sábado, 24 de setembro de 2016

Ef 3.14-19 As dimensões do amor de Deus


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Introdução:

Este é mais um trecho da segunda oração de Paulo em Efésios, que começa no vs. 14 descreve o conteúdo de sua oração. Ele se concentra num único ponto de onde surgem os demais desdobramentos: Paulo ora para que aqueles irmãos fossem fortalecidos interiormente.
Este deve ser o ponto central da espiritualidade. Nada é mais importante, urgente e necessário. Temos nos perdido em muitas elocubrações, mas a grande questão não é exterior, não vem de fora. Nos assistamos com as pressões do trabalho, a competição das pessoas, as circunstâncias históricas e politicas, entretanto, o coração é o ponto mais sério da vida.
Esta semana vi a seguinte afirmação: “Jesus resistiu à tentação no deserto, Adão sucumbiu às provocações no paraíso. Isto demonstra que o problema não é externo, e sim o coração”. Quando o ser interior está firme o sistema imunológico funciona corretamente, resistindo às bactérias e viris, enquanto o corpo frágil sucumbe à menor ameaça.  
O resultado do fortalecimento é a habitação plena de Cristo em nossa vida. Ele passa a habitar ricamente, não mais como hóspede ou visitante, nem mais com quartos reservados, mas tendo as chaves da casa, determinando o ritmo, hábitos, disposição dos móveis e dando transparência aos quartos outrora reservados, tomando conta de toda casa, mudando a mobília como quiser, e jogando fora o que ele não quiser, inclusive o computador.
A expressão “a fim de” dá ideia do que acontece. Desta forma, fortalecidos, passamos a “compreender o amor de Cristo”(Ef 3.18), que “excede todo o entendimento” (Ef 3.19). Como compreender aquilo que vai além da razão? O texto possui uma dialética interessante.

Compreender e Conhecer
O texto bíblico fala destes dois verbos  importantes em relação ao amor de Cristo.

Compreender – (Ef 3.18)

"Compreender" vem do grego Katalabesthai que significa "zeloso esforço de aprender". Não é prazer meramente intelectual, mas uma experiência prática, uma convivência de amor. Paulo fala aqui de quatro dimensões do amor de Deus. Einstein só descobriu a quarta dimensão no século XX. A Bíblia fala aqui de quatro dimensões, que são parte de uma figura cúbica que se movimenta. É perigoso literalizarmos este texto, pois trata-se de uma retórica ou hipérbole poética e o texto afirma que encontra-se acima de "toda compreensão".

Como é o amor de Cristo?

1. Largura (abrangência) - Toda humanidade: Judeus e gentios. A verdade bíblica é que “Deus amou o mundo” (Jo 3.16). Jesus desafiou seus discípulos a pregar a todas as etnias. “Ide por todo mundo e pregai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16.15 “panta ta etnia”). O livro de apocalipse demonstra a universalidade da Igreja. Entre os capítulos 5-7 vemos sua largura. O texto fala de um povo redimido vindo de todas as tribos, povos e raças. No cap 5.9,11 são "milhares de milhares". Povos da China, Casaquistão, África, Brasil, Haiti.

2. Comprimento (tempo)  - Começando no Éden, indo até o fim (parousia), quando o Reino for entregue ao Pai (1 Co 15.24). Deus está operando para produzir o seu propósito. De Abel, até o último cristão, nunca houve nem haverá intervalo da operação poderosa e salvadora do Evangelho. É capaz de durar toda a eternidade. O Cordeiro foi morto na eternidade (Ap 13.8). “O amor de Cristo inclui todos os homens, de todos os tipos, em toda idade, em todo mundo”(Barclay). “Ele é tão longo como a eternidade” (Vaughan, 97).

3. Altura (procedência) - Vem do alto e desce ao mais baixo inferno. "Pregou aos espíritos em prisão" (1 Pe 3.19). o texto de Fp 2:9-11 declara que todo joelho se dobrará diante de Cristo. No céu, na terra, debaixo da terra. Inclui o universo inteiro, até levar-nos ao céu.

4. Profundidade (Extensão) - É profundo o suficiente para alcançar o pecador mais degradado e o ser humano mais destruído pelo diabo e pela carne. Não há pecado ou culpa maior que seu amor que seu amor não possa resgatar, em pecador, por mais grave que tenha sido seu delito, que tendo confessado, arrependido e largado a prática do mal, não possa ser incluido nesta salvação e salvo pelo sangue de Jesus.

Estas são as dimensões da cruz. Porém tais dimensões só poderão ser conhecidas comunitariamente. Por isto o texto diz: “a fim de poderdes compreender com todos os santos”. Não se tem ideia do amor de Cristo a não ser vivendo em comunhão. Não há chamado cristão para a individualidade, pois não se pode compreender o amor de Jesus a não ser vivendo em comunidade. Já viram alguém cheio do Espirito Santo sem considerar a igreja de Cristo? Muitos acham que é possível viver o cristianismo individualmente, mas a Bíblia não ensina isto. Apenas quando caminhamos com o corpo de Cristo, somos capazes de compreender, “com todo o povo de Deus”, o grande amor do Pai.

Existem, pelo menos, duas formas de você se aproximar de Deus:

Participação institucional – A igreja, enquanto instituição, tem sido muito questionada ultimamente. Muitos se declaram “believers, but not belongers”, pessoas dizem crer, mas não pertencer. Acreditam numa comunidade universal, mística, eterna, mas não creem numa igreja tangível, histórica, local. No entanto, não é isto que vemos nas Escrituras. A igreja era reconhecida como uma instituição, com sua hierarquia, ritos e sacramentos. Nesta instituição as pessoas convertidas eram “batizadas”(Mt 28.18-20), tornando-se uma eklesia (com número de membros – At 1.15) e estavam “todos reunidos num mesmo lugar”(At 2.1). Ali cresciam na doutrina dos apóstolos, recebiam instrução e nutrição e “perseveravam na comunhão” (At 2.42). muitos hoje decidiram desistir da comunhão. Com a igreja, participavam da ceia do Senhor (1 Co 11.23ss) e havia estrutura de presbitério que ordenava futuros obreiros (1 Tm 4.14). Por isto a exortação apostólica: “Não deixemos de congregar, como é costume de alguns” (Hb 10.25). John Wesley afirmou: “Deus desconhece religião solitária. Até mesmo para o céu, nenhum homem vai sozinho”.

Participação Orgânica – Devemos participar da igreja não apenas institucionalmente, mas como uma família, que revela historicamente o corpo de Cristo. Quando participo assim, sinto-me parte de algo místico, abrangente e profundo. Sou desafiado a trazer meus dons para o serviço, a cuidar, nutrir, abençoar e amar os outros. Não vivo distante, mas tenho um senso de pertencimento, sinto-me parte deste povo. Neste nível de participação, encontro a melhor forma de compreender o amor de Cristo. A Igreja é falha, muitas vezes distante do que deveria ser, mas apenas na comunhão dela podemos compreender o amor de Cristo.

Isto se dá quando se vive com o povo de Deus, "com todos os santos". A verdade não é apreendida por um indivíduo isoladamente, mas com vida de comunhão. Podemos ter percepções diferentes, mas nossos alvos são comuns. Em Ef 4.7 vemos que os membros do corpo só podem crescer na compreensão à medida que cada um usa seu dom em benefício dos outros.

Conhecer

Este é o segundo verbo que encontramos aqui. “O verbo grego conhecer, refere-se a um conhecimento alcançado pela experiência” (Vaugham, 96). Temos a promessa de não apenas compreender, mas também de “conhecer” o amor de Cristo.
Pela própria narrativa bíblica, é possível perceber que não se trata de um conhecimento filosófico, já que este amor não seria apreendido desta forma, uma vez que “excede todo entendimento”, isto é, esgota a razão, que não consegue penetrar esta dimensão maravilhosa do amor de Cristo.
Existe uma discussão teológica interessante sobre um cântico comunitário em nossas igrejas. Ele diz: “Eu nunca saberei o preço, que foi pago lá na cruz”. Alguns dizem: “é claro que podemos conhecer. É o preço de sangue”, mas outros argumentam: “O ato de Cristo foi tão excelso e sublime que de fato nunca seremos capazes de saber o preço, realmente”. De qualquer ângulo que você considere certamente encontrará boas razões teológicas, o texto bíblico afirma que “o amor de Cristo excede todo entendimento”. Como penetrar este tão grande mistério?
O alvo, portanto, é “conhecer como ele amou e ama, e experimentar seu amor em amá-lO e amar outros por amor a Ele” (Foulkes, 87).

Tomados de toda plenitude de Deus
Só existe uma forma de sermos tomados desta plenitude: Compreendendo e conhecendo seu amor, e isto se dá na medida que caminhamos com o povo de Deus. Só é possível ser tomado de toda plenitude quando nos relacionamos amorosa e zelosamente com aqueles que se encontram na mesma estrada de fé e espiritualidade, seguindo a Cristo, buscando a direção do Pai celestial, cuidando uns dos outros.

Conclusão:
Você conhece o amor de Cristo ?
O texto fala da necessidade de compreender e conhecer, mas intencionalmente nos coloca num aparente paradoxo: Como conhecer e compreender o que não pode ser conhecido, aquilo que "ultrapassa todo o entendimento".
Este é o paradoxo do amor de Deus.
Ele é alto, intransponível, profundo e acessível. Precisa ser conhecido e compreendido, mas ultrapassa toda a capacidade humana de lógica.
Isto me faz pensar na frase “tomado de toda plenitude de Deus”. Eu realmente não sou capaz de entender todo mistério, mas caminhando com pessoas que amam a Deus, celebrando a vida comunitária, participando institucional e misticamente deste corpo de Cristo, vou tendo a acesso a verdades, que provavelmente não serei capaz de elaborar racionalmente, mas que são tão claras, que sendo absorvido e envolvido por elas, serei capaz de percebê-las, com meus irmãos,  numa dimensão muito maior que minha mente seria capaz de elaborar.

Só desta forma, serei capaz de conhecer e compreender o amor de Jesus.

Rio, Gávea, Setembro de 90.

Anápolis, Refeito Setembro 2016

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