domingo, 22 de janeiro de 2017

1 Pe 4.1-7 Paixões




Introdução:

O apóstolo Pedro estava muito preocupado com a igreja que ele pastoreava. Ela era perseguida por causa de Jesus, mas além da pressão espiritual, havia outro aspecto igualmente difícil: A decadência moral da sociedade e a pressão que esta cultura impunha sobre aqueles que se convertiam.
Nós sempre pensamos que nos tempos antigos os homens eram moralmente melhores do que hoje, mas a verdade é que basta um pouco de estudo sobre a história da humanidade para percebermos que a moral, os costumes, a ética, o padrão de vida era igualmente podre. Certamente a moral era mais legalista e as pessoas não queriam se expor tanto, mas o quadro não muda. O coração do homem é pecador, e totalmente corrupto. Sua irresistível atração para o mal é trágica.
Os reis e suas cortes eram devassas na sua essência e os caprichos, luxúrias e orgias, eram comuns. A ética da guerra, em algumas culturas era assustadora. Estupros, abuso de poder, violência, eram comuns naqueles dias, como é ainda hoje, e a vida valia muito pouco. Podemos falar que a raça humana progrediu na pesquisa,  ciência, tecnologia, riqueza e conforto, mas não podemos dizer o mesmo quanto a moral que era e é igualmente decadente. Espiritualmente o homem continua sendo o mesmo.

Por várias vezes o  apóstolo Pedro fala das “paixões” que estavam presentes naquela cultura.

Como filhos da obediência não vos amoldeis às paixões que
tínheis anteriormente na vossa ignorância”
(1 Pe 1.14)
Exorto-vos... a vos absterdes das paixões carnais”
(1 Pe 2.11)
Não vivais de acordo com as paixões dos homens”
(1 Pe 4.2)
“...especialmente aqueles que, seguindo a carne, andam em imundas
paixões e menosprezam qualquer governo
(2 Pe 2.10)
“tendo em conta, antes de tudo, que nos últimos dias, virão
escarnecedores com os seus escárnios, andando segundo as próprias paixões”
(2 Pe 3.3)

O apóstolo Pedro estava preocupado, não apenas em como a igreja iria se comportar diante da perseguição explícita por causa do evangelho, mas também como ela reagiria à pressão para que abandonassem o estilo de vida de discipulado e seguidores de Cristo. Ele percebeu o poder do pecado e da cultura que cercava e dominava a cultura como um todo.
Neste texto, mais uma vez ele convoca a igreja a uma vida de piedade e santidade, e a fugir das “paixões dos homens” (1 Pe 4.2).
O problema da paixão é que ela é uma doença, uma febre, cria desejos ardentes e intensos na pessoa. A palavra “patologia” que hoje adotamos vem do grego “pathos”, e é esta palavra que é traduzida para o português como paixão.

Já viram uma pessoa apaixonada?
Ela perde o senso do ridículo...
Ela menospreza os valores que sempre defendeu...
Ela desconsidera Deus nas suas decisões...
Ela destrói sua família
Ela perde a capacidade de julgar corretamente os fatos e a situação.
O problema da paixão, como disse Adam Smith, é que “todas as paixões se justificam a si mesmas”. Este é exatamente o problema. Sempre se encontrará alguma coisa para explicar o sentimento, o desejo e o impulso latente na experiência da paixão.

Tente falar com um adolescente apaixonado sobre o sentimento febril que o domina?
O mesmo acontece com uma pessoa madura ou idosa.
Já vi pastores perdendo o ministério por causa de uma paixão. Eles sabem que o que estão fazendo é contra a palavra de Deus, contradiz tudo o que ensinaram (e criam), mas ainda assim deixam tudo para trás para seguirem seus instintos e desejos. E ainda são capazes de justificar psicológica, e eventualmente, teologicamente, o seu sentimento.

Pv 9.13 faz uma afirmação clássica sobre a paixão: “A loucura é mulher apaixonada. Ela é ignorante e não sabe coisa alguma”. A Bíblia compara a paixão à loucura. Não é assim mesmo?
Já viram uma pessoa apaixonada?
Você já se apaixonou?
A Bíblia relata o caso de Amnon, o sucessor do trono de Davi, que por causa de uma paixão febril, estuprou sua irmã Tamar (2 Rs 13), e posteriormente perdeu a vida por causa deste incidente. A Bíblia narra que ele chegou a adoecer por causa do desejo que desenvolveu por sua própria irmã, e numa situação previamente preparada, ele teve sexo forçado com ela. Aquilo o tirou do trono, o expôs a uma situação de vergonha em Israel e tirou sua vida.

A paixão pode ser propulsora de um grande amor, mas quando se desloca, é capaz de trágicas consequências.
Paixão, entretanto, possui outro elemento sutil. Ela não é só direcionada a uma pessoa, mas a um objeto ou a uma prática. Considere uma sexualidade mal direcionada? Uma tara é sempre um “pathos”, tornando-se uma obsessão por prática sexual, pornografia, um caso. As pessoas podem se apaixonar pela glória, pela imagem, pelo luxo, pelo dinheiro, e passam a negociar tudo para atingir seus objetivos. Ética e paixão geralmente são opostas. A pessoa apaixonada não considera se aquilo é certo ou errado, ou mesmo que o faça, encontrará dificuldade em se contrapor e lutar contra seus impulsos, só mesmo a graça de Deus pode libertar aqueles que encontram-se dominados pelo fogo da paixão.
Pedro exorta a igreja a não viver de acordo com as paixões dos homens (1 Pe 4.2). Paixões  fazem parte da natureza humana, é um traço comum da raça adâmica.

Neste texto aprendemos alguns princípios importantes.
Qual é a base da pureza moral?
Como não vivermos impulsionados pela paixão?

Como vencer a força da paixão?
1.     Precisamos nos inspirar na vida de Cristo: “Ora, tendo Cristo sofrido na carne, armai-vos também vós do mesmo pensamento” (1 Pe 4.1).
Como agiu Jesus?
Ele lutou contra seus impulsos.
A bíblia afirma que ele foi tentado em todas as coisas, mas sem pecado. Apesar de sua divindade, suas tentações não eram representações. Ele é 100% humano. As tentações do deserto foram contra o desejo de conforto, sua necessidade fisiológica de satisfazer sua fome, a possibilidade de um reconhecimento imediato por meio de um milagre portentoso saltando do templo e a tentação do poder, quando Satanás lhe disse que lhe daria todos os reinos da terra, se ele, prostrado, o adorasse.
É interessante a afirmação do texto: “tendo Cristo sofrido na carne”. Resistir à tentação pode gerar dores. É deixar de fazer aquilo que o seu instinto natural e carnal pede. Quando Caim estava na crise contra seu irmão, Deus o procura para instrui-lo quanto aos seus sentimentos. “Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo” (Gn 4.5). Resistir à tentação é rejeitar o próprio desejo, que parece ser tão amigo nosso, mas que na verdade conspira contra nós.
Precisamos nos inspirar em Jesus, no seu estilo de vida, na sua atitude quanto às receitas fáceis e mentirosas do diabo, e os desejos da própria carne humana.

2.     Precisamos entender as forças que conspiram contra a pureza moral.
Pedro reconhece pelo menos duas:
A. As paixões carnais - “…já não vivais de acordo com as paixões dos homens”. (1 Pe 4.2)

As paixões são sempre uma ameaça.
Quando alguém está dominado pela paixão, não consegue ver com clareza.
O problema das paixões carnais é que elas conspiram contra a santidade e contra Deus.
É interessante a afirmação de 1 Pe 4.1: “pois aquele que sofreu na carne deixou o pecado”. Para deixar o pecado é necessário sofrer na carne. O apóstolo está falando de paixão.
A carne querendo controlar, mas precisa ser controlada.
Paulo afirma em 2 Tm 2.22: “Fugi das paixões da mocidade”. Para vencer as paixões, não podemos simplesmente pensar que teremos força para enfrentá-la. A recomendação é fugir daquilo que ameaça. Não fique perto da tentação, nem tente justificá-la. Ela é uma ameaça real. Fuja dela.

B.   A pressão Social“difamando-vos, estranham que não concorrais com eles ao mesmo excesso de devassidão”.(1 Pe 4.4).

Pedro afirma que quando fazemos aquilo que é santo e puro, isto pode gerar uma atitude de “estranheza”. As pessoas podem desprezá-lo ou criticá-lo por fazer o que é certo. A nossa cultura está tão acostumada ao pecado, que agir de forma diferente pode gerar este estranho sentimento. As pessoas podem dizer: “Por que você não faz assim?” ou, “Que é isto que você está fazendo. Deixa de ser tolo”. O problema não é fazer o que é errado, o problema será se não agirmos com uma ética pecaminosa.
Dá para entender?
Se você participa de um grupo no whats up que não é cristão, logo perceberá o nível da linguagem e das informações que chegarão a você. Se você discordar, eles estranharão e questionarão você. Se você não fala palavrão, não ri das piadas grotescas, nem dos vídeos sugestivos e maliciosos, eles cobrarão de você. As pessoas acham estranho um comportamento correto.
No jornal “O Globo” de 21 de Jan 2017, li a seguinte manchete: “Ateus saem do armário”, seguido pela declaração de uma mulher famosa que dizia: “Quero ter a liberdade de dizer que sou ateia”. Na hora me veio à mente. Qualquer pessoa pode dizer o que quiser, ser imoral, falar palavrão, criticar a fé, questionar a Deus, e não haverá muita censura, mas se você discordar de um comportamento devasso ou de um comentário picante ou blasfemo no seu facebook, você será o inconveniente. As pessoas “estranham” tal comportamento.
Isto tem a ver com pressão social, com cultura.
Os Guiness chama a atenção para a cultura no artigo: “Cuidado com a jiboia”, afirmando que  esta cobra hipnotiza suas presas e quando percebem que estão em perigo, já é muito tarde. Ele afirma que este é o poder da cultura. De envolver as pessoas, de não permitirem que saiam da caixa de estrutura de pensamento e nem discordem. Poucos consideramos o fato de que existe uma “ditadura intelectual”, nos meios onde costumeiramente dizem ter um pensamento liberal e eclético. A verdade é que não há. O sistema educacional conspira contra Deus, contra sua palavra e contra a verdade de Deus. 

  1. Uma compreensão clara do processo de deterioração resultante do pecado Este é o terceiro caminho para se vencer as forças da paixão.

a.    Pecado nos leva a fazer aquilo que os gentios escolhem fazer“executado a vontade dos gentios”. (4.3)
“...porque basta o tempo decorrido para terdes executado a vontade dos gentios, tendo andado em dissoluções, concupiscências, borracheiras, orgias, bebedices e em detestáveis idolatrias  (1 Pe 4.3,4).
No vs 2 Pedro fala de viver “segundo a vontade de Deus”, e no vs 3 ele faz um contraponto com “a vontade dos gentios”. Em determinado tempo da vida, precisamos escolher se queremos fazer a vontade de Deus ou a vontade das pessoas. As propostas seguirão caminhos diametralmente opostos. A vontade de Deus não se coaduna com a vontade da carne e da sociedade.

b.    Pecado gera decadência: dissolução; concupiscência (desejo estragado); borracheiras (degradação moral, corrupção); orgias (imoralidade e perversão sexual), bebedices; detestáveis idolatrias. Tudo isto gera um processo de destruição da alma e da dignidade humana.

Luiz Souza, define assim a palavra “borracheira”: “tradução da palavra grega OINOFLYGÍAIS, que significa literalmente “bebedor de vinho”, já que é formada de dois vocábulos gregos: OINOS (vinho) e Fluo (deixar correr um corrente de palavras). Por que se traduz por “borracheira” ou “borrachice”. Portanto, trata-se da atitude daqueles que bebem e começam a falar bobagem e desatinos.
O dicionário a traduz por “bebedeira, embriaguez, asneira, disparate”.
Tudo isto nos mostra como a paixão pode ser destrutiva ao ser humano. Ela gera corrupção e deterioração do caráter.

  1. Entendendo que devassidão moral traz juízo de Deus – “os quais hão de prestar contas àquele que é, competente para julgar vivos e mortos” (1 Pe 4.5).

O apóstolo Paulo afirma: “Não vos enganeis; de Deus não se zomba; pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará” (Gl 6.7). Não se iluda! Deus há de julgar todas as coisas. Em dias de moral tão “flexível” a doutrina do juízo de Deus precisa ser entendida pelo seu povo. Precisamos temer a Deus, e fugir do pecado que afronta o nosso Pai celeste.
O pecado fere a glória de Deus.
Quase sempre condenamos o pecado com base na moral social, mas o evangelho nos exorta a santidade porque o pecado é uma afronta ao Deus santo. Pecado é tão sério que Deus providenciou um antidoto eficaz contra ele: o sangue de seu filho. A morte de Cristo é o remédio providenciado por Deus para nos restaurar a comunhão com ele.

Conclusão:
Que armas são efetivas para vencer as paixões?
1.     Nossa união com Cristo: “tendo Cristo sofrido na carne…” (1 Pe.4.1). “o sofrimento e morte de Jesus conquistou o pecado e nos fez penetrar na sua vida ressurreta”[1] Jesus carregou sobre si nossos pecados em seu corpo, para que, tendo morrido para o pecado, vivamos para a justiça (Rm 6.8-12). Nunca confie na sua carne (Fp 3.2-11)

Cristo assumiu o meu julgamento. Ele foi feito justiça em meu lugar. Ele me representou diante do Pai pagando a dívida que era minha. Tal é a gravidade do juízo de Deus contra o pecado humano. O Deus santo precisa aplicar sua justiça contra o mal, e Jesus veio para assumir o nosso lugar.

2.     Uma nova atitude mental “armai-vos também vós do mesmo pensamento”. (1 Pe 4.1) Desta forma, entendendo o propósito de Jesus e sua vitória sobre o pecado, somos motivados a viver em santidade.

Esta arma tem a ver com o preparo mental. A mente deve estar aparelhada.

Quando Paulo fala da armadura do cristão contra os principados e potestades em Ef 6, ele diz que devemos tomar o capacete da salvação (Ef 6.17). Isto é proteção para a cabeça, lugar estratégico para o ataque do inimigo. O campo da batalha espiritual é a mente. Se sua forma de pensar for atingida, você corre sério risco espiritual. Se você não estiver convencido intelectualmente que o evangelho é coerente e lógico, você nunca será um bom cristão. Você estará constantemente questionando a Bíblia e os pressupostos de Deus.
Nossos pensamentos são bombardeados de ideias anti cristãs. Toda escola secular e professor ímpio estará constantemente colocando na mente dos nossos filhos a cosmovisão pagã. Precisamos nos armar do mesmo sentimento de Cristo. Ele sabia das artimanhas e propostas que o diabo lhe faria. Ele soube responder a todas elas com a Palavra de Deus na mente. Era como se ele dissesse a Satanás. “Você não me engana com suas propostas. Existe a proposta de Deus, e eu quero andar pelo que diz a Palavra”. Por esta razão, todas as propostas do diabo são combatidas com a Palavra de Deus.

Paulo afirma quem 2 Co 10.4-5: “Porque as armas de nossa milícia não são carnais, e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas, anulando sofismas, e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo”.
O alvo do discipulado cristão é tornar cativo todo pensamento à obediência de Cristo.
Nossa forma de pensar precisa se submeter à cosmovisão cristã.
Como Deus pensa?
O que nos ensina Cristo?
O que aprendemos nas Escrituras Sagradas?



[1] . Stott, John R. W. – The Message of first peter – Bible Speaks Today – Downers Grove, Il. Ingter Varsity Press, 1988.pg. 170

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