domingo, 14 de novembro de 2021

Jo 3.14-19 Deus amou o mundo

 


 

Introdução

 


Ilustração: Como chegar a Santos?

 

Certa pessoa se perdeu no trajeto para Santos, ao passar por São Paulo. Desorientada resolveu perguntar para um rapaz, e ele disse:

*    Volte a rua de onde vocês vieram, e depois de dois sinais ... humm... por aqui não vai dar...

*    Não! Faça o seguinte: segue direto, vão passar por uma longa avenida, quando a rua acabar.... humm... por aqui também não vai dar...

*    Então façam o seguinte: façam o contorno aqui, andem três sinais e quando chegarem a um grande hipermercado... por aqui também não vai dar...

 

Confuso, o rapaz disse o seguinte: Sabe de uma coisa? Daqui de onde vocês estão, não tem como chegar a Santos.

 

Esta é uma boa ilustração para pessoas que acham que não tem mais jeito. É óbvio que dava para chegar a Santos de onde estavam, ou de qualquer outro lugar, mas o rapaz não sabia o caminho, assim como muitas vezes não sabemos para vencer os obstáculos que temos pela frente.

 

O texto de Jo 3.16 é uma boa ilustração da esperança e direção que podemos ter na vida, mesmo quando estamos desorientados e confusos. A afirmação simples e direta do texto é que “Deus amou o mundo”, e isto já faz brotar em nós uma maravilhosa dimensão espiritual. O texto não afirma que Deus veio julgar o mundo e expelir fogo do céu contra os pecadores, não faz afirmações sobre condenações, mas nos fala do afeto de Deus. “Ele amou”, e seu amor tem uma dimensão profunda.

 

Este texto fala também sobre a razão de Deus enviar Jesus. Qual a razão de seu nascimento? Por que Deus decidiu se tornar um de nós, assumir forma humana, viver entre as pessoas simples da Judeia, e na esquecida região da Galileia, terra de obscuridade? 

 

Por que Deus fez isto? A razão foi seu amor por nós.

 

O amor de Deus é sua pura essência. Quando a Bíblia fala de Deus, sua definição mais simples é: “Deus é amor”. Esta afirmação de João contrapõe-se a toda visão pagão dos deuses babilônicos, helênicos e romanos. Ainda observamos neste texto a natureza do seu amor: Ele amou “de tal maneira”, e isto aponta para sua intensidade e profundidade.

 

Brennan Manning, que foi alcoólatra por muitos anos, num pequeno vídeo de quatro minutos cujo titulo é “Você sabe que eu te amo?” afirma  afirma que um dia numa pequena cabana nas montanhas do nordeste americano, onde foi “emboscado” por Deus. O que ele ouvi de Deus ali no silêncio e na contemplação foi a maravilhosa afirmação: “Você sabe que eu te amo, e que sempre desejei que você tivesse um tempo para estar comigo?” Vale a pena conferir este material disponível no youtube.

 

Quando olhamos para as Escrituras Sagradas entendemos que a razão de Deus ter criado o mundo foi seu amor. A razão dele ter elegido o povo de Israel para comunicar o seu pacto com a humanidade, foi seu amor. A razão dele ter mandado Jesus foi seu amor. O amor de Deus está no centro das Escrituras Sagradas. Ele é o eixo da compreensão bíblica. Deus sempre está declarando seu amor a um povo infiel, que muitas vezes o rejeita abertamente, que se torna frio em seus afetos. Deus nunca deixa de amar, e seu desejo é fazer com que os pecadores voltam para ele, se arrependam de seus pecados e da sua frieza espiritual, se convertam a ele e sejam curados.

 

Há sempre espaço para o perdão, restauração e redenção nas Escrituras. Ao contrário do rapaz confuso que afirmava que não havia como chegar a Santos, que relatamos no inicio deste sermão, não importa de onde você venha, qual seja a sua condição, a Bíblia afirma que todos os cansados e sobrecarregados podem vir a ele e serão aliviados de sua carga de culpa, de medo, de ansiedade, de tristeza. Afirma também que aquele que confessa e deixa seus pecados, alcançará misericórdia. Não existe situação humana que Deus não possa tratar e curar. Não interessa sua condição, volte para ele. O desejo de Deus é que todos se arrependam e voltem para serem curados. Por isto ele enviou Jesus.

 

O amor de Deus tem a ver com sua oferta. “Para que não pereça, mas tenha a vida eterna”. Seu amor possui eternas implicações. Mais do que soluções temporárias, Deus deseja tratar de nossa eternidade, da salvação de nossas almas. A mensagem do evangelho vem tratar do desespero humano de não saber seu destino eterno, e para onde vai depois da morte. Seu amor trata de nossa dor no presente, mas resgata-nos da condenação eterna depois da morte.

 

O autor da carta aos Hebreus fala da grande salvação que nos foi dada por meio de Jesus, e pergunta: “Como escaparemos se negligenciarmos tão grande salvação?” (Hb 2.3) A salvação que Deus oferece não é uma salvação comum, é uma grande salvação.

 

Por que podemos afirmar que é grande a salvação que Cristo nos oferece?

 

  1. É grande pela sua procedência. “Porque Deus amou o mundo. “Deus amou”,   o amor nasce primeiramente em Deus, vem do Senhor. Ele nos amou. Ele nos ama. O amor não nasceu no coração dos homens, nem de alguma instituição. Ele nos amou sendo nós pecadores.

 

A fonte de salvação é o amor de Deus. Se alguém me perguntar, porque sou eleito, porque Deus me salvou, eu não terei nenhuma dúvida em afirmar que foi por causa do seu amor, mas se você me perguntar porque ele me amou, eu não saberei responder. Não havia em mim nenhuma virtude que realçasse, por isto a Bíblia afirma que a salvação é gratuita, não meritória. Deus ama sem que tenhamos mérito. A procedência do amor é de Deus. Ele amou o mundo.

 

Paulo afirma que “Esta é uma palavra fiel, e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal.” (1 Tm 1.15). Algumas vezes já afirmei que Paulo se considera o principal dos pecadores porque ele não me conheceu... Paulo se sentia o pior dos pecadores, mas ele não era o pior. Podemos afirmar que ele era um dos piores. Mas e quanto a nós? É correto dizer que somos um dos “melhores pecadores?” Veja como esta afirmação não faz sentido algum. Quem é pecador não é “melhor”.

 

O amor de Deus é grande por causa da sua procedência. Ele vem de Deus, é o seu amor. Deus amou, e isto torna a salvação algo tão grandioso.  

 

  1. É Grande pela sua amplitude – “Porque Deus amou o mundo”. Não apenas algumas pessoas ou regiões.

 

Um antigo cântico dizia: “O amor de Jesus é maravilhoso! Alto é, intransponível, profundo também, mas acessível. A sua extensão é incomparável, sim. Oh! Grande amor.”

 

Deus amou o mundo. Seu amor é universal. Pessoas do mundo inteiro tem sido salvas pela sua graça. Nunca a igreja estendeu tanto seu avanço missionário e cresceu tanto quanto no último século, apesar de ter sido o século de maior perseguição contra a igreja e talvez por isto o evangelho tenha proliferado tanto. Tertuliano de Cartago, um dos pais da igreja afirmou que “o sangue dos mártires é a semente dos cristãos” (Tertuliano, Apologético, 50,13).

 

O evangelho tem sido fecundo na Ásia, na África, na América Latina. O Livro de Apocalipse afirma que diante do trono encontram-se pessoas de todas as tribos, povos línguas e raças. (Ap 7.9) Os judeus concebiam um Deus que amava apenas os descendentes de sangue de Abraão, mas este texto fala de um Deus que amou o mundo. A palavra mundo aqui está se referindo a todos os seres humanos.

 

  1. É Grande pela sua intensidade – “Porque Deus amou o mundo de tal maneira. É interessante prestar atenção à expressão, “de tal maneira”. Qual o significado esta expressão? Ela aponta para o fato de que Deus amou a todos os seres humanos, mesmo aquele que você considera o menos merecedor. Amou tanto que não fez e nem faz acepção de pessoas. Essa é a dimensão do seu infinito amor.

 

Só o amor de Deus seria capaz de amar um mundo caído. Paulo chega a afirmar: “Dificilmente, alguém morreria por um justo; pois poderá ser que pelo bom alguém se anime a morrer. Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores.” (Rm 5.7-8).

 

Esta é a intensidade de seu amor.

 

  1. Grande pelo seu preço – “Porque Deus amou o mundo de tal maneira, que deu o seu Filho Unigênito. Muitos menosprezam a salvação por ela ser de graça, mas Bonhoeffer faz questão de nos lembrar que o amor de Cristo custou muito para Deus. Ele nos deu o seu único Filho.

 

O Apóstolo Pedro afirma: Sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram,
mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo
.” (1 Pe 1.18-19).

 

“O sangue de “Jesus é o tema central da Bíblia. De Gênesis a Apocalipse esse fio escarlata, o sangue de Jesus, é o tema principal. No Antigo Testamento, o sangue de Jesus é prefigurado no derramamento do sangue dos animais sacrificados nos holocaustos. No Novo Testamento o sangue de Jesus é derramado para a nossa redenção” (Hernandes Dias Lopes)

 

 

  1. Grande pela sua oportunidade – “para que todo aquele que nele crer”. Não exclui ninguém. Basta crer.

 

Jesus é bem claro sobre isto. Neste texto que lemos no início, há uma promessa e uma advertência: “Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto  não crê no nome unigênito do Filho de Deus” (Jo 3.18). Veja que bela afirmação. Não há julgamento, ou como diz Paulo em Romanos 8.1: “Nenhuma condenação há para aqueles que estão em Cristo Jesus”. A fé é o passaporte para receber a dádiva da salvação. O requisito para o céu é a fé. A confiança na obra de Cristo. a capacidade de olhar para a cruz.

 

Em Ef 2.8-9 lemos: “Pela graça sois salvos mediante a fé, e isto não vem de vós; não de obras pra que ninguém se glorie.” A fé, e não a performance, os méritos, ou as obras. Basta receber o presente que nos foi dado por meio de Cristo. A fé acolhe a oferta de Deus. A fé diz sim ao amor de Deus. A fé recebe a dádiva celestial.

 

Você já colocou sua confiança no sangue de Cristo ou ainda está confiando naquilo que você pode fazer? Você está impressionado com o Cristo fez ou está impressionado com o que você tem feito? Qual a base de sua confiança para salvação: A obra de Cristo ou suas obras?

 

Podemos afirmar que é grande pela facilidade. A salvação foi uma conquista de Deus para nós. “Não de obras”. Não tem que cumprir promessas, basta crer de todo coração.

 

  1. Grande pelo livramento – “...para que todo aquele que nele crer, não pereça, mas tenha a vida eterna.

 

Por isto o autor aos hebreus afirma: “Como escaparemos se negligenciarmos tão grande salvação?” (Hb 2.3). A obra de Cristo nos livra da condenação eterna. Pode existir uma dádiva maior que a vida eterna? Jesus não diz que teremos a vida eterna, mas que ela já pode ser uma realidade em nossa vida. “Para que todo aquele que nele crê, não pereça, mas tenha a vida eterna.” Não há mais condenação para aqueles que estão em Cristo. Nenhuma condenação. “Agora, pois, nenhuma condenação ha para aqueles que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1). Ninguém mais pode nos condenar, pois Cristo morreu em nosso lugar e satisfez toda a justiça de Deus. Jesus levou a nossa culpa. Ele pagou o preço da redenção e nos libertou. Recebemos perdão. A sentença de morte, que deveria recair sobre nossa cabeça, caiu sobre Jesus.

 

O apóstolo João afirma:  “E o testemunho é este: que Deus nos deu a vida eterna; e esta vida está no seu Filho. Aquele que tem o Filho tem a vida; aquele que não tem o Filho de Deus não tem a vida. Estas coisas vos escrevi, a fim de saberdes que tendes a vida eterna, a vós outros que credes em o nome do Filho de Deus.” (1 Jo 5.11-13)

 

  1. Grande pela sua benção – “...para que todo aquele que nele crer, não pereça, mas tenha a vida eterna.

 

Esta grande salvação descrita em Jo 3.16, nos fala de algo maravilhoso: Ela nos possibilita estar com o Senhor para todo sempre.

 

Temos muita dificuldade de entender as coisas em perspectivas não aristotélicas. Tudo que está fora da categoria tempo e espaço é confuso e difícil de entendimento.

 

Certa vez perguntaram a um sábio o que era a eternidade. Ele respondeu:

Em certo país há um pássaro mágico, que vem afiar seu bico numa montanha de granito, de 100 em 100 anos. Quando esta montanha desaparecer por causa da ação deste pássaro, ter-se-á passado um segundo da eternidade.

 

Conclusão: Como escaparemos?

 

Ao lermos este conhecido texto de João 3.16, temos de ler o texto anterior. A maioria dos cristãos sabe de cor este versículo, mas a maioria ignora os dois versículos anteriores:

 

E do modo por que Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado. Para que todo aquele que nele crê, não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.14-15).

 

Veja que João 3.16 começa com uma conjunção explicativa: “porque”. Portanto este versículo deve ser entendido à luz do texto anterior, porque eles estão interligados. Por que Jesus cita Moisés e faz referência àquele aspecto da história do povo de Deus no deserto, quando Moisés levantou uma serpente de bronze, numa longa vara, e a colocou no meio do arraial? Qual a relação entre aquela serpente e a obra de Cristo?

 

Vamos resgatar um pouco da história.

O povo de Deus havia pecado, trazendo sobre si mesmo, severas condenações. Serpentes abrasadoras começaram a picar as pessoas e muitos morreram por causa disto. O povo começou a entrar em pânico, e Deus ordenou a Moisés que fizesse uma serpente de bronze, a fixasse numa comprida vara e a colocasse no meio do arraial. Todos que fossem picados pelas cobras, olhariam e seriam curados. E assim aconteceu.

 

Não parece um texto estranho demais? Por que Deus fez isto?

O apóstolo João, inspirado pelo Espírito Santo, vai agora narrar este evento da história da forma como Jesus o explica. Quando Deus fez aquilo, ele estava preparando o povo para entender o seu plano de salvação. Um dia, seu filho amado seria levantado numa cruz. E todos que olhassem para esta cruz, seriam curados.

 

Existe na corrente sanguínea do ser humano, um veneno inoculado pelo diabo. Este veneno, que é o pecado, mata e destrói. Quem é picado por este pecado morre eternamente. Infelizmente, todos nós somos pecadores. A Bíblia afirma que “não há justo, nem um sequer”, e que “todos pecamos e estamos destituídos da graça de Deus”. O resultado é que este sangue envenenado, que corre em nossas veias, precisa de cura, mas o homem não tem antídoto contra esta peçonha, apenas quando o sangue de Cristo começa a percorrer nossas veias, o sangue que sai da cruz de Cristo e penetra em nossa natureza, seremos curados. Não há outro remédio. Apenas a obra de Cristo pode nos livrar do veneno do pecado e do diabo.

 

O Brasil é um enorme campo missionário. As pessoas estão tirando a Bíblia do centro. Perdemos a simplicidade do evangelho. A mensagem é simples. “Quem crer e for batizado, será salvo; quem porém não crer, será condenado” (Mc 16.16). E afirma ainda: “E do modo por que Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado.” Temos que olhar para o Cristo crucificado. Jesus está neste texto mostrando como somos salvos. O Filho do Homem precisa ser levantado. E do modo como o povo do deserto olhava e era curado, assim também seremos curados ao contemplarmos a obra de Cristo na cruz.

 

Em Jo 10.9 Jesus afirma: “Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim, será salvo”. Não adianta estar perto da porta: 5 cm ou 5 km e você ainda está do lado de fora, é necessário entrar por esta porta. É preciso se arrepender de seus pecados e confiar em Cristo. “Quem nele crê não é julgado”. Este é o plano de Deus que se cumpre em Cristo. é isto que Jesus está ensinando a Nicodemos, um religioso que o procura com todos seus discursos teológicos, mas que precisava nascer de novo. Jesus está falando do plano de salvação de Deus para a raça humana.

 

Você tem olhado para Cristo?

Você já entendeu o que ele estava fazendo ali naquela cruz? Por que ele foi levado a este lugar de condenação e julgamento? Por que ele morreu?

 

Esta é a grande salvação: “Todo aquele que nele crê tem a vida eterna.”

 

 

sábado, 13 de novembro de 2021

Sl 37.23 O Princípio da Estabilidade

 





“O Senhor firma os passos do homem bom”.


 

 

 

 

 

Introdução

 

 

 

 

Quando os candidatos se apresentavam ao monastério, candidatando-se ao sacerdócio, se aprovados, deveriam fazer quatro votos:

Pobreza voluntária

Castidade

Obediência

Estabilidade

 

Este último voto eu só tomei conhecimento algum tempo atrás num livro do Eugene Peterson, que fala de vocação. Achei muito curioso, porque uma das coisas mais complicadas na vida da igreja e de um pastor é a falta de estabilidade. Algumas pessoas tem perguntado porque nossa igreja tem crescido tanto, qual o segredo, e minha resposta tem sido sempre sobre a graça de Deus em nos abençoar. É graça, apenas graça! As pessoas tem conhecido a Cristo, tem conhecido a Bíblia e tem ficado em nossa comunidade. Mas há um aspecto que está muito claro em minha mente: O fato da nossa igreja estar em harmonia. Entre os pastores e colegiado; entre lideranças, entre ministérios. Esta estabilidade é fundamental. Ninguém consegue viver em uma comunidade cheia de sobressaltos e conflitos, uma igreja que está sempre variando de um polo para outro, seja em seus programas, liturgia ou teologia.

 

É necessário estabilidade para avançar. Tente fazer um carro desenvolver bem sua velocidade sem estabilidade. Tente andar com um carro com pneu sem estar calibrado, ou com a suspensão desalinhada. Um carro numa pista molhada, quando perde sua estabilidade pode ser fatal para a vida dos passageiros.

 

Da mesma forma, a vida precisa de previsibilidade, estabilidade, ordem. Por isto “O Senhor firma os passos do homem bom.” Precisamos de firmeza, estabilidade. A indecisão e a inconstância, desorientam. A instabilidade emocional é uma das maiores tragédias na vida de um ser humano.

 

§  Ela destrói a pessoa em si. Pense numa pessoa descontrolada emocionalmente. O nível de sofrimento e ansiedade que ela experimenta. A insegurança e a incerteza. Uns dias muito alegre outros dias de muita tristeza. Isto gera um profundo desequilíbrio na existência em si. Deus precisa “firmar nossos passos” para que não andemos com bêbados, desorientados e desequilibrados.

§  Ela destrói os relacionamentos. Pais e mães precisam dar segurança aos filhos para que a vida floresça sem sobressaltos. É preciso ter equilíbrio na liturgia da vida doméstica, no uso ponderado do dinheiro, na forma de viver. As reações intempestivas causam desequilíbrio, insegurança e fragilidade.

§  Igrejas. Toda instituição precisa de certo ritmo e coerência para sua sobrevivência. Pastores desequilibrados desorientam a comunidade, líderes desatinados, sem temperança, ameaçam a estabilidade da comunidade. A Bíblia afirma que o “domínio próprio” é um dos frutos do Espírito. “Ora, é necessário que o servo de Deus não viva a contender, e sim deve ser brando para com todos, apto para instruir, paciente, disciplinando com mansidão os que se opõem.” (2 Tm 2.24-25). Todas estas palavras apontam para a necessidade de estabilidade, moderação, equilíbrio, mansidão. Líderes desequilibrados causam danos quase irreparáveis à instituição.

 

Por esta razão, este princípio apresentado no Sl 37.23 é tão importante: “O Senhor firma os passos do homem bom.” Precisamos de pessoas com passos firmes. O contrário disto são passos instáveis, inseguros, trôpegos. A Bíblia afirma que o “homem de ânimo dobre (literalmente, duas almas), inconstante em todos os seus caminhos não deve supor que “alcançará do Senhor alguma coisa” (Tg 1.6,7).

 

Precisamos de estabilidade. A vida precisa de estabilidade. Famílias precisam de estabilidade,  igrejas precisam de estabilidade.

 

1. Estabilidade estrutura a vida

 

Estabilidade gera consistência, coerência, integridade. Palavra esta sugestiva, porque fala de uma pessoa íntegra, não fragmentada. Dentre as características bíblicas descritas para um líder cristão, encontra-se a sobriedade e temperança. “é necessário, portanto, que o bispo seja irrepreensível, esposo de uma só mulher, temperante, sóbrio, modesto, hospitaleiro, apto para ensinar” (1 Tm 3.2). observe quantos termos aqui apontam para a estabilidade.

 

-Irrepreensível

-Temperante

-Sóbrio

-Modesto

 

Tudo isto tem a ver com estabilidade.

 

O contrário da temperança é o destempero. O contrário da sobriedade é o desequilíbrio. Aliás, a ausência de sobriedade está diretamente ligada a pessoas que bebem muito e perdem o bom senso, dizem coisas irrefletidamente, falam sem prudência. Vejam como a modéstia se aplica também a isto. Um líder extravagante, falastrão, com purpurina em demasia, perde a tonalidade e a cor certa.

 

A estabilidade está relacionada ainda a algumas áreas:

 

-Aos afetos – Pessoas que não sabem o que querem na sua vida afetiva, se apaixonam (e desapaixonam) com facilidade, não geram confiança nos outros e em seus relacionamentos. Gabriel García Márquez disse que “o mais importante num bom casamento não é a felicidade e sim a estabilidade.” A estabilidade da alma deve ser algo desejado e buscado. Não há dinheiro no mundo que compre a paz de uma vida centrada e organizada. Em muitas pessoas, o emocional tem a consistência de uma gelatina. Filhos anseiam pela estabilidade dos pais, porque isto se torna porto seguro para suas vidas.

 

-Ao uso do dinheiro – É fundamental que saibamos usar bem os recursos. Por mais que você ganhe bem, seus recursos não são ilimitados. Um antigo presbítero de Formoso-GO afirmava que o importante não é o quanto você ganha, mas o quanto você economiza. É óbvio, também, que o excesso de economia nos transforma em pessoas avarentas e apegadas ao dinheiro, que não sabem desfrutar daquilo que tem. É necessário ter estabilidade financeira para qualquer planejamento que se deseja executar.

 

É de Abraham Lincoln a seguinte afirmação:

Não criarás prosperidade se desestimulares a poupança.
Não criarás estabilidade permanente baseada em dinheiro emprestado.
Não evitarás dificuldades financeiras se gastares mais do que ganhas.
Não poderás ajudar os homens de maneira permanente se fizeres por eles aquilo que eles podem e devem fazer por si próprios.

 

-Uso do tempo – Uma outra área na qual precisamos de estabilidade tem a ver com o uso do tempo. Pessoas desregradas quanto ao tempo, o desperdiçam usando-o de forma inadequada. Ou trabalhando demais (hiperatividade) ou de menos (displicência). É necessário equilíbrio adequado.

 

A estabilidade estrutura a vida. Pessoas inconstantes de auto destroem assim como destroem aqueles que estão ao seu lado.

 

2. Estabilidade glorifica a Deus

 

Crentes instáveis dão péssimo testemunho e desautorizam o evangelho. Não é sem razão que a estabilidade é tão exigida dos líderes cristãos. Na lista de características de um líder, várias delas estão relacionadas à estabilidade e ao equilíbrio emocionalcomo ser temperante, isto é, não exagerado, “não dado ao vinho”, sóbrio ou “cheio de bom senso”, não violento, “Não briguento”. Modesto, simples no vestir e no estilo de vida.

 

O objetivo supremo de nossa vida é trazer glória a Deus e levar outras pessoas a darem glória a Deus. O domínio próprio é essencial. Quando uma pessoa não é mestre dos seus impulsos ela perde a eficácia de seu testemunho cristão e deixa de glorificar a Deus. “Líderes espirituais devem rastrear maus hábitos impiedosamente, e quebrá-los pelo poder do Espírito.” (John Piper)

 

O comentarista William Barclay tece uma longa e profunda consideração sobre o assunto:

 

“O líder cristão deve ser temperante (sofron) e sóbrio (kosmios).” A palavra sofron pode também ser traduzido por prudente, cabal, discreto, controlado, casto, que tem domínio completo sobre os desejos sensuais. Os gregos a derivaram de duas palavras que significam manter um juízo firme e seguro. O substantivo que lhe corresponde é sofrosune, e os gregos escreveram e pensaram muito a respeito dela. É o oposto da intemperança e falta de domínio próprio. Platão a definiu como "o domínio do prazer e do desejo". Aristóteles como "o poder por meio do qual os prazeres do corpo se utilizam como mandatos da lei". Trench descreve a sofrosune como "a condição de domínio total sobre as paixões e os desejos, de modo que estes não recebam mais concessões que as permitidas e aprovadas pela lei e a razão correta. O homem que é sofron é aquele que tem cada parte de sua natureza sob um perfeito domínio,  em cujo coração Cristo reina de maneira suprema.

 

Continua Barclay:

Kosmios(sóbrio) se traduz como decoroso. O homem só é sóbrio em sua conduta exterior se for temperante em sua vida interior. Esta palavra kosmios significa ordenado, honesto, decoroso. Em grego tem dois usos muito especiais. E é muito comum para descrever ao homem que num bom cidadão. Platão define o homem que é kosmios como "o cidadão que age com tranquilidade, que ocupa seu lugar devidamente, e ordena os deveres que lhe incumbem como tal". Esta palavra implica mais que simplesmente um bom comportamento. Descreve o homem cuja vida é formosa e em cujo caráter se combinam e integram todas as coisas harmoniosamente. É o homem em que se unem a força e a beleza. O líder da Igreja deve ser um temperante, um homem que controle todos seus instintos, paixões e desejos; também deve ser sóbrio, cujo controle interno se transforme em beleza externa; o líder deve ser um homem em cujo coração reine o poder de Cristo, e em cuja vida resplandeça a beleza de Cristo.”

 

3. Estabilidade é graça de Deus

 

 

Este é o terceiro ponto que queria colocar, e parece ser a mensagem central do texto. O foco da estabilidade aqui não está no que o homem pode fazer, mas no Deus que faz. “O Senhor firma os passos do homem bom e no seu caminho se compraz. Se cair, não ficará prostrado, porque o Senhor o segura pela mão”. (Sl 37.23,24)

 

Veja como a estabilidade é uma graça de Deus:

 

A. Primeiro, quem firma os passos é o Senhor. “O Senhor firma os passos do homem bom e no seu caminho se compraz.” A estabilidade não é uma virtude centrada no homem, mas em Deus. Nossos passos podem estar firmes, por causa da absoluta graça de Deus. Ela nos protege, traz equilíbrio, sensatez, modéstia.

 

B. Segundo, por mais que um homem seja coerente e estável, isto não o impede da queda. Por isto o texto afirma: “Se cair, não ficará prostrado, porque o Senhor o segura pela mão”. O texto não diz que o homem estável não cairá, mas que, se cair, não ficará prostrado.” Mesmo tendo seus pés firmados por Deus, isto não nos impede de desequilibrarmos, falharmos. Homens e mulheres que são amados (as) de Deus podem cair. Mas o texto faz questão de dizer que não ficarão prostrados.

 

Mais uma vez temos aqui o triunfo da graça de Deus. É Deus fazendo em nós, mesmo quando caímos, não precisamos ficar prostrados, o Senhor pode nos reerguer, restaurar nossa honra e dignidade, nos fazer assentar novamente entre os príncipes, ter nossa reputação restaurada pela cruz.

 

A habilidade de se levantar não é por causa da habilidade humana em se reerguer, mas porque o Senhor o segura pela mão. Sua força e equilíbrio vem de Deus. “Porque sete vezes cai o justo, e se levanta; mas os ímpios são derribados pela calamidade.” (Pv 24.16).

 

O justo não ficará prostrado por causa da graça de Deus em reerguê-lo. “Se cair, não ficará prostrado, porque o Senhor o segura pela mão.” O perdão e a graça de Deus é poderoso para nos restaurar. Esta é uma promessa maravilhosa de Deus para aqueles que estão lamentando sua queda e seu fracasso. A palavra de Jesus para a mulher adúltera foi uma clara mensagem do que Deus pode fazer: “Nem eu te condeno, vá e não peques mais!” A graça de Deus firma nossos passos, traz estabilidade, restaura a dignidade.

 

Estabilidade e temperança é graça de Deus. Lembrem-se que “domínio próprio” é um dos frutos do Espírito. Não é gerado pelo homem, mas por Deus. É obra do Espírito Santo. Um dos sinais de que Deus está agindo na vida de alguém é que isto lhe traz moderação, equilíbrio, temperança, sobriedade, todas estas palavras estão relacionadas à estabilidade. Tem a ver com a promessa que lemos hoje: “O Senhor firma os passos do homem bom e no seu caminho se compraz.

 

Paulo afirma: “Mas, pela graça de Deus, sou o que sou; e a sua graça, que me foi concedida, não se tornou vã; antes, trabalhei muito mais do que todos eles; todavia, não eu, mas a graça de Deus comigo.” (1 Co 15.10). Ele entendia claramente quem o sustentava, a fonte da estabilidade em sua vida.

 

Precisamos ter esta clara percepção de quem faz. Somente a graça de Deus pode nos levar em segurança e estabilidade. Não confie na sua capacidade espiritual. Ultimamente temos sido bombardeados por conceitos que nos levam a crer que o homem consegue ter e fazer tudo o que quiser, de acordo com sua força. Estes conceitos de auto ajuda, estão centrados no que o homem é capaz de fazer, mas ao lermos a Palavra de Deus percebemos que a ênfase nunca está naquilo que somos capazes de fazer, mas naquilo que Deus faz “em nós, através de nós, e a despeito de nós”. A auto suficiência nos torna vaidosos, presunçosos, e nos esquecemos da graça de Deus.

 

Admitir que tudo é pela graça de Deus, destrói toda pretensão e destrona o orgulho. o Evangelho liberta-nos das ilusões pretensiosas de que somos o máximo e de que podemos fazer alguma coisa. Tudo vem da graça de Deus, maravilhosa, restauradora, eficaz.


Equilíbrio e estabilidade vem da graça de Deus. É o seu milagre operando em nós. A graça de Deus nos liberta da tirania e ilusão de que somos nós que fazemos. Nossa  vida é uma dádiva e só Deus pode nos capacitar para ser o que ele gostaria que fossemos.

 

 

 

 

 

 

 

 


Sl 37.21 O Princípio da Generosidade


 



“O justo se compadece e dá”.


 

 

Introdução

 

 
  

Você é uma pessoa generosa?

 

Uma pesquisa feita pelo Child Fund apontou que o Brasil é considerado apenas o 76o país do mundo em termos de empatia. O brasileiro é muito pronto para socorrer em tempos de tragédias e calamidades, fazer campanhas de solidariedade e se envolver em momentos de comoção pública, mas não é geralmente solidário e empático. Não faz parte da cultura brasileira a doação, o envolvimento em causas públicas que exijam maior entrega e consagração, nem o envolvimento em trabalhos voluntários que o leve a sair de sua zona de conforto. Yago Martins, um conhecido pesquisador evangélico chega a afirmar que muito do que fazemos em termos de ação social é entretenimento moral.

 

A falta de empatia reflete muito na vida da igreja local e nas ações concernentes ao reino de Deus. Quando não investimos financeiramente em um determinado projeto, ele fica sempre deficitário por falta de recursos. Certa vez fiz um comentário sobre um membro de minha igreja que era generoso, com muitos recursos financeiros, e que de repente, deixou de contribuir para a igreja. Sua falta de contribuição impediu que a igreja sustentasse a parceria de três missionários naquele ano, porque seus recursos eram importantes na vida da igreja e nos projetos que ela desenvolvia. Portanto, dinheiro gera vida, quando colocado a serviço do reino de Deus.

 

Quando a Bíblia falta do dízimo, ela não está preocupada com uma abordagem legalista de que devemos dar 10% do que ganhamos, mas cria uma referência que nos leva a considerar a questão da proporcionalidade. “como está escrito: O que muito colheu não teve demais e o que pouco, não teve falta” (2 Co 8.15). Portanto, “assim como revelastes prontidão no querer, assim a leveis a termos, segundo as vossas posses” (2 Co 8.11). Generosidade faz parte do discipulado cristão.

 

O texto que lemos diz: “O justo se compadece e dá.” Pessoas que amam o reino de Deus precisam aprender a desenvolver generosidadeAprender a doar, a contribuir, a abençoar vidas. Precisamos entender que o dinheiro tem levado pessoas a matarem e a destruírem, mas pode ser usado para promoção de vidas e trazer benção para muitos.

 

Uma citação de John Wesley diz: “Ganhe tudo o que você puder […] economize tudo o que puder […] oferte tudo o que puder.” O fato é que aquilo que você está disposto a renunciar e a forma como administra ou distribui os recursos que Deus deposita em suas mãos revelam suas prioridades e quem está no controle de sua vida: Jesus ou os ídolos deste mundo.

 

Na multiplicação dos pães podemos ver como o pensamento da terra pode estar presente entre os discípulos de Cristo. Quando ele sugere que dessem de comer às pessoas que estavam acompanhando seu ministério, os discípulos pensaram: “Temos recursos? A tesouraria do colegiado que está nas mãos de Judas é capaz de sustentar este projeto?” A preocupação dos discípulos estava centrada na poupança e no dinheiro que tinham, e no fato de que, do ponto de vista financeiro, eles realmente não tinham como resolver o problema. Mas a visão a partir de Jesus era outra: “O que temos é suficiente! Mande as pessoas se assentarem (planejamento), vamos orar pedindo a benção de Deus, (dependência) vamos distribuir o que temos (generosidade) e vamos recolher o que sobra (não desperdiçar).” Então com 5 pães e dois peixes, alimentou cinco mil pessoas e ainda sobraram 12 cestos cheios. Quando há generosidade e dependência de Deus, experimentamos milagres. No reino não há escassez, porque há doação e partilha.

 

Por que devemos ser generosos?

 

  1. Antes de mais nada porque este é um princípio divino – Muitas pessoas ficam perplexas com a questão do dízimo, sem observar que a Bíblia ensina, no Antigo e Novo Testamento, de forma clara, este princípio.

No Antigo Testamento encontramos a palavra “dízimo” 32 vezes localizada em 25 versículos. A primeira vez em Gênesis 14.18-20, quando Abraão entrega o dízimo ao sacerdote Melquisedeque, bem antes da Lei. Isto é um ponto importante de reflexão para aqueles que insistem em afirmar que dízimo é coisa da lei. “Abrão deu-lhe o dízimo de tudo.”

No Novo Testamento a palavra dízimo aparece oito vezes. No livro dos Hebreus aparece 7 vezes. Jesus fala da entrega do dízimo criticando pessoas se vangloriavam da sua fidelidade como na parábola do publicano e fariseu. (Lc 18.10-14). Noutro texto diz: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé; devíeis, fazer estas coisas, sem omitir aquelas.” (Mt 23.23). Neste texto Jesus não está criticando a entrega do dízimo como alguns equivocadamente podem pensar. O que ele criticou foi a atitude dos religiosos, tão cuidadosos em dar o dízimo, mas que não eram justos no tratamento que davam às outras pessoas, nem misericordioso nos seus relacionamentos. Jesus não deixa duvida sobre o que ele crê: “Devíeis, fazer estas coisas, (isto é, dar o dízimo de tudo), sem omitir aquelas.” Jesus não condena a entrega dos dízimos, mas ratifica a entrega dos dízimos.

Alguns podem dizer: “Ah, mas este é o único texto da Bíblia no qual Jesus abertamente fala do assunto.” Minha resposta é: Isto não é suficiente? Quantos textos são necessários para confirmar uma ideia? Um só não é o bastante? Jesus só falou duas vezes sobre igreja, mas nenhum estudioso sério das Escrituras tem dúvida sobre a visão de igreja que estava na mente de Jesus. Não é a quantidade de vezes que valida um princípio, mas a clareza do texto.

Portanto, entregar ou devolver o dízimo, é um princípio divino, ratificado nos ensinos de Jesus. Os judeus aprenderam a fazer isto e os cristãos em toda história do cristianismo assim tem procedido. O povo americano, com forte tradição no puritanismo e na Reforma Protestante é considerado o país mais generoso do mundo, porque suas bases éticas foram firmadas nas Escrituras Sagradas. O distanciamento da Palavra de Deus que vem acontecendo de forma rápida na América, infelizmente esvaziará os recursos missionários que foram desenvolvidos pelos fieis cristãos da América do Norte. Através de seus esforços, milhares de obras sociais foram construídas no mundo, obras missionarias foram desenvolvidas no mundo inteiro, e boa parte das igrejas presbiterianas na nossa região Centro Oeste do Brasil, onde está a nossa igreja, foi construída com recursos missionários. Pessoas generosas doaram dos seus recursos para plantação de igrejas, estabelecimento de escolas e hospitais. Quando você dá, você está apenas cumprindo um princípio divino.

  1. Porque a generosidade tem impacto em vidas – Richard Foster, no seu clássico livro “Dinheiro, Sexo e Poder”, afirma que quando Jesus chama dinheiro de Mamon, ele o fez porque este era um dos deuses pagãos, e Jesus estava afirmando que existe um poder espiritual presente na forma como administramos nossos recursos. Dinheiro é uma entidade espiritual.

O avarento não se importa com as coisas do Reino de Deus.  Não é sem razão que Paulo afirma que a avareza é idolatria.  “Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena: prostituição, impureza, paixão lasciva, desejo maligno e a avareza, que é idolatria” (Cl 3.5).

Quando você usa o dinheiro para abençoar o reino de Deus, a igreja local e vidas, você está quebrando o domínio e o controle que o dinheiro tem exercido na sua vida. Muitas pessoas afirmam que não dão porque ganham pouco, mas por outro lado, muitos não dão porque ganham muito. Dinheiro não é uma questão de bolso, é uma questão de coração.

Por isto a Palavra de Deus nos encoraja a “praticar o bem, sermos ricos em boas obras, generosos em dar e prontos a repartir” (2 Tm 1.18).

  1. Porque a matemática de Deus tem uma lógica diferente. No mundo empresarial e financeiro, precisamos guardar para ter, mas no mundo espiritual, Deus constantemente afirma que a generosidade faz os recursos multiplicarem. A Bíblia é o único livro de finanças que afirma que 100% não é suficiente para seu equilíbrio financeiro, mas que 90% é. Esta lógica é um contrassenso.

No Salmo 37, que é o texto de referência para esta reflexão, lemos adiante: “Fui moço e já, agora, sou velho, porém jamais vi o justo desamparado e a sua descendência a mendigar o pão” (Sl 37.25). Este texto é constantemente citado nos meios cristãos, para trazer tranquilidade para pessoas que estão com medo do amanhã, pensando se terão o suficiente ou não para sua sobrevivência, mas não podemos nos esquecer de ler o texto seguinte, que define o justo. “É sempre compassivo e empresta, e a sua descendência será uma benção” (Sl 37.26).

O texto mostra que sua generosidade o protege. Quando você é fiel, Deus vai cuidar de você e vai te amparar. Agora, olhemos com mais atenção o texto e veremos que existe uma outra benção que o texto descreve: “Sua descendência será uma benção.” Generosidade atinge seus filhos e netos, trazendo bençãos sobre suas vidas. São efeitos espirituais que todos nós ansiamos ver em nossos filhos. Faz parte de todo cristão genuíno, ver sua descendência sendo uma benção para a humanidade.

Portanto, aprenda a cultivar generosidade, por ser um princípio divino, guardado por judeus e cristãos fieis; porque ela é transformadora da realidade social e uma força motriz no processo de humanização social, abençoando vidas e trazendo bençãos.

Só uma alerta: Preste atenção na dialética deste princípio: Não dê para ser abençoado, mas dê sabendo que isto traz benção para sua vida, sabendo que você já é abençoado. Este é o princípio da graça: Não fazemos para sermos aceitos para Deus (barganha, troca), mas fazemos por já sermos aceitos por Deus (isto é gratidão). Veja só esta promessa de Deus: “Ora, aquele que dá semente ao que semeia e pão para alimento também suprira e aumentara a vossa sementeira e multiplicará os frutos da vossa justiça”(2 Co 9.10). Deus dá pão para alimento. Coma o pão!!! Mas dá semente ao que semeia. Não coma a semente!!! Tem muita gente comendo a semente e querendo colheita depois, sem semear. Isto não vai dar certo. Esta é uma das leis da semeadura: “Aquele que semeia pouco, pouco também ceifará; e o que semeia com fartura com abundancia também ceifará.” (2 Co 9.6)

  1. O motivo da nossa generosidade deve ser duplo: compaixão pelos homens e a glória de Deus.

O texto inicial de nossa reflexão diz: “O justo se compadece e dá”. Por que ele dá? Por causa de sua compaixão. Precisamos entender o que significa compaixão.

O dicionário traduz a palavra compaixão por “Sentimento de pesar, de tristeza causado pela tragédia alheia e que desperta a vontade de ajudar, de confortar”, e “sentimento piedoso de simpatia para com a tragédia pessoal de outrem, acompanhado do desejo de minorá-la; participação espiritual na infelicidade alheia que suscita um impulso altruísta de ternura para com o sofredor.”

 

Alguém já afirmou que quem tem pena é galinha. A pena é um sentimento adoecido, depressivo. Você pode ter dó de alguém e não fazer nada por esta pessoa. O dó não nos motiva em direção ao outro, apenas nos faz sentir triste e culpado pela situação que vemos. Não nos transforma, não nos torna participativos da dor do outro. Compaixão é diferente, ela tem poder transformador. O texto diz: “O justo se compadece e dá”. Não diz que ele olha a situação e não faz nada, mas que ele vê o que está acontecendo e ativamente se mobiliza em direção ao sofrimento. Ele é generoso. Ele dá.

 

Então, o primeiro motivo da generosidade é a compaixão.

Mas existe um outro motivo para a generosidade: A glória de Deus. A Bíblia afirma: “Quer comais ou bebais, ou fazeis qualquer coisa, fazei tudo para a glória de Deus.” (1 Co 10.31) Quando Paulo escreve sobre a generosidade ele afirma: “porque o serviço desta assistência (financeira), não só supre a necessidade dos santos, mas também redunda em muitas graças a Deus.” (2 Co 9.12) Portanto, a benção é dupla: Você abençoa vidas, e traz glória ao nome de Deus.

 

O nome de Deus é glorificado através da generosidade. Quando damos, estamos glorificando a Deus através de nossos recursos. Deus não precisa do dinheiro que você dá, da generosidade que você expressa, para ele mesmo, mas a atitude dos discípulos de Cristo quanto à generosidade, além de aliviar o sofrimento humano, traz glória para seu nome.

 

Conclusão

Iniciei este sermão perguntando: “você é generoso?”

Deixe-me concluir dizendo algumas coisas.

 

Primeiro, indague ao seu coração porque você não tem conseguido dispor parte do que você recebe para o reino de Deus. Por que você tem tanta dificuldade com dinheiro? Não venha me dizer que você ganha pouco. As pessoas mais fieis em todas as comunidades em que eu fui pastor, são pessoas que ganham pouco, mas espontaneamente servem a Deus com seus recursos. A melhor medida da fidelidade não é o que você dá, é o que você retém.

 

Segundo, não desanime se você acha que não está valendo a pena ser generoso. Lembre-se do princípio da generosidade: o motivo é gratidão, não barganha ou troca. O motivo é o coração que reconhece a graça de Deus sobre sua vida. “Portanto, meus amados irmãos, sede firmes e inabaláveis, sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o vosso trabalho não é vão.” (1 Co 15.58)

 

Terceiro, considere a obra de Cristo na generosidade. “Pois conheceis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico se fez pobre por amor de vós, para que, pela sua pobreza vos tornásseis ricos.” (2 Co 8.9)

 

O que nos motiva a ser generoso, não apenas com nossos bens, mas até mesmo com nossa vida, é  a compreensão da obra de Cristo. Ele é o nosso modelo. Porque Jesus foi tão generoso conosco? Sua graça! “Pois conheceis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo”. O seu motivo foi a sua compaixão por nós, ao ver nossa condição de miséria, e ele nos amou. Só ama Jesus e seu reino, quem já se sentiu amado por Jesus. João afirma: “Nós amamos porque ele nos amou primeiro.” (1 Jo 4.19). Ele nos amou porque viu nossa situação tão angustiante, de pessoas perdidas, desorientadas, e assim nos amou. Só é capaz de dar, que já recebeu de Deus, e quem recebeu de Deus, será sempre generoso. A forma como lidamos com nossos recursos revela nossa gratidão a Deus pelo que ele fez por nós.

 

Sua generosidade desembocou no seu sacrifício. Ele se entregou por nós. Sua generosidade não foi financeira, ele derramou sua vida por nós. O motivo nosso de gratidão é a compreensão do amor de Cristo por nossas vidas.