quinta-feira, 10 de maio de 2018

At 6.8-8.1 Estevão, um homem para fazer diferença...





Introdução

Estevão foi o primeiro mártir da história. Isto por si só já nos fala muito sobre este homem notável.
Quando estudamos seu perfil, e principalmente seu sermão, que é o mais longo sermão no livro de Atos, descobrimos porque este homem é tão excepcional. Não apenas por ter sido o primeiro mártir, mas pelo que aprendemos acerca dele, e  pelo seu ousado testemunho até a morte.
Estevão é um homem diferenciado e por isto faz diferença.

Pelo menos três características marcam a vida deste homem:

Primeiro, um homem pronto para o serviço

Não é sem razão que ele é eleito para a função diácono, e aparece em primeiro plano na lista dos sete gregos que são eleitos para este importante tarefa da igreja. Estes homens tinham em comum a disposição para servir.
O diaconato foi estabelecido para “servir às mesas”, literalmente, a palavra diakonia significa “aquele que serve às mesas”. Ele é o garçom. Não são todos que se dispõem a esta tarefa. Tenho a mais profunda admiração pela função diaconal na vida da igreja. Diácono cumpre as funções mais simples e comuns, mas isto traz enorme benção para a vida daqueles são chamados por Deus e se dispõem para este ministério.
Certa feita ouvi um comentário depreciativo sobre a função diaconal em tom de desprezo e eu censurei imediatamente porque quando lemos sobre as qualificações do diácono em 1 Timóteo 3, uma das promessas mais fantásticas da Bíblia é dada àqueles que cumprem o ofício diaconal: “Pois os que desempenharem bem o diaconato, alcançam para si mesmos justa preeminência e muita intrepidez na fé em Cristo” (1 Tm 3.13).
Que promessa maravilhosa Deus dá aos diáconos. Todo diácono deveria ter bem claro esta promessa em suas vidas. Você que é diácono, não se esqueça desta promessa, e por isto desempenhe bem o serviço para o qual foi designado, Deus tem grandes promessas para sua vida.

Segundo, um homem com intimidade com Deus
O texto faz três comentários sobre Estevão:
A.   Homem cheio de fé e do Espírito Santo” – (At 6.5).  O texto não descreve como eram os outros discípulos eleitos, mas esta menção é feita em destaque, sobre Estevão.
B.    Cheio de graça e poder”- (At 6.8). E por ter este poder especial de sua vida, Deus o usava para fazer prodígios e grande sinal entre o povo. Sua vida revelava o poder de Deus sobre suas vidas.
C.    Cheio do Espírito Santo” (At 6.55). É fácil encontrar homens cheios de erudição e de capacidade administrativa, e até mesmo com grande disposição para o serviço, mas quantos são cheios do Espírito Santo?

Além destas descrições de uma vida de intimidade com Deus, outro aspecto que observamos é que ele conhecia profundamente as Escrituras Sagradas. Era um homem que manuseava bem o Antigo Testamento, que era a Bíblia do povo de Deus. Podemos imaginar que ele gastou muito de seu tempo e sua juventude, lendo as Escrituras, seu conhecimento e citação vai da história dos grandes personagens da história de Israel, passando pelos reis e citando profetas como Isaias.

Terceiro, um homem preparado intelectualmente
Como afirmamos, este é o sermão mais longo do livro de Atos e todo ele baseado no Antigo Testamento. Estevão dá uma aula de história dos judeus, ele conhecia os detalhes e como Deus agiu no meio do seu povo. Ele fez uma brilhante defesa diante das acusações que lhe foram feitas. Ele tem domínio do assunto que defende.
A igreja de Cristo precisa de pessoas que possam defender os principais pressupostos da fé, aplicando a história bíblica à realidade vivida. Ele denuncia a rejeição do povo de Deus.

Ele é acusado de duas coisas:

A.   Este homem não cessa de falar contra o lugar santo e contra a lei – (At 6.13).
B.    Esse Jesus destruirá este lugar e mudará os costumes que Moisés nos deu – (At 6.14).

Como ele se defende das acusações?

Na primeira defesa ele cita o profeta Isaias: “Assim diz o Senhor: O céu é o meu trono, e a terra, o estrado dos meus pés; que casa me edificareis vós? E qual é o lugar do meu repouso” (Is 66.1, At 66.1). Ele faz esta citação de memória.
Estevão demonstra que o conceito de um lugar sagrado, era frágil e inconsistente com a visão do Antigo Testamento. Atribuir poder e sacralidade especial a um lugar como os judeus estavam fazendo em relação ao templo de Herodes, não cabe na teologia bíblica, e foi exatamente isto que Deus disse a Davi quando ele decidiu construir uma casa para o Senhor. “Em todo lugar em que andei com todo o Israel, falei, acaso, alguma palavra com algum dos seus juízes, a quem mandei apascentar o meu povo, dizendo: Por que não me edificais uma casa de cedro?” (1 Cr 17.6). A ideia de um local sagrado estava na cabeça do povo de Israel, mas não era um projeto de Deus.
Numa viagem à Israel, vendo milhares de pessoas orando no Muro das Lamentações em Jerusalém, uma pessoa me perguntou: “Pastor, é válido orar neste muro?” E eu disse: “É válido orar, não apenas neste muro, mas em qualquer lugar em que orarmos sinceramente a Deus”. Não é o local que importa.
Este é o argumento de Estevão quanto às acusações que lhe fizeram. Ele deixa claro que seu pensamento estava alinhado com a visão teológica do Antigo Testamento. “Entretanto, não habita o Altíssimo em casas feitas por mãos humanas” (At 7.48). Não dá para confinar e aprisionar Deus em espaços sagrados, feitos por mãos humanas. Deus transcende a um local sagrado, uma geografia delimitada. Deus é maior que o templo.
Nenhuma estrutura é suficiente para contê-lo, Deus é maior que construções. Nenhuma construção é casa de Deus. As pessoas que congregam são a casa de Deus.
Um local só é sagrado porque Deus se encontra nele, no meio do seu povo. Quando as lâmpadas de um templo se apagam, uma casa não é mais sagrada que qualquer outra. Templo é feito de madeira, cimento, concreto. O Espírito Santo optou por morar em vida, “ou porventura não sabeis que sois o templo do Espírito Santo?”

A casa de Deus é o povo de Deus.

A segunda acusação feita contra Estevão é a de que ele estava afirmando que Jesus destruiria aquele lugar e mudaria seus costumes, e ele se defende citando o próprio Moisés: “Foi Moisés quem disse aos filhos de Israel: Deus vos suscitará dentre vossos irmãos um profeta semelhante a mim” (At 7.37). E demonstra como o povo de Israel não ouviu a Israel naquele tempo, rejeitando a Deus e repelindo-o no seu coração (At 7.39), preferindo seguir seus ídolos e assim como os pais, rejeitaram os profetas, os líderes judaicos agora resistiam ao Espírito Santo (At 7.51), e assim, a história de rebeldia se repetia (At 7.52).
Ora, na visão de Estevão, o próprio Moisés estava apontando para um novo profeta. “O Senhor, teu Deus, te suscitará um profeta do meio de ti, de teus irmãos, semelhante a mim; a ele ouvirás” (Dt 18.15). E apesar da palavra de Moisés que eles precisavam seguir, eles, como os pais, estavam ignorando. O erro, portanto, não era de Estevão, mas do povo que se recusava a ouvir o profeta enviado por Deus.
Estas duas argumentações estão devidamente fundamentadas nas Escrituras do Antigo Testamento. Apenas alguém muito bem preparado, poderia fazer semelhantes afirmações, citando os profetas, concatenando as ideias e demonstrando através dos textos sagrados a coerência de seus argumentos. Ele estava fazendo este discurso diante dos homens do Sinédrio, portanto, pessoas intelectualmente preparadas, mas que “não podiam resistir à sabedoria e ao Espírito, pelo qual ele falava” (At 6.10), e faltando a capacidade de argumentação, o que fizeram? O que normalmente o ser humano faz. “Ouvindo eles isto, enfureciam-se no seu coração e rilhavam os dentes contra ele” (At 7.54). Não é assim que procedemos quando perdemos a capacidade de nos defendermos? Agimos como crianças que ficam mau humoradas e reativas.

Estevão se defende demonstrando que no decorrer da história, Deus sempre age através de pessoas para mudar o status quo.

Deus usou Abraão (At 7.2-8), mudando seus paradigmas, chamando-o para deixar os deuses de seus pais e ir para uma terra que ele não conhecia, e que embora não tivesse filhos ele creu que Deus lhe daria descendentes. Abraão, o pai da fé, teve coragem para mudar por causa da obediência a Deus.

Deus usou José (At 7.9-16), que embora enfrentasse tantas adversidades, não resistiu a Deus, mas submissamente o obedeceu.

Deus usou Moisés (At 7.17-29) Moisés foi um homem que até os seus quarenta anos não entendia bem sua identidade e chamado, mas quando completou quarenta anos, algo aconteceu e mudou sua história. Ele tentou resolveu a situação usando a força, mas ao invés de se tornar um missionário, tornou-se um assassino. Ao invés de ser um libertador, tornou-se um refugiado. Mas ai aconteceu algo sobrenatural e vem a segunda parte da história (At 7.30-35). Deus lhe aparece e lhe dá poder para libertar o povo. Estevão descreve a terceira parte da história. Após toda manifestação de Deus a Moisés, o povo deixou de ouvi-lo, rejeitando o que ele dizia e criando um sistema idolátrico.
Para concluir ele afirma que da mesma forma os líderes do Sinédrio estavam agindo (At 7.51-53). Eles estavam rejeitando a Moisés e os profetas, como seus pais fizeram.

Conclusão
Estevão demonstra que isto estava acontecendo porque eles incorriam em três comportamentos perigosos. Estas mesmas atitudes podem estar presentes na respostas que damos às verdades de Deus ainda hoje.

Eles eram de dura cerviz – O que esta palavra significa? Cerviz é a parte posterior do pescoço nuca, ou seja uma parte dura, rígida.
Significa literalmente “obstinado” ou “teimoso”. Eram duros, resistentes, que não se curvavam e agiam de forma  irredutível, rebelde. Pessoas de dura cerviz não "abaixam a cabeça". A expressão “cerviz” aparece 23 vezes no Antigo Testamento e isto demonstra quão facilmente não curvamos a nossa nuca diante de Deus.
A Revista Ultimato fez o seguinte comentário sobre a dura cerviz: “ponha uma dobradiça no pescoço. Baixe a cabeça, submeta-se. A cerviz dura é um problema realmente sério: “O homem que muitas vezes repreendido endurece a cerviz, será quebrantado de repente sem que haja cura” (Provérbios 29:1). Somente a dobradiça na parte posterior do pescoço resolve esta questão. Você precisa se abaixar. Todos precisam se abaixar. Sobretudo diante de Deus. Por causa da glória dEle e por causa da miséria nossa. Este foi o pedido de Josué ao povo de Israel, depois da ocupação e da partilha da Terra Prometida: “Inclinai o vosso coração ao Senhor Deus de Israel” (Josué 24:24)”.

Eles tinham corações incircuncisos – a circuncisão no AT era um sinal feito no órgão sexual masculino, dias (Gn 17.12) . Era uma forma de marcar o povo de Deus e sua descendência. No NT, este sinal é substituído pelo batismo (Cl 2.11-12).
No NT, Deus não está interessado num corte na pele, mas na marca feita no coração, simbolizando a obra de Deus no seu povo (Rm 2.25). Deus deseja fazer circuncisão no coração, sinais que reflitam sua obra em nós. Deus quer descobrir a pele do nosso coração que não permite que ele faça sua obra em nós. Os líderes judaicos  precisavam circuncidar o coração e os ouvidos. Da mesma forma o povo de Deus ainda hoje.
Desde o AT, Deus demonstrava que seu propósito era a mudança do coração, e não do exterior. “Circuncidai, pois, o vosso coração espiritual; retirando toda a obstrução carnal, e deixai de ser insubmissos e teimosos!”(Dt 10.16). “Purificai-vos ao Senhor, circuncidai os vossos corações, homens de Judá e habitantes de Jerusalém” (Jr 4.4). Deus estava apontando através dos profetas que sua obra precisava aprofundar nos corações.

Eles resistiam ao Espírito Santo – A atitude deles não era apenas algo exterior, mas apontava para algo mais profundo: Eles resistiam ao Espírito de Deus.

Resistir ao Espírito é abandonar a possibilidade de arrependimento, se tornar insensível ao pecado e resistente à santificação pessoal. Resistir ao Espírito Santo é recusar, de forma consciente, a vontade divina transmitida.
Estevão afirma que a atitude deles não era isolada, mas eles estavam continuamente resistindo ao Espírito Santo. Recusando de forma deliberada, a obra de Deus em suas vidas. O verbo resistir usado no texto originalmente vai além de uma mera resistência passiva e significa lutar contra.
Por isto é apropriado pensar na exortação bíblica: “Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração, como foi na provocação”(Hb 3.15).

Depois destas denúncias, a reação deles provou que eram verdadeiras.

Eles o apedrejaram enquanto Estevão faz duas declarações importantes:

Primeiro, ele presenciou a glória de Cristo junto ao Pai. “Eis que vejo os céus abertos e o Filho do Homem em pé a direita de Deus” (At 7.56). Ray Stedman acredita que todo mártir tem esta antecipação e gozo celestial antes de sua morte. “Tenho a convicção de que todo mártir tem esta visão e quando a morte se aproxima, eles tem uma visão antecipada da glória celestial”. James Kennedy afirma que cerca de 40 milhões de pessoas já foram martirizadas na história por se tornarem discípulos de Cristo.

Segundo, ele intercede pelos algozes: “Senhor, não lhes imputes este pecado! Com estas palavras, adormeceu”.

Tertuliano afirma que “o sangue dos mártires é a semente da igreja”. Quando o povo de Deus é martirizado, a igreja sempre cresce exponencialmente.
Vendo de perto a morte de Estevão se encontrava seu promotor, sob cujos pés foram colocadas suas roupas. Seu nome era Saulo, de Tarso. Ali Deus estava começando a trabalhar no coração daquele que se tornaria o maior apóstolo de todos os tempos na história da igreja cristã.  

A morte de Estevão não foi em vão.
Seu martírio era semente.

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