec 7.29); a despeito de todo emaranhado de contradições que se perpetuam na existência humana, ele tem a impressão de que Deus abençoa os que fazem o bem, ao passo que o perverso será como sombra por não temer a Deus (Ec 8.12,13).
O tema central de Eclesiastes é “vaidade”, referindo-se não à presunção, mas ao vazio de toda uma vida sem Deus. Vaidade significa “futilidade”.  Nascer, lutar, viver, sofrer, experimentar alguma alegria transitória que é nada à vista da eternidade, deixar tudo e morrer. Por isto é uma “bolha de sabão”

Conclusão:

O livro de Eclesiastes termina mostrando o fim de todo o problema: “De tudo o que se tem ouvido, a suma é: Teme a Deus e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo homem” (12:13). A síntese e essência da humanidade é o temor a Deus. Se existe algo que pode dar sentido, este algo é Deus. Embora o pregador não tenha uma perspectiva tão boa de Deus, pois o vê como alguém que julga e impõe trabalhos, afirma corretamente que a razão, o logos, a síntese da existência humana está em alguém maior do que nós: Deus. Pode-se buscar as mais criativas e diferentes soluções, mas os problemas existenciais mais profundos não estarão sarados. Só em Deus a vida pode ser encontrada.
Jesus afirmou: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo10.10). O mito de sísifo não é conclusivo. A vida pode ter outras rotas. As notas do Evangelho são vivas, cheias de vida e esperança. Ás pessoas desesperançadas Jesus sempre se aproximava com uma resposta específica, como podemos ver no Evangelho de João:

·         Para os religiosos – Jesus fala do novo nascimento: nova vibração do ser, um novo ser criado por Deus.
·         Para os sedentos de afeto, atenção, sentido, Jesus afirma: “Se tu soubesses quem é o que te pede, tu lhe pedirias e ele te daria água viva”.
·         Ao cansados, prostrados e desesperançados convida a levantar-se, tomar seu leito e andar.
·         À multidão faminta, Jesus faz milagre e alimenta, multiplicando os pães.
·         Aos pecaminosos afirma: “Nem eu te condeno, vai e não peques mais”

Sem Deus a vida é caótica. Quando o excluímos a história se torna absurda, afinal, se tudo termina num túmulo frio, somos os mais infelizes dos homens.





[1] Bernardo Elis. Bernardo Élis Fleury de Campos Curado, nascido em Corumbá de Goiás, no dia 15 de novembro de 1915, foi o primeiro goiano a integrar a Academia Brasileira de Letras (ABL) foi considerado pelos estudiosos da literatura como um dos introdutores da fala caipira no conto brasileiro.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Ec 12.1 O que todo idoso deveria lembrar...


Introdução:

Este texto é autobiográfico. Salomão esta falando de si mesmo e de suas experiências e vivencias. Ele começou sua vida tendo ricas experiências com Deus, posteriormente, porém, se afastou de Deus e “O Senhor se indignou contra Salomão pois desviara o seu coração do Senhor, Deus de Israel”(1 Rs 11.9). Longe de Deus, ele registrou o vazio de sua experiência humana, revelando que apesar de toda riqueza, poder, fama, sexo, sua alma tornou-se vazia e sem sentido, e ele experimentou o pessimismo e o ceticismo decorrentes de uma vida sem Deus.

Neste texto, o último capítulo de Eclesiastes, ele faz um relato dramático desta situação, agora, sem saúde e alegria, fala da velhice, das sensações que experimenta, por isto a recomendação do primeiro versículo é saudosista e bem hedonista. É uma pessoa idosa fazendo recomendações aos jovens.

“Alegra-te jovem na tua mocidade, e recreie-se o teu coração nos dias da tua juventude; 
remove da tua carne o desgosto e a amargura, sabe, porém, que de todas 
estas coisas Deus te pedirá contas” (Ec  11.1).

Salomão vê a velhice, como uma época de falta de prazer – “Antes que venham os maus dias nos quais dirás: não tenho neles prazer” (Ec 12.1).

Salomão era uma pessoa vaidosa. Talvez a vaidade tenha sido a principal causa de seu vazio existencial. Ele tinha obsessão pela imagem, sempre buscou afirmação social, reconhecimento político, por isto se casou com a filha de Faraó, apesar da ordem explicita de Deus, para que os filhos de Israel não se casassem com pessoas pagãs, porque Faraó era importante e dava glamour ao seu reinado e trazia apreciação das outras pessoas, as pessoas de oposição e outros reinos ao redor de Israel.

Salomão era dominado pela vaidade. Ele teve que calçar os sapatos de seu pai que era um herói e assumiu o trono em meio a tensões familiares e muitas disputas. Ele era novo e inexperiente em questões políticas e pesava sobre seus ombros o fato de ter nascido de uma relação adulterina. Apesar de ter sido chamado por Deus para construir o templo, o projeto já havia sido feito pelo seu pai e ele desejava fazer bem mais que seu pai.  Sua vida se tornou uma tentativa de afirmação (Ec 2.9-10). Tornou-se maior na sua mente que em sua vida. Taxou severamente seus súditos ao ponto de exaustão por causa de seus caprichos e decidiu se casar com mulheres gentias para ampliar seu reino, apesar da ordem clara do Senhor (Dt 17.16-17). Sua imagem era mais importante que obediência. Na meia idade encontrou-se com seu lado negro.

Na velhice, teve que lidar com sua decadência física, e com a dura realidade de que “a juventude e a primavera da vida são vaidade”. Ele construiu sua vida sobre estes pressupostos de virilidade, conquistador, charme, e agora percebe que sua vida era vazia e sem sentido algum. Ele vivera numa bolha de sabão.

Salomão seria no nosso dia o que chamamos de um homem midiático. O holofote, a mídia, e a imprensa, são algumas das coisas mais tentadoras da vida e que mais facilmente pervertem o coração do homem. Scott Peck afirma que Satanás é um ser de penumbra e das sombras, por onde transita muito bem, mas se revela e é descoberto por um simples detalhe: ele gosta de se mostrar, afinal, “vaidade é seu pecado predileto”. Quando o ser humano projeta todo prazer na beleza ou na performance, num determinado momento, perde o prazer na vida, porque não encontrou em Deus o que realmente importa.

É certo que a velhice impõe limites, e quando isto acontece, precisamos encontrar prazer em outras realidades: na vida com Deus, na família, em relacionamentos. Envelhecer é uma arte e uma benção. Lamentavelmente, nem todos sabem desfrutá-la. Salomão deixa claro sua agonia agora com a velhice. Pensamento semelhante teve Jorge Amado, um escritor desbocado que chega ao final de sua vida e se depara com a dura realidade da velhice e não tem outro prazer senão na boemia. Por isto sua afirmação agressiva de que “a velhice é uma ______”.

No entanto, aos olhos de Deus, a velhice é sinal de benção. Quando o Senhor amaldiçoou a Eli e sua casa, proferiu uma dura palavra contra sua família. “...Para que não haja velho nenhum em tua casa” (1 Sm 2.31) e, “todos os descendentes de sua casa morrerão na flor da idade” (1 Sm 2.35) Este juízo e maldição de Deus foram decorrentes da atitude dos filhos de Eli, que sendo sacerdotes no templo, tratavam as coisas espirituais e os sacrifícios trazidos a Deus com desprezo. Certamente este texto profético é uma alerta séria aos sacerdotes, pastores e bispos que atualmente lidam com descaso ou em benefício pessoal com as ofertas que o povo de Deus traz para adoração.

Velhice é benção. Não ter idosos em uma casa... maldição.  Entretanto, Salomão não consegue ter esta percepção da velhice. Ele afirma que não tinha prazer na velhice. Não experimentar esta alegria é um padrão comum? É isto que nos aguarda quando envelhecemos? É possível encontrar prazer na velhice? A Bíblia garante que sim.

Veja a oração, cujo título é “suplicas de um ancião”, descrita no Salmo 71: “Em ti, Senhor, me refugio; não seja eu jamais envergonhado...Tu me tens ensinado, ó Deus, desde a minha mocidade; e até agora tenho anunciado as tuas maravilhas. Não me desampares, pois, ó Deus, até a minha velhice e às cãs; até que eu tenha declarado à presente geração a tua força, e ás vindouras o teu poder” (Sl 71.1,17-18). Não é esta uma oração carregada de expectativa e anseios divinos no coração? Não deveria ser esta realidade de um servo de Deus? Continuar glorificando a Deus e dando testemunho de sua bondade?

Quando participamos de um aniversário de uma pessoa com oitenta, noventa anos, não é este um motivo de júbilo e louvor? O autor deste Salmo é uma pessoa idosa, que continuava anunciando as maravilhas de Deus e que gostaria de poder, na sua velhice, continuar declarando à presente geração a força e o poder de Deus às vindouras gerações. Seu coração está cheio de louvor, o seu prazer está certamente centrado em Deus. Ele continua bendizendo e glorificando o Senhor.
Para Salomão, contudo, a velhice é vivida sem expectativa, e a descrição que ele faz é pessimista e cínica. Não há nada de bom.
a.       Ele fala da falta de visão – Ec 12.2
b.       Ele fala da falta de vigor nos braços – Ec 12.3
c.        Ele considera a falta de firmeza e as fraquezas das pernas – Ec 12.3
d.       Ele fala da dificuldade de mastigar – Ec 12.3
e.        Ele fala da perda da voz – Ec 12.4
f.         Ele fala da perda da audição – Ec 12.4
g.       Ele fala dos temores próprios da velhice – Ec 12.5
h.       Ele fala da falta de apetite – Ec 12.5
i.         Ele fala da sensação da morte se aproximando – “porque veias à casa eterna, e os pranteadores andem rodeando pela praça” – Ec 12.5 Ele percebe as pessoas preocupadas com sua saúde, comentando em sussurro sobre seu estado físico, e os pranteadores por perto, carpideiras que chorarão a sua morte. Cenário fúnebre.
j.         Ele fala da realidade da morte – Ec 12.6,7 “E o pó volte a terra que era, e o espírito volte à Deus que o deu”.

E conclui finalmente, afirmando e reiterando que, tudo é vaidade, vazio e sem sentido. A vida é um chiste; a morte, uma brincadeira de mau gosto.

Salomão não consegue encontrar na vida e na velhice, algo que lhe plenifique, que dê sentido. Não é assim que vemos outros homens da Bíblia, pelo contrario, podemos citar quatro pessoas, duas do Antigo e duas do Novo Testamento, expressando a confiança e percebendo o cuidado de Deus em sua velhice.

A.                   Abraão – a Bíblia fala que ele morreu “em ditosa velhice”. “Expirou Abraão; morreu em ditosa velhice, avançado em anos, e foi reunido ao seu povo” (Gn 25.8).
B.                   Calebe – Aos 80 anos, o encontramos cheio de expectativa sobre a vida, fazendo planos e sentindo-se fortalecido em Deus (Js 14.10,11).
C.                   Profetisa Ana – Uma mulher idosa, cheia de piedade. “Não deixava o templo, mas adorava noite e dia em jejum e orações”. Gente que encontra sentido em orar, adorar, interceder e esperar no Senhor – (Lc 2.36-38).
D.                   Simeão – Homem idoso, justo e piedoso, que “esperava a consolação de Israel, e o Espirito Santo estava sobre ele”. Era idoso, mas encharcado da santa expectativa messiânica e da obra de Deus. Frágil fisicamente, mas forte em espírito e fé. (Lc 2.25-35).

A vida destes homens de fé revelam como a piedade e a vida de adoração são fundamentais na forma como encaramos a velhice. Sabemos que todo o relato de Salomão é verdadeiro, quanto aos limites físicos, mas esta limitação não pode retirar o entusiasmo na vida de uma pessoa que ama a Deus.

A realidade e os limites

Ao revelar toda a fragilidade da vida e da idade, este texto nos ensina a entender que a velhice traz, de fato, muitos percalços, e não precisamos ignorar isto. Perde-se o prazer em várias coisas: No olfato, paladar, audição (Ec 12.1,2,5). Determinados medos parecem se aguçar: perna frágil, braços fraquejam, olhos tornam-se embaçados, perda do vigor e autoridade, irritabilidade e impaciência, pequenos problemas para superlativos, até o gafanhoto parece ameaçar. São as limitações que a idade impõe.

Além de todos estes limites, a realidade da morte torna-se mais presente. Qualquer pessoa pode morrer, a qualquer hora, mas para uma pessoa de 80 anos ela se torna muito mais presente (ou consciente), afinal, quantos conseguem romper a barreira de 80? E se rompem, quantos chegam a 90?

Billy Graham afirma que “a igreja ensina as pessoas sobre a morte, mas não sobre a velhice”. Por esta razão, não raramente, mesmo pessoas que amam a Deus encontram certa dificuldade em desfrutar e descobrir dentro dos limites da idade, o plano que o Senhor tem para o seu povo.

Existe um texto na Bíblia que particularmente não gosto. Eu sei que ele é verdadeiro, quem o proferiu foi o próprio Senhor Jesus, mas ele fala de realidades e limites pesados. “Em verdade, em verdade te digo, que quando eras mais moço, tu te cingias a ti mesmo e andavas por onde querias; quando, porém, fores velho, estenderás as mãos, e outro te cingirá e te levará para onde não queres ir” (Jo 21.18). O ato de “cingir-se”, é o simples ato de poder colocar a roupa que quiser, amarrá-la bem, já que se usavam grandes roupões, e sair andando pela estrada. Jesus está afirmando que o direito de se vestir, de ir e vir, não será possível, já que estenderemos a mão às pessoas que nos levarão “para onde não queremos”. Eu não aprecio a ideia de ser levado para onde não quero. Eu quero ter meus direitos de ir e vir, minha independência e minha liberdade. Mas dependendo da minha idade e às condições de minha saúde, até este direito me será tirado. Outros vão me vestir? Eu não quero ninguém me vestindo... Outros me levarão para onde não quero? Eu não gosto de ir para onde eu não quero ir... Estes são os limites da idade – Esta é a realidade da velhice.

As promessas

Por outro lado, as promessas de Deus para a velhice são abundantes de graça: “Coroa e honra são as cãs (os cabelos brancos), quando se acham no caminho da justiça” (Pv 16.31); “Na velhice darão ainda frutos, serão cheios de seiva e verdor” (Sl 92.14); “E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei do meu Espirito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos jovens terão visões, e sonharão vossos velhos” (At 2.17). Sempre associamos sonhos aos jovens, mas Deus está afirmando que ele ainda nos dará a benção de sonhar na velhice. Que promessa fantástica”!

Conclusão: O que devemos lembrar?


  1. A vida passa rápido – Não perca oportunidade de fazer aquilo que você só poderá fazer agora. Dance enquanto pode, viaje enquanto tem saúde, coma e durma bem, não entregue os pontos antes da hora, se o corpo tá doendo, esforce-se enquanto ainda é possível. Esta é a hora!

  2. Devemos nos preparar para morrer – Isto implica em ter certas coisas claras quanto à realidade e os limites da idade. Envelhecer precisa ser uma arte, precisamos aprender que vamos nos deparar com os limites próprios de cada idade, mas celebrar até mesmo os limites em cada uma destas estações da vida. Quando não puder visitar os outros, poderei orar. Quando não conseguir correr 1 Km, vou andar. Entender os limites nos ajuda a não ficarmos ansiosos por aquilo que não temos mais, nem morrermos de saudosismo.

  3. Precisamos nos preparar para morrer – “E o pó volte à terra como o era, e o espirito volte à Deus, que o deu” (Ec 12.7). Seu corpo é pó, vai se desintegrar. Sua vida é transitório – vai passar. Mas seu espirito é imortal e vai voltar a Deus. Você é eterno, sua história não se encerra numa lápide. Por isto a exortação bíblica: “Prepara-te, oh Israel, para te encontrares com o teu Deus”.