domingo, 22 de junho de 2014

GN 47.8,9 VIVER COM CELEBRAÇÃO OU DESISTÊNCIA?



Introdução:

Erick Erickson, conhecido psicólogo afirma que chegamos ao final da vida com duas atitudes: Celebrativa ou amargurada. Não é muito difícil desenvolver uma atitude de ressentimento com a vida e as pessoas, eventualmente com o próprio Deus. No filme “Num lago Dourado” (Jane Fonda), um homem está completando 80 anos (Henry Fonda), e é conhecido pelo seu mau humor. Seu genro, querendo parecer-lhe simpático, pergunta-lhe como se sente nesta data e ele responde secamente: “Duas vezes pior que 40”.
Por outro lado, é possível viver com celebração. Quando estava com 101, a revista Ultimato/78 entrevistou o Missionário Haroldo Cook e lhe perguntaram se sua vida fora como a de Jacó, e ele respondeu com humor. “Não! bons e longos tem sido os meus dias”.
Jacó estava vivendo seus momentos de glória. Para trazê-lo de Canaã José mandou os melhores carros para buscá-lo para o Egito, onde teve uma recepção principesca, indo para encontrar-se com o filho que julgava morto há muitos anos. Uma das primeiras atividades dele seria o encontro com Faraó, que na época de então governava um dos mais poderosos impérios do mundo.
No encontro, Faraó lhe pergunta "Quantos são os dias dos anos de tua vida?" E a resposta de Jacó foi: "Os dias dos anos de minhas peregrinações são cento e trinta anos; poucos e maus foram os dias dos anos de minha vida e não chegaram aos dias dos anos da vida de meus pais, nos dias de suas peregrinações" (Gn 47.8-9). Jacó não responde apenas quantos anos viveu, mas responde também o "como" viveu.
Sua resposta revela amargura e tristeza com a vida. Na verdade, ele não pergunta “como” fora sua vida, mas quantos anos ele tinha, mas Jacó enfatiza a qualidade: "Poucos e maus foram os meus dias na terra". Apesar de já ter vivido 130 anos e tendo ainda alguma expectativa de vida, estava descontente. Ele afirma que havia vivido pouco – o que não era verdade – e a qualidade de sua vida não fora boa.

O que fez seus dias se tornarem "maus" pode nos ajudar a entender o que pode fazer nossos dias também parecerem maus:

1. Um lar desestruturado

O lar de Jacó era profundamente desequilibrado e desestruturado. No mínimo poderia ser considerado neurótico e disfuncional.
Isto já pode ser percebido pelo nome que lhe dão ao nascer. Jacó significa enganador ou embusteiro. Sua família coloca-lhe um estigma, uma marca que como nódoa vai andar com ele. Na própria escolha do nome, vemos um lar que nega a benção, deixa de afirmar algo positivo sobre o filho e coloca-lhe uma marca.
A Bíblia registra ainda alguns ângulos tenebrosos desta casa:
Seu pai entrega a esposa a Abimeleque, dando a entender que era sua irmã apenas para não se sentir ameaçado. Talvez por isto, Rebeca nunca confiava no marido e isto pode ser percebido pela sua atitude bisbilhoteira, escutando secretamente as conversas de Isaque (Gn 27.5). Rebeca revela-se incoerente quanto aos seus princípios e valores ao ordenar a Jacó que engane o pai (Gn 27) e diante da resposta coerente de Jacó, torna-se autoritária e obriga Jacó a enganar o pai.
Sua atitude errada parece ter dado certo, mas Esaú, seu irmão, ao perceber, decidi matá-lo, tão logo seu pai fosse sepultado. Rebeca descobre isto e o manda fugir. Sua vida daí por diante é marcada por uma inimizade histórica com o seu irmão leviano, de quem já havia negociado o direito de primogenitura. Esaú decide se vingar dos pais e se tornou um filho birrento, que descobrindo que seus pais não gostavam de algumas meninas dos povos vizinhos, resolve se casar justamente com uma delas ( Gn 27.41).
Já em Padã-Harã, onde atualmente fica o Iraque morava os parentes de sua mãe, e ele encontra abrigo na casa de seu tio, Labão, onde vai viver uma relação complicada, ambos tentando sempre enganar o outro. O seu tio trapaceiro muda seu salário sempre que Jacó tinha oportunidade de receber um pouco melhor. Jacó afirma: "dez vezes me mudaste o salário" (Gn 31.36-41). Este homem barganha suas filhas e esta manipulação traz revolta às filhas e à Jacó (Gn 31.15). Finalmente precisa sair da casa de seu sogro, e as relações estavam tão estremecidas que o faz de noite, na surdina, sem se despedir. Uma das mulheres de Jacó (Raquel) rouba deu seu pai os ídolos do lar, e Labão vem atrás para reaver seus bens, e o clima não era dos melhores, com acusações e ameaças (Gn31.34).
Ao chegar no local onde morariam, o clima de tensão familiar estava sempre presente. Suas esposas competiam o amor do marido e brigavam entre si. Os filhos tomavam as dores das mães e sua casa vive num ambiente de desconforto agravado pela atitude de Jacó que explicitamente revela predileção por José, dando-lhe presentes que nenhum outro filho tinha. Os filhos então decidem vender a José para um bando de mercadores que o levam ao Egito. Os irmãos afirmam que um animal havia dilacerado José, e quando Jacó recebe a noticia, passa a viver um luto permanente, recusando a ser consolado (Gn37.35). Esta família, a partir de então vive com um segredo, numa relação de co-dependência que se arrasta por mais de 20 anos. Apesar de saberem da verdade, nenhum era capaz de romper esta mentira e denunciar o engano.
Uma família assim, certamente traz muitas dores.
.Rúben, seu filho mais velho, se envolve com uma concubina de seu pai e na hora da benção, preparando-se para morrer, Jacó faz uma pesadíssima sentença sobre ele. "Rúben, tu és meu primogênito, minha força e as primícias do meu vigor, o mias excelente em poder. Impetuoso como a água, não serás o mais excelente, porque subiste ao leito de teu pai e o profanaste; subiste à minha cama" (Gn 49.3,4).
Uma família desestruturada destrói a alegria de viver. "O filho sábio alegra seu Pai, mas o insensato é a tristeza de sua mãe" (Pv 10.1). Nada é mais destrutiva que filhos rebeldes, lares desencontrados, filhos crescendo com a auto estima destruída, amarguras, medos, mentiras, farsas e temores. São mulheres que não conseguem amar nem confiar em homens porque viram seu pai maltratando sua mãe, enganando e traindo. São meninos que crescem desconfiados do amor sempre buscando o amor e a atenção dos pais.
Lares precisam ser reduto da graça e da paz, um ninho para acolhimento da alma cansada, refrigério diante da competitividade, uma ilha de descanso para a vida agitada, para uma sociedade frenética e corações inquietos. Se nosso lar se transforma num cantinho do inferno, nossos dias serão maus, ainda que sejam muitos.

Jacó afirma que algumas realidades o sustentaram neste contexto tão disfuncional:

1.       O Deus de meus pais” (Gn 31.5) -  Uma das coisas fortes naquela família é a presença do Deus de seus pais. Jacó tem consciência de que Deus está sobre sua família, que estão debaixo de um signo ou sinal maior, que sua herança não era apenas de bens materiais, mas era, acima de tudo, espiritual. É uma grande benção ter pais que oram dando suporte aos filhos e abençoando-os.

2.       Altares levantados – (Gn 35.7) -  No meio de todo este caos, Jacó levanta altares. Deus é uma presença incômoda no meio da mentira e da falsidade reinante naquele lar. Deus é sempre lembrado, e isto os mantém mas ao mesmo tempo se torna uma presença perturbadora e inquietante.

3.       Superação e perdão– (Gn 50) -  José parece ser esta pessoa que se interpõe e quebra o angustiante circulo do mal, como afirma Mirolasv Wolf no livro “O fim da memória”. José quebra e desmantela este círculo de engano, competição e ódio. Ele desarma o círculo de mentira que mais uma vez tentam fazer no final do capítulo 50, quando mentem em nome de seu pai. José rompe com o ódio familiar, sepulta a ira  e refaz a história da família, tão habituada a mentir e a enganar.

2. Uma vida equivocada

Outro aspecto que faz a vida de Jacó ser tão pesada são as suas próprias escolhas pessoais e atitudes diante da vida. Ele nasceu num lar complicado. Nasce com uma sombra na vida e assim passa a viver. Sua vida será sempre correspondente ao seu nome.
Por duas vezes trapaceou seu irmão Esaú, tomando-lhe o direito de primogenitura e roubando a benção. Ele trapaceia seu pai, mentindo-lhe, e engana o seu sogro criando mecanismos que o levavam a viver numa vida de “espertezas” e desonestidades.
Tenho visto muitas pessoas optando por viver um estilo de vida na linha da marginalidade. Enganando e sendo enganados. Seus negócios são escusos, vivem uma vida de infidelidade em casa, lidam mal com o dinheiro, mentem, enganam e não inspiram confiança. Pessoas assim “enfiam os pés pelas mãos”.
A Bíblia nos adverte sobre isto:
"O caminho dos perversos é como a escuridão; nem sabem eles em que tropeçam Mas a vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito". 
Esta é a colheita do pecado à qual se refere Paulo: “Naquele tempo, que resultado colhestes, somente as coisas de que agora vos envergonhais porque o fim delas é a morte” (Rm 6.21). A colheita do pecado é tristeza, confusão, vergonha, embaraços.
Jacó não é vitima!
Ele também é responsável por sua história, pelas suas decisões, pelas suas atitudes.
Sua vida que já era difícil por causa do ambiente hostil dentro de sua casa, torna-se um inferno.
A Bíblia afirma: “Eis o que tão somente achei, Deus fez o homem reto, mas ele se meteu em muitas astúcias” (Ec 7.28). Estas astúcias são armadilhas, laços, decisões erradas, pecados. A vida reta que Deus nos deu para que andássemos nelas tornam-se pesadas.
Existem pessoas que possuem boas oportunidades na vida e as despreza; recebe boas propostas de emprego e faz pouco caso; tem oportunidade de estudar e não o faz; recebe propostas de casamento e as menospreza. No entanto, são hábeis para fazer as piores opções para sua vida. Adota um estilo de vida pecaminoso, despreza princípios e valores, rejeita a Deus, a fé, a boa consciência, a vida e parece gostar das propostas do diabo, esquecendo-se que todas as maças do diabo são bonitas, mas todas tem bicho.
A trapaça, as mentiras, o descaso com as oportunidades, uma vida de desonestidade, de descaminhos, de rejeição de Deus fazem nossa vida um inferno. A gente faz, pensa que ninguém viu e aquilo estoura lá na frente como um câncer. No entanto, a vida tem uma regra simples: Melhores atitudes geram maiores altitudes.

3. Demora de um encontro real com Deus

Jacó nasceu num lar cristão, num lar que temia a Deus. Isaque, seu pai, era um homem de oração, tinha hábito de levantar altares por onde passava. Poucos homens na Bíblia levantam tantos altares para adorar a Deus como Isaque. Era um homem que cria que Deus ouve as orações de seu povo, e a Palavra de Deus nos diz que ele orou durante vinte anos para que Deus lhe desse filhos, já que sua esposa era estéril, e Deus lhe ouviu (Gn 25.20,26).
Apesar de ter um lar devoto e religioso, paradoxalmente foi no seu lar que ele começou a desconsiderar as coisas de Deus na sua própria vida. Um dia sua mãe lhe pede para quebrar a lei de Deus por causa de interesse material, ele questiona sua mãe, mas a vontade autoritária da mãe prevalece, e daquele dia em dia, alguma coisa parece ter desmontado dentro de sua alma. Passou a considerar as coisas de Deus como questões relativas, dessacralizando o sagrado em sua história. O resultado não poderia ter sido pior (Gn 27.12-13).
Na sua mocidade teve encontros arrebatadores com Deus mas nada muda sua mente. Nem suas experiências carismáticas, sobrenaturais, lhe faziam ser o homem de caráter que precisava ser. Quando está fugindo de sua casa, depois de ter trapaceado seu pai roubando a benção que era de seu irmão, fingindo ser Esaú. No meio de seu atropelo, com medo de ser assassinado pelo próprio irmão, ao atravessar o deserto tem uma linda visão. Sonhou que Deus estava naquele lugar, e os anjos de Deus desciam e subiam numa grande escada que dava aos céus. Quando acordou, sobre um profundo impacto, entendeu que aquilo era uma promessa que o Deus de seus pais estava fazendo, e que aquela terra seria a terra prometida de Deus para sua futura geração. Deus confirma sua promessa sobre sua vida: "Eu sou o SENHOR, Deus de Abraão, teu pai, e Deus de Isaque. A terra em que agora estás deitado, eu ta darei, a ti e à tua descendência. A tua descendência será como pó da terra; estender-te-ás para o Ocidente e para o Oriente, para o Norte e para o Sul. Em ti e na tua descendência serão abençoadas todas as famílias da terra" (Gn 28.13-14).
Mesmo diante do que havia acabado de fazer, a graça de Deus se revela e Deus lhe faz promessas. É a graça de Deus em ação. No entanto, experiência não transforma o seu caráter. Jacó continua seu estilo de vida de enganos e falcatruas. Deus se manifesta mas ele não se entrega. Pelo contrário, faz barganhas: "Se Deus for comigo, e me guardar nesta jornada que empreendo, e me der pão pao para comer e roupa que me vista, de maneira que eu volte em paz para a casa de meu pai, então o Senhor será o meu Deus (...) e de tudo quanto me concederes, certamente eu te darei o dizimo" (Gn 28.20-22). Em outras palavras, está dizendo: "Se me deres, pão para comer, roupa para vestir, segurança, vou ser fiel no dízimo" (Gn 28.22). Condiciona sua fidelidade ao sucesso.
Só muito tarde na vida, Jacó se rende, ou “rende a Deus”, que se vulnerabiliza e se deixa vencer. Ali finalmente percebe a importância de ter Deus não apenas como o Deus de seus pais, não apenas como um conceito uma experiência institucional e forma, e numa luta existencial e profunda, finalmente não mais prossegue sem Deus. "Não te deixarei ir". Nasceu-lhe o sol, houve um Peniel, trazia cicatrizes, marcas do encontro, mas tinha um novo nome, um novo caráter: De suplantador (Jacó), tornou-se Israel (lutou com Deus e prevaleceu).

Conclusão:

"Quantos são os dias dos anos de tua vida?" Parafraseando a resposta de Jacó, focalize no “Como”  tem sido os seus dias e anos?
Na verdade, o mais importante não é o quanto se vive, mas o “como” se vive. Jesus morreu aos 33 anos, mas viveu de forma intensa. Experimentou a dor de viver como ser humano, sofreu os reveses e paradoxos de sua humanidade, no entanto, concluiu a obra que lhe estava proposta pelo pai. Na cruz, ao expirar, afirmou: "Tudo está consumado!" ou, tetelestai, que foi a frase usada por ele em grego. A vida lhe fora plena.
Haroldo Cook, faleceu aos 101 anos e 6 meses. Viveu intensamente a sua vida. Amou a Deus, viveu a vida. Outros morreram jovens, mas foram igualmente abençoados. O que conta, no fim das contas, não é o número de anos de sua vida, mas a qualidade de sua vida. Para Jacó, seus dias haviam sido longos e maus, para o Rev Haroldo Cook, seus dias foram "Longos e bons".
Esta faz a diferença entre terminar os dias com celebração ou desistência.
Quando se experimenta Jesus na vida. A vida toma forma, cor, assume tonalidades mais fortes e mais plenas. Isto é o que conta!

Que Deus nos abençoe!

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