sábado, 4 de fevereiro de 2017

Dt 15.22-29 Dizimo na lei sob a ótica da Graça

Série: Encontrando a graça na Lei
Introdução:
Deuteronômio significa: “repetição da lei”. A Lei foi dada por Deus a Moisés, e parte dela se encontra em Êxodo, e outra parte, com maior especificidade, em Levítico. No livro de Deuteronômio ela é reforçada e novos aspectos são trazidos complementando assim a Torah.
Um dos grandes desafios do povo de Deus é entender o papel da lei. Qual lugar ela ocupa na dimensão do Evangelho, como retraduzi-la nos tempos da graça?
Jesus não ignorou a Lei, pelo contrário, ele a reafirmou, dando um sentido mais profundo aos seus ensinamentos. “Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, mas para cumprir. Porque em verdade vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra” (Mt 5.17,18). Como sabemos, Jesus cumpriu cabalmente toda a lei, então, como ela se aplica ainda a nós? Como reinterpretá-la, sem desprezá-la ou achar que ela tem um valor obsoleto ou irrelevante?
Hebreus afirma que “a lei tem sombra dos bens vindouros” (Hb 10.1). A sombra (tipo), nunca é a imagem perfeita, muitas vezes ela vem até distorcida, mas ao mesmo tempo, ela projeta a ideia daquilo que é real. Quando olhamos a lei, com todas suas limitações, podemos vislumbrar ali as bases teológicas de um povo que estava sendo preparado por Deus, para a revelação maior que estava para vir, e que se cumpriria totalmente em Cristo.
Então, como ter o “espírito da lei”, sem nos tornarmos legalistas? Não é isto que a Bíblia afirma: “A lei mata mas o espírito vivifica?”. Como encontrar a vida nos ensinamentos da Lei?
A Lei pode ser dividida em três áreas: civil, cerimonial e moral. Quanto à civil, ela se aplicava na sua totalidade à nação israelita, teocrata, regida pelo conceito da divindade. Era para o governo terreno do povo de Israel, ainda que, boa parte de seus ensinamentos poderiam ser aplicadas ainda hoje num estado laico, porque tem a ver com justiça social, proteção ao pobre, leis de propriedade e forma de governo, portanto, muitos dos seus princípios poderiam ser aplicados em qualquer governo justo e estável dos nossos dias. Quanto à lei cerimonial, ela tinha a ver com os sacrifícios e oferendas que se faziam para Deus, algumas destas leis tinham princípios de saúde e higiene. A guarda de tais leis, eram destinadas ao culto e à dinâmica familiar e social de Israel. Quanto à lei moral, sua grande maioria se aplica a nós, Jesus afirmou que não veio revogá-la, mas deu-lhe um sentido muito mais profundo. Para ele, não bastava dizer: “Não adulterarás”. Nesta lei encontram-se princípios muito mais profundos e desafiadores que lidam com as questões internas da alma como a luxúria, a lascívia, os pensamentos impuros.
Sempre existem dois riscos clássicos na intrepretação da Lei. De um lado, aqueles que se apegam à lei a ponto de transformá-la na coisa mais importante da vida. São os legalistas, que em nome de Deus são capazes de matar e odiar. De outro lado, temos os antinomistas, ou seja, aqueles que são contra a Lei, desprezando-a, ridicularizando-a, negligenciando-a. Ambos são perigosos.
Este texto que lemos acima, Dt 15.22-29 fala de dízimos. Há vários princípios presentes neste texto, que aplicam a nós, no tocante à nossa espiritualidade e adoração, ainda que estejam na lei. O que este texto nos ensina sobre este assunto?
1.     A participação com os bens é imperativa ao povo de Deus – “certamente darás os dízimos de todo o fruto de tuas sementes, que ano após ano se recolhem do campo” (Lc 15.29).
O texto não diz: “se acharem que devem fazê-lo, façam”, antes o coloca em termos de ordem. “Certamente darás!”. Trazer a décima parte dos frutos não era opcional, mas era obrigatório.
Muitos questionam se Jesus e os apóstolos balizaram estes conceitos.
Dois textos podem nos ajudar no Novo Testamento sobre este assunto:
A Recomendação de Cristo
Ai de vós escribas e fariseus hipócritas, porque dais o dizimo do endro, hortelã e do cominho, mas desprezais os princípios fundamentais da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé. Devíeis fazer estas coisas, sem omitir aquelas” (Mt 23.23). Aparentemente Jesus censura os fariseus legalistas porque traziam seus dízimos, para cobrir outras áreas de sua espiritualidade que eram muito mais sérias. Quais as coisas que Jesus afirma que não deveríamos omitir? O dízimo até das mínimas coisas. Ele ensina os discípulos a praticarem as ofertas nos cultos, mas que não deixassem também de praticar a justiça e a misericórdia. É sempre possível praticar um aspecto e esquecer o outro.
O texto não diz “um ou outro”, mas “um e outro”. A prática de um princípio não deve nos levar a subestimar o outro. Portanto, a questão do dizimo é ratificada no evangelho, por meio de Jesus.
O Ensino de Paulo
Quanto à coleta para os santos, fazei vós também como ordenei às igrejas da Galácia. No primeiro dia da semana, cada um de vós ponha de parte, em casa, conforme a sua prosperidade, para que se não façam coletas quando eu for” (1 Co 16.2)
Pelo menos dois princípios podem ser tirados deste texto.
A.     Regularidade – “No primeiro dia da semana”. As pessoas recebiam diariamente naqueles dias. Então, deveriam dar com regularidade no primeiro dia da semana, no domingo, quando o povo de Deus se reunia. Infelizmente alguns contribuem esporadicamente, se é que o fazem. Este não é o principio bíblico. Você não recebe pagamento esporadicamente, nem paga suas despesas ou come esporadicamente. Considere isto ao contribuir.

B.     Proporcionalidade – “Conforme a sua prosperidade”. Precisamos aprender a ter consistência nas nossas contribuições. Muitos ganham muito e dão pouco. Precisam aprender o principio da proporcionalidade. “A melhor medida da fidelidade não é o quanto você dá, mas o quanto você retém”. Seja pródigo na sua generosidade. Contribua com alegria. Responda à bondade de Deus para com tua vida com ações de graça. Isto é evangelho!

2.     O local da entrega dos dízimos – “...Perante o Senhor teu Deus, no lugar que escolher para ali fazer habitar o seu nome” (Dt 15.23). é muito comum as pessoas dizerem que dão o dizimo onde acharem que devem dar. A experiência pastoral me ensina que a maioria das pessoas que afirma isto não entrega seus dízimos em lugar algum...
Neste texto, encontraremos o princípio de que os dízimos deveriam ser trazidos à casa do Senhor, pelo menos três vezes (15.23,24,25). E é bom lembrar que o templo ainda não havia sido construído, embora eles já adorassem o Senhor na tenda da congregação. Quem diz onde os dízimos devem ser entregues é Deus: “no lugar que escolher para ali fazer habitar o seu nome” (Dt 15.23).
Na Igreja Presbiteriana, muitos presbitérios tem o hábito de pedir aos pastores que entreguem seus dízimos no Concílio, já que o pastor é formalmente membro do concilio e não da igreja. Sempre me opus a isto por entender pela Palavra de Deus que dízimo é ato de culto, deve ser entregue na igreja, faz parte da liturgia do povo de Deus. Os pastores devem adorar a Deus com seus bens junto com a comunidade e sua família, como ato de culto.
Este pensamento é claro em Malaquias 3.10: “trazei todos os dízimos à casa do Senhor, para que haja mantimento em minha casa, e provai-me nisto, diz o Senhor dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas dos céus e derramar sobre vós, bênçãos sem medida”.
Muitos se julgam no direito de levar o dízimo para onde quiserem. Seria isto um princípio bíblico válido? Tais pessoas precisam estudar melhor a Bíblia. O texto de Deuteronômio e Malaquias nos ensinam que o dízimo deve ser trazido para a casa do Senhor, onde Deus ordena que sejam trazidos.
Certo seminarista perguntou a um velho pastor: “Mas se eu sentir no meu coração que devo dar o dizimo para alguém,  que devo fazer?” O Pastor  olhou para ele e perguntou: “O que diz a Palavra, bacharel?”. Diante da resposta bíblica de que o dizimo deveria ser entregue na casa do Senhor, o pastor disse: “Se o bacharel sentiu diferente da Bíblia, o bacharel sentiu errado. Pode assentar”.
Quando uma pessoa é batizada e se torna membro de uma comunidade, ela assume o compromisso de participar dos cultos, não se ausentar da ceia, servir de testemunho para os de fora, trazer os filhos para a igreja e a sustentar financeiramente. Você não precisa fazer os votos nem se tornar membro da igreja, ninguém o obriga a fazer isto, mas a partir do momento que você votou, é melhor cumprir.
Minha esposa teve uma professora juíza de direito, no Instituto Haggai procedente da Nigéria. Ela era sempre direta e objetiva nas suas respostas. Durante um seminário, uma aluna perguntou se poderia dar seu dizimo noutro lugar, e não na sua igreja. Ela respondeu: “qual seria a resposta de um dono de restaurante, se você, ao terminar de jantar, dissesse que gostou muito da comida, mas decidiu pagar a conta no restaurante vizinho?” Diante dos risos meio encabulados, ela respondeu ainda: “Entregue seu dizimo onde você está sendo alimentado”.
Qual era o propósito de Deus ao dar esta ordem sobre o dizimo? “Para que haja mantimento em minha casa”.
Muitas igrejas são frágeis, débeis, sem projetos, porque os irmãos decidem receber todo beneficio da comunidade, mas não entendem os princípios elementares da fé cristã e por isto não os aplicam às suas vidas. Muitas vezes a igreja está fazendo campanha para isto e aquilo, simplesmente porque os irmãos não liberaram seus bolsos, nem se converteram sobre este assunto. Se os membros de uma igreja contribuíssem de forma regular e consistente, ela teria condições de realizar todos os seus projetos.
3.     Contribuição gera alegria no coração do adorador. Este é o terceiro princípio: “coma ali, perante o Senhor teu Deus, e te alegrarás, tu e tua casa” (Dt 14.26). O resultado não deve ser o pesar, mas a alegria. Doação para a obra de Deus deve gerar contentamento.
Toda vez que temos de falar de contribuição na igreja, sinto que há pessoas que se sentem acuadas, acusadas, e veem esta questão como um fardo, mas mesmo o texto da Lei, coloca a contribuição como um privilégio e benção. Famílias generosas com a obra de Deus inspiram seus filhos à generosidade. Ofertas tinham o propósito de trazer alegria e graça para a família. Já viram como isto é uma realidade em nossas casas? Quando lhes comunicamos a importância de trazer os dízimos à igreja, eles sentem alegria em doar. É uma forma de ensinar sabedoria , liberalidade e bondade.
4.     Contribuição é uma forma de sustentar quem serve na obra e Deus – “porém, não desampararás o levita que está dentro da tua cidade” (Dt 15.27). Quando trazemos os dízimos o fazemos para que a obra de Deus seja mantida. Os levitas e sacerdotes recebiam das ofertas que o povo trazia para o altar.
O mesmo principio se aplica ainda hoje.
Parte do que trazemos é para o sustento dos obreiros, funcionários, missionários que trabalham na obra. Sei que parece irônico, mas muitos pensam subliminarmente que os pastores não precisam pagar suas contas, não pagam aluguel, financiamento de casa, escola de filhos, saúde, plano de aposentadoria. Felizmente a maioria dos membros da igreja não pensa assim, senão estaríamos perdidos.
O dízimo tinha como um do seus propósitos centrais, o sustento daqueles que serviam na obra de Deus.
Paulo censura a igreja de Corinto, por não lhe dar o sustento. “Despojei outras igrejas, recebendo salário, para vos servir” (2 Co 11.8). A igreja de Corinto não via a necessidade de remunerar Paulo, que está servindo como obreiro naquela cidade, felizmente outras outras igrejas que conheciam o trabalho de Paulo, generosamente o fizeram. Paulo conclui a instrução àquela igreja mesquinha: “Assim ordenou também o Senhor, que aos pregam do evangelho, vivam do evangelho” (2 Co 9.14). Estão vendo como a Lei e a Graça muitas vezes se encontram entrelaçadas?
5.     A Lei revela como a liberalidade traz abundância na obra do Senhor – (Dt 14.29). O texto fala de quantas pessoas são abençoadas com os bens trazidos em adoração e culto:
a.     Os obreiros que serviam no templo
b.     Os mais pobres da comunidade. Este texto faz menção a três grupos que eram socialmente menos privilegiados: estrangeiros, órfãos e viúvas.
Por ter abundância na obra do Senhor, tais pessoas seriam assistidas com estes recursos, e o resultado é demonstrado no texto: “O Senhor teu Deus te abençoe em todas as obras que tuas mãos fizeram”(Dt 15.29). Liberalidade financeira é sempre porta aberta para a benção de Deus. O Senhor abençoa pessoas generosas. “E isto afirmo: aquele que semeia pouco, pouco também ceifará; e o que semeia com fartura com abundancia ceifará... Deus pode fazer-vos abundar em toda graça, a fim de que, tendo sempre, em tudo, ampla suficiência, superabundeis em toda boa obra, como está escrito: Distribuiu, deu as pobres, a sua justiça permanecerá para sempre” (2 Co 9.6,8-9).
Este é mais um princípio claro dos Evangelhos, e a Lei, de alguma forma, já orientava no mesmo sentido.
Conclusão:
A Lei precisa ser estudada com cuidado. Há sempre o perigo de a colocarmos numa camisa de força. Neste caso é bom lembrar. “A letra mata, mas o Espirito, vivifica”. A Lei tem o poder de nos tornar rígidos e de nos transformarmos em fiscais de nossos irmãos, de perdermos a alegria de servir a Deus, de fazermos as coisas de forma mecânica e sem entusiasmo.

Por outro lado, temos a tendência de negar tudo quanto na Lei está escrita, sem examinar os princípios nela contidos e que são perfeitamente compatíveis com a mensagem do Evangelho. A Lei, quando iluminada pelo Evangelho, traz o equilíbrio que precisamos. O antinomismo pode desembocar na graça barata, no discipulado sem custo, numa fé displicente e preguiçosa, no descompromisso e na indolência, e assim justificamos nossa preguiça e avareza fazendo afirmações baratas do tipo: “Isto é da época da Lei, estamos na graça”. Esta frase é muitas vezes mal aplicada e perigosa para a alma.

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